O FUTURO POLÍTICO DA EUROPA - ipris.· De princípios de 1994 a meados de 1998 exerci funções de

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  • O FUTURO POLTICO DA EUROPA Quatro anos nas Naes Unidas: testemunhos, impresses, especulaes Paula Escarameia Professora Associada Instituto Superior de Cincias Sociais e Polticas da Universidade Tcnica de Lisboa I. Introduo De princpios de 1994 a meados de 1998 exerci funes de conselheira jurdica na Misso Permanente de Portugal junto das Naes Unidas, em Nova York, tendo trabalhado, fundamentalmente, na 6. Comisso da Assembleia Geral (Comisso Jurdica)1. O presente artigo pretende traduzir, de algum modo, a riqueza e perturbao intelectual que tal actividade me causou, aventando a conceptualizao de alguns traos dos processos de trabalho das Naes Unidas, alguma especulao sobre os mesmos e o seu eventual desenvolvimento futuro. Aps vrios anos de estudo e ensino sobre a onu, que, contudo, se limitaram a aspectos tericos da dita Organizao e a contactos com outros acadmicos ou diplomatas que tinham participado em alguns dos seus trabalhos, houve aspectos que muito me surpreenderam no funcionamento da mesma2. Alguns sero, provavelmente, fruto dos anos de transio especficos abarcados, mas creio que muitos so resultado de causas estruturais mais profundas e mais duradouras. Assim, comearei por expor aquilo que chamei o paradoxo dos nossos dias no funcionamento da onu, para posteriormente aventar possibilidades explicativas de tal paradoxo e especular sobre o futuro da Organizao. II. O paradoxo no actual funcionamento da onu interessante verificarmos que, aps o fim da guerra fria, e ao contrrio do que sucedeu com os anteriores conflitos mundiais do sculo xx, no se levantam vozes, entre quaisquer dos principais actores da cena mundial, sejam eles Estados, organizaes interestatais, organizaes no-governamentais, indivduos com estatuto especial, multinacionais, etc., para a eliminao da Organizao das Naes Unidas. Pelo contrrio, salvo opinies mais ou menos marginais, quase que h um consenso sobre a necessidade do reforo do seu papel desde que se reformem certos aspectos da dita Organizao. Assim, parece que todos pretendem, no a substituio, mas antes a reforma das Naes Unidas. Tal reforma, at agora, no foi possvel. Foram criados vrios Grupos de Reforma, isto , comits abertos a todos os Estados-membros, com agendas de trabalho sobre reformas especficas de aspectos concretos, a obter por consenso, alguns dos quais se tm reunido desde 1992, sem que nenhum resultado concreto tenha, at agora, sido obtido3. Este estudo voltar a este ponto na ltima parte, pelo que me limitarei a referir nesta instncia que a nica emenda da Carta at agora acordada, que entrar em vigor aquando da reviso, que se pretende global, da mesma, proveio, no dos ditos Grupos de Reforma, recentemente constitudos, mas sim do Comit sobre a Carta das Naes Unidas e sobre o Reforo da Organizao, que funciona desde 19744 sob a gide da 6. Comisso. A

  • referida reviso refere-se eliminao das referncias a Estados inimigos nos artigos 53., 77. e 107.5. Talvez seja previsvel que uma dcada no seja suficiente para produzir as to esperadas revises da Carta, j que os condicionalismos do artigo 108. so apertados, exigindo-se a aprovao por dois teros dos membros da Assembleia Geral, ratificaes de dois teros dos Estados-membros da Organizao e, fundamentalmente, a incluso obrigatria, entre estas, das ratificaes dos membros permanentes do Conselho de Segurana6. As possibilidades processuais abertas pelo artigo 109., que se refere a uma Conferncia Geral dos membros das Naes Unidas destinada a rever a Carta, a ser convocada por dois teros dos membros da Assembleia Geral e nove quaisquer membros do Conselho de Segurana, evitando, deste modo, o bloqueio pelo veto (embora, nos termos do n. 2, o mesmo funcione aquando das ratificaes, em que tudo se passa como no artigo 108.), nunca foram utilizadas. As presses polticas impediram mesmo o cumprimento do preceituado no n. 3 do referido artigo, que exige meramente uma maioria simples e o voto de quaisquer sete membros do Conselho de Segurana para a incluso na agenda da Assembleia Geral da sua convocao, se acaso a mesma se no tivesse realizado at dcima sesso anual da Assembleia. Apesar de no ter sido ainda possvel a aprovao de reformas da Organizao, algumas das quais no implicam a reviso da Carta e nem mesmo das Regras Processuais da Assembleia Geral7, seria razovel esperar que os aspectos mais criticados, e em relao aos quais mais consenso h para serem objecto de uma urgente reforma, como sejam a desigualdade entre os Estados-membros, a preponderncia dos membros permanentes do Conselho de Segurana (chamados correntemente, na gria das Naes Unidas, P5, de Permanent 5), a falta de democraticidade na existncia e funcionamento de vrios rgos, mormente o Conselho de Segurana, o aumento do fosso entre os nveis de desenvolvimento dos vrios Estados, etc., se estivessem a atenuar nestes tempos que se esperam ser de pr-reforma da Organizao. Ora aqui reside o paradoxo de que tenho vindo a falar. que, ao contrrio duma atenuao destes aspectos, considerados quase consensualmente como negativos, o oposto parece estar a passar-se, isto , uma acentuao dessas tendncias que vo contra o caminho que parece ser o escolhido para a reforma. Da minha experincia, salientarei fundamentalmente quatro aspectos em que o agravar de desigualdades no acesso e concretizao do trabalho das Naes Unidas me parece patente, cingindo-me aos processos utilizados na Assembleia Geral e no Conselho de Segurana. Conselho de Segurana 1. Manuteno da Paz Seria talvez de esperar que o Conselho de Segurana, no confronto de competncias com a Assembleia Geral, se limitasse s funes de manutenco da paz e segurana internacionais8 para ele prescritas no n. 1 do artigo 24., no entrando por campos em que eventualmente poder haver coliso com a Assembleia Geral, nico rgo principal em que os princpios da representatividade e igualdade dos Estados se encontram assegurados, maxime atravs dos n.os 1 dos artigos 9. e 18. 9. Contudo, a realidade do ps-guerra fria tem sido precisamente a inversa: o Conselho de Segurana tem alargado o mbito das suas funes, designadamente passando a pronunciar-se, sobretudo atravs de vrias resolues referentes s foras de manuteno

