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1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13 th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X O FETICHE DA MUSCULOSIDADE: DISCURSOS SOBRE CORPO, GÊNERO E SAÚDE NO CIRCUITO DAS ACADEMIAS E DAS REVISTAS ESPECIALIZADAS Fátima Cecchetto 1 Patrícia Farias 2 RESUMO: O presente trabalho parte de pesquisas anteriores sobre as representações midiáticas sobre “corpo sarado” como ícone de concepções corporais baseadas em força e ostentação de músculos como sinais diacríticos. Tais pesquisas sinalizaram que, tanto para homens quanto para mulheres, este ideal se desdobra na busca contínua da construção de uma marca distintiva: a hipermusculosidade. Esta marca é conquistada através de esforço pessoal, da inserção num circuito que conta com médicos e esportistas, além do uso de esteroides anabolizantes. Neste sentido, tratamos os meios de comunicação e as academias como arenas gendrificadas onde se produzem e reproduzem padrões que reificam dicotomias que são sustentadas no imaginário social por ideias essencialistas sobre “a diferença”. A análise, de cunho sócio-antropológico, se dará através da iconografia das revistas especializadas, procurando compreender os significados de saúde, gênero e principalmente desse corpo a ser alcançado, assim como dos meios através dos quais se pretende atingir o corpo “perfeito”. Palavras chave: Corpo, masculinidade, relações de gênero, beleza e musculosidade Introdução O texto que se segue é fruto de pesquisas desenvolvidas entre os anos 2010 e 2013, focalizando os discursos sobre esteroides anabolizantes (EAS) nos circuitos médicos e nas academias de luta, assim como os veiculados em meios impressos de comunicação. No presente trabalho, voltamos a considerar o universo dos meios de comunicação desta vez, uma revista especializada e publicações esportivas em sites jornalísticos no ano de 2017. Na continuação da pesquisa, pretende-se entrevistar lutadores e lutadoras como forma de aprofundamento do estudo. No universo pesquisado, os EAS têm um papel significativo, pois atuam sobre as fibras musculares de forma a promover o desenvolvimento de um corpo forte. Este modelo é um 1 Antropóloga e Pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro/Brasil 2 Antropóloga e Professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Brasil.

O FETICHE DA MUSCULOSIDADE: DISCURSOS SOBRE …€¦ · 1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017,

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  • 1 Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    O FETICHE DA MUSCULOSIDADE: DISCURSOS SOBRE CORPO,

    GNERO E SADE NO CIRCUITO DAS ACADEMIAS E DAS

    REVISTAS ESPECIALIZADAS

    Ftima Cecchetto1

    Patrcia Farias2

    RESUMO: O presente trabalho parte de pesquisas anteriores sobre as representaes miditicas sobre

    corpo sarado como cone de concepes corporais baseadas em fora e ostentao de msculos

    como sinais diacrticos. Tais pesquisas sinalizaram que, tanto para homens quanto para mulheres, este

    ideal se desdobra na busca contnua da construo de uma marca distintiva: a hipermusculosidade.

    Esta marca conquistada atravs de esforo pessoal, da insero num circuito que conta com mdicos

    e esportistas, alm do uso de esteroides anabolizantes. Neste sentido, tratamos os meios de

    comunicao e as academias como arenas gendrificadas onde se produzem e reproduzem padres que

    reificam dicotomias que so sustentadas no imaginrio social por ideias essencialistas sobre a

    diferena. A anlise, de cunho scio-antropolgico, se dar atravs da iconografia das revistas

    especializadas, procurando compreender os significados de sade, gnero e principalmente desse

    corpo a ser alcanado, assim como dos meios atravs dos quais se pretende atingir o corpo perfeito.

    Palavras chave: Corpo, masculinidade, relaes de gnero, beleza e musculosidade

    Introduo

    O texto que se segue fruto de pesquisas desenvolvidas entre os anos 2010 e 2013,

    focalizando os discursos sobre esteroides anabolizantes (EAS) nos circuitos mdicos e nas

    academias de luta, assim como os veiculados em meios impressos de comunicao.

    No presente trabalho, voltamos a considerar o universo dos meios de comunicao desta

    vez, uma revista especializada e publicaes esportivas em sites jornalsticos no ano de 2017.

