o Retorno de Sherlock Holmes

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O RETORNO DE

SHERLOCK HOLMESArthur Conan Doyle

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ndiceA casa vazia ......................................................... 3 O construtor de Norwood ................................ 17 Os danarinos ................................................... 33 O ciclista solitrio ............................................. 51 A Escola do Priorado......................................... 65 Black Peter ........................................................ 87 Charles Augustus Milverton ........................... 102 Os seis bustos de Napoleo ........................... 113 Os trs estudantes .......................................... 127 O pincen dourado ........................................ 139 O atleta desaparecido .................................... 154 Abbey Grange ................................................. 168 A segunda mancha ......................................... 183 O Autor e Sua Obra ................................. 200

Compilado por Roberto B. Cappelletti Setembro, 20052

A CASA VAZIAFoi na primavera do ano de 1894 que toda a Londres estava interessada e o mundo espantado pelo assassinato do honorvel Ronald Adair, sob as circunstncias mais incomuns e inexplicveis. O pblico j tinha conhecimento de algumas particularidades desse crime que exorbitou da investigao policial, mas uma boa parte naquela ocasio foi suprimida, pois o caso para a acusao era to consistente que no havia necessidade de apresentar todos os fatos. S agora passados quase dez anos que eu me permiti reconstituir esses elos que compem o todo daquela notvel cadeia. O crime por si mesmo era de interesse, mas tal interesse para mim nada significava quando comparado inconcebvel conseqncia que me proporcionou maior choque e surpresa que qualquer outro evento da minha vida de aventuras. Mesmo agora, decorrido esse longo intervalo, ainda me emociono quando penso nisso, sentindo mais uma vez aquele sbito transbordamento de alegria, assombro e incredulidade submergir totalmente a minha mente. Deixe-me solicitar quele pblico (que demonstrou algum interesse nos rpidos vislumbres que eu ocasionalmente lhes proporcionei quanto aos pensamentos e aes de um homem muito notvel) que eles no me culpem se no compartilhei o meu conhecimento porque eu deveria ter considerado o meu primeiro dever faz-lo no obstante tenha sido impedido por uma proibio especfica dos prprios lbios dele, a qual s foi retirada no incio do ms passado. Pode-se imaginar que o meu contato ntimo com Sherlock Holmes tenha me interessado profundamente pelo crime e que depois do seu desaparecimento eu jamais tenha deixado de ler cuidadosamente os vrios problemas que se apresentavam diante do pblico. Tenho sempre tentado por mais de uma vez e para a minha prpria satisfao pessoal empregar os mtodos dele em sua soluo, embora com resultados medocres. Contudo, no houve nenhum que tenha atrado tanto a minha ateno quanto essa tragdia de Ronald Adair. Conforme li nas evidncias do inqurito (que levou a um veredicto de homicdio premeditado contra alguma pessoa ou pessoas desconhecidas), percebi mais claramente o significado da perda da comunidade com a morte de Sherlock Holmes. Havia pontos sobre esse estranho caso que, eu estava seguro, teriam interessado especialmente a ele, e os esforos da polcia certamente teriam sido completados, ou mais provavelmente antecipados, pela observao treinada e a mente alerta do primeiro agente criminal na Europa. Todos os dias eu andava em crculos; revirei o caso em minha mente e no encontrei nenhuma explicao que me pareceu adequada. Sob pena de contar a mesma histria duas vezes, recapitularei os fatos como eles foram revelados ao pblico por ocasio da concluso do inqurito. O honorvel Ronald Adair era o segundo filho do Conde de Maynooth, governador de uma das colnias australianas naquela poca. A me de Adair havia retornado da Austrlia para submeter-se a uma operao de catarata, e ela, seu filho Ronald e sua filha Hilda estavam morando juntos no 427 da Park Lane. Os jovens voltaram-se para a melhor sociedade no tinham, at onde se podia saber, nenhum inimigo e nenhum vcio em particular. O rapaz ficara noivo da Senhorita Edith Woodley, de Carstairs, mas o compromisso fora rompido por consentimento mtuo alguns meses antes, e no havia nenhum sinal de que qualquer sentimento muito profundo tenha sido deixado para trs. Assim, pelo resto a vida {sic} o rapaz se deslocou para um crculo estreito e convencional, pois era de hbitos tranqilos e de natureza no emotiva. O jovem aristocrata ainda estava nessa vida despreocupada quando sobreveio a morte, da forma mais estranha e inesperada, entre as 10 e as 11:20 da noite de 30 de maro de 1894. Ronald Adair era apaixonado pelo jogo de cartas jogando continuamente, mas nunca de forma que as apostas o prejudicassem. Ele era scio dos clubes de baralho de Baldwin, Cavendish e Bagatelle. Ficou estabelecido que, no dia de sua morte, depois do jantar, ele tinha jogado uma partida de uste no ltimo clube. Ele tambm tinha jogado l pela tarde. O testemunho daqueles que haviam participado do jogo Sr. Murray, Sir John Hardy e coronel Moran provou que o jogo era uste, e que as partidas foram bastante3

