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Panorama da Conservação dos Ecossistemas Costeiros · Panorama da conservação dos ecossistemas costeiros e marinhos no Brasil / Secretaria de Biodiversidade e Florestas/Gerência

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Panorama da Conservao dos Ecossistemas Costeiros

e Marinhos no Brasil

Braslia 2010

Ministrio do Meio AmbienteSecretaria de Biodiversidade e Florestas

Gerncia de Biodiversidade Aqutica e Recursos Pesqueiros

2

Edio e redaoAna Paula Leite Prates, Marco Antonio Gonalves e Marcos Reis Rosa

Mapeamento e clculo da representatividade Marcos Reis Rosa, Luiz Henrique de Lima, Raquel Barreto e Sandra Nunes Flores

Colaboradores Beatrice Padovani Ferreira, Dbora Oliveira Pires, Helen Gurgel e Jos Martins Silva Junior

Equipe tcnica da GBARoberto Galluci (coordenador), ngela Ester Magalhes Duarte, Danielle Blanc, Paula Moraes Pereira, Mariana de S Viana, Maria Raquel Carvalho e Matheus Marques Andreozzi

Arte e editorao eletrnicangela Ester Magalhes Duarte

Ficha Catalogrfi caHelionilda Oliveira

AgradecimentosAos fotgrafos que gentilmente cederam suas imagens; Didi, pela reviso bibliogrfi ca; Helen Gurgel e Marco Antnio Salgado, pelas tabelas e informaes do Cadastro Nacional de Unidades de Conservao; SECIRM, pelas fi guras da Amaznia Azul; aos colaboradores, pe-las sugestes dadas, e a todos especialistas participantes do processo de atualizao das reas prioritrias que, de alguma forma, subsidiaram essa avaliao.

Panorama da conservao dos ecossistemas costeiros e marinhos no Brasil / Secretaria de Biodiversidade e Florestas/Gerncia de Biodiversidade Aqutica eRecursos Pesqueiros. Braslia: MMA/SBF/GBA, 2010.148 p.; 29 cm.

ISBN 978-85-7738-142-5

P425

Catalogao na FonteInstituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis

Ecossistemas costeiros Brasil. 2. Ecossistema marinho. 3. Conservao da biodiver-sidade. 4. Biodiversidade. I. Ministrio do Meio Ambiente MMA. II. Secretaria de Biodiversidade e Florestas - SBF. III. Gerncia de Biodiversidade Aqutica e Recursos Pesqueiros GBA. IV. Ttulo. CDU(2.ed.)574.5

1.

Referncia:MMA. Gerncia de Biodiversidade Aqutica e Recursos Pesqueiros. Panorama da conservao dos ecossistemas costeiros e marinhos no Brasil. Braslia: MMA/SBF/GBA, 2010. 148 p.

3

Sumrio

Apresentao

A urgncia da conservao da biodiversidade na Zona Costeira e Marinha.................................................................................

1. Ecossistemas costeiros e marinhos no Brasil.........................

1.1. Caracterizao da Zona Costeira e Marinha................................1.2. Ecologia da Zona Costeira e Marinha..........................................

2. Legislao e polticas de gesto para a Zona Costeira e Marinha no Brasil..................................................................

2.1. Legislao especfica para a Zona Costeira e Marinha..................2.2. A Poltica Nacional para os Recursos do Mar (PNRM)...................2.3. O Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC)..................

3. Polticas de conservao para a Zona Costeira e Marinha

3.1. O Sistema Nacional de Unidades de Conservao (SNUC)............ 3.2. A Conveno sobre Diversidade Biolgica...................................3.3. O Plano Estratgico Nacional de reas Protegidas (PNAP)...........3.4. reas aquticas protegidas como instrumento de gesto pes-queira..............................................................................................3.5. A Conveno sobre Zonas midas (Conveno de Ramsar).........3.6. Outros projetos de conservao da biodiversidade costeira e ma-rinha................................................................................................

4. Avaliao da representatividade dos ecossistemas da Zona Costeira e Marinha...............................................................

4.1. Primeira avaliao das reas prioritrias para a conservao da biodiversidade na Zona Costeira e Marinha (1999).............................4.2. Atualizao das reas prioritrias para a conservao da biodi-versidade na Zona Costeira e Marinha (2006)....................................

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no Brasil...............................................................................

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5. Situao atual da representatividade dos ecossistemas costeiros no SNUC...............................................................

5.1. Metodologia de anlise da representatividade dos ecossistemas costeiros...........................................................................................5.2. Resultados da anlise da representatividade dos ecossistemas costeiros...........................................................................................

6. Situao da representatividade dos ecossistemas marinhos no Brasil...............................................................................

6.1. Obstculos avaliao da representatividade dos ecossistemas marinhos..........................................................................................6.2. Representatividade dos ecossistemas recifais rasos.....................6.3. O Sistema de Ecorregies Marinhas (MEOW).............................6.4. Resultados da anlise da representatividade do bioma marinho.

Perspectivas futuras: O que pode e deve ser feito?...................

Anexos......................................................................................

Referncias bibliogrficas.........................................................

Siglas utilizadas nesta publicao.............................................

Glossrio...................................................................................

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Nos ltimos anos a percepo do mundo sobre o estgio de degradao dos ecossistemas costeiros e marinhos aumentou substancialmente, motivando estudos e propostas de ao para con-ter e reverter as causas que conduzem ao comprometimento ambiental dessas regies. Acordos internacionais tm sido assinados para dar efetividade poltica a tais propostas, a maioria deles com a par-ticipao do Brasil.

Recentemente, a 10 Conferncia dos Pases Signatrios da Conveno de Di-versidade Biolgica (Nagoya, outubro de 2010) abordou a questo com profundi-dade, levando os pases a se comprome-terem com a reduo de prticas insus-tentveis de pesca e de outras atividades que causem impactos negativos na zona costeira e marinha, bem como aprovan-do, em seu Plano Estratgico 2011-2020, a meta de viabilizar pelo menos 10% das zonas costeiras e marinhas conservadas em reas protegidas, geridas com efi ccia e equidade por meio de sistemas ecologi-camente representativos.

inspirado pelo esprito de aprimorar a gesto e a conservao da extensa zona costeira e marinha brasileira que o Minis-trio do Meio Ambiente compilou, orga-nizou e agora publica este Panorama da Conservao dos Ecossistemas Costeiros e Marinhos no Brasil. Alm de reunir infor-maes sobre a legislao e as polticas federais para essa insubstituvel parcela do territrio do pas, o volume apresen-ta um conjunto consistente de dados e anlises que, de forma indita, apontam

quais ecossistemas j esto sufi ciente-mente protegidos por meio de unidades de conservao e quais as lacunas que merecem a ateno dos rgos incumbi-dos do planejamento e da gesto dessa regio.

Esse esforo empreendido pelo Mi-nistrio do Meio Ambiente, com o apoio de vrios parceiros institucionais, eviden-cia tanto os avanos quanto as lacunas existentes na proteo desses ambientes. Ao mesmo tempo, ressalta iniciativas que possam fortalecer as atuais polticas p-blicas de recuperao de estoques pes-queiros e a conservao e manuteno dos servios ambientais providos por es-sas reas.

Sucintamente, os resultados desse trabalho demonstram que, embora haja poucos ecossistemas costeiros sub-re-presentados no SNUC, o bioma marinho constitui a grande lacuna do sistema, demandando medidas urgentes visando o planejamento de sua conservao. Os dados aqui presentes sobre a conserva-o dos ambientes marinhos constituem um marco inicial para o aprofundamen-to de estudos e a formulao de medidas de conservao, como a criao de novas reas protegidas e de reas de excluso de pesca, instrumentos que tm se mos-trado bem-sucedidos no desafi o de pro-teger e recuperar a vida marinha.

Braulio Ferreira de Souza DiasSecretrio de Biodiversidade e Florestas

Apresentao

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A urgncia da conservao da biodiversidade na

Zona Costeira e Marinha

Durante a maior parte das ltimas dca-das, a preocupao de cientistas e conser-vacionistas de todo o mundo se concentrou prioritariamente na proteo dos ecossis-temas terrestres, entre outras razes, por-que os impactos sobre tais ambientes eram mais facilmente observveis. No entanto, de forma silenciosa e menos perceptvel, zonas costeiras, mares e oceanos de todo o mundo tambm sofriam gradativamente os efeitos da expanso da ocupao e dos usos humanos, sem receber a devida consi-derao.

Perda de habitat, devido converso de reas naturais em reas para aquicultura e devido ao crescimento urbano e industrial; sedimentao em zonas costeiras, causada pelo carreamento de sedimentos provenien-

tes da agricultura, principalmente em virtu-de do desmatamento da mata ciliar; falta de sedimentos, provocado pelo barramento excessivo dos rios; disseminao de espcies invasoras, por introduo acidental ou deli-berada, colocando em perigo a abundncia e sobrevivncia de espcies nativas; conta-minao das guas continentais por agro-txicos e fertilizantes usados na agricultura, por resduos txicos industriais e por dejetos humanos sem tratamento ou parcialmente tratados; sobreexplotao, isto , captura de recursos pesqueiros (peixes, moluscos, crus-tceos e algas) em quantidades superiores sua capacidade de reproduo; e mudanas climticas, provocadas em grande parte pe-las emisses de gases poluentes e pelas alte-raes no uso da terra, tm sido listadas por estudiosos como as principais razes para a

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perda de biodiversidade costeira e marinha. A partir da dcada de 1980, as evidncias da acelerada degradao de ambientes cos-teiros e marinhos levaram pesquisadores e membros da comunidade conservacionista mundial a alertar governos e a opinio p-blica mundial para o problema.

Alm de acolher uma ampla variedade de seres vivos, os ecossistemas costeiros e marinhos proporcionam servios essenciais sobrevivncia humana, como alimentos, manuteno do clima, purificao da gua, controle de inundaes e proteo costeira, alm da possibilidade de uso recreativo e es-piritual. Segundo alguns economistas, esses servios podem ser valorados em 14 bilhes de dlares anuais. A ttulo de exemplo, os manguezais intactos da Tailndia tm atual-mente um valor econmico lquido total de entre 1.000 e 36.000 dlares por hectare, o que contrasta enormemente com os 200 dlares por hectare dos manguezais con-vertidos em viveiros de camares (Ramsar, 2010). Essa disparidade decorre no apenas do clculo dos produtos comercializados, como o pescado, disponvel nos mangue-zais intactos, mas tambm do valor adicio-nal oriundo dos servios no-comercializ-veis, como a proteo contra enchentes e o sequestro de carbono. reas costeiras e ma-rinhas bem conservadas contam com uma diversidade biolgica muito maior que as reas convertidas, e seus ecossistemas pres-tam servios muito mais diversos e efetivos.

Segundo o ltimo Panorama Global da Biodiversidade, editado pela Conveno so-bre Diversidade Biolgica (CDB) da ONU, os ecossistemas costeiros e marinhos con-tinuam tendo sua extenso reduzida, o que ameaa servios ecossistmicos altamente valiosos e imprescindveis, como, por exem-plo, a absoro de dixido de carbono da atmosfera, que cumpre papel relevantssi-

mo na mitigao das mudanas climticas globais (CDB, 2010). Dados obtidos junto a vrios pases pela Conveno de Ramsar (Ramsar, 2010) indicam que as perdas de zonas midas, incluindo as reas costeiras, variam entre 53%, nos Estados Unidos, a surpreendentes 90%, na Nova Zelndia.

