ORGANIZAÇÃO DA COLECÇÃO CARTOGRÁFICA DA ler.· Atas do VI Simpósio Luso-Brasileiro de Cartografia

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  • Atas do VI Simpsio Luso-Brasileiro de Cartografia Histrica, 4 a 7 de Novembro de 2015. Braga, Portugal.

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    ORGANIZAO DA COLECO CARTOGRFICA DA FUNDAO PORTUGUESA DAS COMUNICAES

    Patrcia Maria Ferreira da Silva Salvado de Franco Frazo

    Fundao Portuguesa das Comunicaes

    patricia.salvado@fpc.pt

    Resumo Este artigo tem como objectivo divulgar o fundo de documentao cartogrfica, que se encontra guarda da Fundao Portuguesa das Comunicaes e, em particular, a coleco de mapas proveniente da empresa CTT Correios e Telecomunicaes de Portugal. Trata-se de uma coleco singular que retrata a evoluo da rede de comunicaes em Portugal, sobretudo, das redes: postal (e as suas mltiplas especificidades como a venda de selos e franquias, a rede das ambulncias postais, a rede aeropostal, entre outras), telegrfica, radiotelegrfica e telefnica e que so uma importante testemunha da longa e intensa actividade daquela empresa. Ensaiemos ento um breve percurso por alguns destes exemplares.

    Palavraschave: Cartografia temtica, Comunicaes, Bibliotecas

    Abstract The purpose of this article is to divulge the cartographic documentation centre, under the care of the Fundao Portuguesa das Comunicaes and in particular the collection of maps which used to belong to the Portuguese post office, CTT Correios e Telecomunicaes de Portugal. The collection is unique in that it portrays the evolution of the communications network in Portugal, above all the postal (in all of its many aspects, such as the sale of stamps and franks, the travelling post office (TPO), the air mail network, etc.), telegraph, radiotelegraph and telephone networks which are an important testament to the companys long and intense endeavours. We shall take a brief look at some of these examples.

    Keywords: Thematic Maps, Communications, Libraries

    1. Breve Histria da Biblioteca da Fundao Portuguesa das Comunicaes (FPC) Em 4 de Dezembro de 1877 eram publicadas as Instruces emanadas pelo Ministro das Obras Pblicas, Joo Gualberto de Barros e Cunha (Dirio do Governo n. 291, de 22 de Dezembro de 1877), que compreendiam as reformas previstas para a Direco Geral dos Correios. No seu artigo 8 determinava que o ento Director Geral dos Correios, Guilhermino de Barros, desse incio criao de uma Biblioteca e de um Museu Postais. Logo no primeiro ano, foi a Biblioteca dotada de 400 livros, de temas variados, graas s contribuies de David Corazzi, um importante editor da poca. Com o surgimento da nova Organizao dos Correios, Telgrafos, Telefones e Fiscalizao das Indstrias Elctricas, em 1911, a Biblioteca foi enriquecida numa perspectiva de apoio formao tcnica, tendo-se tornado obrigatria a recolha de regulamentos, instrues e demais legislao. Nessa altura recebeu tambm uma vasta bibliografia de carcter tcnico sobre engenharia eletrotcnica, telegrafia, telefonia e electricidade que fora recolhida por Paulo Benjamim Cabral, o Inspetor-geral dos Telgrafos entre 1888 e 1910. Coexistem, assim, na Biblioteca, desde o seu incio temas culturais e temas tcnicos. O primeiro regulamento surgiria apenas em 1920, pelo Decreto n 6822 de 10 de Agosto, e manteve-se em vigor durante vrias dcadas. Em Julho de 1973 foi criado o Centro de Documentao e Informao dos CTT, (O.S. 002073CA) com Biblioteca Central e uma rede descentralizada com 11 Ncleos de Documentao espalhados pelo Pas, para apoiar e dar resposta s necessidades de informao tcnica e cultural do conjunto da empresa. A Fundao Portuguesa das Comunicaes (tendo como instituidores: a ANACOM, os CTT Correios de Portugal e a PT - Portugal Telecom), devido s suas obrigaes estatutrias, passou a ser detentora, a

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    partir de 1997, de grande parte deste patrimnio documental que se encontra integrado na sua Biblioteca. Aqui se reuniu tambm todo o esplio cartogrfico do ex-Museu dos CTT que vem sendo aumentado com o legado dos demais Instituidores: a Portugal Telecom, a Anacom, bem como das empresas j extintas como o caso da APT The Anglo Portuguese Telephone Company; TLP Telefones de Lisboa e Porto; Telepac; e CPRM Companhia Portuguesa Rdio Marconi.

