O mercado na comunidade rural: propriedade, herança e família no

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  • M a r i a d e F t i m a B r a n d o * Anlise Social, vol. XXVI (112.113, 1991 (3-4.), 613-628

    O mercado na comunidade rural:propriedade, herana e famlia no Nortede Portugal, 1800-1900

    1. Do ponto de vista da histria econmica, pode caracterizar-se osculo xix em Portugal pela lentido da emergncia de uma economia viradapara o mercado. Portugal insere-se assim no processo mais vasto, com umacronologia bem diferenciada, conforme as diversas regies do mundo e osdiversos pases que as integram, da afirmao do predomnio da economiade mercado, isto , de uma economia controlada e regulada pelo nvel rela-tivo dos preos, tanto dos bens e servios, como dos factores de produo.Por volta de meados do sculo xix so j claramente perceptveis os sinaisda afirmao da economia de mercado enquanto economia nacional e atmesmo enquanto economia-mundo, dela dando conta o desenvolvimento daeconomia poltica desde Adam Smith at John Stuart Mill1.

    No domnio da histria econmica, a reflexo sobre esta temtica tem sur-gido sob a forma de uma reflexo em torno da formao do mercado nacio-nal, denotada pela quebra da importncia da famlia como unidade de pro-duo orientada para a auto-subsistncia familiar, pelo reforo daespecializao ocupacional, pela integrao das vrias regies econmicasno espao nacional, pelo crescente peso das variaes relativas dos preosdos bens e dos preos dos factores de produo na orientao das activida-des econmicas e pelo papel cada vez mais relevante do factor capital na con-duo das mesmas2. Em Portugal, como salienta em trabalho recente DavidJustino, as questes relativas formao do mercado nacional tm sido tra-dicionalmente subsumidas na anlise de alteraes estruturais geralmente

    * Faculdade de Economia da Universidade do Porto.1 Heilbroner (1972: caps. 2, 3; 1984: caps. 1, 2, 3) e Polanyi (1978; 1980: caps. 4, 5, 6) avan-

    am uma caracterizao dos sistemas econmicos do presente e do passado a partir da combi-nao de vrias formas de integrao sob o predomnio de uma delas e com a definio doselementos essenciais que conduziram ao primado do mercado e consequente emergncia daeconomia de mercado, a partir de finais do sculo XVIII. Em Braudel (1979, vol. 2: 192-197)encontramos, porm, uma posio crtica quanto ao verdadeiro alcance histrico e terico dadefinio de economia de mercado apresentada por Polanyi. Na base da afirmao da econo-mia de mercado enquanto economia-mundo que aqui se defende encontram-se igualmente asreflexes de Wallerstein (1986) em torno do conceito de economia-mundo.

    2 Fao uso aqui da tipologia proposta por Phyllis Deane a propsito da caracterizao doprocesso conducente revoluo industrial (cf. Deane, 1975: 11-13). 613

  • Maria de Ftima Brando

    associadas com a do desenvolvimento de uma economia e uma sociedadecapitalista (Justino, s. d., vol. ii: 247). Exemplares a este respeito so ostrabalhos de Manuel Villaverde Cabral sobre o desenvolvimento do capita-lismo (cf. Cabral, 1974, 1976, 1979), os trabalhos de Miriam Halpern Pereirasobre a formao no sculo xix de uma sociedade capitalista dependente (cf.Pereira, 1978, 1983), ou os trabalhos de Maria Fernanda Alegria e MagdaPinheiro sobre a importncia do caminho-de-ferro na estruturao do mer-cado nacional (cf. Alegria, 1987; Pinheiro, 1986).

    David Justino prope, porm, uma viso mais abrangente da questo daformao do mercado nacional em Portugal. Em relao ao perodo de 1810a 1913, considera que o novo quadro jurdico, as modificaes operadasna estrutura dos transportes, a maior circulao de informao sobre o mer-cado, a uniformizao de pesos e medidas e as novas instituies de algummodo contriburam para conferir uma nova dimenso ao mercado interno,a qual permite que se fale j de uma economia que qualifica de nacional emfinais do sculo xix (cf., s. d., vol. II: 227, 261). No obstante, a avaliaoglobal que Justino faz da coerncia econmica desta economia nacional leva-oa preterir o termo mercado nacional em favor do termo espao econmiconacional (id., 261). Com efeito, muito embora o nvel de integrao dentrodo espao econmico nacional, testemunhado por relaes de complemen-taridade e interdependncia /.../ [ainda que] relativamente tnues entre asvrias regies do Pas (id., 262), indicie uma economia a orientar-se parao mercado e pelo mercado, a verdade que uma viso integrada dos aspec-tos econmicos e sociais da implantao do mercado interno leva David Jus-tino a fazer ressaltar a existncia de nveis diferentes de mercado de queo mercado nacional aquele em que a troca capitalista dominante apenas um entre vrios outros que coexistem, mas, acima de tudo, que inte-ragem, estabelecendo relaes de interdependncia e de dominao (id., 261-262). Este ltimo aspecto particularmente importante, uma vez que no cen-tro da construo do espao econmico nacional portugus se coloca nos a questo da coerncia econmica escala do territrio nacional, defi-nida em termos do tipo de troca dominante a troca capitalista , comotambm a da articulao no espao nacional com outros tipos de troca. Sobreos termos desta coexistncia nada porm nos dito.