    Na continuao da pesquisa, pretende-se entrevistar lutadores e lutadoras como forma de

    aprofundamento do estudo.

    No universo pesquisado, os EAS tm um papel significativo, pois atuam sobre as fibras

    musculares de forma a promover o desenvolvimento de um corpo forte. Este modelo um

    1Antroploga e Pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro/Brasil 2Antroploga e Professora da Escola de Servio Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Brasil.

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    aparato valorizado socialmente, dada a fora simblica que a musculosidade nas

    representaes da diferena entre os gneros.3

    Nossa proposta ento discutir essa associao entre homens, virilidade e msculos, tema j

    discutido por autores como Klein (1993) e Mosse (1996) em estudos considerados clssicos.

    Utilizamos a categoria de fetiche para sinalizar o apelo extra-racional, sensorial e emocional

    desta musculosidade rgida. Observa-se, ainda, no quadro atual, a associao feita entre

    hipermusculosidade e beleza, em contrapartida ao corpo fraco, mole e flcido,

    considerado inadequado para ambos os sexos. Isto ser melhor discutido a seguir.

    Partimos de algumas teorias que elaboram uma crtica sobre a noo we take gender for

    granted, isto , sobre uma pressuposio apressada a respeito aos atributos indexados aos

    homens e mulheres, por meio dos quais se realizam classificaes e demarcaes, colocando-

    os em planos muito distintos. Ignora-se, nessa perspectiva, os processos que envolvem aquilo

    que se convencionou chamar de identidade de gnero, uma configurao de prticas

    atravessada por tenses e ambigidades. o que discute Judith Butler (2010), quando destaca

    o papel do conceito de gnero em reproduzir a falsa noo de estabilidade, em que a matriz

    heterossexual estaria assegurada pela constituio de dois sexos fixos e coerentes, que se

    opem a partir de oposies binrias ocidentais: homem x mulher, macho x fmea, masculino

    x feminino, pnis x vagina, rgido x mole, num discurso que refora a ordem compulsria da

    polarizao.

    Seguindo a pesquisadora R. Connel (2015), recorreremos tambm noo de arena

    gendrificada, ou seja, de espaos nos quais se expressam arranjos de gnero que parecem

    fazer parte da ordem natural das coisas. Nesse aspecto, verifica-se o quanto as ideias sobre

    comportamentos ou prticas de gnero adequadas ou corretas so postas em circulao pelos

    representantes desses espaos, ou seja, padres, legisladores, familiares, professores, anncios,

    programas televisivos, e, no caso em questo, academias, campeonatos de luta, sites

    jornalsticos, mdias sobre esportes e matrias veiculadas em revistas especializadas em artes

    marciais, como a Tatame. Essas arenas no s promovem ideias sobre as diferenas de

    3No universo analisado, o uso de EAS normalmente realizado por meio de ciclos de ingesto da medicao via

    oral ou intravenosa. Nessa linha, cada ciclo chamado de bomba, termo utilizado pelos lutadores e culturistas

    que recebem o epteto de bombados.

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    gnero, como ao mesmo tempo criam essas diferenas, reduzindo feminilidades e

    masculinidades a tipos fixos e imutveis.

    luz do que fala Le Breton (2011) sobre o corpo na modernidade, iremos ainda refletir sobre

    o imperativo que impele o sujeito a moldar seu corpo como se este fosse umoutro,

    convertendo-o em um objeto a esculpir, para torn-lo agradvel a si e aos olhos dos outros,

    sem disfarar uma demanda esttica. Dito de outra maneira, cada vez mais se intensifica o

    potencial de vigilncia e controle corporal na modernidade para homens e mulheres,que

    podem agora gerenciar seu capital corporal, atravs de substncias cada vez mais potentes e

    capazes de atuar inclusive molecularmente no aprimoramento muscular.

    Rigidez tudo?

    A busca pela dureza, pelo aspecto rgido do corpo, obtida atravs de um trabalho fsico nas

    academias, mas depende fortemente de sua associao com medicamentos. Desta forma,

    pode-se falar de biomedicalizao, no sentido indicado por Clarke et al(citado em Tramontano

    (2017), um conceito que remete s transformaes externas e internas dos corpos, da sade e

    da vida, construindo os usurios a partir do uso de medicamentos qumicos, com a

    conseqente produo de novos corpos. No demais acrescentar que esta produo e,

    especificamente, a manuteno deste corpo requer um constante investimento financeiro, de

    ateno e de vigilncia.

