P a r e c e r d o C i c l a v e i r o s o b r e a o p e r ... ?· P a r e c e r d o C i c l a v e i…

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Parecer do Ciclaveiro sobre a operao Criao de Rede Ciclvel do PEDUCA e o trajecto ciclvel entre a Estao de Comboios e a Universidade de Aveiro Relativamente recente divulgao pela autarquia de Aveiro da adjudicao do projecto de execuo do trajecto ciclvel entre a Estao de Comboios e a Universidade de Aveiro, passando este trajecto pelo Centro de Congressos, parte da operao Criao de Rede Ciclvel inserida no Plano de Mobilidade Urbana Sustentvel do Plano Estratgico de Desenvolvimento Urbano da Cidade de Aveiro (PEDUCA), o Ciclaveiro emite o seguinte parecer, observaes e comentrios: PEDUCA Saudamos que, numa cidade que tem continuamente acumulado atrasos no que diz respeito mobilidade activa (a p e em bicicleta) e humanizao do espao pblico relativamente ao resto da Europa, incluindo a nossa vizinha Espanha, e mesmo a vrias outras cidades portuguesas, apesar de possuir condies naturais e dimenso territorial privilegiadas para a utilizao da bicicleta, o Plano de Aco de Mobilidade Urbana Sustentvel do PEDUCA tenha afectado uma parte dos seus recursos para a operao Criao de Rede Ciclvel. No entanto, perante esta oportunidade criada pelo financiamento a partir de fundos comunitrios, a dimenso e relevncia do PEDUCA e o seu enorme potencial para despertar uma viso e relao mais actuais de Aveiro com os modos activos de deslocao, lamentamos profundamente em todo o processo do PEDUCA e nas vrias operaes que dele constam a recorrente falta de informao, ausncia de auscultao de interessados e de abertura participao cvica, inexistncia de discusso pblica e falta de fundamentao das opes, atitudes que no se coadunam com as prticas modernas de governao pblica.

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Rede Ciclvel A bibliografia especializada nas matrias de infraestruturas ciclveis consensual em indicar que deve ser abandonada a ideia ultrapassada de ciclovia-corredor isolada e a aposta ser feita em redes ciclveis servindo vrias origens e destinos. Ser fcil de perceber que, tal como acontece com a infraestrutura rodoviria, corredores servindo apenas os seus extremos apresentariam utilidade bastante limitada. Alis, o conceito extensvel a outros sistemas de transporte e distribuio, como por exemplo de gua e de energia elctrica. Segundo a organizao holandesa CROW - technology platform for transport, infrastructure and public space, autora de um dos manuais internacionalmente mais conceituados e utilizados para o projecto de infraestruturas para bicicletas [1]:

- No processo do desenho de infraestruturas para bicicletas o desenvolvimento da rede ciclvel a actividade mais importante.

- S ser possvel um bom desenho de uma interseco ou de um trajecto ciclvel quando o/a projectista esteja consciente da funo desse elemento dentro da rede ciclvel como um todo.

A rede ciclvel deve ser coerente, directa, segura, cmoda, atractiva, acessvel e contnua [1], e dever passar por uma ponderada e bem-sucedida combinao de distintas solues, como:

- ciclovias bidireccionais fisicamente segregadas do trfego motorizado, - faixas ciclveis (cycle-lanes) unidireccionais em cada lado da rua com diferentes

possveis nveis de segregao, - contra-fluxos (duplo sentido para velocpedes em ruas de sentido nico para o

trfego motorizado) e, - vias partilhadas com o trfego automvel com limites efectivos de velocidade de 30

km/h ou menos, de acordo com as caractersticas de volume e limite efectivo de velocidade pretendidas para essas vias e outras condicionantes [2]. Estas podem e devem ser combinadas com, e antecedidas at de, muitas outras opes possveis, tais como: ajustar sistemas de semforos, reduzir o volume de trfego motorizado num dado percurso, reduzir a sua velocidade, alterar o perfil de uma dada via, modificar uma interseco, etc. [1]. Muitas destas solues implicam baixos investimentos e passam apenas pelo reconhecimento dos benefcios dos modos activos de deslocao face aos meios motorizados individuais ou, pelo menos, por estabelecer uma distribuio de espao mais equitativa entre os vrios modos de transporte. Os resultados da participao na edio de 2017 do European Cycling Challenge demonstram como as deslocaes em bicicleta na cidade de Aveiro so feitas numa rede de intrincada e fina malha e como os trajectos preferencialmente seleccionados pelos ciclistas participantes correspondem aos principais eixos e artrias da cidade, Fig. 1, nomeadamente:

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Av. Dr. Loureno Peixinho - Rua do Clube dos Galitos, Av. 5 de Outubro - Av. Santa Joana - Av. Artur Ravara, Rua do Batalho de Caadores 10 - Av. 25 de Abril / Rua de So Sebastio / Av.

