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  • Direito das Obrigaes II 2009

    1

    (Ttulo II - Fontes das Obrigaes)

    CAPTULO V

    RESPONSABILIDADE CIVIL

    Seco 1

    Aspectos Gerais

    52.

    Funo da Responsabilidade Civil. Modalidades. Terminologia.

    Responsabilidade contratual e extracontratual; sistematizao da matria no

    Cdigo Civil.

    Na terminologia do Cdigo Civil portugus, responsabilidade civil designa um insti-tuto localizado nas fontes das obrigaes (Seco V, arts. 483 e s.), cuja funo a de, quando na vida social uma pessoa sofre prejuzos provocados por uma outra, deci-

    dir, isto , colocar as bases para uma deciso sobre se a vtima pode ressarcir-se custa

    do autor da leso. Na medida em que permita uma resposta afirmativa (no todo ou em

    parte), fonte de uma obrigao de indemnizao. A localizao compreende-se porque, nestas situaes, no existe entre as partes qual-

    quer vinculao prvia. So danos que acontecem nos contactos entre estranhos. A rela-

    o jurdica s vai nascer com o dano (se estiverem reunidos os restantes requisitos, os

    quais variam consoante a situao de facto), em princpio como uma relao de conflito.

    A funo deste instituto consiste assim na distribuio dos danos que se produzem no

    contacto social.

    Na linguagem dos juristas, embora tendo sempre a ver com a reparao dos danos, a

    expresso cobre tambm outras situaes. Nomeadamente aquela em que entre as partes

    existia um prvio vnculo obrigacional, sendo que o dano resulta do no cumprimento

    ou do no adequado (pontual e exacto) adimplemento desse dever especial. Compreen-

    sivelmente, a lei regula essa matria justamente no no cumprimento das obrigaes,

    mais concretamente no no cumprimento imputvel (arts. 798 e s.), j que em regra s

    deste que resulta uma obrigao de indemnizar.

    A primeira modalidade designa-se aquiliana, delitual, extracontratual ou extra obriga-

    cional. A segunda, contratual, negocial ou obrigacional. Aquela nasce essencialmente

    do desrespeito de deveres gerais de conduta, impostos a todas as pessoas para salva-

    guarda dos direitos de outrem e tem as mais das vezes a sua gnese num acto positivo.

    A segunda, da violao de um dever jurdico especial (obrigao), a maior parte das

    vezes uma omisso (por ser positivo o dever a que se faltou, v. g. praticar certo facto ou

    entregar uma certa quantia).

    Numa primeira aproximao, dir-se- que a terminologia mais exacta a que distingue

    entre responsabilidade obrigacional e extra obrigacional. S que esta dicotomia perfeita

    no corresponde j aos dados do sistema jurdico. A perturbar a harmonia, encontramos

    na parte geral do cdigo uma outra modalidade, a responsabilidade pr-contratual ou

    por culpa in contrahendo, legalmente crismada de culpa na formao dos contratos (art. 227, n 1), S poderamos manter a classificao bipolar se esta ltima houvesse de

    ser arrumada em uma daquelas categorias.

    Ora ela ostenta uma origem bem caracterstica. Nasce da violao de simples deveres de

    conduta resultantes do princpio da boa f, deveres que apresentam uma fenomenologia

    to diversificada (v. g. no romper abusivamente, esclarecer a outra parte, no celebrar

    contrato nulo ou ineficaz) que parece prudente ressalvar a possibilidade de aplicao de

    regras diferentes, o que far deste sector um tertium genus ou terceira via.

    Uma terminologia que divida o mundo da responsabilidade em duas metades, sem dei-

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    xar resto, no leva isto em conta. E h mais. Talvez que s obrigaes nascidas de

    alguns quase-contratos, particularmente a gesto de negcios, no devam ser de plano

    aplicadas todas as disposies do incumprimento das obrigaes. Afinal a existncia de

    um tertium genus j vem de trs, tendo-se apenas consolidado e fortalecido com a con-

    sagrao legal da culpa in contrahendo.

    Esclarecidos os conceitos, h decerto lugar para opes. Temos usado preferencialmente

    as designaes contratual e delitual.

    Diferenas de regime e o problema do concurso.Uma terceira via do direito da res-

    ponsabilidade?

    claro que a distino s tem efectivo interesse se se traduzir em diferenas de regime.

    Geneticamente, o que distingue os dois campos a existncia, na primeira, de uma pr-

    via relao entre os sujeitos. E este quid tem sido considerado suficiente para justificar,

    pelo menos num ponto, um regime mais favorvel ao lesado (credor) no domnio nego-

    cial: o devedor que tem de provar que no teve culpa no incumprimento, atraso ou

    defeituoso cumprimento (art. 799, n 1), enquanto que nos delitos cabe vtima a prova

    da culpa do autor da leso (art. 487, n 1).

