O NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO: POR .surgimento de um novo constitucionalismo, que rompe

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Derecho y Cambio Social

O NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO:

POR UMA EPISTEMOLOGIA DO SER A PARTIR DA

AMRICA-LATINA (SUL)

Heleno Florindo da Silva1

Alosio Krohling2

Fecha de publicacin: 01/10/2015

SUMRIO: Introduo. 1. Pluralismo epistemolgico e o

direito fundamental diversidade: uma anlise a partir do Sul

(Amrica Latina). 2. O novo constitucionalismo latino-

americano: em busca de instrumentos para uma nova

epistemologia do ser. Concluso.

RESUMO: A Amrica Latina no decorrer das ltimas dcadas

vem, sistematicamente, passando por inmeras transformaes

constitucionais que, em seu contexto global, so frutos de

movimentos sociais de luta, ou seja, por debates filosficos,

polticos e socioculturais, acerca da necessidade de

transformao de sua realidade perifrica, de modernidade

1 Doutorando em Direitos e Garantias Fundamentais pela Faculdade de Direito de Vitria

(FDV). Mestre em Direito em Direitos e Garantias Fundamentais pela Faculdade de Direito de

Vitria (FDV). Especialista em Direito Pblico pelo Centro Universitrio Newton Paiva.

Bacharel em Direito pelo Centro Universitrio Newton Paiva. Membro do Grupo de Pesquisa

Estado, Democracia Constitucional e Direitos Fundamentais da Faculdade de Direito de

Vitria (FDV). Membro Diretor da Academia Brasileira de Direitos Humanos (ABDH).

Professor no Curso de Direito da Faculdade So Geraldo (FSG). Coordenador do Ncleo de

Pesquisa do Curso de Direito da Faculdade So Geraldo (FSG).

2 Ps-doutor em Filosofia Poltica e Cincias Sociais pela Pontifcia Universidade Catlica de

So Paulo PUC/SP. Doutor e Filosofia pelo Instituto Santo Anselmo Roma, Itlia,

reconhecido como titulao de PH.D. Filosofia pela Universidade Federal do Esprito Santo

UFES. Mestre em Teologia e Filosofia pela Universidade Gregoriana Roma, Itlia, e em

Sociologia Poltica pela Escola de Sociologia e Poltica de So Paulo. Graduado e Filosofia

pela Faculdade Anchieta So Paulo, e em Cincias Sociais pela Loyola University, Chicago,

USA. Professor permanente do Curso de Ps Graduao Estrito Senso (Mestrado e

Doutorado) da Faculdade de Direito de Vitria (FDV). Pesquisador e Membro do Grupo de

Pesquisa Mltiplo Retrico e Dialtico: tica, interculturalidade e direitos humanos

fundamentais na histria das ideias jurdicas no Brasil.

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tardia, enquanto construo poltica, jurdica e social da

Modernidade. A partir dessas premissas, o start desse cenrio de

rompimento com o paradigma Moderno de construo scio-

poltica do Estado, pode ser visto na Constituio Brasileira de

1988 e seu pice com a Constituio Boliviana de 2009.

Portanto, desse contexto de busca por transformao

paradigmtica, atravs de dilogos cada vez mais plurais, que o

presente trabalho buscar demonstrar como uma epistemologia

latino-americana, construda, nos dizeres de Boaventura de S.

Santos, no Sul e pelo Sul Global, pode ser compreendida como

instrumento de transformao constitucional de uma sociedade.

Todas essas discusses inauguram a possibilidade de uma nova

perspectiva para os tericos do direito que se preocupam com a

construo poltica, social e, sobretudo, filosfica do Estado e

das Constituies na Modernidade. Assim, fala-se no

surgimento de um novo constitucionalismo, que rompe com as

Teorias modernas sobre o Estado, bem como sobre a

Constituio, um constitucionalismo de emancipao social, de

resgate, de libertao, de desencobrimento de todos aqueles que

foram, violentamente, excludos e estigmatizados pela

construo da Periferia pelo Centro moderno. Portanto, ser a

partir de uma racionalidade latino-americana, verdadeira

epistemologia do sul, que buscaremos discutir os desdobramento

e os fundamentos do que hoje se convencionou chamar de Novo

Constitucionalismo Transformador, Democrtico, Latino-

Americano.

PALAVRAS-CHAVE: Modernidade; Novo

Constitucionalismo Latino-Americano; Epistemologia do Sul.

