O LEITOR UBÍQUO E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA A EDUCAÇÃO

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    O LEITOR UBQUO E SUAS CONSEQUNCIAS PARA A EDUCAO

    Lucia Santaella

    O objetivo deste captulo apresentar um relato de um caso bem-sucedido de uso da rede social Facebook na Universidade de Buenos Aires, em um projeto que teve sua descrio e avaliao publicadas sob os auspcios da Fundao Telefnica da Argentina (PISCITELLI et al., 2010). Mas, para fazer esse relato, senti necessidade de contextualizar o Facebook e, mais que isso, penetrar no mago do usurio do Facebook, questionar que usurio esse. Que tipo de discente esse para o qual projetos de uso das redes sociais na educao so dirigidos? O que me interessa perscrutar o perfil cognitivo desse usurio, antes de pensar em qualquer possvel uso de redes sociais na educao. Tanto quanto posso ver, o cerne da questo da aprendizagem localiza-se na figura do leitor, no perfil cognitivo do leitor. Que leitor prossumidor (produtor e consumidor de textos multimdia) esse que hoje transita pelas redes sociais? Creio que essa questo fundamental para se pensar quaisquer projetos que visam introduzir a utilizao das redes sociais para incrementar os processos educativos. sobre essa questo que a primeira parte deste trabalho ser dedicada, para, em seguida, passarmos ao desenho das caractersticas de uso do Facebook e, ento, ao relato de caso.

    A EXPANSO DO CONCEITO DE LEITURA

    O conceito de leitura no est isento de controvrsias. Balestrini (2010, p. 35) afirma que no existe um procedimento de interpretao de imagens que se possa ensinar como se ensina

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    a ler e a escrever. Cita, ento, Chartier (2009) quando este expressa sua preocupao quanto ao uso convencional da expresso ler imagens, como se a leitura fosse o paradigma de todo entendimento. Para ele, as imagens no se leem. Sentem-se, compreendem-se, analisam-se e percebem-se. De fato, para muitos o ato de ler se restringe a seguir letra a letra os smbolos do alfabeto. A leitura s pode se referir aos textos lingusticos de que o livro o exemplar mais legtimo, o que afirmam.

    Contrariamente a essa recusa, defendo que imagens tambm so lidas (cf. SANTAELLA, 2012). Mais do que isso, h algum tempo, tenho reivindicado que, fora e alm do livro, h uma multiplicidade de tipos de leitores, multiplicidade, alis, que vem aumentando historicamente. Alm do leitor da imagem, no desenho, pintura, gravura, fotografia, h tambm o leitor do jornal, revistas. H ainda o leitor de grficos, mapas, sistemas de notaes. H o leitor da cidade, leitor da mirade de signos, smbolos e sinais em que se converteu a cidade moderna, a floresta de signos de que j falava Baudelaire. Esse leitor s pode se movimentar no ambiente urbano das grandes metrpoles porque l os sinais de trnsito, as luzes dos semforos, as placas de orientao, os nomes das ruas, as placas dos estabelecimentos comerciais etc. Como se no bastasse, h ainda o leitor-espectador da imagem em movimento, no cinema, televiso e vdeo. A essa multiplicidade, veio se somar o leitor das imagens evanescentes da computao grfica e o leitor do texto escrito que, do papel, saltou para a superfcie das telas do computador. Na mesma linha de continuidade, mas em nvel de complexidade ainda maior, esse leitor das telas eletrnicas est transitando pelas infovias das redes, constituindo-se em um novo tipo de leitor que navega nas arquiteturas lquidas e alineares da hipermdia no ciberespao, espao este constitudo do conjunto de redes de computadores interligados por todo o planeta. So essas redes que do amplo acesso informao e permitem o encontro dos internautas, criando novas formas de socializao, compartilhamento e participao.

    Toda essa variedade de leitores resulta do fato de que, desde os livros ilustrados e, depois, com os jornais e revistas, o ato de ler passou a no se limitar apenas decifrao de letras, mas veio tambm incorporando, cada vez mais, as relaes entre palavra e imagem, entre o texto, a foto e a legenda, entre o tamanho dos tipos grficos e o desenho da pgina, entre o texto e a diagramao. Alm disso, com o surgimento dos grandes centros urbanos e com a exploso da publicidade, a escrita, inextricavelmente unida imagem, veio crescentemente se colocar diante dos nossos olhos na vida cotidiana. Isso est presente nas embalagens dos produtos que compramos, nos cartazes, nos pontos de nibus, nas estaes de metr, enfim, em um grande nmero de situaes em que praticamos o ato de ler de modo to automtico que nem chegamos

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    a nos dar conta disso. Consequentemente, no h por que manter uma viso purista da leitura restrita decifrao de letras. Do mesmo modo que, desde o livro ilustrado e as enciclopdias, o cdigo escrito foi historicamente se mesclando aos desenhos, esquemas, diagramas e fotos, o ato de ler foi igualmente expandindo seu escopo para outros tipos de linguagens. Nada mais natural, portanto, que o conceito de leitura acompanhe essa expanso.

