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MESTRADO EM DESiGN O DESENHO NO DESiGN DE MODA

O DESENHO NO DESiGN DE MODA - Livros Grátislivros01.livrosgratis.com.br/cp129775.pdf · 2 universidade anhembi morumbi luciana gragnato o desenho no design de moda dissertaÇÃo

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    O DESENHO NO DESiGN DE MODA

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    UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI

    LUCIANA GRAGNATO

    O DESENHO NO DESIGN DE MODA

    DISSERTAO DE MESTRADO

    MESTRADO EM DESIGN

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO STRICTO SENSU

    So Paulo, maro/ 2008

  • 3

    UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI

    LUCIANA GRAGNATO

    O DESENHO NO DESIGN DE MODA

    DISSERTAO DE MESTRADO

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao Stricto Sensu em Design Mestrado,

    da Universidade Anhembi Morumbi, como requisito parcial para obteno do ttulo de Mestre em

    Design.

    Orientadora: Prof. Gisela Belluzzo de Campos

    So Paulo, maro/ 2008

    UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI

  • 4

    LUCIANA GRAGNATO

    O DESENHO NO DESIGN DE MODA

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao Stricto Sensu em Design Mestrado,

    da Universidade Anhembi Morumbi, como requisito parcial para obtenodo ttulo de Mestre em

    Design. Aprovada pela seguinte Banca Examinadora:

    Profa. Dra. Gisela Belluzzo de Campos

    Orientador

    Mestrado em Design Anhembi Morumbi

    Profa. Dra. Maria Claudia Bonadio

    Centro Universitrio Senac So Paulo

    Profa. Dra. Kathia Castilho

    Mestrado em Design Anhembi Morumbi

    Prof. Dr. Jofre Silva

    Mestrado em Design Anhembi Morumbi

    So Paulo, maro/ 2008.

  • 5

    LUCIANA GRAGNATO

    Possui graduao em Negcios da Moda pela Universidade Anhembi Morumbi (1996). Atualmente professora

    titular da Universidade Anhembi Morumbi. Tambm atua como consultora em estilo e desenvolvimento de produto

    para empresas do segmento de uniformes profissionais. Tem experincia na rea de Moda e Educao com nfase

    em desenho de vesturio.

  • 6

    Todos os direitos reservados. proibida a reproduo total ou parcial do trabalho sem autorizao da Universidade, do autor e do orientador.

  • 7

    AGRADECIMENTOS

    G768d Gragnato, Luciana O desenho no design de moda / Luciana Gragnato. 2008.

    105f.: i l.; 21 cm. Orientador: Gisela Belluzzo de Campos. Dissertao (Mestrado em Design) - Universidade Anhembi Morumbi, So Paulo, 2008. Bibliografia: f.97-100.

    1. Design de moda. 2. Desenho. 3. Ilustrao. 4. Representao grfica. I. Ttulo. CDD 741.6

  • 8

    prof.dra. Mnica Cristina Moura por seu apoio que muito me motivou a prosseguir com a atividade

    acadmica.

    minha orientadora, prof.dr. Gisela Belluzzo de Campos por sua dedicao, interesse, incentivo e

    infinita pacincia ao longo do processo de aprendizagem e orientao para este trabalho.

    A todos os professores do programa de Mestrado, cujas preciosas aulas em muito contriburam para

    meu desenvolvimento pessoal e profissional.

    Aos colegas dessa primeira turma do programa de Mestrado por compartilhar importantes momentos de

    reflexo, estudo e amizade.

    A minha querida famlia, meu querido marido e queridos amigos pelo amor incondicional que, alm de

    superar distncias e ausncias, comemora, com grata satisfao, mais essa conquista.

  • 9

    Desde a idade dos 6 anos eu tinha mania de desenhar a f orma dos objetos. Por v olta dos 50 hav ia

    publicado uma inf inidade de desenhos, mas tudo que produzi antes dos 60 no dev e ser lev ado em

    conta. Aos 73 compreendi mais ou menos a estrutura da verdadeira natureza, as plantas, as rvores,

    os pssaros, os peixes e os insetos. Em conseqncia, aos 80 terei feito ainda mais progresso. Aos 90

    penetrarei no mistrio das coisas; aos 100, terei decididamente chegado a um grau de maravilhamento

    e quando eu tiver 110 anos, para mim, seja um ponto ou uma linha, tudo ser viv o.

    Katsuhika hokusai

    Sc XVIII XIX

    RESUMO

    Este trabalho tem por objeto de estudo o desenho como parte integrante do

    Design de Moda. A pesquisa visa identificar os tipos de desenho e as caractersticas especficas que

    adquire ao ser utilizado nos processos de concepo, desenvolvimento e comercializao de produtos de

    moda. Dessa forma, o trabalho pretende contribuir para a sistematizao de um conhecimento aplicado na

    prtica profissional de designers de moda. Por meio da observao desse s desenhos, a dissertao

    procura demonstrar as relaes entre a representao grfica da figura humana, em especial a silhueta do

    corpo feminino, e o contexto histrico em que o desenho foi realizado. Para tanto, um levantamento de

    exemplos de desenho e ilustrao de moda, especialmente em revistas femininas brasileiras do sculo XX

    ser realizado.

  • 10

    Palavras-chave: Design de Moda. Desenho. Ilustrao. Representao Grfica. Silhueta Feminina.

    ABSTRACT

    The works object of study is the drawing as part of the fashion design. The research aims to identify the

    specific characteristics that the fashion drawing acquires when it is used in the processes of creation,

    development and marketing of fashion products. Thus, the work intents to be a contribution to the

    knowledge that is already applied by professional designers. Through the observation of these drawings,

    this dissertation tries to demonstrate the relationship between the graphic representation of the human

    figure, especially concerning the silhouette of the female body, and the historical context in which the

    design was made. For this, a survey of fashion drawings and il lustration examples will be done, especially

    in Brazilian women's magazines of the twentieth century.

    Key-words: Fashion Design. Drawing. Illustration. Graphic Representation. Female Silhouette.

  • 11

    SUMRIO

    INTRODUO...................................................................................... CAPTULO 1 O DESENHO E O DESIGN DE MODA................................................. 1.1. O desenho como ferramenta para o Design de Moda................... 1.2. Possvel incio para registros grficos na moda ........................... 1.3. O desenho e seus mltiplos papis nos projetos de design de moda...........................................................................

    CAPTULO 2 O DESIGN DE MODA E SUAS REPRESENTAES GRFICAS...... 2.1. O desenho e o design: algumas definies................................. 2.2. O desenho tcnico de moda........................................................ 2.3. O desenho de moda.................................................................... 2.4. A ilustrao de moda..................................................................... CAPTULO 3 A SILHUETA FEMININA E O DESIGN DE MODA............................. 3.1. Parmetros mais freqentes para representao da silhueta no desenho de moda ......................................................................... 3.2. Algumas silhuetas do sculo XX: traos de pocas..................... 3.2.1. Silhueta andrgina: o desejo de parecer e ser..................... 3.2.2. A descoberta de uma nova silhueta ..................................... CONSIDERAES FINAIS.................................................................. REFERNCIAS.................................................................................. GLOSSRIO......................................................................................

    18 24 25 26 32 38 44 45 48 52 56 66 70 76 78 87 93 97 101

    20 28 29 30 38 47 48 51 56 61 74 78 87 89 101 108 113 118

  • 12

    FIG. (i) Luciana Gragnato, portiflio, 2007.....................................................................capa

    FIG. (2) Le Journal des Dames et Des Modes Costumes Parisiens, 1826.....................27

    FIG. (3) Petit Echo De La Mode, 1927.............................................................................28

    FIG. (4) Capa revista Harper Bazar, fevereiro de 1888 ..................................................29

    FIG. (5) Helen Dryden, capa revista Vogue, abril de 1919..............................................30

    LIS

    TA

    DE F

    IGU

    RA

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    FIG. (1) Nancy Riegelaman, 9Heads, 2000......................23

  • 13

    FIG. (6) Revista Paris Chic, 1934 Acervo Senac So Paulo.......................................31

    FIG. (7) Revista Fon-Fon, 1962 Acervo Senac So Paulo..........................................36

    FIG. (8) Revista Fon-Fon, 1952 Acervo Senac So Paulo.........................................37

    FIG. (19) Revista O Cruzeiro, abril de 1958 - Acervo Senac So Paulo.......................38

    FIG. (10) Luciana Gragnato, Mapa de estudo, 2006......................................................49

    FIG. (11) Adriana Sampaio Leite e Marta Delgado Velloso,

    Desenho Tcnico de roupa feminina, 2004.......................................................................50

  • 14

    FIG. (12) Lectra, divulgao programa Kaledo, 2008.....................................................51

    FIG. (13) Fernando Burgo, 2000...................................................................52

    FIG. (14) Croqui Denner, 1976 Acervo Biblioteca Denner Pamplona de Abreu..........53

    FIG. (15) Isabela Capeto, coleo Taeq, vero 2007/ 2008...........................................54

    FIG. (16) Fernanda Guedes, calendrio 2008................................................................57

  • 15

    FIG. (17) Fernanda Guedes, portiflio digital, 2007.......................................................59

    FIG. (18) Fabiana Shizue, portifolio digital, 2007............................................................61

    FIG. (19) Capa Revista A Cigarra, janeiro de 1917 Acervo Arquivo do Estado de S.Paulo...............................................................................................................................62

    FIG. (20) Fernanda Guedes, portiflio digital, 2007........................................................63

    FIG. (21) Caio Borges, portiflio digital, 2007 ................................................................64

  • 16

    FIG. (22) Chris Gambrell, animao para Dior Home, 2003...........................................65

    FIG. (23) Fabiana Shizue, portiflio digital, 2007............................................................68

    FIG. (24) Caio Borges, portiflio digital, 2007 ................................................................69

    FIG. (25) O Homem Vitruviano, Leonardo Da Vinci, 1490................................. ............72

    FIG. (26) Luciana Gragnato, Mapa de estudo, 2006......................................................73

  • 17

    FIG. (27) Luciana Gragnato, Mapa de estudo, 2007......................................................74

    FIG. (28) Alceu Penna, Revista O Cruzeiro, junho de 1958...........................................75

    FIG. (29) .Alceu Penna, Revista O Cruzeiro, maio de 1954............................................76

    FIG. (30) Capa Revista Harper Bazar, maro de 1888...................................................78 .

