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Os herdeiros de Mé Xinhô Medicina tradicional e saúde ... · 2 Xavier Muñoz-Torrent – Os herdeiros de Mé Xinhô… – BCN20141214 – Vpt – Tela-Nón lembrança, de memória,

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    Os herdeiros de M Xinh Medicina tradicional e sade pblica em So Tom e Prncipe (Homenagem a Sum Ernesto, 1931-2014) Xavier Muoz-Torrent, gegrafo Ernesto voou.... Assim nos recebeu o filho de Manuel dos Santos Martins, mais conhecido por Ernesto ou Sum Ernesto, um dos melhores e mais respeitados mdicos tradicionais de So Tom e Prncipe. Inicialmente eu no percebi o que me queria dizer, mas as lgrimas da sua nora fizeram-me ver. O meu grande amigo tinha deixado este mundo para passar imortalidade.

    O mdico tradicional Manuel dos Santos Martins, Sum Ernesto, em Ribeira Peixe (2001). Foto: X. Muoz.

    Tive um arrepio e um pouco mais me cai das mos a garrafa de tinto que lhe trazia habitualmente quando lhe visitava. O meu colega Abaj apertou-me o brao, talvez esperando que o golpe emocional no resultasse mais trgico. Mas fechei os olhos e respirei; voltei-los a abrir e olhei ao cu para procurar a copa do oc mais comprido, esperando que a sua alma ainda ficasse perto de l, minha espera. O meu sentimento no foi tanto de tristeza como de

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    lembrana, de memria, de homenagem a um dos personagens que mais bem fizeram por aquela terra, na sua escala, desde a sua simpleza, na sua comunidade, junto gente; e, claro, tambm minha pessoa, no fsico e mesmo no moral. Aquela recordao transportou-me suas palavras serenas, aos seus rires brincalhes e olhares compreensivos, e a sua esperteza de (quase) santo, a quela modstia de quem tinha consagrado a sua vida sociedade, seguindo um estranho conjuro com a tica dos antepassados, com um juramento hipocrtico secreto, nunca dito s vozes, nunca vangloriado, mas expressado sempre em fatos que para ele consistiam em sanar aos seus prximos, sem esperar muito mais a cmbio que aquilo que o paciente modestamente podia oferecer, e a satisfao pessoal de ter cumprido com o seu dever de mdico. Sum Ernesto um dos ltimos da escola de mdicos tradicionais que bandeirou, tambm desde uma extrema modstia e seriedade, o mestre Sebastio dos Anjos do Rosrio, mais conhecido como M Xinh (1899-1980), de Santo Amaro (mais tarde residente em Oqu dEl Rei), um homem que, desde a sua bondade e dedicao, curava gente a travs do seu extraordinrio conhecimento dos ossos e nervos, sobre os quais era capaz de aplicar as mais efetivas massagens, e tambm da utilizao teraputica das propriedades das plantas medicinais e doutros produtos da terra. Ernesto foi um dos seus aprendizes mais aplicados [na mesma altura M Xinh tinha mais 4 ou 5 alunos], que o seguiu de corpo e alma, com a sua moral de servio quase desinteressado, onde parecia que o melhor pagamento dos seus pacientes era a sua cura. Nas nossas tardes de encontro, perto dos coqueiros a tocar da praia, ou das prgulas cheias de maracujs, l no quintal do magnfico hospital da roa, ou ultimamente na sua cubata trs a estrada de Boa Morte, Ernesto falava-me longamente da sua aprendizagem com M Xinh, o grande mestre, da sua filosofia, que seguiu no por obrigao seno por vocao, por um estranho encanto de quem transmite servio, dever pelos outros, responsabilidade por fazer o bem... Ernesto confessou-me que ficou fascinado dessas lies e conselhos do mestre porque era um saber que no s consistia em aplicar solues de medicina tradicional aos pacientes, seno em sossegar-lhes, em dar-lhes confiana e falar-lhes claro sobre a sua doena e os efeitos dos seus remdios (ate onde esses atingissem), e atuar de imediato. Na realidade era transmitir-lhes otimismo, respeito e mesmo apoio, reconhecimento do corpo e dos males, de projetar energia, fora, que permitia tomar a melhor soluo desde um trato humano, ainda que direito e possibilista. As pessoas, por tanto, apenas falar com o terapeuta, esqueciam medos e destilavam f. Conheci ao Ernesto em 1986, na roa Ribeira Peixe (antiga Perseverana), a seguir de uma das minhas sesses de inqurito socioeconmico nas terras do Cau (Sul da ilha de So Tom). Acompanhavam-me trs investigadoras que pretendiam completar um herbrio de folhas para o Instituto Botnico de Barcelona, e algum nos tinha falado de um erudito que sabia muito dos pormenores das plantas nacionais. Ao chegar ao majestoso terreiro, um senhor que estava a caiar canteiros do jardim e que mostrava uma perna

