O Feitiço da Ilha do Pavão

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O FEITIO DA ILHA DO PAVOJoo Ubaldo Ribeiro

Para Srgio Lacerda e Tarso de Castro.

Sabe-se muito pouco.

IDe noite, se os ventos invernais esto aulando as ondas, as estrelas se extinguem, a Lua deixa de existir e o horizonte se encafua para sempre no. ventre do negrume, as escarpas da ilha do Pavo por vezes assomam proa das embarcaes como uma apario formidvel, da qual no se conhece navegante que no haja fugido, dela passando a abrigar a mais acovardada das memrias. Logo que deparadas, essas falsias abrem redemoinhos por seus entrefolhos, a que nada capaz de resistir. Mas, antes, l do alto, um pavo colossal acende sua cauda em cores indizveis e acredita-se que imperioso sair dali enquanto ela chameja, porque, depois de ela se apagar e transformar-se num ponto negro to espesso que nem mesmo em torno se v coisa alguma, j no haver como. Ningum fala nesse pavo ruante e, na verdade, no se fala na ilha do Pavo. Jamais se escutou algum dizer ter ouvido falar na ilha do Pavo, muito menos dizer que a viu, pois quem a viu no fala nela e quem ouve falar nela no a menciona a ningum. O forasteiro que perguntar por ela receber como resposta um sorriso e o menear de cabea reservado s perguntas insensatas. sabido, porm, que a ilha freqenta os sonhos e pesadelos da gente do Recncavo, que muitas vezes desperta no meio da noite entre suores caudalosos e outras vezes para entrar em delrios que perseveram semanas a fio. Outros sentem por ela uma atrao inquietante, que vrios procuram disfarar numa postura falsamente taciturna. E muitos desaparecidos que nunca mais foram vistos podem bem estar na ilha do Pavo, embora certeza no haja, nem se converse ou escreva sobre o assunto.

Os que no conseguem suportar pensar nela crem, ou sabem, que l encontraro todos os seus medos materializados e empenhados em acoss-los como matilhas de ces enraivecidos. Vem nos pesadelos numerosos demnios e suas malfeitorias mais torpes e guisas mais ardilosas o demnio Oriax, dos peidos sulfurosos e miasmas letais, o demnio Agares, dos lancinantes padecimentos da inveja e do despeito, o demnio Cassiel, da entrega do corpo aos vcios e dissipao, o demnio Mamon, da ganncia e da avareza, o demnio Malquedama, da intolerncia e do dio, o demnio Nimorup, da mentira, hipocrisia e falso testemunho, o demnio Apolion, da discrdia, da blasfmia e da coprolalia, o crudelssimo demnio Asmodeus e seu anel maligno, e outros prncipes do Mal, que surdem traioeiramente das trevas abissais, para desencaminhar e levar danao as inocentes criaturas de Deus. E no temem s esses, mas todos os outros entes satnicos que na sua opinio enxameiam a terra, os ares e as guas da ilha, os seis mil e seiscentos e sessenta e seis diabos que se apossaram da boa ursulina Madalena Palud, estriges volteis, lobos amaldioados, o sol lampadejando com um claro luciferino, tudo podendo contagiar espritos de outra sorte puros, honestos e ordeiros. Entre esses temerosos, encontra-se tambm a convico de que na ilha moram feiticeiras de poderes inauditos, umas pretas, outras roxas, outras cafuzas ou ndias, outras brancas da terra ou do reino, como a que chamada por muitos nomes, principalmente por Ana Carocha ou a Degredada. Os poderes dessas feiticeiras provm do que misturaram do Congo, da Guin, do Benim, de Oi, do Daom e de outras fricas com as grongas dos bugres e com os seres infernais, bruxarias e venefcios arribados nas velas do alm-mar, muitos deles homiziados entre pginas de livros aparentemente mortos, mas sempre espera de que algum os folheie, para despertar seus residentes malficos. Esses livros, chamados gramus, so na maior parte da falange de Salomo e o principal deles escrito em lngua velha e se denomina Clavcula, que vem a ser a chave daninha para tudo o que h na vida. E tambm suspeitam que, em meio a prticas malditas, as feiticeiras, seus comparsas e seus proslitos se

entregam a aes de espantosa libertinagem, tamanhamente se cobrindo de pecados hediondos que a eternidade tempo curto para seu escarmento. Assim se entende o terror de tudo o que diz respeito ou semelhante ao que julgam ocorrer na ilha do Pavo, pois, para eles, nela se cede s tentaes e se desobedece aos ditames da boa conscincia, do respeito aos de mais posio e do acato ao ensinamento da lei e dos homens de Deus, tal anarquia e impiedade conduzindo sem perdo s penas infinitas do inferno. J os que so atrados pela ilha no pressentem nela demnios, ou, se os pressentem, no lhes do importncia, assim como no temem ser possudos por trasgos e entidades nefandas, ou ser vtimas de feitios. Tampouco devotam seu tempo a horrorizar-se com as prticas libertinas alheias, preferindo ocupar-se das prprias, ou no se ocupar de nenhuma. No sabem a razo por que tm o desejo, sempre lhes ardendo no peito, de ir para a ilha, de onde, ao que tudo indica, muito difcil voltar. Certamente a maioria nunca reunir coragem ou condies para busc-la, mas sentem que nela h talvez uma existncia que no viveram e ao mesmo tempo experimentam em suas almas paisagens adivinhadas, sonhos aos quais dar vida, sensaes apenas entrevistas, lembranas vividas do que no se passou. Todos sabem que a ilha existe, com sua histria, sua gente, sua terra amanhada e seus matos brabos, seus bichos e seu prprio tempo, que diverso dos outros tempos, embora ningum saiba explicar de que maneira ou por que razo. Entre os que a temem e os que por ela anseiam, a razo talvez no se alinhe nem com estes nem com aqueles. No se pode negar que a verdade distinta para cada um e talvez estejam certos os que sustentam que este mundo no passa de miragem e, portanto, pode ser isso ou aquilo, segundo quem olha e pensa. Mas, se alguma coisa mais existe, tambm existe por necessidade a ilha do Pavo e a nica" maneira de desmentir que ela existe demonstrar que nada existe. Para quem se abeira pelo mar Oceano, ela avulta ainda bem fora da barra como um paredo alcantilado, penhascos monumentais orlados

