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Paisagem material, paisagem simbólica e identidade no concelho

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    Jlia Carolino*Teresa Pinto-Correia*

    Anlise Social, vol. XLVI (198), 2011, 89-113

    Paisagem material, paisagem simblicae identidade no concelho de Castelo de Vide**

    O artigo incide sobre a relao entre paisagem e identidade social no contexto dapresente transformao e reinveno do espao rural. Discutem-se os resultados e ametodologia de um estudo multidisciplinar que mobilizou conhecimentos tanto daantropologia como da geografia. Com base numa tipologia da paisagem e em narra-tivas pessoais e do lugar, equaciona-se o papel da paisagem como operador simblicona produo de identidades locais em Castelo de Vide (Norte alentejano). Identificam--se e descrevem-se os eixos de diferenciao simultaneamente espacial e social queconsubstanciam, neste caso, a relao dinmica entre paisagem e identidade local.

    Palavras-chave: Castelo de Vide; paisagem; identidade local; ruralidade.

    Material landscape, symbolic landscape, and identity in themunicipality of Castelo de VideThis article addresses the impact of landscape and social identity on contemporarytransformations and the reinvention of rural space in Castelo de Vide (North Alentejoregion, Portugal). We describe a multidisciplinary research method combininganthropology and geography, and present the findings obtained. Combining alandscape typology with personal narratives of place social-cum-spatialdifferentiation allows us to explore relationships between landscape and localidentity as a dynamic process in the region.

    Keywords: Castelo de Vide; landscape; local identity; rurality.

    INTRODUO

    Este artigo ocupa-se da relao entre paisagem e identidades locais, articu-lando os olhares distintos da geografia e da antropologia. Com base numatipologia da paisagem e em narrativas pessoais e do lugar, equaciona-se o papelda paisagem como operador simblico na constituio da comunidade local no

    * ICAAM, Universidade de vora, Plo da Mitra, apartado 94, 7002-774 vora, Portugal.e-mail: [email protected] e [email protected]

    ** A pesquisa que aqui se apresenta beneficiou do apoio da Fundao para a Cincia ea Tecnologia, no mbito da bolsa da ps-doutoramento atribuda a Jlia Carolino (SFRH/BPD/29086/2006) e do projecto MURAL (POCI/AGR/59832/2004) sobre multifuncionalidade da

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    Jlia Carolino, Teresa Pinto-Correia

    concelho de Castelo de Vide (Norte alentejano). Dado o papel histrico daagricultura na construo da paisagem alentejana, procura-se entender tambmqual o lugar desta actividade na negociao contempornea de identidadeslocais, num contexto rural como o de Castelo de Vide. Em termos mais vastos,o artigo pretende mostrar a utilidade de um enfoque na paisagem para o estudoda transformao em curso no espao rural.

    Se durante um perodo que culminou, em Portugal, em meados do sculoXX, o rural podia ser plausivelmente retratado em termos de uma coinci-dncia entre espao, sociedade e agricultura (Baptista, 1996), hoje tornou-seevidente que a agricultura tende a perder a centralidade que detinha. Nointerior do pas, esta situao tem levado a equacionar o problema do aban-dono da terra. Num estudo recente, Pinto-Correia et al. (2006) reflectem, noentanto, sobre os limites da utilizao deste conceito, na medida em que omesmo no permite diferenciar os vrios processos de transio em curso(Wilson, 2007), os quais tanto podem levar ao abandono da terra, a mudan-as no seu uso, ou ainda ao abandono das povoaes locais. A noo deabandono no permite, igualmente, pensar positivamente transformaes nagesto da terra que possam corresponder a outros usos da paisagem, desig-nadamente a usos recreativos de gnese urbana (Pinto-Correia e Primdahl,2009; Selman, 2006; van der Ploeg e Marsden, 2008). Em alternativa, estesautores propem uma perspectiva territorial na anlise das transformaes daagricultura, que considere no seu conjunto diversas formas de gesto daterra e, assim, de articulao entre espao e sociedade (van der Ploeg eMarsden, 2008).

    Castelo de Vide, ao reunir condies especialmente atractivas ligadas crescente importncia do turismo cultural e ambiental e reconfigurao doscampos como espaos de lazer, proporciona um contexto interessante parapensar a relao entre identidade local, paisagem e mudana num Alentejomarcado por transformaes na relao entre o rural e o urbano (Carmo,2007 e 2008; Raminhos, 2004). Neste texto, propomo-nos contribuir para taldebate olhando para a negociao dinmica entre a identidade local e o modocomo ela se liga a noes de ruralidade, j menos centradas na agricultura.Especificamente, consideraremos a mobilizao da paisagem material para ademarcao de fronteiras simblicas a partir das quais ganham vida diferen-ciaes que so simultaneamente sociais e espaciais.

    Iniciamos o texto com uma breve exposio dos conceitos e metodolo-gias utilizados na pesquisa. De seguida apresentamos uma panormica sobre

    paisagem rural e preferncias expressas pelos vrios utilizadores, coordenado por Teresa Pinto--Correia. As autoras agradecem a todos os que, em Castelo de Vide, acolheram e apoiaramactivamente esta investigao. Um agradecimento especial a Carolino Tapadejo, Tiago Malatoe Antnio Pita pelo apoio prestado a Jlia Carolino durante a sua estadia no concelho.