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    entalada provocou uma interessante conversa sobre a ateno mdica naquele lugar, para mim substancial. O osso partiu -falou- e eu fiquei surpreendido que a sua perna no houvesse sido engessada, e lhe perguntei pelo doutor. O senhor explicou que l, a pesar de ter um grande hospital, no tinham nenhum licenciado em medicina e que aquele tipo de problemas se lhes resolvia um medico tradicional, um curandeiro, que tinha sido convalidado como enfermeiro por arte da Revoluo do povo. Esse era Sum Ernesto.

    O imponente Hospital da Roa Ribeira Peixe, no estado em que se encontrava no novembro de 2000. Ernesto nessa altura morava e tinha a consulta num quarto do primeiro andar (na imagem, onde a janela

    ainda tinha portas). Foto: X. Muoz. Nessa altura Ernesto vivia no primeiro andar do hospital, um imponente edifcio de estilo neoclssico, com uma fachada presidida por um frontispcio grego. Justo em baixo desse galpo, nos quartos destinados a consultas e residncia do pessoal mdico, estava instalado o Ernesto, pois era o nico que na proximidade assistia sade da populao local. Recebeu-me com toda cordialidade, perguntando-me se o Sr. Doutor precisava dos seus servios. Eu lhe falei que me tinha que curar a curiosidade, sobre como ele, apenas com paus, vendas e cordas, era capaz de endireitar o osso quebrado daquele fregus. Ernesto sorriu e me ofereceu cadeira e um golo de uma beberagem densa, feita a base de folhas, antes de ir ao fundo da nossa conversa. As minhas colegas prosseguiam a excurso l fora, junto ao jardim e ao trabalhador lesado, a recolher plantas para o herbrio, a visitar a roa e as dependncias, e fotografar a belssima avenida de palmeiras imperiais que se estendia desde a casa do administrador (frente ao mar) at o hospital, os lendrios ilhus das Sete Pedras e o pico Co Grande esticado ao longe,... E eu tinha todo o tempo do mundo para falar como aquele homem sbio. Ernesto me acreditou como mdico pelo meu interesse pelo seu trabalho. Desde ento nunca me deixou de tratar como doutor e foi sempre intil explicar-lhe que eu era gegrafo e no cirurgio... E, alm disso, em contrapartida, ele mostrou-me um diploma moldurado que pendurava do muro, que lhe acreditava oficialmente como pessoal sanitrio formado. Aquele

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    diploma lhe foi concedido depois de um rpido seminrio, pois, depois da independncia, o novo estado no dispunha de suficientes recursos humanos especializados para atender a sade da cidadania, especialmente nos lugares mais remotos, como aquela plantao, e na altura teve que apoiar-se formalmente no saber tradicional e dos massagistas, dos stlijn (cirurgies), dos piad-zua (leitores de urina), dos txiad-ventosa (aplicadores de idem) e das parteiras (de fato como sempre tinham feito desde tempos imemoriais). Ele na realidade era um desses mdicos tradicionais, sado da escola de Santo Amaro. Foi ento quando me falou pela primeira vez de M Xinh e da estrutura do ensinamento tradicional nessa matria, essencial para o bem-estar do povo, da sua estada longa e instrutiva com o grande mestre, toda una universidade da tradio e da experincia prtica.

