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O Estado Ampliado como Ferramenta Metodológica The Expanded State as a Methodological Tool Sonia Regina de Mendonça* Resumo Inúmeros estudos dedicados ao Estado brasileiro insistem em concebê-lo ora como questão da “natureza”, ora como “via de mão única” onde os atores sociais são tomados como “entidades” estranhas entre si. Isso remete a origem do Esta- do à ideia do contrato social, resultando num Estado-Sujeito que “paira” acima da sociedade, dotado de vontade própria e desvinculado dos grupos sociais. Foi o marxismo que se contrapôs a esta matriz, criticando seu extremo individualismo. Todavia, mesmo em seu interior algumas simplificações mecanicistas adulteram o conceito de Estado. As transformações sociopolíticas de inícios do século XX propiciaram condições para renovações no marxismo e sua noção de Estado, so- bretudo aquela elaborada por Gramsci. Este, superando a dicotomia das matrizes anteriores, resgatou os conceitos de sociedade civil e sociedade política recriando o conceito de Estado Ampliado que, além de inovar teoricamente, institui-se em ferramenta metodológica contendo em si mesmo um “roteiro” de pesquisa. Palavras-chave: Marxismo; Estado Ampliado; Metodologia Abstract Numerous studies devoted to the Brazilian State insist in devising it or as a problem of “nature”, or as a kind of “one-way-street” where social actors are seen as “entities” strangers to each other. In this record, the origin of the State is anchored in the idea of a social contract, resulting in a “Subject State”, which “hovers” above the society, endowed with own initiative and without explicit links with the different social groups. It was Marxism that provided an alternative to that thought, criticizing its radical individu- alism. However, even within Marxism some simplifications that distorted the concept of State. The sociopolitical transformations occurred in the early twentieth century provided conditions for renovations in Marxism and its notion of State, especially that elaborated by Gramsci. Overcoming the dichotomy present in the previous schools of thoughts, he rescued the concepts of civil society and political society in order to recre- ate the concept of Expanded State which, besides the theoretical innovation, institutes a methodological tool that contains in itself a “road map” for research. Keywords: Marxism; Expanded State; Methodology * PPGH – UFF / CNPq

O Estadi Ampliado Como Ferramenta Metodologica

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Text of O Estadi Ampliado Como Ferramenta Metodologica

  • O Estado Ampliado como Ferramenta MetodolgicaThe Expanded State as a Methodological Tool

    Sonia Regina de Mendona*

    Resumo

    Inmeros estudos dedicados ao Estado brasileiro insistem em conceb-lo ora

    como questo da natureza, ora como via de mo nica onde os atores sociais

    so tomados como entidades estranhas entre si. Isso remete a origem do Esta-

    do ideia do contrato social, resultando num Estado-Sujeito que paira acima

    da sociedade, dotado de vontade prpria e desvinculado dos grupos sociais. Foi o

    marxismo que se contraps a esta matriz, criticando seu extremo individualismo.

    Todavia, mesmo em seu interior algumas simplificaes mecanicistas adulteram

    o conceito de Estado. As transformaes sociopolticas de incios do sculo XX

    propiciaram condies para renovaes no marxismo e sua noo de Estado, so-

    bretudo aquela elaborada por Gramsci. Este, superando a dicotomia das matrizes

    anteriores, resgatou os conceitos de sociedade civil e sociedade poltica recriando

    o conceito de Estado Ampliado que, alm de inovar teoricamente, institui-se em

    ferramenta metodolgica contendo em si mesmo um roteiro de pesquisa.

    Palavras-chave: Marxismo; Estado Ampliado; Metodologia

    Abstract

    Numerous studies devoted to the Brazilian State insist in devising it or as a problem

    of nature, or as a kind of one-way-street where social actors are seen as entities

    strangers to each other. In this record, the origin of the State is anchored in the idea of a

    social contract, resulting in a Subject State, which hovers above the society, endowed

    with own initiative and without explicit links with the different social groups. It was

    Marxism that provided an alternative to that thought, criticizing its radical individu-

    alism. However, even within Marxism some simplifications that distorted the concept

    of State. The sociopolitical transformations occurred in the early twentieth century

    provided conditions for renovations in Marxism and its notion of State, especially that

    elaborated by Gramsci. Overcoming the dichotomy present in the previous schools of

    thoughts, he rescued the concepts of civil society and political society in order to recre-

    ate the concept of Expanded State which, besides the theoretical innovation, institutes

    a methodological tool that contains in itself a road map for research.

    Keywords: Marxism; Expanded State; Methodology

    * PPGH UFF / CNPq

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    Marx e o Marxismo v.2, n.2, jan/jul 2014

    O Estado Ampliado como Ferramenta Metodolgica

    Uma breve introduo

    Inmeros so os trabalhos dedicados ao estudo e pesquisa sobre o Estado, pro-

    cedentes das mais distintas filiaes tericas. Por certo, tais escolhas no so isentas

    de repercusses sobre o rumo das pesquisas realizadas por seus autores, redundan-

    do, no mais das vezes, em concluses diversas, quando no, bastante antagnicas.

    Por tal motivo, a definio explcita do conceito de Estado adotado por

    cada investigador reveste-se de suma importncia, de modo a percebermos no

    apenas as concluses de seus estudos, mas, sobretudo, seus desdobramentos po-

    lticos junto historiografia especializada.

    Antes de desenvolver a proposta contida neste texto, claramente filiado

    concepo gramsciana de Estado, buscarei sumariar as vicissitudes deste con-

    ceito, em particular a partir de fins do sculo XIX.

    O Estado na Leitura Liberal

    Varias so as matrizes de pensamento que informaram o conceito de Esta-

    do, conquanto, no senso comum, ele seja identificado ora a um organismo bu-

    rocrtico, ora a alguma figuradestacadada administrao pblica. Na verdade,

    tais identificaes nada mais so do que a reificao da prpria noo do Estado,

    coisificao esta que fruto de inmeras operaes tericas subjacentes, nem

    sempre percebidas ou mesmo conhecidas e que impedem conhec-lo em sua

    dinmica mais complexa e profunda.