Alguns analistas deduzem que 50% das zonas midas de todo o mundo j estejam perdidas e que tais perdas seguem ocorren-do, especialmente nos pases em desenvol-vimento. Essa situao tem reflexos diretos sobre as espcies aquticas: como exem-plos, 6 em cada 7 espcies de tartarugas marinhas esto na lista de espcies ameaa-das e cerca de 27% das espcies que cons-troem os recifes de coral esto ameaadas.

Ao mesmo tempo, a FAO estima que, nos ltimos 50 anos, a quantidade de alimentos retirada dos oceanos quintuplicou, enquan-to a populao mundial dobrou. Hoje, 10% das calorias consumidas pela humanidade so extradas do mar; das 200 espcies mais adequadas ao consumo humano, 120 es-to sendo sobreexploradas, enquanto 80% dos principais recursos pesqueiros esto em situao de explotao mxima, sobre-explotados, esgotados ou em recuperao de uma condio prxima ao colapso (FAO, 2009). No Brasil, esse quadro no diferen-te, de forma que a sociedade e o poder p-blico esto diante dos mesmos problemas que afetam outras partes do mundo. Ser

Analistas deduzem que 50% das zonas midas

de todo o mundo j estejam perdidas

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Para conter o atual quadro de perda de biodiversidade, em 2002 os lderes mun-diais presentes CDB concordaram em pro-mover aes para reduzir signifi cativamente a taxa de perda de biodiversidade at 2010. Uma das principais metas diz respeito ao estabelecimento de reas protegidas, consi-

deradas um dos principais instrumentos de conservao. Embora a superfcie da terra e do oceano designadas como reas protegi-das tenha aumentado constantemente des-de 1970, a extenso terrestre ainda muito

Esforos para a conservao e recuperao da biodiversidade costeira e marinha

maior que a de reas marinhas protegidas. Porm, estas ltimas tm se expandido de forma promissora nos ltimos anos, con-centradas especialmente em guas costei-ras.

De fato, a implementao de um sistema representativo e efetivo de reas protegidas faz parte da estrat-gia global para a conservao da biodiversidade, sendo, inclusive, objeto de um acordo com metas estabelecidas pela CDB, da qual o Brasil um dos signatrios. Du-rante a stima Conferncia das Partes (COP 7), realizada em Kua-la Lumpur (Malsia), em fevereiro de 2004, os pases participantes aprovaram o Programa de Traba-lho sobre reas Protegidas (Deci-so VII/28), cujo objetivo principal enfatizar o estabelecimento de sistemas nacionais e regionais de reas protegidas que sejam ecolo-gicamente representativos e admi-nistrados de forma efi caz.

O Programa de Trabalho em questo parte de alguns pressu-

postos, entre os quais, o de que, embora o nmero e o tamanho das reas protegidas no mundo tenham aumentando na dca-da passada, a diversidade de ecossistemas no est sufi cientemente representada nos

que ainda h tempo para reverter as atuais previses de colapso da biodiversidade ma-rinha, provocadas pela degradao desses

ambientes, pela explorao descontrolada e pelo desperdcio?

representativo e efetivo de reas protegidas faz parte da estrat-gia global para a conservao da biodiversidade, sendo, inclusive, objeto de um acordo com metas estabelecidas pela CDB, da qual o Brasil um dos signatrios. Du-rante a stima Conferncia das Partes (COP 7), realizada em Kua-la Lumpur (Malsia), em fevereiro de 2004, os pases participantes aprovaram o Programa de Traba-lho sobre reas Protegidas (Deci-so VII/28), cujo objetivo principal enfatizar o estabelecimento de sistemas nacionais e regionais de reas protegidas que sejam ecolo-gicamente representativos e admi-nistrados de forma efi caz.

questo parte de alguns pressu-

Foto: Snadra Magalhes

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atuais sistemas nacionais e/ou regionais e, por isso, no garantem adequada conser-vao de certos habitats, biomas e espcies ameaadas. Segundo esse documento, essa situao especialmente vlida para os ecossistemas marinhos, sub-representados, a exemplo do Brasil, na maior parte dos pa-ses.

Das mais de cinco mil reas protegidas existentes no mundo, correspondentes a aproximadamente 11% da superfcie da Terra, apenas 1,3 mil incluem componentes marinhos e costeiros, ou menos de 1% dos oceanos1 . Diante disso, a Deciso VII/28 definiu, como objetivo geral do Programa de Trabalho sobre reas Protegidas, o esta-belecimento e manuteno, at 2010, para reas terrestres, e at 2012, para reas ma-rinhas, de sistemas nacionais e regionais de reas protegidas abrangentes, eficazmente administrados e ecologicamente represen-tativos.

No caso brasileiro, o estabelecimento de reas protegidas e de outras medidas de proteo diversidade biolgica conti-da nos ecossistemas costeiros e marinhos demanda aes urgentes, face ao ritmo de descaracterizao das paisagens litorne-as e de depleo dos estoques pesqueiros. Vrios estudos recentes, como o relatrio executivo do Programa Revizee2 , desenham um quadro crtico quanto ao futuro da bio-diversidade contida no territrio abrangido

1 Programa de Trabalho para reas Protegidas da CDB.

2 Executado entre 1995 e 2004, o Programa de Ava-liao do Potencial Sustentvel dos Recursos Vivos na Zona Econmica Exclusiva, conhecido por Programa Revizee, realizou um amplo inventrio do potencial dos recursos vivos contidos na zona marinha brasilei-ra. Um detalhamento a respeito est no captulo 2.2. A Poltica Nacional para os Recursos do Mar (PNRM).

pela costa e pelas guas jurisdicionais do Brasil.

Adicionalmente, os relatrios e diag-nsticos produzidos poca do workshop Avaliao e aes prioritrias para a con-servao da biodiversidade da Zona Costeira e Marinha, realizado em 1999 (ver captu-lo 4.1. Primeira avaliao das reas priori-trias para a conservao da biodiversidade na Zona Costeira e Marinha), constataram a existncia de um quadro preocupante quanto aos impactos ambientais registra-dos nessa regio, ressaltando a necessidade de adoo de mecanismos de recuperao e conservao dos estoques pesqueiros, entre os quais, o estabelecimento de reas de ex-cluso de pesca (MMA, 2002a). O processo de atualizao dessas reas prioritrias, leva-do a cabo pelo Ministrio do Meio Ambien-te em 2006, demonstrou que, de um total de 102 reas exclusivamente marinhas, 31 demandavam medidas de proteo, como a criao de unidades de conservao ou de reas de excluso de pesca (MMA, 2008b).

Diante desse quadro, e atento ao que prope o Programa de Trabalho sobre re-as Protegidas da CDB, o Ministrio do Meio Ambiente dedicou esforos formulao do Plano Nacional Estratgico de reas Pro-tegidas (PNAP), no mbito do qual foi cria-do um grupo especfico para elaborar aes para a Zona Costeira e Marinha, incluindo o estabelecimento de unidades de conserva-o como instrumento de gesto pesqueira. Tendo em mente os problemas que afetam essa regio no pas e, especialmente, a sub-representao de ecossistemas marinhos no Sistema Nacional de Unidades de Conserva-o da Natureza (SNUC), o grupo apresen-tou um conjunto de princpios, diretrizes e estratgias para a proteo das reas cos-teira e marinha (veja o captulo 3.3. O Plano Estratgico Nacional de reas Protegidas).

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Ao lado do PNAP, a atualizao dos es-tudos destinados a indicar as reas e aes prioritrias para a conservao e o uso sus-tentvel da biodiversidade no Brasil, ocorri-da em 2006, ensejou a oportunidade de re-alizar uma anlise mais detalhada, na escala dos diversos ecossistemas que compem a Zona Costeira e Marinha, sobre a atual situ-ao da representatividade ecolgica consi-derando as categorias de reas protegidas do SNUC.

Tomando como referncia a meta nacio-nal de conservao da biodiversidade para a Zona Costeira e Marinha fi xada pela Re-soluo n 03/2006, do Conselho Nacional de Biodiversidade (Conabio), que, com base nas decises da CDB, estabeleceu um mni-

Estudo indito sobre representatividade dos ecossistemas costeiros e marinhos no Brasil

Foto: Wigold B. Schffer

mo de 10% da rea dos ecossistemas efeti-vamente protegidos por meio de unidades de conservao , tais estudos fornecem aos planejadores e executores da poltica de conservao da natureza no Brasil um con-junto consistente de dados e anlises que, de forma indita, apontam quais ecossis-temas j esto sufi cientemente protegidos e quais as lacunas que merecem a ateno de tais rgos. Sucintamente, os resultados desse esforo, apresentados ao pblico pela primeira vez nesta publicao, demonstram que, embora haja poucos ecossistemas cos-teiros sub-representados no SNUC, o bio-ma marinho representa a grande lacuna do sistema, demandando medidas urgentes visando o planejamento de sua conserva-o.

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1.

1.1.

A Zona Costeira e Marinha se estende da foz do rio Oiapoque (045245N) foz do rio Chu (334510S) e dos limites dos municpios da faixa costeira, a oeste, at as 200 milhas nuticas, incluindo as reas em torno do Atol das Rocas, dos arquiplagos de Fernando de Noronha e de So Pedro e So Paulo e das ilhas de Trindade e Martin Vaz, situadas alm do citado limite marti-mo. Essa confi gurao espacial defi nida por um conjunto de leis e decretos publica-dos pelo Governo Federal nas ltimas duas dcadas, alguns dos quais decorrentes de acordos internacionais assinados pelo Bra-sil, entre os quais se destaca a Conveno

das Naes Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM).

A faixa terrestre, de largura varivel, se estende por aproximadamente 10.800 qui-lmetros ao longo da costa3, se contabili-zadas suas reentrncias naturais, e possui

3 A extenso da faixa costeira varia enormemente na literatura sobre o tema, de 7 mil a mais de 11 mil qui-lmetros. Tal discrepncia se deve s diferentes meto-dologias empregadas no clculo da linha costeira. O dado aqui adotado, de 10.800 quilmetros, foi obti-do no mbito dos estudos sobre a representatividade dos ecossistemas costeiros no SNUC, e considera os recortes e reentrncias naturais da costa brasileira.

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Ecossistemas costeiros e marinhos no Brasil

Caracterizao da Zona Costeira e Marinha

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uma rea de aproximadamente 514 mil km2, dos quais 324 mil km2 correspondem ao territrio de 395 municpios distribudos ao longo dos 17 estados litorneos (MMA, 2008). Trata-se de uma rea de relevo vari-vel onde vive, segundo a Comisso Inter-ministerial para os Recursos do Mar (CIRM), aproximadamente um quarto da popula-o brasileira, resultando numa densidade

4 Extrado de https://www.mar.mil.br/secirm/, em 22/11/09.

Foto: Ana Paula Leite Prates

demogrfi ca de cerca de 87 habitantes por quilmetro quadrado, ndice cinco vezes su-perior mdia do territrio nacional4. Essa estreita faixa continental abrange 17 estados e, ainda, concentra 13 das 27 capitais brasi-leiras, algumas das quais, regies metropoli-tanas onde vivem milhes de pessoas, um in-dicador do alto nvel de presso antrpica a que seus recursos naturais esto submetidos.