    O diploma que Sum Ernesto mostrava com orgulho ptrio. Foto: X. Muoz. Comeou inculcar-me saberes: a falar de frutos, de paus, de cascas e folhas vegetais e gorduras de serpente (banha), de terras e alcois para esfregaes, mesmo de venenos e de antdotos... Dos remdios que procurava para resolver cada doena... Para a dor de estmago, para a dor de garganta, para ter mais fora com as mulheres, mesmo para a dor de corao... As massagens para a dor de rins, para o reumatismo, emplastros para as contuses ou para eliminar furnculos, tabuados para ossos quebrados, etc... Aquilo era interminvel... A condensao de saber naquele pequeno homem era infinita! Estava frente a um autntico poo de cincia, a um livro aberto. Na realidade, como ele mesmo explicava, mais de um 85% das doenas dos moradores da roa se podia resolver com o seu saber e com os remdios que se podiam apanhar no mato (sempre com a preceptiva licena da Me Natureza o dos espritos do bosque) Outros 10% deviam ser evacuados para uma interveno mais complicada, e o resto eram intratveis, ficavam na mo de Deus... De fato, segundo Ernesto,

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    tudo estava nas mos de Deus, mesmo o seu prprio saber e o seu trabalho naquele cantinho do mundo. Entretanto, eu apenas escutava, nem notas tomava. Preferia ouvir a cincia sossegada daquele sbio do mato, que me tranqilizava enormemente... E me tranqilizou sempre, apenas com as suas palavras, os seus sorrisos e aqueles dedos espertos que apertavam nos lugares certos das minhas costas tensas e entorpecidas.

    Sum Ernesto em plena atividade teraputica, Boa Morte, 2006. Foto: X. Muoz

    Explicava que continuamente, ano aps ano, at l se destacavam equipas cientficas de firmas farmacuticas e que ele amavelmente e sem cobrar nem um tosto lhes explicava as propriedades de plantas sobre as que tinham algum interesse, tantas como ele conhecia, porque ele tinha a convico que a difuso do conhecimento, sem nenhuma dvida, ajudaria s pessoas que o precisassem em qualquer parte do mundo. Mesmo explico-me que ajudou a documentar um livro de um engenheiro de origem santomense (talvez se referisse a Luis Lopes Roseira, no seu compndio Plantas teis da flora de So Tom e Prncipe (1984)?)... pena que no lhe lembrasse... Mas pouco lhe importava se aquilo era em beneficio da gente. E, ano aps ano, professores aps professores tm passado pelos ensinos do Ernesto e doutros tantos mdicos e mdicas tradicionais santomenses, ainda que em escassas ocasies esse conhecimento tenha-se capitalizado em beneficio da economia nacional, e, em ltima instncia, em beneficio do povo. Os princpios ativos derivados das informaes do Ernesto foram traduzidos, com certeza, em patentes da indstria farmacutica ou foram tema essencial de artigos ou teses de investigadores universitrios sem que o conhecimento e os resultados das exploraes industriais tenham repercutido direita e gratuitamente sobre as pessoas que precisavam das curas e medicamentos, justo o contrrio do que o Ernesto sempre pretendeu.

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    Capa do catlogo de Luis Lopes Roseira,

    1984

    Capa do estudo de Maria do Cu Madureira e

    companhia, 2008 Ainda que haja estudos anteriores, apenas na entrada do s. XXI, foram por acaso Maria do Cu Madureira e a sua equipa de investigadores que instaram deliberadamente capitalizao desse conhecimento por parte do Ministrio de Sade da Repblica santomense e sua general difuso, com o apoio da Fundao Gulbenkian, num profundo Estudo etnofarmacolgico das plantas medicinais de So Tom e Prncipe (2008), colofo ao trabalho iniciado j aos incios dos anos 1990. Alm da sistematizao do catlogo botnico e das propriedades das diferentes espcies vegetais teis, esses trabalhos exaltam a transcendncia da cultura medicinal das ilhas e o papel chave dos mdicos tradicionais, massagistas e curandeiros, na preservao e restabelecimento da sade dos habitantes. Madureira e companhia chegam a detectar at mais de 350 espcies medicinais, que so base de mais de 1.000 receitas de curas tradicionais, e mesmo tm enfatizado ainda mais nos seus ltimos ensaios a ligao entre o conhecimento antigo das plantas e a evoluo da sade, cadastrando uma cinqentena de terapeutas tradicionais com os quais a sua equipa entrevistou-se no processo da recolha da informao, e, entre eles, Sum Ernesto (vid a interessantssima comunicao Plantas medicinais e medicina tradicional de So Tom e Prncipe apresentada por essa autora no Colquio Internacional So Tom e Prncipe numa perspectiva interdisciplinar, diacrnica e sincrnica, Lisboa, 2012; vid tambm a sua localizao nos mapas das ilhas).

