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OS MISTÉRIOS DE PAULO LEMINSKI

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    Anu. Lit., Florianpolis, v. 21, n. 1, p. 154-169, 2016. ISSNe 2175-7917

    http://dx.doi.org/10.5007/2175-7917.2016v21n1p154

    OS MISTRIOS DE PAULO LEMINSKI

    Ricardo Gessner* Universidade Estadual de Campinas

    Resumo: Ademais de recorrncias estilsticas na poesia de Paulo Leminski (1944-1989),

    aspecto at o momento largamente estudado pela crtica especializada, tambm possvel

    identificar recorrncias temticas. Nesse sentido, este trabalho prope-se a analisar e

    interpretar a temtica do mistrio, articulada em dois poemas: rio do mistrio, e

    Suprassumo da Quintessncia, publicados, respectivamente, em Distrados Venceremos

    (1987) e La vie en close (1991). Com isso, sero feitos inicialmente uma anlise e uma

    interpretao de cada poema, verificando em que medida h um dilogo entre eles e, desse

    modo, conseguir subsdios para constituir uma hermenutica para o que pode significar a

    recorrncia dessa temtica e desenvolv-la na anlise e interpretao do poema

    Adminimistrio, tambm pertencente ao livro Distrados Venceremos. Para desenvolver o

    trabalho, o ponto de partida sero os prprios textos poticos, sendo que referenciais tericos

    sero utilizados como apoio para o desenvolvimento da discusso, enfocando, principalmente,

    a obra ensastica do prprio Paulo Leminski, sobre o que o poeta pensa e desenvolve acerca

    da temtica do mistrio.

    Palavras-chave: Literatura brasileira. Poesia Contempornea. Paulo Leminski.

    Me recuso a viver num mundo sem sentido.

    Paulo Leminski

    Introduo

    Quando folheamos a obra potica de Paulo Leminski, em alguns momentos

    percebemos a recorrncia de certas temticas. E mais do que isso, parece que h uma

    retomada de um mesmo assunto em momentos e poemas diferente. Um desses casos se d

    entre dois poemas: um sem ttulo, publicado no livro Distrados Venceremos (1987) e outro

    intitulado Suprassumos da Quintessncia, publicado no livro pstumo La vie en close

    (1991). Vejamos:

    rio do mistrio

    o que seria de mim

    se me levassem a srio? (LEMINSKI, 1987, p. 116)

    * Mestre em Teoria e Histria Literria pelo programa de ps-graduao do Instituto de Estudos da Linguagem,

    Unicamp; doutorando em Teoria e Histria Literria pela mesma instituio, sob orientao do Prof. Dr. Marcos

    Lopes. Atualmente tambm professor colaborador na Universidade estadual do Norte do Paran, campus de

    Jacarezinho - PR. E-mail: .

    Esta obra est licenciada sob uma Creative Commons - Atribuio 4.0

    Internacional..

    http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/

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    E, respectivamente:

    SUPRASSUMO DA QUINTESSNCIA

    O papel curto.

    Viver comprido.

    Oculto ou ambguo,

    tudo o que eu digo

    tem ultrassentido.

    Se rio de mim,

    me levem a srio.

    Ironia estril?

    Vai nesse nterim,

    meu inframistrio. (LEMINSKI, 2004, p. 38)

    A possibilidade de relacionar os dois poemas no passou despercebida pela crtica.

    Fabrcio Marques, no livro Ao em flor A poesia de Paulo Leminski (2001), identificou e

    discutiu dentro de sua proposta investigativa, que explorar as vrias facetas esttico-poticas

    identificveis na poesia de Leminski, principalmente no que tange o seu referencial

    intertextual:

    Da obra potica, pretende-se apresentar quatro das possveis dimenses que se

    descortinam aos olhos do leitor. Assim, articula-se a poesia (enquanto conciso,

    inveno, informao e conscincia semitica) com as ligaes de Leminski com

    uma forma oriental que teve seu auge no sculo XVII o hai-kai; com a Tropiclia

    (1967-68); com a vanguarda concretista (meados dos anos 50 at fins dos 60); e com

    a semitica. Esta ltima dimenso, alis, est intrinsecamente ligada anterior,

    como que complementando-a, pois a Poesia Concreta expressa a conscincia

    intersemitica e assimilao, pela criatividade, da Revoluo industrial

    (MARQUES, 2001, p. 30)

    Assim Fabrcio Marques constitui o que Maria Esther Maciel, no prefcio do livro,

    chamou de faces polidricas: cada face seria representativa de uma linha de fora

    especfica, passvel de ser identificada nessa poesia multifacetada. Importante enfatizar que

    essas faces so interdependentes na poesia de Leminski e tornam-se identificveis somente

    pelo corte analtico-crtico, como recurso para compreender como se constitui essa poesia.

    Dentro desse contexto, Fabrcio Marques apresenta e discute ambos os poemas.

