PÓS-CRÍTICA - PPGAV–EBA– .TEMTICAS HAL FOSTER 167 PÓS-CRÍTICA Hal Foster crítica pós-crítica

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  • 166 Arte & ensaios | rev ista do ppgav/eba/ufr j | n. 25 | ago 2013

  • 167TEMTICAS | HAL FOSTER

    PS-CRTICA

    Hal Foster

    crtica ps-crtica modernidade fetichismo

    O texto trata dos impasses da crtica de arte na atualidade. Hal Foster traa uma anlise

    panormica sobre o que nos teria conduzido a uma condio ps-crtica. O autor arti-

    cula as diversas posies sobre a crtica, e seus conceitos adjacentes, lidando particular-

    mente com autores como Bruno Latour e Jacques Rancire.

    A teoria crtica levou uma surra sria durante o

    embate cultural das dcadas de 1980 e 1990, e a

    seguinte foi ainda pior. Sob o governo de George

    W. Bush, a demanda de afirmao foi quase

    total, e hoje h pouco espao para crtica, mesmo

    nas universidades e nos museus. Intimidada por

    comentaristas conservadores, a maioria dos

    acadmicos no enfatizou mais a importncia

    do pensamento crtico para uma cidadania engajada, e a maioria dos curadores, dependentes de

    patrocinadores corporativos, tambm no promove o debate crtico, antes considerado essencial para a

    recepo pblica da arte de ponta. De fato, o completo desuso da crtica no mundo da arte, que no se

    poderia importar menos, parece evidente. Quais so, porm, as opes em oferta? Celebrar a beleza?

    Afirmar o afeto? Esperar uma redistribuio do sensvel? Confiar no intelecto geral? A condio ps-

    crtica supostamente nos liberta de nossas camisas de fora (histricas, tericas e polticas), mas, de

    modo geral, incentivou um relativismo que tem pouco a ver com pluralismo.1

    Como chegamos no ponto em que a crtica to amplamente desconsiderada? Ao longo dos anos, a

    maioria das acusaes se dirigiu ao posicionamento do crtico. Primeiro, houve uma rejeio do juzo,

    do direito moral presumido na avaliao crtica. Depois, houve recusa de autoridade, do privilgio pol-

    tico que permite ao crtico falar abstratamente em nome dos outros. Finalmente, houve ceticismo a res-

    peito de distncia e de iseno em relao s prprias condies culturais que o crtico se prope a exa-

    POST-CRITICISM | The text addresses the impasses of art criticism today. Hal Foster outlines an overview of what has led us to a post-criticism condition. The author discusses the different attitudes toward criticism and its adjacent concepts, dealing particularly with authors such as Bruno Latour and Jacques Rancire. | Criticism, post-criticism, modernity, fetishism.

    Memrias Guy Debord, s.d.

  • 168 Arte & ensaios | rev ista do ppgav/eba/ufr j | n. 25 | ago 2013

    minar. Crtica uma questo de distanciamento

    correto, escreveu Walter Benjamin h mais de 80

    anos. Ela estava confortvel num mundo em que

    perspectivas e prospectos tinham valor, e no qual

    ainda era possvel adotar um ponto de vista. Ago-

    ra as coisas exercem uma presso muito urgente

    na sociedade humana. O quo mais urgente

    essa presso hoje em dia?2

    Nem toda crtica, entretanto, depende de um cor-

    reto distanciamento. O estranhamento la Brecht

    no correto nesse sentido, e h modelos inter-

    vencionistas na arte (do Dad at o presente) nos

    quais a crtica produzida imanentemente atravs

    de tcnicas da exacerbao mimtica e dtourne-

    ment simblico.3 Quanto s outras acusaes an-

    tigas (as quais so oriundas, na maioria das vezes,

    da esquerda), elas se resumem a duas: a crtica

    impulsionada pela vontade de poder e no refle-

    xiva quanto a suas prprias reivindicaes da ver-

    dade. Muitas vezes dois receios conduzem essas

    duas acusaes: por um lado, uma preocupao

    a respeito do crtico como um patrono ideol-

    gico, que desloca o prprio grupo ou a classe

    que ele representa (a famosa advertncia de Ben-

    jamin em O autor como produtor [1934]); e,

    por outro lado, uma preocupao com a verdade

    cientfica atribuda teoria crtica em oposio

    ideologia espontnea (a posio dbia assumi-

    da por Althusser em sua releitura de Marx). Esses

    temores no so equivocados, mas constituiro

    razo suficiente para jogar fora o beb com a

    gua do banho?