A faixa costeira concentra 13 das 27 capitais brasileiras, um indicador do alto nvel de presso a que seus recursos naturais esto submetidos

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A parte marinha abrange uma rea de aproximadamente 3,5 milhes de km2, integrada pelo mar territorial brasileiro, de 12 milhas nuticas de largura (22,2 quilmetros); as ilhas costeiras e ocenicas; a plataforma conti-nental que compreende o leito e o subsolo das reas submari-nas, que se estendem alm dos limites do mar territorial e a zona econmica exclusiva, me-dida a partir do limite exterior das 12 milhas do mar territorial at 200 milhas nuticas da costa (370 quilmetros). Em maio de 2007, a Organizao das Na-es Unidas aprovou o pleito brasileiro pela incorporao de mais 712 mil km2 de extenso da plataforma continental para alm das 200 milhas nuticas um territrio ao qual a CIRM d o nome de Amaznia Azul, equivalente a mais da metade de nosso territrio terrestre.

A despeito de suas dimenses, gran-de parte da zona marinha do pas caracterizada por baixa concentrao de nutrientes e por produtividade re-duzida, contrariando a percepo co-mum de que essa regio constitui fonte abundante ou inesgotvel de recursos. Embora a atividade pesqueira no Brasil tenha incontestvel importncia socio-

econmica, como provedora de prote-na animal e tambm como geradora de estimados 800 mil empregos, mobi-lizando um contingente de cerca de 4 milhes de pessoas direta ou indireta-mente ligadas atividade, nos ltimos anos estudos aprofundados apontam o equvoco da presuno da abundncia ou inesgotabilidade desses recursos.

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Os cerca de 10.800 quilmetros de costa atlntica colocam o Bra-sil entre os pases com maiores reas litorneas do mundo. Essa abran-gncia latitudinal, com ampla variedade clim-tica e geomorfolgica, um dos fatores principais a explicar a diversidade de espcies e de ecossis-temas existentes ao lon-go do litoral brasileiro.

A Zona Costeira cons-titui, a rigor, uma regio de transio ecolgica, desempenhando impor-tante papel no desen-volvimento e reprodu-o de vrias espcies e nas trocas genticas que ocorrem entre os ecossis-temas terrestres e mari-nhos. Alm disso, a Zona Costeira registra expressiva sobreposio territorial com os biomas Amaznia e Mata Atlntica, bem como, em menor escala, com a Caatinga, Cerrado e Pampa, o que a caracteriza no como uma unidade ecolgica, mas como um complexo de ecossistemas contguos ou ectonos - formadores de ambientes de alta complexidade ecolgica e de extrema relevncia para a sustentao da vida no mar.

1.2. Ecologia da Zona Costeira e Marinha

Bioma terrestre Extenso da costa (km)

%

Mata Atlntica 5.225 48%

Amaznia 3.720 34%

Caatinga 895 8%

Pampa 628 6%

Cerrado 421 4%

Total 10.889 100%

Tabela 1 - Relao de contiguidade entre a linha de costa e os biomas brasileiros

Biomas terrestres

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Aliadas s caractersticas tropicais e sub-tropicais dominantes ao longo de toda a costa do pas, as condies oceanogrfi cas e climatolgicas prprias da regio confe-rem traos distintivos sua biodiversidade. A rea marinha adjacente costa consti-tuda por guas quentes, nas costas nordes-te e norte, e por guas frias, no litoral sul e sudeste, dando suporte a uma grande va-riedade de ecossistemas que incluem dunas, praias, banhados e reas alagadas, estu-rios, restingas, manguezais, costes rocho-sos, lagunas e marismas, os quais abrigam inmeras espcies de fl ora e fauna, muitas das quais endmicas e vrias ameaadas de extino (MMA, 2002a e 2002b).

A concentrao de nutrientes e outras condies ambientais, como os gradientes

Em geral, os ecossistemas costeiros e marinhos, como recifes de coral e manguezais, so considerados especialmente vulnerveis s mudanas cli-mticas por sua fragilidade e limitada capacidade de adaptao, de forma que os danos a eles causados podem ser irreversveis. Pesquisadores tm alertado que os recifes de coral podem ser o primeiro ecossistema funcional-mente extinto devido s mudanas climticas globais, caso as concentraes de CO2 ultrapassem 450 ppm, fato passvel de acontecer se aceitarmos um aumento mdio de 2 a 3oC de temperatura. Segundo algumas previses, isso deve ocorrer em 20 anos, se mantidas as taxas atuais.

Cientistas presentes ao encontro da Royal Society (a academia de cincias do Reino Unido), realizado em julho de 2009, postularam que as concentra-es de CO2 na atmosfera no devem exceder 450 ppm e que o ideal que se estabilize em, no mximo, 350 ppm para que os recifes de coral possam continuar provendo seus bens e servios humanidade. tambm provvel que os manguezais e marismas sejam negativamente afetados pela elevao

trmicos e a salinidade varivel, somadas oferta de excepcionais condies de abrigo e de suporte reproduo e alimentao nas fases iniciais da maioria das espcies que habitam os oceanos, conferem aos ambien-tes costeiros o estatuto de um dos principais objetivos de conservao ambiental visando manuteno da biodiversidade.

Ao mesmo tempo, a zona costeira res-ponsvel por ampla gama de funes ecol-gicas, tais como a preveno de inundaes, da intruso salina e da eroso costeira; a proteo contra tempestades; a reciclagem de nutrientes e de substncias poluidoras, e a proviso direta ou indireta de habitats e de recursos para uma variedade de espcies explotadas.

Impacto das mudanas climticas nos ecossistemas costeiros e marinhos

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1.2.1.

A diversidade biolgica da Zona Costeira est distribuda de forma desigual por seus diversos ecossistemas. Praias arenosas e lo-dosas constituem, por exemplo, sistemas de baixa diversidade, abrigando organismos especializados em funo da ausncia de superfcies disponveis para fi xao e pela limitada oferta de alimentos; restingas e costes rochosos se encontram em posio intermediria em relao diversidade de espcies, enquanto que lagoas costeiras e esturios constituem sistemas frteis, ser-

Caractersticas ecolgicas da Zona Costeira e Marinha por regio

vindo de abrigo e criadouro para grande n-mero de espcies. Os manguezais, por sua vez, apresentam elevada diversidade estru-tural e funcional, atuando, juntamente com os esturios, como exportadores de biomas-sa para os sistemas adjacentes. Finalmente, os recifes de corais comportam uma varie-dade de espcies animais prxima quela observada nas fl orestas tropicais midas, o que os torna um dos ambientes mais biodi-versos do planeta (WILSON, 1992; REAKA-KUDLA, 1997).

do nvel do mar, especialmente nos casos em que existam barreiras fsicas no lado terrestre, como diques ou cidades. Em muitas reas devem aumen-tar os danos provocados por inundaes costeiras devido a enchentes e elevao da mar.

Os impactos negativos das mudanas climticas nas zonas midas cos-teiras tambm devem atingir direta e signifi cativamente populaes huma-nas. Cerca de 50% da populao mundial vive em zonas costeiras e a den-sidade populacional nestas reas trs vezes maior que a mdia mundial. Muitas das comunidades mais pobres do planeta moram em reas costeiras e dependem dos manguezais e da pesca nos recifes de coral para sua segu-rana alimentar.

Nos pases em desenvolvimento, um quarto do pescado anual captura-do nos recifes de coral, sendo esses responsveis pelo sustento de cerca de um bilho de pessoas somente na sia. Na Indonsia, por exemplo, cerca de 60% da populao depende dos recursos pesqueiros marinhos e costeiros para a sua alimentao e meios de vida. A Grande Barreira de Recifes de Coral, na Austrlia, contribui com 4,5 bilhes de dlares para a economia australiana, dos quais 3,9 bilhes so gerados pelo turismo, 469 milhes de dlares pela recreao e 115 milhes pela pesca comercial, gerando 63 mil postos de trabalho. (Fontes: CDB, 2010; RAMSAR, 2010 e TEBB, 2009)

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Ao norte, na foz do rio Amazonas, o material slido despejado e a expanso de energia derivada de mars, correntes, on-das e ventos produzem, por sua magnitude, uma infi nidade de processos oceanogrfi cos interdependentes e complexos que exercem uma forte infl uncia sobre a distribuio dos recursos vivos na regio (MMA, 2002a). Os Golfes Marajoara e Maranhense represen-tam complexos estuarinos bastante dinmi-cos, que constituem o caminho natural de uma grande descarga slida. Esturios, la-goas costeiras e manguezais na verdade, a maior extenso contnua de manguezais do planeta - esto presentes ao longo de toda a costa norte, onde so encontrados quel-

nios; mamferos, como o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus); aves, com ocorrncia e reproduo de espcies ameaadas de ex-tino, como o guar (Eudocimus ruber); e corredores de migrao e invernada para outras espcies, e peixes diversos. Nessa regio, a linha da costa tem caractersticas bastante heterogneas: enquanto o litoral do Amap retilneo, a costa do nordeste do Par e noroeste do Maranho apresenta-se profundamente recortada. A leste da Baa do Tubaro, no Maranho, a linha da costa torna-se novamente retilnea, rea onde as guas ocenicas se caracterizam por sua transparncia (El-ROBRINI et al., 1992).

Vista area do esturio do rio Amap (AP), em que se destaca a grandiosidade dos manguezais ama-znicos

Foto: Enrico Marone

18

1.2.2.

A geomorfologia da plataforma brasilei-ra bastante diversificada, variando de oito quilmetros, na altura do litoral da Bahia, a 370 quilmetros, na regio da foz do rio Amazonas. Na Regio Norte, sua largura va-ria de 146 quilmetros a 292 quilmetros, reduzindo-se para apenas 73 quilmetros a partir da Baa do Tubaro, no Maranho. As profundidades cobertas pela zona econmi-ca exclusiva variam de 11 metros a pouco mais de 4 mil metros, e a quebra de plata-forma, entre 75 e 80 metros. A zona eco-nmica exclusiva engloba, ainda, um trecho da Plancie Abissal do Cear, onde possvel observar alguns altos-fundos (KNOPPERS et al., 2002).

A Plataforma Continental Interna do Amazonas, entre o esturio do rio Par e a fronteira com a Guiana Francesa, reco-berta por depsitos lamosos que favorecem operaes de pesca com arrasto por conte-rem enormes depsitos de crustceos e ou-tros recursos pesqueiros. A regio , tam-bm, altamente influenciada pela Corrente Norte do Brasil (Corrente das Guianas), que transporta as guas da plataforma externa e do talude na direo noroeste (KUEHL, 1986). O aporte de macronutrientes de-rivado, exclusivamente, dos inmeros estu-rios da regio, sendo suas concentraes geralmente baixas na superfcie a altas em profundidade, com variaes espao-tem-porais ainda pouco documentadas.

Caracterizao da plataforma continental brasileira

Ao longo da Regio Nordeste, a ausn-cia de grandes rios e a predominncia das guas quentes da Corrente Sul Equatorial determinam um ambiente propcio for-mao de recifes de corais, dando suporte a uma grande diversidade biolgica. Os recifes formam ecossistemas altamente diversifica-dos, ricos em recursos naturais e de grande importncia ecolgica, econmica e social, abrigando estoques pesqueiros importantes e contribuindo para a subsistncia de vrias comunidades humanas tradicionais (PRA-TES, 2006). Os recifes se distribuem por cer-ca de 3 mil quilmetros da costa nordeste, desde o Maranho at o sul da Bahia, cons-tituindo os nicos ecossistemas recifais do Atlntico Sul, sendo que as suas principais

espcies formadoras ocorrem somente em guas brasileiras (MAIDA; FERREIRA, 1997).

