Paulo Freire e o Papel Das Agencias de Coopera§£o

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Paulo Freire

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  • 123Pro-Posies | v. 25, n. 3 (75) | P. 123-141 | set./dez. 2014

    ResumoO artigo foi redigido como parte de um estudo mais amplo, que

    tem por objetivo investigar o contexto e as intenes em que

    prticas de educao popular foram produzidas na dcada de

    1970 e 80 no Brasil, identificando os fatores que permitiram seu

    desenvolvimento. O objetivo especfico deste texto concentra-se

    em discutir o papel que as agncias de cooperao europeias

    tiveram no apoio s entidades da sociedade civil brasileira, em

    sua atuao no campo da educao popular naquele perodo,

    e a influncia do pensamento de Paulo Freire. Para tanto, alm

    de bibliografia sobre o tema, foram utilizadas entrevistas com os

    principais oficiais de projetos daquelas agncias que atuaram

    apoiando trabalhos no Brasil.

    Palavras-chave: Paulo Freire, educao popular, cooperao internacional, orga-

    nizaes no governamentais, Comunidades Eclesiais de Base.

    Paulo Freire e o papel das Agncias de Cooperao Europeias no apoio Educao Popular no Brasil

    Srgio Haddad* http://dx.doi.org/10.1590/0103-7307201407507

    * Ao Educativa Assessoria Pesquisa e Informao, So Paulo, SP-Brasil. sergiohaddad@terra.com.br

  • 124 Pro-Posies | v. 25, n. 3 (75) | P. 123-141 | set./dez. 2014

    AbstractThis article was drawn up as part of a broader study that has

    the objective of investigating the context and the intentions in

    which popular education practices were carried out in Brazil in

    the 1970s and 1980s, identifying factors that permitted their

    development. The specific objective of this text focuses on

    discussing the role that the European cooperation agencies had

    in their support of Brazilian civil society organizations in their

    action in the field of popular education during that period as well

    as with regard to the influence of Paulo Freres thought. Towards

    this, besides offering a bibliography on the theme, interviews

    with the principal officials related to projects that supported

    work in Brazil were also analyzed.

    KeywordsPaulo Freire, popular education, international cooperation,

    non-governmental organizations, basic ecclesial communities.

    Paulo Freire and the role of the European Financing Agencies in the

    support of Popular Education in Brazil

  • 125Pro-Posies | v. 25, n. 3 (75) | P. 123-141 | set./dez. 2014

    IntroduoDurante os anos 1970, perodo de plena ditadura no Brasil, no contexto da re-

    presso poltica que se instalou contra institucionalidades, grupos, organizaes e

    indivduos, novas formas do agir poltico se desenvolveram como mecanismo de re-

    construo democrtica e de defesa dos direitos humanos que eram violados cons-

    tantemente. Entre essas formas, duas merecem destaque: as Comunidades Eclesiais

    de Base CEBs e as Organizaes No Governamentais (ONGs). As primeiras so

    fruto do movimento da Igreja Catlica de aproximao com setores populares de for-

    ma crtica, amparada pelas orientaes do Conclio Vaticano II e da Teologia da Liber-

    tao; as segundas se constituram como alternativa poltica para pessoas e grupos

    que vinham de partidos polticos e de universidades e instituies pblicas e privadas

    atingidas pela perseguio dos rgos de represso.

    Essas novas formas do agir poltico tinham em comum metodologias de trabalho

    com os setores populares, orientadas para aumentar a tomada de conscincia sobre

    os problemas vividos pela populao e ampliar a sua organizao, para a defesa dos

    seus interesses e contra o regime repressivo. Quase sempre a referncia pedaggica

    dessas metodologias de trabalho tinha Paulo Freire como centralidade, apesar de o

    educador estar exilado na Sua. Seus escritos circulavam de forma reservada nos

    primeiros anos.

    As CEBs foram muito estudadas naquele perodo e, posteriormente, nos tempos

    de redemocratizao. J, o mundo das ONGs, nem tanto: sua semiclandestinidade e

    seu pequeno nmero acabaram por torn-las quase invisveis sociedade em geral,

    tendo ganhado presena pblica apenas por ocasio do encontro das Naes Unidas

    no Rio de Janeiro, conhecido como Rio 92, quando milhares de organizaes brasilei-

    ras e internacionais estiveram presentes em um evento paralelo na praia do Flamen-

    go. Se as CEBs tinham por trs a Igreja Catlica como apoio poltico e financeiro, as

    ONGs viviam da cooperao internacional, principalmente a europeia.

    Paulo Freire, vivendo em Genebra, no s acabou por influenciar, com suas ideias,

    a cooperao internacional, tornando-a menos assistencialista e mais crtica no apoio

    s organizaes que trabalhavam processos de transformao social nos pases do

    Sul, entre as quais as ONGs, como tambm visitou vrias das agncias do Norte, para

    falar sobre a realidade repressiva desses pases e sobre o seu pensamento pedaggico.

