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Pernambuco 72

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Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco

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  • Suplemento Cultural do Dirio Oficial do Estado de Pernambuco n 72 - Distribuio gratuita - www.suplementopernambuco.com.br

    UM DOSSI SOBRE WALTER BENJAMIN, O HOMEM QUE VIU ATRAVS DO HORROR DAS DUAS GRANDES GUERRAS

    PEDRO

    MELO

    PAULO SCOTT | ENTREVISTA COM JULIN FUKS | SOBRE A ARTE DE ENCERRAR UM LIVRO

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  • PERNAMBUCO, FEVEREIRO 20122

    CARTA DO EDITOR

    HELIA SCHEPPA

    GALERIA

    Fotgrafa do Jornal do Commercio, Helia comeou a usar o Instagram como uma curiosidade. Foi no sentido de brincar mesmo, no comeo. Mas depois, percebi que estava reciclando o meu olhar, com a liberdade visual de fotografar sem ser profi ssionalmente e ainda assim dividir isso com as pessoas.

    http://www.fl ickr.com/heliascheppa e no instangram seu nome de usurio heliascheppa

    GOVERNO DO ESTADODE PERNAMBUCOGovernador Eduardo Campos

    Secretrio da Casa CivilFrancisco Tadeu Barbosa de Alencar

    COMPANHIA EDITORADE PERNAMBUCO CEPEPresidenteLeda AlvesDiretor de Produo e EdioRicardo MeloDiretor Administrativo e FinanceiroBrulio Meneses

    CONSELHO EDITORIALEverardo Nores (presidente)Antnio PortelaLourival HolandaNelly Medeiros de CarvalhoPedro Amrico de Farias

    SUPERINTENDENTE DE EDIOAdriana Dria Matos

    SUPERINTENDENTE DE CRIAOLuiz Arrais

    EDIORaimundo Carrero e Schneider Carpeggiani

    REDAOMariza Pontes, Debra Nascimento, Mariana Oliveira e Marco Polo

    ARTE, FOTOGRAFIA E REVISOGilson Oliveira, Janio Santos, Karina Freitas, Milito Marques e Sebastio Corra

    PRODUO GRFICAEliseu Souza, Joselma Firmino, Jlio Gonalves, Roberto Bandeira e Sstenes Fernandes

    MARKETING E PUBLICIDADEAlexandre Monteiro, Armando Lemos e Rosana Galvo

    COMERCIAL E CIRCULAOGilberto Silva

    PERNAMBUCO uma publicao da Companhia Editora de Pernambuco CEPERua Coelho Leite, 530 Santo Amaro RecifeCEP: 50100-140Contatos com a Redao3183.2787 | [email protected]

    O nome de Walter Benjamin mais do que conhecido por todos aqueles que exploram as cincias humanas. A amplitude do seu olhar faz com que ele ilumine as mais diversas reas, da literatura comunicao. Esse ms trazemos um dossi a seu respeito, aprovei-tando nova edio de Origem do drama trgico alemo, pela editora Autntica. O reprter Pau-lo Carvalho, um admirador do pensamento benjaminiano, saiu em busca de alguns dos principais especialistas brasileiros do escritor, para que eles discutissem essa que uma das suas obras menos compreendidas.O escritor Manoel Ricardo de Lima, profes-

    sor de literatura da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, buscou compreen-der o impacto do trabalho de Benjamin, num texto de sensvel teor filosfico: As escolhas que Benjamin fez, naquele momento, come-o do sculo 20, no eram to bvias. A sua prtica de pensamento tem a ver diretamente com essas escolhas que fez a partir de um uso deflagrado da ateno; no toa seus textos no comportam qualquer resultado conclu-sivo, ao contrrio, sugerem a constituio abissal do paradoxo naquilo que ele passa a chamar de imagem dialtica.

    O Pernambuco desse ms tambm se volta a discutir duas das obras mais comentadas da recente produo brasileira de romances: A procura do romance, de Julin Fuks, e Habitante irreal, de Paulo Scott. Ronaldo Correia de Brito, que lana este ano o seu segundo romance, Eu estive l fora, escreveu uma crnica em que relata o momento em que o autor tem de se livrar de um livro e colocar o ponto final nele. O escritor trata essa questo a partir da tcnica de fazer caf, uma de suas paixes. J no existe a profisso de torradeira de caf. Ningum mais escuta falar nessas mulheres que trabalhavam nas casas de famlia, em dias agendados com bastante antecedncia. As profissionais, famosas pela qualidade do servio, nunca tinham hora livre. Cobravam caro e s atendiam freguesas antigas. No era qualquer uma que sabia dar o ponto certo da torrefao, reconhecer o instante exato em que os gros precisavam ser retirados do fogo. Um minuto a mais e o caf ficava queimado e amargo. Um minuto a menos e ficava cru, com sabor travoso, observa Ronaldo. Talvez a fico exija o mesmo cuidado.

    Boa leitura e timo Carnaval e at maro.

