Patativa poeta pássaro do assaré

  • View
    291

  • Download
    2

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Carvalho, Gilmar de. Patativa poeta pássaro do Assaré. entrevistador Gilmar de Carvalho. — Fortaleza; Editora Inside Brasil Ltda., 2000

Text of Patativa poeta pássaro do assaré

  • PATATIVA POETA PSSARO DO ASSAR 1

    Patativapoeta pssarodoAssar

  • 2 GILMAR DE CARVALHO

  • PATATIVA POETA PSSARO DO ASSAR 3

    Patativa

    GILMAR DE CARVALHO

    poeta pssarodoAssar

  • 4 GILMAR DE CARVALHO

    Copyright 2000 Gilmar de CarvalhoDiretor Editorial: Lus-Sergio SantosSuperviso: Isabela MartinPreparao de originais: Editora Inside Brasil Ltda.Fotos: Ismael Pordeus Jr.Diagramao: Jon RomanoTranscrio das fitas: Ane Katerine Medina NeriDTP: Walter WinnerImpresso e acabamento: Grfica Banco do Nordeste

    2000Proibida a reproduo total ou parcial.

    Os infratores sero processados na forma da LeiEDITORA INSIDE BRASIL LTDA.

    Rua Beni Carvalho, 566Fortaleza, Cear, Brasil

    Fone: (85) 261. 3434 Fax: (85) 261.1462home-page: www.omnieditora.com.br

    e-mail: df@fortalnet.com.br

    F I C H A C A T A L O G R F I C A

    Carvalho, Gilmar de. Patativa poeta pssaro do Assar.entrevistador Gilmar de Carvalho. Fortaleza;Editora Inside Brasil Ltda., 2000 176pp 1. Patativa do Assar Entrevista. I. Ttulo

    ISBN 85-889-02-3

  • PATATIVA POETA PSSARO DO ASSAR 5

    Sumrio

    07

    13

    91

    164

    170

    173

    175

    Viva voz

    Entrevista Lado A

    Entrevista Lado B

    Cronologia

    DiscografiaBibliografiaReferncias bibliogrficas

  • 6 GILMAR DE CARVALHO

  • PATATIVA POETA PSSARO DO ASSAR 7

    Viva voz

    Aparentemente, fcil a aproximao com Patati-va. A porta sempre aberta. Sua cadeira fica no fundo do corredor e o recorte da janela ilumina sua silhueta, como um teatro de sombras. Para os incautos ou para os apressados, ele tem um discurso pronto e acabado. Como se precisasse dar conta das entrevistas e o interlocutor fosse um fardo.

    A estratgia de dizer o mximo possvel de poemas que procurei transcrever com as marcas da fala e sem cotej-los com os volumes impressos me parecia uma forma de escapar s perguntas embaraosas e ganhar tempo

    Cheguei, grosseiramente, a desligar o gravador, por alguns instantes. Depois compreendi que Patativa se concretiza na performance e que o que ele tem a dizer, e que lhe parece relevante, est nos poemas.

    A partir da deixei que ele falasse mais e me preocupei menos em tentar cumprir a pauta.

    Complicada essa relao invasiva. Os limites ticos entre o que se quer saber e o que pode ser dito so tnues. A privacidade pode ser delimitada por um silncio. No emaranhado das respostas prontas preciso saber o que a conversa tem de original.

    Todas essas questes se resolvem na dinmica do processo. Essa conversa, iniciada s nove da manh, interrompida para o almoo e retomada tarde, procura ser uma espcie de traduo de um fluxo de conscincia, com o mnimo de edio (aqui entendida como inter-ferncia). Trata-se de um dia na vida de Patativa, 15 de fevereiro de 1996, uma quinta-feira. Querer reduzir a

  • 8 GILMAR DE CARVALHO

    vida de Patativa a um dia de entrevista uma tarefa v. A esto seus grandes temas: ligao com a terra, poesia social, seus afetos, sua idia de cidadania, sua f.

    Na medida do possvel essa entrevista d voz ao po-eta, o que no escamoteia a viso de mundo e as arma-dilhas do pesquisador. Ainda h muito o que se discutir numa teoria desse dilogo possvel.

    A meio termo entre a histria de vida (e da obra) e a curiosidade do estudioso, esse livro se inscreve como um longo e perfeccionista trabalho de produo e de uma ps-produo em que detalhes foram checados, informaes foram acrescidas, como um olhar reflexivo e compassivo sobre um grande poeta e sua obra.

    Como complicadores, a posio assumida de respeito e admirao pela personagem, um distanciamento que nunca seria atingido e a falta de uma tenso, de um acir-ramento de nimos para obter a resposta que se queria para determinada pergunta.

    O resultado final uma conversa com Patativa que se pretende redonda, como a metfora da serpente (ur-boro) que morde a prpria cauda.

    Patativa est a, ntegro. A maior parte se perdeu, se esfumaou porque a performance no pode ser registra-da, mesmo com os aparatos que asseguram a reproduti-bilidade tcnica da voz e a fixao das imagens.

    O instante nico da entrevista foi fruido por ns dois. Procurei preservar para os leitores o mximo possvel do clima de cumplicidade que se formou, passado o mal--estar inicial de um pesquisador apressado, com outra noo de tempo e vido por revelaes bombsticas que no sero encontradas aqui.

