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NOÉLIA CRISTINA RODRIGUES PIMENTA GOMES O DOENTE CIRÚRGICO NO PERÍODO PRÉ-OPERATÓRIO: DA INFORMAÇÃO RECEBIDA ÀS NECESSIDADES EXPRESSAS Dissertação de Candidatura ao Grau de Mestre em Ciências de Enfermagem, submetida ao Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar da Universidade do Porto. Orientadora Professora Doutora DINORA MARIA GUEDES GIL DA COSTA CABRAL Categoria Professora Adjunta Afiliação Instituto de Ciências da Saúde – Universidade católica – Pólo Asprela REGIÃO AUTÓNOMA DA MADEIRA REPÚBLICA PORTUGUESA UNIÃO EUROPEIA FSE Março 2009

O DOENTE CIRÚRGICO NO PERÍODO PRÉ … DOENTE... · de informação; e os inquiridos que receberam visita pré-operatória tenderam a referir mais quantidade de informação recebida

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  • NOLIA CRISTINA RODRIGUES PIMENTA GOMES

    O DOENTE CIRRGICO NO PERODO PR-OPERATRIO:

    DA INFORMAO RECEBIDA S NECESSIDADES EXPRESSAS

    Dissertao de Candidatura ao Grau de Mestre em Cincias de

    Enfermagem, submetida ao Instituto de Cincias Biomdicas de Abel Salazar

    da Universidade do Porto.

    Orientadora

    Professora Doutora DINORA MARIA GUEDES GIL DA COSTA CABRAL

    Categoria

    Professora Adjunta

    Afiliao

    Instituto de Cincias da Sade Universidade catlica Plo Asprela

    REGIO AUTNOMA DA MADEIRA REPBLICA PORTUGUESA UNIO EUROPEIA FSE

    Maro 2009

  • As informaes so arquivadas na memria

    as experincias so cravadas no corao

    Augusto Curry (2006)

  • Ao meu marido

    Duarte

    Aos meus filhos

    Tiago e Catarina

  • AGRADECIMENTOS

    Expressamos o nosso reconhecimento e gratido Senhora professora Doutora Maria

    Dinora Costa Cabral, que atravs da sua preciosa orientao cientfica, compreenso,

    empenhamento, palavras de incentivo tornou exequvel o desenvolvimento desta

    investigao.

    Irm Maria Berta Fonseca Soares Directora da Escola Superior de Enfermagem S.

    Jos de Cluny por todo o apoio e estimulo proporcionado ao longo desta caminhada.

    equipa docente do 2 ano do Curso de Enfermagem da Escola Superior de

    Enfermagem So Jos de Cluny, pelo incentivo e apoio que foi imprescindvel para a

    concluso deste estudo.

    Ao Professor Jos Manuel Marques pela colaborao dada no tratamento estatstico.

    s Professoras Clara Sales Correia, Luz Chaves, Mercia Bettencourt e Ressurreio

    Carvalho, que se disponibilizaram para validar o instrumento de colheita de dados.

    Professora Luz Chaves, pela colaborao fornecida durante a colheita de dados.

    Professora Tnia Loureno, pela ajuda cedida durante o desenvolvimento da fase

    metodolgica e opinies e discusses sempre oportunas.

    Professora Rita Figueiredo pela disponibilidade demonstrada durante a formatao do

    trabalho.

    Aos Enfermeiros das Unidades de Cirurgia Geral do Hospital Central do Funchal, pela

    forma calorosa como nos acolheram nos servios e pela sua ajuda.

    A minha irm, Antnia, ao meu amigo, Emanuel pelos seus preciosos contributos nas

    tradues e verificao do Portugus.

    Aos utentes que participaram nesta investigao, cuja disponibilidade tornou vivel a

    sua realizao.

  • Aos meus pais e sogros pelo carinho, compreenso e palavras encorajadoras que sempre

    manifestaram, durante o desenvolvimento deste estudo.

    Aos meus filhos, Tiago e Catarina, para quem no estive to disponvel e ao meu

    marido, Duarte, pela pacincia e compreenso que tornaram mais fcil a difcil tarefa de

    chegar ao fim desta etapa da minha vida.

    A todos o meu sincero muito Obrigado

  • RESUMO

    A enfermagem como actividade humana muito complexa e desempenha um

    papel importante na satisfao das necessidades dos doentes, peculiarmente as

    necessidades de informao, quando estes so confrontados com a possibilidade de

    serem submetidos a uma interveno cirrgica. incontestvel, a mais-valia

    proporcionada pelo conhecimento da perspectiva do doente para a prestao de

    cuidados de excelncia.

    Assim, este estudo teve como objecto o tema: O Doente Cirrgico No Perodo

    Pr-operatrio: Da Informao Recebida s Necessidades Expressas e pretendeu

    especificamente: descrever qual a informao recebida, o conhecimento e as

    necessidades de informao expressas pelo doente cirrgico sobre a preparao pr-

    operatria, durante o internamento, nas unidades de cirurgia geral do Hospital Central

    do Funchal.

    O percurso metodolgico utilizado foi a abordagem quantitativa, sendo o estudo

    de carcter exploratrio e descritivo. A tcnica utilizada para a colheita de dados foi o

    questionrio com entrevista. Os participantes da investigao foram 96 doentes, sendo a

    nossa amostra probabilstica acidental.

    Como principais concluses, de salientar que relativamente varivel

    Informao recebida pelo doente cirrgico sobre a preparao pr-operatria, os

    inquiridos revelaram possuir, na dimenso do procedimento cirrgico, uma informao

    razovel e na dimenso sensorial e comportamental, insuficiente. No que concerne

    varivel Conhecimento do doente cirrgico sobre a preparao pr-operatria, os

    doentes evidenciaram possuir um nvel suficiente de conhecimento sobre o

    procedimento cirrgico e sobre os aspectos de carcter sensorial, e reduzido ao nvel

    comportamental. Ao nvel da varivel Necessidades de informao expressas pelo

    doente cirrgico sobre a preparao pr-operatria, a necessidade de informao foi

    elevada nas trs dimenses: procedimento cirrgico, sensorial e comportamental.

    Em termos globais, constatmos que os doentes receberam pouca informao

    sobre a preparao pr-operatria, que evidenciaram pouco conhecimento sobre estes

    temas e que a maioria necessita de mais informao.

  • Tambm, aferimos que os doentes mais velhos tenderam a referir menor

    informao recebida; os doentes com nvel socioeconmico mais elevado tenderam a

    evidenciar mais conhecimentos; que a experincia anterior de interveno cirrgica no

    influenciou significativamente a informao recebida, o conhecimento ou a necessidade

    de informao; e os inquiridos que receberam visita pr-operatria tenderam a referir

    mais quantidade de informao recebida

    Apresentamos algumas sugestes/propostas para a prtica de enfermagem, ensino

    e investigao, entre os quais: que se realize formaes em servio e que se promova

    encontros de reflexo sobre esta temtica; a implementao de uma consulta de

    enfermagem pr-operatria, assim como um programa de informao estruturado;

    proporcionar, aos alunos de enfermagem, momentos de reflexo em sala de aula e nos

    ensinos clnicos sobre este assunto; realizar outros estudos, sobre o mesmo tema, mas de

    natureza qualitativa e ainda, o desenvolvimento de um trabalho semelhante aos doentes

    submetidos a cirurgia de urgncia.

    Palavras-chave: Preparao Pr-Operatria, Informao, Conhecimento,

    Necessidades, Procedimento Cirrgico, Aspectos Sensoriais E Comportamentais.

  • ABSTRACT

    As an human activity, the nursing is very complex and plays an important role in

    satisfying the patients needs, peculiarly the needs for information, when they are

    confronted with the possibility to be submitted to a surgical intervention. It is

    undisputed the gain provided by the patient knowledge for providing excellence cares.

    Thus, this study had as object the theme: The Surgical Patient in the Pre-

    Operative Period: From the Received Information the Expressed Needs and

    intended specifically: to describe which information received, the knowledge and the

    expressed needs of information expressed by the surgical patient about a pre-operative

    preparation, during the internment, in the general surgery units of Hospital Central do

    Funchal.

    The methodological procedure used was the quantitative approach, whereas the

    study had an exploratory and descriptive nature. The technique used for the harvest of

    data was the questionnaire with interview. The participants of the inquiry were 96

    patients, being our sample an accidental probabilistic one.

    As main conclusions, it is to point out that relatively to the variable Information

    received by the surgical patient about the pre-operative preparation the inquiries

    revelled to possess reasonable information in the dimension of the surgical procedure,

    and, in insufficient one in the sensorial and behavioural dimension. As far as variable

    Surgical patient knowledge about the pre-operation preparation, patients have

    reveled to possess an enough level of knowledge about the surgical procedure and about

    the aspects of the sensorial domain, and a reduced one on the compartmental. As far as

    the variable Information needs expressed by the surgical patients for pre-operative

    preparation, the need for information was high in the three dimensions: surgical,

    sensorial and behavioural.

    In global terms, we evidenced that patients have received little information about

    pre- operative preparation, showed modest knowledge about these issues and that the

    majority needs more information.

    Furthermore, we evidenced that the older patients tended to refer little

    information received; the patients with a higher social-economical status tended to show

    more knowledge; that the previous surgical intervention experience did not significantly

  • influence the received information, the knowledge or the need for information; the

    inquiries that have received pre-operative visits tended to refer the higher quantity of

    received information.

    We present some suggestions/proposals to the nursery practice, learning and

    investigation, among which: carrying out learning while in duty and promoting

    meetings to meditate upon this theme; the implementation of a pre-operative nursing

    appointment, as well as a structured information programme; providing nursing students

    moments to reflect, in their classrooms and in clinical practice on this matter,

    accomplishing of other studies about the same theme, but of qualitative nature and also,

    the development of a resembling work undertaken to patients under emergency surgery.

    Key-words: Pre-Operative Preparation, Information, Knowledge, Necessities,

    Surgical Procedure, Sensorial and Behavioural Aspects.

