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O Mexicano - Jack London

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Text of O Mexicano - Jack London

  • Coleo Aventuras Grandiosas

    Jack London

    o mexicano

    Adaptao de Rodrigo Espinosa Cabral

    1 edio

    O_Mexicano.p65 20/6/2005, 15:541

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    Captulo 1

    Na JUNTA ningum conhecia sua histria. Era ao mesmo tempo um pe-queno mistrio e um grande patriota para seus CORRELIGIONRIOS. Quandoapareceu nos escritrios barulhentos e falantes, muitos pensaram que fosseum espio enviado por Diaz.

    Soy Felipe Rivera y deseo trabajar por la Revolucin.* disse emmeio ao rudo das mquinas de escrever e s conversas dos militantes.

    Os que estavam ao seu redor CESSARAM suas atividades, pararam defalar. Notando o silncio BRUSCO dos companheiros, os demais revolucionri-os tambm ficaram quietos e todos voltaram seus olhos para o EPICENTRO dosilncio: Felipe Rivera.

    Qualquer novato era visto com desconfiana naquele tempo de luta.Diaz havia fortalecido a represso e muitos revolucionrios estavam presosnos Estados Unidos. Outros tantos eram enfileirados contra paredes deADOBE e FUZILADOS.

    Naquele escritrio estava boa parte das pessoas que pensavam a revo-luo, trabalhando com idias, planos e sonhos. Quando viram o garoto, nolhe deram muito crdito. Parecia ter no mximo dezoito anos e seu corpo noera muito desenvolvido para a idade. Disse quem era e o que desejava edepois se manteve calado. Apenas esperava a resposta dos revolucionrioscom os msculos rijos, o rosto petrificado, os lbios fechados e o olhar frio.Essa postura e o silncio da sala fez Paulino Vera sentir seu estmago queimar.Havia algo muito forte naquele garoto. Algo que vinha de seu mago, atraves-sava seus olhos e invadia a sala inteira. Era difcil para Paulino Vera manter ocontato visual com aqueles olhos negros, venenosos. Era um olhar terrvel, deonde transbordava AMARGURA, contaminando quem o encarasse.

    Por curiosidade a senhora Sethby ergueu a vista e, por trs da mquinade escrever onde trabalhava, resolveu olhar para o desconhecido. Seus olhosse alinharam com os do novato e ela sentiu um arrepio na coluna. Algo

    JUNTA: reunio de pessoas com um objetivo especfico CORRELIGIONRIO: quem de uma mesma religio, partido ou pensamento CESSARAM: pararam, interromperam BRUSCO: rspido, inesperado EPICENTRO: ponto de maior intensidade em um fenmeno ADOBE: tijolo de argila crua FUZILADO: condenado morte por tiro de fuzil AMARGURA: mgoa, sofrimento

    * Sou Felipe Rivera e desejo trabalhar pela Revoluo.

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    INOMINVEL que a fez parar de datilografar, respirar fundo e reler o docu-mento que redigia para poder continuar.

    Sentindo um certo desconforto, Paulino olhou para Arellano e para Ra-mos. Precisava saber se os outros tambm estavam afetados com a presenado rapaz. Seus companheiros lhe devolveram o olhar e todos estavam INTRI-GADOS e apreensivos. Aquele rapaz magro trazia em sua pele morena todo omedo e o fascnio do desconhecido. Sua postura era diferente dos demaisrevolucionrios comuns com um dio MASSIFICADO TIRANIA de Diaz. Haviaum qu a mais em seus motivos, em seu olhar. Paulino Veras usou a impulsividadeque lhe era caracterstica para terminar com aquele silncio desnecessrio efazer com que a junta voltasse ao trabalho.

    Ento voc quer trabalhar pela revoluo. Pois muito bem. Pegueaquele balde, o pano e o sabo e comece a esfregar o assoalho. Este escrit-rio est muito sujo.

    Algumas pessoas riram, mas Felipe Rivera se manteve srio e perguntou: pela revoluo? Sim. pela revoluo. Limpe o cho, depois as janelas, o banheiro e

    tire o lixo. Essa ser a sua tarefa diria at receber novas instrues dissePaulino com muita seriedade.

    O desconhecido arremangou a camisa e ps-se a trabalhar. Em segun-dos a Junta voltava a ser barulhenta. Os dias foram passando e Felipe se mos-trava cada vez mais dedicado. Limpava e encerava o piso, removia o p, tiravao lixo, trocava as cinzas do fogo lenha, rachava madeira e a trazia at oescritrio, acendia o fogo, limpava vidraas e ia ao correio. As dependnciasda casa da Junta logo ganharam um novo aspecto, mais limpo e eficiente.Com isso as pessoas passaram a cuidar melhor de suas aparncias e algumasdelas aumentaram seu desempenho no trabalho, pois se sentiam mais motiva-das a trabalhar num ambiente limpo. Felipe notou que seu servio agradava atodos e, aps alguns meses, ousou perguntar:

    Posso dormir aqui? Eu sabia! Eu sabia! Tanta dedicao, no podia ser verdade. Ento esse

    o seu plano. Primeiro voc se INFILTRA na Junta. Trabalha duro algumas semanaspara ganhar a confiana de todos, mas nunca conta nada sobre sua vida e semantm calado. No quer fazer amigos. Depois voc pede para dormir aqui.