    Grande parte das vises contemporneas do Estado caudatria desse tipo

    de operao simplificadora, que tem suas razes mais remotas ancoradas na ma-

    triz liberal, elaborada, originalmente, no sculo XVIII. O conceito de Estado pau-

    tado por essa matriz parte de dois princpios-chave: 1) que o estudo do Estado

    deriva do estudo do Direito, especialmente do Direito pblico, quela poca im-

    bricado tica e Moral; 2) que tal Direito, do qual emergiu o Estado, pertencia

    ao domnio da Natureza.

    Por certo, em suas origens, a matriz liberal do Estado guardava sua prpria

    historicidade, consistindo num instrumento essencial de enfrentamento da Igre-

    ja e seu pressuposto de um Direito divino, de cunho transcendente e pertencente

    ao domnio do mgico. Nessa perspectiva, ao homem caberia to somente di-

    minuto papel, sendo a Igreja, em contrapartida, a intrprete legtima dos desg-

    nios de Deus. Nesse sentido, os tericos da matriz liberal representaram signifi-

    cativo avano no pensamento poltico ocidental do perodo, trazendo o homem

    para o centro do universo, com isso tornando-o responsvel por suas aes e

    modos de vida. E como operava, sinteticamente, o conceito liberal de Estado?

    (Bobbio & Bovero, 1987).

    Em primeiro lugar, necessrio apontar que os pensadores liberais buscaram

    transformar as cincias do homem em algo to rigoroso e passvel de comprova-

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    Sonia Regina de Mendona

    o quanto as ditas cincias exatas, tomando a Matemtica como seu paradigma.

    Dentro dessa lgica, fazia-se imperioso estabelecer leis que, tal como no mbito da

    Qumica ou Biologia, assegurassem a repetio comprovada das condutas huma-

    nas. O grande problema deste procedimento estava no fato de buscarem leis uni-

    versais, consideradas vlidas para explicar o comportamento humano de modo

    universal, ou seja, verificvel em toda e qualquer contexto histrico, como se tal

    fosse possvel. A ideia subjacente a tal formulao era a negao da Histria, pos-

    to que, somente para alm dela, poder-se-ia verificar uma lei universal da conduta

    humana. Da decorreu a noo de estado de natureza, considerada como princpio

    da conduta humana universal e base do conceito liberal de Estado.

    Percebe-se, assim, que o problema central da concepo de Estado e de

    Sociedade, por certo gestada pelos tericos liberais residiu em seu teor a-hist-

    rico, permanecendo, dessa forma, a um passo da naturalizao do prprio con-

    ceito de Estado (Bourdieu, 1996).

    Dentro de sua lgica explicativa, o Estado, na viso liberal, emergiria de um

    contrato social. E para que este ocorresse, hierarquizavam duas modalidades

    ou estados de vida dos homens: o estado de natureza ou o estado civil, sendo

    este ltimo a forma de vida humana mais civilizadae progressista, posto ter

    como base o contrato social.

    O estado de natureza ainda que variasse sensivelmente entre os distintos

    pensadores liberais do perodo implicava num modo de vida a-social, onde os

    homens viviam em permanente barbrie e guerra, obedecendo estritamente a

    seus apetites individuais, seus desejos, seus instintos (Mendona, 1998). Nesse

    estado, o homem estava fadado ao prprio extermnio, pois as lutas frequen-

    tes entre individualidades mltiplas levariam destruio da prpria espcie.

    Tratava-se, assim, de um estado apoltico e nocivo, onde o convvio social sequer

    se fazia possvel. Se esta era uma das leis universais da conduta humana, algo

    deveria ser feito para impedir a autodestruio dos homens.

    E este algo, superada a intervenincia divina, seria a Lei, derivada do

    contrato social. Ou seja, um dado grupo de indivduos decidiria, num dado mo-

    mento, pr fim a este estado ou modo de vida e, para tanto, todos eles de-

    veriam abrir mo de seus direitos e prerrogativas individuais, em nome de um

    outro elemento o Soberano tido por capaz de frear as consequncias funestas

    do autogoverno at ento vigente. Essa era a origem do chamado estado (ou

    sociedade) civil, sendo o termo derivado do latim civilitas civilizao ou mes-

    mo civitas cidado.

    Dessa forma, o verdadeiro estado poltico, onde os homens seriam tanto

    civilizados quanto cidados, era o estado (sociedade) civil ou Estado, pura e

    simplesmente. A partir do pacto estabelecido, a lei, oriunda do Governante, pas-

    saria a regular a todos do mesmo modo, supostamente imparcial e acima dos

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    O Estado Ampliado como Ferramenta Metodolgica

    interesses individualistas prevalecentes at ento. De igual modo, est clara a

    identificao estabelecida entre Governante e Estado, assumindo, ele prprio, a

    encarnao do Estado,

    Tal explicao da origem do Estado guarda, todavia, inmeros problemas.

    O primeiro a noo de que a sociedade (estado) civil criava uma sociabilidade

    estritamente poltica, ou seja: ou existiria um soberano e um pactumsocietatis,

    ou os homens no seriam beneficiados pelo poder protetor e universal da lei e

    do governante, ambos tornados sinnimos. O segundo indica que se imps uma

    viso de Estado como fruto de um somatrio de direitos individuais (naturais)

    dos quais se abriu mo em nome da superao do estado de natureza, resultan-

    do numa noo de Estado como individualidade (entidade) distinta do conjunto

    de indivduos que lhe deu origem.

    Em terceiro lugar, e esta parece ter sido a mais grave herana legada pela

    matriz liberal de Estado, tem-se que este ltimo um Estado Sujeito, ou seja,

    uma entidade ativa, externa e acima dos homens e da sociedade em seu conjun-

    to, dotada de vontade prpria, de autoiniciativa, sem correspondncia com os

    indivduos e grupos sociais distintos e, por isso mesmo, dotada de total pode de

    (co)mando sobre os homens em sociedade.

    Refletindo atentamente sobre o tema, percebe-se que muitas vises do Es-

    tado ainda existentes em nossos dias, guardam tais caractersticas, o que implica

    em perceber a sociedade como naturalmente fraca e impotente, submissa s ra-

    zoes de estado.

