Os Rubayat - Omar Khayyan - Livro

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  • 8/8/2019 Os Rubayat - Omar Khayyan - Livro

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    eBookLibris

    OS RUBAYATOmar Khayyan

    Verso em portugus deAlfredo Braga

    Os RubayatOmar Khayyan

    Verso em portugus de Alfredo Braga

    Verso para eBookeBooksBrasil.com

    Fonte Digitalhttp://www.alfredo-braga.pro.br

    Imagens:Edmund Dulac (1882-1953)Willy Pogany (1882-1955)

    Fonte digital:www.bpib.com

    2003 Omar Khayyan

    ndice

    Sobre as tradues dos Rubaiyat de Omar KhayyamAlfredo Braga

    O AutorAlfredo Braga

    OS RUBAYAT

    Noite, silncio, folhas imveis;imvel o meu pensamento.Onde ests, tu que me ofereceste a taa?

    Hoje caiu a primeira ptala.

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    Eu sei, uma rosa no murchaperto de quem tu agora sacias a sede;mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar,e que te fez desfalecer.

    Acorda... e olha como o sol em seu regressovai apagando as estrelas do campo da noite;do mesmo modo ele vai desvaneceras grandes luzes da soberba torre do Sulto.

    Omar Khayyam

    Sobre as traduesdos Rubaiyat

    de Omar Khayyam

    Alfredo Braga

    Octvio Tarqinio de Souza, Manuel Bandeira, Jamil Almansur Haddad e outros delngua portuguesa, ao se depararem com os Rubaiyat, procuraram fazer as suas

    tradues atravs daquelas de Edward Fitzgerald e tambm sobre as verses francesascomo as de Dulac, Grolleau, Toussaint e tantas outras, cada uma com os seus mritos,ou demritos.

    Num ensaio de Borges, onde se aborda a obra potica do persa, ele atribui aFitzgerald, antes do que a simples traduo, a quase incrvel e fantstica inveno dosRubaiyat, e comenta certas nfases, tanto da poca, como as do prprio autor, umerudito cavalheiro que depois de longas viagens por remotos lugares, tambm procuravaimpressionar os seus curiosos e pudicos leitores, e leitoras, em seus saraus e salesvitorianos.

    Fitzgerald preservou as rimas, mas carregou o texto com exagerados orientalismos eoutros estilismos esperados pelos seus contemporneos; depois os franceses, cada um sua maneira, foram insinuando os seus maneirismos; e depois os nossos, desde ento

    tm ido, de roldo, repetindo o justo pudor dos tradutores: aquele de se respeitar osoriginais. Mas, no caso dos Rubaiyat de Omar Khayyam, depois de novecentos anos,a que originais eles querem se referir? Aos romnticos floreios? Aos voleios e volteiosde um certo e afetado modo de se escrever poeticamente? Ora, mas acima de tudo, eantes de mais nada, no seria Khayyam quem nos devia interessar primeiro? Se assimfor, ser necessrio rever os textos em que o persa desenvolve os seus cristalinosenunciados de geometria, ou de lgebra; creio que ento amos compreender melhor avoz desse poeta exageradamente traduzido: pontual, concisa, elegante; e exatamente oque Borges nos aponta em seuRubaiyat. Repare-se na sobriedade do vocabulrio, na

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    simplicidade da construo e do fraseado: uma cuidadosa arqueologia da literatura, a recuperao, mais do que a mera transcrio, de um modo de ver, de pensar, dedizer. ORubaiyatde Borges a melhor orientao para se verter Khayyam para outrataa, sem perder o fino buqu, ou a cida agulha.

    Qualquer traduo uma opinio, e quase nunca o que pretendia ser; ser um

    reflexo daquilo que o tradutor alcana ver, ou pde ver. A de Manuel Bandeira nosustenta o rigor e a finura que subsistem nos rubaiyat, distncia de nove sculos e soba camada de muitas tradues sobrepostas. A adio de regionalismos, como o seino (e aquelas reticncias...) soa mal, no quadra, apenas outra reduo infeliz. Decerto modo prefiro a de Octvio Tarqnio de Sousa: simples, amorfa, ou ingnua econfusa, mas ainda guarda parte da perplexidade e da lcida amargura de Khayyam,sem perder o ritmo de ponto e contra ponto entre as metforas e as imagens.

    Um homem erudito e sofisticado, que sabe da assombrosa trajetria dos astros, dapureza da rigorosa geometria e da elegante lgebra, que percebe a inconseqentesoberba dos homens sbios (e a dos outros) e caminha entre rosas, tulipas, lindasmulheres e finos vinhos, provavelmente no ia se entregar a to imponente singeleza

    para falar do ltimo gesto, daquele ato inelutvel de um outro crepsculo:

    Cavaleiro que vejo ao longe na neblinaDo crepsculo, aonde ir? Sei no. Por ValesE montanhas? Sei no. Estar amanhestendido...Sobre a terra?... Ou debaixo da terra?... Seino.

    Creio que um Patativa do Assar, se fosse traduzir Khayyam, havia de achar outrasmaneiras de recontar aquela mesma inquietao, sem alterar simplicidade porrusticidade. Octvio Tarqnio, durante a sua convalescena, entre Cannes e Nice, emvez de decifrar palavras cruzadas, preferiu assim:

    Vejo um cavaleiro que se afastana bruma da tarde.

    Ir ele atravessar florestas,ou plancies ridas?Aonde vai? No sei.