    Ataques mais recentes, especialmente na crti-

    ca da representao e na crtica do sujeito, tm

    operado atravs da culpa por associao. Em vez

    de excessivamente confiante em sua verdade, da

    crtica da representao se disse que a mesma

    enfraqueceria o valor de verdade como tal, pro-

    movendo, assim, a indiferena moral e o niilismo

    poltico.4 crtica do sujeito tambm foram im-

    putadas consequncias no intencionais, j que se

    apontou que sua demonstrao do carter cons-

    trudo da identidade incitaria um consumismo de

    posies de sujeito (por exemplo, o multicultu-

    ralismo reembalado como The United Colors of

    Benetton). Para muitos, esses dois efeitos valem

    como um ps-modernismo tout court, o que

    imediatamente condenado como resultado. No

    entanto, essa uma caricatura que reduz o ps-

    modernismo expresso tpica do capitalismo

    neoliberal (ou seja, assim como o neoliberalismo

    desregulou a economia, do mesmo modo, o ps-

    modernismo no compreendeu a cultura).5

    Mais questes incisivas sobre a crtica vieram de

    Bruno Latour, que se foca no seu campo de estu-

    dos da cincia, e Jacques Rancire, que se concen-

    tra em seu tpico favorito, a arte contempornea.

    Para Latour, o crtico almeja a um conhecimento

    iluminado que lhe permite desmitificar a crena

    fetichista dos outros, ingnuos para demonstrar

    como essa crena a projeo de seus desejos

    sobre uma entidade material que no faz nada

    por si s.6 Aqui, o erro fatal do crtico no diri-

    gir esse olhar antifetichista a sua prpria crena, a

    seu prprio fetiche de desmitificao, um erro que

    o torna o mais ingnuo de todos. Latour conclui:

    por isso que voc pode ser ao mesmo tem-

    po, e mesmo sem sentir qualquer contradio

    (1) um antifetichista por tudo em que voc

    no acredita na maioria das vezes, religio,

    cultura popular, arte, poltica, e assim por

    diante; (2) um positivista contumaz por todas

    as cincias nas quais voc acredita sociolo-

    gia, economia, teoria da conspirao, genti-

    ca, psicologia evolucionria, semitica, basta

    escolher seu campo preferido de estudo; e (3)

    um realista, perfeitamente robusto para aquilo

    que voc realmente valoriza e que, claro,

  • 169TEMTICAS | HAL FOSTER

    pode ser a crtica em si, mas tambm pintura,

    observao dos pssaros, Shakespeare, babu-

    nos, protenas e assim por diante.7

    Para Rancire, tambm, a crtica comprometida

    por sua prpria dependncia da desmitificao.

    Na sua expresso mais geral, escreve ele, a arte

    crtica um tipo de arte que se prope a construir

    conscincia dos mecanismos de dominao a fim

    de tornar o espectador um agente consciente de

    transformao do mundo.8 No entanto, no so-

    mente a conscincia no transformadora per se,

    Rancire continua, mas os explorados raramente

    exigem uma explicao das leis da explorao.

    Alm disso, a arte crtica pede aos espectadores

    para descobrirem os signos do capital por detrs

    dos objetos e comportamentos cotidianos, mas,

    ao faz-lo apenas confirma a transformao das

    coisas em signos desempenhada pelo capital.

    Tanto quanto o crtico de Latour, o artista crtico

    de Rancire est preso em um crculo vicioso.

    O mesmo pode ser dito desses dois metacrti-

    cos. Latour repete o movimento crtico de Marx

    e Freud, que argumentaram o seguinte: Vocs,

    modernos, pensam que so esclarecidos, mas na

    verdade vocs so to fetichistas quanto qualquer

    primitivo fetichistas no apenas da mercadoria,

    mas de qualquer objeto que desejam inapropria-

    damente. A essa inverso, Latour agora acres-

    centa outra, sua: Vocs, crticos antifetichistas

    so tambm fetichistas fetichistas do seu prprio

    amado mtodo ou disciplina. Nessa medida, en-

    to, ele permanece dentro da espiral retrica da

    prpria crtica com a qual deseja romper.

    Rancire se une nesse desafio hermenutica da

    suspeita que funciona na crtica la Escola de

    Frankfurt. No entanto, esse desafio no ape-

    nas familiar dentro da teoria crtica; foi tambm

    fundamental para seu prprio redirecionamento

    de uma busca de significados ocultos para uma

    considerao das condies de possibilidade do

    discurso (como em Foucault), do significado da

    superfcie textual (como em Barthes), e assim por

    diante.9 Alm disso, Rancire condena a crtica

    por sua projeo de um espectador passivo com

    necessidade de ativao (essa a verso dele a

    respeito do crente ingnuo necessitado de desmi-

    tificao), mas ele tambm assume essa passivi-

    Still do filme A Sociedade do Espetculo Guy Debord, 1973

  • 170 Arte & ensaios | rev ista do ppgav/eba/ufr j | n. 25 | maio 2013

    dade quando requer tal ativao alm da simples

    percepo.10 Finalmente, sua redistribuio do

    sensvel uma panaceia, e, quando contraposta

    transformao de coisas em signos, promovi-

    da pelo capitalismo, pouco mais do que um an-

    seio, o novo pio que resta ao mundo da arte.11

    Dito tudo isso, compreende-se o desgaste que

    muitos sentem com relao crtica hoje, espe-

    cialmente quando, tomada como valor autom-

    tico, endurece dentro de uma postura de auto-

    Memrias Guy Debord, 1959

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    considerao. Certamente sua retido moral pode

    s