equilibradas. Adair podia ter perdido umas cinco libras, no mais. A fortuna dele era considervel, e tal perda no poderia de forma alguma afet-lo. Ele havia jogado quase diariamente em um ou outro clube, mas era um jogador cauteloso, e normalmente vencia. Fora evidenciado que, de parceria com o coronel Moran, ele tinha de fato ganho at quatrocentos e vinte libras numa nica sesso, algumas semanas antes, da dupla formada por Godfrey Milner e Lord Balmoral. Isto tudo de sua histria recente que surgiu no inqurito. Na noite do crime ele voltou do clube exatamente s dez. A me e a irm estavam fora, passando a noite com um parente. A criada deps que o ouviu entrar no quarto da frente do segundo andar, geralmente utilizado por ele como sala de estar. Ela havia acendido o fogo na lareira e a fumaa fez com que abrisse a janela. Nenhum som foi ouvido do quarto at as onze e vinte, hora do retorno da senhora Maynooth e sua filha. Desejando dizer boa-noite, ela tentou entrar no quarto do filho. A porta fora fechada por dentro e nenhuma resposta foi obtida aos seus gritos e batidas. Elas obtiveram ajuda e a porta foi forada. O jovem infeliz foi localizado prximo da mesa. Sua cabea tinha sido horrivelmente mutilada por uma bala de revlver, mas nenhuma arma de qualquer tipo foi encontrada no quarto. Na mesa havia duas notas de dez libras e dezessete libras (dez em prata e ouro); o dinheiro fora disposto em pequenas pilhas de quantias variadas. Havia tambm algumas figuras em uma folha de papel, com os nomes de alguns amigos do clube adversrios dele , pelos quais se conjeturou que antes de sua morte ele estava empenhado em organizar suas perdas ou ganhos nas cartas. Um exame minucioso das circunstncias serviu apenas para tornar o caso mais complexo. Em primeiro lugar, no podia haver nenhuma razo satisfatria para que o jovem trancasse a porta por dentro. Havia a possibilidade de que o assassino o tivesse feito e depois escapado pela janela. Contudo, o desnvel era de pelo menos vinte ps, e um leito de aafres floridos estendia-se completamente abaixo da janela. Nem as flores nem a terra exibiam qualquer sinal de distrbio, nem havia qualquer marca na estreita faixa de grama que separa a casa da estrada. Ento, aparentemente, fora o prprio jovem quem havia trancado a porta. Mas como ocorreu a sua morte? Ningum poderia ter escalado a janela sem deixar rastros. Supondo-se que um homem tenha atirado atravs da janela, seria realmente notrio que um tiro de revlver pudesse infligir uma ferida to mortal. Por outro lado, Park Lane uma rua movimentada; h um ponto de txi a cem jardas da casa. Ningum tinha ouvido o tiro. E permanecia o homem morto e a bala de revlver que havia explodido violentamente, assim provocando uma ferida que deve ter causado morte instantnea. Tais eram as circunstncias do Mistrio de Park Lane, que posteriormente seria complicado pela completa ausncia de motivos. Como eu j disse, o jovem Adair no tinha qualquer inimigo conhecido, e nenhuma tentativa tinha sido feita para remover o dinheiro ou as preciosidades do quarto. Revirei diariamente estes fatos em minha mente, esforandome para estabelecer alguma teoria que pudesse reuni-los todos e encontrar aquela linha de menor resistncia que o meu pobre amigo havia afirmado ser o ponto de partida de toda investigao. Confesso que fiz poucos progressos. tarde fui passear pelo Parque e por volta das seis horas encontrava-me no fim da Oxford Street, prximo Park Lane. Um grupo de desocupados na calada,4

todos voltados para uma janela especfica, orientaram-me para a casa que eu tinha vindo observar. Um homem alto, magro, com culos de lentes coloridas que eu suspeitei fortemente fosse um detetive paisana estava propondo alguma teoria prpria, enquanto outros aglomeravam-se em volta para escutar o que ele dizia. Eu me aproximei o tanto quanto pude, mas as observaes dele me pareceram to absurdas que eu novamente me afastei, um pouco desapontado. Assim fazendo, choquei-me contra um ancio, um homem deformado que tinha estado atrs de mim, e derrubei vrios livros que ele levava. Lembro-me de que quando os recolhi, observei o ttulo de um deles: A ORIGEM DA ADORAO DA RVORE, e me surpreendeu que o camarada fosse algum biblifilo pobre que, como negcio ou passatempo, se dedicasse coleta de volumes obscuros. Esforcei-me para me desculpar pelo acidente, mas era bvio que aqueles livros que eu tinha to desastradamente maltratado eram objetos muito preciosos aos olhos do seu dono. Com um rosnado de desprezo ele virou sobre os calcanhares e eu vi o seu dorso curvo e os seus bigodes brancos desaparecem no meio da multido. Minhas observaes no 427 da Park Lane pouco fizeram para esclarecer o problema no qual eu estava interessado. A casa era separada da rua