    FIG. (31) Catlogo Sears, 1927......................................................................................79

  • 18

    FIG. (32) A Melindrosa, J. Carlos, dcada de 1920......................................................81

    FIG. (33) Editorial Revista Vanity Itlia, maio de 1986....................................................86

    FIG. (34) Thierry Perez para Azzedine Alaia, 1981.......................................................86

    FIG. (35) Alceu Penna, Revista O Cruzeiro, novembro de 1943....................................87

    FIG. (36) Alceu Penna, Revista O Cruzeiro, agosto de 1959.........................................88

  • 19

    FIG. (37) Alceu Penna, Revista O Cruzeiro, dcada de 1950.......................................88

    FIG. (38) Alceu Penna, croquis dcada de 1970............................................................91

  • 20

    A presente dissertao tem como objeto de estudo o desenho no contexto do Design de

    Moda. As diversas formas e caractersticas especficas que o desenho assume ao longo do

    processo de criao, desenvolvimento e comercializao de produtos de moda so

    analisadas aqui a partir de seus respectivos usos e funes. Para isso, exploramos a moda

    e seu sistema de funcionamento na perspectiva do desenho no design, estabelecendo

    relaes entre a concepo de objetos/ produtos e seus contextos scio-culturais.

    INT

    RO

    DU

    O

  • 21

    O desenho assume vrios papis no processo do Design de Moda: ele participa na

    concepo, na expresso, na proposio de idias e conceitos, na materializao do

    produto e finalmente na interpretao do mesmo. Por meio de formas, volumes, texturas,

    movimentos e suas inmeras inter-relaes, o Design de Moda incorpora valores culturais

    nos objetos que produz e gera canais de identificao social e comunicao no-verbal de

    realidades e tendncias comportamentais. As peas de roupa passam a fazer parte do

    universo de expresso visual, no qual o homem modela, recria e inventa imagens de si

    prprio. Nesse sentido, o suporte inicial para a roupa passa a fazer parte dessa imagem

    geral. O corpo humano tambm recriado e modelado de acordo com os mesmos valores e

    contextos em que est inserido, misturado e confundido nas relaes entre formas, volumes

    e movimentos, revelando as percepes individuais e coletivas do ser e do parecer.

    Nosso foco concentra-se na representao grfica dessas imagens. A dissertao

    pretende mostrar que o desenho de moda resultado da interpretao que o designer faz

    dos valores culturais da poca na qual est inserido. Por meio do contorno que o corpo

    humano assume com roupa e em funo dela, a silhueta se estabelece como imagem do

    ideal desejado e o desenho de moda uma de suas expresses visuais.

  • 22

    No primeiro captulo apresentamos um panorama histrico das representaes

    grficas em moda, a partir do perodo Renascentista, momento marcado tambm pelo

    refinamento das tcnicas de pintura. Neste momento, a arte importante para a percepo

    e registro das silhuetas, inclusive a silhueta feminina. Hoje o desenho faz esse papel,

    anteriormente desempenhado pelas obras de arte e estas, por sua vez, servem de

    referncia a um sistema de moda verdadeiramente organizado. Este captulo ainda discute

    o Design de Moda como intermediador na comunicao de indivduos entre si e de grupos

    sociais, reforando parmetros de comportamento e estilos de vida. Os desenhos de moda

    passam, ento, a se consolidar como forma direta de expresso que garantem a eficcia na

    divulgao da informao. Essas informaes se encontram nas publicaes ilustradas

    realizadas no final do sculo XIX e incio do sculo XX, voltadas especificamente s

    questes femininas que abordam tambm a moda.

    Ainda no primeiro capitulo, mostramos como o design de moda se configura

    atualmente em termos de processo produtivo. Ao descrever as etapas de concepo,

    desenvolvimento e estruturao do produto de moda localizamos o desenho e suas

    especificidades, destacando sua importncia tanto no sentido do mapeamento desse

    produto quanto da memria de seu processo.

    A relevncia do estudo do desenho de moda como representao grfica,

    considerada no captulo dois, quando analisamos sua utilizao nas etapas de

  • 23

    desenvolvimento do projeto de Design de Moda: concepo, desenvolvimento e

    comercializao de produtos de moda, especialmente de vesturio.

    No processo de criao e concepo de um modelo de roupa, por exemplo, os

    desenhos de moda representam graficamente o modo como as idias que envolvem

    formas, volumes, materiais e cores se configuram em elementos de design no produto.

    Neste sentido, podemos identificar o desenho como parte do projeto do produto, uma vez

    que, por meio dele, acontece sua primeira visualizao e referncia para tomada de

    decises.

    Nas etapas do desenvolvimento do produto de moda, tais como modelagem e

    confeco, o desenho se faz presente como elemento fundamental para a perfeita feitura da

    pea. Novamente o desenho surge, mas, desta vez, de forma tcnica, apresentando a

    possibilidade da visualizao de instrues para as etapas de confeco.

    E, finalmente, nos processos de comunicao desse produto para venda, l est o

    desenho, que muitas vezes ganha o estatus de ilustrao. Este tipo de desenho ou

    ilustrao de moda desempenha importante papel em campanhas publicitrias e de

    propaganda impressa, principalmente, como anncios em revistas ou como materiais

    distribudos aos consumidores (etiquetas, cadernos, canetas, etc.). Tambm pode aparecer

    em embalagens e ambientaes nos pontos de vendas como elemento de identificao

    entre o produto e o consumidor.

  • 24

    No capitulo trs a anlise se volta para o elemento fundamental percebido nos

    desenhos de moda: a silhueta (figura 1). Entendida como o contorno geral da figura

    humana, a silhueta de moda no separa a roupa de seu suporte1. Unidos, corpo e vesturio

    criam e recriam imagens humanas a partir das necessidades de expresso individual e

    coletiva, carregadas de sentidos e significaes intrnsecas sua cultura.

    Para esta anlise, foram escolhidos alguns momentos ao longo do sculo XX nos

    quais acontecem mudanas importantes de percepo do papel da mulher nas sociedades

    ocidentais. Esses momentos so marcados por reviravoltas nas atitudes e estilos de vida

    em funo de acontecimentos mundiais. Os desenhos passam a configurar imagens do

    ideal de aparncia e de identidade a serem alcanados por meio da moda.

    1 Neste contexto, a palavra suporte sugere o corpo humano como ponto de apoio para as roupas. O corpo, visto como estrutura articulada e volumosa, empresta seus movimentos e formas s roupas que, modeladas em tecidos e formas diversas, reforam ou reconstroem as formas originais do corpo, acompanhando ou modificando seu movimento natural.

    FIGURA 1 Ilustraes de moda que demonstram as silhuetas que o corpo feminino assume ao longo do sculo XX.

  • 25

    O DESENHO E O DESiGN DE

    MODA

    CA

    PT

    ULO

    1

  • 26

    1. O DESENHO E O DESIGN DE MODA

    1.1. O desenho como ferramenta para o Design de Moda

    A habilidade de desenhar de grande importncia para o profissional de moda,

    especialmente quele que trabalha com o produto, seja na criao, seja no desenvolvimento

    de peas do vesturio, acessrios ou joalheria. O desenho auxilia a compreender o

    processo de criao, estruturao e viabilidade de confeco da pea.

    De acordo com RIEGELMAN (2006), no prefcio de seu livro sobre mtodos e

    tcnicas de desenho de moda, o desenho uma linguagem que possibilita a expresso e

    comunicao de idias. No desenho de moda, as idias a serem expressas so possveis

    solues que ainda existem apenas na mente do designer.

    Assim, atravs do desenho como ferramenta de comunicao entre as vrias

    etapas de produo e comercializao, que o produto de moda nasce e, passando por

    diferentes mos, ele toma forma e tridimensionalidade. O desenho um mapa, um projeto,

    o incio do produto e tambm sua memria, esperando para ser reinventado na prxima

    coleo2 de moda.

    2Ver glossrio.

  • 27

    1.2. Possvel incio para registros grficos na moda

    O desenho de moda, que tem como principal objetivo representar o vesturio e seus

    complementos, tem um desenvolvimento recente, ocorrido ao longo do sculo XX. Em

    perodos anteriores, a moda era retratada e percebida por meio de obras de arte

    geralmente.

    comum encontrar ao longo da Histria registros de modelos de peas de vesturio

    e, especialmente reprodues de tecidos usados pelas castas mais abastadas das

    sociedades, em retratos e cenas religiosas. Essas obras de arte surgem com o refinamento

    de tcnicas de pintura, principalmente, durante a Renascena que, ainda hoje, so

    utilizadas como referenciais para estilistas e designers de moda.

    Quando olhamos para a histria da moda, percebemos que seus registros esto

    atrelados histria da arte principalmente em pinturas, esculturas e gravuras. As

    representaes do universo da arte continuam a ser importantes referncias para a moda.

    De acordo com BRAGA (2004, p.14)

    (...) pelo fato da moda ser uma expresso esttica, a apropriao de imagens tambm do universo

    das artes ajuda a fazer a interface entre as aparentemente distintas reas da arte e da moda, que

    por sua vez, em inmeros momentos histricos acabam falando a mesma linguagem esttica.

    As imagens da histria da arte que funcionaram, em outras pocas, como registros

    de objetos de moda, so quase sempre figurativas, o que contribui ainda mais para que

    atuem tambm como registros de seu tempo. Segundo SANTAELLA (2005), as imagens

    FIGURA 2 Pgina do Journal des Dames et des Modes de1826 que traz detalhes sobre o modelo de vestido e de penteados sugeridos para o usa da senhora.

  • 28

    produzidas pelas obras de arte, tais como as pinturas renascentistas representam de

    maneira realstica, ou muito prxima disso, pessoas, objetos e cenrios observados e, por

    isso, so fortemente marcadas pelo tempo e seus referenciais:

    As imagens figurativas so aquelas que transpem para o plano bidimensional ou criam no espao

    tridimensional rplicas de objetos preexistentes, visveis ao mundo externo, quer dizer, apontam com maior ou

    menor ambigidade para objetos ou situaes reconhecveis (...) Na imagem figurativa, como o prprio nome

    diz, a relao referencial explicita, quer dizer, trata-se de imagens que sugerem, indicam, designam objetos

    ou situaes existentes. Sendo existentes, esse s objetos e situaes esto marcados por uma historicidade

    que lhes prpria. Ora, ao representar o referente, a imagem acaba inevitavelmente por trazer para dentro de

    si a historicidade que pertence ao referente. nesse sentido que as imagens figurativas podem funcionar

    como documentos de poca. Figurinos, cenrios, arquiteturas, decoraes costumam aparecer como

    indicadores inequvocos de uma poca. (p.82-83)

    Contudo, no eram apenas as obras de arte que poderiam ser identificadas como

    fonte de informao. Alm das pinturas e retratos, havia ilustraes sobre moda e desenhos

    que integravam jornais e publicaes que exemplificavam principalmente assuntos como

    moda e costumes. As primeiras publicaes sobre moda aparecem na Frana, no final do

    sculo XVIII e multiplicam-se na Europa ao longo do sculo XIX. Podemos citar como

    exemplo o Journal des Dames et des Modes (figura 1) que foi referncia de moda entre

    1797 e 1839, para as mulheres da alta burguesia francesa que copiavam os modelos

    sugeridos nos desenhos. Mais tarde, em 1878 surge a revista Petit Echo de la Mode ( figura

    2) tambm na Frana.

