Novas Formas de Economia Cooperativa Como Contribuicao Para o Desenvolvimento Sustentavel

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Artigo de Reinhard Loske, publicado pela Fundação Heinrich Böll.

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  • Fundao Heinrich Bll br.boell.org

    Novas formas de economia cooperativa como

    contribuio para o desenvolvimento sustentvel

    Reflexes sobre a reinsero da economia na sociedade e na natureza

    Reinhard Loske

    Fevereiro 2015

    (Traduo: Tho Amon)

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    Resumo

    Partindo de uma crtica do conceito de "crescimento verde" e da tese de

    que as inovaes tcnicas no tm condies de, sozinhas, efetivar a

    transformao estrutural necessria para um desenvolvimento

    sustentvel, investigam-se diferentes inovaes socioecolgicas quanto ao

    seu potencial de (re)colocar a troca material entre humanos e natureza

    sobre uma base resistente. No centro disso esto a economia do

    compartilhamento (sharing economy), a economia da vida til longa

    (repair economy), a economia da subsidiaridade (regional economy), a

    economia do prossumidor (prosumer economy) e a economia da

    resilincia (resilient economy). As diferentes abordagens so apresentadas

    e discutidas. Como concluso, recomenda-se retomar a pesquisa quase

    esquecida sobre a economia dual e continuar desenvolvendo-a de acordo

    com a atualidade.

    Palavras-chave

    crtica do "crescimento verde"; economia do compartilhamento;

    economia da vida til longa; economia da subsidiaridade; economia do

    prossumidor; economia da resilincia; retomada e desenvolvimento da

    pesquisa sobre "economia dual".

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    Apresentao

    A atividade econmica humana e a proteo do ambiente natural frequentemente so vistas como contrrios dificilmente conciliveis. A explorao das matrias-primas planetrias e a extrao e queima de combustveis fsseis, fundamentos do modelo de desenvolvimento e industrializao que predomina em todo o mundo, resultam em paisagens exauridas e destrudas, poluio do solo, ar e gua, e um incremento na atmosfera de gases residuais que modificam o clima, levando a um aumento da temperatura que, conforme as previses, ter consequncias de grandssimo alcance. O uso da terra cada vez mais intensivo, impulsionado pelo alto e contnuo crescimento da populao e estilos de vida cada vez mais consumidores de recursos, resulta em uma perda de diversidade biolgica, assim como na perda de preciosos espaos naturais e agrrios e na propagao da eroso. Uma situao muito semelhante aplica-se aos mares, que acabam absorvendo grandes cargas de txicos, combustveis e materiais sintticos, sendo tambm ameaados por excesso de acidez e de utilizao, especialmente atravs de pesca excessiva e "minerao martima".1 Nos tempos recentes, os estudos cientficos que descrevem e documentam empiricamente esses desenvolvimentos so legio2.

    A frmula IPAT

    Examinando mais de perto os fatores determinantes por trs dos desenvolvimentos equivocados por parte dos seres humanos, eles so essencialmente trs: o nmero de pessoas no planeta;

    os estilos de vida (a intensidade de recursos e emisses dos mesmos); e

    a tecnologia (empregada por elas).

    Essa dita "frmula IPAT" (Impacto = Populao x Abastana x Tecnologia) serviu como orientao principal para os grandes estudos ambientais dos anos 1970, especialmente para o relatrio do "Clube de Roma" sobre "Os limites do crescimento".3

    Aderindo lgica deveras esclarecedora dessa frmula e tambm metaperspectiva global, todos os trs fatores determinantes apontam para uma direo ainda muito crtica. O nmero de pessoas continua subindo: se em 1960 ainda estava em trs bilhes, em 1987 j eram cinco bilhes, e em 2011, sete bilhes. At 2050, a populao mundial crescer at nove a dez bilhes de pessoas. Quanto

    1Cf. Gershwin 2013.

    2 Quem desejar obter uma viso geral sobre esses fatos deveras inequvocos pode faz-lo nos sites

    do Programa das Naes Unidas para o Meio Ambiente (www.unep.org), do Stockholm Resilience

    Center (www.stockholmresilience.org), da Agncia Europeia do Ambiente (www.eea.europa.eu/de) e

    do Comit Cientfico de Mudanas Ambientais Globais do Governo Federal da Alemanha

    (www.wbgu.de) (todos acessados em 01/07/2014). 3 Meadows et al. 1972

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    ao nvel de riqueza e consumo de recursos per capita, pode-se dizer que o modelo ocidental de desenvolvimento, muito intensivo em recursos, atualmente est se disseminando a uma velocidade vertiginosa, e j no vivido ou almejado apenas pelos habitantes dos pases industrializados, mas tambm pelas ambiciosas classes mdias e altas dos pases em transformao, emergentes e em desenvolvimento.