No Sudeste-Sul, a presena da gua Central do Atlntico Sul sobre a plataforma continental e sua ressurgncia eventual ao longo da costa contribuem para o aumento da produtividade da cadeia alimentar. Mais ao sul, o deslocamento em direo ao nor-te, nos meses de inverno, da Convergncia Subtropical, formada pelo encontro das guas da Corrente do Brasil com a Corren-te das Malvinas, confere regio caracte-rsticas climticas semelhantes a de regies temperadas, influenciando profundamente a composio da fauna local.

19

A largura da plataforma continental brasileira varia de oito a 370 quilmetros, com profundidades entre 11 e 4 mil metros

19

Plataforma continental brasileira

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praticamente o Cabo de So Tom, ao norte do estado do Rio de Janeiro (KNOPPERS et al., 2002).

Abrangendo a mais extensa rea de re-cifes de coral do Brasil, os recifes do banco dos Abrolhos apresentam todas as 18 esp-cies que habitam os substratos recifais do pas, metade das quais ocorre somente em guas brasileiras. Os quatro grandes grupos de corais corais ptreos, corais de fogo, octocorais e corais negros - tm seus repre-sentantes na rea do banco dos Abrolhos, sendo que Mussismilia brasiliensis e Favia leptophylla so endmicas do estado da Bahia (LABOREL, 1969; LEO, 1994).

Desse modo, a regio do extremo sul da Bahia destaca-se no conjunto costeiro-mari-nho por abrigar um rico e diverso mosaico de ecossistemas, composto por fi tofi siono-mias associadas Mata Atlntica, e por rios, mangues, praias, esturios, recifes de coral e ilhas ocenicas. Esta grande variedade de ambientes garante a manuteno de uma elevada biodiversidade na regio, notada-mente no ambiente marinho, fazendo com que o banco dos Abrolhos assuma grande importncia ambiental e socioeconmica.

Na Regio Nordeste, a partir da foz do rio Parnaba, a costa apresenta um perfi l razoavelmente regular, quebrado apenas pelos esturios e deltas de grandes rios, no-tadamente o Parnaba e o So Francisco. A plataforma continental nordestina tem uma largura mdia entre 36 e 55 quilmetros e a quebra de plataforma varia entre 40 e 80 metros, sendo constituda, basicamente, por fundos irregulares e formaes de algas calcrias. Uma caracterstica notvel da cos-ta, especialmente entre Natal e Aracaju, a barreira de recifes costeiros que a margeia, detalhada anteriormente.

Alm das ilhas ocenicas - Atol das Rocas e arquiplagos de Fernando de Noronha e So Pedro e So Paulo -, uma srie de ban-cos ocenicos rasos, com profundidades va-riando entre 50 e 350 metros, pertencentes s Cadeias Norte-Brasileira e de Fernando de Noronha, ocorrem ao largo da plataforma continental, notadamente em frente aos es-tados do Cear e Rio Grande do Norte. O Atol das Rocas constitui a nica formao de atol existente no Atlntico Sul, caracte-rizando-se como importante rea de nidifi -cao para aves marinhas tropicais e para a reproduo de tartarugas marinhas.

A maior parte do domnio ocenico, contudo, formada por reas de grande profundidade, entre 4 mil e 5 mil metros, que correspondem s Plancies Abissais do Cear e de Pernambuco.

Na costa de Sergipe e da Bahia, o am-biente determinado pelas caractersti-cas oceanogrfi cas tropicais. A plataforma continental estreita, atingindo em torno de dez quilmetros, com exceo do banco de Abrolhos, onde ocorre um grande alarga-mento, de mais de 300 quilmetros, do-minada por fundos irregulares com forma-es de algas calcrias que se estendem at

nica formao de atol no Atlntico Sul, o Atol das Rocas importante rea para nidifi cao de

aves marinhas

2121

O banco de Abrolhos acolhe espcies dos quatro grandes grupos de corais existentes, sendo algumas delas endmicas

Foto: Bernadete Barbosa

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Fotos: Projeto Coral Vivo

Favia leptophylla e Mussismilia brasiliensis, espcies de corais endmicas do estado da Bahia

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Na Regio Sudeste, a expanso da pla-taforma continental em sentido leste, onde sua largura pode atingir at 240 quilme-tros, constitui uma exceo marcante. Essa regio formada pelos bancos submarinos das cadeias Vitria-Trindade e de Abrolhos, que provoca um desvio da Corrente do Bra-sil e uma perturbao da estratifi cao ver-tical, trazendo gua de profundidade su-perfcie. O enriquecimento das guas dessa rea devido ao aporte de nutrientes permite a existncia de recursos pesqueiros relativa-mente abundantes.

A regio entre o Cabo de So Tom e o Cabo Frio caracteriza-se como uma faixa de transio entre o tipo de fundo calcrio, dominante at ento, e as extensas reas cobertas de areia, lama e argila do Sudeste-Sul. A partir de Cabo Frio, observa-se a regu-larizao do fl uxo da Corrente do Brasil e a mudana de sua direo para sudoeste, em funo da alterao da orientao da linha

de costa e do alargamento da plataforma continental, que atinge at 220 quilmetros de largura (KNOPPERS et al., 2002).

No extremo sul, a Corrente do Brasil se encontra com a Corrente das Falkland/Mal-vinas, formando a Convergncia Subtropi-cal. Uma parte da gua fria vinda do sul afunda e ocupa a camada inferior da Cor-rente do Brasil, ao longo do talude conti-nental, dando origem a uma massa dgua rica em nutrientes, com baixas temperaturas e salinidades, denominada gua Central do

Atlntico Sul (KNO-PPERS et al., 2002).

Durante o vero na regio Sudeste observa-se a pe-netrao da gua Central do Atlnti-co Sul sobre a pla-taforma continen-tal, chegando at a zona costeira e in-fl uindo diretamen-te no aumento da produo primria.

Ao sul, um ramo costeiro da Corren-te das Falkland/Malvinas vai alcan-ar a zona euftica sobre a plataforma

continental. A disponibilidade de nutrien-tes, derivada dessa gua e do aporte de guas de origem continental, contribui para a ocorrncia de importantes recursos pes-queiros.

PPERS et al., 2002).

na regio Sudeste observa-se a pe-netrao da gua Central do Atlnti-co Sul sobre a pla-taforma continen-tal, chegando at a zona costeira e in-fl uindo diretamen-te no aumento da produo primria.

costeiro da Corren-te das Falkland/Malvinas vai alcan-ar a zona euftica sobre a plataforma

A presena das cadeias de Vitria-Trindade e Abrolhos induzem maior abundncia de recursos pesqueiros

Foto: Danielle Blanc

2323

1.2.3.

A biodiversidade marinha presente na costa brasileira ainda relativamente pouco conhecida. No caso de invertebrados ben-tnicos, foram registradas pouco mais de 1.300 espcies na costa sudeste do Brasil, com elevado grau de endemismo; porm, muitas regies e ambientes ainda precisam ser adequadamente inventariadas. No caso dos grupos mais bem conhecidos, os peixes somam estimativas entre 750 e 1209 es-pcies (a ltima se consideradas as espcies es-tuarinas), cuja diversidade re-lativamente uni-forme ao longo da costa e apre-senta baixo grau de endemismo (AMARAL; JABLONSKI, 2005; www.fi shba-se.org).

O litoral brasileiro abriga, ainda, cerca de 54 espcies de mamferos. H registros de 53 espcies de cetceos e uma de sirnio, alm deles possumos mais duas espcies de penpedes residentes e algumas outras espcies de penpedes que ocasionalmente ocorrem em guas brasileiras, quatro das quais inspiram preocupao quanto sua conservao: a baleia-franca (Eubalaena australis); a jubarte (Megaptera navaean-gliae); a franciscana ou toninha (Pontoporia blainvillei) e o boto cinza (Sotalia fl uviatilis). Das quatro espcies da ordem Sirenia exis-tentes no mundo, duas ocorrem no Brasil e uma delas marinha o peixe-boi-marinho

Diversidade de espcies na Zona Costeira e Marinha

Baleia-franca (Eubalaena australis)

Foto: Enrico Marcovaldi

(Trichechus manatus), o mamfero aqutico mais ameaado do Brasil, com populaes residuais no contnuas, habitando de Ala-goas ao Amap, que totalizam no mximo algumas centenas de indivduos. Para os pinpedes, so conhecidas sete espcies em guas brasileiras, das quais apenas duas so relativamente comuns: leo-marinho (Ota-

ria fl avescens) e o lobo-marinho-do-sul (Arctoce-phalus australis). A presena de um elefante-ma-rinho-do-sul (Mi-rounga leonina) foi constatada no arquiplago de Fernando de Noronha, pon-to considerado como limite nor-te de ocorrncia

dos pinpedes no pas (ROSSI-WONGTS-CHOWSKI et al., 2006).

Foto: Enrico Marcovaldi

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Peixe-boi-marinho (Trichechus manatus)

2424

Em relao diversidade de aves, segun-do Rossi-Wongtschowski et al.(2006), foram registradas mais de 100 espcies associadas aos sistemas costeiros e marinhos brasilei-ros. Dessas espcies, algumas so residen-tes, outras so migrantes oriundas dos he-misfrios norte e de outras de regies mais ao sul. Alm da ocorrncia e reproduo de espcies ameaadas de extino, como o guar (Eudocius ruber), a Regio Norte constitui corredor de migrao e invernada de Charadriiformes nerticos e rea de re-produo colonial de Ciconiiformes. As ilhas costeiras das regies Sudeste-Sul so stios de nidifi cao do trinta-ris (Sterna spp.), da pardela-de-asa-larga (Puffi nus lhermi-nieri), do tesouro (Fregata magnifi cens), do atob (Sula leucogaster) e do gaivoto (Larus dominicanus).

No que diz respeito aos quelnios, das sete espcies de tartarugas marinhas co-nhecidas no mundo cinco vivem nas guas brasileiras: cabeuda ou amarela (Caretta caretta), verde (Chelonia mydas); gigante, negra ou de couro (Dermochelys coriacea); tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbri-cata) e a tartaruga pequena (Lepidochelys olivacea). Essas espcies buscam praias do litoral e ilhas ocenicas para a desova, abri-go, alimentao e crescimento.

Foto: Bernadete Barbosa

Ainda sobre a diversidade de espcies nos ecossistemas, o Brasil possui os nicos recifes coralneos do Atlntico Sul. Das mais de 350 espcies de corais recifais existen-tes no mundo, pelo menos 20 espcies (de corais verdadeiros e hidrocorais) foram re-gistrados para o Brasil, sendo que oito so endmicas, ou seja, encontram-se apenas nos mares brasileiros. Uma outra espcie ocorre apenas no Brasil e ao largo da fri-ca (Favia gravida). Os manguezais abrigam uma grande diversidade de plantas, artr-podos, moluscos, peixes, aves, totalizando minimamente 776 espcies relacionadas. As angiospermas do mangue do litoral bra-sileiro pertencem a trs gneros, contando com um total de 6 espcies (SCHAEFFER-NOVELLI, 2002).

