O PROBLEMA DA OBRIGA‡ƒO POLTICA EM THOMAS HOBBES .Thomas Hobbes. Existem duas correntes interpretativas

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE DARCY

RIBEIRO - UENF

TLIO MELLO TEIXEIRA

O PROBLEMA DA OBRIGAO POLTICA EM THOMAS HOBBES

CAMPOS DOS GOYTACAZES - RJ

OUTUBRO 2010

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TLIO MELLO TEIXEIRA

O PROBLEMA DA OBRIGAO POLTICA EM THOMAS HOBBES

Dissertao apresentada ao Centro de Cincias

do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, como parte das exigncias para a obteno do ttulo de mestre em Cognio e Linguagem.

Orientador: Professor Dr. Jlio Csar Ramos Esteves

CAMPOS DOS GOYTACAZES RJ OUTUBRO - 2010

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O PROBLEMA DA OBRIGAO POLTICA EM THOMAS

HOBBES

TLIO MELLO TEIXEIRA

Dissertao apresentada UENF como parte das

exigncias para a concluso do curso de Ps-Graduao:

Cognio e Linguagem.

Aprovado em: ______/______/______.

COMISSO EXAMINADORA: ______________________________________________________________________ Professor e Orientador Dr. Jlio Csar Ramos Esteves (UENF - Campos)

______________________________________________________________________

Professor Dr. Giovanne do Nascimento (UERJ Cabo Frio ) ______________________________________________________________________ Professor Dr. Jos Glauco Ribeiro Tostes (UENF - Campos)

______________________________________________________________________ Professor Dr. Leandro Garcia Pinho (UENF - Campos)

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RESUMO O tema central desta dissertao o problema do fundamento da obrigao poltica

dos sditos relativamente ao soberano, segundo Thomas Hobbes. Desse modo, em primeiro

lugar, buscamos expor em suas linhas gerais duas correntes de interpretao opostas

prevalecentes na atualidade, a saber, a interpretao secularista, de um lado, e a interpretao

teolgica, de outro lado. De acordo com a primeira, o fundamento da obrigao por parte dos

sditos estaria no seu interesse prprio em conformidade com princpios puramente

prudenciais, segundo os quais seria melhor para cada sdito renunciar liberdade ilimitada

caracterstica do estado de natureza em troca da garantia da preservao da prpria vida no

Estado absoluto. Desse modo, segundo os secularistas, Hobbes seria o fundador da filosofia

poltica moderna, da moderna teoria do contrato social baseado num consenso por parte dos

indivduos. De acordo com a interpretao teolgica, Hobbes no aceitaria que o mero apelo

ao interesse prprio racional por parte dos sditos fosse suficiente para dar conta da

vinculao dos sditos ao soberano, o que ficaria claro no famoso problema do carona,

segundo o qual poderia estar no interesse de pelo menos alguns sditos simplesmente fingir

terem entrado no pacto social. Assim, de acordo com a interpretao teolgica, Hobbes teria

introduzido elementos da filosofia poltica tradicional e recorrido ao conceito de fundamento

divino do Estado, de modo que a obrigao poltica seria vista no como algo de ordem

meramente prudencial, mas como uma obrigao moral, pois a autoridade do Estado na Terra

seria sucednea da autoridade de Deus no Cu. Em segundo lugar, uma vez expostas essas

correntes de interpretao, buscamos tomar posio a favor da corrente secularista, rejeitando

a incorporao de elementos advindos da f como elos da submisso e fundamento da

renncia liberdade ilimitada por parte dos sditos.

Palavras-chave: Estado de natureza, obrigao poltica e Estado.

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ABSTRACT

The main topic of this dissertation is the problem of the foundations of the political

obligation of the subjects, taking into account the sovereign, according to Thomas Hobbes.

