Noções de Paleografia

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Item indispensvel.

Text of Noções de Paleografia

  • DEPARTAMENTO DO ARQUIVO DO ESTADO DE S. PAULO

    SECRETARIA DA EDUCAO

    NOES DEPALEOGRAFIA

    POR

    UBIRAJARA DOLCIO MENDES

    SSo Paulo

    1953

  • NOES DEPALEOGRAFIA

    MM

  • DEPARTAMENTO DO ARQUIVO DO ESTADO DE S. PAULO

    SECRETARIA DA EDUCAO

    NOES DEPALEOGRAFIA

    POR

    UBIRAJARA DOLCIO MENDES

    So Paulo

    1953

  • DO MESMO AUTOR

    ""A Guerra Qumica" Publicado em "Armas em Revista" (S. Pauioj n^s. de agosto e setembro de 1938.

    "O decrscimo nos coeficientes de natalidade no Estado de So Paulo" Publicado no Boletim do Departamento Estadual de Estatstica abril de 1942.

    "Aproveitamento econmico do Rio Tiet" Departamento Estadualde Estatstica dezembro de 1947.

    "Produzir mais : remdio contra a inflao" Conselho de ExpansoEconmica abril de 1948.

    "Breve Histrico do Arquivo" Departamento do Arciuiv. do Estado(S. Paulo) fevereiro de 1952.

    "Evoluo das Escritas Tipos Caligrficos" Departamento do Ar-

    quivo do Estado (S. Paulo) fevereiro de 1953.

    "Material da Escrita" Departamento do Arquivo do Estado (S. Pau-lo) fevereiro de 1953.

    "A Paleografia e suas dificuldades" Departamento do Arquivo doEstado (S. Paulo) fevereiro de 1953.

    "A F.E.B., Embaixada de amizade" Departamento do Arquivo doEstado (S. Paulo) setembro de 1953.

    Em colaborao

    :

    "Depoimento de Oficiais da Reserva sbre a F.E.B." {com mais 15oficiais) 3." Edio Ed. Cobraci 1952.

    ^'Verbos Ingleses" (com Carlos Kehdy) Ed. Brasil setembro de1952.

  • NOTA PRVIA

    Em fins de 1952, quando na direo do Departamentodo Arquivo do Estado, o autor dste trabalho, dr. UbirajaraDolcio Mendes, realizou um Curso Livre de Paleografia,contando integralmente com o aplauso de todos aqules quese interessam pelo assunto. Ns estvamos entre stes. Sa-bemos das dificuldades encontradas, das lutas que teve deenfrentar para levar a cabo to til quo necessrio empre-

    endimento. Os resultados, porm, foram plenamente com-pensadores; o xito ultrapassou mesmo as melhores expecta-

    tivas, pois o curso obteve mais de duas centenas de inscries

    e uma frequncia mdia de 170 alunos.

    Tal sucesso, raro, rarssimo mesmo, em se tratando de

    uma especializao to pouco conhecida e estudada em nosso

    meio e, tambm, levando-se em conta a falta que nos fa-zem bons palegrafos induziu-nos a pensar em novo curso,

    desta vez, porm, dando-lhe as caractersticas de avanado,

    isto , dedicando-o queles que j tenham algumas noes

    da matria. E, para no limitar as inscries apenas aos

    que acompanharam e concluram o primeiro, o Departamen-

    to do Arquivo resolveu dar a lume ste trabalho, que tem

    por escopo servir de base elementar aos alunos que se ini-

    ciam no interessantssimo estudo da Paleografia.

    So Paulo, outubro de 1953.

    Jos Soares de Souza

    Diretor.

  • APRESENTAOO autor deve confessar, antes de mais nada, que no

    deseja o. ttulo de palegrafo. A paleografia, a seu ver, uma arte que demanda prtica constante e ateno quaseexclusiva. Para isso, preciso que o estudioso dessa espe-cialidade dedique a totalidade de seu tempo ao servio com-parativo de letras, anlise de tipos caligrficos e ao cons-tante manuseio de documentos antigos. Tendo de tratar,paralelamente, de atividades outras, evidente que o autorno poder, jamais, ser um palegrafo, na acepo do trmo.

    Porque, ento, se abalanou a escrever ste trabalho?perguntar-se-.

    E o autor responder:Mero desejo de juntar a sua modesta colaborao para

    que os estudos de histria, em nossa terra, se baseiem cadavez mais nos originais dos documentos antigos.

    Se lhe fsse permitido adotar uma classificao de tom

    jocoso, evidentemente sem desrespeito a ningum, diria oautor que h dois tipos de historiadores: os de primeira eos de segunda gua. Os de primeira gua seriam aquelesque se vo abeberar nas fontes verdadeiras: os documentosantigos, cuidadosamente conservados pelos arquivos e biblio-

    tecas. Os de segunda gua seriam os historiadores que, ba-

    seados nas afirmativas dos de primeira gua, repetem os con-

    ceitos exfMDstos por stes ou, vista do exp>endido por les,

    tiram novas concluses.

    Ora. O sr. Jos da Silva um grande historiador. Con-ciencioso, cuidadoso e profundo. Pesquisa sempre, revolve

    os arquivos, busca constantemente estar bem amparado por

    7

  • documentao fidedigna. Tem dezenas de trabalhos publi-cados e seu nome citado aqui e no exterior como o de um

    mestre. E, nessas condies, as suas obras so usadas como

    fonte para a feitura de outros volumes de histria.