    A classe global de consumidores

    Essa chamada "classe global de consumidores" distingue-se no apenas por uma forte orientao ao consumo, mas tambm por s conseguir conceber uma maneira de resolver os problemas ecolgicos (isto quando eles chegam a ser levados a srio): atravs do progresso tecnolgico. Portanto, no admira que os debates sobre "crescimento verde", "mercado verde" ou "tecnologia verde" desfrutem de tanta popularidade. Eles jamais questionam a lgica ascendente de "sempre mais, sempre mais rpido, sempre adiante": pelo contrrio, prometem "prazer sem arrependimento" e preferem propagar estratgias segundo as quais (alegadamente) ambos os lados s podem ganhar ("ganha-ganha"), funcionando (segundo eles) conforme o princpio "bom para todos e ruim para ningum". Mas at onde vai essa concentrao exclusiva em inovaes tecnolgicas?

    Abandonemos por ora o metanvel global, o mundo dos nmeros grandes e aparentemente to autoexplicativos. Isso porque essa perspectiva possui fraquezas considerveis: ela no conhece processos de diferenciao, soterrando-os sob si. Ela favorece fantasias globais de manobra, que no enxergam mais as pessoas como sujeitos autnomos, mas como uma massa homognea que deve ser guiada no sentido de sustentabilidade global assim como os ecossistemas e suas dinmicas. Da mesma forma, por meio de deprimentes colunas de nmeros, favorece sentimentos de impotncia, que no ativam, mas desativam; que no encorajam, mas desencorajam. Iniciemos com a diferenciao, portanto.

    Proteo ambiental atravs da riqueza?

    O fato de que a grande maioria dos parmetros ambientais globais continua apontando para danos irreparveis muitas vezes no corresponde nos pases ricos impresso ambiental subjetiva de grandes parcelas da populao, podendo-se tomar a Alemanha como exemplo disso: aqui, a emisso de dixido de carbono e o "consumo" de combustveis fsseis, solos, minerais, minrios ou terras-raras continuam altos (e no seriam absolutamente praticveis se ocorressem nessa mesma medida em nvel mundial); no obstante, a qualidade ambiental daqui melhorou consideravelmente nas ltimas quatro dcadas, e, aps a reunificao de 1989/90, em andamento acelerado tambm nos novos estados da federao. Mediante rigorosas leis ambientais de proteo do ar, da gua e da sade e as tecnologias de limpeza elaboradas de acordo, como filtros, catalisadores e purificadores, a emisso de substncias txicas clssicas das indstrias, usinas,

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    transporte e residncias pde ser gradual e nitidamente reduzida: poeira, dixido de enxofre, xidos de nitrognio no ar, assim como substncias venenosas nas guas servidas tudo isso diminuiu substancialmente. Metas politicamente populares e almejadas, como o "cu azul sobre o (rio) Ruhr", "(poder) banhar-se no (rio) Reno" ou a "separao do lixo", fortemente observada na Alemanha, foram em boa parte atingidas, assim como a delimitao de reas protegidas (sobretudo nos novos estados da federao na parte ex-comunista do pas), cujas reservas de biosfera so um patrimnio natural nico da nao. Tudo isso levou ao aprimoramento da sensao subjetiva acerca da qualidade ambiental na Alemanha, embora problemas como os fluxos crescentes de esterco lquido oriundo da pecuria intensiva, a sobrecarga resultante sobre a gua subterrnea e os rios, as monoculturas agrcolas, com sua alta utilizao de qumicos, a poluio dos mares com lixo plstico, a urbanizao da paisagem ou a poluio dos nossos aglomerados urbanos com poeira e rudo sejam percebidos muito agudamente como problemas. No entanto, uma afirmao como: "Ecologicamente, est tudo sempre piorando" provavelmente s seria confirmada por uma minoria.

    Ser que as pessoas esto padecendo de uma percepo errada? No ser correto dizer que estamos vivendo e trabalhando de maneira cada vez mais ecolgica? Neste ponto, temos que fazer uma diferenciao importante: proteo ambiental e sustentabilidade no so a mesma coisa. Quanto questo da qualidade ambiental, a percepo mdia est correta: sim, apesar de problemas persistentes e em parte novos, ela melhorou sensivelmente. Tambm, com a maior riqueza (e prioridades modificadas!), a nossa sociedade pde "permitir-se" mais proteo ambiental tcnica e uma proteo mais generosa da natureza em reservas. Essa perspectiva da riqueza como requisito de uma maior conscientizao ambiental e uma maior competncia de resoluo (tcnica e organizatria) de problemas ambientais que serve-se at mesmo de uma te