O CÔMICO COMO ESTRATÉGIA DE RESISTÊNCIA EM A .Os costumes dos jamaicanos - os quais eram chamados

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  • N 18 | Ano 13 | 2014 | pp. 26-36 | Dossi | 26

    O CMICO COMO ESTRATGIA DE

    RESISTNCIA EM

    A PEQUENA ILHA, DE ANDREA LEVY rica Fernandes Alves

    Mestre em Letras e Doutoranda em Letras (UEM Universidade Estadual de Maring) leka_erica@hotmail.com

    Elizandra Fernandes Alves

    Mestre em Letras (UEM Universidade Estadual de Maring) elizzandra1@hotmail.com

    RESUMO

    Baseando-se nas teorias desenvolvidas por Bhabha (1998), Ashcroft (2001), Figueiredo (1998), Alberti (1999), entre outras, analisa-se aqui o cmico como estratgia de resistncia na literatura ps-colonial tendo como corpus o romance A pequena ilha (2004), da britnica Andrea Levy. Analisa-se, mais especificamente, o personagem negro e diasprico Gilbert, investigando de que maneira o cmico pode ser visto como um instrumento de questionamento e resistncia no contexto de opresso e racismo em que o personagem est inserido e at que ponto tal estratgia capaz de contestar a suposta hierarquia e hegemonia do poder colonial.

    PALAVRAS-CHAVE: cmico, negro, resistncia.

    ABSTRACT

    Based on the theories developed by Bhabha (1998), Ashcroft (1995, 2001), Figueiredo (1998), Alberti (1999), among others, the present article intends to analyze the comic as a strategy of resistance in postcolonial literature having the novel Small Island (2004), by British novelist Andrea Levy, as its corpus. The aim, more specifically, is to analyze the black and diasporic character Gilbert, investigating how the comic can be seen as an instrument of questioning and resisting in the context of oppression and racism in which the character is inserted and to which extent this strategy is able to challenge the supposed hierarchy and hegemony of colonial power.

    KEYWORDS: comic, black, resistance.

    mailto:leka_erica@hotmail.commailto:elizzandra1@hotmail.com

  • rica Fernandes Alves e Elizandra Fernandes Alves

    N 18 | Ano 13 | 2014 | pp. 26-36 | Dossi | 27

    A formao identitria e cultural do Reino Unido resultado de invases, conquistas

    e colonizaes e, no entanto, at hoje perdura o mito de que os britnicos, no fosse a

    corrupo das migraes, se caracterizariam como uma nao homognea. Sabe-se que h

    tempos os negros esto presentes na regio, e que, portanto, fazem parte da identidade

    nacional, no entanto, o modo como sempre foram tratados revela como os britnicos tm

    dificuldade em reconhecer e aceitar essa alteridade que os separa. Autores contemporneos

    tm, cada vez mais, trabalhado no sentido de traduzir tais mazelas pela veia literria, como

    acontece, por exemplo, no romance A pequena Ilha (2004, 2008)1.

    A obra representa fatos histricos reais dos encontros entre britnicos e caribenhos

    ocorridos no perodo da Segunda Guerra Mundial e nos anos subsequentes a ela. A bordo do

    navio SS Empire Windrush, cerca de 500 caribenhos chegam Gr-Bretanha no ano de 1948

    como os primeiros negros civis a pisar naquela regio. Os personagens recm-casados,

    Gilbert e Hortense, so emblemticos desta situao. Ao adentrarem na pequena ilha

    chamada Inglaterra, eles se deparam com os sentimentos de surpresa, repulsa e, at

    mesmo, dio exprimidos pelos seus habitantes. As expectativas de Hortense sobre a nova

    experincia so promissoras, mas para Gilbert, o qual j havia estado no pas durante a

    Segunda Guerra Mundial, elas so bem diferentes. O desenrolar do romance revela como

    cada um destes personagens se relaciona e se adapta ao novo mundo encontrado por eles.

    Revela, ainda, as diversas formas de excluso e outremizao que o europeu inflige aos

    negros e, contrariamente, como os negros resistem e revidam a estas aes.

    Dado o exposto, este trabalho tem por objetivo apontar, sob a perspectiva da crtica

    ps-colonial, como, diante do racismo advindo do encontro com o colonizador, o cmico

    usado como estratgia de resistncia pelo personagem diasprico Gilbert Joseph. Abordam-

    se, igualmente, as estratgias de outremizao e estereotipagens relacionadas cor drmica

    na tessitura de Andrea Levy, escritora britnica, filha de pais jamaicanos que vieram para o

    Reino Unido como imigrantes. Autora dos romances Every Light in the House Burnin (1995),

    Never Far from Nowhere (1996), Fruit of the Lemon (1999) e The Long Song (2010), o racismo

    ingls, a excluso do negro, e a resistncia hegemonia branca so leitmotiv em suas obras.