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  • PERNAMBUCO, FEVEREIRO 20123

    Paulo Scott

    difcil traar um roteiro seguro, absoluto, de passos infalveis. Cada livro, cada projeto estabelece sua prpria dinmica. Enxergar e administrar esse trn-sito, sua inconstncia e os seus ritmos, o primeiro passo a ser dado quando se pretende uma carreira de escritor. Nem toda ideia, nem todo nimo, impulso, inrcia vingaro; nem tudo que se conclui vale a pena mostrar. Habilitar-se para esse julgamento exige um distanciamento delicado, arriscado at, pois a autocrtica que deve existir no pode ser de forma a travar o processo criativo penso que por essa razo muitos acadmicos escritores tm tanta dificuldade em produzir; as referncias que carregam so tantas e os parmetros de avaliao to elabo-rados que acabam por jog-lo numa imobilidade de enorme resistncia, numa srie de moldes cuja funcionalidade existe para evitar falhas, mas que na prtica os impediro de inovar o contexto literrio. Por no ter erudio literria expressiva, por no

    ambicionar t-la (t-la para fora da minha condi-o de leitor compulsivo), tenho menos receio de errar do que muitos dos vrios outros escritores de talento que conheo. Imagino que meu processo seja mais simples, mais intuitivo. Tendo inveno de personagens que me interessem e, em seguida, a desenvolver na minha cabea suas idiossincrasias, suas ambies em especial e a partir disso contar a histria. Evito as anotaes detalhadas, descries fsicas dos protagonistas, antagonistas, coadjuvantes (dificilmente isso ser relevante), no completo ma-pas minuciosos para s ento comear a trabalhar. Nada disso. Gosto, sinceramente, de ir contando aos amigos o que estou fazendo; verbalizar, discor-rer sobre minhas intenes me ajuda a sedimentar a histria, a descobrir sadas, a entender o que no funciona. No tenho medo de revelar o que estou fazendo. Histrias, boas histrias, no faltam por a, o segredo conseguir cont-las acrescentando algo de relevante tradio literria isso, hoje em dia, quando so despejadas centenas e centenas de livros novos nas estantes das livrarias brasileiras a cada ms, um dado impossvel de negligenciar.Outro aspecto que imagino tambm seja digno

    de nota o estado de entusiasmo com o que se est escrevendo. Pode parecer tolice, mas no . Logo que a atividade literria deixa de ser novidade e passa a ser profisso, encontrar os mecanismos do entusiasmo e de como conseguir mant-lo crucial, eu diria. Por isso s vezes no me importo

    de me deter por longos perodos na linguagem, no artesanato das palavras (deixando um pouco de lado a nfase em torno da narrativa), mesmo que parea imprudncia. Admito o capricho porque a linguagem o fator que me empolga, me diverte, me leva a escrever com mais vivacidade, mesmo sabendo que depois terei de cortar trechos, par-grafos inteiros. Toda estrutura narrativa precisa de muitas verses, eleies, selees, precisa ser concretizada para depois ser enxugada. Tento no cair na pressa que eventualmente possa prejudicar a distncia entre a criao e a reviso. Alimento a desconfiana do que foi produzido; sobretudo: desconfio de quando me dou por satisfeito.Penso que um dos segredos da escrita, do texto

    com alguma qualidade, esteja no fato do autor ter bons leitores, pessoas com preparo e honestidade suficientes para dizer, de maneira cruel at (ima-gino que no exista outro caminho), quando aquilo que foi produzido ficou ruim. Se o autor vai aceitar a avaliao, a leitura, o ataque, bem, isso j outra histria. Gosto de escutar crticas negativas (aprecio a sinceridade dos meus interlocutores; no se vai a lugar algum com tapinhas nas costas), quer dizer: no tenho problema em escutar quando algum diz que no gostou daquilo que escrevi. O texto se faz da leitura, a leitura faz surgir a obra, possvel que a leitura, que nunca idntica pretenso do escritor, venha a melhorar o livro, claro poder tambm estrag-lo. H meia dzia de romances que, quando li pela primeira vez, me pareceram ruins (pura falta de maturidade, de ambincia), mas que depois se mostraram grandes obras. Se voc est convicto do que fez, se escrever

    no passou de aventura, deve estar pronto para enfrentar o teste das crticas. Imediatamente, po-dem trazer desconforto, mas, mediatamente, seja pela impertinncia ou pertinncia, ingressaro no rol das coisas que te faro escrever melhor, que te faro chegar a uma voz prpria, autntica, inova-dora, na medida em que ainda seja vivel atingir tais ideais, tais desconfortos.

    As nuances do raio X de uma criao ficcionalO autor de um dos livros mais elogiados hoje no Brasil, o romance Habitante irreal, sobre a histria recente do Pas, descreve os pormenores do seu processo criativo

    BASTIDORES

    CARTUNSRODRIGO AGUIAR GAFAHTTP://RODRIGOGAFA.CARBONMADE.COM/

    Habitante irrealEditora AlfaguaraPginas 262Preo R$ 40,00

    O LIVRO

    JANIO SANTOS

    3 Bastidores FEV.indd 3 24/01/2012 13:38:11

  • PERNAMBUCO, FEVEREIRO 20124

    ENSAIO

    A conscincia das escolhas que so feitas Quais as caractersticas do escritor que tambm se reconhece como um crtico? Felipe Charbel

    capaz de atuar simultaneamente, e com brilho, nessas duas frentes.No ensaio A cortina, Milan Kundera compara o

    romancista que escreve sobre sua arte com o pintor que recebe algum em seu ateli: ele falar de si mesmo, mas ainda mais dos outros, dos romances que ama e que esto secretamente presentes na sua prpria obra. O autor-crtico algum que sabe e deseja se posicionar publicamente em relao s prprias escolhas, explicitando procedimentos de leitura que atuam na contramo dos trabalhos de monumentalizao das tradies literrias. Sua visada anticannica demanda uma re