    Vale a pena examinar mais de perto estes novos corpos assim produzidos. Como j se disse,

    trata-se de um corpo rgido. O modelo buscado parece ser o de um heri eternamente

    jovem, em que se estaria num suposto auge da forma fsica. Deste modo, para homens Cis

    ouTrans (considerando a construo daidentidade em termos de trans ou cisgeneridade)4, o

    ideal de hipermusculosidade conseguido embora de forma efmera reverberando

    socialmente fora e vigor para os indivduos que assim procedem. uma espcie de medalha

    arduamente conquistada.

    A motivao para perseguir e construir este novo corpo, por parte dos homens, est conectada

    a uma imagem de masculinidade viril centrada na rigidez uma metfora nada sutil da rigidez

    do membro sexual, associada a potncia. O fascnio desta fora/vigor/rigidez, para os homens,

    4ttps://feminismotrans.wordpress.com/2013/03/15/cissexual-cisgenero-e-cissexismo-um-glossario-basico/

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    portanto, se expressa na conquista de uma imagem idealizada de homem, uma masculinidade

    hegemnica enfim alcanada: E esta alcanada graas ao controle de um complexo de

    fatores que vai desde o nvel, o tipo e a durao de exerccios, passando pela escolha de

    academias, tcnicos, mdicos e todo um staff de assistncia, at a dosagem de suplementos

    e/ou anabolizantes. Desta forma, se realiza uma espcie de individualizao gerencialista, em

    que a gesto e o controle sobre o corpo e sobre os efeitos buscados se do em nvel mximo.

    a busca da eficcia corporal - antdoto individual contra a ameaa social que representa para

    um homem o corpo fraco.

    possvel supor que este mesmo controle sobre o prprio corpo, construdo com o apoio

    significativo dos anabolizantes, tambm exera atrao para as mulheres que seguem o ideal

    fsico da hipermusculosidade. No caso feminino, como j extensamente estudado, trata-se de

    um corpo historicamente alvo de intensas intervenes - inclusive mdicas-e de interdies,

    um corpo altamente regulado, que neste novo cenrio parece retornar ao controle da prpria

    pessoa, pela capacidade de model-lo e apresent-lo como forte, potente e rgido, e no como

    uma carne vulnervel, flcida portanto, fraca. No entanto, a legitimidade social desta nova

    figura feminina construda est longe de se assemelhar quela conseguida pelos homens

    hipermusculosos.

    O novo corpo feminino se torna desconfivel; eptetos como masculinizado, excessivo,

    monstruoso, sexualmente invertido, biologicamente em desacordo com a natureza, so

    evocados e garantem uma ambigidade no gnero e no status deste corpo. De toda forma,

    parece que este fetiche se apresenta como uma possvel estratgia feminina de produo de

    seu gnero, tornando-o visivelmente forte.

    Preciado (2014), em seu Manifesto Contrassexual, prope o fim da natureza como ordem

    que legitima a sujeio de uns corpos sob os outros (pg 21). No contexto da

    contrassexualidade, os corpos so corpos falantes fora das oposies homem/mulher,

    masculino/feminino, hetero/homossexualidade. Em livro posterior, Testo Yonqui (2008)

    analisa a autoaplicao de testosterona, criticando a carta gentica e o frmaco-poder.

    Seguindo esta linha, por exemplo, a premiada artista baiana Virgnia de Medeiros desde 20155

    tem utilizado testosterona para fins artsticos, como questionamento dos limites entre vida e

    5 http://virginiademedeiros.com.br/obras/

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    fico, buscando o que afirma ser uma autonomia corporal. Neste quadro, o uso do

    hormnio masculino por uma mulher romperia o regime de verdades dicotmicas centrado na

    heterossexualidade.

