População em situação de rua: contextualização e ...· contextualização e caracterização*

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Revista Virtual Textos & Contextos, n 4, dez. 2005

Textos & Contextos

Revista Virtual Textos & Contextos. N 4, ano IV, dez. 2005

Populao em situao de rua:

contextualizao e caracterizao* Ana Paula Motta Costa

**

Resumo Este artigo apresenta a problemtica das pessoas em situao de rua, tendo como

pano de fundo a sociedade contempornea, centrada no consumo e no na produo, que

produz diariamente pessoas subjugadas pessoal e socialmente, com difcil perspectiva de

mudana social, ao mesmo tempo em que o estado desloca sua funo de bem-estar social

para campos repressivos. Busca-se contextualizar a realidade de excluso social que vive

essa parcela da populao, avanando na definio dos principais problemas enfrentados, na

perspectiva da violao de direitos e das estratgias de sobrevivncia desenvolvidas.

Palavras-chave Populao em situao de rua. Sociedade contempornea. Excluso social.

Polticas pblicas.

Resmen El artculo presenta la problemtica de las personas que viven en las calles, en el

contexto de la sociedad contempornea, que no se centra en la producin, sino en el

consumo, esa misma sociedad produle en el cotidiano personas individual y socialmente

subyugadas, con escasas perspectivas de mudana social. Mientras tanto, el estado despleza

su funcin de bienestar social, hacia campos ms bien repressivos. El artculo intenta

contextualizar la realidad de exclusin social vivida por esos grupos, asimesmo, intenta

avanzar hacia la definicin de los principales problemas por afrontar, desde uma perspectiva

de violacin de derechos y de las estratgias de supervivencia desarolladas.

Palabras-llave Personas en situacin de calle. Sociedad contemporanea. Exclusin social.

Polticas pblicas.

A globalizao e o avano tecnolgico, que tm alcanado as diferentes sociedades

contemporneas, tm gerado conseqncias negativas, configuradas na reproduo de

desigualdades sociais e na falta de garantias sociais para grande parcela da populao. Neste

incio do sculo, constata-se que a civilizao, ao longo dos anos, no foi capaz de constituir

um pacto que trouxesse melhorias sociais. A desigual distribuio de bens sociais, a

discriminao, o desrespeito s diferenas, a incerteza, a involuo de valores no so

anomalias, mas constituintes do pensamento globalizado e do processo econmico em curso.

Os ltimos trinta anos, conforme Bauman (1997, p. 49-52), foram decisivos para a

mudana nas caractersticas da sociedade ocidental. Antes, estar desempregado era a

* Texto original, no entanto produzido a partir de texto da mesma autora, integrante da proposta de Plano

Nacional de Ateno Populao de Rua, elaborado atravs de consultoria realizada UNESCO e ao

Ministrio do Desenvolvimento Social e Combate Fome, em 2005. **

Sociloga, Advogada, Mestre em Cincias Criminais, Ex-Gestora Municipal de Assistncia Social na

Cidade de Porto Alegre. Atualmente Professora do Centro Universitrio Metodista IPA. e-mail:

anapaula.costa@via-rs.net.

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designao daqueles sem trabalho e constitua-se na exceo. Hoje as melhorias econmicas

j no apontam para a ampliao dos empregos, mas a diminuio da fora de trabalho e a

flexibilidade das relaes de trabalho so consideradas como parte do progresso. Empregos,

como antes eram compreendidos, no existem mais; o capital j se tornou a encarnao da

flexibilidade. [...] Sem empregos, h pouco espao para a vida vivida como projeto, para

planejamento de longo prazo e esperanas de longo alcance.

Para Castel (1997, p. 15-48), no se trata de uma crise pontual, mas de um processo

de desestabilizao da condio salarial. A vulnerabilidade das massas e, de forma mais

aguda, a excluso social de grupos especficos so resultados da desagregao progressiva

das protees ligadas ao mundo do trabalho. Consistem em processos de desfiliao, ou da

fragilizao dos suportes de sociabilidade.

Nesse contexto, observa-se um processo mundial de diminuio do estado social.

Essa tendncia encontra terreno ainda mais frtil nos pases atingidos por fortes

desigualdades sociais e por grande diferena nas condies de vida da populao. Ou ainda,

em pases, como o Brasil, em que no houve uma efetiva constituio do estado de bem-estar

social.