pelo vo perptuo das aves da gua. Desde longe, sua feio a de uma barreira de granito, amalgamada com os contrafortes do Recncavo e os costados de Itaparica e vedando aos navegantes a entrada da baa e os acessos a seu interior. Sem dvida, incontveis pilotos, tanto obscuros como renomados, passaram muito tempo diante dessa muralha irredutvel, que se obstina em no cessar de redobrar-se em novos rebordos. A maior parte dos que viram a ilha do Pavo certamente no conseguiu entrar, vencida pelos grotes nufragosos dessa costa sentinela. Mas alguns terminaram por embicar por uma das muitas goletas ocultas da baa e os vagalhes mortferos que anteparam a muralha deixaram de ser obstculo para que aportassem cidade da Bahia, assim como no so obstculo para os que no chegam a ver a ilha do Pavo, pois, como se sabe, ela est ou no est, a depender de quem esteja ou no esteja. Desde sua testa de pedra, fronteira praia de Chega-nego, a ilha serpenteia pela altura da ponta de Santo Antnio, se estreita de repente para espremer-se entre a ponta do Jaburu e a de Monte Serrat, se alarga como uma moringa entre Manguinhos e Itacaranha e se desfralda fartamente em esplanadas e taludes, ameaando engolir a ilha de Mar e a ilha dos Frades e, a partir das vizinhanas desta, espichando uma forquilha a oeste, com um brao at para l da ilha das Vacas e o outro descendo para c da ilha das Canas. Ao terreno pedregoso que franja os penhascos se sucede, maravilhosamente, uma mata cerrada em que somente ndios e mateiros podem ter certeza de que no se perdero, entre rvores altas como campanrios sucupiras, maarandubas, jacarands, paineiras, figueiras, ips, jatobs e mais todo tipo de vegetao, terrestre, area ou aqutica. E bichos macacos, onas, gatos-do-mato, guars, raposas, pres, preguias, tamandus, tatus, borboletas de todos os matizes, besouros de todos os feitios, marimbondos de todas as ndoles, beija-flores, sangues-de-boi, cardeais, sanhaos, jandaias, tucanos e o que mais voe ou se alvorote pelo cho, os que rastejam, jibias, jararacas, cobras-cip,cgados, teis, calangos e toda famlia de animais de sangue frio. O rio So Judas, que nasce em

cascata no morro da Embaba e em cascata morre na penha do Marvado, corta essa grande mata e forma duas lagoas de guas negras, Pau e Cau, ambas cavilosas e devoradoras de gente. E, num bando aqui, outro acol, cada macho com suas variadas fmeas, nas partes mais secas dos matos, transitam os paves descendentes dos trazidos por Nuno Pires da Beira, de volta de uma de suas corseadas s ndias ou ao Ceilo, onde abatia imensos infiis, dilatava a cristandade e rapinava o que podia, de prolas a criaturas extravagantes. Nova cerca de pedra, agora mesclada com uma areia spera que no vero se aquece ao ponto de poder engrolar peixes, parece inaugurar um descampado rido e, no entanto, enquanto o terreno desce em quebradas amenas, o que se v so coqueiros, ouricuris, carnabas, piaavas, dendezeiros e outras palmeiras, manguezais se abrindo esquerda, praias alvas direita, canaviais infindveis em frente, vastas roas de tabaco e mandioca, rolando planura abaixo e se ondean-do sobre as curvas pacatas dos morrotes. s vezes um pouco distantes no mar fronteiro, outras vezes irrompendo abruptamente da terra macia e formando precipcios abismais, as muralhas de rocha s franqueiam suas vias secretas aos conhecedores e aos de muita sorte e habilidade. Por trs delas, ancoradouros, enseadas, marinhas alongadas, apicuns. Entre elas, mars destemperadas, meandros labirnticos, caribdes antropfagas, pontas aguadas empaladoras de cascos, arcos, cavernas e guas, sublevadas sem aviso pelo vento de apelido funileiro, que se entuba por aquelas passagens, fortalecendo-se e desvariando a cada estreitamento tortuoso, havendo assim posto a pique em instantes um nmero desmedido de navios e embarcaes de porte. Pelas bordas das guas, armaes de pesca, caieiras, viveiros de curim, atracadouros, lagunas rasas rebrilhando entre os arrecifes. Muitas povoaes se espraiam em todas as direes, desde arraiai