Foto: Projeto Coral Vivo

Favia gravida

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Atob (Sula leucogaster)

Foto: Enrico Marone

Tartaruga verde (Chelonia mydas)

25

2.

2.1.

A relevncia econmica, ambiental e so-cial da Zona Costeira e das reas marinhas sob jurisdio brasileira levou o poder pbli-co, nos ltimos 20 anos, a propor normas e a estruturar polticas pblicas destinadas sua gesto. A primeira dessas normas foi a Lei no 7.661, de 16 de maio de 1988, que, sancionada no contexto da redemo-cratizao do pas, determina a elaborao do Plano Nacional de Gerenciamento Cos-

teiro (PNGC) com o objetivo de orientar a utilizao racional dos recursos na Zona Costeira, de forma a contribuir para elevar a qualidade da vida de sua populao, e a proteo do seu patrimnio natural, histri-co, tnico e cultural.

Ao instituir o PNGC, a Lei n 7.661/88 conceitua a Zona Costeira como o espao geogrfi co de interao do ar, do mar e da

Legislao especfi ca para a Zona Costeira e Marinha

Legislao e polticas de gesto para a Zona Costeira e Marinha no Brasil

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gunares, baas e enseadas; praias; promon-trios, costes e grutas marinhas; restingas e dunas; fl orestas litorneas, manguezais e pradarias submersas; II - stios ecolgicos de relevncia cultural e demais unidades natu-rais de preservao permanente; III - monu-mentos que integrem o patrimnio natural, histrico, paleontolgico, espeleolgico, ar-queolgico, tnico, cultural e paisagstico.

A primeira ver-so do PNGC foi aprovada em 1990, tendo sido poste-riormente revisada entre 1995 e 1997 e, fi nalmente, re-gulamentada pelo Decreto n 5.300, de 7 de dezembro de 2004. Esse de-creto defi ne, en-fi m, os limites da Zona Costeira es-boados pela Lei n 7.661/88: reitera a descrio da fai-xa martima como o espao que se estende por 12 mi-

lhas nuticas, medido a partir das linhas de base5 compreendendo, dessa forma, a tota-lidade do mar territorial, e conceitua a fai-xa terrestre como o espao compreendido pelos limites dos Municpios que sofrem infl uncia direta dos fenmenos ocorrentes na zona costeira. Em 2008, o IBGE iden-tifi cava um total de 395 municpios situa-

terra, incluindo seus recursos renovveis ou no, abrangendo uma faixa martima e ou-tra terrestre, que sero defi nidas pelo Pla-no, a ser elaborado e, quando necessrio, atualizado por um Grupo de Coordenao, dirigido pela Secretaria da Comisso Inter-ministerial para os Recursos do Mar (SE-CIRM), rgo subordinado Marinha do Brasil. Aps aprovado, o PNGC deveria inte-grar a Poltica Nacional para os Recursos do

Mar e a Poltica Nacional do Meio Ambiente e contar, para sua implementao, com a participao da Unio, dos Estados, dos Ter-ritrios e dos Municpios, atravs de rgos e entidades integradas ao Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama).

No artigo 3, a Lei n 7.661/88 afi rma que o PNGC dever prever o zoneamento de usos e atividades na Zona Costeira e dar prioridade conservao e proteo, entre outros, dos seguintes bens: I - recursos na-turais, renovveis e no renovveis; recifes, parcis e bancos de algas; ilhas costeiras e ocenicas; sistemas fl uviais, estuarinos e la-

5 Segundo o artigo 2 do Decreto n 5.300/04, linhas de base so aquelas estabelecidas de acordo com a Conveno das Naes Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), a partir das quais se mede a largura do mar territorial. A linha da costa brasileira se estende por aproximadamente 10.800 quilmetros.

so do PNGC foi aprovada em 1990, tendo sido poste-riormente revisada entre 1995 e 1997 e, fi nalmente, re-gulamentada pelo

de 7 de dezembro de 2004. Esse de-creto defi ne, en-fi m, os limites da Zona Costeiraboados pela Lei n 7.661/88: reitera a descrio da fai-xa martima como o espao que se estende por 12 mi-

Foto: Ana Paula Prates

Paraty, antiga cidade porturia do litoral sul do estado do Rio de Janeiro

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No mesmo ano da aprovao da Lei n 7.661/88 portanto, antes da formulao do PNGC -, a Constituio Federal, promul-gada em outubro, conferiu Zona Costeira o status de Patrimnio Nacional estabele-cendo que sua utilizao far-se- na forma da lei, dentro de condies que assegurem a preservao do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais (Arti-go 225, pargrafo 4). A Constituio defi-niu, ainda, que o mar territorial e os recur-sos naturais da plataforma continental e da zona econmica exclusiva so considerados bens da Unio.

Dois meses depois, em 22 de dezembro de 1988, o Congresso Nacional ratificou a Conveno das Naes Unidas sobre o Di-reito do Mar (CNUDM), principal acordo internacional relativo ao uso dos oceanos e seus recursos naturais, que havia sido as-sinado pelo Brasil em 10 de dezembro de 1982. Essa conveno internacional esta-belece os conceitos de mar territorial, zona econmica exclusiva e plataforma continen-tal e confere aos pases costeiros soberania, direitos e deveres incidentes sobre a zona econmica exclusiva.

Segundo os termos dos artigos 2 e 3, a soberania do Estado costeiro sobre o seu territrio e as guas interiores estende-se sobre uma faixa de mar adjacente, que constitui o mar territorial, com dimenso de at 12 milhas nuticas medidas a partir das linhas de base. No mar territorial, o Esta-do costeiro exerce soberania e/ou controle pleno sobre a massa lquida, o espao a-reo sobrejacente, sobre o leito e o subsolo desse mar. Nos artigos 56 e 57, a Conven-o confere aos pases signatrios a sobe-

rania e direitos, inclusive de conservao, sobre a zona econmica exclusiva, definida como zona situada alm do mar territorial e a este adjacente e que no se estender alm de 200 milhas martimas das linhas de base a partir das quais se mede a largura do mar territorial.

A Conveno sobre o Direito do Mar

traz diretrizes para a conservao dos recursos naturais

marinhos

dos nos 17 estados costeiros como aque-les constituintes da faixa terrestre (MMA, 2008).

Alm de delimitar os direitos dos pases relativos ao uso do mar, a CNUDM consi-derada um marco para a formulao da le-gislao ambiental internacional por conter vrias diretrizes que orientam a conservao dos recursos naturais de mares e oceanos. As decises estabelecidas pela CNUDM fo-ram incorporadas legislao brasileira em 4 de janeiro de 1993, por meio da Lei n 8.617, tornando, assim, os limites marti-mos brasileiros coerentes com aqueles pre-conizados pela Conveno6.

6 Aprovada em 4 de janeiro de 1993, a Lei no 8.617 estabelece que, na zona econmica exclusiva, o Bra-sil tem direitos de soberania para fins de explorao e aproveitamento, conservao e gesto dos recursos naturais, vivos ou no-vivos, das guas sobrejacentes ao leito do mar, do leito do mar e seu subsolo, e no que se refere a outras atividades com vistas explo-rao e ao aproveitamento da zona para fins econ-micos. Nessa zona, o Brasil tem, ainda, o direito exclusivo de regulamentar a investigao cientfica marinha, a proteo e preservao do meio martimo, bem como a construo, operao e uso de todos os tipos de ilhas artificiais, instalaes e estruturas.

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e a Conveno sobre Diversidade Biolgica (CDB), propiciaram ao pas avanar na es-truturao de polticas destinadas conser-vao e ao uso sustentvel dos recursos bio-lgicos existentes, incluindo os contidos na Zona Costeira e Marinha. No caso especfi co da CDB, o cumprimento dos objetivos des-critos no Programa de Trabalho sobre reas Protegidas da Conveno sobre Diversidade Biolgica (Deciso VII/28) levou aprovao do j citado Plano Estratgico Nacional de reas Protegidas (PNAP).

Assim, de forma conjugada a vrios acordos multilaterais assinados pelo Brasil nos anos 1990, esse arcabouo legal con-forma a base sobre a qual esto assentadas as atuais polticas relacionadas gesto e proteo do meio ambiente na Zona Cos-teira e Marinha. Um detalhamento dessas polticas apresentado a seguir.

Desde 2004, o Brasil pleiteia, junto Comisso de Limites da Plataforma Conti-nental da CNUDM, a expanso dos limites de sua plataforma continental, em alguns pontos, para alm das 200 milhas marti-mas, uma rea correspondente a 963 mil km2. Esse pleito foi parcialmente aceito pela Conveno, que, em maio de 2007, apro-vou a incorporao de mais 712 mil km2 de extenso da plataforma continental para alm das 200 milhas nuticas. O acrscimo decorrente desse pleito elevar os espaos martimos nacionais dos atuais 3,5 milhes para aproximadamente 4,2 milhes de km2, o que corresponde aproximadamente me-tade do territrio terrestre nacional.

A regulamentao do Artigo 225 (Cap-tulo VI, Do Meio Ambiente) da Constituio Federal deu origem a uma srie de normas infra-constitucionais, muitas das quais con-tendo dispositivos relacionados gesto e proteo dos recursos vivos existentes na Zona Costeira e Marinha, como a Lei no

9.605/98 (a Lei de Crimes Ambientais) e a Lei no 9.985/2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservao da Natureza (SNUC).

A incorporao das premissas do desen-volvimento sustentvel s polticas pblicas para o meio ambiente, nesse perodo, re-sultou na estruturao de iniciativas como o Programa Piloto para as Florestas Tropi-cais do Brasil originalmente conhecido por PPG7, que proveu apoio tcnico e fi nan-ceiro, oriundo de rgos multilaterais, de agncias de cooperao internacional dos pases doadores e do governo brasileiro, para projetos-pilotos implantados na Ama-znia e na Mata Atlntica.

Ao mesmo tempo, a adeso do Bra-sil a convenes internacionais lideradas pela ONU, como a Conveno de Ramsar

Foto: Mara Borgonha

Pescador de lagosta da Praia da Caponga (CE)

29

2.2.

As diretrizes gerais para a Poltica Nacio-nal para os Recursos do Mar (PNRM) foram defi nidas em 1980, antes, portanto, da aprovao dos atos legais que demandaram do poder pblico aes para a proteo do meio ambiente costeiro e marinho. As alte-raes jurdicas ocorridas desde ento em funo, especialmente, da entrada em vigor da Conveno das Naes Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), em novembro de 19947, levaram o Governo Federal a editar o Decreto n 5.377, de 23 de fe-vereiro de 2005, visando sua atualiza-o.

O Decreto n 5.377/05 estabelece que a PNRM tem por fi nalidade orien-tar o desenvolvimento das atividades que visem efetiva utilizao, explora-o e aproveitamento dos recursos vi-vos, minerais e energticos do mar terri-torial, da zona econmica exclusiva e da plataforma continental, de acordo com os interesses nacionais, de forma racio-nal e sustentvel para o desenvolvimen-to socioeconmico do pas, gerando emprego e renda e contribuindo para a insero social.

Segundo essa norma, os objetivos do PNRM so: promover a formao de recursos humanos; estimular o de-senvolvimento da pesquisa, cincia e tecnologia marinhas; e incentivar a ex-

plorao e o aproveitamento sustentvel dos recursos do mar, das guas sobrejacen-tes ao leito do mar, do leito do mar e seu subsolo, e das reas costeiras adjacentes, levando em considerao os preceitos cons-titucionais vigentes bem como as demais polticas e convenes internacionais, assi-nadas pelo Brasil, incidentes sobre a Zona Costeira e Marinha.