  • NDICE

    INTRODUO .............................................................................................................21

    1 CONTEXTUALIZAO DO PROBLEMA .......................................................25

    2- QUADRO DE REFERNCIAS ..............................................................................37

    2.1 Cuidar em contexto cirrgico .............................................................................37

    2.2 A Enfermagem no perodo pr-operatrio ........................................................41

    2.2.1- A preparao pr-operatria do doente cirrgico .................................................45

    2.3 - Necessidades humanas bsicas ............................................................................52

    2.4 Necessidade/ direito informao do doente cirrgico ....................................60

    2.4.1- A informao ........................................................................................................65

    2.4.2 Consentimento informado numa perspectiva cirrgica.......................................66

    2.5 Benefcios de um programa de informao pr-operatria .............................70

    3 DESENHO DA INVESTIGAO ........................................................................77

    3.1- Tipo de Estudo .......................................................................................................77

    3.2- Variveis .................................................................................................................78

    3.3- Operacionalizao das variveis ..........................................................................79

    3.3.1- Variveis de atributo e sua categorizao.............................................................80

    3.3.2- Varivel em estudo e a sua operacionalizao......................................................85

    3.5- Amostra...................................................................................................................90

    3.6- Instrumento de Colheita de Dados .......................................................................92

    3.6.1- Validao do questionrio ....................................................................................94

    3.6.2- Pr-teste ...............................................................................................................95

    3.6.3 - Questionrio.........................................................................................................96

    3.7- Procedimento de Colheita de dados ...................................................................108

    3.8- Aspectos ticos .....................................................................................................110

    3.9- Tratamento estatstico dos Dados.......................................................................111

  • 4- ANLISE E APRESENTAO DOS DADOS/ RESULTADOS .....................115

    4.1- Anlise e apresentao descritiva.......................................................................115

    4.2- Anlise e apresentao inferencial .....................................................................134

    5 - DISCUSSO DOS RESULTADOS .....................................................................141

    6- CONCLUSES.......................................................................................................155

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ......................................................................165

    ANEXOS.. ........................................................................................................173

    ANEXO I Questionrio................................................................................................175

    ANEXO II - Pedido oficial ao Sr. Presidente do Conselho de Administrao do Hospital

    Central do Funchal ......................................................................................193

    ANEXO III - Resposta do Conselho de Administrao do Hospital Central do Funchal,

    autorizando a realizao da colheita de dados ............................................197

    ANEXO IV - Consentimento informado ......................................................................202

  • NDICE DE FIGURAS

    Figura n 1 Proposta de Modelo de Preparao do Doente Cirrgico no Perodo Pr-

    Operatrio ..................................................................................................49

    Figura n 2 Hierarquia das Necessidades .....................................................................56

    Figura n 3 Informao e Envolvimento: needs iceberg...........................................70

    Figura n4 Principais Resultados da Investigao .....................................................149

  • NDICE DE QUADROS

    Quadro n1 Escala de Graffar.......................................................................................82

    Quadro n 2 Variveis, Dimenses e Indicadores ........................................................88

    Quadro n 3 Resultados do teste de normalidade.......................................................112

    Quadro n4 Doentes cirrgicos segundo as caractersticas scio-demogrficas........116

    Quadro n 5 Doentes cirrgicos segundo os dados relativos cirurgia .....................117

    Quadro n 6 Doentes segundo a informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao sobre procedimento cirrgico (consentimento informado e

    avaliao pr-operatria).......................................................................118

    Quadro n8 Doentes segundo a informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao sobre procedimento cirrgico (visita pr-anestsica e

    acompanhamento para o bloco operatrio) ...........................................121

    Quadro n 9 Doentes segundo a informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao sobre procedimento cirrgico (permanncia no bloco

    operatrio, antes da cirurgia e sala de cuidados ps-anestsicos).........123

    Quadro n 10 Doentes segundo a informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao sobre procedimento cirrgico (visitas no ps-operatrio e

    dispositivos) ..........................................................................................125

    Quadro n11 Doentes segundo a informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao sobre procedimento cirrgico (mtodos de controlo da dor e

    condies para alta)...............................................................................127

    Quadro n 12 Doentes segundo a informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao de carcter sensorial (efeitos da medicao e ambiente da

    sala operatria) ......................................................................................129

    Quadro n 13 Doentes segundo a informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao de carcter sensorial (sensaes no primeiro levante e

    sensaes associadas aos dispositivos) .................................................130

    Quadro n14 Doentes segundo a informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao de carcter comportamental (principais exerccios para

    preveno das complicaes respiratrias no ps-operatrio)..............131

  • Quadro n15 Doentes segundo a informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao de carcter comportamental (principais exerccios para a

    preveno das complicaes circulatrias no ps-operatrio)..............132

    Quadro n 16 Doentes cirrgicos segundo as principais fontes de informao e de

    conhecimento ........................................................................................133

    Quadro n17 Medidas descritivas referentes avaliao da informao recebida,

    conhecimento e necessidade de informao .........................................134

    Quadro n18 Correlao da informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao com a idade ........................................................................135

    Quadro n19 Comparao da informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao em funo do nvel socioeconmico..................................136

    Quadro n20 Comparao da informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao em funo da experincia cirrgica anterior......................138

    Quadro n 21 Comparao da informao recebida, conhecimento e necessidade de

    informao em funo da visita pr-operatria.....................................139

  • CHAVE DE SIGLAS

    CIPE Classificao Internacional da Prtica de Enfermagem x - Mdia aritmtica

    px - Mdia dos postos

    % - Frequncia relativa 2 - Valor do teste Kruskal-Wallis E.V Endovenosa Mx Valor mximo Md Mediana Min Valor mnimo Mo Moda n Frequncia absoluta p Significncia rs Correlao de Spearman s - Desvio padro SPSS - Statistical Package for the Social Science z Valor dos testes: Kolmogorov-Smirnov e U de Mann-Whitney - Alpha de Cronbach

  • Nolia Pimenta Gomes

    21

    INTRODUO

    Nos ltimos anos os enfermeiros tm dedicado muito do seu tempo e ateno

    investigao em enfermagem, historicamente remonta segunda metade do sculo XIX

    com os ideais de Florence Nightingale. A investigao essencial cincia de

    enfermagem, assim como a todas as reas profissionais, para o desenvolvimento de um

    suporte cientfico que sirva de orientao para a prtica e para a sua creditao. Fortin

    (2003) afirma que nenhuma profisso ter um desenvolvimento contnuo sem o

    contributo da investigao (p.18). Esta autora ressalta que parte integrante das funes

    dos enfermeiros, independentemente do seu nvel de formao, a sua actualizao

    permanente e participao no desenvolvimento das concepes da profisso.

    A cincia de enfermagem, ao longo dos tempos foi influenciada por diversos

    factores, desenvolvendo-se ao ritmo das grandes correntes do pensamento, que foram

    fundamentais para a evoluo dos conhecimentos. De acordo com Barros, Barreto,

    Braga e Veloso (1997), a forma particular como a enfermagem relaciona os conceitos,

    cuidado, pessoa, sade e meio ambiente circunscreve o domnio da responsabilidade

    dos enfermeiros e clarifica o seu campo de actuao (p.9).

    O enfermeiro no exerccio da sua actividade profissional, munido de um corpo de

    conhecimentos cientficos, tem o dever de desenvolver competncias que lhe permitem

    assistir e cuidar do doente de forma holstica e personalizada, quando este ameaado

    na sua integridade nomeadamente na experincia cirrgica. Este acontecimento, na vida

    do homem, traduz uma alterao do seu curso normal, sendo fundamental que o

    enfermeiro coloque em prtica os seus saberes com o objectivo de assegurar a satisfao

    das necessidades das pessoas.

    Segundo Barros et al (1997), com o aproximar do terceiro milnio o cuidar s

    pode ser entendido como um cuidar cientfico, onde no haja espao para a rotina

    irresponsvel, o fazer por fazer, a irreflexo, o domnio da tcnica sobre outras

    dimenses da pessoa doente (p.8). O cuidar de hoje, segundo o mesmo autor, implica

    inexoravelmente, a percepo da globalidade, h que reinventar os cuidados que

  • INTRODUO

    Nolia Pimenta Gomes

    22

    promovam a vida, () que restituam um sentido vida tanto daqueles que os recebem

    como daqueles que os prestam (p.8).

    A pessoa ao passar da condio de saudvel para a posio de doente, em que

    necessita de ser submetido a interveno cirrgica, desenvolve segundo Leito (1992)

    um processo carregado de forte componente emocional. Ao abandono do seu papel na

    sociedade e famlia junta-se a dificuldade de encarar o seu novo papel e a prpria

    situao (p.10). De acordo com este autor o medo do desconhecido, os sentimentos de

    insegurana, a dependncia, entre outros, so causa de ansiedade para o doente, sendo

    essencial o enfermeiro estabelecer uma relao de proximidade, tentando colmatar as

    necessidades de cuidados que o doente expresse, nomeadamente as de informao.

    elementar que a abordagem ao doente cirrgico no passe apenas pelo acto operatrio

    em si, mas por uma preparao mais abrangente, contemplando os aspectos fsicos,

    psicolgicos, espirituais e sociais, que so essenciais para o xito de todas as fases que

    compem o processo cirrgico.

    Alguns estudiosos tm-se debruado sobre a temtica do doente cirrgico durante

    o perodo perioperatrio. Durante a nossa pesquisa encontrmos alguns trabalhos

    desenvolvidos nesta rea nomeadamente sobre: a preparao do doente para a cirurgia, a

    admisso em centro cirrgico, humanizao da assistncia de enfermagem, vivncias do

    doente cirrgico da cirurgia programada, prticas cuidativas numa unidade de cirurgia,

    entre outros. Contudo, no tivemos acesso a nenhum trabalho que aprofundasse a

    problemtica das necessidades de informao do doente cirrgico no perodo pr-

    operatrio.

    Consideramos, que ao identificarmos as informaes que so transmitidas ao

    doente sobre a preparao pr-operatria, o seu conhecimento e as suas necessidades de

    informao sobre este assunto, permitir reflectirmos sobre as nossas prticas dirias,

    contribuindo para compreendermos melhor os cuidados de enfermagem numa

    perspectiva holstica respeitando a individualidade de cada pessoa.

    Com base nestes pressupostos, da reviso bibliogrfica desenvolvida e da nossa

    experincia profissional de contacto com o doente cirrgico, emergiu um conjunto de

    inquietaes que se traduzem nas questes orientadoras da nossa pesquisa: Qual a

    informao recebida pelos doentes cirrgicos sobre a preparao pr-operatria? Qual o

    conhecimento dos doentes cirrgicos sobre a preparao pr-operatria? Quais as

    necessidades de informao expressas pelo doente cirrgico sobre a preparao pr-

    operatria?