    Recebido para avaliao a 11-12-2009. Aceite para publicao a 29-06-2010.

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    Paisagem e identidade no concelho de Castelo de Vide

    o concelho de Castelo de Vide, identificando a tipologia da paisagem queconstituiu ponto de partida para este estudo. Estaremos ento em posio deconsiderar como entendem os habitantes do concelho a diferenciaoterritorial apontada pela referida tipologia, e o papel que esta desempenha naforma como imaginam e negoceiam o lugar e a comunidade. Por ltimo,sero abordadas percepes da mudana social associadas paisagem, de-tendo-se o artigo, em particular, sobre os novos sentidos da agricultura nomodo como a ruralidade pensada no concelho em anlise.

    CONCEITOS E METODOLOGIA

    O estudo cujos resultados aqui se apresentam tomou como ponto departida o reconhecimento pelos habitantes de Castelo de Vide da existnciade um lugar. Para os residentes no concelho, a existncia simultnea deum lugar chamado Castelo de Vide, e de um conjunto distinto de pessoas aele ligado os castelo-videnses , uma evidncia social, resultante de umimaginrio que justape territrio, cultura e identidade e que encara o lugarcomo um todo que se delimita territorialmente e ao qual se associa um dadopovo (Anderson, 1991).

    Por lugar entendemos aqui uma entidade espacial simbolizada comonica e associada experincia situada, concreta e singular, reportada a umsujeito. Esta abordagem filia-se na filosofia fenomenolgica de Casey, paraquem o lugar (place) se constitui na, e constitutivo, da prpria experinciade ser-no-mundo (Casey, 1993, 1996 e 1998). A noo de fronteira simb-lica que mobilizamos para este texto surge, na perspectiva deste autor,associada ideia do horizonte intrinsecamente social e cultural que conferecoerncia experincia vivida do espao, que sempre, antes de mais, umaexperincia do lugar. Na acepo Heideggeriana, que cara a Casey, e quese adopta tambm aqui, a fronteira corresponde noo de limite como umpoder positivo, a partir do qual algo inicia a sua presena (Casey, 1998,p. 262).

    Esta nfase nas fronteiras simblicas (e vividas), as quais instituem olugar, vem ao encontro da perspectiva defendida por Gupta e Ferguson(2001 [1997]) de que a identidade no um atributo fixo de sujeitos indi-viduais ou colectivos, mas uma relao de diferena. A identidade existe namedida em que se pratica, sendo nessa prtica que podemos identificar oseixos que lhe do sentido. Assim, no prprio processo de afirmao dolugar como espao de identidade que une quem est dentro, e diferenciaquem est fora, que os sujeitos se constituem como locais.

    A relao entre paisagem e identidade local , deste modo, tratada aquiatravs de uma ateno s fronteiras conceptuais, simultaneamente sociais e

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    Jlia Carolino, Teresa Pinto-Correia

    espaciais, que instituem o lugar e que, ao mesmo tempo, actuam comovectores de produo de subjectividades locais. Atendendo a que se trata deum processo sempre renovado de produo de identidade, uma ateno a taisfronteiras simblicas e ao modo como se reconfiguram incessantemente emcontexto inter-subjectivo permite-nos abordar, na perspectiva dos habitantesde Castelo de Vide, tanto o que visto como continuidade o que singu-lariza e perpetua , como a mudana.

    Por seu turno, a pesquisa aqui apresentada recorre a duas abordagenstericas da paisagem, combinando-as, e tem em conta a tenso que o con-ceito encerra (Conselho da Europa, 2000). Por um lado, a paisagem materialenquanto traduo espacial de unidades ecolgicas com atributos especfi-cos, as quais se transformam e modelam pelo uso feito pelo Homem, desig-nadamente atravs de sistemas agrcolas especficos, o que resulta nummosaico complexo de vrias manchas de ocupao do solo e de elementoslineares, com uma composio e configurao prpria em cada lugar (Burele Baudry, 1999; Forman e Godron, 1986). Por outro lado, a paisagem sim-blica, fruto do olhar que constitui o territrio como paisagem, suscitandoa investigao do universo cultural e histrico que informa esse olhar(Cosgrove e Daniels, 1994 [1988]). Na linha de Hirsch (1995), no entanto,no devemos esquecer que na vida social as concepes tendencialmenteideais que informam a paisagem simblica se relacionam com as prticassociais quotidianas que instituem o mundo vivido dos actores sociais. Maisdo que ser material ou simblica em si mesma, a paisagem encerra umatenso entre estas dimenses, tenso essa que as pe em relao a partir deum enfoque especfico na forma, enquanto faceta tangvel de processossocioespaciais. De acordo com Ingold (2000, p. 193), numa perspectivafenomenolgica a noo de paisagem [] pe a nfase na forma da mesmamaneira que o conceito de corpo enfatiza a forma e no o funcionament

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