    Pode, pois, dizer-se que a historiografia da emergncia em Portugal deuma economia virada para o mercado tem sobretudo facultado os elemen-tos que vo assinalando a progressiva afirmao do chamado mercado nacio-nal ao longo do sculo xix. Da importncia dos nveis de actuao do mer-cado, tanto ao nvel local como regional, tm tradicionalmente dado contadisciplinas margem do passado, como a antropologia e a sociologia, comestudos centrados sobre uma aldeia ou uma freguesia. Da histria local, oumesmo regional, h ainda tudo a esperar, dada a inexistncia entre ns deuma tradio de estudos de comunidade teoricamente orientados para a dilu-cidao de problemas de mbito nacional. Da comunidade urbana ou rural

    614 pouco ou nada se sabe, pouco ou nada se sabendo portanto dos nveis de

  • O mercado na comunidade rural no Norte de Portugal

    actuao do mercado que esto mais perto do autoconsumo do que do capi-talismo de que nos fala David Justino3. No resto do texto restringir-me-ei,por conseguinte, ao domnio da comunidade rural oitocentista do Noroesteportugus, apresentando para isso dados recolhidos numa delas.

    2. Pode dizer-se que o estudo da comunidade rural oitocentista continuaem Portugal largamente por fazer. Na verdade, as questes que se prendemcom a estrutura e a dinmica da comunidade rural tm sido sistematicamentesubsumidas no estudo do agregado nacional, assumindo-se neste domniotodo um conjunto de situaes que na maior parte dos casos no foramobjecto de comprovao emprica em trabalhos de mbito mais restrito.A demografia histrica constitui desde logo uma excepo, pela ateno quepresta demografia dos pequenos agregados, particularmente das fregue-sias rurais, mas, atendo-se na maior parte dos casos apenas aos aspectos estri-tamente demogrficos da histria desses agregados, fornecem ainda uma ima-gem muito parcelar da comunidade rural4. Os estudos da privatizao dosbaldios conduzidos quer ao nvel do concelho, quer ao nvel da freguesia,tm lanado alguma luz sobre a economia da comunidade rural, particular-mente no que se refere ao equilbrio entre a criao de gado e o cultivo daterra e aos conflitos de interesses que a perturbao desse equilbrio neces-sariamente envolve5. O estudo das questes da propriedade, riqueza e heranacomea a dar os seus frutos em termos do conhecimento da estratificaosocial e das estratgias patrimoniais dos mais abastados da comunidaderural6. No entanto, a verdade que a histria est ainda longe de prestar comunidade rural, localizada ao nvel da freguesia ou da aldeia, a atenoque desde h muito lhe presta a antropologia7. Tanto mais necessrio setorna, portanto, reflectir sobre o contributo que os estudos de comunidadepodem trazer para uma melhor compreenso da comunidade rural. Estanecessidade afigura-se ainda mais premente quando se considera a imagemcorrente da comunidade rural, em particular da comunidade rural doNoroeste, entre historiadores.

    Na verdade, apesar do reconhecimento das clivagens no interior da comu-nidade rural determinadas pelo acesso diferenciado quer propriedade quer explorao da terra, o facto que esse reconhecimento compatvel comuma viso igualitria da comunidade camponesa. Hlder Fonseca refere aexistncia no Minho de um campesinato tendencialmente igualitrio, nive-lado pelos pequenos e mdios agricultores e 'organizado' em comunidades

    3 Ver a este respeito as consideraes que faz a propsito da definio de mercado nacional(cf. Justino s. d., vol. II: 244-248, 261-262).

    4 Ver, por exemplo, Amorim (1973; 1980). Uma abordagem mais abrangente dos fenme-nos demogrficos pode contudo encontrar-se em Alves (1986).

    5 Ver Leite (1983), Nunes e Feij (1990).6 Brando (1985 a, b, 1988), Dures (1986) e Rocha (1988).7 Vejam-se os exemplos recentes de Pina-Cabral (1989), 0'Neill (1984) e Brettell (1986). Do

    lado da histria veja-se, no entanto, o estudo de Alves (1986). 615

  • Maria de Ftima Brando

    rurais onde prevalecem fortes solidariedades (Fonseca, 1990: 231). Isto por-que, em sua opinio, os 'lavradores', isto , os camponeses agricultores[constituem] o elemento esmagador das comunidades rurais mais igualit-rias do Centro e Norte de Portugal, pois a presena de jornaleiros (campo-neses sem terra) pouco significativa (id.: 228-229). Em Villaverde Cabralno encontramos um juzo semelhante quanto ao peso relativo dos campo-neses sem terra, mas o certo que, ao fazer derivar a decomposio do cam-pesinato que se exprime ao longo do sculo xix pela proletarizao totalou parcial do campons pobre das alteraes ao regime da propriedadee herana da terra e da penetrao nos campos das relaes de produo capi-talistas (cf. 1976: 212-243), est implicitamente a pressupor uma comunidadetanto mais igualitria quanto menor for o referido processo de decomposi-o. Resta saber, no entanto, se este um pressuposto aderente realidadeconcreta da comunidade camponesa d