    Na lei aparecem pontuadas outras divergncias, que tm vindo a esbater-se e que, pro-

    vavelmente, ainda se esvairo mais no futuro: a capacidade delitual conhece regras

    menos estritas (art. 488); s no campo delitual a lei prev expressamente a solidariedade

    dos devedores (ali. 497, n 1); o prazo da prescrio delitual (art. 498) mais curto do

    que o ordinrio (art. 309); em matria de direito internacional privado e de competncia

    dos tribunais tambm no existe coincidncia.

    Mas j no que respeita aos efeitos da responsabilidade (obrigao de indemnizao) as

    disposies que regem a matria so as mesmas (arts. 562 e s.); alis, sob pena de

    demonstrao do contrrio, para qualquer das modalidades, incluindo a tal terceira via

    (de que, em nossa opinio, a culpa in contrahendo apenas a guarda avanada).

    Esta sistematizao (regras prprias para os contratos e para os delitos, a que se junta

    um sector de disposies comuns) faz despontar algumas dificuldades. E que h institu-

    tos importantes, como a possibilidade de diminuio equitativa da indemnizao no

    caso de mera culpa e a atribuio de uma compensao pelo dano no patrimonial, cujo

    tratamento a lei situa na rea delitual (arts. 494 e 496). bvia a interrogao sobre se,

    estando preenchidos apenas os pressupostos do inadimplemento negocial, o juiz tem

    legitimidade para chamar a terreno estes institutos.

    No nos parece metodologicamente aconselhvel desprezar completamente um argu-

    mento sistemtico to evidente. A directriz interpretativa de que o legislador ter sabido

    exprimir o seu pensamento em termos adequados (art. 9 n. 3) pretende aplicar-se no

    s letra da lei como a outros elementos de interpretao.

    E parece seguro que a lei (no o legislador, mas a lei), se pretendesse uma aplicao

    geral daquelas disposies, t-las-ia ento includo no rol das regras comuns.

    Significar isto que elas no podero de todo em todo ser aplicadas s consequncias do

    inadimplemento obrigacional? Seria porventura ir longe demais e no estaremos obriga-

    dos a tanto, visto no se tratar de normas excepcionais.

    Poder, pensamos, recorrer-se aplicao por analogia, o que obriga a uma justificao,

    que muitas vezes falecer. Pensemos v. g. no comerciante de tapetes que fica fortemente

    arreliado com a no entrega atempada de uma encomenda e adoece. Para situaes que

    tm puramente a ver com os negcios (porventura excessivamente associadas respon-

    sabilidade contratual), a lei entendeu que no se justifica uma indemnizao pelo dano

    no patrimonial. Esses outros efeitos so ainda contingncias dos negcios, digamos

    que normais nesse sector da vida.

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    Mas algumas vezes acontece que os mesmos factos cumprem as exigncias de ambas as

    reas. V. g. o transportador viola os deveres de cuidado negocialmente assumidos, cau-

    sando danos pessoa transportada. Ser que a presena de uma relao especial preclu-

    de a aplicao das regras gerais? No poder o prejudicado escolher o terreno da lide?

    Ou at mesmo invocar simultaneamente as regras de um e outro campo, consoante lhe

    sejam mais favorveis, situao em que, mais do que uma opo, teremos um concurso?

    O cdigo nada diz. Na doutrina e no direito comparado no encontramos apoio muito

    slido, num sentido ou no outro. A questo prende-se de resto com as particularidades

    de cada sistema.

    No direito portugus, onde as duas vertentes aparecem largamente unificadas, no

    vemos razo para rejeitar a soluo natural, que julgamos ser a do concurso, entendida

    nos devidos termos. Soluo para a qual apontava o principal arquitecto da Parte Geral

    do Livro do Direito das Obrigaes, redactor da totalidade dos trabalhos preparatrios

    (Nos termos do n. 1 do art. 767 do Anteprojecto de VAZ SERRA, Se um facto repre-sentar, ao mesmo tempo, uma violao de contrato e um acto licito extracontratual, so

    aplicveis as regras de ambas as responsabilidades, escolha do prejudicado, que pode

    inclusivamente escolher parte de umas e parte de outras). O entendimento correcto parece ser o de que estamos perante o concurso de normas que

    fundamentam uma nica pretenso.

    Carcter comum dos pressupostos, variando o facto (em regra, ilcito) que est na

    origem das diversas modalidades.

    Sempre que se verificarem os pressupostos ou requisitos do art. 483, n 1, nasce uma

    obrigao de reparar os danos causad