Otimização de fluxos em rede na gestão financeira do caixa

  • View
    226

  • Download
    7

Embed Size (px)

Text of Otimização de fluxos em rede na gestão financeira do caixa

  • Otimizao de fluxos em rede na gesto financeira do caixa: aplicao em

    uma empresa agroindustrial

    Jos Vincius de Avila Pachecoa,*, Reinaldo Morabitoba,*vinapacheco@yahoo.com.br, UFSCar, Brasil

    bmorabito@ufscar.br, UFSCar, Brasil

    Resumo

    Neste estudo, formulou-se o problema de gesto do fluxo de caixa encontrado em uma tpica empresa agroindustrial como um modelo de otimizao de fluxos em rede (com perdas e ganhos) proposto em Golden, Liberatore e Lieberman (1979). O objetivo maximizar o retorno dos recursos financeiros do caixa no final de um horizonte de planejamento multiperodos e finito. Dois exemplos so estudados aplicando-se programao linear: no primeiro, o modelo original de fluxos em rede usado para apoiar decises operacionais de fluxo de caixa e, no segundo, o modelo estendido para tratar de um planejamento ttico de pagamentos de emprstimos. Os modelos matemticos so resolvidos usando-se a ferramenta de otimizao de um software de planilha eletrnica bem conhecido na prtica de empresas. Os resultados numricos obtidos mostram que os modelos so flexveis e eficazes, sendo capazes de gerar solues to boas ou melhores do que as da tesouraria da empresa.Palavras-chaveGesto financeira do fluxo de caixa. Modelagem matemtica. Programao linear. Fluxos em rede. Agroindstria.

    1. Introduo

    Em sua verso mais simples, o problema de gesto do caixa (cash management ) preocupa-se em formular regras de deciso ligadas ao controle do nvel de saldo em caixa de uma organizao, a fim de atender s demandas por caixa ao custo mnimo total (BRIGHAM; HOUSTON, 2004; LEMES Jr.; RIGO; CHEROBIM, 2002; SETHI; THOMPSON, 1970). A gesto do fluxo de caixa (cash flow management), por sua vez, um problema financeiro mais complexo, que envolve administrar os investimentos de curto prazo, as entradas e as sadas de caixa, e os financiamentos de curto prazo, visando maximizao do retorno financeiro ao final do perodo de planejamento (GOLDEN; LIBERATORE; LIEBERMAN, 1979).

    Embora distintas, essas duas atividades no se fazem de forma isolada e, na prtica da gesto financeira, elas esto imbricadas. Enquanto o problema de gesto do caixa trata do suprimento de recursos financeiros nos momentos em que so demandados pelas atividades operacionais da empresa (GITMAN, 1987; VAN HORNE, 1974), sem

    levar em conta o processo evolutivo do fluxo de dinheiro, o problema de gesto do fluxo de caixa compreende a administrao de um conjunto de fatos estruturados no tempo. O foco deste artigo est no problema mais amplo, ou seja, na gesto do fluxo de caixa, no havendo a preocupao com a diferenciao dos dois problemas.

    O objetivo, neste estudo, propor uma ferramenta que possibilite otimizar o gerenciamento financeiro do fluxo de caixa, com nfase na aplicao em uma empresa tpica do setor agroindustrial. Para isso, utilizou-se um modelo de otimizao linear baseado no trabalho de Golden, Liberatore e Lieberman (1979), para representar as principais decises envolvidas no problema. Analisou-se a viabilidade da aplicao do modelo e o seu desempenho em situaes reais na prtica da tesouraria da empresa. Embora a abordagem seja aplicada em uma empresa agroindustrial, acredita-se que, com pequenas adaptaes, ela tambm possa ser utilizada em empresas de outros setores.

    *UFSCar, So Carlos, SP, Brasil Recebido 14/02/2008; Aceito 27/08/2009

    Produo, v. 20, n. 2, abr./jun. 2010, p. 251-264

    doi: 10.1590/S0103-65132010005000019

  • No caso da otimizao dos processos financeiros, a semelhana com as redes de fluxo natural devido aos seus sistemas de fluxo de caixa inter-relacionados e compostos por elementos que entretm relaes numerosas, diversificadas e complexas (CRUM; KLINGMAN; TRAVIS, 1979). Em particular, o modelo de programao linear utilizado pode ser visto como um modelo de fluxos em redes generalizadas, em que os fluxos nos arcos da rede podem ter ganhos ou perdas, conforme discutido adiante. Este modelo empregado em uma situao com as caractersticas apresentadas por Mulvey e Vladimirou (1992) na definio de problemas de planejamento financeiro.

    Uma ferramenta flexvel e efetiva para a gesto do fluxo de caixa, capaz de capturar os problemas enfrentados pelos gerentes financeiros no processo de tomada de decises e apta a dimensionar os fluxos de recursos monetrios possibilita um aperfeioamento no processo de otimizao do gerenciamento do caixa. Para Assaf Neto e Silva (1997), uma adequada administrao dos fluxos de caixa pressupe a obteno de resultados positivos para a empresa, devendo ser focalizada como um segmento lucrativo para seus negcios. A melhor capacidade de gerao de recursos de caixa promove, entre outros benefcios empresa, menor necessidade de financiamento dos investimentos em giro, reduzindo seus custos financeiros.