7 Apesar de assinada pelo governo brasileiro em 1982 e ratifi cada pelo Congresso Nacional em 1988, a CNUDM s entrou em vigor em 1994, aps o depsi-to do sexagsimo instrumento de ratifi cao, confor-me dispe seu Artigo 308.

A Poltica Nacional para os Recursos do Mar (PNRM)

Apesar de assinada pelo governo brasileiro em 1982

Foto: Enrico Marone

O aproveitamento sustentvel dos recursos marinhos um dos objetivos do PNRM

30

nuais vm sendo desenvolvidos desde 1982. O III PSRM (1990-1993) trouxe um progra-ma especfi co que, reestruturado durante o IV PSRM (1994-1998), passou a constituir o Programa de Avaliao do Potencial Susten-tvel dos Recursos Vivos na Zona Econmica Exclusiva, conhecido por Programa Revizee8 (leia na pgina 31).

Elaborada e coordenada pela Comisso Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), a PNRM fi xa medidas essenciais in-tegrao do mar territorial e da plataforma continental ao espao brasileiro e explota-o racional dos oceanos, compreendo, a, os recursos vivos, minerais e energticos da coluna dgua, solo e subsolo, que repre-sentem interesse para o desenvolvimento econmico e social do pas e para seguran-a nacional. A PNRM implementada por meio de planos, entre os quais est o PNGC, e por programas plurianuais elaborados pela CIRM, que se desdobram em projetos especfi cos e constituem os documentos b-sicos de trabalho.

Denominados Planos Setoriais para os Recursos do Mar (PSRM), os planos pluria-

8 O comit executivo do Programa Revizee era com-posto pela Secretaria da Comisso Internacional para os Recursos do Mar (Secirm), o Ministrio do Meio Ambiente (MMA), o Ibama, o Ministrio da Cincia e Tecnologia, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfi co e Tecnolgico (CNPq), a Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca (SEAP), o Ministrio de Minas e Energia (MME), o Comando da Marinha do Brasil, o Ministrio da Educao (MEC) e o Ministrio das Relaes Exteriores.

Foto: Danielle Blanc

O Programa Revizee inventariou o pontencial pesqueiro da costa brasileira

3131

Executado entre 1995 e 2004, o Revizee foi criado no m-bito da CIRM em ateno aos compromissos assumidos pelo Brasil perante a CNUDM. Segundo os termos dessa Conveno, os pases costeiros tm, em suas zonas econmicas exclusivas, direitos de soberania para fi ns de explorao e aproveitamen-to, conservao e gesto dos recursos naturais, vivos ou no vivos. Em contrapartida, devero garantir, por intermdio de medidas apropriadas de gesto e conservao, que a pre-servao dos recursos vivos na ZEE no seja ameaada por um excesso de captura, como descrito no Relatrio Executivo do Programa.

O Revizee se dedicou a inventariar os potenciais sustentveis de captura dos recursos vivos existentes nos cerca de 3,5 mi-lhes de km2 da zona econmica exclusiva do Brasil. O interesse central dos levantamentos realizados pelo Programa foi, a par-tir dos potenciais verifi cados, estabelecer limites para a ativida-de pesqueira, de modo a no comprometer o equilbrio dos sistemas complexos que garantem a sua viabilidade ecolgica e econmica. Entretanto, trouxe tambm novos dados e co-nhecimentos sobre climatologia, fenmenos metereolgicos, morfologia de fundo e cobertura sedimentar, hidrologia, plnc-ton, bentos e ncton, identifi cando, inclusive, novas espcies marinhas. Os conhecimentos gerados esto sendo apropriados por programas e projetos do governo brasileiro cujos objeti-vos estejam em sintonia com as diretrizes da CDB, de forma a garantir a sustentabilidade dos recursos pesqueiros e o equil-brio entre ecossistemas e a atividade econmica. (Fonte: http://www.mar.mil.br/secirm/psrm/psrm_rev.htm, em 26/11/08)

O que foi o Programa Revizee

Carapau (Carangoides crysus)

Foto: Francisco Pedro

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2.3.

A zona costeira do Brasil constituda pelo mar territorial e pelo conjunto dos territrios dos municpios litorneos. Na parte terrestre, a populao costeira atin-ge quase 44 milhes de habitantes, com uma densidade populacional de 135 hab/km2 (seis vezes a mdia nacional). Destaca-se que 16 regies metropolitanas brasileiras encontram-se beira-mar, representando mais de 35 milhes de habitantes cerca de 19% da populao do pas, em menos de 1% do territrio nacional. Essas reas de adensamento populacional na costa convi-vem com amplas extenses de povoamen-to disperso e rarefeito. So os habitats das comunidades de pescadores artesanais, dos remanescentes de quilombos, de tribos in-dgenas e de outros agrupamentos imersos em gneros de vida "tradicionais". Tais reas, pelo nvel elevado de preservao de seus ecossistemas, se constituem naquelas de maior relevncia para o planejamento am-biental preventivo (MDZCM, 2009).

O patrimnio natural contido na zona costeira do Brasil pode ser qualifi cado como de grande valor ambiental, apresentando recursos altamente valiosos, tanto do ponto de vista ecolgico quanto socioeco-nmico. Contudo, este patrimnio encontra-se sob crescente risco de degradao, proporcionalmente presso da ocupao antrpica de-sordenada.

Dada a diversidade das condies fsicas, econmicas, culturais e ins-

titucionais presentes ao longo da costa, necessria uma abordagem territorial fede-rativa, integrada e participativa para asse-gurar a sustentabilidade da zona costeira, que oferea sadas mediadoras para con-fl itos envolvendo dinmicas econmicas e contextos socioambientais.

A Lei n 7.661/1988, que instituiu o Pla-no Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC), defi niu que seu detalhamento seria estabelecido em documento especfi co, no mbito da Comisso Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), visando orientar a utilizao racional dos recursos na zona costeira. Esta lei foi posteriormente regula-mentada pelo Decreto no 5.300/2004, que agrega, tambm, critrios para a gesto da orla martima.

De acordo com os marcos legais apre-sentados, a CIRM responsvel pela super-viso do PNGC e sua execuo feita por meio do Sistema Nacional de Meio Ambien-te (SISNAMA), cabendo ao MMA o papel de coordenador do PNGC.

O Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC)9

9 Texto elaborado por Mrcia Regina Lima de Oliveira do Departamento de Zoneamento Territorial do Ministrio do Meio Ambiente.

Arranjo Institucional do PNGC.

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PNGC II

O Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC) contempla, entre outros, os seguintes aspectos: urbanizao, ocupa-o e uso do solo, do subsolo e das guas; parcelamento e remembramento do solo; sistema virio e de transporte; sistema de produo, transmisso e distribuio de energia; habitao e saneamento bsico; turismo, recreao e lazer; pesca e aquicul-tura; patrimnio natural, histrico, tnico, cultural e paisagstico.

A primeira verso do plano foi aprova-da em 1990 e atualmente est em vigor o PNGC II, de 1997, que focaliza, estrategi-camente, o estabelecimento de diretrizes comuns e articulaes sistemticas entre as polticas setoriais da prpria Unio, em seu exerccio na zona costeira. O Plano tambm prev a elaborao de planos de gesto nas diferentes esferas de governo, como princpio de harmonizao de polticas, via instrumentos de ordenamento ambiental territorial, entendido como processo de gesto integrada, descentralizada e partici-pativa, das atividades socioeconmicas nos espaos costeiros, visando compatibilizar o aproveitamento de seus potenciais econ-micos e a preservao da estrutura e funo dos ecossistemas envolvidos, garantindo a qualidade de vida da populao e a prote-o de seu patrimnio natural, histrico, tnico e cultural. Para este fi m, destaca-se tambm no PNGC II a criao do Grupo de Integrao do Gerenciamento Costeiro GI-GERCO, coordenado pelo MMA.

Visando a implementao e a articulao dessas polticas, o Gerenciamento Costeiro (Gerco), cujo objetivo operacionalizar o PNGC de forma descentralizada e participa-tiva, tem como arranjo institucional para a

sua execuo, o MMA como rgo central, coordenando todas as aes na esfera fede-ral, articulado com os governos dos 17 esta-dos litorneos atravs dos seus respectivos rgos ambientais, no papel de executores estaduais, os quais buscam integrar suas aes com os municpios.

Atualmente, quanto a implementao dos instrumentos previstos no PNGC II, pode-se afi rmar que 7 estados dispem de marco legal que institui o Plano Estadual de Gerenciamento Costeiro (PEGC), 15 j apresentam pelo menos um setor com zo-neamento ecolgico econmico costeiro (ZEEC) consolidado e 12 tm instituciona-lizado a Comisso Tcnica Estadual para a zona costeira. Entretanto, apesar dos avan-os alcanados na implementao PNGC II, o Gerco vem atuando nos estados com foco no controle ambiental, algumas vezes sobrepondo a atuao precpua de plane-jamento, refl exo do processo equivocado de implementao/aplicao do PEGC e do ZEEC.

No mbito federal, o Plano de Ao Fe-deral da Zona Costeira - PAF-ZC e o Macro-diagnstico da Zona Costeira e Marinha do Brasil se constituem nos instrumentos de ao mais objetivos do PNGC II. O PAF-ZC estabelece o referencial de atuao progra-mtica da Unio no territrio da costa. Nas suas trs linhas de ao, cobre um amplo espectro de projetos voltados para o or-denamento ambiental territorial, a conser-vao e proteo do patrimnio natural e cultural, o controle e o monitoramento de fenmenos, dinmicas e processos inciden-tes na costa brasileira.

Os projetos previstos no PAF-ZC esto a cargo de distintas unidades do Governo, exigindo ainda para a sua plena implemen-tao uma forte articulao federativa com

Foto: Alcides Falanghe

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O Projeto de Gesto Integrada da Orla Martima Projeto Orla uma ao con-junta entre o Ministrio do Meio Ambiente e o Ministrio do Planejamento, Oramen-to e Gesto no mbito da sua Secretaria do Patrimnio da Unio (SPU/MP). Suas aes esto voltadas para o ordenamento dos es-paos litorneos, especialmente aqueles sob domnio da Unio, aproximando as polticas ambiental, urbanstica e patrimonial, com ampla articulao entre as trs esferas de governo e a sociedade.

O Projeto Orla busca garantir a todos os cidados a garantia do livre acesso as praias! Garanta este seu direito!

Diretrizes do Projeto Orla

- Valorizar aes inovadoras de gesto vol-tadas ao uso sustentvel dos recursos natu-rais e da ocupao dos espaos litorneos;

- Fortalecer a participao da sociedade na gesto integrada da orla;

- Melhorar e aperfeioar as leis (o arcabouo normativo) para o ordenamento de uso e ocupao da orla;

- Desenvolver e incentivar a participao das associaes, ONGs, organizaes locais, prefeituras por meio dos Comits Gesto-res para contribuir com a administrao da orla;

- Valorizar diferentes aes inovadoras de gesto (organizao, administrao,) volta-das ao uso sustentvel dos recursos naturais e da ocupao dos espaos litorneos.

