O TERRITÓRIO GOIANO-TOCANTINENSE NO CONTEXTO DO ?· Os grãos nobres, como na fábula de La Fontaine,…

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    Publicado originalmente em: Texto mimeo gentilmente cedido pelo autor. 2006

    O TERRITRIO GOIANO-TOCANTINENSE NO CONTEXTO DO

    TERRITRIO DO CERRADO

    Antnio Teixeira Neto UFG / netomap@hotmail.com

    NOTA Este artigo pouco tem de formal, porque, no conjunto, ele foge aos padres de

    redao acadmica. Ele resulta primeiramente de algumas observaes tericas que fiz

    sobre o espao goiano-tocantinense no tocante as suas paisagens naturais, histricas e

    scio-culturais quando de leituras e releituras de obras histricas, geogrficas e literrias que

    falam de Gois e do Tocantins e da regio do cerrado. Em segundo lugar, ele resulta

    tambm de anotaes quando de minhas andanas pelo territrio goiano, ou mais

    precisamente, pelo territrio do cerrado, tanto em Gois, como no Tocantins, Maranho,

    Piau, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. Desde

    criana que guardo imagens fortes do cerrado e de suas paisagens enfeitadas de cores vivas

    e de bichos em liberdade e tambm de acontecimentos dolorosos, como, para citar o mais

    chocante deles, os das queimadas. Dentre as obras histricas lidas, a que mais me inspirou e

    que, na verdade, me levou modestamente a imit-la, foi A Identidade da Frana, o ltimo

    legado histrico e cultural de Fernand Braudel. Fui vizinho dele em Paris e cheguei a

    freqentar a sua imensa biblioteca, ocasio em que folheando suas obras, pude constatar o

    que poucos historiadores fizeram: um casamento perfeito entre a Histria e a Geografia,

    principalmente em seu livro mais famoso e mais conhecido O Mediterrneo e mundo

    mediterrneo poca de Felipe II. Mas, no foi apenas pelo fato de se tratar de um

    historiador com quem tive algum contato pessoal e pelas fortes ligaes pessoais e

    acadmicas que ele teve com o Brasil ele foi um dos fundadores da USP nos anos 1930 ,

    que me levaram a realizar este trabalho, mas, principalmente, por se tratar de um

    historiador que deixou aquelas belas lies de geografia que devem existir em toda e

    qualquer lio de histria. Braudel no fez isto apenas quando escrevia sobre seu pas, mas

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    tambm sobre outros pases. Em sua ltima obra ele interroga constantemente sobre o

    papel do meio geogrfico na construo dos pases e naes, perguntando: teria a

    geografia inventado a Frana?

    Pretenciosamente, pergunto tambm se Gois no teria sido inventado por esse meio

    climato-botnico, nico e original, chamado Cerrado? o que gostaria de responder ao

    reunir essa srie de anotaes. Oxal um dia, elas venham luz sob a forma de, quem sabe,

    uma certa Identidade de Gois. Este artigo, em que evoco alguns aspectos histrico-

    geogrficos do territrio goiano-tocantinense no contexto desse grande bioma chamado

    Cerrado, no deixa de ser uma espcie de introduo a este projeto em maturao. Muitas

    passagens dele constam tambm do livro Geografia: Gois-Tocantins, escrito a seis mos

    por mim juntamente com os colegas Horieste Gomes e Altair Sales Barbosa. A meu ver, o

    estilo informal como ele foi escrito tambm uma maneira de se fugir um pouco do rigor

    com que muitas pesquisas acadmicas so realizadas. Muitas das passagens e dos relatos

    aqui mencionados foram vivenciados por mim, como, dentre outros, as queimadas a que

    me referi logo acima, e que me inspiraram, meio sculo mais tarde, a rememor-las sob a

    forma de um permanente lamento sobre o que est acontecendo com o nosso principal

    bioma.

    As diferentes paisagens do cerrado

    Pegar a estrada e, com os prprios olhos, inventariar essa diversidade (Fernand Braudel)

    Ao percorrer o espao, observando a paisagem, deve-se estar atento s mudanas

    expressivas tanto do relevo, quanto da vegetao; tanto do clima, quanto da ocupao

    humana. Deve-se parar, observar atentamente, assinalar as rupturas, ou seja, as zonas

    fronteirias. Procurar a divergncia, o contraste, a mudana, a fronteira. Diante da televiso,

    ao assistir um filme sobre a vida de um administrador da cozinha da corte de Lus XIV, de

    nome Vatel, uma frase dita por ele, ao dar o toque final a uma sobremesa recm-preparada

    para o banquete a ser servido, aguou a minha imaginao de cartgrafo, gegrafo e de

    historiador harmonia e contraste, eis os dois elementos fundamentais de toda beleza ,

    qual eu acrescentaria sem muita pretenso, harmonia (homogeneidade) e contraste, eis

    os dois elementos de toda paisagem natural ou humana que devem ser levados em conta

    em toda considerao do espao geogrfico. Esta oposio, ou melhor, estes dois

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    elementos fundamentais das realidades histricas e geogrficas de um povo ou de um pas

    sero constantemente levados em conta ao longo deste trabalho.

