Click here to load reader

O Poeta é um Artesão: A Arte da Escrita nas Crónicas de · PDF file · 2018-02-18A Arte da Escrita nas Crónicas de Eugénio ... O poeta e tradutor norte-americano Ezra Pound afirmou,

  • View
    213

  • Download
    1

Embed Size (px)

Text of O Poeta é um Artesão: A Arte da Escrita nas Crónicas de · PDF...

  • O Poeta um Arteso:

    A Arte da Escrita nas Crnicas de Eugnio de Andrade1

    Joo de Mancelos

    (Universidade Catlica Portuguesa)

    Palavras-chave: Eugnio de Andrade, crnica, criao literria, metapotica

    Keywords: Eugnio de Andrade, chronicle, literary creation, metapoetics

    1. O cronista, esse gato introspetivo

    Dizia Henry David Thoreau (1817-1862), um dos fundadores do transcendentalismo

    norte-americano, que um poeta contempla o seu estado de esprito com a mesma ateno que

    um gato reserva a um rato (Thoreau, 1962: 251). Por certo que, nas guas de um poema, um

    autor espelha experincias autobiogrficas, pensamentos sobre a poca e o pas onde vive,

    meditaes metapoticas, etc. Neste processo intervm a imaginao e o fingimento, misturam-

    se a mentira e a verdade, combina-se a vida e o maior do que a vida, ao abrigo da chamada

    licena potica.

    J na crnica existe uma maior preocupao com a verdade biogrfica e histrica. Nessa

    aceo, a imagem do poeta reflete-se porventura com mais nitidez e veracidade nesse gnero

    de texto, tantas vezes injustamente relegado para um segundo plano nas letras, pela sua forma

    breve e compromisso com o efmero. Espao de opinio e desabafo por excelncia, registo

    ocasional do quotidiano ou reflexo aturada sobre um acontecimento, fotografia mental de um

    estado de esprito ou resenha biogrfica a crnica um ba ecltico onde tudo parece caber,

    sem nunca transbordar.

    semelhana de Almeida Garrett (1799-1854), Ea de Queirs (1845-1900), Miguel

    Torga (1907-1995) ou Antnio Lobo Antunes (1942), apenas para citar alguns escritores,

    tambm Eugnio de Andrade (1923-2005) cultivou o gnero da crnica. Os seus textos,

    frequentemente dispersos pela imprensa, surgem coligidos em trs volumes, que mereceram

    sucessivas reedies, revistas e acrescentadas: Sombra da Memria (1993), Rosto Precrio

    (1995), Os Afluentes do Silncio (1997).

    Concisamente, Maria Alzira Seixo agrupa o contedo destes livros em textos de

    1 Mancelos, Joo de. O poeta um arteso: A arte da escrita nas crnicas de Eugnio de Andrade. Forma Breve (Centro de Lnguas e Culturas, Universidade de Aveiro) 8 (2010): 109-121. ISSN: 1645-927X.

  • 2

    carcter potico, reflexes sobre a escrita e respostas a entrevistas (Seixo, 2007: 20). sobre

    esse segundo tema metapotica que incide este artigo, procurando analisar, nas crnicas

    e em discursos de aceitao de prmios, a viso de Eugnio sobre o ato criativo. Nas prximas

    pginas, viso responder a uma srie de questes relevantes: por que razo equiparava o escritor

    a um artfice? Valorizava mais a epifania ou o trabalho rduo? Como se relacionou com os poetas

    influentes? Quais as principais caractersticas estilsticas da sua poesia? Que proximidade

    estabelece com a msica? Onde buscou matria para acender o fogo da poesia?

    Para tanto, recorro a excertos significativos das crnicas de Eugnio e s minhas

    opinies, escoradas com testemunhos de crticos abalizados nos estudos eugenianos. O meu

    objetivo evidenciar algumas linhas fundamentais para a compreenso do fazer potico num

    dos mais importantes escritores da poca contempornea.

    2. Uma conscincia artesanal: O poeta como artfice

    Ao longo dos sculos, homens e mulheres de letras procuraram, com imaginao e

    graa, comparaes para o trabalho esforado do escritor. Por exemplo, a poetisa Emily

    Dickinson (1830-1886), em A Spider Sewed at Night, cotejou o artista a uma aranha, pois

    ambos urdem laboriosamente os seus textos, com cuidado e desvelo (Dickinson, 2003: 99).

    Similarmente, o bardo Walt Whitman (1819-1892) assumiu-se como um aracndeo persistente

    e solitrio (Whitman, 1986: 463). Outros autores preferiram comparar o poeta a um agricultor

    que remexe o hmus, de sol a sol: Miguel Torga (1907-1995), no poema A Baco, afirma Vou

    erguendo o meu hino / Como levanta a enxada o cavador (Torga, 2000: 244-245), e o Prmio

    Nobel irlands Seamus Heaney (1939), tambm descendente de agricultores, argumenta:

    Between my finger and my thumb / The squat pen rests. / Ill dig with it (Heaney, 1990: 2).