  • INTRODUO

    Nolia Pimenta Gomes

    23

    Assim, no mbito do Mestrado em Cincias de Enfermagem, desenvolvemos a

    nossa dissertao sobre O Doente Cirrgico No Perodo Pr-operatrio: Da

    Informao Recebida s Necessidades Expressas. Com este estudo pretendemos

    descrever qual a informao recebida pelos doentes cirrgicos sobre a preparao pr-

    operatria; descrever o conhecimento dos doentes cirrgicos sobre a preparao pr-

    operatria e descrever as necessidades de informao expressas pelo doente cirrgico

    sobre a preparao pr-operatria.

    Como finalidade esperamos, que o trabalho por ns desenvolvido, contribua para a

    implementao de um programa de informao estruturado que satisfaa as

    necessidades de informao do doente cirrgico, sobre os cuidados de enfermagem,

    inerentes a preparao pr-operatria e contribua para adequar o ensino de enfermagem

    s reais necessidades de informao do doente.

    Tendo em conta os objectivos do nosso trabalho, utilizaremos a metodologia

    quantitativa, sendo a nossa investigao descritiva e exploratria. A nossa populao

    contemplou os doentes internados nos servios de cirurgia geral do Hospital Central do

    Funchal, durante os meses de Abril e Maio de 2008 e que ostentavam os critrios pr

    estabelecidos.

    Atendendo, as concepes defendidas por vrios autores, particularmente Fortin

    (2003), apresentamos a nossa investigao organizada em trs fases: conceptual,

    metodolgica e emprica.

    Na fase conceptual, contextualizamos o nosso problema de investigao com a

    explorao do tema a investigar. Tambm, abordamos os conceitos pertinentes para este

    estudo, tendo por base a pesquisa efectuada e o parecer dos vrios autores consultados.

    Na fase metodolgica, apresentamos o percurso efectuado ao longo da

    investigao incluindo o tipo de estudo, as variveis, a populao, a amostra, o

    instrumento de colheita de dados, os procedimentos utilizados na colheita dos dados, os

    aspectos ticos e a forma como os dados foram tratados.

    No que concerne a ltima fase, efectuamos a anlise e apresentao dos dados

    assim como a interpretao dos mesmos luz da fundamentao terica apresentada nas

    fases precedentes.

    Ao concluirmos, a nossa investigao efectuamos uma reflexo dos contedos

    desenvolvidos e apresentamos as principais concluses, limitaes, sugestes entre

    outros aspectos do nosso estudo.

  • Nolia Pimenta Gomes

    25

    1 CONTEXTUALIZAO DO PROBLEMA

    A prtica de enfermagem baseia-se no conhecimento da enfermagem assim como

    de outras disciplinas, como a psicologia, a biologia, a filosofia e a sociologia. Dentro de

    cada uma das disciplinas, incluindo a enfermagem, h perspectivas muito diferentes que

    ajudam a prever e a explicar os fenmenos.

    Segundo Silva (1995), entre outros autores consultados, as concepes tericas

    iniciais na enfermagem foram desenvolvidas por Florence Nightingale no final do

    sculo XIX e revistas no incio do sculo XX. A natureza do conhecimento em

    enfermagem, desenvolvido por Nightingale, destaca-se pelas suas bases profundamente

    humansticas.

    Os estudiosos da cincia de Enfermagem, atravs do desenvolvimento de

    perspectivas tericas, tm tentado fornecer uma estrutura que oriente os cuidados de

    enfermagem numa perspectiva cientfica e consequentemente o desenvolvimento da

    disciplina. A maioria demonstra uma preocupao bsica pelo ser humano, pelo meio

    ambiente, pela enfermagem e pela sade.

    Silva (1995) salienta que Florence Nightingale no explicitou o termo ser humano

    no seu sistema conceptual, no entanto, est implcito a viso da individualidade,

    singularidade, originalidade e totalidade deste ser com atributos e potencialidades

    fsicas, intelectual, emocional, social e espiritual (p.46).

    O termo meio ambiente no aparece nos escritos de Florence Nightingale, no

    entanto, enfatizou os conceitos de ventilao, calor, luz, dieta, silncio, bem como, boas

    condies sanitrias, como principais componentes do ambiente (Silva, 1995,p.47).

    Florence Nightingale destacou a influncia do meio ambiente na vida e na sade dos

    seres humanos pois, o ser humano e o ambiente esto inter relacionados e, portanto,

    cada um afecta o outro.

    Em 1995, Silva tambm refere que Florence Nightingale no deu primazia

    sade/doena mas sim, ao ser humano sadio ou doente. Nas palavras da autora, a

    condio de ser saudvel requer equilbrio entre as influncias ambientais, o estilo de

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    26

    vida e as vrias potencialidades da natureza humana (p.48).

    A enfermagem foi entendida por Florence Nightingale como uma arte e uma

    cincia que requer uma educao formal, organizada e cientfica. A arte da

    enfermagem Nightingaliana consiste no cuidar tanto dos seres humanos sadios como

    doentes (Silva, 1995, p.48).

    Desde que existimos, temos a necessidade de sermos cuidados e da que nasce a

    necessidade de cuidar dos outros.

    Collire (1989) refere que:

    Cuidar um acto individual que prestamos a ns prprios, desde que adquirimos autonomia mas , igualmente, um acto de reciprocidade que somos levados a prestar a toda a pessoa que, temporria ou definitivamente, tem necessidade de ajuda para assumir as suas necessidades vitais. (p.236)

    Ao longo dos tempos, a enfermagem cirrgica tem, progressivamente, evoludo

    dando maior nfase ao atendimento holstico da pessoa para a satisfao das suas

    necessidades em substituio de uma interveno exclusivamente tcnica.

    Nesta linha de pensamento, Cabral (2004) refere que Virgnia Henderson (1966)

    considera o indivduo completo, inteiro e independente quando as suas necessidades

    fundamentais so satisfeitas. As necessidades so, por ela definidas como requisitos ou

    exigncias de que precisa e no a falta de algo; considerando assim as necessidades

    como algo positivo (Cabral, 2004, p.123) que tem em conta os aspectos fsicos,

    biolgicos, psicolgicos, sociolgicos e espirituais da pessoa.

    As necessidades variam de indivduo para indivduo, pois cada pessoa

    considerada um ser singular e nico, logo a forma de satisfazer cada uma das

    necessidades pessoal e individual.

    Tambm Watson (1985) no seu modelo terico, d ateno especial a satisfao

    das necessidades da pessoa. Esta autora identificou e props dez factores elucidativos

    dos cuidados, que constituem um fundamento, sobre o qual as enfermeiras podem

    estudar a cincia do human care, devendo utiliz-los na prestao de cuidados. De

    acordo com a autora, o seu modelo pode ser aplicado a todas as reas, nomeadamente na

    vertente dos cuidados de enfermagem ao doente cirrgico, no qual a satisfao das

    necessidades humanas bsicas constitui um dos factores importantes para a cincia do

    cuidar.

    A hierarquizao das necessidades preconizadas por Watson (1985) integrou

    algumas necessidades humanas bsicas, includas na classificao de Maslow, por t-las

    considerado fundamentais. A autora acrescenta que essencial que os enfermeiros

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    27

    tenham um conhecimento profundo destas necessidades para melhor se conhecerem e se

    aceitarem a si prprios, condio necessria para cuidar do Outro.

    A temtica das necessidades humanas bsicas tem sido alvo de pesquisa e anlise

    de alguns estudiosos. Entre eles destacamos Virginia Henderson, Jean Watson no

    deixando de fazer referencia a teoria de Abraham Maslow, conhecida como uma das

    mais importantes teorias da motivao segundo a qual as:

    Necessidades humanas esto organizadas e dispostas em nveis, numa hierarquia de importncia e de influncia, numa pirmide, em cuja base esto as necessidades mais baixas (necessidades fisiolgicas) e no topo, as necessidades mais elevadas (as necessidades de auto realizao). (Serrano 2006, s.p)

    A pessoa, quando se encontra numa situao de doena / dependncia, necessita

    de algum que tenha conhecimentos e que consiga dar resposta s suas necessidades,

    que naquele momento no podem ser satisfeitas. O profissional de enfermagem tem um

    papel fulcral nesta rea porque a doena geralmente interrompe a habilidade para

    atender s necessidades em diferentes nveis (Potter & Perry, 1999, p.442). Tambm,

    Lpez e Redondo de la Cruz (1998) partilham desta opinio, afirmando que o indivduo

    doente tende a sentir-se indefeso e a abandonar as suas obrigaes e responsabilidades

    (p.10).

    Temos conscincia que a hospitalizao e particularmente uma interveno

    cirrgica, constitui de vrias formas, uma ameaa pessoa na sua identidade. Quando

    um indivduo est hospitalizado, existe uma ruptura com o seu ambiente habitual, que

    modifica os seus costumes, os seus hbitos e, em geral, a sua capacidade de auto-

    realizao e de cuidado pessoal (Lpez & Redondo de la Cruz, 1998, p.9).

    Comungando deste pensamento Fernandes e Venncio (2004) afirmam que a

    hospitalizao e nomeadamente a experincia cirrgica, surgem na vida do homem

    como um factor adverso (p.4).

    Leito (1992), Cruz e Varela (2002), Silva (2002) e Bellman (2003) partilham da

    opinio que o enfermeiro desempenha no perodo cirrgico um papel fundamental. Este

    surge da obrigatoriedade de oferecer ao doente um cuidado autntico com valorizao,

    particularizada, da sua situao assim como das suas preocupaes, medos e

    necessidades. O enfermeiro, integrado na equipa multidisciplinar da unidade de cirurgia,

    desempenha funes especficas e definidas, cujo objectivo comum cuidar com

    qualidade, atendendo o doente como um todo, com todas as suas necessidades fsicas,

    psicolgicas e espirituais (Pinheiro, 1993, p.6).

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    28

    imperativo investir nos saberes relacionados com o ser humano, atendendo s

    suas realidades, vivncias, sentimentos, pensamentos e necessidades pois, como refere

    Fernandes et al (2004), a cirurgia afecta a homeostasia do indivduo, assim o enfermeiro

    na relao que estabelece com este tende desde o incio a promover o restabelecimento

    da independncia, indo de encontro as suas necessidades (p.7).

    Tambm Leito (1992) da opinio que a cirurgia, programada ou no, surge na

    vida do indivduo como um factor desfavorvel, provocando desequilbrios fisiolgicos,

    psicolgicos e mesmo scio-familiares.