    Marx, o Marxismo e o Estado

    Nos primrdios do sculo XIX emergiu, primeiramente com Hegel, a crtica

    concepo liberal de Estado, pautada, sobretudo, em seu carter a-histrico,

    assim como em sua ideia de um contrato social responsvel pela transferncia

    ao governante de todos os poderes dos indivduos que integravam a sociedade.A

    tais crticas somava-se outra: a da forma estritamente individualista de perceber

    o Estado. Seria com a matriz marxiana1 que a ruptura iniciada com Hegel adqui-

    riria completude.

    No se pense, todavia, que a nova matriz escaparia do carter igualmente

    dual dos conceitos com que operava, embora com uma inverso: no mais so-

    ciedade de naturezaversus sociedade civil, mas sim a sociedade civil e sociedade

    poltica. Note-se que se inseriu uma nova noo no binmio, justamente a de

    sociedade poltica, em substituio antiga sociedade civil dos jusnaturalis-

    tas. Tal mudana, longe de um mero formalismo, atingiu em cheio o ncleo da

    1 Usa-se aqui a expresso marxiana e no marxista posto estar-se referindo s noes e con-ceitos desenvolvidos pelo prprio Marx, e no por alguns de seus seguidores os quais, muitas ve-zes, lhe atribuem ideias que no foram, originalmente, de sua autoria.

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    matriz liberal, posto distinguir, com clareza, uma esfera propriamente poltica

    distinta da esfera civil anterior, demonstrando uma inovao fundamental: que o

    indivduo, na matriz marxiana, jamais teria vivido,historicamente, em estado de

    natureza. Mais que isso: que a sociabilidade humana no se limitava tosomen-

    te como o preconizava a matriz liberal ao mbito do poltico.

    As bases da constituio do chamado modelo hegelo-marxiano (Bovero,

    2009) no se assentavam nos indivduos, nem tampouco na sociedade, deixando

    de ser um somatrio de individualidades. Se existe uma natureza no homem,

    ela possui um cunho social e, portanto, passvel de transformao. Os homens

    teriam uma sociabilidade prpria, que lhes era conferida no por um contrato,

    mas, sim, pelo lugar por eles ocupado no processo de produo e de trabalho

    onde alguns eram proprietrios dos meios de produzir, enquanto outros, no. Os

    no proprietrios, por seu turno, exerciam distintas funes no processo produ-

    tivo, como operrios, lavradores, etc.. Logo, o que a matriz marxiana apresentou

    de inovao foi uma viso profundamente histrica e classista da sociedade e

    dos homens, os quais pertencem, sempre, a certa classe social, inexistindo, as-

    sim, individualidades essencialistas e soberanas em estado de natureza, fosse

    este concebido como estado belicoso ou no.

    A origem do Estado, nessa concepo residiu, justamente, na emergncia

    da propriedade privada, no momento em que uma dada coletividade ou grupo

    social apropriou-se privadamente daquilo que pertencia a todos, subordinan-

    do os demais, transformados em fora de trabalho. Nessa perspectiva, o Estado

    nascia da necessidade de certos grupos de proprietrios, agora privados, de as-

    segurar, ocultar e universalizar sua apropriao, mediante leis e outras medidas

    coercitivas capazes de garantir aos despossudos no apenas a manuteno des-

    ta condio, como tambm que contra ela no se rebelassem.

    Marx, secundarizando os termos sociedade civil e sociedade poltica, in-

    troduziu outra tipologia, onde se confrontavam duas entidades coletivas: a in-

    fraestrutura espao da produo e organizao dos homens junto a ela e a

    superestrutura correspondente tanto ao domnio do Estado propriamente dito,

    quanto ideologia e suas formas de representao. O Estado nada teria de natu-

    ral, sendo socialmente explicvel, dentro de uma perspectiva estritamente his-

    trica. Segundo Marx e Engels:

    A burguesia, com o estabelecimento da grande indstria e do merca-

    do mundial, conquistou, finalmente, a soberania poltica exclusiva no

    Estado representativo moderno. O executivo no Estado modernono

    seno um comit para gerir os negcios comuns de toda a classe

    burguesa (Marx & Engels, 1848, p. 42).

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    O Estado Ampliado como Ferramenta Metodolgica

    A viso do Estado como comit das classes dominantes gerou inmeras

    correntes no interior do prprio marxismo, muitas das quais o consideravam e

    ainda consideram de forma mecanicista ou, nos termos de Gramsci, econo-

    micista. A isto se costuma denominar de determinismo do econmico sobre o

    poltico, o social e o ideolgico. Gestava-se, assim, uma variante da matriz mar-

    xiana onde o Estado, no lugar do papel de Sujeito ocupado na matriz liberal,

    erigia-se em Estado Objeto, ou seja, cuja existncia devia-se, to somente, para

    garantir e fazer valer os interesses econmicos das classes dominantes, baseado

    fundamentalmente na coero e no engodo ideolgico.

    As grandes transformaes socioeconmicas ocorridas na virada do sculo

    XIX para o XX em especial a emergncia do Imperialismo teorizado por Lenin 2 permitiram que, nos domnios do prprio marxismo, surgissem outras anli-

    ses do Estado, notadamente aquela produzida pelo pensador italiano Antonio

    Gramsci, tributrio da contribuio leninista. Segundo Fontes

    O imperialismo (...) demonstrava ser, numa de suas facetas, uma nova

    capacidade de organizao contraditria da prpria burguesia (...).

    Gramsci aprofunda o tema das formas de organizao, e se sua re-

    flexo incide diretamente sobre a organizao da dominao, o faz

    incorporando o processo da luta de classes, de conquistas democrati-

    zantes e de suas limitaes no mbito do Estado capitalista. (Fontes,

    2010, p. 133).