    Eugnio evoca diversas vezes, nos poemas e nas crnicas, a imagem do escritor/artfice,

    como revela neste passo, includo no livro Sombra da Memria (1993):

    () poeta como arteso, algum que, com trabalho e pacincia, furta as palavras usura do tempo e lhes instaura uma nova ordem, lhes comunica uma energia capaz de as fazer resistir ao confronto com o mundo; tal como faz o oleiro com o barro, ou o ferreiro com o ferro; s que o material do poeta mais complexo e delicado. Esta conscincia artesanal, e onde queria chegar, a minha, e nunca tive outra. (Andrade, 1993: 44)

    Agrada-me esta imagem do poeta, pois valoriza o trabalho, em vez da joyciana epifania,

    sujeita aos caprichos das musas como tantos escritores imberbes preferem, por ser menos

  • 3

    custoso. Na era da tecnologia, marcada pela produo em srie, a figura do artfice ou do

    pedreiro, como foi o av de Eugnio (Ferreira, 2004: 61-62) evoca, por contraste, um labor

    paciente e carinhoso. Ao mesmo tempo, remete para a tcnica, isto , a arte, o saber feito de

    experincia e de aprendizagem, a que nenhum grande poeta alheio.

    Eugnio afirmou, claramente, em Teoria do Verso que de rojo no h poesia

    (Andrade, 2005: 494). Na mesma linha, o breve poema Conselho ensina a arte de saber

    aguardar, pois os poemas necessitam de tempo para amadurecer:

    S paciente; espera que a palavra amadurea e se desprenda como um fruto ao passar o vento que a merea. (ibid.: 41)

    O rigor e transparncia da poesia eugeniana testemunham e resultam desse esforo

    aturado, ofcio de pacincia, trabalho de constante reescrita, rumo perfeio possvel do verso.

    3. Silabas que vm de longe: Influncias e intertextualidade

    Eugnio foi um dos escritores portugueses contemporneos mais permeveis

    influncia de autores nacionais e estrangeiros, de ontem e de hoje. As primcias da produo

    literria eugeniana revelam, sobretudo, a presena de autores da Antiguidade Clssica, como

    Homero (sc. IX a.C.) ou Virglio (70-19 a.C.) (Pereira, 2005: 263-271). A estas vozes longnquas,

    que o portugus escutou com invulgar ateno, juntam-se, paulatinamente, outras, numa

    polifonia que abarca desde os trovadores galaico-portugueses a Fernando Pessoa (1888-1935);

    de William Shakespeare (1564-1616) a Dylan Thomas (1914-1953), entre os ingleses; de Herman

    Melville (1819-1891) ao modernista e. e. cummings (1894-1962), na outra margem do Oceano

    Atlntico; de Li Bai (701-762) a Matsuo Bash (1644-1694), no oriente longnquo (Mancelos,

    2009: 39).

    Eugnio nunca se escusou a admitir as marcas profundas que os autores referidos

    deixaram na sua obra, como regista em Palavras no Fundo:

    () sempre estive atento a esse marulho obscuro de uma cultura potica com vrios sculos e que, na vertente a que me sinto vinculado, tem por nomes mais altos Pro Meogo, Cames, Cesrio, Pessanha e Pessoa. Apesar da minha memria ser por demais precria para as circunstncias que me levaram a dar expresso a certas emoes, ou certas vises, parece-me estarmos aqui em presena do que ngel Crespo, a propsito do meu trabalho, chamou amor como conhecimento. Haver outra maneira de penetrar no obscuro

  • 4

    domnio da poesia? (Andrade, 1993: 119)

    A bagagem literria deste poeta notvel, sobretudo por resultar, mais do que de uma

    aprendizagem formal, de uma paixo autodidata. Eugnio partiu em busca dos escritores

    cannicos ou desconhecidos, por vezes em bibliotecas, onde com diligncia copiou os textos de

    Fernando Pessoa, por exemplo; noutras ocasies, viajou, para conversar com autores,

    principalmente de Espanha (Saraiva, 1995: 20-23). De todos, Eugnio colheu versos e

    influncias, como uma gralha que, com os despojos mais eclticos e luminosos, arquiteta o seu

    lar.

    O poeta beiro manifestou a sua estima literria por esses autores fortes (Bloom,

    1975: 12), e prestou-lhe tributo da forma mais perfeita: invocando-os na sua escrita. Basta abrir

    as pginas de Homenagens e Outros Epitfios (1993), para ler os elogios, encmios, canes,

    requiens, etc., elucidativos da abrangncia da cultura literria de Eugnio. So exemplos

    inventivos de intertextualidade endoliterria, quase sempre explcita, um conceito que o poeta

    define neste passo da crnica Palavras Menores para um Escritor Maior:

    Slabas que vm de longe, de to longe que nelas ressoam obscuramente os primeiros balbucios de uma tribo, de uma civilizao. Pessoa diz isto admiravelmente quando afirma que deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa onde se note que existiu Homero. (Andrade, 1997: 78)

    4. Uma apologia do desprendimento: A conteno

    O poeta e tradutor norte-americano Ezra Pound afirmou, em ABC of Reading, que a

    grande literatura simplesmente linguagem carregada, ao mximo, de sentido (Pound, 1987:

    28). Essa plurissignificao de um texto literrio no implica longos poemas, nem envolve a

    superfluidade de artifcios estilsticos e retricos. Pelo contrrio, os sentidos florescem mais

    livres e frteis no despojamento que privilegia a palavra bem escolhida, o verso certo, a msica

    perfeita, o rigor da transparncia (Scoles, 2003: 800).

    Tal implica um laborioso trabalho de seleo, poda e reescrita, para que o texto atinja a

    sua plenitude, despindo-se de todo o excesso. Neste mbito, a obra de Eugnio, feita de poemas

    breves e versos curtos, recorda muitas vezes fragmentos

Search related