O Embate Modernidade e Pos Modernidade e Educação

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  • EccoS Revista CientficaISSN: 1517-1949eccos@uninove.brUniversidade Nove de JulhoBrasil

    Goergen, PedroO embate modernidade/ps-modernidade e seu impacto sobre a teoria e a prtica educacionais

    EccoS Revista Cientfica, nm. 28, mayo-agosto, 2012, pp. 149-169Universidade Nove de Julho

    So Paulo, Brasil

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=71523339010

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  • A r t i g o s

    EccoS Rev. Cient., So Paulo, n. 28, p. 149-169, maio/ago. 2012. 149

    Resumo: Neste artigo pretende-se analisar a relao entre o debate modernidade/ps-modernidade e a educao. Assinalam-se, primeiro, alguns aspectos centrais da moderni-dade e, na sequncia da ps-modernidade, estabelecendo, a partir da, uma relao entre a teoria e a prtica educacionais. O autor atm-se, especialmente, nos aspectos epistemo-lgicos e ticos, buscando mostrar a importncia das mudanas ocorridas nestes campos que interferem nas pesquisas e atividades pedaggicas.

    Palavras-chave: Educao. Epistemologia. tica. Modernidade. Ps-modernidade.

    Abstract: This article seeks to examine the relationship between the debate about mo-dernity/post-modernity and education. Mark at first, some central aspects of modernity and, as a result of post-modernity, by setting, from there a relationship between the theory and educational practice. The author keeps back, especially epistemological and ethical points of view, aiming to show the importance of changes in these fields that interfere in researches and educational activities.

    Key words: Education. Epistemology. Ethics. Modernity. Post-modernity.

    O embate mOdernidade/ ps-mOdernidade e seu impactO sObre a teOria e a prtica educaciOnaisthe clash mOdernity/pOst-mOdernity and its impact

    On the educatiOnal theOry and practice

    Pedro GoergenProfessor titular Uniso; Professor titular (aposentado) Unicamp.

    Sorocaba, SP Brasil.pedro.goergen@prof.uniso.br

    doi: 10.5585/EccoS.n28.2999

  • EccoS

    Revista

    Cientfica

    O embate modernidade/ps-modernidade e seu impacto sobre a teoria e a prtica educacionais

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    1 Introduo

    Embora o debate entre modernidade e ps-modernidade j no seja recente, parece-me razovel iniciar com algumas consideraes a respeito do sentido dos dois termos. Estes esclarecimentos nos permitiro, poste-riormente, nomear algumas caractersticas da contemporaneidade que, independente dos resultados do debate entre modernos e ps-modernos, so fatos reais que no podem ser ignorados pela educao, uma vez que interferem diretamente na sua teoria e prtica.

    Max Weber definiu a modernidade como um desencantamento do mundo. Nietzsche, Heidegger, Adorno/Horkheimer e Foucault, por sua vez e cada um sua maneira, tambm falaram do desencantamento, s que agora da modernidade. Em particular Lyothard (1985), com base nas teses foucaultianas, radicaliza a leitura dos traos centrais da contempora-neidade, definindo-a como ps-modernidade, ou seja, como uma nova fase da histria, posterior modernidade. Criou-se em torno desta tese uma importante polmica com relevantes implicaes tericas em diversas reas do conhecimento, em particular no da filosofia e da epistemologia. Mas tambm outros campos terico/prticos, como os da educao e da tica, vm sendo afetados por este debate.

    Examinar esta relao entre modernidade e ps-modernidade e suas implicaes para o campo da educao o objetivo da minha exposio. A exiguidade do espao, evidentemente, no permite tratar o tema com a abrangncia e profundidade exigidas. Espero, mesmo assim, poder desta-car alguns pontos importantes, atualmente relevantes nesta importante discusso.

    A trajetria a ser percorrida abrange trs momentos, a saber, a) a relao entre modernidade e ps-modernidade; b) alguns aspectos da crise da racionalidade moderna; e, finalmente; c) implicaes destas transfor-maes para o campo da educao.

    2 Sobre a modernidade

    Na modernidade o homem se conscientiza de suas capacidades ra-cionais para o desvendamento dos segredos da natureza, teis na soluo

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    de seus problemas. Acredita, portanto, na possibilidade de substituir a cul-tura teocntrico/metafsica medieval, vinculada tanto verdade revelada quanto autoridade da Igreja, por uma cultura antropocntrica e secular. As razes dessa nova perspectiva, j lanadas na poca do humanismo/renascentismo1, se concretizam apenas lentamente com as contribuies de pensadores como Roger Bacon (1214-1294) ao afirmarem a autonomia das cincias profanas, sustentadas sobre os pilares mestres da experincia, do experimento e da matemtica. Da autoridade s coisas, dos livros natureza, das opinies s fontes, era seu lema.