  • da paz, sobre aspectos relativos reconstruo scio-econmica e poltica do territrio em causa. Deste modo, no apenas o fim da guerra fria levou ao aumento do nmero de foras de manuteno da paz (h, presentemente, dezoito a operar10), o que, em si mesmo, poder levantar algumas objeces (pelo menos dos mais puristas, j que a prpria figura no se encontra consagrada na Carta11 e mesma se recorreu, adoptando uma proposta do Canad a que o Secretrio-Geral Dag Hammarskjold deu forma concreta, a pedido do Conselho de Segurana, em 1960, aquando da guerra do Congo), mas tambm atravs da atribuio de funes s mesmas que a Carta no atribui sequer ao Conselho. 2. Sanes At 1989, o Conselho no aplicou praticamente sanes, tendo as excepes sido apenas os casos da Rodsia e da frica do Sul. As sanes passaram a proliferar posteriormente, havendo presentemente sanes decretadas contra o Iraque, Angola (unita) e a Somlia12. Mais uma vez, no foi apenas o nmero que aumentou mas, mais significativamente, o contedo das mesmas. Estas sanes passaram, em alguns casos, a visar entidades que no so Estados, como o caso bvio da unita, e, por vezes, a visar indivduos enquanto tal, como sejam os dirigentes da unita ou o ex-Presidente do Haiti. Este tipo de prtica transforma, de algum modo, o Conselho de Segurana num rgo proferidor e executante de sentenas, o que agrava a sua imagem de parcialidade poltica e conduz a reaces sobre o modo como entende presentemente o seu papel. 3. Tribunais Internacionais Ad Hoc A criao, pelo Conselho de Segurana, dos Tribunais Internacionais para a ex-Jugoslvia e o Ruanda13, representa, provavelmente, o ponto mais arrojado no exerccio de funes do ps-guerra fria. Os Tribunais foram criados ao abrigo do Captulo vi (Soluo Pacfica de Controvrsias), como meios, segundo o parecer justificativo do Departamento de Assuntos Jurdicos do Secretariado, dissuasores de situaes que levem quebra da paz e segurana mundiais. No entanto, nenhum artigo prev expressamente a dita possibilidade, pelo que foi ressentido, a nvel de vrios rgos da onu, o exerccio destes poderes pelo Conselho, tendo precisamente esta atitude de desagrado impulsionado a criao, pelo trabalho da Assembleia Geral, atravs de um seu rgo subsidirio, do Tribunal Criminal Internacional, cujo estatuto foi aprovado em Roma, em 17 de Julho de 1998. Para alguns Estados, a criao dos dois tribunais ad hoc foi ilegal, recusando-se o Mxico, ainda hoje, a votar na eleio dos respectivos juzes. Assembleia Geral 1. Posio dos Membros Permanentes do Conselho de Segurana na Assembleia Geral Estranhamente, na prpria Assembleia Geral que estas tendncias para a desigualdade, anteriormente referidas, so mais visveis. O caso mais bvio o dos P5, que detm, hoje mais que nunca, um poder imenso na Assembleia Geral e nos seus rgos subsidirios, ao ponto de se poder mesmo afirmar que presentemente so permanentes em praticamente todos os rgos da Organizao. A este respeito, particularmente elucidativo o excelente documento produzido pela Argentina em que se prova estatisticamente, atravs da presena destes Estados em praticamente todos os rgos, grupos de trabalho, etc., o que foi designado por esta delegao como efeito de cascata14. Em sede de outro rgo principal que no a Assembleia, importa referir que os membros permanentes tiveram sempre juzes das suas nacionalidades no Tribunal Internacional de Justia, excepo da China, e esta apenas durante o perodo da revoluo cultural, por no ter querido

  • apresentar candidato. Tirando o Reino Unido, nenhum destes membros aceita hoje, contudo, a jurisdio do dito Tribunal, o que mostra o poder que reside no simples facto de se ser membro permanente do Conselho de Segurana15. 2. Posio Particular dos Estados Unidos da Amrica Entre os membros