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    Localizao na ilha de So Tom dos terapeutas tradicionais entrevistados por M. do Cu Madureira e a sua equipa. Fonte: Elaborao prpria seguindo o cadastro do artigo da autora Plantas medicinais e medicina tradicional em So Tom e Prncipe, 2012. Localizao no mapa 1:25000 correspondente delimitao do Parque Natural do Ob e das suas zonas-tampo (as linhas verdes delimitam as zonas de proteo total do parque; as violetas, as zonas-tampo, e as vermelhas so as estradas principais da ilha).

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    Na ilha do Prncipe os terapeutas tradicionais entrevistados pela equipa de M. do Cu Madureira esto mais concentrados, muito especialmente ao redor da capital, muito em consonncia com a localizao efetiva da populao naquela ilha. Fonte: Elaborao prpria seguindo o cadastro no artigo da autora Plantas medicinais e medicina tradicional em So Tom e Prncipe, 2012. Localizao no mapa 1:25000 correspondente delimitao do Parque Natural do Ob e das suas zonas-tampo (as linhas verdes delimitam as zonas de proteo total do parque; as violetas, a zonas-tampo, e as vermelhas so as estradas principais da ilha).

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    Usos tradicionais das plantas medicinaisde So Tom e PrncipeVerso reduzida de Madureira & Martins, 2002 *

    Utilizao / Curas Receitas

    Sistema digestivo 204Sistema respiratrio 179Sistema genito-urinrio 134Doenas de pele 97Sistema nervoso central 16Sistema cardiovascular 43Analgsicos / anti-inflamatrios / reumatismo 218Anti-piricos / anti-malricos 61Anti-diabticos 14Tnicos / alimentos 26Outro tipo de curas 68Venenos / feitios 19

    Total ** 1.007

    * Vid MADUREIRA, M.C., "Plantas medicinais e medicina tradicionalde So Tom e Prncipe" , 2012.** Algumas das receitas devem-se utilizar para diferentes curas.

    Com tudo, difcil saber nesta altura que repercusso teve esse ingente trabalho ao nvel de aproveitamento prtico sobre os usos na sade, por quanto a difuso foi bastante limitada edio de um livro distribudo direitamente pela Ordem dos Farmacuticos de Portugal. Seja como for, a publicao desses resultados deu p organizao de seminrios especializados com pessoal sanitrio e de atividades populares, especialmente para a sensibilizao dos mais jovens, mesmo com representaes teatrais e recolha de soyas (contos curtos cantados em lngua crioula). Ademais, paralelamente, hoje h uma Associao da Medicina Tradicional de So Tom e Prncipe que ostensivelmente trata de reunir os terapeutas nacionais para promover a mxima valorizao da profisso, nos ltimos anos muito menos considerada e s vezes confundida erradamente com prticas mgicas e de feitiaria. Talvez seja por essa riqueza em matria prima e em sabedoria ancestral aplicada sade que So Tom e Prncipe registrem uma das esperanas de vida mais elevadas da frica Subsaariana (64 anos; 65,5 para as mulheres). Massagens e plantas tm complementado de fato a medicina convencional e tm permitido estender a ateno bsica aos lugares mais perifricos do arquiplago, e, mais ainda, o acesso da populao a remdios consideravelmente mais baratos que os medicamentos industrializados e de similar efetividade (o elevado preo dos tratamentos convencionais nem sempre fica ao alcance das economias mais modestas). De fato, o mnimo saber sobre as plantas constitui de sempre um elemento muito enraizado na cultura e o conhecimento das pessoas, j desde criana.

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    Indicadores de Sade de So Tom e Prncipe

    Ranking MomentoConceitos N no mundo estatstico

    Populao total recenseada 2012 hab 187.356 2012*Populao total estimada 2014 hab 190.428 186 2014 est.**Populao em zona urbana % 62,70 2014 est.