    Dois sculos mais tarde, Nicolau Copernico (1473-1543) fez des-cobertas que se chocavam diretamente com a autoridade da Igreja e dos textos sagrados. A imagem heliocntrica do mundo, comprovada pela ex-perincia cientfica desautorizava o geocentrismo bblico. No mesmo sen-tido, os empiristas inglses Francis Bacon (1561-1626) e John Locke (1632-1704) abriram caminho para a moderna cincia da natureza ao declarar, de um lado, como tarefa mxima da cincia o domnio da natureza, e ao conferir-lhe, de outro, um sentido utilitrio. O nico mtodo verdadei-ramente confivel e til, diziam, o indutivo, ou seja, o da observao e do experimento. Em sua opinio, os sentidos e no a razo so a fonte de nossos conhecimentos. Um sculo mais tarde, David Hume (1711-1776) ampliou esta viso empirista para o campo dos assuntos morais e polticos, afirmando que o homem muito mais um ser prtico e sensitivo do que racional. Comenius (1592-1670) foi talvez o primeiro pedagogo a traduzir tais princpios para o campo educativo.

    Em paralelo, porm em sentido oposto, Ren Descartes (1596-1650), funda o racionalismo moderno, declarando a soberania da razo. Sua con-cepo racionalista/mecanicista de mundo confia razo a capacidade de desvendar os segredos e as leis dessa imensa mquina que o universo, ex-pressando seu funcionamento em frmulas matemticas, teis ao domnio da natureza em proveito do homem. Tal concepo mecanicista, causal e matemtica da realidade natural, foi reforada posteriormente por Isaak Newton (1643-1727) com a descoberta da lei da gravidade. Afirmaram-se, assim, duas vertentes epistemolgicas, a do racionalismo continental, nas pegadas de Descartes, e a do empirismo insular ingls, defendido por Bacon, Locke e Hume.

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    Diante dessa diviso, Immanuel Kant (1724-1804) fez o monu-mental esforo de conciliar estas duas vertentes do conhecimento com seu modelo criticista. Na Crtica da razo pura (1985) expe uma teoria das possibilidades e limites da razo humana. Se, de uma parte, todo o conhe-cimento inicia pela experincia, de outra, o ser humano s tem, efetiva-mente, acesso aos fenmenos, ou seja, aos conceitos ou imagens nascidas da experincia sensvel. A teoria do conhecimento transforma-se, assim, numa espcie de polcia encarregada de controlar as escapadas da razo para alm desses limites. Seu racionalismo crtico estende-se ao campo do agir que deve orientar-se pelo princpio (imperativo categrico) da exemplaridade universal que toda a ao deve ter, fundamentando, assim, uma tica deontolgica do dever.

    Tanto o racionalismo quanto o empirismo, embora distintos quanto origem do conhecimento e dos princpios da moralidade, encontram-se no plano comum da valorizao da razo. Por a vemos que as principais caractersticas do projeto moderno2 so a ilimitada confiana na razo, su-postamente, capaz de dominar os princpios naturais e morais em proveito dos homens, estimulando a crena numa trajetria humana que, pelo mes-mo uso da razo, conduziria a sociedade para um estgio melhor. Em outros termos, o projeto moderno, sintetiza-se pela f na razo como indutora e garantidora do progresso humano, tanto cientfico/tcnico quanto moral.

    Este processo que, segundo a convico moderna, levaria a huma-nidade de um estgio menos desenvolvido a outro mais desenvolvido usualmente descrito como metarrelato ou metanarrativa. Certamente, esta ideia de progresso tem a marca gentica do medievo cristo do qual a mo-dernidade emerge, j que tambm o cristianismo conta uma histria com comeo, meio e fim. Segundo esta viso, o passado representa um simples prlogo ao presente que, por sua vez, apenas o caminho para o futuro melhor. O sentido do passado e do presente, portanto, est no futuro, ou seja, o tempo secular est a servio do tempo sagrado. O sentido do mundo secular se exaure na conquista da eternidade.

    Esta viso sacralizada de espao e tempo foi, por assim dizer, profa-nada no Renascimento/humanismo pela recuperao da viso secular de mundo dos gregos. Tal viragem preparou o terreno para a formulao de novos padres crticos e racionais que, a partir do sculo XVII, se oporiam a toda forma de dogmatismo intelectual ou religioso.3 A confiana na ra-

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    cionalidade humana, livre de qualquer expectativa salvacionista externa, alimentou a confiana na ideia de progresso secular, capaz de melhorar a vida humana aqui e agora, sem recursos externos. Com isso, a teoria dos dois Estados, outrora formulada por Santo Agosti