    Daqui, podemos depreender que essencial a ateno e apoio proporcionado pelo

    enfermeiro nestas circunstncias em que o doente habitualmente se encontra em estado

    de alerta, tentando captar algo que esteja interferindo ou que possa interferir em todo o

    processo cirrgico. imprescindvel, no perodo pr-operatrio, informar o doente

    sobre os acontecimentos do perioperatrio de forma a apaziguar os seus medos, receios,

    angstias, atendendo s suas necessidades naquele momento. Neste sentido, Melo

    (2005) ressalta que necessrio distinguir entre as necessidades que so expressas pela

    pessoa que a pede e as normativas, ou seja, as consideradas desejveis por um

    indivduo, grupo ou sociedade (p.54). Assim sendo, a informao deve ser direccionada

    para o doente em questo, para que seja eficaz. Contudo, existem vrios aspectos que

    so essenciais focar: o que ir acontecer informao de procedimento; como se ir

    sentir informao sensorial; o que poder fazer para lidar com a situao

    estratgias () (Melo, 2005, p.61).

    Nesta linha de pensamento Miller e Mangan citado por Melo (2005), aludem que

    podemos encontrar dois tipos de indivduos os: monitors e os blunters. Do monitors

    espera-se () que ao aguardar uma cirurgia procure o mximo de conhecimento sobre

    a situao, do blunte, em contraste, que tente afastar esta ideia da sua cabea,

    procurando evitar qualquer informao relevante (p.66).

    Assim, a informao a transmitir deve ser congruente, convergindo com o que os

    indivduos desejam e de acordo com as suas caractersticas individuais.

    Consequentemente, estamos a contribuir para a excelncia dos cuidados, tornando-os

    personalizados e humanizados. Melo (2005) defende que a informao que os doentes

    obtm nem sempre a mais adequada e que, mant-los informados, de acordo com as

    suas caractersticas pessoais, ser talvez, a resposta mais ajustada (p.53). Neste

    contexto Woodward e Walson citados por Melo (2005) revelam que as pessoas idosas,

    regra geral e em contraste com os jovens, preferem que seja o tcnico de sade a tomar

    as decises por eles, pois depositam toda a confiana nestes profissionais.

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    29

    Segundo a nossa experincia profissional, patente a necessidade de informao

    que o doente manifesta, quando internado para ser submetido a uma interveno

    cirrgica. O doente cirrgico no pr-operatrio, manifesta preocupao com o

    desenrolar de todo o processo cirrgico, principalmente com os cuidados de

    enfermagem que ir necessitar; com seu grau de dependncia aps a interveno

    cirrgica; com as sondas com que pode ficar; com as dores que poder sentir; com o

    tempo de repouso no leito; com o primeiro levante, e com o perodo que ir necessitar

    para retomar a sua vida diria. Por outro lado, encontramos doentes que, embora

    apreensivos, no revelam grande interesse em saber o que ir acontecer, constituindo

    estes uma minoria.

    De acordo com Santos e Caberlon citados por Paula e Carvalho (1997), a

    preocupao maior envolvendo o paciente cirrgico decorre da obscuridade das

    informaes, englobando aspectos inerentes ao procedimento cirrgico (p.35).

    Para Brunner e Suddarth (1993), os cuidados de enfermagem ao doente cirrgico

    iniciam-se desde que dada a informao ao doente que ir ser submetido a interveno

    cirrgica e estende-se durante todo o perodo pr-operatrio, fase operatria,

    recuperao da anestesia e durante a convalescena.

    A temtica das necessidades de informao do doente cirrgico, no pr-operatrio,

    constitui para ns uma inquietao que advm das constataes que efectuamos ao

    longo dos anos, durante a prestao de cuidados e mais recentemente, na docncia,

    quando orientamos alunos em ensino clnico.

    O nosso estudo ir incidir no perodo pr-operatrio, por o considerarmos

    primordial para o sucesso da interveno cirrgica e recuperao do doente. Pitrez e

    Pioner (1999) referem que o cumprimento das etapas que fazem parte do perodo pr-

    operatrio (diagnstico da doena, avaliao do estado do doente e preparao para a

    cirurgia), proporciona ao doente e aos profissionais a segurana de uma resposta

    adequada ao trauma cirrgico, acompanhada de uma evoluo clnica ps-operatria

    normal (p.19).

    Sorensen e Luckmann (1998) definem o perodo pr-operatrio como tendo

    incio no momento em que a cirurgia planeada, terminando quando o doente

    transferido para o bloco operatrio. Normalmente, o perodo pr-operatrio

    constitudo por duas fases: pr-operatrio mediato, que corresponde a dias, meses ou

    anos e pr-operatrio imediato, que corresponde s vinte e quatro horas que antecedem

    o acto cirrgico.

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    30

    Habitualmente, o doente submetido a cirurgia electiva hospitalizado na vspera

    da interveno, ou seja, no perodo pr-operatrio imediato. Nesta fase, o doente entra

    em contacto directo com a equipa que ir lhe prestar cuidados durante o perodo

    perioperatrio e -lhe transmitida informao sobre os cuidados que compreendem todo

    o processo cirrgico. Graham (2003) salienta que os doentes internados no pr-

    operatrio imediato tm muito pouco tempo para receber orientaes e assimil-las.

    Seria correcto pensar que nesta fase o doente j apresentasse conhecimentos sobre os

    procedimentos a decorrer. No entanto, de referir que esta prtica no se sucede na

    nossa regio nem na maioria dos hospitais do Pas. O que se verifica que uma boa

    percentagem dos utentes chega ao hospital com nenhuma ou pouca informao quer

    sobre a sua situao concreta quer sobre os acontecimentos que o aguardam (Cerejo,

    2000, p.29).

    Vrios estudos realizados sobre doentes submetidos a uma interveno cirrgica,

    relatam o impacto positivo da transmisso de informao no pr-operatrio. Johnston,

    citado por Melo (2005), apurou que a informao pode: influenciar a recuperao;

    reduzir o internamento, a ansiedade, os nveis de dor e, consequentemente, a ingesto

    de analgsicos (p.68). Tambm Young e Humphrey, referenciados por Melo (2005),

    verificaram uma reduo do sofrimento e do tempo de permanncia no hospital (p.68),

    quando os doentes receberam informao inerente ao seu internamento.

    Similarmente Garretson (2004) numa pesquisa que efectuou sobre Benefits of pr-

    operative informacion programmes, apurou alguns benefcios de proporcionar

    informaes sobre a preparao pr-operatria, das quais inclui o decrscimo da

    durao da estadia, a menor necessidade de utilizao de analgsicos no ps-operatrio

    e o aumento da satisfao do paciente.

    Paralelamente ao que foi referido anteriormente, crucial que o enfermeiro avalie

    os conhecimentos do doente sobre a sua situao actual, de forma a adequar as

    informaes a transmitir e valide os conhecimentos do doente, aps a transmisso da

    informao, para assim garantir que a mensagem foi compreendida.

    De acordo com Potter e Perry (2006), avaliar os conhecimentos do doente permite-

    nos determinar a capacidade de aprendizagem e compreenso do que lhe foi

    transmitido. Segundo estes autores, podemos avaliar os conhecimentos do doente

    perguntando-lhe o que sabe sobre a doena ou a causa do internamento, entre outros

    aspectos. Parafraseando Melo (2005), os doentes precisam de mais conhecimentos para

    tomar uma deciso do que aquela que lhe fornecida pelos servios de sade (p.65).

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    31

    Da reviso bibliogrfica que efectuamos, cruzmo-nos com vrios estudos

    desenvolvidos por enfermeiros e outros tcnicos de sade direccionados para o doente

    cirrgico constatando que uma das maiores necessidades do doente, durante o pr-

    operatrio, a informao, sendo esta essencial e primordial para a recuperao e

    sucesso de todo o processo cirrgico.

    Neves (1998), realizou um estudo sobre Prticas cuidativas numa unidade de

    cirurgia/ significado contextual para os doentes no mbito da aquisio do grau de

    Mestre em Cincias de Enfermagem, cujo objectivo foi determinar o significado, em

    contexto natural, que os doentes atribuem s praticas cuidativas dos enfermeiros de que

    so utentes, numa unidade de cirurgia.

    De acordo com Neves (1998), os doentes cirrgicos que participaram neste estudo

    nem sempre receberam, dos enfermeiros, os cuidados que esperavam e que lhes era

    significativo. Na maioria dos casos, e em termos globais, os doentes foram alvo de bons

    cuidados de enfermagem. Contudo, acham que houve um dfice de informao

    associado a vrios procedimentos, dos quais podemos destacar a preparao pr-

    operatria; o tipo de cirurgia a que iam ser submetidos; possveis efeitos da anestesia e

    precocidade do primeiro levante. A autora do trabalho menciona que da anlise dos

    dados emergiram dois temas culturais: fazem com simpatia e tratam mas no explicam

    (p.8).

    Cerejo (2000) tambm efectuou um trabalho na rea do doente cirrgico,

    intitulado: Impacto de um programa de informao estruturada na recuperao ps-

    operatria para obteno do grau de Mestre, cujo principal objectivo foi verificar qual o

    impacto de um programa de informao estruturado, no restabelecimento do doente

    aps cirurgia. O programa foi aplicado a 28 doentes, grupo experimental, que iriam

    ser submetidos a cirurgia electiva, institudo no pr-operatrio imediato e avaliado no

    ps-operatrio imediato.

    Para o controlo do efeito do programa, a autora utilizou dois grupos de

    comparao; grupo experimental I, constitudo por 27 doentes, sendo ministrada uma

    interveno placebo; e grupo de controlo constitudo por 31 doentes ao qual no foi

    efectuada qualquer interveno na rea da comunicao. Das concluses que Cerejo

    (2000) obteve de realar que a recuperao ps-operatria foi melhor nos doentes do

    grupo experimental (media de 25.75) junto dos quais os enfermeiros desenvolveram

    um programa de ensino estruturado, com informaes relativas aos cuidados pr e ps

    operatrio; enquanto no grupo experimental I a media foi de 23.26 e no grupo de

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    32

    controlo 21.42. Com base nos resultados obtidos, a autora do estudo concluiu que a

    interveno estruturada surtiu efeito na recuperao do doente.

