O TRABALHO DOMÉSTICO ENQUANTO UMA ATIVIDADE .o trabalho domÉstico enquanto uma atividade ocupacional

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O TRABALHO DOMSTICO ENQUANTO UMA ATIVIDADE

OCUPACIONAL IMPOSTA SOCIALMENTE AS MULHERES:

UMA ANLISE DO CASO CONCRETO DE UMA

TRABALHADORA RURAL

ssica de Almeida Lima1

Ana Daniele Linard do Vale2

Orientador: Roberto Efrem Filho3

1Graduanda em Direito pela Universidade Federal da Paraba; essica123@gmail.com

2Graduanda em Terapia Ocupacional pela Universidade Federal da Paraba;

daniele.linard.vale@gmail.com 5Mestre em Cincias Jurdicas pela Universidade Federal da Paraba (2009) e doutorando em Cincias

Sociais na Universidade Estadual de Campinas SP. professor do curso de Direito da Universidade Federal da Paraba. robertoefremfilho@gmail.com

RESUMO: O artigo aqui descrito trar discusses acerca do trabalho domstico desenvolvido

por uma trabalhadora rural acampada e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem

Terra (MST) da Paraba, especificamente enquanto uma atividade racializada e a qual so

impostas s mulheres historicamente. As anlises tambm sero feitas a partir das contribuies

do campo da Terapia Ocupacional, do Direito e da sociologia, tomando por base as discusses

ligadas s atividades que so socialmente construdas enquanto femininas, devendo ser

exercidas inexoravelmente pelas mulheres. Ademais, buscaremos tratar do trabalho domstico

fazendo os recortes de classe e raa, que por demais se fizeram presentes tanto na entrevista

concedida pela trabalhadora rural, quanto nas pesquisas bibliogrficas realizadas. Desta forma,

faremos reflexes acerca do modo como as relaes de gnero se perpetuam dentro do mbito

do trabalho domstico.

Palavras-chave: Trabalho domstico. Trabalhadora rural. Racializada. Classe. Raa.

INTRODUO

O trabalho que se descreve, adveio dos momentos de vivncias junto ao Ncleo

de Extenso Popular Flor de Mandacaru (NEP) acerca das facetas contraditrias e

opressoras do capitalismo, sobretudo naquelas que se relacionam com o mundo do

trabalho. As anlises tambm sero feitas a partir das contribuies da Terapia

Ocupacional de modo a problematizar. No entanto, o que se percebe na

contemporaneidade que a mulher ganha o espao pblico e participa do mercado de

trabalho. Porm isso no significa que o trabalho domstico seja realizado por outra

pessoa (ROMANELLI, 2003 apud DAHDAH; CARVALHO, 2014).

O Ncleo um grupo de extenso que presta assessoria jurdica popular (AJUP)

vinculado ao Centro de Cincias Jurdicas (CCJ) da Universidade Federal da Paraba. O

projeto trabalha com embasamento na Educao Popular, de modo a fazer com que

aqueles que so oprimidos se reconheam em suas opresses e busquem a emancipao

atravs da educao como metodologia utilizada. Como instrumento de transformao

social, o grupo se soma as lutas pautadas pelos movimentos sociais e populares, como

mais uma forma de resistncia. A exemplo de quando resolve se articular com outros

grupos e sujeitos criminalizados, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem

Terra.

A partir da vivncia proporcionada pelo NEP junto s mulheres do MST, e das

contribuies dos estudos relacionados a gnero no campo da Terapia Ocupacional, do

Direito e da Sociologia, fizemos reflexes da forma como algumas atividades ligadas ao

mundo do trabalho, a exemplo do trabalho domstico, so exercidos hegemonicamente

pelas mulheres. Dentro dessa perspectiva, afirma BRUSCHINI (2007, p. 549-550) que:

A insero das mulheres no mercado de trabalho brasileiro, como apontado em

muitos estudos sobre o tema, tem sido caracterizada atravs do tempo pela marca da

precariedade, que tem atingido uma importante parcela de trabalhadoras.

O presente trabalho busca analisar acerca do modo como o trabalho domstico

possui um vis machista, racista e classista, de modo a problematizar as diversas facetas

das relaes de gnero que permeiam esse trabalho, a partir da histria de vida de uma

trabalhadora rural. Desta forma, de maneira interdisciplinar refletimos como o exerccio

desse trabalho domstico acaba por corroborar com algumas formas de opresso, e

tambm como o seu desenvolvimento se enquadra naquilo chamado pela Terapia

Ocupacional (como papel ocupacional desempenhado e/ou protagonizados pelas

mulheres).

METODOLOGIA

O artigo foi feito a partir de reviso bibliogrfica e tambm de trabalho de

campo realizado por meio de entrevista concedida por uma trabalhadora rural acampada

e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da Paraba.

