PLURALISMO, MULTICULTURALISMO E RECONHECIMENTO

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  • PLURALISMO, MULTICULTURALISMO E RECONHECIMENTO

    UMA ANLISE CONSTITUCIONAL DO DIREITO DOS POVOS INDGENAS AO

    RECONHECIMENTO

    Rodrigo Mioto dos Santos

    Graduado em Direito pela Universidade Estadual de Londrina e Mestrando em Filosofia e Teoria do

    Direito pelo Curso de Ps-Graduao em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina. Bolsista

    da CAPES. A primeira verso deste artigo, um tanto quanto maior do que esta, foi apresentada como

    requisito para a aprovao na disciplina Pluralismo Jurdico, ministrada pelo Prof. Dr. Antnio Carlos

    Wolkmer, durante o terceiro trimestre de 2004.

    e-mail: rodrigo.ms@pop.com.br

    RESUMO: Analisa conceitos do multiculturalismo e do pluralismo jurdico. Interpreta

    o tratamento dado aos povos indgenas pela Constituio brasileira de 1988 e pela

    Conveno n. 169 da OIT. Analisa exemplos prtico-jurdicos acerca da efetivao

    do direito dos povos indgenas ao reconhecimento.

    PALAVRAS-CHAVE: Pluralismo; Multiculturalismo; Direitos Indgenas;

    Reconhecimento; Conveno n. 169 da OIT.

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    INTRODUO

    Nas preliminares de sua tese de doutorado (O Renascer dos Povos para o

    Direito), Carlos Frederico Mars de Souza Filho (1998, pp. 6-7), relata-nos um fato

    extremamente significativo em uma seo intitulada Aprendendo com os Macuxi.

    Conta-nos que, em meados de 1988, quando acompanhava a reunio anual dos

    tuxauas, onde se discutia a demarcao da terra indgena Raposa Terra do Sol. Em

    determinado momento da reunio um dos taxauas levantou-se e lhe props que

    explicasse o significado dos termos Constituio e Constituinte. Relata-nos que

    explicou que a Constituio garantia direitos e limitava o poder. Ao terminar sua

    explicao, um dos membros da comunidade levantou-se e disse:

    Essa tal Constituio coisa boa, est certo o que os brancos esto fazendo. Ns tambm

    temos que fazer uma Constituio para ns, para deixar escrito e sabido quem que pode

    entrar em nossas terras e quem tem que ficar fora, quem que diz onde podemos construir

    nossas casas e fazer nossas roas e quando so nossas festas.

    Conclui Carlos Frederico Mars de Souza Filho que:

    S muitos dias depois compreendi as palavras do tuxaua. Claro, a Constituio que

    estvamos fazendo e que tanto trabalho nos estava dando incluir os direitos indgenas e

    ainda que pudesse sair, como de fato saiu, a melhor Constituio acerca dos povos

    indgenas de tantas quanto j regeram o Brasil, no passava de uma coisa de branco, de

    uma forma de expresso de um direito que continuava sendo de dominador, que continuava

    tentando incluir, terica e formalmente, quem nunca fora includo e, talvez, nem quisesse

    s-lo.

    A sabedoria do tuxaua macuxi era capaz de ver que o Estado e o Direito dos brancos que

    se pretende universal, geral e nico, parcial, especial e mltiplo. E o disse reclamando

    uma identidade jurdica que reflete uma prtica escondida, escamoteada e no raras vezes

    proibida pelo nosso sistema jurdico. O tuxaua entendeu em poucos minutos o que nossa

    cultura constitucional no logrou compreender em 200 anos de puro estudo e reflexo: a

    uma sociedade que no una, no pode corresponder um nico Direito, outras formas e

    outras expresses haver de existir, ainda que simuladas, dominadas, proibidas e, por tudo

    isto, invisveis.

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    As linhas que se seguem somente podem ser compreendidas caso o leitor

    tenha bem claro consigo que a uma sociedade que no una, no pode

    corresponder um nico Direito.

    Em que pese a relevncia da questo, julgamos desnecessrio apresentar

    um histrico do tratamento que, desde pelo menos as Grandes Navegaes, tem

    sido dado aos povos indgenas, em especial, aos latino-americanos. No julgamos

    necessrio relembrar um quadro de massacre, desrespeito e dominao.

    Os fenmenos da ocidentalizao ou europeizao e do monismo jurdico e

    axiolgico foram, do ponto de vista simblico, extremamente rigorosos com a cultura,

    a organizao, as crenas, os costumes, as lnguas e o direito dos povos indgenas

    latino-americanos. O discurso oficial esfora-se ao mximo para, se no ridicularizar,

    ao menos apresentar como inferior tal cultura. Esfora-se ao mximo para englobar

    todos num discurso que defende que s existe um caminho, uma verdade, uma luz.

    Um discurso que, pretendendo-se cientfico, mostra-se dogmtico e fundamentalista.

    Porm, a histria sempre reaparece com a cobrana; cedo ou tarde, em

    maior ou menor escala, faz-se necessrio prestar contas acerca da dvida histrica.