    Este texto tem como pano de fundo essa realidade. Trata-se de buscar informaes

    sobre uma realidade muito pouco conhecida. Para tanto, a metodologia utilizada foi a

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    da reviso bibliogrfica sobre a temtica, combinada com visitas s agncias de coo-

    perao e entrevistas com pessoas que eram responsveis pelo apoio s entidades

    e a seus projetos educacionais no Brasil. O contedo a seguir um dos produtos de

    uma pesquisa mais ampla.

    A cooperao europeiaA cooperao internacional ou cooperao para o desenvolvimento dos pases

    europeus estudados neste artigo (Frana, Alemanha, Blgica e Holanda), de uma

    maneira geral, esteve inserida no conjunto de aes que os governos estruturaram

    como poltica estatal para pases em desenvolvimento ou em situao de emergn-

    cia no mbito da sua poltica externa. Evidentemente, cada um definiu sua poltica a

    partir no apenas de demandas e dinmicas internas sua histria, s suas formas

    de organizao poltica e social, ao seu lastro cultural, mas tambm de sua insero

    na cena mundial e da relao com os pases apoiados por sua poltica externa de

    cooperao. possvel afirmar, no entanto, com alguma margem de segurana, que

    h um elemento comum: a participao de entidades da sociedade civil de cada

    pas, seja na estruturao das polticas (ou em parte de seus programas), seja na

    sua execuo. Uma hiptese que explicaria esse trao comum parece ter a ver com

    a prpria constituio de um de seus atores mais proeminentes, as ONGs e o campo

    que elas aglutinam1.

    Philipe Ryfman (2009), no livro Les ONG, reconstitui a histria das entidades do Nor-

    te que tm realizado cooperao internacional de seus primrdios at a atualidade.

    Nele, ressalta alguns pontos importantes que permitiram a constituio do campo da

    solidariedade internacional. O primeiro seria o processo de laicizao ou seculariza-

    o das atividades caritativas ligadas exclusivamente s Igrejas desde o sculo XVII na

    Europa e depois, pouco mais frente, nas colnias norte-americanas. Outro aspecto

    levantado pelo autor o surgimento, no sculo XIX, do direito internacional, que cons-

    truiu um corpo jurdico de normas que regulavam as

    relaes internacionais nos momentos de paz e de

    conflitos. Por fim, a constituio da noo de direi-

    tos humanos, ancorada no Iluminismo. por essa

    noo de direitos humanos que se orienta parte sig-

    nificativa da ao das entidades de cooperao e de

    defesa de populaes em situaes de emergncia.

    1. importante destacar que, ainda que as organizaes no governamentais tenham sua origem em processos histricos que remontam a vrios sculos, a denominao ONG recente, uma criao da segunda metade do sculo XX, a partir da ampliao da participao de organizaes da sociedade civil em processos polticos institucionais das Naes Unidas. Em realidade, a autodenominao das organizaes brasileiras como ONGs se deu apenas a partir de meados da dcada de 1980.

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    Se essas referncias so longnquas do ponto de vista temporal, elas montam o

    pano de fundo de orientao e sustentao institucional e jurdica que permitir a

    constituio de programas e aes bilaterais e multilaterais das polticas de coopera-

    o internacional; por outro lado, constituem lastro para percepo social da necessi-

    dade e da justeza da solidariedade internacional como uma ao individual, coletiva

    e institucional, reconhecendo o papel da sociedade civil nessa atividade.

    As primeiras entidades humanitrias datam do sculo XIX e surgiram por ocasio

    das guerras dentro da prpria Europa e, de acordo com Roque (2001), so baseadas

    em fins morais ou religiosos. Como exemplo, ele destaca o surgimento em 1839, na

    Inglaterra, da British and Foreign Anti-Slavery Society, bem como, em 1860, das So-

    cits de Secours Aux Blasss, que iriam, mais frente, formar as sociedades nacio-

    nais da Cruz Vermelha. Essa ltima seria a inspirao para a organizao, pela Igreja

    Catlica, da Rede Critas no comeo do sculo XX.

    Os fatores explicativos da expanso desse campo so, grosso modo, as duas

    guerras mundiais e o processo de descolonizao da frica. O surgimento das gran-

    des entidades de atendimento emergencial a civis afetados pelas guerras foi uma no-

    vidade no cenrio europeu. Foi nesse contexto que nasceram importantes entidades

    internacionais que mais tarde, a partir dos anos 1970, teriam importante participao

    na cooperao com o Brasil: a Save the Children, em Londres, em 1919; a Plan Inter-

    national em 1937; a britnica Oxfam em 1942; a Care, nos Estados Unidos, em 194