This said, in the first place, we tried to expose in its general aspects two different lines of

thought with opposed interpretation prevailing nowadays: the secularist interpretation, on one

side, and the theological interpretation, on the other side. According to the first one, the

foundations of the obligation from the subjects part would be in its own interest in

compliance with purely prudential principles, according to which it would be better for each

subject to renounce its unlimited freedom, which is characteristic of the state of nature, in

exchange of the preservation of its own life in the absolute State. This said, according to the

secularists, Hobbes can be considered the founder of the modern political philosophy, the

modern theory of the social contract based in a consensus by the individuals. According to the

theological interpretation, Hobbes would not accept that the mere appeal to the subjects own

interest would be enough to secure the linking of the subjects to the sovereign, which would

be made clear in the famous problem of the free-rider, according to which could be the

interest of at least a few subjects to pretend getting in the social pact. This said, according to

the theological interpretation, Hobbes had introduced elements from the traditional political

philosophy and appealed to the concept of the divine foundation of the State, in such way that

the political obligation would not be seen as something of purely prudential order, but as a

moral obligation, for the State authority in the Earth would be succeeding Gods authority in

Heaven. Second, once exposed these lines of interpretation, we looked to take position in

favor of the secularist interpretation, rejecting the incorporation of elements resulting from

faith as links of submission and foundation of the renunciation of unlimited freedom by the

subjects.

Key-words: State of nature, political obligation and State

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SUMRIO INTRODUO ............................................................................ 7 CAPTULO 1 A TEORIA DA OBRIGAO POLTICA .............11

1.0 O Problema da Filosofia Poltica Moderna...............11 1.1 Hobbes e o Seu Tempo...........................................15 1.2 O Estado de Natureza ............................................21 1.3 As Leis de Natureza ..............................................25 1.4 O Pacto Social .......................................................31 1.5 O Contrato Social ..................................................34

CAPTULO 2 - A FILOSOFIA POLTICA ...................................41 2.0 A Influncia da Cincia Moderna na Filosofia de

Hobbes......................................................................42 2.1 As Causas Primrias e seus Conseqentes:

Hobbes vs Aristteles ...............................................46 2.2 Dos Prazeres do Esprito e Bens Visveis ............ 52 2.3 O Governo..............................................................54 2.4 O Estado Absoluto .................................................58

2.4.1 - A Religio...............................................................59 CAPTULO 3 AS LEIS CIVIS ....................................................63

3.0 Das Leis Naturais e o Direito .........................................63

3.1 O Direito Positivo, as Leis Civis e a Obedincia....65

CONCLUSO .............................................................................. 73 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ........................................... 75

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INTRODUO

Nesta dissertao, procuramos discutir a obrigao poltica na filosofia poltica de

Thomas Hobbes. Existem duas correntes interpretativas e incompatveis referentes ao

fundamento e fonte da obedincia dos homens ao Estado. Ambas as escolas de pensamento

diferem-se pelo cabedal de conhecimento atribudo ou negado aos elementos jusnaturalistas e

teolgicos como a essncia da submisso dos sditos.

Os secularistas David Gauthier, Michael Oakeshott, Carl Schmit e Leo Strauss

afirmam no existir uma motivao divina para o ato de submisso dos homens tutela do

Leviat. Negam a possibilidade de legitimidade divina do poder. Os teolgicos A. E. Taylor,

F. C. Hood, Howard Warrender e Thamy Pogrebinschi creem na fora das leis divinas,

orientando os indivduos a serem governados. Deus e os conceitos sagrados so fundamentais

na compreenso da filosofia de Hobbes.

Os laicos concentram no contrato social e nas leis civis a fonte da obrigao. Os

divinistas concordam que as leis divinas so a fonte da adeso ao amparo do Estado. Em

relao ao fundamento, os secularistas acreditam na capacidade deliberativa dos homens para

renunciar ao direito natural e no designio do soberano para criar as leis coercitivas; ento, a

vontade a chave da obrigao. Para os divinistas a fonte da obrigao o exerccio da

autoridade divina.

O antagonismo presente entre as interpretaes estabelecido pela diferena de

pensamento sobre a constituio do elo de obedincia entre os sditos e o Estado. Os tericos

laicos acreditam que o pacto social corresponde ao consentimento racional. O contrato social

e as leis civis estabelecem os direitos, os deveres e criam a organizao social,