    Mas o sr. Jos da Silva historiador de primeira gua no Deus. No infalivel, portanto. Embora cuida-doso, embora meticuloso em seus estudos, poder ocasional-mente se ter enganado na leitura de um documento. Umaletra "s" que tomou por "f", um Paulo que leu Saulo, e suas

    concluses j no correspondem inteiramente verdade. Poroutro lado, ainda lendo corretamente o documento, podert-lo interpretado imperfeitamente. Nem por isso, claro,deixar de ser o mestre venerado. E, como todo verdadeiro

    homem de cincia, descoberto o rro, procurar corrigi-lo,sem que com isso perca em autoridade ou dignidade.

    Acontece entretanto que, at perceber-se o engano, ste

    j foi repetido por dezenas de outros historiadores os de

    segunda gua e concluses outras se basearam no rro.Consequncia: o rro acaba sendo considerado verdade his-trica.

    Os historiadores conhecem inmeros casos desses. Porvezes, at, para desfazer um engano simples, milhares de p-

    ginas tm de ser escritas. E nem sempre se consegue comsucesso repr as coisas nos seus devidos lugares.

    Meramente para citar um exemplo: certo historiador

    por sinal muito respeitado entre os pesquisadores de nossahistria ptria cr que em documento existente no arquivode uma congregao religiosa se possa ler a palavra "S. Pau-

    lo", referindo-se nossa cidade, em data anterior a 1554.

    Outros historiadores analisaram o documento e concluiramque a palavra ali existente no "S. Paulo". Mas a dvidaficou e, s vsperas do 4. centenrio da fundao da cidade,ainda se discute se S. Paulo foi realmente fundada ou noem 25 de janeiro de 1554.

  • Muitas dvidas histricas no surgiriam, ou morreriamno nascedouro, se maior nmero de historiadores se valessedos preciosos arquivos que possumos.

    Mas a s meno de papel velho, bichado ou amareladopelo tempo, assusta muita gente e j produz comiches psi-colgicos. Decifrar cdices e cartapcios com efeito can-sativo. No , porm, to difcil ou complicado como geral-mente se pensa.

    E essa a finalidade precpua dste livro. Procurarmteressar nossa gente na leitura dos nossos papis velhos,buscando mostrar, ao mesmo passo, que no h necessidadede "decifr-los". Com prtica, a leitura dos documentos an-tigos passa a ser quase corrente. E um mundo de perspec-tivas interessantes se abre para os historiadores ao consul-

    tarem os cdices muitos dles ainda no publicados

    conservados nos arquivos, quer pblicos quer particulares.

    Com a mesma finalidade dste livro, criou o Departa-mento do Arquivo do Estado um "Curso Livre de Paleogra-

    fia", cujas aulas estiveram a cargo dos srs. Drs. Amrico deMoura, Tito Lvio Ferreira, Antnio Paulino de Almeida,

    Bueno de Azevedo Filho, Phillipe Wolff, Carlos da Silveira,Lvio Gomide e Affonso E. Taunay. O autor teve a honrade dar tambm a sua apagada contribuio.

    O xito dsse curso, com mais de 200 inscries, mos-trou o intersse que a Paleografia pode despertar. E foiexclusivamente o que encorajou o autor na feitura destaobra. Pouco ou nada haver de original neste trabalho.

    Tudo o que aqui se expe pode ser encontrado nos tratadosda matria, citados na bibliografia do fim do volume. Se

    algum mrito puder ter o autor do presente livro ser apenas

    o de haver procurado sintetizar o que pde encontrar sbre o

    assunto, porque a sua contribuio pessoal ter sido, se no

    nula, provavelmente de pouca ou nenhuma valia.

    So Paulo, setembro de 1953

    U.D.M.

    _ 9 _

  • IPALEOGRAFIA DEFINIO E GENERALIDADES

    Pela etimologia da palavra tm-se de imediato o seusignificado: paleos == antigo; graphein = escrever. Paleo-grafia , portanto, escrita antiga, ou seja, o estudo da escritaantiga.

    Os autores, com variantes apenas na maneira de expora idia, bsicamente definem a paleografia como sendo a de-cifrao dos documentos antigos. Assim, Maurice Prou dizque:

    "Paleografia a cincia das antigas escritas, que tempor objeto a decifrao dos escritos da Antiguidade e daIdade Mdia".

    D. Jesus Munoz y Rivero define a paleografia comosendo:

    "A cincia da decifrao dos manuscritos, tendo em con-siderao as vicissitudes sofridas pela escrita em todos os s-culos e naes, seja qual fr a matria em que ela aparea".

    Salomon Reinach diz:

    "A Paleografia a cincia da decifrao dos manus-critos".

    E Agustin Millares Carlo:"Paleografia a cincia que trata do conhecimento e

    interpretao das escritas antigas e que estuda as suas ori-gens e evoluo".

    A nosso ver poderamos simplesmente dizer que: "APaleografia a arte de ler documentos antigos". Esta de-finio, conquanto mais curta, no tem limitaes e, dssemodo, abrange tudo quanto se refere matria. Na arte deler o documento antigo estariam englobados a capacidadede superar as vicissitudes sofridas pela escrita, a interpreta-o desta, o conhecimento de sua origem, evoluo e poca.

    11

    -

  • Paleografia e epigratia

  • Dizem les que a Paleografia estuda apenas os carac-teres extrnsecos dos documentos: as letras com que so escri-tos. A Diplomtica estuda o contedo. A Paleografia l,decifra o documento; a Diplomtica interpreta-o e ju