    E nesse quadro de retomada das injustias cometidas contra os povos indgenas

    que, nos planos poltico-filosfico e jurdico (para citar os dois objetos deste artigo),

    iniciou-se uma discusso acerca de quais direitos possuem os povos indgenas e de

    como se daria a efetivao de tais direitos. As teorias multiculturalistas e pluralistas,

    de um lado, bem como documentos legislativos importantes, de outro, tm oferecido

    significativas contribuies no que tange a um efetivo reconhecimento da cultura e

    organizao dos povos indgenas, ainda que o Judicirio nem sempre esteja

    sensvel a tais contribuies. E nesse sentido, o caso brasileiro consiste em singular

    exemplo.

    Com efeito, como se pretende defender ao longo deste artigo, as linhas-

    mestras do multiculturalismo e do pluralismo jurdico (e axiolgico) somadas a uma

    corajosa e fidedigna concretizao de algumas normas constitucionais, bem como

    de alguns dispositivos da Conveno n. 169 da OIT, conferem aos povos indgenas,

    se no a soluo de seus problemas, ao menos o reconhecimento de sua

    autonomia.

    Assim, partindo de algumas consideraes sobre as sociedades

    multiculturais e pluralistas dos dias presentes, e apoiado na Constituio Federal de

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    1988 e na Conveno n. 169 da OIT, este artigo pretende (valendo-se, ainda, de

    anlises empricas) demonstrar que o direito dos povos indgenas ao pleno

    reconhecimento de suas culturas , para alm de necessrio, algo plenamente

    possvel.

    1. OS POVOS INDGENAS NUMA PERSPECTIVA MULTICULTURALISTA

    1.1 As sociedades so multiculturais

    Dentre as obviedades que ainda precisam ser ditas, est a constatao de

    que hodiernamente as sociedades polticas, em esmagadora maioria, so

    culturalmente diversificadas. Will Kymlicka (1995, p. 13) noticia que segundo

    estimativas recentes, (...) os 184 Estados independentes do mundo contm mais de

    600 grupos de lnguas vivas e 5.000 grupos tnicos. Quer isso nos dizer que nossos

    valores, nossos princpios e nossas crenas, no passam de uma referncia a mais

    num mundo marcado pelo fato da diversidade.

    Por mais que algumas prticas e teorias desenvolvam argumentos em

    contrrio, no se pode mais negar o fato do multiculturalismo. E nesse contexto

    multicultural que surgem as minorias tnicas, ou simplesmente minorias. Dentre as

    vrias categorias minoritrias que se pode abordar, a ns desperta particular

    interesse a composta pelos povos indgenas brasileiros. Interessa-nos a resposta

    que se deve dar seguinte indagao: quais direitos possuem os povos indgenas

    brasileiros? E como veremos adiante, o multiculturalismo fornece elementos

    importantes na busca pela resposta a essa indagao.

    1.2 O que so as comunidades indgenas no interior de um Estado?

    Ao discorrermos sobre o multiculturalismo, faz-se necessrio a elucidao

    prvia de alguns termos. Assim, inicialmente, cabe consignar que, na conceituao

    de Will Kymlicka (1995, p, 25), os povos indgenas brasileiros compem o que

    podemos denominar de minorias nacionais. E isso porque, no caso das minorias

    nacionais, defende o autor, a diversidade cultural surge da incorporao de culturas

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    que previamente desfrutavam de autogoverno e estavam territorialmente

    concentradas a um Estado maior (1995, p. 25). E complementa:

    Uma das caractersticas distintivas das culturas incorporadas, as quais denomino minorias

    nacionais, justamente o desejo de continuar sendo sociedades distintas da cultura

    majoritria da qual formam parte; exigem, por tanto, diversas formas de autonomia ou

    autogoverno para assegurar sua sobrevivncia como sociedades distintas (1995, p. 25).

    Resta evidente como essas definies tericas coadunam-se perfeitamente

    com as comunidades indgenas que habitam desde muito tempo o que hoje

    conhecemos por territrio brasileiro.

    Outro conceito intimamente ligado ao de minorias nacionais o de Estados

    multinacionais. Segundo Kymlicka, uma fonte de diversidade cultural a

    coexistncia, dentro de um mesmo Estado, de mais de uma nao (uma

    comunidade histrica, mais ou menos completa institucionalmente, que ocupa um

    territrio ou uma terra natal determinada e que compartilha uma lngua e uma cultura

    diferenciadas). Da que um pas que contenha dentro de seu territrio mais de uma

    nao, no poder ser considerado uma nao-Estado, mas um Estado

    multinacional, onde as culturas menores compem as minorias nacionais (1995,

    p.26).

    Como defenderemos ao longo deste artigo, as comunidades indgenas

    brasileiras, em que pese o reduzido tamanho de algumas, constituem-se em

    verdadeiras naes dentro de nosso Estado, o que caracteriza nosso Pas como um

    Estado multinacional. Essa caracterizao, contudo, est longe de configurar-se

    pacfica, principalmente quando a questo envolve o reconhecimento constitucional

    dessa diversidade.

    Em verdade,