    Idade mdia anos 17,80 2014 est.Menores de 25 anos % 63,30 2014 est.65 e mais anos % 3,00 2014 est.Taxa de crescimento anual % 1,89 60 2014 est.

    Taxa de natalidade 35,12 24 2014 est.nascimentos/1000 hab

    Idade meia da 1 maternidade 19,40 2014 est.

    Fertilidade mdia filhos/me 4,67 25 2014 est.

    Taxa de mortalidade 7,45 114 2012mortos/1000 hab

    Taxa de mortalidade infantil 49,16 41 2014 est.mortos

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    Mapa de localizao dos centros de sade em So Tom e no Prncipe (2008). Fonte: INSTITUTO MARQUS DE VALLE-FLR, Health for all, in ICMMS09 Proceedings,

    Terrassa, Ctedra UNESCO de Sostenibilitat, Universitat Politcnica de Catalunya, 2009

    Ernesto mesmo assegurava que era capaz de curar o SIDA, pois os remdios encontravam-se de certeza nas propriedades de algumas plantas do mato santomense ou na sua correta combinao. De fato, a pressa das equipas de pesquisadores internacionais estava decerto no descobrimento de novos usos antibiticos e retrovirais [o SIDA afeta a um 1% da populao nacional]... Da mesma maneira que ele tinha solucionado as minhas queimaes de estmago com ch de folhas de alho-dob (Psychotria spathaceae), e no s isso: ele insistiu em mostrar-me onde encontr-las, orientando-me em longos percursos por espaos selvticos do sul de So Tom...; todo um curso acelerado sobre o terreno de reconhecimento herbanrio e tambm, de passagem, da geografia, da paisagem e a cultura natural das ilhas. Um bom mergulho nas profundezas do tero da Me Natureza, s vezes um imenso e exuberante oceano de verdor mido, com uma base de muita lama, musgos escorregadios e capoeira, acompanhados de muito inseto, macaco e cobra, e uma interminvel diversidade ornitolgica.

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    Ernesto a oferecer um ramalhete de folhas de alho-dob, Ribeira Peixe (2001). Foto: X. Muoz

    Os aprendizes do Ernesto trs de ns no mato, Ribeira Peixe (2001). Foto: X. Muoz

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    Aos seus 83 anos cumpridos, de ascendncia cabo-verdiana, e com sete descendentes s costas da sua vivncia (trs meninas e quatro rapazes), Ernesto nunca tinha perdido a sua dedicada ateno aos usos afrodisacos dos seus conhecimentos, aplicados a ele prprio e tambm em ajuda dos seus fregueses e aos amigos de alm-do-mar. Que, segundo ele ria, afrodisaco refere-se sensualidade africana, ao atrativo dessas mulheres ardentes e impulsivas, que devem ser bem atendidas, devem ficar bem satisfeitas; e alguns remdios ajudam a assegurar a melhor disposio, que base da felicidade na vida!.... De fato, grande parte das receitas dessa medicina tradicional est direta ou indiretamente relacionada com uma boa sade sexual! Por tanto, uma boa disposio que ajuda a atingir l, entre outras lgicas, uma alta e precoce fertilidade, e una das taxas de crescimento demogrfico mais elevadas de frica (prxima ao +2% anual continuado desde finais dos anos 80)... Talvez seja essa uma grande exagerao, mas foi tema que sugeriram muitas das nossas conversas especialmente pcaras e brincalhonas em presena feminina. Pequeno grande bandido, o Ernesto!

    Sum Ernesto mostrando a sua bagatela de trabalho (Boa Morte, 2009). Foto: X. Muoz.

    Ernesto a explicar como fazer um dos seus

    remdios contra o reumatismo (2006). Foto: X. Muoz.