    Um dos aspectos perturbadores desta construo de masculinidade viril centrada na rigidez

    muscular caracterstica de um tipo ideal eternamente jovem, a necessidade do recurso

    testosterona como um elixir. Esta panacia aparece como um atributonatural exclusivo

    masculino o que contraria os achados cientficos j estabelecidos, de que este hormnio,

    embora preponderante em homens, tambm existe em mulheres (Tramontano,2017: 89)

    A ideia aceita no senso comum de que mulher faltam o vigor e a fora, tpicos do homem ou

    caracterizados como atributos masculinos, encontra sua materializao simblica na aquisio

    de um corpo forte, cuja rigidez muscular passa a ser o padro de comparao. Ele

    equiparado, nesse vis, juventude, sade e plenitude sexual6.

    Assim, para obter um ideal corporal associado ao masculino, neste quadro, se dever fazer uso

    do hormnio, que se aplicar indistintamente a homens e mulheres.Porm, para as mulheres, o

    preo a ser pago, no caso de suas formas apresentarem desvios considerados fora do padro,

    ode sofrerem constrangimentos e acusaes de masculinizao, tendoseus corpos (e

    almas)concebidos atravs de classificaes como hulk ou monstra, em contraste com a

    concepo que se tem sobre o corpo masculino forte como bonito, belo ou desejvel.

    A centralidade da noo de rigidez e dureza ganhou um novo status com a discusso sobre o

    uso de um medicamento que age diretamente sobre a potncia sexual masculina: o Viagra. Ele

    pode ser entendido como um caso emblemtico na direo de otimizao das funes sexuais

    masculinas, marcando, inclusive, a entrada da indstria farmacutica no escopo da sexologia

    (Carrara, Russo e Faro, 2009). O foco a fisiologia individual e a juventude esta

    compreendida pelo seu aspecto mais hormonal, ou seja, como uma fase em que o corpo

    gozaria de uma plenitude fsica no exerccio sexual superativo. Esse modelo proposto pelo

    Viagra estaria ento ao alcance de todos, jovens e velhos e, assegurando no s a prontido,

    mas a longevidade da atividade sexual. Um horizonte futuro que tambm parece ser possvel

    s mulheres atravs do uso de testosterona, contida no medicamento Intrinsa, considerado o

    Viagra feminino, que ainda se encontra em estudo (Faro,2016).

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    No cenrio das academias de luta e da mdia esportiva, plasma-se a dicotomia entre rigidez

    exemplar e moleza sugerida pela literatura que trata da disfuno ertil (DE) e do distrbio

    andrognico do envelhecimento masculino (DAEM), encenada, desta vez, pela oposio

    corpo rgido/corpo flcido. Note-se, porm, que, para alm do vis dicotmico, h uma

    hierarquia posta em operao, em que a flacidez ou moleza se coloca de maneira inferior

    rigidez, esta sim, considerada um smbolo distintivo que vale a pena perseguir

    incessantemente.

    No toa, verifica-se o abandono da expresso impotncia em favor do termo disfuno ertil

    (Carrara, Russo e Faro, 2009); prega-se que a atividade sexual mesmo condio necessria

    para a sade, e que a capacidade ertil definiria a virilidade durante todo o curso da vida

    masculina. Assim, o marketing da disfuno conjugado ao marketing da soluo (rigidez)

    que se apresenta com fora nas drogas chamadas de estilo de vida, que no curam doenas,

    mas sim realam determinadas caractersticas do indivduo; otimizando ou aprimorando

    algum atributo fsico ou mental.

    A discusso sobre as representaes e efeitos do Viagra ou do Intrinsa permite pensar que o

    modelo de sexualidade satisfatria est associado simbolicamente a capacidade de rigidez

    disseminada por todo o corpo. A rigidez do pnis pretendido completamente duro e

    perfeitamente rgido como demonstrou Faro, Chazan e Rodhen (2013) estendida para todo

    o corpo, que se torna um smbolo flico em si mesmo.Essa representao da potncia, lembre-

    se, tambm esteticamente positivada, numa equao que relaciona fora e rigidez corporal

    beleza.

    Beleza que se mede, msculos que se dosam

    Falar em corpo rgido e hipermusculoso para os homens sinalizar um corpo no deteriorado

    por marcas do tempo ou de vicissitudes da vida, como pobreza, brigas ou consumo de drogas

    ilcitas. O corpo rgido jovem e belo, produzido para ser exibido e apresentado em seu grau

    mximo de tnus muscular. A beleza, ento, considerada um atributo exteriormente visvel

    atravs do corpo. Neste sentido, msculo duro beleza, e um corpo flcido no apenas

    fraco: feio.

