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  • O MULTICULTURALISMO RELIGIOSO NO CONTEXTO EUROPEU:

    UMA BREVE APROXIMAO AO DIREITO CONSTITUCIONAL E INTERNACIONAL

    Rui Marques

    Inspector tributrio

    Ex-Membro do Conselho Econmico e Social

    Paulo Marques

    Docente Convidado da Faculdade de Direito de

    Lisboa

    No haver paz entre as naes, se no existir paz entre as

    religies. No haver paz entre as religies, se no existir dilogo

    entre as religies. No haver dilogo entre as religies, se no

    existirem padres ticos globais

    HANS KNG, in Religies do mundo: em busca dos pontos

    comuns

    I INTRODUO

    O nosso tempo , espantosamente, o da abolio das fronteiras pelo fenmeno da

    globalizao actual e irreversvel. Tudo aqui e agora. A parte integra o todo, numa viso

    universalizante. Mas tambm o do reacendimento de velhos problemas e inquietudes: o

    fundamentalismo religioso e o terrorismo, de mos dadas; as migraes e os refugiados; o

    inverno demogrfico. E em que, bastas vezes, os argumentos em torno de direitos humanos

    so gradualmente substitudos por outros que reverenciam a ordem pblica.

    A Europa parece tardar em reafirmar a sua tradicional cultura identitria, forjada

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    durante sculos, em boa medida, pela epopeia dos descobrimentos portugueses1, pioneira da

    globalizao.

    As questes religiosas supem sempre aproximaes e diferenas2, prprias do novo

    encontro de civilizaes e com amplas implicaes jurdico-constitucionais e internacionais.

    Ou no se tratasse o fenmeno religioso de uma das manifestaes de relacionamento social

    entre os cidados. Como refere DIOGO FREITAS DO AMARAL A religio uma das

    dimenses em que a sociedade civil se projecta, enquadrada em igrejas e comunidades de f.

    No admira que os fiis de cada religio tendam a reflectir os valores e a cultura dessa religio

    os valores e a cultura dessa religio nas diferentes actividades que empreendem. Porque

    difcil, seno impossvel, dissociar esse quadro de valores religiosos das pessoas que neles

    acreditam e que, acreditando, agem em conformidade com esses valores3.

    Os mais recentes acontecimentos na Europa, com a perpetrao de actos de

    terrorismo em alegado nome da religio, no podem deixar de nos interrogar sobre o

    multiculturalismo (religioso, mas tambm cultural) no contexto da vinculatividade tica

    plasmada no nosso Direito Constitucional e Internacional. Ultima ratio, luz da concepo

    1 Os descobrimentos martimos portugueses, em boa medida, foram desenvolvidos pelas

    ordens religiosas, as quais almejavam levar a f crist aos povos do Oriente. Acreditava-se que uma cruzada atacava e convertia os infiis em nome da Cristandade. Conforme relatava o cronista Gomes Eanes de Zurara, de entre as cinco razes por que o Infante D. Henrique foi movido de mandar buscar as terras da Guin foi o grande desejo de acrescentar a Santa F de Nosso Senhor Jesus Cristo, e trazer a ela todas as almas que se quisessem salvar (Crnica dos Descobrimentos e Conquita da Guin). A prpria fundao da nacionalidade est umbilicalmente ligada a factos religiosos, independentemente das diferentes verses dos historiadores nacionais (1139 Batalha de Ourique contra os Mouros; 1143 - Tratado de Zamora Conferncia de Paz entre D. Afonso Henriques e Afonso VII de Leo e Castela com a intermediao do Cardeal Guido de Vico; ou 1179 Reconhecimento da soberania portuguesa pelo Papa Alexandre III).

    Na Idade Moderna, a Europa marcada por uma identificao entre Estado e religio, e entre a comunidade poltica e a comunidade religiosa (Estado confessional). Umas vezes com o predomnio do poder religioso (teocracia) e em outras do poder secular (cesaropapismo). Consequentemente, no livre de desavenas.

    2 Cfr. MOURA, Vasco Graa, A Identidade Cultural Europeia, Lisboa, Fundao Francisco Manuel dos Santos, 2013, p. 13.

    3 AMARAL, Diogo Freitas do Uma Introduo Poltica, Lisboa, Bertrand Editora, 2014, p. 303.

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    de Direitos Humanos a que estamos adstritos, porque o quisemos (artigo 16., n. 2, da

    Constituio)4.

    Ancorados que estamos no princpio da separao entre o Estado e as Igrejas5 e na

    liberdade de conscincia6, de religio e de culto7, traves mestras impostergveis do nosso

    regime constitucional, torna-se mister questionar em que medida podero ser exercidas em

    Portugal a liberdade religiosa8 e a identidade cultural. Ou se tal poder, no limite,

    comportar uma renncia, legalmente no consentida, aos princpios estruturantes do nosso

    prprio Estado, de Direito Democrtico.