  • O Cmico como Estratgia de Resistncia em A Pequena Ilha, de Andrea Levy

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    A RESISTNCIA REVESTIDA DO CMICO EM A PEQUENA ILHA

    Ao partir para o Reino Unido como soldado da RAF (Royal Air Force), o personagem

    Gilbert Joseph enfrenta seu primeiro problema: a diferena cultural entre ele e seus

    superiores. Os costumes dos jamaicanos - os quais eram chamados de macacos, negrinhos,

    selvagens, crioulos, pretos, entre outros - eram deliberadamente ridicularizados pelos

    soldados britnicos. De acordo com Figueiredo (1998, p. 65), comum que o branco reaja

    negativamente presena do negro com o intuito de desestabilizar sua subjetividade e,

    ainda, enaltece as suas (do branco) qualidades, os mritos eminentes da civilizao que

    representa e insiste sobre os defeitos, os demritos do povo conquistado, seu atraso, sua

    pobreza, enfim, sua inferioridade.

    Gilbert consegue um posto como aviador na guerra, porm, por ser negro,

    impedido de exercer a funo, sendo relegado ao cargo de motorista. Mesmo a contragosto,

    o jamaicano se sujeita ao trabalho, passando por diversas humilhaes dirigidas a ele por

    seus superiores, soldados brancos, e tambm civis. Ao ser enviado a uma base militar

    americana, perto daquela onde se encontrava, Gilbert exposto a todo o tipo de ultraje,

    entretanto, ao invs de criar qualquer atrito, prefere manter-se em silncio, utilizando da

    cortesia dissimulada. Segundo Bhabha (1998), atravs da cortesia dissimulada (sly civility) -

    uma falsa submisso do colonizado por meio da no contradio do discurso colonizador - o

    colonizado resiste ao colonizador de forma a no entrar em conflito direto com seus

    superiores e preservar sua identidade cultural.

    Sendo um sujeito diasprico, o personagem se encaixa em algumas das

    caractersticas postuladas por Safran (1991, apud COHEN, 1998) sobre o mesmo, como a do

    mito da terra natal: ao falar sobre a Jamaica, Gilbert o faz com saudosismo, relembrando as

    coisas boas de l provenientes, como a comida, o clima e as cores vibrantes, e ao notar que

    no bem vindo no novo pas devido a sua cor e origem, procura estabelecer o mnimo de

    contato com os britnicos, permanecendo junto de outros jamaicanos, estabelecendo,

    assim, uma tica de solidariedade em relao ao seu igual.

    Com o trmino da guerra, Gilbert retorna Jamaica, mas, tempos depois, decide

    morar definitivamente no Reino Unido: afinal, ele lutara na guerra ao lado dos britnicos,

  • rica Fernandes Alves e Elizandra Fernandes Alves

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    como qualquer outro soldado, era direito seu viver na Inglaterra. Durante o desenrolar de

    suas aes, percebemos que Gilbert revela um carter avesso assimilao dos costumes e

    tradies do colonizador, pois sua identidade jamaicana constantemente ressaltada, e ele,

    diferentemente de outros jamaicanos, no faz questo de escond-la ou disfar-la. Ashcroft

    (2001) argumenta que a no aceitao dos costumes do colonizador revela um dos modos

    mais eficazes de resistncia ao poder colonial:

    [...] a caracterstica mais fascinante das sociedades ps-coloniais uma resistncia que se manifesta como uma recusa em ser absorvido, [...] apropriando-se da fora de influncias exercidas pelo poder dominante, e transformando-a em ferramentas para expressar um sentimento de identidade e de cultura profundamente arraigados. Esta tem sido a forma mais generalizada, mais influente e mais comum de resistncia em sociedades ps-coloniais (ASHCROFT, 2001, p. 20, aspas simples do autor).

    O tpico comportamento jamaicano despojado e alegre - a caracterstica peculiar

    do personagem de Gilbert: o modo de falar - sempre buscando o lado bom dos fatos que o

    cercam denota sua origem e tradio. O jovem se mostra descontrado na maior parte do

    tempo, principalmente quando est junto de seus compatriotas; quando Hortense, sua

    esposa, por exemplo, chega da Jamaica, ele a recebe com brincadeiras e piadas:

    - Hortense, o que que voc tem dentro desse ba? Sua me?

    [...]

    - Nesse ba eu tenho tudo de que vou precisar, obrigada Gilbert.

    - Ento voc trouxe mesmo a sua me disse Gilbert. Deu aquela sua risada, da qual eu me lembrava. Um estranho som de fungada sado da parte de trs de seu nariz, que fazia reluzir seu dente de ouro. Eu ainda estava sorrindo quando ele comeou a esfregar as mos e dizer:

    - Bom, espero que tenha trazido goiaba, manga, rum e... (LEVY, 2008, p. 24-5).

    A linguagem, verbal e no verbal, tambm traduz seu carter espirituoso e alegre. O ato de

    sugar o ar por entre os dentes e a repetio do termo arre, denotam a tipicidade de sua

    jamaicanidade:

    Qualquer um que escutasse Gilbert Joseph falando saberia sem hesitao que aquele homem no era ingls. Pouco importa que ele vestisse seu melhor terno, tivesse passado gomalina nos cabelos e limpado as unhas, continuava falando (e andando) de um jeito jamaicano grosseiro.

    [...]

    Mas Gilbert continuava a sugar o ar por entre os dentes. A cada dois segundos, o homem dizia arre, e no conseguia, por mais que eu insistisse, parar de exclamar ora, cara a cada frase (LE