    Por seu lado Silva (2002) desenvolveu um estudo sobre Vivncias do Doente

    Cirrgico no Perioperatrio da Cirurgia Programada para aquisio do grau de Mestre

    em Cincias de Enfermagem, sendo o objectivo do trabalho compreender as vivncias

    do doente cirrgico no perioperatrio da cirurgia programada, partindo da questo Qual

    a Estrutura do Fenmeno do Perioperatrio da Cirurgia Programada? A metodologia

    utilizada foi qualitativa com abordagem fenomenolgica. Atravs dos resultados desta

    investigao verificou-se existir uma disparidade significativa relativamente ao tipo de

    emoes e sentimentos vividos pelo doente nas trs fases que compem o

    perioperatrio, ou seja, no pr e intra-operatrio sobressaram as vivncias relacionadas

    com a componente emocional, enquanto que no ps-operatrio foi mais evidente as

    vivncias relacionadas com a componente fisiolgica.

    Silva (2002) salienta que alguns participantes foram crticos relativamente a

    alguns aspectos que falharam e aos quais, os enfermeiros devem dar o mximo de

    ateno, nomeadamente informao, presena e apoio psicolgico no pr-operatrio

    (p.7). Atravs deste trabalho a investigadora constatou que o doente precisa de mais

    apoio, mais informao, mais disponibilidade para expor as suas dvidas e

    compreender as informaes transmitidas (p.7).

    Kiyohara et al (2004) efectuaram um trabalho intitulado Surgery information

    Reduces Anxiety In The Pre-operative Period. Este estudo teve como objectivo

    comparar o grau de ansiedade, no dia anterior cirurgia, entre pacientes que receberam

    informao sobre o seu diagnstico, cirurgia e anestesia.

    Para medir a ansiedade foi utilizado o inventrio de Spielberg, State-Trait Anxiety

    Inventory (STAI). Para uma melhor compreenso dos resultados, importa definir os

    termos ansiedade-estado e ansiedade-trao. Spielberg citado por Kiyohara et al (2004)

    alude que a ansiedade estado refere-se a uma reaco emocional transitria

    desencadeada por factores / episdios pontuais que desaparecem aps a resoluo da

    situao que a desencadeou; na ansiedade trao, as reaces que a pessoa apresenta

    esto relacionadas com a sua prpria personalidade / caractersticas intrnsecas,

    persistindo independentemente das situaes.

    Como principais resultados, os autores salientam que ansiedade-estado foi

    semelhante para homens e mulheres, enquanto que a ansiedade-trao foi maior entre

    mulheres. O nvel de educao no influenciou a ansiedade-estado mas mostrou-se

    inversamente relacionada ansiedade-trao. No que se refere ao diagnstico 91,7% dos

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    33

    pacientes revelou conhecimento, enquanto que em relao cirurgia e anestesia

    apresentaram uma percentagem de 75% e 37,5% respectivamente. O conhecimento

    sobre o diagnstico e anestesia no influenciou a ansiedade-estado, no entanto, o

    desconhecimento da cirurgia elevou os nveis da ansiedade. Em termos de concluso,

    Kiyohara et al (2004) salientam que os pacientes que no possuam informao sobre a

    cirurgia apresentavam maior grau de ansiedade-estado, ou seja, quanto maior for o

    conhecimento sobre a cirurgia, menor sero os nveis de ansiedade-estado. Este estudo

    alerta para a necessidade de preparar adequadamente o doente no perodo pr-

    operatrio, nomeadamente, fornecendo informaes sobre o seu diagnstico, cirurgia e

    anestesia com o intuito de reduzir a ansiedade, contribuindo desta forma para uma

    melhor recuperao no ps-operatrio.

    Nesta linha de pensamento, Melo (2005) reala que os doentes informados sobre a

    sua situao clnica tendem a aderir mais, ao tratamento com repercusses positivas,

    no s a nvel do doente, mas tambm a nvel do prprio funcionamento do servio

    (p.14).

    Neste mbito, a autora supracitada realizou um estudo em que investigou o

    Impacto da informao em doentes internados para serem submetidos a uma

    interveno cirrgica. Como objectivos, a autora delineou: examinar o contedo da

    informao (clnica, diagnstico e cirurgia) que transmitida aos doentes hospitalizados

    que foram sujeitos a uma interveno cirrgica; analisar o impacto psicolgico causado

    por esta informao; identificar disposies individuais, estilo de coping monitoring

    versus blunting e ainda, examinar o impacto da informao sobre estes indivduos a

    nvel da satisfao e da ansiedade.

    Os resultados deste estudo demonstraram que a maioria dos doentes possua um

    dfice de informao factual sobre a sua situao clnica (92 indivduos (56.1%) face ao

    diagnstico e 103 indivduos (62.8%) face cirurgia). No entanto, os que se

    encontravam informados manifestaram um maior nvel de satisfao e um menor nvel

    de ansiedade (82 indivduos (50%) face ao diagnstico e 70 indivduos (42.7%) em

    relao a cirurgia). Os resultados encontrados comprovam que os doentes com estilo de

    coping monitoring mais informados sobre a sua situao clnica, diagnstico e cirurgia

    manifestam um maior nvel de satisfao face informao fornecida e um menor

    nvel de ansiedade, durante o perodo de internamento hospitalar (Melo, 2005,p.140).

    Em relao aos doentes que apresentavam um estilo de coping blunting, atravs dos

    dados colhidos, no foi possvel comprovar que os mais informados sobre a sua

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    34

    situao clnica, diagnstico e cirurgia manifestam um menor nvel de satisfao face

    informao e um maior nvel de ansiedade () (p.148).

    Ainda, Melo (2005) salienta que o fornecimento de informao constitui uma

    premissa na rea da sade, que por um lado resulta na necessidade de informao por

    parte do doente e por outro lado, da obrigatoriedade dos profissionais de sade em

    transmitir a informao aos doentes de forma personalizada e adequada a cada situao.

    Atendendo aos resultados obtidos nos estudos por ns consultados e da

    experincia profissional, podemos depreender que essencial reflectirmos e

    repensarmos nas nossas prticas de cuidados dirios, s quais, por vezes, dada maior

    primazia vertente tcnica dos cuidados, com algum prejuzo da componente humana e

    relacional. Por vezes, esquecemo-nos que o doente tem o direito informao e que esta

    deve ser transmitida de forma clara e adequada, permitindo assim a sua compreenso e a

    aquisio de conhecimento sobre o processo cirrgico.

    Na actualidade, como j foi mencionado anteriormente, regra geral o internamento

    do doente para ser submetido a uma interveno cirrgica programada acontece vinte e

    quatro horas antes do acto cirrgico o que compromete a preparao adequada do

    mesmo. Phipps, Sands e Marek (2003) aludem que dantes o ensino pr-operatrio

    terminava um ou dois dias antes da cirurgia. Alteraes recentes nos cuidados de sade

    tm desafiado o enfermeiro perioperatrio a implementar programas de ensino pr-

    operatrio, em perodos de tempo mais curtos e locais alternativos (p.538).

    Perante este cenrio, o ideal seria a existncia de um programa de informao

    estruturado que fosse de encontro as necessidades de informao do doente cirrgico no

    perodo pr-operatrio. Este, poderia ser colocado em prtica atravs da interveno do

    enfermeiro perioperatrio, no hospital, numa consulta de enfermagem pr-operatria ou

    numa visita domiciliria. Sugere-se, que estas deveriam acontecer durante o pr-

    operatrio mediato, proporcionando ao doente tempo suficiente para assimilar as

    informaes. De acordo com Cerejo (2000) a informao dirigida ao doente de forma

    coordenada e atempada contribui para a sua compreenso e interiorizao, sendo uma

    pedra basilar para o sucesso do internamento.

    Seria tambm crucial propiciar pessoa o contacto e conhecimento da unidade e

    equipa que lhe prestar cuidados durante o perioperatrio. Neste contacto, os

    profissionais de sade poderiam aproveitar para transmitir algumas informaes sobre o

    processo cirrgico e, simultaneamente, proporcionar um ambiente que contribuisse para

    o doente expressar as suas dvidas, angstias, incertezas, entre outros aspectos.

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    35

    Atendendo s constataes efectuadas, podemos inferir que existe uma lacuna na

    satisfao das necessidades de informao dos doentes cirrgicos sobre a preparao

    pr-operatria.

    Perante estas reflexes, surgiu-nos trs questes de partida:

    Qual a informao recebida pelos doentes cirrgicos sobre a preparao

    pr-operatria?

    Qual o conhecimento dos doentes cirrgicos sobre a preparao pr-

    operatria?

    Quais as necessidades de informao expressas pelo doente cirrgico

    sobre a preparao pr-operatria?

    Assim, realizmos um estudo intitulado O Doente Cirrgico No Perodo Pr-

    operatrio: Da Informao Recebida s Necessidades Expressas. Tendo por

    base os pressupostos tericos, delineamos os seguintes objectivos:

    Descrever qual a informao recebida pelos doentes cirrgicos sobre a

    preparao pr-operatria;

    Descrever o conhecimento dos doentes cirrgicos sobre a preparao

    pr-operatria;

    Descrever as necessidades de informao expressas pelo doente cirrgico

    sobre a preparao pr-operatria.

    Como finalidade, pretende-se que este estudo contribua para a implementao de

    um programa de informao estruturado que satisfaa as necessidades de informao do

    doente cirrgico no perodo pr-operatrio e que contribua para adequar o ensino de

    enfermagem s reais necessidades de informao do doente.

    De acordo com Melo (2005) compreender a perspectiva do doente torna-se um

    pr requisito indispensvel para uma boa prtica profissional (p.29). Nesta linha de

    ideias Silva (2002) alude que o doente deve ter a oportunidade e o direito de ser

    esclarecido sobre vrios aspectos que o preocupam, de acordo com as suas

    necessidades e no apenas naqueles aspectos que o enfermeiro julga serem importantes

    (p.21). Parse citado por Silva (2002) refere que o doente e no o enfermeiro, a figura

    autoritria e o principal tomador de decises no relacionamento (p.21).

  • CONTEXTUALIZAO

    Nolia Pimenta Gomes

    36

    Ainda, Melo (2005) alerta para a importncia e vantagens em proporcionar uma

    informao adequada s necessidades de cada doente. Refere que h uma maior

    satisfao do doente; melhor cooperao com o tratamento; reduo da ansiedade e da

    perturbao; recuperao mais rpida da cirurgia e estadias mais curtas no hospital

    (p.67).

    Para a elaborao deste estudo, baseamo-nos, entre muitos outros, nos seguintes

    autores: Watson (1985), Cerejo (2000), Silva (2002), Fortin (2003), Phipps et al (2003),

    Cabral (2004), Garretson (2004), e Melo (2005).