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INTRODUO

Vivenciamos nas ltimas dcadas um perodo de grandes mudanas, que

nos obriga, dentre outras coisas, a realizar um empenho neste novo milnio

na busca por tomarmos parte desde cenrio de grande mundializao

neoliberal, mas, contudo, sem deixarmos de estar conscientes, bem como

de agirmos no mbito cultural da diversidade e da legitimidade local,

realidades nsitas a um mundo totalmente interligado.

um momento, portanto, que nos obriga repensar a realidade, a fim

de que seja possvel construirmos um projeto social e poltico contra

hegemnico (a partir do Sul Global), capaz de reordenar as relaes

tradicionais entre Estado e Sociedade, ou seja, entre uma tica

universalizante e um relativismo cultural, entre uma razo prtica e uma

filosofia do sujeito.

Nestes termos, possvel perceber que deste contexto atual,

multifacetado, que surge a necessidade de elaborao de um dilogo entre

um discurso de integrao e um discurso de diversidade, ou seja, entre as

formas tradicionais da modernidade e as experincias diversas, plurais,

heterogneas, no-formais, de conhecimento, de modo de vida, de

jurisdio.

Ressalta-se, que a partir dessas premissas acerca da realidade atual,

fundamental destacar, tambm, que na presente contemporaneidade, as

novas formas plurais e emancipatrias, de matriz contra hegemnica, de

legitimao social, que veem surgindo de amplos e diversos movimentos

sociais, cujo objetivo est na transfigurao do Estado e de sua

Constituio, elementos de efetivao e distribuio representativa do

poder do Estado, como se verifica, conforme se ver abaixo, nas discusses

acerca do novo constitucionalismo latino-americano.

A partir de ento, apoiados na viso metodolgica do mltiplo

dialtico3, o presente trabalho ser desenvolvido com o objetivo para

apresentar resposta ao presente problema de pesquisa: possvel

percebermos, atravs da anlise do novo constitucionalismo latino-

americano e do direito fundamental diversidade, uma nova epistemologia

do ser, construda a partir do Sul e pelo Sul Global, compreendida

3 Para um aprofundamento acerca do mtodo do Mltiplo Dialtico, ver KROHLING, Alosio.

Dialtica e Direitos Humanos mltiplo dialtico: da Grcia Contemporaneidade.

Curitiba: Juru Editora, 2014.

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como instrumento de transformao scio-poltica e constitucional de uma

sociedade?

A partir de ento, na primeira parte do presente trabalho, buscaremos

analisar o fenmeno daquilo que se entende como pluralismo

epistemolgico, bem como a necessidade de se reconhecer um direito

fundamental diversidade, o que ser feito a partir do sul global, sobretudo

e principalmente, do contexto poltico, social e cultural, da Amrica Latina.

J na segunda parte, analisaremos as novas tendncias constitucionais

latino-americanas e, em especial, o que se convencionou chamar de novo

constitucionalismo latino-americano, para, com isso, tentarmos extrair

dessa nova perspectiva, alguns instrumentos para a construo de uma nova

epistemologia do ser.

Portanto, com o presente trabalho buscamos contribuir para o atual

debate poltico, social e cultural, acerca da pluralidade, da diversidade e da

necessidade de convivncia entre seres completamente diferentes a fim de

se alcanar o bem comum, desenvolvendo um olhar mltiplo dialtico a

partir da Amrica Latina, de sua diversidade e de seus recentes movimentos

constitucionais.

1. PLURALISMO EPISTEMOLGICO E O DIREITO FUNDAMENTAL DIVERSIDADE: Uma Anlise a partir do

Sul4 (Amrica Latina).

a partir desse cenrio, conforme destacado acima, de verdadeira crise, um

perodo de grandes mudanas, perodo de verdadeira crise civilizatria5,

fruto daquilo que a modernidade imps ao mundo, como nico padro

poltico, econmico, social e cultural possvel, que necessariamente deveria

ser partilhado por todos, e que caminha para autodestruio, que partiremos

para anlise do direito fundamental diversidade a partir do contexto

poltico-social latino-americano.

4 Sob essa perspectiva, Boaventura de Sousa Santos afirmar a necessidade que enfrentamos

hoje, no contexto global, de aprender com o sul, haja vista ser constitudo de pases, sem sua

grande maioria, que sofreram e ainda sofrem as mazelas de 500 anos de desenvolvimento do

capitalismo global do colonizador, como nica forma de sustentao da modernidade europeia,

concluindo, a partir da, que: O primeiro passo aprender com o Sul. O sul se constitui de

povos, pases e naes que mais tm sofrido com o desenvolvimento do capitalismo global,

porque se mantiveram como pases subdesenvolvidos, em desenvolvimento permanente, sem

chegar nunca ao marco dos pases desenvolvidos. E por isso, aprender com o Sul signifi