    FIGURA 2 Capa da revista Petit Echo de la Mode de 20 de maro de 1927.

  • 29

    De fato, os desenhos e ilustraes de moda ganham fora e notoriedade em meados

    do sculo XX, quando surgem as primeiras publicaes sobre moda.

    Essas publicaes so, como explica CALDAS (2004), uma forma de promover a

    reeslitizao da moda, uma vez que, em funo dos contnuos progressos tecnolgicos

    das indstrias, especialmente as de confeco, a moda estava passando por um processo

    de extrema democratizao. O surgimento dos grandes magazines exemplo de como a

    moda passa a ser vista como mercadoria de fcil acesso e de mudana freqente,

    acompanhando a crescente mudana no estilo de vida, no inicio do sculo XX, deixando

    apagar os traos aristocratas nas maneiras e modos de vestir, das cortes de outrora.

    Revistas como as norte-americanas Harpers Bazar (figura 3), fundada em 1867 e Vogue

    (figura 4) fundada em 1892, firmam-se como principais veculos de difuso de moda,

    evidenciando o que ficou conhecido como alta-costura.

    Quase como que num processo de reao esta nova realidade que se impunha,

    acontece em Paris a introduo de uma nova idia de moda. O ingls Charles-Frdric

    Worth, distinto costureiro, estabelece-se na capital francesa no ano de 1857, e inicia, com

    seu trabalho, a retomada da elitizao da moda, ajudada pelas publicaes que se

    tornariam corrente.

    H na Europa uma tentativa de restaurar o glamour da alta costura de pocas

    anteriores, com as maisons, ou atelis de costureiros influentes e seletivos. Assim como

    Worth, outros notveis costureiros do inicio do sculo XX utilizavam os servios de

    FIGURA 3 Capas da revistas Harpers Bazaar do ano de 1888.

  • 30

    ilustradores e desenhistas como forma de divulgao de suas criaes entre a seleta cartela

    de clientes.

    O cenrio que se configura na virada do sculo XIX pra o sculo XX em termos de

    moda polarizado pelos Estados Unidos e pela Europa. Na Amrica do Norte a crescente

    democratizao da moda e os avanos tecnolgicos nas indstrias de confeco

    introduzem a proposta do ready to wear , o pronto para vestir que os franceses chamariam

    de prt-a-porter, com modelos originalmente criados por designer europeus.

    No Brasil da virada do sculo XX, ainda havia uma forte influncia europia nos

    hbitos e costumes principalmente das elites, que tinham acesso a viagens e produtos

    trazidos de pases como a Frana e a Inglaterra. Essa influncia estendia-se classe mdia

    que, por sua vez, copiava sua maneira o exemplo das elites, numa tentativa de igualar-se

    ou ascender. A sociedade brasileira, especialmente no Rio de Janeiro, seguia os hbitos e

    costumes franceses, como explica JOFILLY (1999, p.14),

    Com a sada de cena dos nobres portugueses, nossos senhores e reis, nada muda na colnia, que continua

    se vestindo moda europia, de olhos postos em Paris. E a nossa Republica, tambm se vestir moda

    europia. No incio do sculo XX, as mulheres continuam servas fiis da moda ditada pela Frana.

    Alm das roupas, acessrios como sombrinhas, os obrigatrios leques, a

    maquiagem e at as loes e perfumes, tudo deveria ser importado da Frana para ser

    considerado elegante. Mesmo se elegncia fosse sinnimo de martrio e sofrimento,

    principalmente para as mulheres, que deveriam se vestir de peles e tecidos de l em pleno

    vero carioca. Ainda segundo JOFILLY (1999,p.16),

    FIGURA 4 Capa da revista Vogue do ms de abril do ano de 1919. Ilustrao de Helen Dryden.

  • 31

    As madames e mademoiselles ricas vestiam-se nas tais casa s de prestigio, montadas pelos franceses. As de

    classe mdia usavam costureiras para copiar modelos de figurinos estrangeiros, rplicas fiis dos ltimos

    lanamentos franceses.

    Portanto, no Brasil do inicio do sculo XX, a moda e os valores sociais de elegncia e

    refinamento tinham espelho nos modos e costumes europeus, especialmente franceses. Na

    figura 5 podemos observar o figurino Paris Chic, revista que trazia as ltimas tendncias de

    moda diretamente de Paris e que era comercializada no Rio de Janeiro na dcada de 1950

    na sua edio original, em francs. Talvez, para as famlias aristocrticas brasileiras a

    descendncia europia e o cultivo dos costumes de origem eram de fato a diferenciaes

    desejadas, ainda que isso exigisse um grande esforo e, no caso das mulheres,

    especialmente, muitos sacrifcios. Divergncias bvias, como o clima quente e a estrutura

    das cidades (ainda em formao e o deslocamento freqente para fazendas e lugares mais

    distantes) eram problemas reais mas apesar das dificuldades, no eram levados em conta.

    De certo modo, talvez fosse justamente essa dificuldade de reproduzir hbitos em um

    ambiente pouco favorvel que caracterizava o acesso de poucos um grau de status

    considerado nobre ou civilizado.

    1.3. O desenho e seus mltiplos papis nos projetos de design de moda

    Para o Design de Moda, a construo do produto requer um processo de

    planejamento que antecede seu desenvolvimento, e que eventualmente pode se configurar

    como uma questo metodolgica bastante especifica. Segundo CALDAS (2004, p. 96),

    existem regras de observao e decifrao de sinais, tanto mercadolgicos, como de

    FIGURA 5 Pgina interna da revista Paris Chic editada no Brasil com textos e desenhos originais franceses, chamados de figurinos, modelos propostos para a primavera de 1954, com texto na lngua francesa.

  • 32

    tendncias de moda e de comportamento sociais, que so de extrema valia para o designer

    de moda planejar, desenvolver, lanar e comunicar produtos e objetos de moda no

    mercado.

    Para que os produtos de design existam, so necessrias vrias etapas. O designer

    inicia este processo, pois ele quem vai pensar na idia do que ser o produto, em termos

    de formas, materiais, cores, etc. Para isso, normalmente realiza-se um desenho ou um

    projeto onde esto inseridas todas as consideraes e decises sobre formas, adequaes,

    materiais, etc. Na Moda, este desenho ganha o nome de croqui3 e apresenta a idia do

    objeto roupa ou acessrio, sobre o corpo, j demonstrando sua funo de cobrir e

    ornamentar, muitas vezes de maneira a evidenciar as formas desse corpo ou at mesmo na

    inteno de modific-las. Alm disso, no croqui tambm feito um estudo de materiais e

    cores simulando sua coordenao e combinaes. Tambm no croqui que feito o

    estudo, atravs da representao grfica, do comportamento dos materiais escolhidos em

    relao s formas propostas. No desenho de moda, este estudo chama-se caimento.

    Assim, o croqui ou desenho de moda rene e visualiza as informaes que devem

    ser consideradas para a concepo do produto de moda, antes de sua realizao e

    reproduo em grande quantidade.

    Em seguida, dando continuidade ao processo necessrio para a realizao do

    produto de design, h uma seqncia de etapas, que variam desde a escolha de matria

    3 Ver glossrio.

  • 33

    prima, passando pela montagem e acabamento do produto. Nestas etapas, o objeto ganha

    tridimensionalidade, gerando um segundo tipo de visualidade para a idia original: se

    constri uma visualizao tridimensional, que o prottipo do objeto. Na moda, este

    prottipo tem o nome de pea piloto, pois a primeira vez que a roupa ser confeccionada.

    As etapas que seguem a partir do croqui so as etapas de modelagem, corte e

    costura do modelo proposto pelo desenho. So etapas distintas, executadas ora

    manualmente, ora mecanicamente, passando por diversas mos e setores antes de voltar

    s mos do designer que a desenhou, para verificao e aprovao. Em todas elas o

    desenho est presente, mas suas caractersticas mudam de acordo com uma funo para

    cada etapa, numa tentativa de completar ou explicar de outro modo o desenho anterior,

    evitando duvidas e principalmente erros durante a produo. Dessa forma, os desenhos que

    acompanham o processo de criao e confeco de uma pea de vesturio, por exemplo,

    tm inicialmente o formato de croqui (que ser detalhadamente explicado no capitulo dois),

    basicamente formando uma imagem da idia do designer com a finalidade de orientar o

    trabalho do modelista, que o profissional responsvel pela criao dos moldes. Esses

    moldes, que so os desenhos das partes, separadamente, que compem a pea, so

    traados em papel e j no tamanho real do modelo e serviro para orientar o corte do

    tecido, ou da matria prima determinada, no formato e tamanho adequados, na etapa

    seguinte de confeco do produto. Ainda nessa seqncia, alm do desenho em forma de

    croqui e em forma de moldes, os profissionais utilizam tambm o desenho tcnico (que

    tambm ser abordado em detalhes no capitulo dois). Este tipo de desenho esclarece sobre

  • 34

    detalhes como recortes, tipos de costuras e localizao exata de outros elementos que

    compem a pea, chamados de aviamentos4.

    Quando pensamos em Design de Moda, todo um processo de criao,

    desenvolvimento e comercializao de roupas e acessrios vem nossa mente. Neste

    processo, a principal fora a relao entre o consumidor e o produto de moda, seja ele

    qual for. Por isso, todo o design gira em torno do eixo produto versus consumidor e todos

    os elementos e aes que compem o processo do design voltam-se para essa relao,

    objetivando-a e reforando-a.

    Ainda que com funes diferentes, tanto o desenho como a ilustrao podem ser

    tidos como parte integrante do projeto de design do produto de moda. Os vrios tipos de

    desenho para a moda, como veremos no capitulo 2, tem por objetivo principal esclarecer e

    orientar o processo de construo do produto, artesanal ou industrializado, exclusivo ou

    reproduzido em srie.