    No captulo seguinte, aprofundaremos os conceitos que consideramos pertinentes

    para uma melhor compreenso dos fenmenos em estudo.

  • Nolia Pimenta Gomes

    37

    2- QUADRO DE REFERNCIAS

    De acordo com Fortin (2003), o quadro de referncias representa as bases

    tericas ou conceptuais da investigao, as quais permitem ordenar os conceitos entre si,

    de maneira a descrever, explicar, ou predizer as relaes entre eles (p.89).

    Por seu lado Burns & Grove, citado por Fortin (2003), referem que o objectivo

    do quadro de referncias consiste em estruturar os elementos de um estudo, e em

    fornecer um contexto para a interpretao dos resultados (p.93).

    Assim, tendo por base os pressupostos destes autores, desenvolvemos neste captulo,

    os conceitos expressos no nosso problema de investigao que se refere ao Doente

    Cirrgico No Perodo Pr-Operatrio: Da Informao Recebida s Necessidades

    Expressas procurando defini-los de forma lgica e racional de modo a facilitar a

    compreenso do tema em estudo.

    2.1 Cuidar em contexto cirrgico

    Parece-nos, essencial reflectir no nosso dia-a-dia sobre o termo cuidar, porque

    achamos, que deve ser visto como uma prtica que revele o conhecimento e a

    competncia do enfermeiro que presta cuidados ao doente.

    Segundo Collire (1989) cuidar uma das mais velhas expresses da Histria do

    Homem. Desde que existe vida, existem cuidados, sendo necessrio tomar conta da vida

    para que ela possa permanecer com qualidade, o maior espao de tempo possvel. A

    mesma autora refere que:

    Cuidar, prestar cuidados, tomar conta, , primeiro que tudo, um acto de VIDA, no sentido de que representa uma variedade infinita e actividades que visam manter, sustentar a VIDA e permitir-lhe continuar e reproduzir-se. (p. 235)

    O desenvolvimento das cincias humanas e sociais por volta dos anos 50-60

    influenciou, entre outras disciplinas, a Enfermagem. O Homem comeou a ser

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    38

    compreendido como um ser global, como um todo e no apenas a soma das partes que o

    compem. Assim, surgem novas formas de abordagem dos cuidados de Enfermagem,

    baseados em modelos que percepcionam o Homem como um ser holstico, em

    equilbrio com o meio externo e que se encontra inserido numa famlia, grupo e sociedade.

    Melo (2005), citando Stoudemire, salienta que a maioria das doenas,

    independentemente de serem fsicas ou psiquitricas, so influenciadas e determinadas

    por variveis biolgicas, psicolgicas e sociais, variveis que, por sua vez, influenciam

    a predisposio, o aparecimento, o curso e o prognstico da maioria das doenas

    (p.40).

    O enfermeiro surge aqui como algum que possui competncias para ajudar a

    pessoa a desenvolver as suas aptides, de forma a conseguir enfrentar a doena e

    promover o restabelecimento do equilbrio.

    Santos (1995) considera que:

    Cuidar requer uma relao interpessoal, que engloba comportamentos e sentimentos, tais com o assistir, o ajudar, o estar ao servio de, desenvolvendo aces de enfermagem e mostrando capacidade de empatia em relao s experincias do utente. (p. 9)

    Nesta ptica, Caseiro e Pinto (2001) referem que a partilha de sentimentos, medos

    e alegrias podem tornar cada pessoa nica para ns e nos tornam nicos na vida daquela

    pessoa, isto , cuidar do outro e tambm de ns!

    Segundo Batalha (2001), ao enfermeiro compete-lhe cuidar do ser humano, isto ,

    ser uma pessoa que acompanha outra que dele necessita. O mesmo autor, refere que o

    cuidar e a prtica dos cuidados deve situar-se para alm do modelo biomdico e o

    Homem deve ser entendido como um ser global inserido num meio singular.

    Nesta perspectiva, Cerqueira (1999) salienta que a enfermagem tem a

    possibilidade de cuidar do Homem na sua individualidade. Se, por um lado o cuidar a

    caracterstica globalizante da humanidade por outro lado, a forma de o concretizar que

    nos distingue uns dos outros. Este autor refere ainda que o Homem cuida porque a sua

    natureza cuidar, a me cuida do seu filho.

    O cuidar que muitos autores consideram ser a essncia da enfermagem ,

    como salienta Watson (1985), o foco central da enfermagem.

    A enfermagem est preocupada em promover a sade, prevenir a doena, cuidar o doente e restaurar a sade. A enfermagem tradicional tem integrado o conhecimento bio-fisiolgico, como conhecimento do comportamento humano, para promover o bem-estar e cuidar do doente. No presente (como no passado), a nfase est na promoo da sade, mais do que na especializao do tratamento da doena. (p.7)

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    39

    Em consequncia deste pressuposto, Watson (1985) refora que a enfermagem

    interessa-se pelo conhecimento e compreenso do cuidado, o que embora

    complementar, diferente do conhecimento e compreenso do curar, que pertence ao

    campo de aco da medicina.

    importante criar um ambiente e um clima que sejam facilitadores da prtica de

    cuidados. As prticas do cuidar so uma parte integrante da excelncia no exerccio da

    enfermagem, sendo fundamental tornarem-se visveis.

    Segundo Benner (2001):

    As prticas crescem atravs da aprendizagem experiencial e atravs da transmisso dessa aprendizagem nos contextos de cuidados. As prticas no podem ser completamente objectivadas ou formalizadas porque elas tm sempre de ser trabalhadas em novas formas, no mbito de interaces particulares que ocorrem em momentos reais. (p.14)

    Assim, o enfermeiro da unidade de cirurgia deve ter em ateno que a

    hospitalizao, e particularmente a experincia cirrgica, constituem um desafio ao

    normal funcionamento do organismo para a pessoa em qualquer momento da sua vida,

    ou seja, uma interrupo do processo contnuo de sade. Henderson (1994) reala que

    desde o momento que o doente hospitalizado, cada Enfermeiro deve questionar-se

    sobre os seus procedimentos habituais e sobre os aspectos que limitam a aco do

    indivduo na satisfao das suas necessidades bsicas. Constitui uma prioridade,

    propiciar um ambiente hospitalar o mais semelhante ao seu domicilio, para facilitar a

    adaptao a nova condio. Pois se durante demasiado tempo privarmos uma pessoa

    daquilo que ela mais valoriza amor, aceitao, uma ocupao til estas podem ser

    piores que a doena que pretendemos curar (Henderson 1994, p.17).

    Nestas circunstancias o doente aceita o internamento, na esperana que lhe sejam

    prestados cuidados de qualidade, sendo premente a necessidade de humanizar os

    cuidados. Segundo Vilaa (2004) o cuidar s global e completo quando a execuo de

    qualquer tcnica se encontra intrinsecamente ligada dimenso relacional que a

    suporta e lhe d sentido (p.14).

    A componente tica indissocivel da conduta do enfermeiro no cumprimento

    das suas funes. Para Queirs (2001), cuidar o ncleo central da enfermagem e

    desenvolvida atravs do suporte e da proteco da dignidade do doente/utente (p.18).

    Logo, fundamental preservar e fomentar o direito dignidade humana, que se

    encontra contemplado no Cdigo Deontolgico do Enfermeiro (2003) no Artigo 78.

    ponto n.1 as intervenes de enfermagem, so realizadas com a preocupao da defesa

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    40

    e da dignidade da pessoa humana e do enfermeiro (p.21) e o Artigo 89. refere-se a

    humanizao dos cuidados. Significa que a nossa interveno deve visar a qualidade

    dos cuidados que prestamos, atendendo o doente de forma personalizada, no seu todo,

    promovendo o seu conforto e minimizando o seu sofrimento, pois s assim, possvel

    humanizar os cuidados que prestamos no respeito pela dignidade da pessoa.

    Nesta linha de pensamento Osswald (2000) reala a necessidade de humanizar,

    colocar o doente no centro do sistema e das atenes, acolher, informar, encaminhar a

    pessoa doente, que nunca um caso ou um rtulo. (p.44) indiscutvel que o papel de

    humanizar cabe a todos os profissionais de sade, nomeadamente ao enfermeiro que

    tem caractersticas prprias e singular no desempenho das suas funes, razo pela

    qual considerado como o agente da primeira linha da humanizao. (p.45)

    Bellman (2003), partilhando das ideias de Osswald (2000) refere que:

    o papel do enfermeiro de cirurgia dinmico, multifacetado e continua a evoluir em funo de alteraes que surgem do interior da enfermagem, de politicas de servio locais e nacionais e de tecnologias em progresso acelerado. O enfermeiro de cirurgia do sculo XXI tem que ser, um praticante profissional, confiante e flexvel capaz de articular valores de enfermagem e inovar efectivamente a prestao de cuidados, em benefcio dos doentes... (p.27)

    Para a enfermagem o processo de cuidar tem um enfoque importante que,

    segundo Watson (2002) tem o objectivo de proteger, melhorar e preservar a dignidade

    humana (p.55). Isto requer, por parte do enfermeiro, um envolvimento do seu todo,

    tanto a nvel pessoal, como social, moral e espiritual. De acordo com esta autora, todo o

    cuidar est relacionado com respostas humanas intersubjectivas s condies de sade-

    doena; um conhecimento de sade-doena, interaces ambiente-pessoa; um

    conhecimento do processo de cuidar; um auto-conhecimento e conhecimento das nossas

    capacidades e limitaes para negociar. (p.55)

    Silva (2002) reala que cuidar de uma pessoa que ser submetida a uma

    interveno cirrgica exige, por parte do enfermeiro, um conhecimento de todo o

    processo cirrgico, essencialmente do modo como o doente conceptualiza a cirurgia e

    relembra as experincias anteriores.

    O papel que o enfermeiro desempenha numa unidade de cirurgia crucial para o

    sucesso de todas as fases que compem o perodo perioperatrio, como referem Cruz e

    Varela (2002):

    a enfermeira precisa de assumir a posio de me carinhosa, compreensiva e protectora; de psicloga, na identificao, compreenso e conforto em presena de alteraes comportamentais; de assistente social, na identificao e compreenso dos problemas relativos sua

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    41

    cultura e necessidades pessoais, ajudando a resolv-los. Assume at mesmo, a posio de religiosa para dar apoio espiritual assim como advogada, para defender e apoiar a pessoa de possveis intercorrncias e do prprio procedimento cirrgico. Tambm coloca-se como mensageira, mantendo o elo de ligao com a famlia do doente (p.53).