Arajo e Silva - Rua Mrio Sacramento, ao longo dos quais se encontram localizados diversos e importantes pontos geradores e atractores de deslocaes.

Fig. 1: Heatmap das deslocaes em bicicleta na cidade de Aveiro durante o ms

de Maio de 2017 registadas no mbito do European Cycling Challenge [3]. (imagem retirada do website do ECC em 8 de Junho de 2017)

Trajecto ciclvel entre a Estao de Comboios e a Universidade de Aveiro A soluo divulgada pela autarquia para o trajecto ciclvel entre a Estao e a Universidade de Aveiro passando pelo Centro de Congressos, peca pela inexistncia de estudos tcnicos que a sustentem. Alm disso, usar um programa de financiamento de uma rede ciclvel para a construo de um simples trajecto ciclvel perifrico reflecte claramente a ausncia de planeamento e de uma estratgia integrada para a mobilidade em bicicleta em Aveiro. A soluo avanada sofre de importantes debilidades, sendo claramente inferior a outras possveis solues que se traduziriam em melhores resultados com o mesmo investimento.

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Um percurso entre a Estao e a Universidade pelo Centro de Congressos, serviria basicamente apenas esses dois extremos, com um potencial nmero de utilizadores consideravelmente inferior a um percurso mais central. Esta soluo no serviria as deslocaes pendulares de quem habita no centro da cidade e estuda ou trabalha na Universidade. No serviria as deslocaes pendulares, ou ocasionais, de quem se desloca para Aveiro de comboio e pretende dirigir-se para o centro da cidade, nem de quem habita no centro da cidade e se desloca diariamente ou ocasionalmente para a Estao. No serviria, ainda, as deslocaes feitas para e no centro da cidade, onde existe todo o tipo de comrcio e servios, com os impactos para os utilizadores de bicicleta assim como para a actividade econmica local . 1

Um percurso lateral ao centro da cidade, afastando ciclistas do centro e dos equipamentos atrs mencionados seria uma oportunidade perdida de contribuir para a humanizao, vitalidade e imagem moderna da prpria cidade proporcionadas pelo aumento do nmero de utilizadores de bicicleta assim como pela prpria visibilidade da bicicleta como modo de transporte urbano sustentvel e moderno privilegiado. Seria, tambm, uma oportunidade perdida para a pacificao do trfego motorizado na cidade motivada quer pela presena e circulao de ciclistas quer pelas alteraes infraestruturais que a interveno de implementao do percurso ciclvel requer. Um percurso perifrico, pelo Centro de Congressos, seria ainda menos apelativo devido sensao de insegurana provocada pelo facto de atravessar uma zona mais isolada, com menos iluminao e menos frequentada, especialmente durante os meses de Inverno de manh cedo e final da tarde e noite. Esse percurso incluiria a maior e mais longa subida da cidade de Aveiro, quando sabido que quem faz uso utilitrio da bicicleta tipicamente evita esse tipo de contrariedades orogrficas optando por outras alternativas mesmo que mais longas. A bibliografia actualmente existente sobre estas matrias de planeamento, projecto e construo de redes e percursos ciclveis, com abordagens desde mais conceptuais at aos diversos pormenores prticos, abundante - da qual inclumos na bibliografia alguns exemplos principalmente de instituies de referncia de diversos pases [1, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11], aos que se somam uma vasta quantidade de manuais e normas de boas prticas desenvolvidos por autoridades de inmeras cidades mundiais - pelo que no se justifica que em pleno sculo 21 sejam ainda cometidos erros graves nestas matrias. Assistimos com grande preocupao e profundo desagrado a esta actuao por parte da autarquia, que demonstra um total desalinhamento com o novo paradigma de mobilidade e de viso de futuro para as cidades. A proposta avanada de um percurso perifrico em detrimento de um trajecto mais central consequente de no querer retirar prioridade ao automvel, reflectindo que a autarquia continua focada num modelo ultrapassado e desadequado aos tempos actuais da aceitao da dependncia do automvel particular, em

1 A European Cyclists Federation calcula em 150 milhes de Euros o aumento do volume de vendas do comrcio local se a taxa modal de utilizao de bicicleta em Por