Pragas da colônia: insetos na América portuguesa do século XVI .Resumo: O presente artigo

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Revista Latino-Americana de Histria Vol. 2, n. 8 Outubro de 2013 by PPGH-UNISINOS

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Pragas da colnia: insetos na Amrica portuguesa do sculo XVI

Christian F. M. dos Santos*

Wellington B. Silva Filho**

Resumo: O presente artigo pretende fazer uma reflexo sobre as descries de insetos

existentes na colnia portuguesa do Novo Mundo. Para tanto, utilizamos como fontes

documentais, tratados, cartas e crnicas produzidas pelos clrigos e colonizadores que

estiveram na Amrica portuguesa em seu primeiro sculo de colonizao europeia. Ao

analisarmos os relatos acerca da fauna entomolgica existente no territrio recm-descoberto,

observamos o alto grau de meticulosidade, empregado por esses homens, para compreender as

peculiaridades existentes na natureza braslica. Considerando-os animais inferiores e,

portanto, originrios de gerao espontnea, os colonizadores reservaram espao considervel

em suas obras para descrever estes seres que eram observados tanto por seu potencial

alimentcio, quanto pelos perigos que representavam manuteno da colnia.

Palavras-chave: Histria das Cincias. Histria Ambiental. Abiognese.

Abstract: This article aims to reflect on the descriptions of insects exist in Portuguese colony

in the New World. We used as sources treaties, letters and chronicles produced by clerics and

colonizers who were in Portuguese America in its first century of European colonization.

When analyzing the reports about the insect fauna in the territory newly discovered, we

observed a high degree of thoroughness employed by these men to understand the

peculiarities existing in nature braslica. Considering the lower animals, and therefore

originate from spontaneous generation, the colonizers set aside considerable space in his

works to describe these beings who were noted both for its nutritional potential, as

represented by the dangers that the maintenance of the colony.

Keyworks: History of Science. Environmental History. Abiogenesis.

* Mestre em Geografia pela Universidade Estadual de Maring. Doutor em Histria da Cincia e da Sade pela Fundao Oswaldo Cruz. ** Mestre em Histria pela Universidade Estadual de Maring. Doutorando em Histria na Universidade de Lisboa.

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Introduo

Questo pouco abordada nos campos de estudo da Histria Ambiental, as descries

da natureza braslica, durante o primeiro sculo de colonizao europeia, ocupam uma

posio de pouco destaque no estudo das crnicas, tratados e cartas que versam sobre a

Amrica portuguesa do sculo XVI. O carter secundrio que, por vezes, alguns

pesquisadores situam tais fontes, impedem-nos de observar a importncia destas na efetiva

ocupao do colonizador no Novo Mundo, alm da influncia que as descries da natureza

americana tiveram no processo de questionamento dos paradigmas filosficos naturais ento

vigentes (DEBUS, 2002, p. 35-40). importante observarmos que este esquadrinhamento da

fauna e flora braslicas significava, em essncia, a sobrevivncia ou a morte de um europeu

pouco ou nada conhecedor de uma floresta tropical mida como a Mata Atlntica, uma das

florestas com maior nmero de espcies endmicas em seu meio (DEAN, 1996, p. 25). Ao

que parece os viajantes, cronistas e colonizadores, no tardaram a se conscientizar deste fato,

pois produziram material significativo sobre a natureza do Novo Mundo: suas plantas e ervas

utilizadas para mezinhas, os grandes felinos, serpentes, monos e, inclusive, descries

detalhadas dos pequenos insetos existentes na colnia. Por entendermos o papel significativo

destas descries, buscamos discutir as narrativas, reflexes e apontamentos feitos pelos

colonizadores europeus, acerca da fauna entomolgica da Amrica portuguesa no sculo XVI.

Ainda pouco utilizadas pela historiografia contempornea, as numerosas descries

relativas aos insetos do Novo Mundo, realizadas pelos colonizadores, focavam-se

especialmente no dano que estes poderiam causar aos homens e plantaes, a forma que se

geravam, locais de ocorrncia e suas caractersticas fsicas. Entre os que se dedicaram em

esmiuar a natureza colonial, podemos citar o jesuta portugus Ferno Cardim. Este, com a

incumbncia de acompanhar o padre Cristvo Gouva em sua visita de reconhecimento s

aes desenvolvidas pela Companhia de Jesus na Amrica lusa, aportou na colnia em 1584,

onde permaneceu at sua morte, em 1625 (CORRA, 2006, p. 71). Cardim publicou, em

1590, o livro Tratados da Terra e da Gente do Brasil, onde fez um minucioso relato sobre o

Novo Mundo.