    Braudel, viajante incansvel, observa que, em um espao qualquer, a noo de fronteira,

    portanto, de ruptura da homogeneidade do espao, em regies de pequenas dimenses, nos

    parece totalmente artificial, mas no . O historiador Herv Phillipetti, citado por Braudel ,

    observa que precisamente dentro da paisagem de suas atividades cotidianas que os

    agricultores podem traar tais limites: para alm do pequeno riacho, depois da mata, abaixo

    da encosta, outra regio que comea. Poderamos dizer a mesma coisa sobre a

    diversidade do nosso territrio no p da serra, no topo do chapado, no fundo dos vales

    , porque esta uma das maneiras mais simples e mais teis para a inteligncia da geografia,

    ou seja, para, em linguagem comum, se situar e se delimitar um pedao de cho, uma rea

    qualquer em nosso espao geogrfico. Cada stio, cada micro-paisagem tem especificidades

    que lhe conferem uma certa originalidade: a umidade permanente dos terrenos de vrzeas e

    varjes, a temperatura amena nos baixades alagados, os capes sempre verdes e bastante

    arborizados nos relevos tpicos das chapadas, os terraos frteis formados de depsitos

    aluviais, etc. Essas paisagens so para Braudel verdadeiros invlucros que se inscrevem no

    interior de vastos territrios, tendo cada um deles seu papel na vida social, econmica e

    cultural dos povos. Seja na grande regio (Vo do Paran, Vale do Rio Meia Ponte, Mato

    Grosso de Gois, Sudoeste Goiano, Bico do Papagaio e Jalapo, no Tocantins, no

    Chapado Ocidental do So Francisco, que os habitantes locais chamam de Gerais), seja no

    grande estado ou na enorme Nao, so essas pequenas paisagens diferenciadas que muitas

    vezes explicam os modos de organizao no apenas do espao, mas de todas as atividades

    humanas que a se desenvolvem.

    O cerrado versus o mato grosso

    Atualmente, so as zonas de cerrado o hbitat preferido da expanso das novas fronteiras

    econmicas l onde esse bioma domina a paisagem, mas que tm como pontos de apoio os

    velhos arraiais do ouro e os antigos povoados dos fazendeiros dos sculos passados, que

    hoje viraram cidades. Esse avano em direo ao cerrado se d como se fosse uma disputa

    entre dois ambientes que se opem, pelo menos geomorfologicamente: o vale, onde em

    geral viceja o mato grosso (a floresta tropical ou de galeria), tradicionalmente frtil e

    carregado de muito simbolismo, e a chapada enorme, a grande barreira invisvel que, no

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    passado, separava os homens e os lugares e que criou nos habitantes de nossa terra uma

    espcie de sndrome do isolamento, mas que, economicamente, foi o grande pasto natural

    que deu sustentao e vida atividade pecuria tradicional.

    Por todo lugar no territrio do cerrado, principalmente em Gois-Tocantins, e isto no faz

    muito tempo, foram os terrenos ondulados, os vales dos grandes rios e regies como o

    Mato Grosso de Gois e o Bico do Papagaio que venceram a disputa econmica

    contra a chapada e o cerrado no processo de ocupao e valorizao do espao regional. Se

    por mais de dois sculos a chapada e os cerrados foram vistos apenas como pastos naturais

    e eram classificados como terra de terceira ou quarta categoria, o interesse que hoje eles

    despertam justamente o oposto do que so as zonas de mata, de boa cultura, mas

    excessivamente acidentadas e imprprias para a mecanizao moderna. Os papis se

    inverteram: essa grande reserva de valor, que antes era bom para apenas pasto, e assim

    mesmo com uma certa reticncia, hoje, em linguagem que cheira a breguice, o fil mignon

    da moderna agricultura. O lugar da roa antiga as terras naturalmente frteis dos fundos

    de vale, ou melhor as terras de primeira, em que abunda o bacuri, smbolo de solo rico ,

    acabou se transformando em bacia leiteira ou em pastos plantados para o gado de corte

    criado com muita tecnologia. No passado, no faz muito tempo, o alqueire de terras do

    cerrado valia quatro ou cinco vezes menos que o de terras de cultura. Agora o inverso,

    ou quase. Isto se parece com aquele ditado popular ontem foi o dia da caa, hoje do

    caador , pois, hoje podemos dizer que ontem foi o dia do mato grosso, hoje o dia

    cerrado. Como se pode observar, os papis se inverteram e, ao que parece, para sempre.

    Adeus emas, seriemas, tatus, tamandus, veados campeiros, muricizeiros, pequizeiros,

    barbatimo, pau-terra, cagaita, mama-cadela, bacu-pari, tesoureiro, galo-campina, salta-

    cho, tei, cajuzinho... Os tratores tudo revolvem e expulsam dos lugares por onde passam.

    Os gros nobres, como na fbula de La Fontaine, o lobo e o cordeiro, so a razo do mais

    forte, ou seja, o lobo