A realidade brasileira, embora com suas caractersticas prprias, est integrada

tendncia de fragmentao mundial. O modelo econmico implantado no Pas produziu

subjugados, pessoal e socialmente, com difcil perspectiva de transposio social. De outra

parte, as polticas sociais adotadas pelos diferentes governos tiveram como opo a

implementao de aes de carter nitidamente focalista, refletindo a tendncia de enfrentar

os problemas sociais como fatos isolados. A conseqncia que tais polticas no trouxeram

resultados efetivos na condio de vida da populao.

Conforme Bauman (1997, p. 56), em uma sociedade centrada no consumo, como a

que estamos inseridos, existem os jogadores, os jogadores aspirantes e os jogadores

incapacitados, que no tm acesso moeda legal. Estes devem lanar mo dos recursos para

eles disponveis, sejam legalmente reconhecidos ou no, ou optar por abandonar em

definitivo o jogo.

a opo que resta queles denominados por Castel (1997, p. 28-29) como

sobrantes, pessoas normais, mas invlidas pela conjuntura, como decorrncia das novas

exigncias da competitividade, da concorrncia e da reduo de oportunidades e de emprego,

fatores que constituem a situao atual, na qual no h mais lugar para todos na sociedade. O

refugo do jogo, antes de explicao e responsabilidade coletiva, corporificada pelo estado de

bem-estar, agora se define como uma situao individual.

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Para o autor, esses sobrantes so indivduos que foram invlidos pela conjuntura

econmica e social dos ltimos vinte anos e que se encontram completamente atomizados,

rejeitados de circuitos que uma utilidade social poderia atribuir-lhes (Castel, 1997, p. 181).

Para sua sobrevivncia, como todos na sociedade de consumo, dependem do mercado. A

diferena est em que este mesmo mercado no mais precisa de sua fora de trabalho, nico

valor de que dispem para o processo de troca. Como no participam do processo de

circulao de mercadorias, simplesmente sobram.

Nesse contexto, insere-se a populao em situao de rua. Grupo populacional

heterogneo, composto por pessoas com diferentes realidades, mas que tm em comum a

condio de pobreza absoluta e a falta de pertencimento sociedade formal. So homens,

mulheres, jovens, famlias inteiras, grupos, que tm em sua trajetria a referncia de ter

realizado alguma atividade laboral, que foi importante na constituio de suas identidades

sociais. Com o tempo, algum infortnio atingiu suas vidas, seja a perda do emprego, seja o

rompimento de algum lao afetivo, fazendo com que aos poucos fossem perdendo a

perspectiva de projeto de vida, passando a utilizar o espao da rua como sobrevivncia e

moradia.

Essa realidade caracterstica do processo de excluso social que existe no Brasil

neste incio de milnio. A excluso social, que passamos a conhecer, tem origens

econmicas, j referidas, mas caracteriza-se, tambm, pela falta de pertencimento social,

falta de perspectivas, dificuldade de acesso informao e perda de auto-estima. Acarreta

conseqncias na sade geral das pessoas, em especial a sade mental, relaciona-se com o

mundo do trfico de drogas, relativiza valores e estabelece padres e perspectivas de

emancipao social muito restritos.

De acordo com Bulla, Mendes, Prates e outros (2004, p. 113-114), de uma forma

geral, as pessoas em situao de rua apresentam-se com vestimentas sujas e sapatos surrados,

denotando a pauperizao da condio de moradia na rua; no entanto, nos pertences que

carregam, expressam sua individualidade e seu senso esttico. Dizem as autoras que a perda

de vnculos familiares, decorrente do desemprego, da violncia, da perda de algum ente

querido, perda de auto-estima, alcoolismo, drogadio, doena mental, entre outros fatores,

o principal motivo que leva as pessoas a morarem nas ruas. So histrias de rupturas

sucessivas e que, com muita freqncia, esto associadas ao uso de lcool e drogas, no s

pela pessoa que est na rua, mas pelos outros membros da famlia.

Tambm possvel encontrar na rua pessoas que h pouco chegaram nas grandes

cidades e ainda no conseguiram emprego ou um local de moradia. Alm daqueles que

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possuem um trabalho ou subemprego, mas que seu ganho no suficiente para o sustento,

ento acabam vivendo nas ruas. Outras pessoas sobrevivem nas ruas, como os catadores de

resduos ou de outros trabalhos eventuais, e acabam dormindo em albergues e abrigos, ou em

algum esp