    Nos ltimos anos, a sua famlia decidira trasladar-lhe mais perto da Cidade de So Tom, pois temiam que a sua vida acabasse antes do devido. Entre alguns insulanos infelizmente h a crena que a pessoa que atinge uma longa vida, vive sozinha e, alm disso, tem relao com os secretos do mato pode ter qualquer pacto de feitiaria diablica e que isso por acaso fosse custa da sorte dos mais jovens (maus olhares, m sorte, tomada de santo, etc, histeria coletiva...), pelo qual se tm dado casos de mortes de pessoas idosas por envenenamento o mesmo por linchamentos perpetrados por multides enfurecidas [como o que aconteceu em 2001, em Riboque, um dos bairros

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    mais populares da Cidade de So Tom]. Mesmo agora h quem pensa que a razo da sua longevidade basea-se na sua alimentao e contato com folhas medicinais, eixo de uma grande simbiose com a natureza e com os espritos do mato. Com tudo, Ernesto trasladou-se ao distrito de gua Grande e ficou, sempre acompanhado, entre as residncias do seu filho em Boa Morte, da sua filha no campo de Mesquita, e finalmente em Bob-Forro, com a sua irm Sam Vernica (tambm afamada mdica tradicional e parteira), onde seguia a exercer a sua profisso e a dedicar as melhores atenes e simpatias s suas vizinhas.

    Sum Ernesto conversando com Xavier Muoz em Boa Morte (2010). Imagem: Joana Gusmo. Com tudo, Ernesto era homem inquieto. Gostava de partilhar dos relatos dos forasteiros; queria conhecer mais e mais, mesmo das plantas medicinais das ribas do Mediterrneo, pois creia poder encontrar novos remdios, novas misturas, e frequentemente pedia que lhe fornecesse de ervas do meu pas, livros de botnica ou direitamente o levasse para Barcelona, ainda que fosse dentro da mala, bem escondido. Deveria ter-lhe levado, pois, decerto, em Europa ele houvesse sido o rei da palavra, da experincia toda, para mostrar outra viso da vida, na simpleza, no mais profundo respeito s pessoas e aos seres vivos, s coisas, ao ser universal. Entretanto partilhvamos essa garrafa de vinho, e ele reservava um fundo para mais tarde, talvez para dormir bem, bem quentinho, para lutar com o frio orvalho e a umidade, para deixar de pensar nos outros e faz-lo um bocado no seu futuro e mesmo no legado do seu conhecimento. Num dos nossos ltimos encontros lhe ofereci o meu chapu Panam, que lhe deu um ar distinguido, bonito, a realar essa sua elegncia espontnea de cavaleiro crioulo de limpa e engomada camisa branca, pronto para danar socops ou coladeiras no fundo. Ficou to contente com o velho chapu que no me deixou as mos em uns quantos minutos, e, depois de olhar-me fixamente, seriamente, quebrou a firmeza e a seriedade com uma palmada e um sorriso, tomou-me pelo pescoo e abraou-me to forte como nunca o meu

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    pai me tivesse abraado. E falou: Voc j comeu saf. Sim, inapelvel, doutor Xavier, que voc est j ligado a esta terra, s vezes com bu de poeria, s vezes molhada e lamacenta de mais, mas sempre cheia de beleza, bondade e paixo. As minhas mos ficaram cheias de p de cascas que ele prprio tinha pisado e misturado com vinho. Esfregou-as bem e tambm nos meus braos, nos cotovelos, nos joelhos e tambm na cara: Voc fica aqui, meu caro. Aquela era a proteo da terra! Lembrei ento do meu pai e das vezes que eu deveria ter-lhe abraado com fora! Ernesto me participou da sua mais ntima preocupao, que no era nem a idade nem o medo morte, seno ter a cabea clara e a transmisso do conhecimento, pois entendia que, a diferncia do grande M Xinh, ele pouca escola tinha feito na vida, pois sempre ficou muito ocupado nos tratamentos (talvez porque nos ltimos decnios os curandeiros tinham muita mais populao a atender). Ficava tranqilo um bocadinho com as transcries do saber antigo nos livros de cincia, mas no completamente. De fato, as coisas tinham mudado e a tradio mdica desapreciada, reduzindo-se o nmero de aprendizes com vocao: a maioria agora se regia por outros valores onde o individualismo, a economia cobiosa e o consumismo prevaleciam frente responsabilidade social de outrora. De fato, a medicina nacional santomense, seja qual fosse tradicional ou convencional, precisa das possibilidades infinitas que do os bosques, e da inteligncia e dedicao dos sbios da terra, to responsveis como doutores. Com tudo, ao seu lado, um dos seus netos mais novos que escutava as nossas conversas, gordinho como um gug, pegou-lhe a mo. Ultimamente lhe ajudava com a bagatela e o pilo, e tambm a ordenar o seu laboratrio. Ernesto lhe acariciou a cabea com orgulho e sorriu esperanado. Alguma coisa da tradio ficava na famlia. Bibliografia para saber mais... BOYA-BUSQUET, Mireia, Rapport la nature et stratgies intgres de conservation et dveloppement. Le cas de So Tom et Principe, Tese de doutoramento, Montral, Universit de Montral, 2008, 419 pp. CASTAO, Ins, e SEIXAS, Luisa, Soya Kutu, Oficinas criativas sobre plantas medicinais em So Tom e Prncipe, em D Fala, blog, 16 Jun 2013. DD.AA., Tradio, feiticeiros, brutalidade, brbara sorte... (debates), em Grupo STP no Yahoo!Groups, 2001. DD.AA., Bruxas e gugs (debates), em Grupo STP no Yahoo!Groups, 2006. ESPRITO SANTO, Carlos Ben do, Sebastio dos Anjos do Rosrio, em Almas de elite santomense, Lisboa, Cooperao, 2000, pp. 309-310. ESPRITO SANTO, Joaquim do, Algumas plantas medicinais e venenosas de So Tom e Prncipe, em Boletim Cultural da Guin portuguesa, Centro de Estudos da Guin Portuguesa, vol.XXIV, n 96, Outubro 1969, pp. 917-940.