    O conceito de cuidar, como pudemos constatar das descries anteriores,

    amplo e varia consoante a interpretao que cada autor concebe do conceito, assim

    como as suas crenas, valores e ideais. No entanto, unnime considerar que o cuidar

    a essncia e o centro da enfermagem. Nesta ptica, espera-se que os enfermeiros

    desenvolvam capacidades de ordem tcnica, cientfica, prtica, e tambm de ordem

    relacional e tica, para conseguirem dar resposta ao desafio que CUIDAR.

    Em seguida, efectuamos uma abordagem sobre a enfermagem perioperatria,

    especificamente sobre o perodo pr-operatrio e os respectivos cuidados de

    enfermagem que o doente necessita nesta fase.

    2.2 A Enfermagem no perodo pr-operatrio

    Ao longo dos tempos e face as mudanas socioculturais, econmicas, polticas e

    tecnolgicas, que se tem verificado na nossa sociedade, a Enfermagem tal como outras

    profisses, tem vindo a evoluir e a desenvolver o seu leque de conhecimentos, tendo

    como pilar o mtodo cientfico de pesquisa e a prtica da Enfermagem. Os profissionais

    tm a incumbncia de alargar os seus saberes, aprofundando os domnios que guiam os

    seus actos. imperativo a existncia de um conjunto terico de conhecimentos que

    oriente a formao dos profissionais e assim melhore a prestao de cuidados.

    Para Watson (2002) a enfermagem, na generalidade, consiste em conhecimento,

    pensamento, valores, filosofia, compromisso e aco, com algum grau de paixo (p.96),

    da que conhecermos e reflectirmos sobre os paradigmas da Enfermagem fundamental

    para compreendermos a natureza dos cuidados e o estado da Enfermagem actual.

    Krouac, Pepin, Ducharme, Duquette e Major (1994) apresentaram vrias correntes de

    pensamento atribuindo a designao de paradigma da categorizao, paradigma da

    integrao e o paradigma da transformao.

    O paradigma da categorizao representa os fenmenos de um modo linear e

    isoladamente, orientando o pensamento para a pesquisa de um factor causal,

    responsvel pela doena, ocorrendo mudanas como resultado de condies anteriores.

    Assim, os fenmenos so divisveis em categorias, classes ou grupos definidos e

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    42

    considerados elementos isolveis ou manifestaes simplificveis (Krouac et al, 1994,

    p. 3). A pessoa vista como um ser fragmentado e o ambiente algo que est isolado da

    pessoa, ou seja, a pessoa e o ambiente so duas entidades independentes.

    Neste paradigma, subsistem duas orientaes distintas da Enfermagem: uma

    centrada na sade pblica, que se interessa pelas condies de sade em que vivem as

    pessoas; outra orientada para a doena, estando ligada prtica mdica.

    O paradigma da integrao o prolongamento do paradigma anterior, em que os

    elementos e as manifestaes de um fenmeno esto integrados num contexto

    especfico onde se encontra. Este paradigma influenciou a orientao da Enfermagem

    para a pessoa, salientando-se o reconhecimento desta disciplina, distinta da disciplina

    mdica. Nesta perspectiva, a pessoa entendida como um todo em interaco e os

    cuidados de Enfermagem so prestados com a finalidade de assistir a pessoa em todas as

    suas dimenses (Krouac et al, 1994).

    Por outro lado, o paradigma da transformao representa uma mudana de

    mentalidade, perspectivando os fenmenos como nicos, jamais iguais a um outro.

    Krouac et al, (1994) narram que:

    os fenmenos apresentam algumas similaridades, mas nenhum se assemelha completamente. No entanto cada fenmeno pode definir-se por um estrutura e um padro nico; uma unidade global em interaco recproca e simultnea com uma unidade global mais larga, o mundo que o rodeia. (p.12)

    Neste contexto, a pessoa considerada indissocivel do seu universo, e os

    cuidados de Enfermagem tm como intuito o bem-estar da pessoa e a satisfao das suas

    necessidades individuais, sendo crucial a parceria de trabalho enfermeiro / utente.

    Segundo os autores supra mencionados, um dos objectivos da Enfermagem a

    existncia de um modelo conceptual que constitua um ponto de referncia para a prtica

    de Enfermagem e que contribua para a melhoria dos cuidados prestados pessoa,

    famlia e comunidade.

    Quanto Enfermagem perioperatria, de acordo com Ladden (1997), este termo

    usado tanto no crculo de enfermagem como mdico, sendo reconhecida e praticada em

    salas de cirurgia, centros ambulatrios entre outros. Historicamente o termo

    enfermagem perioperatria usado para descrever os cuidados ao doente nas fases pr,

    intra e ps-operatria, ideia partilha por Pitrez e Pioner (1999), entre outros autores.

    Ainda Ladden (1997) menciona que a enfermagem perioperatria um processo

    profissional e dinmico (p.4). Atravs da identificao e planeamento das intervenes

    e aces, os enfermeiros perioperatrios asseguram aos pacientes cirrgicos cuidados de

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    43

    enfermagem, com base cientfica e tm um papel preponderante no propiciar de um

    ambiente seguro e eficiente para que o doente alcance resultados positivos durante todo

    o processo cirrgico.

    Ao longo dos tempos, a enfermagem perioperatria tem evoludo, vindo a dar,

    progressivamente, maior nfase ao atendimento holstico do individuo para a satisfao

    das suas necessidades em substituio de uma interveno exclusivamente tcnica. A

    Enfermagem perioperatria contempornea centrada no doente, em vez de orientada

    para as tarefas inerentes (Phipps et al, 2003, p.526).

    O perodo pr-operatrio descrito, por vrios autores, como tendo incio no

    momento em que o paciente e o cirurgio tomam a deciso da interveno cirrgica, e

    termina com a transferncia do primeiro para a mesa cirrgica concepo partilhada por

    diversos autores, entre eles, Brunner e Suddarth (1993); Pitrez e Pioner (1999);

    Sorensen e Luckmann (1998); Phipps,Sands e Marek (2003) e Santos, (2003). Por

    outras palavras podemos afirmar que o perodo pr-operatrio compreende o espao de

    tempo que antecede o procedimento cirrgico () sendo esse tempo muito varivel e

    est sujeito a circunstncias multifactoriais, dependentes no s da patologia como

    tambm do estado clnico do paciente (Pitrez & Pioner, 1999, p.18). Segundo estes

    autores, no podemos predizer a durao desta fase, uma vez que cada caso nico e

    individual.

    Sawada, citado por Arajo, Jorgetto e Noronha (2007), acrescenta que o pr-

    operatrio um perodo de deteco das necessidades fsicas e psicolgicas do paciente

    que ser submetido a um procedimento cirrgico (p.2).

    Fazendo uma breve resenha histrica da enfermagem no perodo pr-operatrio

    notrio que o papel do enfermeiro e as intervenes de enfermagem sofreram vrias

    alteraes ao longo dos tempos. Ladden (1997) parafraseando Black recorda que entre

    1900 a 1919 a preparao do doente cirrgico se realizava especialmente no domiclio,

    aps a marcao da cirurgia. O paciente fazia uma alimentao mais reforada, banhos

    com maior frequncia, exposio ao sol e fazia perodos de repouso como preparao do

    corpo. Algumas horas antes da cirurgia, o enfermeiro deslocava-se a casa com o intuito

    de preparar o doente e o ambiente para que a cirurgia se realizasse. Seleccionava o

    quarto mais apropriado, esvaziava-o e fervia os utenslios necessrios, conversava com

    o paciente acalmando-o e obtendo informaes da sua histria pessoal e familiar.

    Corroborando com Ladden (1997), Phipps et al (2003) aludem que no incio do

    sculo XX os actos cirrgicos eram praticados em casa do doente, em que o papel da

    enfermagem centrava-se na preparao do ambiente e no suporte ao doente (p.525).

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    44

    Durante o perodo compreendido entre 1920 e 1939, comeou a surgir um modelo

    de preparao pr-operatria, como resultado da afiliao dos mdicos aos hospitais.

    Tanto a preparao fsica como mental do paciente eram stressantes, o conceito de

    consentimento do paciente para a cirurgia foi iniciado e a preparao da sala de

    operaes (SO) e dos instrumentos foi aplicada (Ladden, 1997 citando Black, p.4).

    Neste perodo, segundo Phipps et al (2003), a principal funo do enfermeiro consistia

    na assistncia tcnica ao cirurgio.

    Entre 1940 e 1959 foram assinalados pelas descobertas cientficas na rea da

    Medicina e da Enfermagem. Os cuidados ao doente cirrgico tornaram-se mais globais,

    mais completos, deu-se um maior nfase as necessidades individuais de cada paciente e

    foi reconhecida a importncia e utilidade da preparao psicolgica antes da operao.

    Segundo Ladden (1997) citando Black, nos anos compreendidos entre 1960 e

    1979, a investigao nesta rea foi enfatizada e as necessidades emocionais do paciente

    foram reconhecidas medida que elas relacionavam-se cada paciente

    individualmente, e os conceitos de instruo pr-operatria estruturada foram

    introduzidos e validados pela pesquisa em Enfermagem (p.4).

    Actualmente, segundo Santos (2003), o perodo pr-operatrio divide-se em

    mediato e imediato. O primeiro corresponde ao perodo de tempo que decorre desde o

    momento que tomada a deciso de interveno cirrgica at s 24 horas que

    antecedem a cirurgia. Este intervalo de tempo pode corresponder a dias, meses e at

    anos, sendo o mais frequente ocorrer com o doente no domiclio tendo como objectivo

    principal disponibilizar factores positivos para o acto cirrgico e estabilizar condies

    que possam interferir na recuperao (p.24).

    Durante o pr-operatrio mediato, o doente ir-se- consciencializando da

    necessidade e importncia da cirurgia, sendo normal que surjam muitas dvidas, medos

    incertezas e interrogaes, desempenhando o enfermeiro um papel muito importante na

    explanao, de forma precisa e objectiva dos aspectos que preocupam o doente, no

    sentido de prepar-lo adequadamente para o acto cirrgico.

    Ladden (1997) e Phipps et al (2003) aludem que nesta fase frequente a pessoa

    dirigir-se unidade hospitalar para a realizao de exames complementares de

    diagnstico, para a consulta de anestesia, entre outros procedimentos, proporcionando

    ao enfermeiro a possibilidade de estabelecer um contacto mais prximo com o doente.