    INOMINVEL: que difcil ou impossvel de dar nome INTRIGADO: desconfiado, curioso MASSIFICADO: comum, padronizado, estereotipado TIRANIA: governo cruel, abusivo, injusto e institudo de forma ilegal INFILTRA: penetra, introduz

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    Dormir nas salas da Junta para na calada da noite vasculhar nossas gavetas e arm-rios. Ler documentos CONFIDENCIAIS, roubar planos, descobrir segredos estrat-gicos. Desvendar o esconderijo de nossos camaradas no interior do Mxico! Aresposta para seu pedido NO! disse Paulino Veras com irritao.

    Rivera apenas ouviu calado e no tocou mais no assunto. Foi ento queseus colegas da Junta comearam a se perguntar onde ser que Felipe vivia.Ningum sabia onde morava ou do que se sustentava uma vez que o trabalhona Junta era VOLUNTRIO. Arellano chegou a lhe dar dois dlares, mas o rapazrecusou. Paulino ento insistiu para que Felipe aceitasse, mas ele apenas disse:

    Yo trabajo por la Revolucin.*Era incrvel sua fora de vontade. Seus colegas tambm trabalhavam pela

    revoluo, mas tinham de comer e alimentar os filhos. Alm disso, a prpriarevoluo era muito DISPENDIOSA. Em alguns meses tudo ia bem, mas em ou-tros a escassez de armamentos, munio, alimentos e materiais de escritriodava a impresso de que o movimento revolucionrio iria falncia. O aluguelestava atrasado fazia dois meses e o proprietrio do imvel ameaava despejaros membros da junta. Como os revolucionrios ainda sonhavam com uma socie-dade justa, preferiam pagar o aluguel, a simplesmente CONFISCAR o imvel.

    A situao preocupava a todos e s foi resolvida quando o rapaz dasvassouras, do balde e do esfrego colocou na mesa da senhora May Sethbyos setenta dlares da dvida. Todos ficaram impressionados. Perguntas e supo-sies comearam a atravessar as salas da Junta. Curiosos, os militantes con-versavam entre si, sem jamais dirigirem suas dvidas diretamente ao rapaz:

    De onde vem seu dinheiro? Por que to quieto? Do que ser que se alimenta? Onde nasceu? Quem so seus parentes?Felipe Rivera continuava seu trabalho sem se importar com os

    FALATRIOS, sem saber que seu silncio e as centenas de opinies dos ou-tros sobre ele iam aos poucos fazendo dele uma espcie de MITO. Era como

    CONFIDENCIAL: secreto VOLUNTRIO: que age por vontade prpria, e no por obrigao DISPENDIOSA: cara, custosa CONFISCAR: apreender ou apossar-se de algo em nome do governo FALATRIO: maledicncia, burburinho MITO: pessoa ou acontecimento cuja biografia ou os fatos que a envolvem so

    exagerados pela imaginao popular

    * Eu trabalho pela Revoluo.

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    se as pessoas da Junta estivessem em um jogo cujo objetivo era desvendar omistrio andante chamado Felipe Rivera. Havia uma regra implcita: no per-guntar a Felipe a soluo do mistrio. verdade que alguns tentavam arrancardo rapaz algumas informaes, mas ele se mantinha calado, concentrado notrabalho, e seu silncio e sua seriedade acabavam fazendo com que seusentrevistadores desistissem de ABORD-LO. Muitos at ficavam com vergo-nha de IMPORTUNAR aquele trabalhador dedicado com questes FRVOLAS.

    Contudo, a cada nova faanha de Rivera, sua fama aumentava na Junta eas pessoas voltavam a falar dele com ALVOROO. Refaziam suas teorias, cria-vam novas anlises e debatiam muito. Certa vez a senhora Sethby se queixouque no havia selos para postar cerca de trezentas cartas. Eram documentosimportantes para a sustentao da revoluo: cartas para jornais, artigos pararevistas, pedidos de auxlio a pases estrangeiros, contatos sindicais, comuni-cao com bases no interior, com faces trabalhistas, com exilados...

    Paulino j havia vendido at o relgio de ouro que decorava a parede daJunta, um presente de seu av. Se as cartas no fossem remetidas a revoluoestaria ESTAGNADA. Rivera ouviu as lamrias, colocou seu chapu na cabea esaiu no meio da manh sem avisar ningum. Perto do final da tarde estava devolta. Trazia um pacote que colocou sobre a mesa da senhora Sethby. Era umMILHEIRO de selos. Emocionada, a secretria sentiu seus olhos midos e tevevontade de abraar o rapaz, mas no havia nele uma postura favorvel ao cari-nho. Seu rosto continuava duro e concentrado, sem sorriso. No havia orgulhoem sua expresso. No se vangloriava do feito e enquanto todos o olhavam comadmirao e espanto ele seguia para o canto, onde estavam os panos e o balde.

    Paulino e os outros comearam a conversar sobre o ocorrido: De onde vem esse dinheiro? perguntou Paulino. Aposto que o maldito dinheiro do prprio Diaz um dos homens

    respondeu com raiva. No faz sentido. Essas cartas vo prejudicar Diaz. Seria burrice dele

    pagar para que fossem enviadas retrucou Paulino.E assim, em todos os cantos da Junta, as pessoas elaboravam suas teorias: um PREDESTINADO. No passa de um louco com sorte, com a sorte dos loucos.

    ABORD-LO: aproximar-se para conversar com ele IMPORTUNAR: incomodar FRVOLA: sem valor, ftil ALVOROO: confuso, agitao ESTAGNADA: parada, imobilizada MILHEIRO: conjunto de