    Segundo o autor, entre eles h uma transformao o primeiro transforma-se no segundo

    que ndice de um aspecto constituinte da poesia de Leminski:

    A transformao do poema no deixa dvidas quanto a uma insistncia no aporte

    metalingustico, uma necessidade de explicao da potica do autor, acarretando na

    utilizao frequente de recursos tais como a ironia e a metalinguagem enquanto

    fingimento potico. Como assinalado no poema, o inframistrio percebido

    justamente na ironia (Se rio de mim/ me levem a srio). Por outro lado, uma anlise

    superficial levaria a concluir que o fato de ter aumentado o poema nesses dois

    exemplos seria um abandono do rigor. Na verdade, esse procedimento efetuado por

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    Leminski pode significar que a conciso no tem a ver apenas com brevidade, mas

    tambm com exatido: as palavras que explodem, mais-que-perfeitas, no cu dos

    cinco mil sentidos (MARQUES, 2001, p. 93)

    Ou seja, a transformao indica uma insistncia metalingustica implicada numa

    reescrita. Isto , o que caracteriza a recorrncia do tema mistrio que os poemas so

    reescritos. Essa reescrita, por sua vez, ndice de uma preocupao do prprio poeta Paulo

    Leminski em constituir com exatido o seu texto potico: utilizar-se das palavras mais-

    que-perfeitas para constituir sua poesia com perfeio. Tal exatido, por sua vez,

    caracterizaria uma das faces dessa poesia polidrica, que seria a face do rigor. uma

    leitura que responde aos propsitos analticos de Fabrcio Marques, em delimitar a

    constituio esttica da poesia leminskiana. Seu estudo enfoca as relaes intertextuais, que

    so vertidas em linhas de fora.

    Dessa leitura podemos depreender que rio do mistrio e Suprassumos da

    Quintessncia seriam o mesmo poema, aspecto que revelaria uma atitude atenta do poeta ao

    escrever sua poesia. Por outro lado, no entram em discusso os efeitos de sentido que cada

    poema pode constituir. Diante disso, possvel problematizar a relao entre eles. Talvez

    olhando para os efeitos de sentido que cada poema constitui, seja possvel levar a discusso

    para outros caminhos que possam contribuir com outras maneiras de entender a poesia de

    Leminski. Se h uma recorrncia da temtica do mistrio, o que isso significa em termos de

    possibilidade hermenutica?

    Dois mistrios

    No ano de 1963 Leminski participou da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda,

    realizada em Belo Horizonte sob organizao de Affonso Romano de SantAnna. Foi quando

    o curitibano conheceu o trio concretista os irmos Augusto e Haroldo de Campos, e Dcio

    Pignatari contato que lhe rendeu a oportunidade de estrear como poeta no ano seguinte, em

    1964, na revista Inveno, mantida pelos poetas concretos. Da em diante Leminski passa a se

    preocupar em constituir sua prpria dico potica. Para tanto, articula um referencial amplo e

    ecltico, que abrange no apenas o Concretismo, mas perpassa o Tropicalismo, contracultura,

    poesia Beat, haikai japons; a Semitica de Charles Sanders Peirce, pensamento zen, para

    elencar alguns. Trata-se de um perodo que se estende de 1964 at o incio da dcada de 1980,

    quando Leminski publica em edies independentes dois livros: No fosse isso e era menos,

    no fosse tanto e era quase e Polonaises.

    Basicamente um perodo de formao, em que o poeta se preocupa em constituir

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    sua individualidade potica. Isso identificvel nas cartas enviadas a Rgis Bonvicino, que

    compreendem uma extenso de tempo entre meados de 1976 at o incio de 1980. Esse

    perodo de formao, por sua vez, recebe seu coroamento em 1983, com a publicao de

    Caprichos e Relaxos, seu primeiro lanamento atravs de uma grande editora: a Brasiliense.

    Naquele momento o livro lhe rendeu considervel popularidade, ao vender um nmero

    expressivo de exemplares e ter sucessivas reimpresses (VAZ, 2001).

    Por outro lado, o mesmo xito de vendas no se deu com Distrados Venceremos

    (1987) seu segundo livro de poemas editado pela Brasiliense. Quanto a essa divergncia,

    possvel associ-la a uma mudana de perspectiva por parte de Leminski, de um livro ao

    outro. Enquanto que em Caprichos e Relaxos parece ser o momento de conquista e

    consolidao de sua prpria dico potica a sntese entre rigor formal e acessibilidade,

    aspecto largamente explorado pela crtica atual , em Distrados Venceremos h um propsito

    bem delimitado:

    Nas unidades de Distrados Venceremos (1987), resultado do impacto da poesia de

    Caprichos e Relaxos (1983) sobre a fina e grossa ctis da minha sensibilidade lrica

    [...], acredito ter atingido um

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