    Horizonte de planejamento definido como o tempo em que a empresa planeja sua gesto do caixa, lembrando-se que o conceito de horizonte rolante est presente na prtica do gerenciamento do fluxo de caixa. O horizonte de planejamento aqui considerado multiperodos e finito, e recalculado na medida em que o primeiro perodo realizado, revendo-se os valores previstos e reavaliando as decises anteriormente tomadas (SANVICENTE; SANTOS, 2000). Nesta reviso, incorpora-se um novo perodo ao final do horizonte de planejamento anterior e, assim por diante, repete-se o processo, perodo a perodo.

    Ao analisar as condies da empresa estudada e de seu ambiente institucional e organizacional, nota-se um alto grau de certeza nas previses de entradas e sadas de caixa. As entradas de caixa derivam das vendas em curto prazo a outras empresas do mesmo segmento, que adquirem matria-prima para os respectivos processos operacionais. A regularidade e a uniformidade dos pedidos dos clientes permitem tesouraria da empresa estudada projetar os valores a receber com grande acurcia. Com relao s sadas de caixa, no existe dificuldade em projet-las, j que a negociao com os fornecedores tem prazos definidos em contratos tpicos dos sistemas agroindustriais brasileiros (SAGs), como define Aguiar (1999).

    Neste trabalho, so estudados dois exemplos de gesto de fluxo de caixa: o primeiro envolve a aplicao direta do modelo de otimizao de Golden, Liberatore e Lieberman (1979) para apoiar decises operacionais na gesto do caixa da empresa; o segundo envolve uma adaptao do modelo para abranger o planejamento ttico de amortizaes de financiamentos na gesto do caixa. Esses exemplos so testados em situaes reais e resolvidos por meio da ferramenta solver do Excel, amplamente utilizada nos ambientes de gesto financeira das empresas (GROSSMAN, 2007). A flexibilidade do modelo em atender mais de um tipo de situao e a capacidade de gerar solues to boas ou melhores que as praticadas na empresa so evidenciadas por meio de exemplos numricos. Essas contribuies que este estudo espera trazer atendem s necessidades do mundo real e esse um critrio de relevncia da pesquisa acerca da soluo do modelo, conforme enfatizado em Bertrand e Fransoo (2002).

    Esse trabalho est assim organizado: na seo 2, apresenta-se a reviso de alguns modelos da literatura utilizados na gesto do fluxo de caixa. Para que o texto fique autocontido, o modelo de fluxos em redes de Golden, Liberatore e Lieberman (1979) resumidamente apresentado na seo 3. Na seo 4, estuda-se a aplicao do modelo original nos processos de fluxo de caixa da empresa em questo, para apoiar decises operacionais em que os perodos do horizonte de planejamento so dias. Na seo 5, o modelo adaptado a um caso real da empresa com programao de amortizaes, para apoiar decises tticas em que os perodos do horizonte de planejamento so meses. Por fim, na seo 6, so apresentadas as consideraes finais deste estudo e as perspectivas para pesquisas futuras.

    2. Reviso bibliogrfica

    A seguir, so revisados alguns modelos da literatura em finanas para representar problemas de gesto do caixa e gesto do fluxo de caixa. O reconhecimento do trade-off entre manter recursos em caixa e convert-los em um ativo mais rentvel foi primeiramente tratado por Baumol (1952), ao adaptar o conceito de lote econmico gesto do caixa. Pesquisas mais recentes apontam esse trade-off como a explicao para a manuteno de caixa pelas empresas (OPLER et al., 1999). O objetivo que norteia o uso desses modelos a adoo de determinado nvel de caixa, que a empresa deve manter como referncia para suas operaes financeiras. Tais abordagens envolvem mtodos diferentes para o

    252Pacheco, J. V. A. et al.

    Otimizao de fluxos ... uma empresa agroindustrial. Prod. v. 20, n. 2, p. 251-264, 2010

  • clculo desse montante que o caixa da empresa deve atingir. Algumas dessas abordagens podem ser encontradas nos exames de Sousa e Barros (2000), Sousa e Abrantes (1999) e Villalba e Sousa (2001).

    Convm observar que o estudo da gesto do caixa foi uma das primeiras reas de aplicao dos modelos de pesquisa operacional (MULVEY, 1994) e que, segundo Ashford, Berry e Dyson (1988), a tendncia dominante da literatura financeira no enfatizou realmente a questo do capital de giro. Muitos livros especficos dessa rea simplesmente oferecem uma coleo de instrumentos de deciso em torno do modelo do lote econmico. Dois trabalhos de reviso dos modelos determinsticos de gesto do caixa podem ser encontrados em Gregory (1976) e Srinivasan e Kim (1986).

    Robichek, Teichroew e Jones (1965) desenvolveram um modelo para a tomada de decises de financiamento de curto prazo por meio de programao linear, para determinar quanto e quando obter recursos de um grupo de fontes alternativas de financiamento. Foram estudadas dez combinaes de fontes, bem como o investimento do excedente de caixa. A estratgia financeira tima obtida para cada perodo do horizonte de planejamento resolvendo-se um modelo de programao linear multiperodos. So assim definidos, para cada perodo, os montantes timos de cada fonte e do excedente de