Buscando-se uma fazer reflexes crticas acerca do trabalho domstico desenvolvido

pela trabalhadora rural, de modo a analisar as relaes de gnero, classe e raa que

permeiam essa insero da entrevistada no mundo do trabalho.

Os referencias tericos vieram a partir das contribuies de ps-estruturalistas,

marxistas e anlises que fazem parte do campo de atuao da Terapia Ocupacional que

se preocupam em tratar as questes do gnero, classe e raa, de modo que tais opresses

se imbricam. Ademais, todos os nomes das/os trabalhadoras/os e os vinculados ao MST,

so fictcios de modo a preservar a segurana dessas pessoas, de acordo com o firmado

antes da entrevista.

RESULTADOS E DISCUSSES

O NEP um grupo de Assessoria Jurdica Universitria Popular (AJUP)

autogestionado que desenvolve suas atividades junto a movimentos e grupos sociais, de

forma que se forja na luta dessas/es sujeitas/os buscando a construo conjunta de

algumas de suas aes polticas.

Desde o ano de 2007, quando foi criado, o NEP j atuou em diversos

movimentos sociais e comunidades, que vo desde a questo quilombola, como em

Paratibe nas aes ligadas demarcao de territrio; aes coletivas junto ao

Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD); desenvolveu atividades junto a

Comisso Pastoral da Terra; atuamos com o Sindicato das Trabalhadoras Domsticas,

onde prestvamos assessoria jurdica semanalmente; atuaes junto ao Movimento

Terra Livre (MTL) na ocupao urbana Tijolinho Vermelho em 2012; acompanhamos

tambm aes ligadas a movimentos LGBTs como o Movimento Esprito Lils (MEL)

e o Movimento de Mulheres Lsbicas e Bissexuais Maria Quitria; e, em meados de

2014, nos articulamos com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Partindo das contribuies tericas de Ana Lia Almeida (2013, p. 34), AJUP

(Assessoria Jurdica Popular Universitria), tem se constitudo nas ltimas dcadas

como uma das prticas de extenso popular mais difundida nas faculdades de direito do

pas, tornando-se tanto um campo de atuao acadmica (aliando pesquisa extenso)

como um canal de estabelecimento de compromissos e dilogos entre a academia e os

movimentos sociais e populares.

O grupo de estudantes que protagonizam o NEP, se engendram e so engendrados

na luta dos sujeitos com os quais atuam, de modo a trazer o debate para dentro do muro da

Universidade e romper com os paradigmas que circulam o ensino superior.

O NEP faz parte Rede Nacional de Assessoria Jurdica Universitria (RENAJU),

que composta por diversas outras Assessorias Jurdicas Universitrias pelos estados do

pas como da Universidade de So Paulo (USP), na Universidade Federal do Piau

(UFPI), Universidade Federal do Maranho (UFMA), na Universidade Federal de

Pernambuco (UFPE), Universidade Federal do Cear (UFC), na Universidade Federal

de Gois (UFG), na Universidade de So Paulo (USP), na dentre outras instituies

pblicas e privadas.

Os momentos de aproximao concreta do NEP com o MST aconteceu em

meados de 2014. Nessa articulao, foi possvel a construo e desenvolvimento de

espaos formados somente por mulheres, nos quais nos era permitido dialogar com as

militantes do Movimento sobre questes acerca das opresses de gnero sofridas dentro

e fora da luta pela terra.

A conjuntura histrica e construda socialmente acaba impondo s mulheres

determinadas funes, atividades e atribuies que so colocadas diante delas,

inexoravelmente por serem mulheres. Dentro dessa perspectiva, se torna interessante a

compreenso de tais imposies a partir dos papis ocupacionais praticados por essas

sujeitas, e que advm do campo terico da terapia ocupacional.

Desse modo, a anlise dos questionamentos feitos no presente estudo expe

tambm a importncia da interdisciplinaridade. Nesta medida, as contribuies acerca

do mundo do trabalho e do trabalho domstico advindos do campo da Terapia

Ocupacional, acabam por corroborar que os fatores histricos legitimam o fato do

exerccio das atividades domsticas um papel ocupacional de natureza

necessariamente ligada s mulheres.

Percebe-se desta maneira, que h necessidade de se problematizar problematiza

o trabalho domstico como sendo uma atividade hegemonicamente desenvolvida por

essas sujeitas. Desta forma, as reflexes feitas aqui revelam a necessidade da

Universidade e as/os sujeitas/os que nela se constroem de debater as temticas

pertinentes aos trabalhos exercidos pelas mulheres, a partir da fala de uma trabalhadora

rural.

FUNDAMENTAO TERICA

O trabalho domstico sempre foi presente na vida de Dona Joana, mesmo antes

de entrar no movimen