    Em verdade, a reflexo gramsciana voltou-se para as formas de dominao

    assumidas pelo capitalismo ocidental desde incios do sculo XX j que, sob o

    Imperialismo, transformaram-se e complexificaram-se no s a estrutura produ-

    tiva, como tambm as superestruturas asseguradoras da reproduo da ordem

    social mediante o estudo dos processos de organizao das vontades coletivas,

    como o espao particular da poltica, da cultura e da ideologia. Nesse processo, o

    marxista sardo superou, significativamente, o pensamento de Lenin, elaborando

    um rico e inovador conceito de Estado. Cabe destacar que, dentre as razes para

    tal avano esto a prpria conjuntura histrica por ele vivida bem distinta

    daquela do marxismo do sculo XIX e uma experincia indelvel, oriunda da

    prpria histria da Itlia de seu tempo: a ascenso do fascismo e a adeso a ele

    prestada pelas classes subalternas, mormente os camponeses, adoradores de

    Mussolini. Foi partindo desta ltima perplexidade que Gramsci refletiu sobre as

    peculiaridades do Estado capitalista ocidental, como ser visto a seguir.

    2 Em Imperialismo: fase superior do capitalismo, de 1917, Lenin desenvolve esse contexto e a nova fase do modo de produo capitalista, marcada pelo predomnio do monoplio de poucas empre-sas por ramos produtivos, bem como pela fuso entre o capital bancrio e o industrial.

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    O Estado Ampliado: Teoria e Ferramenta Metodolgica

    impossvel falar do pensamento de Gramsci sem mencionar a existncia

    de uma dada leitura, hoje hegemnica, de sua obra; leitura esta que, partindo,

    sobretudo das contribuies de Norberto Bobbio (1955), o define como um te-

    rico das superestruturas ou um arauto da sociedade civil organizada. A partir

    dessa apropriao, um fio tnue se coloca para a percepo de Gramsci como um

    defensor do aliancismo entre classes apropriao essa, alis, bemcomum em

    terras brasileiras. A leitura bobbiana da obra de Gramsci,vulgarizada junto ao sen-

    so comum,consegue reduzir seus principais pares conceituais estrutura /supe-

    restrutura; sociedade poltica/ sociedade civil; ditadura/ hegemonia, etc. como

    marcadas por uma ciso, em verdade inexistente no pensamento do filosofo sardo.

    Alm de deturpadora, a ideia difundida equivocada, uma vez que Gra-

    msci jamais abdicou da estrutura como ponto de partida de seu edifcio terico,

    ainda que tenha a ela dedicado menos espao do que poltica e ao Estado. To-

    davia, a premissa de que o Estado atua para manter as condies de dominao

    da classe trabalhadora pela burguesia no mundo capitalista est presente em seu

    trabalho e no pode ser minimizada.

    A questo que, preocupado com as mudanas verificadas no capitalis-

    mo mundial na virada do sculo XIX para o XX, em especial com a afirmao do

    imperialismo, sua ateno voltou sua anlise para o Estado e as modalidades de

    dominao de classe, j que, com a nova forma de desenvolvimento do capita-

    lismo, complexificaram-se no apenas a estrutura produtiva, como tambm as

    superestruturas asseguradoras da reproduo da ordem social.

    Seus cuidados com o tema tm como premissa a prpria condio da Itlia

    de seu tempo, onde a renovao do Estado verificou-se sem qualquer mudan-

    a profunda da estrutura social, demonstrando, assim, que, em muitos casos,

    as relaes ente Estado capitalista e o mundo econmico no so determina-

    das nem de modo mecnico, nem esquematicamente, havendo o que Bianchi

    aponta como um desencontro dos tempos das superestruturas e das estruturas

    (Bianchi, 2008,p.175), divergindo o filsofo sardo do economicismo ou das vises

    instrumentalistas do Estado, que o tomam como mero reflexo da economia.

    Segundo Bianchi (2008, p. 165) o marxista sardo tomava como ponto de par-

    tida a anlise da relao de foras vinculadas estrutura objetiva, sobre a qual se

    erguiam os grupos sociais (ou fraes de classe), assim como do grau do desenvolvi-

    mento das foras materiais de produo, cada qual ocupando uma dada posio na

    diviso social do trabalho. E, segundo ele, nesse nvel, a classe existe objetivamente.

    Isso significa afirmar que odesenvolvimento da economia e da poltica, in-

    timamente vinculados e marcados por processos e reaes recprocas, no im-

    plica em admitir que as transformaes ocorridas no mundo econmico reper-

    cutam de pronto sobre as superestruturas e vice-versa. Tal descompasso, alis,

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    O Estado Ampliado como Ferramenta Metodolgica

    integra as prprias condies de produo e reproduo das relaes sociais sob

    o capitalismo, atravs da unidade econmica e poltica da classe dominante, uni-

    dade essa que se processa no Estado.

    Ainda assim, o Estado em Gramsci no deve e nem pode ser pensado como

    organismo prprio de um grupo ou frao de classe, como no caso de outras

    vertentes marxistas.Ele deve representar uma expresso universal de toda a so-

    ciedade, incorporando at mesmo as demandas e interesses dos grupos subal-

    ternos, mesmo que deles extirpando sua lgica prpria. Segundo Fontes

    Gramsci abordou as condies sociopoltico-cultural-ideolgicas de

    expanso do capitalismo e concedeu especial ateno para suas con-

    dies internas de sustentao, polticas e culturais, num contexto

    contraditrio onde, de um lado, havia crescentes reivindicaes po-

    pulares em prol de uma socializao da poltica e, de outro, tais reivin-

    dicaes sofriam processos de modificao, de mutilao e mesmo

    demanipulao, de maneira a serem convertidas em sustentculos da

    prpria dominao que procuravam denunciar (Fontes, 2010, p. 122).

    A partir dessas questes, comeam a se delinear os contornos do concei-

    to gramsciano de Estado, o qual, diferentemente de Lenin, por exemplo, en-

    tendido em sua acepo mais ampla e orgnica, como o conjunto formado pela

    sociedade poltica e a sociedade civil, resultando no que Gramsci denomina de

    Estado Integral, ou Estado Ampliado, como o querem alguns estudiosos de sua

    obra, comopor exemplo, Cristine Buci-Gluksmann (1980). Ainda assim, muitos

    temem os desdobramentos da noo de Estado Ampliado, uma vez que o es-

    quema simplificado segundo o qual Estado corresponde coero e a sociedade

    civil hegemonia, reduz, em muito, a complexidade da anlise gramsciana (Li-

    guori, 2006) onde inexiste uma rigorosa diviso entre ambas as esferas.