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    Para melhor visualizar as incorporaes destes tipos fsicos ideais, vamos analisar a seguir

    dois modelos exemplares de mulheresatletase finalmente alinhavar algumas concluses

    provisrias.

    Cyborg manifesta X Mackenzie, a musa

    Cristiane Justino Venncio7,nasceu em Curitiba nos anos 80, uma lutadora

    brasileira,naturalizada norte-americana, campede Peso Pena. Herdou o nome profissional

    Cyborg do tambm lutador deMMA (sigla para Mixed Martial Arts) Evangelista Cyborg

    dos Santos,com quem foi casada durante alguns anos. Recentemente Cris Cyborg como ficou

    conhecida, envolveu-se em polmicas ligadas a uso de doping em um campeonato,recebendo

    como punio tanto o afastamento do MMA como a de ter que devolver o Cinturo (Trofu

    dos lutadores) obtido em suas vitrias.

    Foi nesse contexto que a revista Tatame, especializada em artes marciais e lutas em geral,

    estampou em sua capa do ms de Janeiro de 2017 uma reportagem com a atleta com o

    seguinte ttulo Cyborg em foco. Na foto, a atleta retratada do rosto at os ombros sobre

    um fundo negro, com um perfil srio, olhos voltados para cima, sem interagir com o leitor

    diretamente. apresentada ainda com cabelos presos, lbios pintados e olhos maquiados; por

    sobre esta maquiagem, metade de seu rosto est tomada por uma pintura facial da bandeira do

    Brasil. Sugestivamente,seu pescoo largo sobressai na foto, acentuando uma das marcas

    corporais comuns em praticantes masculinos de MMA e outros esportes de combate. O

    subttulo da capa traz um comentrio marcado por ambigidades: algum que brilha no

    octgono, e ao mesmo tempo vive dramas pessoais como depresso, excluso e doping, a falta

    ou pecadomais cometido nesse campo de lutas.

    O que nos chamou ateno neste perfil foi exatamente essa ambiguidade que no

    exatamente uma exclusividade da Revista Tatame, mas que encontra uma expresso na

    representao inclusive miditica dessa persona feminina de lutadoras. Em uma rpida

    investigao no Google a partir do descritor Cyborg, percebe-seque as notcias sobre a

    lutadora sinalizam para esta ambigidade, ou seja, o enaltecimento de suas conquistas como

    atleta de MMA e ao mesmo tempo a nfase nos conflitos pessoais, como por exemplo, a

    cobertura dada ao episdio em que Cris agride fisicamente outra lutadora a qual ela acusa de

    7https://pt.wikipedia.org/wiki/Cristiane_Justino

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    ter praticado Bullying8 contra ela nas redes sociais.O episdio gerou um processo e perdas de

    patrocnio. O vdeo da briga circula livremente, com milhares de visualizaes9. Ao visitar os

    sites onde se publicaram as notcias possvel ler comentrios sobre as mesmas, feitos pelos

    internautas. Notamos o tom majoritariamente agressivo no site, desde alegaes pejorativas a

    sua esttica - feia, feiona -, passando por xingamentos de monstra, at acusao de estar

    muito masculinizada por conta de bombas que supostamente teria usado para alcanar

    seus xitos.

    Esta imagem assim construda sobre Cris Cyborg contrasta com a imagem dalutadora,

    Mackenzie Dern, veiculada na capa de outra edio da mesma revista, cuja manchete a

    apresenta como Bela, destemida e do tatame - uma pardia da manchete de uma revista de

    alcance nacional em que a primeira-dama da repblica foi descrita como Bela, recatada e do

    lar. A imagem de uma jovem mulher, fotografada de corpo quase inteiro, olhando

    diretamente para a cmera com lbios maquiados e cabelos soltos e tratados.

    A mulher se encontra em postura corporal de luta, trajando um quimono azul acinzentado

    sobre um fundo cinza. O subttulo da matria continua na descrio da atleta: Mackenzie

    Dern multi campe e musa do jiu-jtsu, frisando como sua inspirao a figura masculina do

    pai. Ainda segundo esta chamada, ela estaria viabilizando sua transio para o MMA, mas

    mantendo uma firme identidade com a prtica do Jiu-jtsu. A matria discorre sobre a filha

    promissora da Arte Suave, mais uma vez apresentada iconicamente como seguidora do

    lendrio Wellington Megaton Dias - do qual, porm, ao contrrio de Cyborg, no herda o

    nome de guerra.