    Podemos afirmar que a ilustrao e o desenho de moda podem induzir e documentar

    comportamentos e valores, alm de simplesmente refleti-los ou caracteriz-los. Dessa

    forma, podemos ainda perceber mensagens de moda implcitas em um desenho e em uma

    ilustrao por meio dos elementos que os compem, ou seja, formas, cores e arranjos

    compositivos, como explica DONDIS (2003, p. 16-18),

    4 Ver glossrio.

    FIGURA 6 Pgina da revista brasileira Fon-Fon datada de 25 de outubro de 1962, que apresenta detalhes para a leitora de como confeccionar o modelo de estola de organza quadriculada por meio de trs desenhos diferentes: maior e ao fundo, o desenho do molde para que o tecido seja cortado de maneira correta; o desenho da figura feminina vestindo a pea demonstra o caimento esperado quando a pea estiver sobre o corpo; e menor, no canto direito logo abaixo, um desenho de poucos traos representa a viso das costas da pea.

  • 35

    Se um meio de comunicao (verbal) to fcil de decompor em partes componentes e estrutura, por que no

    o outro? Qualquer sistema e smbolos inveno do homem (...) A sintaxe visual existe. H linhas gerais para

    a criao de composies. H elementos bsicos que podem ser aprendidos e compreendidos por todos os

    estudiosos dos meios de comunicao visual, (...) para a criao de mensagens visuais claras. O

    conhecimento de todos esses fatores pode levar a uma melhor compreenso das mensagens visuais.

    neste sentido que podemos ainda observar a ilustrao e o desenho de moda

    como uma face do design grfico, quando identificamos ambos como uma imagem. Imagem

    esta, que na moda, tambm pode ser entendida como instrumento de comunicao, que

    acontece ao longo de todo o processo de criao, desenvolvimento e comercializao do

    produto de moda. Comunicar o produto de moda compreende enfoques diferentes,

    dependendo da etapa em que ele se encontra, neste processo. Na etapa de criao, por

    exemplo, o desenho fundamental para o estudo da idia e definio do produto. Na figura

    6, a representao da mulher vestida demonstra ao leitor como o modelo de estola que est

    sendo proposto deve ser colocado sobre o corpo ao mesmo tempo em que fica claro a

    maneira como a pea dever se comportar sobre este corpo. J para o desenvolvimento ou

    confeco do produto, o desenho assume um papel de linguagem tcnica, que informa e

    estabelece definies em relao ao seu detalhamento de composio e estruturao. Na

    figura 7, direita, observamos como o desenho auxilia na compreenso da costura do

    modelo que aparece na fotografia. Finalmente na etapa de comercializao, o desenho

    pode ser utilizado para estabelecer ou reforar relaes entre o produto e o consumidor,

    agregando valor e criando identidades, fazendo parte do objeto, no caso de estampas e

    etiquetas, aparecendo em embalagens ou mesmo em publicidades, por vezes

    desvinculadas do produto propriamente. Na figura 8 observamos os desenhos exclusivos da

    FIGURA 7 Pginas da revista brasileira Fon-Fon, datada de 25 de outubro de 1962, direcionada ao publico feminino que trazia informaes sobre moda e detalhes tcnicos para orientar a leitora na reproduo dos modelos sugeridos.

  • 36

    revista O Cruzeiro feitos pelo ilustrador e estilista brasileiro Alceu Penna, que ficaram

    conhecidos pelo pblico como As Garotas de Alceu ao longo das dcadas de 1950 e 1960,

    em So Paulo e Rio de Janeiro, principalmente. Esses desenhos, de incio, apenas

    ilustravam modesta coluna humorstica da revista e logo se tornaram referncias de

    comportamento para as moas da poca. Trajes e trejeitos passaram a ser copiados em um

    processo de identificao entre pblico, revista e ideologias emergentes do perodo.

    FIGURA 8 Pginas da revista O Cruzeiro edio de 19 de abril de 1958. Ilustraes de Alceu Penna, que tambm era estilista.

  • 37

    O DESiGN DE MODA E SUAS REPRESENTAES

    GRFiCAS

    CA

    PT

    ULO

    2

  • 38

    2. O DESIGN DE MODA E SUAS REPRESENTAES GRFICAS

    2.1 O DESENHO E O DESIGN: ALGUMAS DEFINIES

    Muitos autores discorrem sobre as origens dos termos desenho e design, na tentativa

    de esclarecer seus usos e adequaes. certo que h muitas relaes entre significados e

    usos para estas palavras, mas a maioria dos autores parece concordar numa dupla

    significao na qual os conceitos relacionam o plano das idias e a ao concreta do fazer.

    De acordo com DENIS (2000, p.17),

    A origem mais remota da palavra (design) est no latim designare, verbo que abrange ambos os

    sentidos, o de designar e o de desenhar. Percebe-se que, do ponto de vista etimolgico, o termo

    j contm nas suas origens uma ambigidade, uma tenso dinmica, entre um aspecto abstrato

    de conceber/ projetar/ atribuir e outro concreto de registrar/ configurar/ formar.

    Contudo, hoje a utilizao da palavra design procura determinar um universo maior de

    significaes, que passa pelo campo do planejamento e estruturao de solues,

    configurando projetos e processos para a obteno de objetos utilizveis no cotidiano.

    Dessa forma, a palavra desenho passa a ter uma significao reduzida, quase que

    pejorativa limitada apenas ao ato de registro ou mera reproduo, deixando de lado a

    estreita relao que h entre o desenhar e o pensar. O registro grfico conseqncia do

    ato de pensar e no pode estar desvinculado do pensamento intelectual. Como explica

    MARTINS (2007, p.2),

    No entanto, nem mesmo a palavra drawing (desenho em ingls) pode deixar de se referir, de

    alguma forma, a um projeto, ou seja, um desgnio, a um ato de pensamento, mesmo porque essa

  • 39

    a natureza do ato de desenhar (...) seja, um mero marcar, seja um representar, seja um

    determinar, o gesto revela uma inteno (...) evidenciando a origem de um procedimento

    intelectual mais amplo e que se origina desta forma de representao grfica.

    por isso que a primeira associao que comumente feita entre o designer de moda

    e seu trabalho passa obrigatoriamente pela questo do desenho, ou seja, para ser um

    designer de moda a habilidade do desenho necessria. Em outras palavras, o trabalho do

    designer de moda conceber o produto e registra-lo graficamente para viabilizar e organizar

    sua produo.

    Na prtica, possvel constatar a importncia dessa habilidade na comunicao da

    idia, e o desenho pode ser visto como ferramenta fundamental de trabalho. Entretanto,

    importante deixar claro que, no design de moda, o desenho possui caractersticas

    especificas e se modifica em funo da etapa em que ele utilizado, tanto nos processo

    produtivos, quanto nos processos de comunicao e comercializao dos produtos de

    moda.

  • 40

    2.2 O DESENHO TCNICO DE MODA

    O desenho tcnico de moda normalmente entendido como a representao

    planificada e bidimensional de peas de vesturio e de peas de acessrios, como bolsas,

    sapatos, jias e bijuterias.

    Nesse tipo de representao, o traado preciso e obedece uma espcie de

    legenda na qual cdigos so utilizados. Esses cdigos traduzem caractersticas e tcnicas

    prprias para a representao de produtos txteis e de moda e so, portanto, tipos

    especficos de registros grficos. Por exemplo, para demonstrar costuras, a linha

    desenhada deve ser tracejada; j para representar recortes, a linha deve ser contnua. No

    h o uso de cores para o desenho tcnico, na inteno de facilitar sua leitura, mas para

    diferenciar planos, no caso de sobreposies de partes ou de materiais, podem ser

    utilizadas tonalidades claras de cinza ou hachuras (figura 10).

    A importncia da observao e utilizao desses cdigos est no fato de que o

    desenho tcnico uma etapa fundamental no processo de confeco do produto, j que o

    entendimento das partes que compem o objeto, suas relaes de tamanho, formas,

    volumes e encaixes devem ser perceptveis e compreendidas por meio desse registro

    grfico. Sendo assim, como explica LEITE e VELLOSO (2004, p.08),

    Para o desenhista tcnico de moda, a roupa deve ser entendida como um objeto que repousa

    sobre o volume do corpo, obedecendo s suas formas e articulaes. No desenvolvimento de seu

    trabalho, o profissional precisar lembrar que suas orientaes serviro de base para a confeco

    FIGURA 10 Desenho tcnico de modelo de camisa que demonstra os tipos de linhas adequados para a representao tcnica correta de costuras, vistas internas e recortes da pea.

  • 41

    da roupa e que esta, fora do corpo, uma superfcie plana, mas que ganha volume quando

    vestida, tornando-se tridimensional.

    O objetivo do desenho tcnico , portanto, demonstrar o produto de moda de forma

    clara e objetiva, visando sua reproduo exata em escala industrial. preciso lembrar que,

    muitas vezes a confeco do produto passa por diferentes mos e empresas e por isso h a

    necessidade de que este desenho seja preciso e acompanhado de informaes escritas,

    contextualizadas em Fichas Tcnicas5 (figura 11).

    Dessa forma, o desenho tcnico na rea de moda caracteriza-se como instrumento

    indispensvel nas confeces e oficinas de produo e desenvolvimento de produtos de

    moda. Alm disso, tambm encontra utilizao em catlogos e manuais

    de venda, orientando sobre os detalhes e modelo dos produtos. Conforme aponta no

    prefcio do livro Desenho Tcnico de Roupa Feminina a respectiva editora Marilia Pessoa,

    Pode-se dizer que (o desenho tcnico) uma espcie de cdigo gentico da roupa, uma vez que

    nele esto inscritas todas as informaes necessrias reproduo de cpias absolutamente

    idnticas. O tipo de tecido, a posio exata das costura s, o local onde sero colocados os

    detalhes, a grade de tamanhos, a seqncia de montagem das peas e at as ferramentas que

    devem ser usadas para aplicao de detalhes podem ser explicitadas a partir do desenho tcnico.

    5 A Ficha Tcnica um documento que registra o produto de moda tanto de forma grfica, atravs de desenhos, como de forma textual, atravs da descrio, por meio de palavras, nmeros e anotaes. Essa registro permite a reproduo exata do produto previamente idealizado. Imprescindvel na organizao da produo em escala industrial de produtos de moda, a Ficha Tcnica no apresenta, contudo, um modelo fixo para sua formatao. No

    entanto, possvel estabelecer alguns critrios a partir do produto e suas caractersticas de composio e organizao de produo. De maneira geral, possvel afirmar que a Ficha Tcnica deve conter o mximo de informao sobre o produto de moda para que haja correto entendimento sobre cada detalhe

    do produto e cada etapa de sua confeco.