    De uma forma ou de outra, o Estado Ampliado a principal contribuio

    de Gramsci no mbito da renovao do marxismo, superando as dicotomias

    vontade versus imposio, sujeito versus sociedade e base versus superestrutura,

    atravs de uma anlise cuja nfase histrica (Fontes & Mendona, 2012, p. 62).

    O conceito de Estado ampliado permite verificar a estreita correlao exis-

    tente entre as formas de organizao das vontades (singulares e, sobretudo, co-

    letivas), a ao e a prpria conscincia (sociedade civil) sempre enraizadas na

    vida socioeconmica e as instituies especficas do Estado em sua acepo

    restrita (sociedade poltica). Gramsci supera o dualismo das anlises que sepa-

    ravam e contrapunham a base superestrutura, integrando sociedade poltica

    esociedade civil numa s totalidade, em constante interao, no mbito do que

    ele considerava as superestruturas (Fontes & Mendona, 2012,pp. 62-3).

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    Sonia Regina de Mendona

    Por certo, grande a preocupao do marxista sardo em evitar a concepo

    reducionista segundo a qual o Estado eralimitadomeramente a sua funo co-

    ercitiva. Para ele, nesse Estado caberia, ainda, a construo do consenso. Dessa

    forma, podemos entender o Estado ampliado a partir de dois conceitos-chave:

    sociedade poltica e sociedade civil. O primeiro termo bastante claro na obra

    de Gramsci, referindo-se ao Estado em seu sentido restrito ou seja, os aparelhos

    governamentais incumbidos da administrao, da organizao dos grupos em

    confronto, bem como do exerccio da coero sobre aqueles que no consentem,

    sendo por ele tambm denominado de Estado poltico ou Estado-governo.

    A despeito de menos clara e mais complexa nos Cadernos, a noo de so-

    ciedade civil implica no conjunto dos organismos chamados de privados ou

    aparelhos privados de hegemonia, no sentido da adeso voluntria de seus

    membros. Dentre esses aparelhos Gramsci destaca igrejas, associaes privadas,

    sindicatos, escolas, partidos e imprensa. em torno a eles que se organizam as

    vontades coletivas, seja dos grupos dominantes, seja dos dominados.

    E neste ponto, torna-se essencial no pensamento gramsciano a figura do

    intelectual como efetivo organizador das vontades e da ao coletiva. Dessa

    forma, o pleno desenvolvimento de uma classe ou frao depende de sua

    capacidade de gerar seu prprio quadro de intelectuais, aptos a lhe conferirem

    homogeneidade e mesmo conscincia de sua funo, seja no mbito econmico,

    poltico ou ideolgico. A partir dessa capacidade organizativa por excelncia, os

    intelectuais respondem no s pela organicidade de um dado aparelho de hege-

    monia, mas, tambm, pela tarefa de atingir a prpria organizao da sociedade

    em geral, o que configuraria, de modo efetivo,a plena hegemonia da frao de

    classe especfica por eles representada.

    Neste sentido essencial sinalizar que, no pensamento gramsciano, no Es- essencial sinalizar que, no pensamento gramsciano, no Es-sinalizar que, no pensamento gramsciano, no Es-

    tado capitalista ocidental de seu tempo, a principal funo desses aparelhos de

    hegemonia seria construir o consenso das grandes massas pouco organizadas,

    de modo a obter sua adeso aos projetos articulados pelos grupos dominantes.

    Em suas prprias palavras

    [...] Por enquanto, podem-se fixar dois grandes planos superestru-

    turais: o que pode ser chamado de sociedade civil (isto , o conjun-

    to de organismos designados vulgarmente como privados) e o da

    sociedade poltica ou Estado, planos que correspondem, respecti-

    vamente, funo de hegemonia que o grupo dominante exerce em

    toda a sociedade e quela de domnio direto ou de comando, que se

    expressa no Estado e no governo jurdico. Essas funes so precisa-

    mente organizativas e conectivas. Os intelectuais so prepostos do

    grupo dominante para o exerccio das funes subalternas da hege-

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    Marx e o Marxismo v.2, n.2, jan/jul 2014

    O Estado Ampliado como Ferramenta Metodolgica

    monia social e do governo poltico, isto : 1) do consenso espont-

    neo dado pelas grandes massas da populao orientao impressa

    pelo grupo fundamental dominante vida social (...); 2) do aparelho

    de coero estatal que assegura legalmente a disciplina dos grupos

    que no consentem, nem ativa nem passivamente, mas que cons-

    titudo para toda a sociedade na previso dos momentos de crise no

    comando e na direo, nos quais desaparece o consenso espontneo.

    (Gramsci, 2000, v. 2, pp. 20-21, grifos meus).

    No se pense, entretanto, que tal correlao, mesmo no mbito da socie-

    dade civil, efetiva-se sem conflitos, j que as disputas entre os distintos grupos

    sociais atravessam os prprios aparelhos privados de hegemonia em si mesmos,

    alm de contraporem uns aos outros, em busca do almejado consenso. Logo,

    distintamente do que supem alguns autores, a sociedade civil no apenas o

    conjunto de aparelhos localizados fora da esfera estatal,o que lhe confere, nesta

    leitura, um cunho sempre de positividade (Bobbio, 2009).

    Pelo contrrio, marcada pelos conflitos de classe, a sociedade civil nada tem

    de idlica ou ilusria, uma vez que em seu seio que se elaboram e se confron-

    tam projetos distintose at mesmo antagnicos, ficando claro, no pensamento

    gramsciano, que ela a arena da luta de classes e da afirmao de projetos em

    disputa, derivados de aparelhos de hegemonia distintos, ainda que, em muitos

    casos, pertenam a uma mesma classe ou frao dela. Para Gramsci, algumas das

    associaes da sociedade civil podem serdefinidas como um partido. Segundo

    suas palavras

    Evidentemente, ser necessrio levar em conta o grupo social do qual

    o partido expresso e a parte mais avanada:ou seja, a histria de

    um partido no poder deixar de ser a histria de um determinado

    grupo social. Mas este grupo no isolado; tem amigos, afins, adver-

    srios, inimigos. Somente do quadro global de todo o conjunto social

    e estatal (...) que resultar a histria de um determinado partido;

    por isso, pode-se dizer que escrever a histria de um partido significa

    nada mais do que escrever a histria geral de um pas a partir de um

    ponto de vista monogrfico, pondo em destaque um seu aspecto ca-

    racterstico (Gramsci, 2000, v. 3, p. 87).