    Analisando mais o corpus de fotos sobre Mackenzie, temos alguns denominadores comuns.

    Em quase todas, a atleta aparece sorrindo e olhando para a cmera, em poses comuns a

    modelos profissionais. Em uma delas, seus atributos femininos so realados: seios cobertos

    por um top rosa, cintura fina e definida, corpo visvel semi-envolto em quimono fashion de

    cor preta com detalhes e interior mais uma vez em rosa.

    8 ttps://esporte.uol.com.br/mma/ultimas-noticias/2017/06/06/cyborg-e-bate-estaca-querem-nocautear-

    cultura-do-bullying-do-ufc.htm

    9 https://esporte.uol.com.br/mma/ultimas-noticias/2017/07/18/cyborg-nega-ser-a-cara-do-mma-e-diz-que-

    luta-por-cinturao-e-so-mais-uma.htm.

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    Por sua vez no corpo da reportagem sobre Cyborg, guardadas as devidas diferenas entre as

    modalidades esportivas do MMA e do Jiu-jtsu, vrias fotos a apresentam em treinos rduos,

    com bceps musculosos mostra, como aquela em que luta sozinha debaixo dagua. A mais

    emblemtica de todas talvez seja a foto em que aparece levantando um enorme pneu de

    caminho, ostentando uma mscara negra que cobre a maior parte de seu rosto, deixando

    mostra somente testa e olhos, que encaram com firmeza o leitor. Enquanto seus longos

    cabelos esto presos, os seios esto disfarados sob a camiseta preta de treino. Esta mscara

    lembra inclusive aquela usada pelo personagem de Anthony Hopkins no filme clssico O

    Silncio dos Inocentes: o Doutor Hannibal Lecter, psiquiatra, assassino e canibal, podendo

    insinuar um hibridismo entre a imagem da lutadora e uma figura bestializada.

    interessante comparar essas imagens (discursos) sobre mulheres, no mesmo contexto

    esportivo, pelo modo como elas veiculam esteretipos sobre as identidades de gnero

    feminino em seu subtexto. Algumas representaes esto carregadas da obviedade dospapis,

    como o de filha promissora e tutelada pelo pai e a de mulher emancipada, dona de um

    temperamento brigo,que encontra sua natural expresso num conjunto de gestos

    classificado como violento, esvaziado de feminilidade.

    O que parece estar em jogo a demarcao de diferenas significativas entre as feminilidades,

    o que no chega a ser uma novidade, sendo a praxe de alguns meios de comunicao que

    cultivam esse fascnio pela alteridade, por meio de uma variedade de esteretipos populares

    sobre os gneros, disseminados em anncios e propagandas, novelas e outras formas de

    entretenimento para vender servios, produtos ou ideias.

    O que queremos sugerir aqui que h uma produo de significados em torno da mulher

    lutadora, centrado na vigilncia da feminilidade, cuja assim chamada essncia no deveria ser

    abalada em benefcio de uma musculosidade exagerada. A imagem veiculada de Cyborg

    representaria uma ameaa feminilidade, envolvendo, contudo, uma aparente ambigidade:

    ela tanto herona quanto vil, porque transita nos extremos num s corpo. Este,

    soberbamente modelado por msculos, lhe empresta um status de supermulher. Esta imagem,

    no entanto, alvo de repulsa, tanto no contexto das lutas e fora dele, justamente pela

    invocao de masculinizao. Desse modo, percebe-se que essas imagens de mulheres

    lutadoras publicadas na revista Tatame e nos sites esportivos, nos dizem algo sobre as formas

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    convencionais de representao da mulher, carregando tambm mensagens sobre as relaes

    de gnero e representaes da diferena.