    Amanh estarei deitadosobre a terra ou debaixo dela?

    No sei.

    Se formos ler osRubaiyat, em qualquer traduo, tambm encontraremos Pessoa, ou

    Whitmam, que no o traduziram, mas o conheciam. E quando Borges aproxima asnegras noites e os brancos dias do tabuleiro do xadrez, rifo de Omar , diz ele,talvez em resposta a este verso do persa: Somos os pees deste jogo do xadrez que

    Deus trama, e a este: Velho mundo, sob o passo do cavalo branco e negro dos dias edas noites, Omar Khayyam aflora.

    E continua, em outros poetas; est nos dias e nas noites dos setenta e cinco anos deWalt Whitmam, que tambm se estendem at ns, como ele queria, ou quando aqueleoutro de lngua espanhola, ou castelhana, diz: Neste vero completarei cinqenta anos;a morte me desgasta, incessante; Omar tinha escrito: Os meus cabelos esto brancos,

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    tenho setenta anos de idade; e isto: O tempo estraga a minha bela rosa; e naqueleoutro rabe, tambm colhido por Borges, em seuMuseu, que apesar do reconhecimentoe da glria diz:Oxal eu tivesse nascido morto.; essa mesma angstia aparece, deoutra maneira, nos versos de Khayyam: Feliz a criana que expirou ao nascer; mais

    feliz quem no veio ao mundo.; e ainda aparece, em outro lugar, com Ricardo Reis:

    To cedo passa tudo quanto passa!Morre to jovem ante os deuses quantoMorre! Tudo to pouco!

    Nada se sabe, tudo se imagina.Circunda-te de rosas, ama, bebe

    E cala. O mais nada.

    Ou esses versos ainda seriam de Omar Khayyam, noutraAutopsicografia deFernando Pessoa?

    So vrios poetas a falar, em vrias pocas, em vrios modos, em vrios lugares; maso que tm a dizer, e como dizem, to prximo, como se estivessem juntos, na mesmamesa daquela taverna, ou daquele bar. So esses os poetas que vo traduzindo a poesia.

    Quando Borges diz que os livros conversam entre si, atravs dos escritores, no estdivagando; o dilogo continua, claro, sereno, at por entre os rudos das tradues, e daaflita agitao das opinies, e dos estilos. E seguem, conversando, ao lado de Khayyame de Shakespeare (nem mrmore, nem ureos monumentos de reis ho de durar maisque estas rimas) e de outros que, apesar de tudo, resistem aos tradutores e aosatores... e queles portentosos diretores-tradutores mais as suas espantosas releituras.

    Omar Khayyan

    Omar Ibn Ibrahim El Khayyam nasceu em Nichapur, na Prsia, em 1040 e morreunessa mesma cidade em 1120.

    Khayyam significa, em persa, fabricante de tendas; ele adotou esse nome emmemria do pai que era fabricante de tendas.

    Alm de poeta Omar Khayyam foi matemtico e astrnomo. Dos seus livros decincia chegaram at ns o Tratado de Algumas Dificuldades das Definies de

    Euclides e asDemonstraes dos problemas de lgebra. Em 1074, diretor doObservatrio de Merv, fez a reforma do calendrio muulmano.

    Rubaiyat o plural da palavra persa rubai, e quer dizer quadras, quartetos. No rubai,o primeiro, o segundo e o quarto versos so rimados, o terceiro branco.

    Nesta traduo, no mantivemos a rima, nem a mtrica originais.

    Os Rubaiyat

    OmarKhayyan

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    Verso em Portugus deAlfredo Braga

    OS RUBAYAT

    Omar Khayyan

    1Nunca murmurei uma prece,nem escondi os meus pecados.Ignoro se existe uma Justia, ou Misericrdia;mas no desespero: sou um homem sincero.

    2O que vale mais? Meditar numa taverna,ou prosternado na mesquita implorar o Cu?

    No sei se temos um Senhor,nem que destino me reservou.

    3Olha com indulgncia aqueles que se embriagam;os teus defeitos no so menores.Se queres paz e serenidade, lembra-te

    da dor de tantos outros, e te julgars feliz.

    4Que o teu saber no humilhe o teu prximo.Cuidado, no deixes que a ira te domine.Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;no firas ningum.

    5Busca a felicidade agora, no sabes de amanh.Apanha um grande copo cheio de vinho,senta-te ao luar, e pensa:Talvez amanh a lua me procure em vo.

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    6No procures muitos amigos, nem busques prolongara simpatia que algum te inspirou;antes de apertares a mo que te estendem,considera se um dia ela no se erguer contra ti.

    7Alcoro, o livro supremo, pode ser lido s vezes,mas ningum se deleita sempre em suas pginas.

    No copo de vinho est gravado um texto de adorvelsabedoria que a boca l, a cada vez com mais delcia.

    8H muito tempo, esta nfora foi um amante,

    como eu: sofria com a indiferena de uma mulher;a asa curva no gargalo o brao que enlaavaos ombros lisos da bem amada.

    9Que pobre o corao que no sabe amare no conhece o delrio da paixo.Se no amas, que sol pode te aquecer,ou que lua te consolar?

    10Hoje os meus anos reflorescem.Quero o vinho que me d calor.Dizes que amargo? Vinho!Que seja amargo, como a vida.

    11

    intil a tua aflio;nada podes sobre o teu destino.Se s prudente, toma o que tens mo.Amanh... que sabes do amanh?

    12Alm da Terra

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