    FIGURA 11 Exemplo de construo de ficha tcnica, na qual os nmeros identificam respectivamente os seguintes grupos de contedo: 1) cabealho; 2) desenho tcnico do modelo; 3) dados dos materiais utilizados; 4) etiquetas; 5) beneficiamento.

  • 42

    Assim, a elaborao de um desenho tcnico de moda sem dvida complexa, mas

    de extrema importncia para o processo produtivo industrial.

    No mercado de trabalho e tambm nas escolas de moda, este tipo de desenho pode

    ser realizado de duas formas: manualmente e digitalmente. Nos cursos de moda, o desenho

    tcnico ensinado a partir do traado manual, onde o aluno manuseia rguas e canetas

    sobre papel. Acompanhando os avanos tecnolgicos, o desenho tcnico tambm pode ser

    realizado a partir da utilizao de programas de computador que permitem a elaborao de

    linhas e planos bidimensionais. Existem programas desenvolvidos especificamente para a

    rea de moda (figura 12) e outros, de utilizao mais ampla6. Ambos oferecem ferramentas

    e solues para a elaborao do desenho tcnico e sua contextualizao nas Fichas

    Tcnicas. No mercado de trabalho, as duas tcnicas so utilizadas, mas notria a

    informatizao das empresas do setor, mesmo nas de pequeno porte.

    6 No Brasil, a utilizao de softwares desenvolvidos especificamente para atender ao setor txtil e de confeco percebida em maior parte nos departamentos de modelagem e corte de peas de vesturio, otimizando a produo e justificando, consequentemente o investimento na aquisio dessas

    tecnologias. Contudo, nos departamentos de estilo e desenvolvimento tambm existe a utilizao de softwares, ainda que proporcionalmente em menor escala. Para desenvolver produtos na rea de moda existem programas criados especificamente com essa finalidade e por isso, apresentam ferramentas e

    funes caractersticas, como a possibil idade de criao de tramas de tecidos, criao e aplicao de estampas, desenho de moldes etc. Podemos citar como exemplo a Audaces Automao, uma empresa brasileira que desenvolve tecnologias para automao de processos produtivos desde 1992. O software

    Audaces Idea possibilita, entre outros, a gerao de desenhos de moda e fichas tcnicas. Outro exemplo a francesa Lectra, que desenvolve tecnologias desde 1973 e teve destaque no setor txtil e de confeco na dcada de 1990. Os softwares Easy Grading e Modaris 3D Fit possibil itam o desenvolvimento de moldes e corte de tecidos em escala industrial e o software Kaledo auxil ia o trabalho do designer de moda na criao e desenvolvimento de produtos. No Brasil, possvel ainda observar a utilizao de softwares como Corel Draw, Illustrator e Photoshop no setor txtil e de confeco. Esses programas no so

    especficos do setor, porm possuem ferra mentas e funes que podem auxiliar no trabalho de designers de moda, gerando desenhos de moda, fichas tcnicas, estampas, catlogos e ilustraes.

    FIGURA 12 Exemplo de esudo de combinaes de cores para modelos criados no computador, com a utilizao do software Kaledo da empresa francesa Lectra.

  • 43

    2.3 O DESENHO DE MODA

    O designer de moda trabalha fundamentalmente com projetos que buscam solues

    que agreguem valores ao produto como inovao, utilidade e novidade, caractersticas,

    inclusive, da prpria moda. Isso significa que cabe ao designer conceber o produto de

    moda, vesturio ou acessrios, e estudar e propor sua viabilidade, tanto comercial quanto

    de confeco. Assim, a pesquisa de moda se faz necessria, na medida em que o designer

    busca materiais, formas e cores para adequar o produto ao consumidor final, garantindo sua

    comercializao, e tambm para adequar o produto ao modo de produo, de acordo com

    maquinrios, tecnologias e estruturas de fabricao disponveis.

    A definio desses parmetros possibilita a idealizao e a criao de produtos e o

    desenho a linguagem usada pelo designer de moda para realizar a comunicao visual

    dessas idias que ainda no se concretizaram. Esse desenho tem como finalidade

    demonstrar como o produto de moda dever se apresentar antes mesmo de sua confeco.

    Os traados, juntamente com a(s) tcnica(s) de colorizao utilizados pelo designer de

    moda, devem reproduzir de maneira convincente, e, portanto bem prxima realidade, os

    materiais e acabamentos do produto (figura 13). De acordo com RIEGELMAN (2006, p.11),

    Dentro da indstria de moda, o propsito do desenho de moda apresentar um projeto de

    considerao para possvel fabricao. Um desenho pode ser considerado til, do ponto de vista

    do designer, se ele apresenta o conceito do projeto da maneira mais clara e positiva possvel,

    representando os tecidos e materiais da maneira mais prxima do real.

    FIGURA 13 Exemplo da utilizao de tcnica de colorizao para reproduzir os efeitos de transparncia e estampas referentes aos tecidos escolhidos para o modelo.

  • 44

    No caso de o produto de moda ser uma pea de vesturio, a representao de

    texturas e caimento dos tecidos sobre o corpo deve ter ateno especial. As tcnicas de

    colorizao, por exemplo, devem ser escolhidas e combinadas de acordo com o efeito que o

    designer idealizou para aquele produto. Por exemplo, canetas para colorir feitas a base de

    gua ou lcool que misturam cores de forma suave e transparente, possibilitam a simulao

    de fluidez e leveza de tecidos como organzas e musselinas ou os lpis de cor do tipo

    aquarelvel, que possuem textura granulada quando no dissolvidos por pincel e gua, que

    podem simular tramas mais densas e pesadas de tecidos como tafet ou veludo.

    Para a indstria, o desenho de moda tambm conhecido pela denominao croqui

    (figura 14). De origem francesa, muito provvel que esse termo seja, ainda hoje, utilizado

    no Brasil uma vez que a Frana continua sendo uma das principais referncias de moda

    mundiais em termos de lanamento de tendncias e difuso de informaes sobre moda.7

    No croqui um estudo feito em relao aos materiais e cores simulando sua coordenao

    e combinaes. Tambm no croqui que feito o estudo, atravs da representao grfica,

    7 Na Europa do inicio do Renascimento, de acordo com BRAGA (p. 44), As cortes europias j estavam muito bem estabelecidas e, sendo assim, houve uma identidade prpria de cada pas nos seus respectivos hbitos de cobrirem o corpo e adornarem-se. (...) De uma maneira geral, apesar das

    peculiaridades, a moda teve uma certa similaridade, pois um povo acabava influenciando outros. Essa influncia acontecia principalmente atravs das elites e sua condio de intercmbio cultural por meio da arte. Conforme explica CALDAS (p. 52), At o sculo XVIII, a difuso dos fenmenos assim originados

    pelas elites sociais dava-se principalmente por meio de retratos pintados e de bonecas, enviados principalmente da Frana para os outros pases da Europa. (...) Esse sistema de difuso, muito caro para os clientes, foi aos poucos substitudo pelo Journal de Mode, precursor das revistas, que apareceu na Frana

    no final do sculo XVIII e proliferou aps a Revoluo Francesa. No Brasil, durante o perodo colonial, a corte portuguesa trazia para a colnia a influencia que recebia da corte francesa. Segundo JOFFILY (p.12), (...) o Brasil colnia (...) se rende industria do vesturio europeu e passa a ser um habitual

    fregus dos modos e modas francesas, que aqui chegavam via Portugal. Essa influencia permaneceria no Brasil at o inicio do sculo XX, quando as elites brasileiras ainda tinham por hbito importar tecidos, modelos e revistas francesas, afirmando, ainda segundo JOFFILY (p.15) que o que no era francs no era elegante. Inclua-se a a lingerie-dia, as loes, a maquiagem, as sombrinhas, os leques, os vestidos fechados at o pescoo, s vezes com longas caudas e todos os adornos.

    FIGURA 14 Croqui do famoso estilista brasileiro Dener Pamplona de Abreu, de 1976.

  • 45

    do comportamento dos materiais escolhidos em relao s formas propostas. No desenho

    de moda, este estudo chama-se caimento.

    De acordo com as definies para a palavra croqui, encontradas em dicionrios da

    lngua portuguesa8 e da lngua francesa9 e tambm em dicionrio de termos artsticos10,

    parece haver concordncia entre os autores a respeito de sua significao. Em geral,

    definies como esboo, desenho rpido e esquema poderiam elucidar o uso do termo.

    Contudo, no design de moda, o uso da palavra croqui est diretamente associado

    representao da idia do designer, a partir do ato de desenhar. Assim, o croqui a juno

    do fazer e do pensar o produto de moda em termos projetuais. Em outras palavras, quando

    o designer de moda concebe o produto, a necessidade de exterioriz-lo, comunic-lo ou

    mesmo de estud-lo resolvida por meio da representao grfica que revela, no ato de

    desenhar, a idia, a inteno e o plano do designer (figura 15). Ainda de acordo com

    RIEGELMAN (p.11),

    Do ponto de vista do cliente aquele quem vai analisar o desenho e decidir se o produto ser ou

    no fabricado a utilidade do desenho est na representao dos materiais que no apenas

    devem parecer atraentes, mas principalmente devem estar representados de forma realstica, para

    que haja uma impresso precisa do produto e seu efeito final.

    Assim, o croqui de fundamental importncia, uma vez que, se bem feito, pode

    convencer donos de empresas ou compradores de produto, por exemplo, a favor de sua

    fabricao, mesmo sem que tenha sido realizado um prottipo do produto. Portanto, o 8 Dicionrio Aurlio da Lngua Portuguesa, editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1988. 9 Dicionrio Petit Larousse Illustr, 1991. 10 MARCONDES, Luis Fernando. Dicionrio de Termos Artsticos. Edies Pinakotheke, Rio de Janeiro, 1998.

    FIGURA 15 Croqui desenvolvido pela estilista brasileira Isabela Capeto para a marca Taeq, do grupo Po de Acar, para o vero 2007/ 2008 apresentado ao lado da pea pronta.

  • 46

    desenho de moda feito de forma clara e positiva, alm de seduzir, tambm reduz custos e

    otimiza recursos e tempo para a indstria.