    Notas finais

    Como concluses provisrias, avanamos algumas reflexes sobre as noes de corpo, gnero

    e beleza em operao no circuito analisado. Nesse sentido, por exemplo, a noo de

    corpolatria, trabalhada por Malisse (2002) ajuda a explicar os gerenciamentos e manipulaes

    sociais dos corpos de homens e mulheres lutadores cujos resultados so as incorporaes

    individuais de diversos valores modais de aparncia fsica. Esta corporeidade se torna modal

    como um conjunto de regras a ser aplicado aos corpos dos indivduos e precisa ser exibida

    nos diversos espaos de corporeidade, como academias, campeonatos, praias, garantindo

    visibilidade ao corpo produzido. Neste contexto, Malisse sugere a existncia de um corpo

    virtual, aquele corpo apresentado pela mdia, preparado para ser traduzido em imagens e se

    tornar uma mensagem de corpolatria uma mensagem-norma.

    Para Csar Sabino (2002), h uma esttica corporal em vigor nas academias que valoriza a

    prtica do cultivo muscular progressivo, indicando o quanto o anabolizante faz parte do

    processo de construo social da pessoa nesses ambientes. Ele opera com a noo de

    andolatria, tida como uma adorao, - tanto por parte de homens quanto de mulheres

    marombeiros, dos princpios morais e ticos da masculinidade hegemnica, considerados

    como smbolos de superioridade e sucesso econmico (p.144). Acrescentaramos: e tambm

    esttico.

    Edmonds (2002) sinaliza a transformao de uma noo de corpo como obra da Natureza

    divina, dado de nascena, para o corpo como trabalho, uma transformao que, em princpio,

    parece estar ao alcance de todos e todas. Nesta chave interpretativa, a aparncia associada

    auto-estima, do que deriva que a busca de uma boa aparncia, e, portanto, da beleza, est

    relacionada busca do bem-estar psquico. Ento, beleza seria sade, enquanto feira seria

    doena. Ambos precisam ser no s alcanados por via de muito trabalho e abnegao, mas

    mantidos, dependendo, assim, de qualidades pessoais.

    Tentando comparar as noes de beleza tal com entendidas nos Estados Unidos em

    comparao com o Brasil, Edmonds considera que enquanto no primeiro a beleza encarada

    de forma poltica, como uma rea que reflete a desigualdade social subjacente, e

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    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    particularmente a desigualdade racial, no Brasil a percepo da beleza parece estar ligada a

    uma problemtica mais individual. Entretanto, se levarmos estas consideraes para o campo

    das lutas e das academias, parece ser correto supor que h alguma relao entre desigualdade

    e consideraes sobre beleza e feira corporal. Assim que o corpo fraco, deteriorado,

    marcado, pode ser associado ao corpo pobre, sem investimento em sua beleza/fora. Este

    investimento de tempo e dinheiro para atingir um ideal corporal determinado um aspecto de

    uma busca mais ampla, de insero social. Como afirma uma informante do autor, se a

    garota da classe mdia pode ser sarada, pode botar peito, ento eu tambm tenho direito!.

    Entretanto, se esse modelo de beleza refora o apelo-fetiche da hipermusculosidade para os

    homens, no caso das mulheres a operao se desdobra de forma diferente: socialmente, para

    ela, exibir msculos considerados excessivamente endurecidos, beirando a insidiosa

    masculinizao, no belo ela vira uma espcie de aberrao ou monstra. Assim, ficar

    forte no igual a ficar bonita. Porm, por outro lado, ficar flcida tambm no uma opo,

    pois equivale a ficar feia, ser desvalorizada esteticamente.

    Para finalizar, talvez se possa pensar em um processo em curso de virilizao da beleza, no

    qual ingerir Testosterona gerir sua prpria virilidade. Isto interpretado socialmente, por

    sua vez, como masculinizao. Seja como anabolizante para hipermusculosidade, como

    reposio na velhice ou como recurso para garantir a transexualidade masculina, o uso de

    hormnios tomado como algo que amplia ou revela caractersticas do corpo que estavam

    enfraquecidas. uma busca para a exposio do se que deveria ser ou se gostaria que fosse,

    uma possibilidade de reformulao de si, uma nova agncia, ainda que no seja

    completamente uma autonomia plena, emancipada dos constrangimentos causados pelos

    diversos marcadores sociais presentes nas experincias dos indivduos. O fetiche do corpo

    musculoso dialoga, portanto, de um lado, com a busca de uma apresentao de si desejvel e

    de outro atualiza velhas dualidades que aproximam o masculino da fora e o feminino da

    fraqueza.

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