    Logo, o conceito de Estado ampliado transborda os limites institucionais

    do Estado em sua acepo no senso comum dicionarizado. De modo dialtico, o

    Estado ampliado resulta das diferentes formas de organizao e conflito da vida

    social, constituindo-se, ele prprio, numa relao social entre foras desiguais

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    Marx e o Marxismo v.2, n.2, jan/jul 2014

    Sonia Regina de Mendona

    (Poulantzas, 2000). Por tal razo, Gramsci aponta quea unidade entre Estado e

    sociedade civil sempre orgnica, advertindo, todavia, que tal distino tem

    um cunho to somente didtico.

    O exerccio normal da hegemonia (...) caracteriza-se pela combina-

    o da fora e do consenso, que se equilibram de modo variado, sem

    que a fora suplante em muito o consenso, mas, ao contrrio, ten-

    tando fazer com que a fora parea apoiada no consenso da maioria,

    expresso pelos chamados rgos da opinio pblica jornais e asso- pblica jornais e asso-blica jornais e asso-

    ciaes , os quais, por isso, em certas situaes, so artificialmente

    multiplicados (Gramsci, 2000, v. 3, p. 95).

    No por casualidade, o pensador sardo utiliza a figura do centaurocomo

    metfora para ilustrar a organicidade das relaes entre sociedade civil e socie-

    dade poltica ou entre consenso e coero, dialeticamente imbricadas e insepa-

    rveis, no podendo a coero existir sem o consenso, assim como o consenso

    inexiste sem coero.

    Outro ponto a ser fixado e desenvolvido o da dupla perspectiva na

    ao poltica e na vida estatal. Vrios graus nos quais se pode apresen-

    tar a dupla perspectiva, dos mais elementares aos mais complexos,

    mas que podem ser reduzidos teoricamente a dois graus fundamen-

    tais, correspondentes natureza dplice do Centauro maquiavlico,

    ferina e humana, da fora e do consenso, da autoridade e da hege-

    monia, da violncia e da civilidade, do momento individual e daquele

    universal (da Igreja e do Estado), da agitao e da propaganda, da

    ttica e da estratgia, etc. (Idem: p. 33).

    Em suma, para o pensador italiano, que tanto inovou o campo do marxismo

    com sua singular definio de Estado ampliado ou Integral , a marca peculiar ao

    Estado capitalista, desde sua poca, reside no fato dele guardar, simultaneamente,

    um espao de consenso e no apenas de violncia, sendo o consenso consenti-

    mento obtido, segundo ele, atravs da ao dos aparelhos de hegemonia da so-

    ciedade civil, assim como atravs da ao do prprio Estado restrito, que promove

    e generaliza o projeto da frao de classe hegemnica em certo contexto histori-

    camente dado. Logo, poltica e Estado so inseparveis da cultura e, mesmo ins-

    tituies da sociedade poltica tipicamente relacionadascom a coero como o

    Exrcito, por exemplo respondem pela difuso de uma cada cultura.

    Nesse sentido, a transformao social e do Estado nas sociedades capita-

    listas ocidentais s pode ser obtida, para Gramsci, a partir da multiplicao dos

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    Marx e o Marxismo v.2, n.2, jan/jul 2014

    O Estado Ampliado como Ferramenta Metodolgica

    aparelhos de hegemonia da sociedade civil ou seja, das vises de mundo/proje-

    tos (ou vontades coletivas organizadas) que disputam entre si, todo o tempo, a

    manutenode um projeto hegemnico ou a imposio de um contra- hegem-

    nico, em busca da hegemonia.

    Mas para tanto, indispensvel que o grupo ou frao de classe, organiza-

    do neste ou naquele aparelho de hegemonia, atuenosentido de inserir alguns de

    sues representantes ou intelectuais junto ao Estado restrito. V-se, pois, que a

    ideia do Estado em Gramsci, alm de altamente dinmica e enriquecedora para

    a compreenso do papel do Estado na atualidade, coerente com o jogo de con-

    tradies que atravessa sociedade civil e sociedade poltica (e que muitos autores

    de corte liberal reduzem a uma mera luta inter-burocrtica).

    Pensar o Estado gramscianamente sempre pens-lo a partir de um duplo

    registro: o das formas dominantes na produo (classes e fraes) que se cons-

    tituem e se consolidam por intermdio de organizaes da sociedade civil, ao

    mesmo tempo em que, junto a cada aparelho ou rgo do Estado restrito, esto

    sempre presentes projetos e intelectuais vinculados s agncia(s) da sociedade

    civil. Uma delas, por certo, deter a hegemonia junto a certo organismo estatal,

    conquanto outras igualmente l far-se-o presentes, em permanente disputa.

    Por tudo at agora apresentado, considero o Estado Ampliado no apenas

    um sofisticado conceito, mas tambm uma utilssima ferramenta metodolgica,

    posto conter, em sua elaborao, os passos de um itinerrio de pesquisa desti-

    nado anlise da constituio/transformaes sofridas pelo Estado, bem como

    para o desenvolvimento de investigaes de todo tipo de temticas a ele corre-

    latas, tais como a dominao poltica de classe; a representao de interesses

    dominantes e dominados na sociedade capitalista; as polticas estatais das

    mais variadas; as relaes entre classe dominante, Estado restrito e classe tra-

    balhadora; ideologia, classe e cultura; alm de inmeras outras, mormente no

    mbito da histria, posto que o cerne da anlise de Gramsci no poderia deixar

    de ser a Totalidade.

    Tomemos agora dois exemplos concretos de aplicao da metodologia

    contida no prprio conceito de Estado Ampliado, guisa de exemplo. Um deles

    a obra O Ruralismo Brasileiro, verso condensada da Tese de Doutoramento de

    Sonia Regina de Mendona, publicada, em 1997, pela editora Hucitec. O outro

    o livro de lvaro Bianchi, Um Ministrio dos Industriais, tambm verso de sua

    tese de Doutoramento, publicada pela editora da Unicamp em 2010.