    2.4 A ILUSTRAO DE MODA

    Outra forma de representao grfica que a moda possui a ilustrao, que assim

    como o desenho de moda, permite uma ampliao dos significados subjetivos. Entendida

    aqui tambm como linguagem de representao visual, a ilustrao de moda traz elementos

    prprios deste universo e vai mais alm, incorporando e interpretando elementos culturais e

    sociais. Isto significa dizer que a ilustrao de moda traz o pulsar do tempo, pois carrega

    traos desse tempo, valores e comportamentos, mudanas e oscilaes, que influenciam a

    percepo e a concepo de novas estticas, bem como anlise e interpretao do esprito

    do tempo, da poca em que ela foi realizada. Por isso mesmo, a diferena entre desenho e

    ilustrao muito sutil e suas nuances se entrelaam e se misturam, dificultando a

    percepo de limites.

    Um possvel ponto de referencia que permite a diferenciao entre desenho e

    ilustrao a prpria idia de comunicao do produto de moda. Se em ambos h a

    representao grfica de peas de roupa ou acessrio, o desenho ou croqui preocupa-se

    com seu detalhamento e caractersticas envolvidas em sua fabricao e na ilustrao

    concentra-se na mensagem de moda intrnseca a este produto. A partir dessa perspectiva,

    FIGURA 16 Ilustrao da brasileira de Fernanda Guedes calendrio 2008, ms de maro.

  • 47

    podemos entender que a ilustrao de moda est no campo do experimental: novas

    estticas, conceitos e tcnicas de comunicao tanto de moda como de estilos de vida.

    Estas outras informaes so lidas de acordo com o repertrio do espectador. De

    acordo com o comentrio de Jonathan Tran, ilustrador de moda britnico, no prefcio de

    Fashionize,

    A ilustrao de moda deve capturar idealismos e comportamentos. Elas devem comunicar tudo

    quilo de inatingvel e subjetivo que envolve o objeto em questo.

    Quando observamos as ilustraes de moda contemporneas, como o exemplo da

    figura 16, fica ainda mais claro que esse tipo de representao recusa classificaes

    tradicionais; ela encontra e segue seus prprios caminhos, em meio a tendncias e novas

    tecnologias digitais. Na figura podemos perceber formas e cores que nos remetem ao

    universo jovem e descontrado dos anos de 1970. Mas os personagens feminino e

    masculino que aparecem nos do pistas da mistura de pocas e referncias: a forma da

    boca da garota, grande e carnuda e seu brao magro e exageradamente torneado pode

    remeter imagem de beleza que o cinema hollywoodiano apresenta no final da dcada de

    1990. Ainda possvel outra gama de interpretaes, que dependem do referencial do

    espectador. Percepes como a questo do posicionamento da mulher na sociedade

    contempornea, j que a figura feminina aparece maior e no centro da imagem, ou ainda a

    ligao entre musica, tecnologias e comportamento jovem, por meio das representaes de

    discos de vinil (long-plays ou LPs), fitas cassete e compact discs (ou CDs), apenas para

    citar algumas possibilidades nessa imagem.

  • 48

    A ilustrao pode, tambm, fazer parte do projeto de comunicao do produto de

    moda, tanto para o processo de produo como para o processo de venda, exercendo

    influncias sobre o consumidor. Quando isso acontece, a ilustrao deixa de ter um carter

    experimental e passa a considerar questes que envolvem a comercializao do produto de

    moda.

    Em outras palavras, a ilustrao de moda pode ser uma forma de comunicao entre

    marcas e produtos e seus consumidores, criando e identificando cdigos sociais para essa

    comunicao. Segundo GARCIA (2005, p.99-100),

    (...) a moda um instrumento poderoso de insero humana no contexto cultural, tornando-se

    tambm ela um sujeito ativo que detm o poder para agir de diferentes formas no processo

    comunicacional; (...) moda como instrumento de comunicao (...) no-verbal, ou seja, expresso

    do eu em interao com o mundo.

    Dessa maneira, as ilustraes de moda so utilizadas inclusive para transmitir

    valores e conceitos anteriores ao produto de moda em si. Torna-se uma imagem que pode

    no estar preocupada com a identificao do produto para venda direta (detalhes do

    modelo, por exemplo), mas sim com a identificao dos valores e referncias que a marca,

    ou fabricante, atribui a seus produtos de forma geral. A idia buscar, antes da compra

    imediata, uma identificao, por parte do consumidor, com relao marca propriamente,

    conquistando assim a fidelidade desse consumidor e garantido vendas futuras. O exemplo

    da figura 17 demonstra a utilizao da ilustrao para agregar valor ao produto perfume,

    trazendo-o para o universo da moda e estabelecendo uma conexo entre a imagem

    estampada na embalagem e a provvel consumidora.

    FIGURA 17 A ilustrao da brasileira Fernanda Guedes na caixa dos perfumes Ops! da loja O Boticrio pode nos informar sobre o perfil da consumidora desses perfumes e ainda traz a sensao das fragrncias.

  • 49

    Atravs do uso das cores quase podemos sentir o cheiro do perfume: o que aparece

    esquerda da figura tem em sua embalagem o verde e o azul, cores que possuem

    conotao fria e refrescante. O desenho da garota em pose descontrada e solta, usando

    roupas leves, frescas e de cores fortes, tpicas de vero, traz a idia de uma jovem

    consumidora de frias na praia, em um dia ensolarado. A ilustrao que aparece direita na

    figura tem as cores vermelho e laranja em profuso, que conferem conotao mais quente e

    adocicada, e que, quando associadas ao desenho da garota usando um vestido mais

    escuro e justo ao corpo sugerem uma situao de fim de tarde ou de agitao em bar ou

    casa noturna, bem tpico do comportamento de uma jovem na faixa dos seus vinte anos.

    Em seu livro Observatrio de Sinais, CALDAS (p. 113 - 114), afirma que para uma

    tendncia de moda existir, ela depende da crena naquilo que se quer fazer crer e que, para

    tanto, o processo comunicativo que veicula essa tendncia constitudo por dois plos: o

    emissor da mensagem e o receptor da mensagem. Podemos entender o plo receptor

    como o individuo que consome objetos e produtos de moda e o plo emissor como o

    designer de moda, responsvel pela insero de mensagens nos objetos e produtos de

    moda. Estabelecidas as pontas da comunicao, entendemos que a mensagem de moda

    dever seguir o caminho de um para o outro. A moda se apropria de imagens, muitas vezes

    criadas pela publicidade, para a comunicao da mensagem. Assim, a forma no-verbal de

    expresso que se d atravs de imagens passvel de ser analisada e interpretada pelo

    receptor/ consumidor, possibilitando o contato e a identificao entre produto e usurio.

    Figura 18 Exemplo de imagem figurativa, esta ilustrao da desenhista paulista Fabiana Shizue.

  • 50

    possvel identificar a ilustrao de moda como essa imagem que comunica e

    carrega mensagens ao consumidor. Mesmo sendo figurativas, essas imagens representam

    algo de carter abstrato e geral. Podemos classificar as ilustraes de moda

    contemporneas nessa categoria j que tratam do comportamento e atitudes das

    sociedades atravs da linguagem corporal onde as roupas so smbolos de informao e

    comunicao e no necessariamente da roupa como produto. No exemplo da figura 18, a

    ilustrao traz elementos de moda como a cala jeans por dentro das botas e a mistura nos

    estilos dos acessrios (colares, pulseiras e faixa no cabelo). Contudo, outros elementos

    compositivos nessa imagem nos fornecem pistas para um entendimento mais amplo:

    caractersticas culturais e sociais podem estar descritas ou escondidas na escolha em vestir

    a personagem com calas do tipo jeans e botas no estilo norte-americano que conhecemos

    como cow-boy; na posio em que a garota se encontra, parecendo estar muito a vontade

    sentada no cho, o que tambm pode ser um indicio de caractersticas comportamentais de

    uma jovem urbana que tem acesso informao de moda, por exemplo.

    Ainda de acordo com SANTAELLA, h outra classificao possvel para uma

    imagem: a imagem simblica. Este tipo de imagem seria um meio termo, uma ou muitas

    nuances entre a idia de temporalidade e de atemporalidade. O simbolismo na imagem

    tambm pode ser determinado a partir de regras culturais, onde os elementos que

    constituem a imagem so passveis de interpretaes que vo alm de seu significado

    comum ou imediato, e que dependem de referncias culturais e de valores atribudos

    objetos ou representaes, cdigos culturais:

    FIGURA 19 Capa da revista A Cigarra, de 1918 Revista feminina que trazia informaes de moda e comportamento s mulheres de boa famlia da sociedade paulistana do inicio do sculo XX.

  • 51

    J as imagens simblicas, embora possam sugerir a temporalidade de possveis referentes, essa

    temporalidade sempre to geral e vaga quanto genrica e universalizante a funo referencial

    desse tipo de imagem. (p.84)

    Nas figuras 19 e 20, por exemplo, podemos observar que o fato de haver um

    espao de tempo entre a realizao de uma ilustrao e de outra de quase cem anos no

    interfere na inteno ou na mensagem que o efeito grfico de cores e formas prope:

    ambas colocam a figura feminina no centro da ateno em meio profuso de movimentos

    soltos e fluidos. Elementos compositivos como grafismos, linhas sinuosas e formas

    geomtricas aparecem e podem reforar informaes de moda como tendncia de

    estampas e padronagens11, por exemplo. Por outro lado, em ambas as ilustraes o

    elemento ar est presente, seja no movimento da grande saia listrada na figura 19, seja

    nas formas que sugerem asas que a garota parece sustentar na figura 20, transformando-a

    em um ser alado; a fita que prende os cabelos da mulher da figura 19 possui o mesmo

    movimento dos cabelos soltos da mulher da figura 20, trazendo novamente a sensao de

    brisa. Cores fortes e vibrantes parecem sugerir dias de vero, assim como a sombrinha que

    a mulher da figura 19 segura no ombro, mas o uso de cores como azul e verde refora e

    sensao de frescor sugerida antes.

    Diferentemente da imagem fotogrfica, por exemplo, a ilustrao gera uma imagem

    que mais abrangente, pois h nela a possibilidade de permitir mundos possveis, uma

    vez que no tem o real como pano de fundo e nem como fator limitante, mas em vez disso,

    traz do real apenas referencial para representao. 11

    Ver glossrio.

    FIGURA 20 Ilustrao de Fernanda Guedes para a tecelagem Rosset, 2006.

  • 52

    Na figura 21, a ilustrao a trao e sem cores traz uma profuso de imagens que

    nos levam a outros mundos possveis, imaginados pelo artista. Linhas sinuosas parecem

    estar suspensas no ar, como pensamentos fluidos que no tm comeo e nem fim, mas que

    se entrelaam e mudam de forma, nos levando a outros lugares. Existem ainda ps que

    esto apoiados em um cho invisvel e ps a cima de outras cabeas, pouco definidas, e

    um corpo feminino que sustenta uma improvvel cabea de gato...