    2. A rede postal As referidas Instrues de 4 de Dezembro de 1877 apontam directrizes muito explcitas para o estudo da distribuio geogrfica da rede postal. O artigo 2. determina que se d incio ao Diccionario Geographico Postal pois quazi todos os pazes da Europa possuem o seu diccionario geographico postal mais ou menos completo. Os dados a constar nesta obra seriam, por ordem alfabtica, todos os locais do pas, sem excluir os logarejos e os casaes, com indicao da sua localizao administrativa, judicial e eclesistica, da sua populao e por ltimo de onde recebe e por onde envia o correio. O trabalho de condensar num livro toda a informao referente distribuio territorial do correio culminaria depois no artigo 3 com as orientaes para elaborao de um Mappa Geographico dos Correios:

    elaborado sobre os ultimos trabalhos da commisso geodesica, deve attingir uma escala que o torne perceptivel e

    claro, e ainda carece de dividir-se em folhas com respeito a cada crculo postal, no s para augmento de escala,

    mas ainda para ser minucioso. (...) significando por meio de cores vivas as estradas das diversas classes por onde

    se realisa o transito das malas, e determinando quaes as condies favoraveis que o auxiliam ou os obstaculos que

    o entorpecem.

    Explicitava de forma inequvoca que informao deveria ser tratada (o movimento postal, sua explicao e desenvolvimento) justificando a sua produo como sendo a base necessria para que o governo pudesse analisar e ajuizar o crescimento da rede postal no pas. Esta diretriz mantm-se inalterada ao longo da atividade dos CTT e vai fazer parte da delegao de competncias da DET Direo dos Servios de Estudo Construo e Conservao (DET), criada em 09 de Janeiro de 1935, pelo Decreto-lei n. 24:890. Quer quando mudou a designao para a Direo dos Servios Tcnicos (DST), em 10 de Fevereiro de 1947, pelo Decreto-lei n 36.155, ou em 1967, quando pelo Decreto-lei n. 47 488, de 09 de Janeiro passou a designar-se Direo dos Servios de Telecomunicaes (DST). Manteve esta ltima designao at transitar para nova reforma que originou os Correios e Telecomunicaes de Portugal (CTT) em 1969. Alguns dos mapas elaborados pelo Gabinete de Desenho desta Direo: Mapas Esquemticos dos Grupos de Redes; Mapa Esquemtico da Rede Telegrfica Nacional e Internacional; Mapa das Redes Telefnicas Locais; Mapa da Rede Telefnica Interurbana; Mapa da Rede de Cabos que amarram no Continente, nos Aores e na Madeira; Mapa dos Traados de Telecomunicaes e Cabos; Carta da Diviso do Pas em Redes Locais, entre outros.

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    Fig. 1, 2, 3 - Fotografias do Departamento da DSE, (Arquivo Histrico da FPC).

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    2.1 O desenvolvimento da rede postal A atual rede de comunicaes veio alterar a nossa noo de tempo e espao bem como os limites que separam pessoas, comunidades e naes. As antigas formas de comunicar parecem agora pitorescas e tranquilizadoras. No caso particular do correio, o uso da carta carimbada ou selada, o chamado snail email, parece agora lento e ultrapassado, mas, contrariamente a esta ideia criada na poca digital, o servio postal continua diariamente a desempenhar o seu papel de distribuidor, por todo o mundo, mantendo assim a sua primordial funo bastante atual. Mas, de facto, nem sempre assim aconteceu. Nos primeiros sculos da nacionalidade, a troca de mensagens era, em regra, reservada a alguns correios privativos como o caso das universidades e mosteiros na Idade Mdia e de grandes senhores. Estas redes privadas, por onde circulava a informao, iam sendo aproveitadas por particulares. Com os Descobrimentos, e as trocas comerciais frequentes e regulares, exigia-se um servio postal eficiente mas tambm seguro. Assim, em 1520, D. Manuel I publicou a Carta Rgia que criava o ofcio de Correio-mor. Este era um servio pblico e que podia ser utilizado por qualquer cidado mediante o pagamento do servio de transporte da correspondncia. Para o efeito foram estabelecidas as estaes de posta, ou seja, pontos fixos nos itinerrios por onde passava o correio e onde se fazia a muda dos cavalos. Assim, o chamado correio ordinrio ia ganhando uma certa regularidade nos finais do sc. XVI: corria uma vez por semana para a Beira e Douro e uma vez por ms para Espanha, Frana, Flandres e Itlia (VILELA,1991, p. 8). Em 1606, D. Filipe II vendeu este negcio famlia Gomes da Mata por 70 000 cruzados, tornando-se assim um servio privado que se prolongar at ao reinado de D. Maria I. Em 1797 criada a Administrao das Postas, Correios e Diligncias de terra e mar que fica sobre a alada do Ministro e Secretrio de Estado dos Negcios Estrangeiros1. Com a nomeao de Jos Diogo de Mascarenhas Neto para Superintendente Geral do Correio e Postas do Reino d-se incio a uma nova dinmica dos correios recorrendo para isso publicao de diversa regulamentao para o bom desempenho do servio pblico. A distribuio da correspondncia, bastante condicionada pelas ms condies das estradas do pas, era feita sobretudo a p ou a cavalo com percursos bem definidos. Veja-se a ttulo de exemplo o Mappa dos Correios Assistentes de Portugal sua mutua correspond. ou giro do Correio entre os mesmos e a Administrao Geral de Lisboa, publicado em 1818 (Tabella dos Dias de Partida e Chegada dos correios acompanhada de hum mappa que demosntra o Giro do Correio e sua mutua correspondencia. Lisboa: Impresso Rgia, 1818). (Fig. 4)

    Fig. 4