Mais informaes sobre o Projeto Orla: www.mma.gov.br/[email protected]@planejamento.gov.br

os 17 estados e os quase 400 municpios costeiros. Esses projetos visam responder a impactos gerados por vetores de desen-volvimento que incidem de forma mais ou menos concentrada em trechos particulares do litoral brasileiro, conforme apontado no Macrodiagnstico. Nessa concepo desta-ca-se o Projeto Orla que vem tendo xito em sua implementao, com cerca de 20% dos municpios costeiros atuando no projeto.

A estratgia do MMA para a o ordena-mento ambiental territorial da costa marti-

ma est desenhada com base em uma fi lo-sofi a de governana que articule e fortalea o SISNAMA em parceria com a sociedade civil. A estratgia estabelece como funo do MMA a proviso de coordenao e su-porte tcnico para apoiar a gesto costeira e marinha nas esferas local, regional e na-cional.

Para saber mais: www.mma.gov.br/sigercom

PROJETO ORLA

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3. Polticas de conservao para a Zona Costeira e Marinha no Brasil

3.1.

O Sistema Nacional de Unidades de Con-servao da Natureza (SNUC) foi institudo em 18 de julho de 2000 por meio da Lei no 9.985, que regulamenta os incisos I, II, III, VII do artigo 225 da Constituio fede-ral de 1988. O artigo 2 dessa lei conceitua unidade de conservao como espao ter-ritorial e seus recursos ambientais, incluindo as guas jurisdicionais, com caractersticas naturais relevantes, legalmente institudo

pelo Poder Pblico, com objetivos de con-servao e limites defi nidos, sob regime es-pecial de administrao, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteo (inciso I).

O SNUC composto pelo conjunto das unidades de conservao criadas por ato do Poder Pblico em seus trs nveis, cabendo sua gesto ao ICMBio, no caso das unidades federais, e as demais aos rgos estaduais e

O Sistema Nacional de Unidades de Conservao (SNUC)

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municipais especfi cos. A Lei no 9.985/2000 estabelece que todas as unidades de con-servao devem ter um plano de manejo (artigo 27), com um zoneamento interno das atividades a serem desenvolvidas, a ser elaborado em at cinco anos aps sua cria-o. Alguns de seus artigos foram regula-mentados pelo Decreto no 4.340, de 22 de agosto de 2002.

O SNUC est organizado em torno de dois grupos de categorias: as unidades de conservao de uso sustentvel, cujo objeti-vo bsico , segundo a lei, compatibilizar a conservao da natureza com o uso susten-tvel de parcela de seus recursos naturais10,

e as unidades de conservao de proteo integral, que tm o objetivo bsico de pre-servar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos recursos naturais11. O grupo das unidades de proteo integral composto pelas categorias Estao Eco-lgica, Reserva Biolgica, Parque Nacional, Monumento Natural e Refgio de Vida Sil-vestre. Embora tenham o mesmo objetivo, cada uma delas tem defi nio, fi nalidades e regras de manejo especfi cas. Todas as unidades de proteo integral devem ser constitudas em reas de domnio pblico, embora duas categorias Monumento Na-tural e Refgio de Vida Silvestre possam tambm ocupar reas particulares.

10 O inciso X do artigo 2 da Lei 9.985/2000 defi ne uso sustentvel como explorao do ambiente de maneira a garantir a perenidade dos recursos ambien-tais renovveis e dos processos ecolgicos, mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecolgicos, de forma socialmente justa e economicamente vivel.

11 O inciso X do artigo 2 da Lei 9.985/2000 defi ne uso indireto como aquele que no envolve consumo, coleta, dano ou destruio dos recursos naturais.

Reserva Biolgica do Atol das Rocas (RN)

Foto: Carlos Sechin

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O grupo das unidades de uso sustentvel composto pelas categorias rea de Prote-o Ambiental, rea de Relevante Interesse Ecolgico, Floresta Nacional, Reserva Extra-tivista, Reserva de Fauna, Reserva de Desen-volvimento Sustentvel e Reserva Particular do Patrimnio Natural, que, como o prprio nome indica, constituda apenas por pro-priedades privadas. As terras contidas em rea de Proteo Ambiental e rea de Re-levante Interesse Ecolgico tambm podem ser constitudas por propriedades privadas; as demais, apenas por terras de domnio pblico. Cada uma dessas categorias que, por definio, so habitadas ou manejadas por populaes humanas tem finalidades diferentes.

A definio da categoria de manejo de uma unidade de conservao decorre dos estudos feitos no processo de criao ou por demanda de segmentos da sociedade, devido s caractersticas e alternativas locais para a conservao dos recursos naturais. Conceitualmente, as unidades pertencentes ao grupo de proteo integral, altamente restritivas quanto ao uso dos recursos na-turais, tm potencial para conferir maior efetividade ao objetivo de conservao da biodiversidade quando comparadas s de uso sustentvel.

Dentro do grupo das categorias de uso sustentvel, algumas categorias so menos permissivas que outras no que tange ao uso direto dos recursos naturais. A ttulo de exemplo, as reas de Proteo Ambiental, por admitirem a existncia de propriedade privada e a realizao de diversas atividades econmicas em seu interior, so considera-das menos efetivas para a conservao da biodiversidade que as Reservas Extrativistas ou as Reservas de Desenvolvimento Susten-tvel. Porm, em ltima anlise, a efetivida-de da conservao em todas as categorias,

inclusive de proteo integral, depende da qualidade da gesto empregada, o que envolve capacidade de planejamento, fis-calizao e monitoramento por parte do rgo gestor; disponibilidade de recursos humanos, financeiros e de infraestrutura adequados s necessidades da rea; e da intensidade de conflitos com a populao residente no interior ou no entorno, entre outros aspectos.

No Brasil, as unidades de conservao de proteo integral ou, ainda, as reas de excluso de pesca, que podem ser estabe-lecidas dentro das unidades de uso susten-tvel ou mesmo fora dessas, equivalem s internacionalmente conhecidas reservas marinhas ou seja, a espaos marinhos especialmente delimitados onde a pesca vedada (veja o item 3.4. reas aquticas protegidas como instrumento de gesto pesqueira). O SNUC possibilita aos rgos gestores planejar a conservao por meio do estabelecimento de mosaicos de unida-des conservao, constitudos por unidades de diferentes categorias, prximas ou con-tguas, incluindo suas respectivas zonas de amortecimento e corredores ecolgicos, de forma a integrar diferentes atividades de preservao da natureza, uso sustentvel dos recursos naturais e restaurao e recu-perao dos ecossistemas.

As unidades de proteo integral e as reas de excluso de pesca equivalem s internacionalmente conhecidas reservas

marinhas

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3.2. A Conveno sobre Diversidade Biolgica (CDB)

Aberta adeso durante a Conferncia das Naes Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento a Eco-92, realizada na cidade do Rio de Janeiro e tendo o Bra-sil como participante ativo e seu primeiro signatrio, a CDB trouxe uma srie de reco-mendaes aos pases que a integram para que viabilizem aes destinadas conserva-o e ao uso sustentvel da biodiversidade, bem como repartio de benefcios deri-vados de sua utilizao.

Ao longo de suas conferncias, a Con-veno aprovou decises direta e indireta-mente relacionadas conservao da bio-diversidade marinha e costeira. Com base em estudos sobre as ameaas e a destruio dos ecossistemas costeiros e marinhos, as partes reconheceram, durante a 2 Confe-rncia das Partes (COP 2), realizada em Ja-carta (Indonsia, 1995), a necessidade de elaborar e implantar um programa direcio-nado especificamente para a conservao e o uso sustentvel da biodiversidade nessas regies, aprovando a Deciso II/10, conhe-cida como Mandato de Jacarta sobre Bio-diversidade Marinha e Costeira. Durante a COP 4, realizada em Bratislava (Eslovquia, 1998), as partes aprovaram a criao de um programa de trabalho especfico para a conservao e o uso sustentvel da biodi-versidade marinha e costeira (Deciso IV/5), com o objetivo de apoiar a implementao do Mandato de Jacarta no mbito nacional, regional e global. As atividades contidas nesse programa de trabalho, destinadas s partes e secretaria executiva da Conven-o, esto divididas em cinco temas priori-trios: gesto integrada de reas marinhas e costeiras, recursos vivos marinhos e costei-ros, reas protegidas marinhas e costeiras, maricultura e espcies e gentipos exticos.

A COP 8, realizada em Curitiba (Brasil, 2006) recomendou s partes que realizas-sem uma avaliao da implementao das decises e metas para conter a perda de biodiversidade mundial. Os resultados des-ses balanos nacionais foram apresentados sob a forma do 3 Relatrio Global da Bio-diversidade (GBO3) e discutidos na COP 10, em Nagoya (Japo, 2010), ocasio em que ocorreu tambm a reviso dos programas de trabalho sobre biodiversidade costeira e marinha e sobre reas protegidas.

Desde a COP 8 a CDB tem expressado sua preocupao com a conservao dos oceanos de todo o mundo, fornecendo cri-trios tcnicos e cientficos ONU com o intuito de que as partes da Conveno pos-sam avanar no estabelecimento de reas marinhas protegidas alm de suas respec-tivas jurisdies nacionais ou seja, no mbito das guas internacionais. Na COP 9 foram aprovados os critrios cientficos para a identificao de reas marinhas sen-sveis e, na recente COP 10, foi aprovada a identificao de reas biolgicas e ecolo-gicamente sensveis EBSA, na sigla em ingls , que exigir dos pases um esforo global para constituir, at 2012, um inven-trio dessas reas. A ttulo de exemplo, a proposta pretende estabelecer um processo de identificao de reas prioritrias para a conservao dos oceanos em uma escala global.

A biodiversidade das zonas marinhas e costeiras do mundo tambm objeto do Programa de Trabalho sobre reas Protegi-das, criado por meio da Deciso VII/28, na COP 7, realizada em Kuala Lumpur (Malsia), em 2004. Esse programa de trabalho sugere metas e atividades, a serem executadas pelas

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Foto: Marcello Loureno

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partes e pela secretaria executiva da CDB, organizadas em torno de uma lista de obje-tivos cuja fi nalidade estabelecer e manter, at 2010, para reas terrestres, e at 2012, para reas marinhas, sistemas nacionais e regionais de reas protegidas abrangentes, efi cazmente administrados e ecologicamen-te representativos que, coletivamente, por meio de uma rede global, contribuam para a consecuo dos trs objetivos da Conven-o e da meta estabelecida para 2010 de reduzir signifi cativamente a atual taxa de perda da biodiversidade.

Em virtude desse objetivo geral, o Pro-grama de Trabalho sobre reas Protegidas traz uma srie de atividades e medidas que enfatizam a importncia de estabelecer um sistema que integre reas protegidas ma-rinhas e terrestres, visando minimizar sua sub-representao em todo o mundo. Entre as atividades sugeridas, indica que as par-

tes explorem a cooperao com entidades e outros pases partes da CDB visando o esta-belecimento de reas protegidas em zonas marinhas situadas fora dos limites de juris-dies nacionais levando em considerao os ecossistemas que abranjam o territrio de mais de um pas, segundo o direito in-ternacional e com a Conveno das Naes Unidas sobre os Direitos do Mar, e com base em informaes cientfi cas.