    Perdi a conta das vezes que voltei a Assar, ao longo

  • PATATIVA POETA PSSARO DO ASSAR 9

    do tempo e fui recebido na casa escura e comprida da rua Coronel Pedro Onofre, nmero 27. Tantas vezes voltei que passei a ser um amigo. Tenho mais de 400 pginas de entrevista transcritas, mais de vinte fitas cassete, mas o que fiz depois foi complementar essa entrevista cha-ve, essencial e fundante da amizade que se estabeleceu entre ns.

    Da a deciso de public-la. Porque ela a sntese de tudo o que eu soube e registrei depois. Como se voltar outras vezes a Assar, para entrevist-lo ou para complementar esse material, fosse apenas um libi para estar perto dele.

    Posso dizer que tentei e consegui ultrapassar as bar-reiras do mito e enxergar o homem, em meio a tantas mscaras, empostaes de voz e verdades no to abso-lutas que vo revelando, de corpo inteiro, um Patativa que se deixa mostrar para poucos e que eu coloco agora disposio de muitos: dos que quiserem enfrentar essa aventura que tem bases na oralidade e ritual, na medida em que o poeta foi erigido como um emblema.

    Patativa, parafraseando uma bigrafa de Clarice Lispector, um ser que se poetiza: Sua voz ancestral, sua dico clssica, de popular ele tem a extrao, o pertencimento de classe social.

    Tudo nele sincero. At a modstia, que chega a parecer falsa, resiste provocao. Ele modesto do jeito dele.

    Impressionante como Patativa consegue atualizar a tradio. Quando ele fala o poeta e, por trs, o violeiro. Ele estabelece com o entrevistador uma peleja cujas re-gras so as da cortesia sertaneja. E no se deixa intimidar pela impertinncia da pergunta. Trata-a como se fosse

  • 10 GILMAR DE CARVALHO

    um repente que precisasse de uma resposta altura. Est estabelecido o jogo.

    A conversa flui, respeitvel. Ele responde como quem acumula os versos dos poemas na memria privilegiada. Ganha tempo, se esconde para depois se mostrar, como a luz de muitos sis nordestinos.

    Patativa voz. O corpo franzino trado pela contun-dncia com que rebate o interlocutor. Depois vem a paz de quem se sabe maior. quando a tradio se atualiza, nossa frente, e Patativa incorpora novas falas. Sabe dos meninos de rua, do MST, mas vai fundo na dor da nossa condio, no sentimento de finitude e no amor.

    Um Cristo humano e imperfeito em suas pretensas deficincias. Anda com muletas, ouve com ajuda de apa-relhos, est cego, mas decifra e devora-nos. um orculo com uma sabedoria que vem dos tempos imemoriais. Entrevist-lo correr riscos e se tornar vulnervel sua grandeza e sua seduo.

    Patativa joga limpo. cristalino como um olho dgua e sonoro como a patativa de onde foram buscar o ep-teto que lhe serviu de marca. Patativa do Assar, poeta pssaro, metfora de um viver sem fronteiras. Um canto singular, na sua unicidade, e plural, porque de todos os homens, de todos os tempos.

    Um Patativa que nos desafia, que supera os referen-ciais tericos que julgamos operacionalizar e que se desnuda, com a segurana do ancio e a intrepidez do jovem.

    Ave, Patativa. As palavras so imperfeitas para tentar esboar um perfil, por mais apressado que seja, esgar-ado e tnue, impreciso e rgido. Patativa do Assar a prpria voz que enuncia, conciliando natureza e cultura,

  • PATATIVA POETA PSSARO DO ASSAR 11

    engenho e arte, razo e emoo.Poucas vezes a poesia foi elevada a esta condio.

    O poeta disse tudo. Podemos desligar o gravador. O texto est pronto. Pode ser salvo. Eu estarei a salvo. O desafio nunca ser cumprido. As palavras se revelaro imprprias, preciso dilatar os limiares da expresso e experimentar a sensao do pssaro em pleno vo. Patativa, o poeta que se fez verbo para se fazer homem.

  • 12 GILMAR DE CARVALHO

    EntrevistaLado A

    Gilmar de Carvalho O que significa para o senhor a Serra de Santana.

    Patativa do Assar A Serra de Santana eu posso dizer que o meu paraso, viu? Ali eu nasci em mil e novecentos e nove, no dia 5 de maro. Sou filho de um agricultor tambm muito pobre. E ento eu fiquei como que enraizado naquela Serra de Santana que eu j hoje me tornei conhecido... posso dizer, em todo o Brasil e todos me querem e tm a maior ateno e tal, mas aquela Serra de Santana num sai aqui do meu corao. Eu vivo aqui no Assar, mas o corao ficou l na Serra de Santana, onde eu trabalhei muito at a idade de sessenta e tantos anos, trabalhando de roa... porque a minha poesia ... Muita gente num sabe como que eu componho os meus poemas. No escrevendo! ... fao a primeira estrofe, deixo retida na memria. A segunda, do mesmo jeito; a terceira e assim por diante. Pode ser um poema de trinta estrofes! Quando eu termino, eu estou com todas elas retidas na memria, a que passo para o papel. Sempre fiz verso assim! Meu trabalho ma-nual diariamente nunca interrompeu a minha misso de poeta, de simples poeta do povo, cantando a nossa terra, a nossa vida, a nossa gente, viu? E assim por diante. E

  • PATATIVA POETA PSSARO DO ASSAR 13

    o principal da minha vida a Serra de Santana. Estou nessa idade, mas de quando em vez eu vou Serra de Santana, onde eu nasci e me criei trabalhando ali ao lado de meus irmos, minha me, viu? Tanto queu tenho aquele meu