Outro jesuta que se empenhou nas descries da fauna entomolgica do Novo Mundo

foi o padre Jos de Anchieta (MIRANDA, 2004, p. 38). Tomando como exemplo a atuao

do Pe. Francisco Xavier no Oriente, Anchieta chegou, aos 20 anos, como missionrio na

Capitania da Bahia de Todos os Santos em 1553. No mesmo ano, ajudou na fundao da vila

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de Piratininga. Escreveu grande nmero de cartas e epstolas a respeito da natureza da

colnia, seus habitantes e as aes da Companhia no Novo Mundo (TAUNAY, 1999, p. 74).

O tambm clrigo Francisco de Sousa escreveu o manuscrito Coisas Notveis do Brasil,

datado do final da segunda metade do sculo XVI, publicado sculos depois de sua produo

(SEIXAS, 2003, p. 15). Esta obra foi resultante das numerosas visitaes que o padre fez por

todo o territrio da Amrica portuguesa. Rico em detalhes sobre a natureza colonial, o clrigo

descreveu grande nmero de plantas e animais, seus usos em mezinhas, alimentos e perigo

que representavam aos habitantes do Novo Mundo.

Os clrigos desempenharam papel de destaque na descrio da biodiversidade da

Amrica portuguesa, entretanto, colonizadores portugueses no ligados a Igreja tambm

escreveram importantes obras sobre a natureza braslica, como o caso de Gabriel Soares de

Sousa. Senhor de engenho que viveu na capitania da Bahia por volta de vinte e quatro anos,

Sousa escreveu, em 1587, a obra Tratado Descritivo do Brasil em 1587, um dos mais

minuciosos tratados acerca da natureza do Novo Mundo (MIRANDA, 2004, p. 44). Nela, este

portugus apresentou um panorama do ambiente costeiro da colnia, suas caractersticas

fsicas e a descrio das populaes indgenas com que teve contato, alm de abordar

detalhadamente espcies animais e vegetais, sublinhando seus usos prticos e virtudes para

mezinhas (CORRA, 2006, p. 71). O hbito de se observar, nomear, descrever e classificar os

seres vivos pode ser igualmente observado na obra do cronista portugus Pero de Magalhes

Gndavo. Editado em 1576 a Histria da Provncia de Santa Cruz, foi o primeiro impresso

lusitano em que se descreveu a fauna e flora do Novo Mundo portugus (TAUNAY, 1999, p.

78).

Ainda que persista uma hegemonia portuguesa, no que se refere s fontes documentais

acerca da natureza braslica, o francs Jean de Lry foi uma das excees a essa norma. Em

1556, este missionrio calvinista embarcou rumo Amrica portuguesa, para a atual regio

conhecida como Bahia de Guanabara, onde se encontrava a colnia da Frana Antrtica

dirigida por Nicolas Villegagnon. Acusado de heresia por Villegagnon, foi expulso do reduto

francs, retornando Europa menos de um ano aps aportar no Novo Mundo (TAUNAY,

1999, p. 95; PERRONE-MOISS, 1996, p. 87). No intento de informar a malograda tentativa

francesa de fixar uma colnia na Amrica do Sul, Lry finalizou seu primeiro relato em 1563.

Aps perd-lo em um acidente, reescreveu sua obra a partir de anotaes. O resultado foi o

livro Viagem Terra do Brasil, publicado em 1578 (CORRA, 2006, p. 70-71). Seu

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conterrneo, Andr Thevet, foi outro no portugus que se dedicou a escrever sobre a

natureza braslica durante sua estadia no Novo Mundo. Padre franciscano, Thevet tambm

esteve na colnia de Villegagnon por apenas dois meses, de Novembro de 1555 a Janeiro de

1556. Ainda que breve, sua visita aos trpicos rendeu uma numerosa srie de anotaes e

observaes que culminaram no livro As singularidades da Frana Antrtica, impresso em

1557 (MIRANDA, 2004, p. 48).

As descries contidas nessas memrias esto longe de seguirem o mesmo modelo,

visto que eram feitas a partir de diferentes motivaes (CORRA, 2006, 72). Alguns autores -

em especial os cronistas, colonizadores e senhores de engenho - tinham por intento alcanar

as graas da Coroa, conseguir propriedades na colnia, fazerem-se conhecidos por seus pares

ou, ainda, despertar o desejo de outros portugueses trocarem o Reino pelo territrio recm-

descoberto (SEIXAS, 2003, p. 65; LIMA, 2008, p. 124). No caso dos jesutas, a inteno em

produzir tais relatos era de informar os clrigos da Companhia de Jesus sobre as aes destas

no Novo Mundo, em especial no tocante a catequizao dos povos gentlicos (CORRA,

2006, 72).

Entretanto, ainda que no tenham os mesmos objetivos a