    Em uma pesquisa realizada h alguns anos, depois transformada em livro (SANTAELLA, 2004), tendo como objetivo compreender o novo tipo de leitor que emergiu com as redes de comunicao planetrias, leitor que passei a chamar de imersivo, ao aplicar o princpio da generalizao, sistematizei a multiplicidade dos leitores acima mencionada em trs grandes tipos: o leitor contemplativo, o leitor movente e o leitor imersivo -- cujos modelos perceptivo-cognitivos meu livro buscou explicitar, com nfase no leitor imersivo. Vejamos esses trs tipos em mais detalhes.

    TRS TIPOS DE LEITORES

    Assim, o leitor contemplativo o leitor meditativo da idade pr-industrial1, da era do livro impresso e da imagem expositiva, fixa. Esse leitor nasceu no Renascimento e perdurou at meados do sculo XIX. O segundo tipo de leitor filho da revoluo industrial e do aparecimento dos grandes centros urbanos: o homem na multido, que foi lindamente retratado pelo escritor norte-americano, Edgar Allan Poe, no seu conto com o mesmo ttulo. , portanto, o leitor do mundo em movimento, dinmico, das misturas de sinais e linguagens de que as metrpoles so feitas. Esse leitor nasceu tambm com a exploso do jornal e com o universo reprodutivo da fotografia, cinema e manteve suas caractersticas bsicas quando se deu o advento da revoluo eletrnica, era do apogeu da televiso. O terceiro tipo de leitor aquele que brotou nos novos espaos das redes computadorizadas de informao e comunicao. Vejamos brevemente o perfil cognitivo de cada um desses tipos de leitores.

    O leitor contemplativo

    O perfil cognitivo do leitor do livro pressupe a prtica, que se tornou dominante a partir do sculo XVI, da leitura individual, solitria, silenciosa. Ela implica a relao ntima entre o leitor e o livro, leitura do manuseio, da intimidade, em retiro voluntrio, num espao retirado e privado, que tem na biblioteca seu lugar de recolhimento, pois o espao de leitura deve ser separado dos lugares de um divertimento mais mundano. uma leitura essencialmente contemplativa,

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    concentrada, que pode ser suspensa imaginativamente para a meditao e que privilegia processos de pensamento caracterizados pela abstrao e a conceitualizao.

    Esse tipo de leitor tem diante de si objetos e signos durveis, imveis, localizveis, manuseveis: livros, pinturas, gravuras, mapas, partituras. o mundo do papel e do tecido da tela. O livro na estante, a imagem exposta, altura das mos e do olhar. Uma vez que esto localizados no espao e duram no tempo, esses signos podem ser continua e repetidamente revisitados. Um mesmo livro pode ser consultado repetidas vezes, um mesmo quadro pode ser visto tanto quanto possvel. Sendo objetos imveis, o leitor que os procura, escolhe-os e delibera sobre o tempo que deve dispensar a eles. Embora a leitura da escrita de um livro seja sequencial, a solidez do objeto-livro permite idas e vindas, retornos, ressignificaes. Um livro, um desenho e uma pintura exigem do leitor a lentido de uma entrega perceptiva, imaginativa e interpretativa em que o tempo no conta.

    O leitor movente

    A modernidade, impulsionada pela exploso demogrfica, pela acelerao capitalista2 e pelo surgimento das metrpoles, corresponde a um novo estgio da histria humana em que as coisas se fragmentam sob efeito da velocidade, do transitrio, do excessivo e da instabilidade que marcam o psiquismo humano com a exacerbao dos estmulos e a tenso nervosa. Nesse ambiente, surgiu o segundo tipo de leitor que foi se ajustando a novos ritmos da ateno que passa com igual velocidade de um estado fixo para um mvel. o leitor treinado nas distraes fugazes e sensaes evanescentes cuja percepo se tornou uma atividade instvel, de intensidades desiguais, leitor apressado de linguagens efmeras, hbridas, misturadas. A impresso mecnica, aliada ao telgrafo e fotografia, gerou a linguagem hbrida do jornal, testemunha do cotidiano, fadada a durar o tempo exato daquilo que noticia. Com ela nasce o leitor fugaz, novidadeiro, de memria curta, mas gil.

    Alm do jornal, o mundo moderno trouxe as publicidades de rua que comearam a povoar a cidade com sinais e mensagens. Como orientar-se, como sobreviver na grande cidade sem as setas, os diagramas, os sinais, a avaliao imediata da velocidade do movimento e do burburinho urbano? O leitor do livro, meditativo, observador ancorado, leitor sem urgncias, provido de frteis faculdades imaginativas, aprende assim a conviver com o leitor movente; leitor de formas, volumes, massas, interaes de foras, movimentos; leitor de direes, traos, cores; leitor de luzes que se acendem e se apagam; leitor cujo organismo mudou de marcha, sincronizando-se acelerao do mundo.

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    H uma isomorfia entre o modo como esse leitor se move na grande cidade, no movimento do trem, do bonde, dos nibus e do carro e o movimento das cmeras de cinema. De fato, a sensibilidade adaptada s intensidades fugidias da circulao incessante de estmulos efmeros uma sensibilidade inerentemente cinematogrfica. A rapidez do ritmo cine