    Esta ilustrao um exemplo de como o designer pode buscar na moda

    referenciais de formas e texturas que, combinados com comportamentos e atitudes,

    descrevem o universo feminino e suas possibilidades, de acordo com a sua interpretao.

    A moda pode ir mais alm e tambm propor novos corpos. Apropriando-se da arte e

    da tecnologia, a ilustrao de moda um meio para veicular essas propostas, produzindo

    imagens intrigantes e reveladoras.

    Atualmente, existem vrios exemplos em que podemos observar a moda como

    referncia na proposio de novas configuraes para esse universo feminino, inclusive a

    silhueta.

    Na figura 22, a ilustrao pode ser vista como a interpretao que o designer fez do

    corpo contemporneo. Nessa imagem, o movimento do corpo o fator mais relevante para

    sua configurao e a silhueta marcada pelo contorno que esse movimento descreve. A

    FIGURA 21 O ilustrador brasileiro Caio Borges encontra na moda grande referncia para seus trabalhos.

  • 53

    ao fragmentada pelo espao do tempo e relativizada por meio do uso de tecnologias.

    Na falta ou impossibilidade do uso de tais tecnologias, a representao do movimento pode

    ser resolvida por meio de quadros separados por linhas, mas unidos pela cor, posicionados

    em seqncia cclica, sem inicio ou final. Nessa representao cada parte, distinta e

    singular, constri um todo multifacetado e nico.

    FIGURA 22 Nesta seqncia de desenhos o ilustrador Chris Gambrell, do Reino Unido, prope novos movimentos para o corpo que veste a coleo da Dior Home para o outono de 2003. Esta ilustrao contempornea pressupe o uso de tecnologias para ser adequadamente visualizada. Disponvel no endereo eletrnico http://www.hintmag.com/archives/archives.php , os desenhos so animados por um programa de computador que repete a seqncia de quadros ciclicamente, em determinada velocidade, criando a sensao de movimento. Alm disso, o programa combina imagem e som, criando ritmo e atmosfera, envolvendo o espectador no jogo de cores, formas, transformaes e possibilidades.

  • 54

    A SiLHUETA FEMiNiNA E O DESiGN DE

    MODA

    CA

    PT

    ULO

    3

  • 55

    3. A SILHUETA FEMININA E O DESIGN DE MODA

    Como vimos o desenho ferramenta fundamental para o designer de moda. Em um

    primeiro momento, o desenho tido como instrumento de estudo e expresso de idias e

    conceitos que antecedem o produto propriamente, porm so intrnsecos ele. Ao longo da

    produo da pea o desenho tambm assume papel de instrumento de comunicao, tanto

    para o auxlio da confeco e realizao deste produto de moda como na sua efetiva

    comercializao.

    Quando falamos em produto de moda, entendemos que a amplitude do termo

    considera elementos decorativos e de complemento, como jias, bolsas e sapatos tambm

    como pertinentes rea de moda. Contudo, importante dedicarmos maior ateno s

    peas que compem o vesturio, isto , a roupa. A roupa e suas inmeras variaes, que

    no somente cobrem o corpo, como colaboram para a construo da imagem deste corpo.

    Podemos chamar esta imagem de silhueta na medida em que consideramos as formas, os

    volumes e as muitas relaes entre estes fatores, que criam diferentes contornos para o

    corpo.

    Em outras palavras, quando o designer de moda idealiza uma pea para determinado

    corpo vestir, a figura humana se torna uma imagem em funo do conseqente delinear

    desse corpo pela roupa, que ora evidencia suas formas originais, ora transforma volumes

    em outras possibilidades. E h ainda que se considerar a construo da roupa pelo corpo

    FIGURA 23 Nestes croquis da ilustradora brasielira Fabiana Shizue, realizados em 2006, possvel perceber a silhueta longelinea e esguia, com volumes pequenos porm femininos. Uma figura feminina magra e saudvel e com as curvas naturais do corpo, sem exageros.

  • 56

    que a veste, em funo das mesmas formas e volumes que, em suas variaes, preenchem

    e modelam tecidos e outros materiais. Estas proposies, pensadas e concebidas pelo

    designer se materializam, em primeira instncia, por meio dos desenhos de moda, que

    representam as possibilidades de contornos desses corpos vestidos, ou seja, as silhuetas

    de moda. Isto significa que o desenho de moda a primeira expresso da imagem ideal da

    figura humana em termos de aparncia desejada em determinada poca e lugar (figura 23).

    Dessa forma, os desenhos revelam mais que a idia do modelo da roupa uma vez que

    consideram o individuo e sua imagem em funo da vestimenta, ou ainda, a roupa e o

    individuo em funo de sua imagem. o que explica Ana Claudia de Oliveira12 na

    apresentao do livro Moda e Linguagem, CASTILHO (2006):

    Intimamente imbricada s feies do sujeito que cada poca faz emergir como uma de suas

    expresses, a moda , dentre essas, talvez, a expresso mais significante, que faz circular o

    sistema de valores parti lhado pela coletividade com suas regras de conduta. Quer na moda

    vestimentar, quer na moda das silhuetas, impem essas um contingente de coeres que

    presentificam os contextos ao lhe dar uma modelao que lhes confere existncia. Na moda e por

    ela, os sujeitos mostram-se, mostrando os seu s modos de ser e estar no mundo, o que os

    posiciona neles. (p.09)

    Concordamos com Oliveira na afirmao de que corpo e roupa, por encontrarem-se

    plasticamente fundidos, compem conjuntamente a aparncia final do sujeito. Ser por

    intermdio de decorar-se, ornamentar-se e vestir-se que se formaro concepes de

    beleza, bom gosto, costumes e comportamentos prprios de cada sociedade (p. 13). A

    figura 24 ilustra a idia de que a silhueta de moda revela no contorno de corpos e roupas 12 Ana Claudia de Oliveira professora da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo e orientou os trabalhos de mestrado e doutorado de Kathia Castilho na Ps-Graduao em Comunicao e Semitica da PUC-SP.

    FIGURA 24 Ilustrao de Caio Borges traduz em formas e cor a imagem ideal da mulher jovem contempornea: caractersticas como segurana e confiana podem ser identificadas na postura da cabea, apoiada em longo pescoo e quase voltadas para cima e nas pernas, ora apoiadas firmemente ao cho e ora apontando para frente. Liberdade e frescor, nos longos cabelos esvoaantes. As sacolas e telefones celulares conferem o tom tecnolgico e consumista, tpico do individuo urbano contemporneo. As silhuetas finas e alongadas remetem preocupao atual com corpo e a cultura magreza. O uso da cor rosa remete ao padro clssico de identificao do feminino. Por outro lado, a solidez e uniformidade da colorizao nos faz lembrar de somos mais um na multido, quase como uma sombra, sem identidade, porm, fazendo parte do todo.

  • 57

    traos de pocas e como tal, nos fornece pistas sobre a configurao do individuo e , por

    isso mesmo, bem mais do que uma mera representao.

    3.1 Parmetros mais freqentes para representao da silhueta no desenho de moda

    O desenho de moda, especificamente o croqui, e as ilustraes promovem o que

    CASTILHO (2006, p. 81) chama de (re) arquitetura anatmica. Os desenhos e as ilustraes

    so imagens criadas pelo homem a partir do corpo biolgico natural. Por meio da

    imaginao humana, essas representaes grficas exprimem valores intrnsecos sua

    poca. O corpo biolgico , ento, transformado em um ser cultural, produto de seu tempo

    e imaginao. Isto acontece tambm em funo da necessidade humana de comunicao.

    A linguagem corporal, que antecede a comunicao por meio de palavras, encontra na

    moda forte aliada para reforar gestualidades, trejeitos e principalmente a imagem daquilo

    que se quer parecer ou ser. Neste sentido, a moda colabora para a garantia de uma

    identidade social e cultural do individuo e o corpo assume um papel de suporte da roupa e

    do discurso daquele indivduo, em determinada poca e lugar, inclusive nas suas

    representaes. Por outro lado, a moda pode colaborar na busca por uma nova identidade e

    por um novo posicionamento dessa pessoa que encontra na moda recursos para a

    expresso de um novo significado e uma nova comunicao em relao ao que ele e o

    que ele quer parecer ser. quando, por meio da moda o corpo re-inventado e modificado

    em suas formas originais com propsitos muitas vezes estticos, e que sempre acabam por

    revelar caractersticas e valores.

  • 58

    No croqui, o corpo geralmente ganha destaque, pois ele que vai dar vida ao

    produto, justificando-o e emprestando seus movimentos a ele, carregados de simbolismos e

    caractersticas. Os estudos em moda, bem como profissionais da rea, consideram a forma

    como o corpo se apresenta nesses desenhos de fundamental importncia, j que o produto

    de moda pode ser valorizado em funo da postura e gestualidade desse corpo

    representado no desenho. Por outro lado, essa postura tambm entendida como a atitude

    que esse corpo tem ou quer ter e que pode ser evidenciada pelo produto de moda. Nos dois

    casos, o objetivo principal do croqui alcanado, na medida em que a mensagem de moda

    que o desenho transmite comunica produto e conceito. A eficincia dessa comunicao

    fundamental para a garantia de aprovao daquele modelo ou idia e sua conseqente

    realizao.

    Se o croqui pressupe o traado corpo como base para o desenho da roupa,

    necessrio verificar como se d essa construo. Quando a figura humana construda no

    desenho de moda atual, ainda se utiliza o estudo de proporo estabelecido na Antiguidade

    por Vitruvius13. Resgatado por Leonardo Da Vinci no Renascimento, o estudo se resume no

    famoso desenho, chamado O Homem Vitruviano, realizado no final do sculo XV, com

    bases nas observaes de Vitruvius. Essas observaes foram, por sua vez, transcritas no

    topo e logo abaixo do desenho e so descries detalhadas das relaes geomtricas e 13 MARCUS VITRUVIUS POLLIO, foi arquiteto e coordenador militar romano durante o segundo Triunvirato (por volta de 40 a.C.). Seus estudos sobre proporo e figura

    humana encontram-se no livro de sua autoria chamado De Architectura, livro III de X, captulo 1, "na simetria nos templos/ construes e no corpo humano. Esta passagem

    fornece tambm a chave da composio da arquitetura da Antiguidade (perodo anterior Era Crist) e foi resgatada firmemente no Renascimento, pois enfatiza a

    racionalizao da geometria, por meio dos nmeros inteiros pequenos para construir a composio deste modo Vitruvius delineia a proporo do corpo humano masculino.