    Conquanto recortando objetos algo distintos apesar de bastante afins, j

    que ambos tratam das relaes entre classe dominante e Estado no Brasil , os

    autores realizaram suas pesquisas seguindo os passos metdicos implcitos no

    conceito de Estado Ampliado. Enquanto Mendona analisa as relaes entre di-

    versas fraes da classe dominante agrria/agroindustrial e o Estado restrito no

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    Marx e o Marxismo v.2, n.2, jan/jul 2014

    Sonia Regina de Mendona

    caso, o Ministrio da Agricultura no decorrer da Primeira Repblica, Bianchi

    estuda as interelaes entre distintas fraes de industriais brasileiros no prprio

    interior de um aparelho privado de Hegemonia, a FIESP, de modo a inferir qual

    delas deteria, no seio da prpria entidade, o projeto hegemnico.

    Seguindo o roteiro sugerido por Gramsci, ambos partem de extensa in-

    vestigao junto aos aparelhos de hegemonia da sociedade civil brasileira acima

    esboados. No primeiro caso, a autora estuda, sobretudo, a Sociedade Nacional

    de Agricultura (SNA) e,tangencialmente,a Sociedade Rural Brasileira (SRB) vi-

    sando detalhar suas formas organizacionais, suas bases sociais, seus intelectuais

    orgnicos, bem como as divergncias e disputas entre elas. J no segundo caso,

    Bianchi parte do estudo daFIESP, igualmente explicitando suas modalidades or-

    ganizacionais, bases sociais, divergncias, disputas endgenas e intelectuais or-

    gnicos. O olhar de cada um, todavia, distinto.

    Enquanto Mendona visa analisar a correlao de foras vigente entre as

    entidades patronais agrrias/agroindustriaisselecionadas com vistas a perceber

    quais de seus projetos inseriram-se na materialidade do Estado restrito basi-

    camente no Ministrio da Agricultura , Bianchi enfatiza a prpria dinmica in-

    terna da FIESPnas dcadas de 1980-90, privilegiando as divergncias de projetos

    endogenamente existentes na agremiao, com vistas a detectar a imposio he-

    gemnica de um deles, e realizando algumas poucas incurses na pesquisa junto

    a organismos do Estado Restrito.Quando o faz, o autor busca, ao que tudo indica,

    evidenciar a reao das diferentes fraes de industriais agremiadas pela FIESPa

    medidas do que ele chama de governo e seus embates internos.

    Ao fim e ao cabo, ambos preocupam-se com a representao de interesses

    das classes dominantes no pas e sua busca de consenso/hegemonia.

    Por certo, ambos partem de pressupostos comuns: 1) que a sociedade ci-

    vil, alm de arena dos conflitos de classe intraclasse dominante e mesmo intra-

    -aparelho de hegemonia o espao de correlaes de foras especficas que

    originam o surgimento e organizao das entidades estudadas; 2) que a pesquisa

    no deve limitar-se, em estudos sobre a representao de interesses com vis-

    tas ampliao do Estado simples identifi cao dos distintos projetos em dis- simples identifi cao dos distintos projetos em dis-identificao dos distintos projetos em dis-o dos distintos projetos em dis- distintos projetos em dis-

    puta, sendo necessrio ir mais alm: verificar quais eram as foras sociais em

    confronto por eles personificadas, sempre em perspectiva histrica; 3) que as

    determinaes estruturais configuram a essncia dos sujeitos analisados, sendo

    fundamental que estes sejam tomados como expresso das relaes e condies

    em que se encontram reciprocamente situados (Bianchi, 2010, p. 35); 4) que so-

    mente a partir da ao coletiva possvel falar de atores coletivos.

    Justamente por isso, os autores citados iniciam suas pesquisas documen-

    tais a partir das publicaes peridicas, sobretudo produzidas pelas agremia-

    es selecionadas para anlise, de modo a inferir seus quadros dirigentes, bases

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    Marx e o Marxismo v.2, n.2, jan/jul 2014

    O Estado Ampliado como Ferramenta Metodolgica

    sociais, cotidiano de funcionamento institucional, alm de projetos e demandas

    homogneas ou conflitivas.

    da correlao de foras estabelecidas entre esses atores coletivos e os

    respectivos aparelhos privados de hegemonia por eles representados que se

    pode partir para o estudo minucioso no apenas de suas aes coletivas, mas

    tambm de suas campanhas, propagandas ideolgicas e modalidades de corre-

    lao com o Estado restrito, uma vez que a emergncia dessas associaes pode

    influir tanto sobre o contexto econmico, quanto na regulao do conflito social

    e, especialmente, na implementao de certas polticas pblicas, o que bem

    mais priorizado no trabalho de Mendona.

    Partindo dessa imperiosa e necessria qualificao dos agentes da vonta-o dos agentes da vonta-s agentes da vonta-

    de coletiva materializada nas entidades da sociedade civil analisadas, o trabalho

    de Mendona encaminha-se para o estudo de umainstituio especfica da so-

    ciedade poltica, tal como o sugere Gramsci. No caso, trata-se do Ministrio da

    Agricultura, e a autora busca verificar trs processos: a) quais bases da sociedade

    civil organizadas achavam-se inscritas em sua materialidade; b) qual a correla-

    o de foras vigente dentro da prpria instituio e 3) quais polticas agrcolas

    efetivamente foram, a partir dele,postas em prtica, de modo a atender a quais

    demandas oriundas de qual aparelho privado de hegemonia junto a ele presente

    atravs de seus intelectuais.

    Para tanto, a autora constri vrios quadros detalhados, mapeando tanto

    os ocupantes dos quadros dirigentes da SNA incluindo suas Diretorias e seus

    trs Conselhos Superiores , quanto os funcionrios do alto escalo ministerial,

    de modo a verificar seu pertencimento s agremiaes das fraes da classe do-

    minante agrria/agroindustrial pesquisadas.

    Da mesma forma, Mendona elabora tabelas dando a conhecer a partir

    da publicao da bimestral da SNA, a revista A Lavoura quais temticas pre-

    ponderavam no projeto da entidade, fundamentando sua ao poltico-ideol-

    gica, bem como, j no mbito da sociedade poltica, os principais segmentos pri-

    vilegiados pelas polticas agrcolas do Ministrio, verificando o atendimento ou

    no das demandas formuladas pela Sociedade.