    No fundo, a possibilidade de um ordenamento jurdico (por exemplo, a Shara, lei

    muulmana)9 servir como fonte para outro sistema (neste caso o portugus, encimado pela

    Constituio), quando ambos se vm a si mesmos como uma totalidade, questo primacial

    entre mos. Por ocasio da aplicao das normas, por exemplo, do Direito Islmico, pelos

    4 Os preceitos constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem ser

    interpretados e integrados de harmonia com a Declarao Universal dos Direitos do Homem (artigo 16., n. 2, da Constituio).

    5 No reinado de D. Afonso III (O Bolonhs) ficou j vincada a separao entre o Estado e a Igreja. Disso mesmo, d-nos conta DIOGO FREITAS DO AMARAL, ao referir que o rei de Portugal, no leito da morte, ainda consegue reafirmar em voz alta o princpio da separao entre a Igreja e o Estado, declarando ao bispo e ao seu confessor: Obedeo ao Papa, mas ressalvo os direitos do Reino, dos meus filhos e dos meus vassalos.

    Como se v, houve cedncia, mas ela no foi total. O cristo obedeceu ao Papa, mas o rei ressalvou os direitos do Reino: a Deus o que de Deus, a Csar o que de Csar. Foi, pela ltima vez, o Homem de Estado que falou, e se agigantou (D. Afonso III, O Bolonhs Um Grande Homem de Estado, Bertrand Editora, Lisboa, 2015, pp. 194-195).

    6 Erasmo de Roterdo, clebre humanista neerlands que, pela primeira vez, em 1517, na sua obra Querela pacis [Em defesa da paz], nos fala no conceito de objeco de conscincia.

    7 Foi no sculo III a.C, no Imprio Muria da ndia, que a expresso liberdade de Culto Religioso comeou a ser referida.

    8 A liberdade religiosa insere-se na liberdade de escolha, respeitando-se os valores religiosos, morais ou mesmo ticos de cada um e, enquanto dimenso do princpio da dignidade da pessoa humana, proibindo a violao da conscincia dos cidados, sempre que a mesma colida com a lei vigente.

    9 A Shara (caminho para o bebedouro9) a lei sagrada dos muulmanos. Refira-se que o direito comum dos muulmanos, at hoje, no foi codificado (ao contrrio do direito cannico romano). Trata-se de um dos sistemas legais mais difundidos no Mundo, a par dos sistemas anglo-saxnico (common law) e romano-germnico (civil law).

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    tribunais portugueses ou do reconhecimento e execuo por estes das decises de tribunais

    estrangeiros em que tenham sido aplicadas tais normas.

    Contrapostos os sistemas jurdicos, relembramos que, tendencialmente, ambos se

    vm a si mesmos como uma totalidade. Em particular, no que tange s relaes entre o

    Estado, o Direito e a Religio10, bem como na seara dos direitos fundamentais. Sendo que,

    nesta ltima, cabe o sopesar dos direitos pessoais o melhor ser dizer pessoalssimos, ou

    no fosse a liberdade de conscincia, de religio e de culto um ltimo reduto das

    liberdades11. Onde se inscreve o direito objeco de conscincia.12. Apartando-nos dos

    argumentos de ordem pblica (segurana, tranquilidade, salubridade) que, frequentemente,

    temos visto impor-se na discusso.

    10 Para J. OLIVEIRA ASCENSO, a ordem religiosa uma ordem normativa que assenta num

    sentido de transcendncia. Ordena as condutas tendo em vista a posio do homem perante Deus (O Direito Introduo e Teoria Geral, Coimbra, Almedina, 2008, p. 41)

    11 Por exemplo, o Decreto-Lei n. 253/2009, de 23 de Setembro, veio introduzir a regulamentao da assistncia espiritual e religiosa nos hospitais e outros estabelecimentos do Servio Nacional de Sade (SNS).

    12 A objeco de conscincia pode ser definida como sendo a recusa em cumprir uma imposio legal (conduta juridicamente exigvel), com fundamento no facto das consequncias do seu cumprimento colidir com as convices religiosas, morais ou ideolgicas do indivduo. Nas palavras de PAULO PULIDO ADRAGO e de ANABELA COSTA LEO, A objeco de conscincia traduz a recusa em cumprir um dever jurdico-positivo fundada nos ditames da conscincia do indivduo. O que no significa, como veremos, que haja incompatibilidade entre Direito e conscincia pois, bem ao invs, o Direito protege a liberdade de conscincia como dimenso da autonomia individual e da dignidade humana (O direito objeco de conscincia por parte do Chefe de Estado, em questo, Estudos de Homenagem ao Prof. Doutor Jorge Miranda, Volume III, Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Coimbra Editora, Coimbra, 2012, p. 135).

    O Tribunal Constitucional entendeu que O dever de servio cvico como sucedneo ou substituto do servio militar armado relativamente aos obj