    FIGURA 25 O Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci, 1490. Este estudo revela observaes e relaes geomtricas tais como: o umbigo o centro do corpo humano e coincide com o centro da circunferncia criada a partir dos membros afastados; a altura do homem igual a largura do corpo com os braos estendidos, por isso a figura em forma de T se encaixa perfeitamente dentro de um quadrado.

  • 59

    matemticas entre as partes e o todo da figura humana (figura 25). O desenho renascentista

    reproduz fielmente as observaes feitas na Antiguidade, descritas em estudos sobre

    questes do estilo, da proporo, da ornamentao, sobre os sentidos das ruas, fundaes

    e subestruturas, inclusive mtodos e materiais para construo, alm de invenes antigas,

    acstica, e harmonias estruturais.

    O estudo considera a cabea como unidade de medida e comparao entre as partes

    que compe o todo. Dessa forma, estabelece que a altura do homem igual a sete vezes e

    meia o tamanho de sua cabea, como demonstra o mapa de estudos da figura 26. Esta

    uma concepo clssica, utilizada desde o Renascimento em pinturas e esculturas de

    diversos artistas como Leonardo Da Vinci, Rafael, Botticelli, Michelangelo, entre outros. De

    acordo com os valores da poca, a perfeio da natureza era tida como divina e

    consequentemente, utilizada como parmetro de beleza para a realizao de obras como

    pinturas e esculturas, que retratam a figura humana com valor divino. Por isso, o estudo de

    Leornado Da Vinci tambm conhecido por Divina Proporo, pois traduz o pensamento

    vigente daquela poca. Podemos relacionar como alguns dos importantes fatores do

    pensamento Renascentista que influenciaram as artes da poca, a organizao, a harmonia

    e o equilbrio entre formas, volumes e propores na construo do desenho da figura do

    corpo humano. VIGARELLO (2006) comenta sobre a Divina Proporo de que se trata de

    correspondncia csmica cuja teoria das propores tira do sculo XVI seu prestgio

    inaudito: ela revelaria nas normas matemticas da beleza fsica o princpio do gesto divino,

    recolhido inteiramente na cifra absoluta (p. 36).

    FIGURA 26 Mapa de estudos desenvolvido pela autora para as aulas de desenho de moda, que toma como ponto de referencia os estudos de Vitruvius e Da Vinci para a a construo da figura humana de moda.

  • 60

    Esse modelo ainda utilizado para a representao da figura humana de moda, ao

    longo do sculo XX. Entretanto, quando nos aproximamos do incio do sculo XXI possvel

    perceber que esse parmetro de perfeio e beleza comea a ser questionado. O desenho

    de moda revela esse questionamento quando aponta alguns ajustes na construo do

    corpo ideal, tomando como base a Divina Proporo. Para o desenho de moda, ocorrem

    distores nos parmetros de proporo, principalmente. A figura de moda, tanto feminina

    quanto a masculina construda com pelo menos nove cabeas de altura, em vez das sete

    e meia, propostas por Da Vinci. O resultado uma figura mais alta, de silhueta alongada e

    longelnea, muito parecida com as mulheres consideradas belas de nossa poca, como

    vemos na figura 27.

    O traado e a composio do corpo da figura de moda, principalmente o feminino,

    como vimos, apresentado de forma a seguir os padres de beleza vigentes em cada

    poca, na inteno de localizar e contextualizar o produto de moda tanto culturalmente

    quanto socialmente. Assim, o desenho de moda representa certa idealizao da realidade,

    por vezes distorcida, funcionando como estratgia visual de aceitao. Neste sentido,

    como explica CASTILHO (2006),

    A associao entre corpo, gestualidade e os elementos de decorao e vesturio estabelece

    interaes diversas em vrios nveis de posicionamento e de reconhecimento social que permitem

    ao ser humano expressar-se amplamente nas manifestaes discursivas que o presentificam e

    seu contexto social (p.40).

    Em outras palavras, h certa manipulao das informaes visuais que compem o

    desenho de moda, por parte do designer, na inteno de conduzir o olhar e a percepo do

    FIGURA 27 Mapa de estudos criado pela autora para uso em aula de desenho de moda que demonstra o traado da figura humana de moda estilizada, isto , o desenho aumenta em aproximadamente trs cabeas a altura da figura, a partir da Divina Proporo, e cria corpos alongados, especialmente pernas e braos. Dessa forma, a figura impe e marca sua presena no desenho, evidenciando e valorizando a mensagem de moda que quer comunicar.

  • 61

    observador para aquilo que importante naquele produto, seja a adequao de seu

    conceito ao pblico a que se destina, seja algum detalhamento ou particularidade em

    relao a formas ou materiais inovadores, ou ainda algum elemento de diferenciao e

    originalidade. Como j foi dito, importante que haja fidelidade na representao do produto

    de moda, especialmente os de vesturio (roupas e acessrios) em termos de formas, cores

    e materiais, j que a inteno a de simular o objeto final. Assim, a manipulao, ou ainda

    a distoro necessria para a eficcia do arranjo compositivo dessa imagem que se

    configura, e que estamos chamando de desenho de moda ou croqui, acontece

    principalmente na composio do elemento de base, que sustenta o produto: o corpo. Este

    corpo passa a ser representado ento como um corpo humano estilizado, ou figura humana

    de moda, denominao muito comum em livros e manuais de desenho de moda.

    Essa estilizao ou manipulao que gera a figura humana de moda caracterizada

    pelo exagero de alguns elementos do desenho: forma e volume que caracterizam a

    estruturao desse corpo, ou movimento, que caracteriza a gestualidade da figura em

    termos de posturas e poses. As distores, no entanto variam de acordo com a inteno do

    designer, mas notria a influncia dos padres de beleza vigentes nas pocas em que o

    desenho realizado. As figuras 28 e 29 mostram como o mesmo designer observa essas

    questes. A silhueta das garotas moldam-se, por meio da representao da vestimenta,

    revelando ou disfarando as formas do corpo feminino.

    FIGURA 28 ilustraes de Alceu Penna, designer brasileiro de moda que nas pginas da Revista O Cruzeiro de 1954 delineia de forma bem marcada a cintura de suas famosas Garotas, conforme a moda da poca, de saias amplas que destacavam os quadris aumentando-os ainda mais e apertando a cintura com faixas e cintos, retomando a forma de ampulheta, que caracteriza a figura feminina desde o final do sculo XVIII. A gestualidade das garotas marcada pela inocncia com seus pezinhos levantados do cho em movimentos delicados e infantis, outra caracterstica considerada feminina e graciosa.

  • 62

    33.2 Algumas silhuetas do sculo XX: traos de pocas

    O desenho e a ilustrao de moda contm valores e referenciais de todo um grupo

    social em funo de uma determinada poca, servindo ainda como registro cultural,

    especialmente no que se refere s transformaes estticas da silhueta. importante notar

    que ao longo da Histria do vesturio, a silhueta feminina passa por alteraes e

    modificaes, mais freqentes que a masculina. Enquanto a primeira sofre interferncias

    significativas nos volumes, formas e propores especialmente em algumas regies do

    corpo, a segunda se mantm mais fiel anatomia natural. Isso ocorre, em parte, em razo

    de ser destinada mulher, ao longo da Histria, a funo da seduo. Como explica

    CASTILHO (2006),

    Tal manipulao, por meio de elementos que modificam amplamente a visualizao corprea, faz

    parte do jogo de seduo que estrutura parte dos programas narrativos executados pelo feminino

    (p.114).

    Entretanto, no apenas em funo dos jogos de seduo que silhuetas e roupas

    desempenham papel determinante. Os papeis sociais de homens e mulheres tambm so

    identificados por meio da vestimenta e frequentemente reforados por ela. Veremos mais

    adiante, alguns exemplos de como isso ocorre em alguns perodos especficos do sculo

    XX.

    FIGURA 29 Pagina da revista O Cruzeiro do ms de maio de 1958, na qual as Garotas de Alceu Penna aparecem com silhuetas alongadas tanto pelos trajes como pela posio das pernas projetadas para frente e para os lados. Seus gestos deixam de ser inocentes e passam a revelar uma personalidade mais descontrada, indo ao encontro da postura menos rigida dos jovens da dcada de 1960.

  • 63

    sabido que o papel da mulher atravs do ltimo sculo passou por diversas

    transformaes, acompanhando as velozes e inmeras mudanas socioeconmicas,

    polticas e culturais que aconteceram em mbito mundial neste perodo. A moda registra,

    sua maneira a importncia dessas mudanas: silhuetas surgem, substituem e se

    contrapem s anteriores, marcando e construindo a imagem da mulher desse tempo. Os

    desenhos de moda so alguns desses registros. Veiculados em publicaes como revistas

    de comportamento, catlogos e publicidade de lojas de roupas e objetos de decorao,

    muitas vezes voltadas exclusivamente para o pblico feminino.

    A seguir, por meio de desenhos e ilustraes selecionados principalmente em alguns

    dos veculos citados, descrevemos perodos significativos do sculo XX nos quais

    localizamos importantes mudanas principalmente no estilo de vida das mulheres

    ocidentais, marcados por acontecimentos mundiais. Nesses perodos, a moda aponta

    silhuetas para a mulher em funo desses contextos. Os traos propem alm de roupas,

    novas relaes entre formas, volumes e movimentos para a construo de novos corpos

    que revelam a imagem de novas mulheres.

    3.2.1. Silhueta andrgina: o desejo de parecer e ser

    Na passagem do sculo XIX para o XX j so freqentes as publicaes voltadas para o

    pblico feminino, especialmente revistas femininas (figura 30). Esse tipo de publicao

    contm normalmente uma seo fixa de moda, com imagens de modelos de roupas e

    complementos. Muitas vezes essas imagens so ilustraes e desenhos que reforam

    FIGURA 30 Nesta capa de 1856, a ilustrao mostra o corpo das duas figuras femininas em p e quase totalmente visto de lado, enfatizando o volume na parte de trs, conseguido por meio de armaes, A linha que forma do pescoo at o quadril uma linha sinuosa, em S, acentuando a caracterstica feminina de formas arredondadas, expresso da beleza da poca.

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    pequenos textos sobre as novidades e ltimas inovaes da moda, principalmente a

    parisiense, considerada centro absoluto de referncia mundial sobre o assunto. Essas

    publicaes ganham importncia na medida em que os grandes