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    IRIN, So Tom e Prncipe: Adormea o vrus... e a preveno com ele, Irin News web page, 28 Set. 2007. LOPES, Mrio, Um imenso laboratrio farmacutico brota da terra em So Tom e Prncipe, em Global Voices, 31 Ago 2013. MADUREIRA, Maria do Cu (coord.), Estudo etnofarmacolgico de plantas medicinais de So Tom e Prncipe, Lisboa, Ministrio da Sade da RDSTP, 2008, 217 pp. MADUREIRA, Maria do Cu, Plantas medicinais e medicina tradicional de So Tom e Prncipe, em Actas do Colquio Internacional So Tom e Prncipe numa perspectiva interdisciplinar, diacrnica e sincrnica, Lisboa, ICSTE-IUL + CEA-IUL, 2012, pp. 433-453. MADUREIRA, Maria do Cu; MARTINS, Ana Paula, et al., Medicinal Plants and Traditional medicine in the Gulf of Guinea: So Tom e Prncipe Islands, em SINGH, J.N.; GOVIL, J.N.; HASHIMI, S., & SINGH, G. (eds.), Recent Progress in Medicinal Plants, vol. 7, Ethnomedicine and Pharmacognosy (part II), New Delhi, India Reasearch Book Centre, 2002. MARTINS, Ana Paula, Etnofarmacologia e leos essenciais de plantas medicinais de S. Tom e Prncipe, Coimbra, tese de doutoramento em Farmcia, 2002, 342 pp. MUOZ-TORRENT, Xavier (coord.), Atlas de So Tom e Prncipe. Cartas, diagramas e informao geogrfica, web, Barcelona, Associao Cau, Amigos de So Tom e Prncipe, 2010-2013. ROSEIRA, Lus Lopes, Plantas teis da flora de So Tom e Prncipe. Medicinais, industriais e ornamentais, So Tom, Servios Grficos da Liga de Combatentes, 1984, 100 pp. SALVATERRA, Jernimo, Mangungo. Mitos e cultura santomenses, So Tom, Cooperativa de Artes Grficas, 2001, 205 pp. VALE, Filipa F., e OLEASTRO, Mnica, Overview of the phytomedicine approaches against Helicobacter pylori, em World Journal of Gastroenterology, 20, 21 Maio 2014, pp. 55945609. VALVERDE, Paulo, Mscara, mato e morte em So Tom. Textos para uma etnografia de So Tom, Oeiras, Ceita Ed., 2000, 418 pp. WORLD HEALTH ORGANISATION, National Policy on Traditional Medicine and regulation of Herbal Medicines: Report of a WHO Global Survey, Ginebra, WHO, 2005, 168 pp.