    Logo, este momento poderia ser aproveitado para esclarecer o doente sobre os aspectos

    que o preocupam e transmitir algumas informaes sobre os aspectos que envolvem o

    perioperatrio.

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    45

    Seguindo o pensamento dos autores anteriores Dawson (2003) menciona que o

    ideal seria o doente frequentar consultas de pr-admisso, onde conheceria o seu

    enfermeiro () esta abordagem serve para estabelecer uma relao teraputica muito

    antes da realizao da cirurgia (p.399).

    Relativamente ao perodo pr-operatrio imediato, este descrito como

    correspondendo apenas s 24 horas que antecedem a cirurgia, correspondendo, na

    maioria das vezes, ao internamento do doente. , normalmente, nesta fase que o doente

    entra em contacto directo com a equipa de sade que ir prestar-lhe os cuidados, sendo

    efectuada a preparao para o acto cirrgico e, simultaneamente, quando toma

    conhecimento das prticas da unidade.

    Em sntese, fazendo aluso a Phipps et al (2003), a avaliao inicial do doente,

    assim como a preparao pr-operatria, deveria ser iniciada antes do internamento na

    unidade hospitalar, ou seja, no perodo pr-operatrio mediato e continuada durante o

    internamento e alta hospitalar. No entanto, ao nvel do hospital onde trabalhamos,

    Hospital Central do Funchal, assim como noutros hospitais, esta prtica no comum.

    2.2.1- A preparao pr-operatria do doente cirrgico

    A adequada preparao pr-operatria do doente cirrgico, primordial para o

    sucesso de todas as fases que compem o processo cirrgico. No perodo pr-operatrio,

    so planeados cuidados de enfermagem que tero um grau de significncia elevado na

    recuperao e xito da cirurgia.

    Hesbeen (2000) define Cuidados de Enfermagem como sendo a ateno

    particular prestada por uma enfermeira ou por um enfermeiro a uma pessoa ou aos

    seus familiares com vista a ajud-los (). Englobam tudo o que os profissionais fazem,

    dentro das suas competncias, para prestar cuidados as pessoas (p.69). Assim, prestar

    cuidados de enfermagem complexo e tem como finalidade ajudar a pessoa a promover

    a sua sade, contribuindo para o seu bem-estar e proporcionando uma ateno particular

    quando esta se encontra numa situao adversa.

    Segundo o autor supracitado, os Cuidados de Enfermagem so compostos de

    mltiplas aces que so sobretudo, () uma imensido de pequenas coisasque do

    possibilidade de manifestar uma grande ateno ao beneficirio de cuidados e aos

    seus familiares ao longo das vinte e quatro horas (p.47).

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    46

    Corroborando com as citaes anteriores a Ordem dos Enfermeiros (2003) define

    os Cuidados de Enfermagem como as intervenes autnomas ou interdependentes a

    realizar pelo o enfermeiro no mbito das suas qualificaes profissionais (p.1669).

    De acordo com alguns autores consultados, nomeadamente Brunner e Suddarth

    (1993), Sorensen e Luckmann, (1998) e Phipps et al (2003), no perodo pr-operatrio a

    assistncia ao doente deve ser efectuada a vrios nveis, sendo primordial o primeiro

    contacto. crucial estabelecer um dilogo que permita ao doente sentir confiana e

    segurana nos enfermeiros que iro prestar-lhe cuidados, propiciando o

    desenvolvimento de uma relao teraputica. Assim, o utente sentir-se- mais confiante

    para transmitir alguns dados pessoais, manifestar as suas necessidades, as suas dvidas,

    os seus medos, entre outros, que sero muito teis para o planeamento de cuidados

    personalizados e para preveno de complicaes no ps-operatrio. A avaliao inicial

    deve ser holstica e reflectir as necessidades fisiolgicas, psicolgicas, espirituais e

    sociais, do doente e de sua famlia ou pessoas significativas (Phipps et al, 2003, p.530).

    Estes pressupostos so partilhados por Melo (2005) que alude ser elementar,

    para a prestao de cuidados, obter informaes sobre o doente para posteriormente

    conceder instrues distintas de acordo com as necessidades individuais. Utilizando os

    princpios da entrevista, o enfermeiro pode adquirir informaes valiosas. Um

    enfermeiro tranquilo, compreensivo e cordial desperta a confiana do paciente

    (Brunner & Suddarth, 1993, p.345).

    Atravs do dilogo / entrevista, o enfermeiro adquire dados sobre as preferncias

    alimentares do utente; hbitos de higiene; medicao que faz no domicilio;

    funcionamento vesical e intestinal; histria de sade; experincias cirrgicas anteriores;

    hbitos de sono; existncia ou no de alergias; hbitos tabgicos; ingesto de bebidas

    alcolicas; passado cultural, aspectos psicossociais; entre outros aspectos.

    De acordo com Phipps et al (2003), a histria de sade essencial para avaliar

    os sistemas orgnicos e verificar se o doente tem condies para ser submetido a

    cirurgia. No que se refere ao uso de frmacos e substncias, assim como presena de

    alergias, so dados muito importantes devido aos potenciais efeitos adversos dessas

    substncias, com alguns anestsicos, e o risco acrescido de complicaes (p.530).

    Os autores anteriormente citados referem que o passado cultural pode influenciar

    as reaces a sade, doena, cirurgia e morte (p.531). Ainda, Phipps et al (2003),

    alertam para a importncia das experincias cirrgicas vividas anteriormente como uma

    situao que pode afectar positivamente ou negativamente o nvel de ansiedade e,

    consequentemente a forma como o doente enfrenta este novo momento.

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    47

    Brunner e Suddarth, (1993); Sorensen e Luckmann, (1998); Gonalves, (2003);

    Dawson, (2003); referem que no perodo pr-operatrio , crucial analisar os aspectos

    psicossociais, sendo necessrio preparar psicologicamente o doente para a interveno

    cirrgica, com o objectivo de reduzir a ansiedade que est sempre presente nestas

    circunstncias. Tambm Cruz e Varela (2002) mencionam que a admisso do doente

    num servio para ser submetido a interveno cirrgica sempre precedida da

    sensao de medo (p.51). O doente manifesta, entre outros, medo do desconhecido, do

    ambiente estranho, da cirurgia, do seu resultado, medo da anestesia, das alteraes que

    possam surgir na sua imagem corporal, medo da dor e medo da morte.

    Quanto aos aspectos psicossociais, no podemos esquecer a avaliao da

    situao familiar, nomeadamente a condio financeira que pode ter implicaes

    considerveis, tanto na interveno cirrgica imediata como nos cuidados de

    acompanhamento (Phipps et al, 2003, p.532).

    imprescindvel que o enfermeiro, ao cuidar do doente no pr-operatrio, tenha

    conhecimento e conscincia que sua funo suavizar, seno eliminar o processo

    ansioso que o doente vivncia () uma boa relao enfermeiro / doente / famlia

    permitir um esclarecimento atempado de todos os seus medos e dvidas, encarando a

    experincia vivida como mais uma etapa do seu ciclo vital (Gonalves, 2003, p.18).

    Dawson (2003) defende que o principal objectivo dos cuidados de enfermagem

    no perodo pr-operatrio facultar ao doente e familiares a compreenso e

    preparao da experincia cirrgica (p.395).

    Assim, torna-se fundamental informar o doente sobre os aspectos inerentes ao

    processo cirrgico. Esta advertncia pertinente, no s pelo facto de reduzir a

    ansiedade do doente, por contribuir para uma maior participao do mesmo, em todos

    os procedimentos, como tambm para uma adequada recuperao de todas as fases que

    constituem o perodo perioperatrio. Segundo Dawson (2003) quando o doente conhece

    e compreende a operao, a cura mais rpida. Quando () informado sobre os

    frmacos, adere com mais facilidade e usa-os adequadamente (p.396).

    De acordo com Phipps et al (2003) e Melo (2005), a preparao pr-operatria

    deve centrar-se em trs dimenses elementares. Na dimenso do Procedimento

    Cirrgico, na dimenso Sensorial e Comportamental.

    A dimenso do procedimento cirrgico contempla as orientaes sobre a

    experincia cirrgica como sendo: o consentimento informado; alimentao que deve

    fazer na vspera da cirurgia e no ps-operatrio; a forma de preparao da pele; a

    preparao intestinal; a roupa que deve usar no dia da cirurgia; os cuidados a ter com os

  • QUADRO DE REFERNCIAS

    Nolia Pimenta Gomes

    48

    cabelos e as prteses dentarias; a visita pr-operatria de enfermagem; a visita pr-

    anestsica; os cuidados que lhe sero prestados no bloco operatrio; o acompanhamento

    para o bloco operatrio; a sala de cuidados ps-anestsicos; as visitas no ps-operatrio,

    os mtodos de controlo da dor; os dispositivos que poder trazer e as condies para alta

    (Phipps et al, 2003; Melo, 2005).

    A dimenso sensorial inclui as sensaes que o doente pode experimentar

    durante o perioperatrio, como seja, os efeitos da medicao; o ambiente da sala

    operatria; as sensaes ao primeiro levante e as sensaes associadas aos dispositivos

    (Phipps et al, 2003, Melo 2005).

    No que concerne dimenso comportamental, compreende as aces relativas aos

    comportamentos a adoptar pelo doente para a preveno de complicaes no ps-

    operatrio, como sejam: a respirao profunda; exerccio da tosse; o uso do

    inspirometro; exerccios com os membros inferiores; mobilizao no leito; o primeiro

    levante; entre outros (Phipps et al, 2003, Melo, 2005).

    Dawson (2003) aponta que as complicaes que despontam com maior

    frequncia no ps-operatrio so as respiratrias, circulatrias e as infeces. Tambm

    Phipps et al (2003) comunga da opinio do autor supra mencionado referindo que estas

    complicaes so as que sobrevm com maior frequncia aps o acto cirrgico. Dawson

    (2003) e Phipps et al (2003) partilham da convico que o risco de ocorrncia destas

    complicaes pode ser reduzido ou mesmo eliminado, se houver uma preparao

    adequada do doente no perodo pr-operatrio.

    De acordo com Melo (2005), a informao sensorial pode ser particularmente

    importante, porque ajuda a normalizar as sensaes do doente durante o procedimento.

    Similarmente, a informao sobre o que o doente pode fazer per