Tambm sugere que, at 2009, as partes designem as reas protegidas identifi cadas por meio das anlises de lacunas nacio-nais ou regionais de forma a concluir, at 2010, em reas terrestres, e at 2012, no meio ambiente marinho, o estabelecimento de sistemas abrangentes e ecologicamente representativos de reas protegidas nacio-nais e regionais. Devido importncia dessa agenda a ONU declarou 2010 como o Ano Internacional da Biodiversidade.

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A COP 10 (Nagoya, 2010) aprovou, como parte de seu novo Plano Estratgico 2011-2020, um conjunto de 20 metas, das quais se destacam, para a zona costeira e marinha, as seguintes:

Meta 6: At 2020 todos os estoques de peixes, invertebrados e plantas aquticas devem ser geridos e explorados legalmente, de maneira sustentvel e aplicando a abordagem ecossit-mica, de maneira a evitar a sobrepesca, com planos e medidas de recuperao em vigor para todas as espcies sobrepescadas, com a pesca praticada sem impactos adversos signifi cativos sobre espcies ameaadas e ecossistemas vulnerveis, e os impactos da pesca sobre os esto-ques, as espcies e os ecossistemas devem estar dentro dos limites de segurana ecolgica;

Meta 10: At 2015, as mltiplas presses antrpicas sobre os recifes de coral e outros ecossis-temas vulnerveis afetados pelas alteraes climticas ou pela acidifi cao dos oceanos devem ter sido minimizadas, de modo a manter sua integridade e funcionamento;

Meta 11: At 2020, pelo menos 17% das reas terrestres e de guas continentais e 10% das zonas costeiras e marinhas, principalmente as reas de particular importncia para a biodiver-sidade e para a manuteno dos servios ambientais, devem estar conservadas por meio de sistemas ecologicamente representativos e integrados dentro de paisagens terrestres e mari-nhas mais amplas, compostos por reas protegidas ou outras medidas de conservao efetivas in situ, bem conectadas e geridas com efi ccia e equidade. (Fonte: http://www.cbd.int/cop10/)

Novas metas internacionais aprovadas

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3.2.1.

A ratifi cao da CDB pelo Congresso Na-cional brasileiro, em fevereiro de 1994, deu incio a uma srie de processos internos, conduzidos no mbito do governo federal, para dar efetividade aos compromissos con-tidos nesse acordo, em especial, o desenvol-vimento de estratgias, planos e programas destinados a promover a consecuo de seus trs objetivos primrios, em conformi-dade com o Artigo 6o da Conveno. Em seu artigo 8o, a CDB convoca as partes a estabelecerem sistemas de reas protegidas para promover a conservao in situ dos re-cursos biolgicos existentes. Adicionalmen-

te, sugere que desenvolvam medidas para a seleo, o estabelecimento e a adminis-trao dessas reas protegidas, bem como para a utilizao sustentvel da diversidade biolgica contida em seu interior.

A fi m de viabilizar a formulao de uma estratgia nacional para a biodiversidade, o governo brasileiro criou o Programa Na-cional da Diversidade Biolgica (Pronabio), em 1994, e, dois anos depois, assinou um contrato de doao com Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), administrado pelo Banco Mundial, para obter os recursos ne-

O Projeto de Conservao e Utilizao Sustentvel da Diversidade Biolgica Brasileira (Probio)

No primeiro processo de avaliao de reas prioritrias para a conservao, a Zona Costeira foi tratada como uma unidade geogrfi ca com o mesmo status dos demais biomas brasileiros

Foto: Maria Carolina H

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12 O Funbio uma associao civil sem fi ns lucrativos criada para complementar as aes governamentais destinadas ao cumprimento dos compromissos do Brasil no mbito da CDB e do Programa Nacional da Diversidade Biolgica (Pronabio). Mais informaes em www.funbio.org.br.

cessrios realizao do Projeto de Conser-vao e Utilizao Sustentvel da Diversida-de Biolgica Brasileira (Probio). Coordenado pelo Ministrio do Meio Ambiente e execu-tado em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfi co e Tecnol-gico (CNPq) e com o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio)12, o Probio teve como objetivo auxiliar o Pronabio a realizar a complexa tarefa de elaborar a estratgia, os programas e planos necessrios ao cum-primento dos compromissos assumidos pe-rante a CDB.

O Probio foi estruturado em trs com-ponentes, entre os quais, um destinado identifi cao de prioridades para a aplica-o de recursos, levantamento de informa-es e disseminao de resultados, que re-sultou em cinco subprojetos criados com o objetivo de realizar, regionalmente e com a participao da sociedade civil e de pesqui-sadores, uma avaliao de reas e de aes prioritrias para a conservao da biodiversi-dade dos biomas brasileiros (MMA, 2002c).

O subprojeto Avaliao e Aes Priorit-rias para a Conservao, Uso Sustentvel e Repartio de Benefcios da Biodiversidade Brasileira viabilizou, entre 1998 e 2001, os primeiros levantamentos destinados a iden-tifi car a situao da biodiversidade em todos os biomas brasileiros e na Zona Costeira e Marinha. Ao fi nal dos processos de consul-ta, realizados em cada regio do pas, ha-viam sido identifi cadas 900 reas prioritrias que foram posteriormente ofi cializadas pelo Decreto no 5.092, de 24 de maio de 2004,

e institudas pela Portaria MMA no 126, de 27 de maio de 2004. Essa portaria determi-nou, ainda, sua reviso, num prazo de at dez anos, luz do avano do conhecimento e das mudanas nas condies ambientais. Uma detalhada descrio da metodologia e dos resultados desse processo est presente no captulo 4.1. Primeira avaliao das reas prioritrias para a conservao da biodiver-sidade na Zona Costeira e Marinha.

Ao longo de 2006 foi realizado o proces-so de atualizao do primeiro estudo, des-ta vez, sob a coordenao do Ministrio do Meio Ambiente. Esse esforo de atualizao possibilitou ao pas identifi car as priorida-des regionais relacionadas conservao, uso sustentvel e repartio de benefcios relacionados biodiversidade, classifi cadas segundo sua importncia biolgica e se-gundo o grau de urgncia, visando aes de conservao.

Os mapas, recomendaes e demais resultados decorrentes desse projeto, in-cluindo as concluses da atualizao feita em 2006, foram consolidados em um do-cumento fi nal publicado pelo MMA e apro-vados por meio da Portaria MMA no 9, de 23 de janeiro de 2007. Denominado reas Prioritrias para a Conservao, Uso Susten-tvel e Repartio de Benefcios da Biodi-versidade Brasileira: Atualizao Portaria MMA no 9, de 23 de janeiro de 2007, sua fi nalidade orientar a formulao e imple-mentao de polticas pblicas, programas, projetos e atividades, sob a responsabili-dade do governo federal, para dar efetivi-dade aos objetivos da CDB no Brasil. Uma detalhada descrio da metodologia e dos resultados desse processo est presente no captulo 4.2. Atualizao das reas priorit-rias para a conservao da biodiversidade na Zona Costeira e Marinha.

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42

3.3.

Aprovado pelo Decreto no 5.758/2006, o Plano Estratgico Nacional de reas Pro-tegidas (PNAP) defi ne princpios, diretrizes e aes para o estabelecimento de um sis-tema abrangente de reas protegidas, eco-logicamente representativo, efetivamente manejado, integrado a reas terrestres e marinhas mais amplas, at 2015. Elaborado com a participao de especialistas, gesto-res de unidades de conservao e lideran-

as de organizaes da sociedade civil e de movimentos sociais, envolvendo aproxima-damente 400 pessoas, o PNAP visa atender os objetivos trazidos pelo Programa de Tra-balho sobre reas Protegidas da CDB (Deci-so VII/28), aprovado durante a COP 7, em 2004.

A partir de uma abordagem ecossist-mica do planejamento da conservao, o plano leva em considerao no apenas as categorias de unidades de conservao do SNUC, mas tambm terras indgenas e terras quilombolas, alm de reservas legais e reas de preservao permanente, identifi cadas como elementos integradores da paisagem. Seus objetivos e estratgias esto organi-zados em torno de quatro eixos temticos:

a) Planejamento, Fortalecimento e Gesto; b) Gover-nana, Participa-o, Equidade e Repartio de Cus-tos e Benefcios; c) Capacidade Institu-cional, d) Avaliao e Monitoramen-to. A esses eixos esto relaciona-dos objetivos ge-rais e especfi cos, bem como estra-tgias para dar-lhes efetividade.

O PNAP relacio-na duas diretrizes13 e aponta uma srie

de aes necessrias ao enfrentamento dos problemas que comprometem a conserva-

13 So elas: IV - o sistema representativo de reas cos-teiras e marinhas deve ser formado por uma rede de reas altamente protegidas, integrada a uma rede de reas de uso mltiplo; e V - as reas protegidas cos-teiras e marinhas devem ser criadas e geridas visando compatibilizar a conservao da diversidade biolgica com a recuperao dos estoques pesqueiros.

O Plano Estratgico Nacional de reas Protegidas (PNAP)

Fortalecimento e Gesto; b) Gover-nana, Participa-o, Equidade e Repartio de Cus-tos e Benefcios; c) Capacidade Institu-cional, d) Avaliao e Monitoramen-to. A esses eixos esto relaciona-dos objetivos ge-rais e especfi cos, bem como estra-tgias para dar-lhes efetividade.

na duas diretrizese aponta uma srie

Foto: Enrico Marone

Pescadores em atividade na Reserva Extrativista do Delta do Rio Parnaba (PI)

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o da biodiversidade existente nessa par-cela do territrio brasileiro. O Eixo temtico 3 (Planejamento, Fortalecimento e Gesto) traz como um de seus objetivos gerais a inte-grao das unidades de conservao a pai-sagens terrestres e marinhas mais amplas, de modo a manter a sua estrutura e funo

PNAP teve grupo especfi co para a Zona Costeira e Marinha

ecolgicas e socioculturais, detalhando aes para aprimorar a integrao de uni-dades de conservao a paisagens terrestres e aquticas continentais e marinhas e ga-rantir o estabelecimento e a manuteno da conectividade entre ecossistemas.

A formulao do PNAP contou com um grupo especfi co para elaborar aes para a Zona Costeira e Marinha, incluindo o es-tabelecimento de unidades de conserva-o como medida para realizar a gesto da atividade pesqueira. Considerando os problemas que afetam essa regio no pas e, especialmente, a sub-representao de ecossistemas marinhos no SNUC, o grupo apresentou um conjunto de princpios, di-retrizes e estratgias para proteger a rea costeira e marinha, onde se destacam:

a criao e gesto de reas protegidas na Zona Costeira e Marinha deve visar no s a conservao da biodiversidade, mas tambm a recuperao dos estoques pes-queiros;

o sistema deve ser representativo, pro-tegendo amostras da diversidade de ecos-sistemas que caracterizam essa regio do pas;

o percentual fi nal de cada ecossistema costeiro e marinho a ser protegido dever ser defi nido aps a realizao de estudos de representatividade;

o desenho das reas protegidas deve ob-servar um gradiente de presses, ameaas e confl itos existentes entre a costa e a zona

econmica exclusiva, com um mapeamen-to das prioridades.

No caso da Zona Costeira e Marinha, um sistema representativo pode ser entendido como:

uma rede primria composta por reas protegidas altamente restritivas, onde o uso extrativo excludo e outras presses humanas signifi cativas so removidas ou eliminadas com a fi nalidade de manter a integridade, estrutura e funcionamento dos ecossistemas a serem preservados ou rec