    Como concluso, a autora destaca a existncia de um predomnio de re-

    presentantes da SNA junto aos quadros superiores do Ministrio, em particular

    inmeros ministros oriundos deste aparelho privado de hegemonia, e demons-

    tra, ainda, o quanto as polticas agrcolas estatais atenderam ao projeto da SNA e

    aos segmentos da classe dominante agrria nacional por ela organizados, valen-

    do destacar a ausncia de atores sociais oriundos da grande burguesia cafeeira

    paulista tanto junto Sociedade, quanto junto ossatura material do Ministrio.

    Em sntese, a aplicao dos procedimentos metodolgicos inerentes ao

    conceito gramsciano de Estado Ampliado so testados de forma altamente po-

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    Marx e o Marxismo v.2, n.2, jan/jul 2014

    Sonia Regina de Mendona

    sitiva e enriquecedora no apenas para o estudo das polticas agrcolas no Brasil

    da Primeira Repblica escapando de reducionismos tais como a passividade

    das fraes dominantes agroindustriais no cafeeiras ou mesmo a inoperncia

    do Ministrio da Agricultura no atendimento das demandas deste ramo da eco-

    nomia brasileira, posto inexistir, em seus quadros, intelectuais da SRB como, e

    sobretudo, para a correlao de foras vigentes entre sociedade civil e sociedade

    poltica ou mesmo entre entidades da sociedade civil e at no interior de uma

    agncia do Estado restrito.

    Ainda que a grande burguesia paulista tenha, de fato, hegemonizado a so-

    ciedade civil como um todo como o demonstra toda uma vasta historiografia

    com seu projeto, inserindo-se no Estado restrito, ela o fez junto a outras institui-

    es, deixando entrever queuma correlao de foras contra hegemnicas emer-

    giu no prprio seio da classe dominante, a partir do binmio SNA- Ministrio da

    Agricultura.

    J a obra de Bianchi, mesmo comungando dos pressupostos comuns acima

    elencados, encaminha sua anlise em outra direo. Muito embora igualmente

    estude tanto a representao de uma frao da classe dominante brasileira os

    industriais em perodo recente, quanto sua relao com o Estado restrito, lan-

    ando mo, igualmente, da pesquisa junto aos peridicos publicados pela FIESP

    (Indstria e Desenvolvimento; Revista da Indstria e Notcias), o autor enfatizaque

    O estudo da capacidade associativa do empresariado, da formulao

    de seus projetos e de sua ao poltica seria, desse modo, abordado a

    partir de relaes de foras que se estabelecem em contextos histri-

    cos especficos e que permitiriam apontar as razes e a trajetria do

    desenvolvimento desses processos polticos. As dimenses destaca-

    das remetem de maneira explcita construo das formas de ao,

    conscincia e organizao dos diferentes grupos sociais (Bianchi,

    2010, p. 46).

    Nesse sentido, o autor privilegia muito mais o estudo da prpria Fiesp, os

    conflitos no interior dessa agremiao do empresariado industrial que ultrapas-

    saram a dimenso econmico-corporativa primeiro nvel da correlao de for-

    as, segundo Gramsci e demonstraram dificuldades inerentes constituio

    de um projeto hegemnico. Por certo, vale lembrar estar o autor estudando seu

    objeto no perodo compreendido pelas dcadas de 1980-1990, ou seja, marcado

    por severa crise.

    Para atingir seus objetivos, Bianchi igualmente elabora inmeros quadros

    muito dos quais relativos a ndices de desempenho econmico alm de alguns

    contendo a composio dos Departamentos da FIESP ou seus diretores por divi-

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    Marx e o Marxismo v.2, n.2, jan/jul 2014

    O Estado Ampliado como Ferramenta Metodolgica

    so econmica, de modo a mapear os conflitos internos a essa entidade que de-

    nomina de Ministrio dos Industriais e seu papel na elaborao de um projeto

    hegemnico em meio crise orgnica atravessada pelo pas. Pouco, entretanto,

    dedica-se o autor ao estudo de organismos da sociedade poltica em particular,

    limitando-se a explicitar as reaes das distintas fraes de industriais s medi-

    das econmicas do governo.

    Uma observao bastante pertinente trazida tona tanto por Mendona,

    quanto por Bianchi, diz respeito impreciso conceitual que campeia na histo-

    riografia especializada em cada uma das temticas por eles analisadas. No caso

    de Mendona, a crtica dirige-se a noes como elites, oligarquias ou mes-

    mo grupos tradicionais. J Bianchi visa categorias como elites industriais,

    empresariado industrial ou mesmo burguesia nacional, alertando como tal

    emaranhado conceitual produz uma homogeneizao do objeto de estudo, re-

    duzindo o prprio empresariado ou mesmo a burguesia a sua forma arquetpica

    (Bianchi, 2010, p. 264-265).

    De uma forma ou de outra, creio que ambas as obras so bastante ilustrativas

    da proposta aqui defendida: ou seja, que o conceito de Estado Ampliado extrapola

    os limites da teoria, transmutando-se numa ferramenta metodolgica para as pes-

    quisas acerca dos temas at aqui elencados. Ao mesmo tempo, ambos permitiram,

    com a utilizao da teoria/metodologia utilizada pelos autores, que eles chegassem

    a concluses em muito distintas daquelas cada qual em seu campo historiogrfico

    especfico estabelecidas por outros pesquisadores do tema, j que o itinerrio e,

    claro, os questionamentos impostos documentao, tambm o foram.

    O aspecto mais importante de ambos os trabalhos, a meu ver, no reside

    puramente nas respostas dadas a questes especficas colocadas por cada um

    dos pesquisadores, mas sim abordagem alternativa utilizada por ambos para o

    estudo das relaes fraes da classe dominante-sociedade-Estado. Neste senti-

    do, mais do que nunca, a vitalidade da reflexo gramsciana encontra-se ratifica-

    da, mesmo que relacionada questo do Estado ampliado em tempos contem-

    porneos.

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