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PRTICAS FOTOGRFICAS, EXPERINCIAS IDENTITRIASA fotografia privada nos processos de (re)construodas identidades

Ana Caetano

Introduo

Actualmente, mais do que em qualquer outra poca histrica, a imagem particu-larmente a fotografia, assumem no quotidiano das sociedades ocidentais uma im-portncia e centralidade que assentam no apenas na quantidade e diversidade deimagens a que cada indivduo acede no seu dia-a-dia, como tambm nos diversosfins para que as mesmas so utilizadas. Dos diferentes mdia a que possvel ace-der diariamente (televiso, imprensa, internet, etc.), aos cartazes publicitrios quepermeiam o espao de circulao, principalmente o urbano (ruas, transportes, edi-fcios, etc.), ao desempenho das mais diversas reas profissionais (medicina, astro-nomia, ensino, pintura, histria, fotografia, decorao) e documentao pessoalde cada pessoa, a imagem fotogrfica encontra-se hoje presente e plenamente inte-grada em praticamente todas as esferas da vida em sociedade.

No deixa, portanto, de ser surpreendente que ao grau de importncia e cen-tralidade da fotografia em termos sociais no corresponda uma ateno equivalen-te por parte do campo cientfico, particularmente das cincias sociais, encontran-do-se a temtica da imagem fotogrfica subexplorada, nomeadamente no campoda sociologia. So, de facto, escassos os estudos e reflexes sociolgicos que tmpor objecto de anlise a fotografia em qualquer uma das suas possveis vertentesanalticas, ainda que nos ltimos anos tenham tido importantes desenvolvimentos.Destaca-se neste mbito a investigao levada a cabo por Pierre Bourdieu e outros(1965). Um dos objectivos deste artigo passa tambm por procurar demonstrar apertinncia e relevncia sociolgicas do estudo da fotografia.1 /2 Como afirma Ber-nard Lahire (2003 [1998]: 253), a sociologia deve mostrar que no h nenhum limi-te emprico quilo que ela susceptvel de estudar (que no h objectos mais socio-lgicos que outros), mas que o essencial reside no modo sociolgico de tratamentodo assunto.

Interessa particularmente neste contexto convocar o papel da fotografia en-quanto instrumento de representao das pessoas e dos seus percursos biogrficos,na criao e acumulao de conhecimento sobre si mesmas, sobre os outros e sobreas realidades em que se inserem. Apesar da transversalidade da fotografia, que se

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1 Quero, antes de mais, agradecer ao professor Antnio Firmino da Costa, pelo acompanhamentocuidado da investigao que deu origem a este artigo, e professora Idalina Conde, pelos co-mentrios e avaliao da pesquisa. Um agradecimento especial ao Eduardo Rodrigues, pela lei-tura atenta do texto.

2 Ver Caetano (2005).

estende pelas mais diversas reas e esferas societais, destacam-se aqui as imagensde foro mais ntimo, resultantes das prticas fotogrficas desenvolvidas por gran-de parte da populao que cria imagens suas e dos que lhes so mais prximos, ten-do como principal mbil a posterior recordao dos momentos, ocasies e pessoasretratadas. No fundo, pretende-se delinear uma abordagem da fotografia no mbi-to da denominada fotografia familiar, pessoal ou de ocasio. Fotografias de infn-cia, de um casamento, de uma viagem realizada nas frias, de festejos natalcios:Qual a importncia dessas fotografias na vida das pessoas? Que usos so dados s ima-gens? Porque so tiradas e guardadas? Que significados esto associados s representaese prticas fotogrficas dos indivduos?

Desenvolver uma reflexo em torno destas questes implica antes de maisatender ao facto de a inveno da fotografia ter surgido como o culminar de dca-das de experimentao com meios visuais num esforo de encontrar formas de re-presentao mais rpidas e exactas do que aquelas fornecidas pelas artes visuaistradicionais, nomeadamente pela pintura. J desde a sua origem que a fotografiatem vindo a desenvolver-se como um poderoso meio de representao que possibi-lita a construo e transmisso de uma determinada imagem de si, para si e para osoutros. Alis, a fotografia comeou, historicamente, como uma arte da Pessoa: dasua identidade, do seu estado civil, daquilo a que se poderia chamar, em todas asacepes da expresso, o quanto-a-si do corpo (Barthes, 2006 [1980]: 89). O seu sur-gimento criou uma nova e mais complexa relao das pessoas com a realidade econsigo mesmas, possibilitando transformar o mundo material em representao.Este , alis, o ponto central de contacto entre fotografia e identidade. As identida-des so produzidas e reguladas na cultura, criando significados atravs dos siste-mas simblicos de representao (Costa, 1999; 2002; Hall, 1997). We should think ()of identity as a production, which is never complete, always in process, and al-ways constituted within, not outside, representation (Hall, 1997 [1990]: 51). A fo-tografia apresenta-se, assim, como um de vrios sistemas simblicos de represen-tao que participa na atribuio de significado a pessoas, acontecimentos e objec-tos, contribuindo dessa forma para o estabelecimento da imagem que os indiv-duos criam de si mesmos e da realidade em que esto inseridos.

Durante muito tempo, noo de viso esteve associada a de verdade, forne-cendo a fotografia evidncia de um determinado momento e confirmando a expe-rincia e a presena. J desde a sua origem que entendida como um instrumentocujo poder, inerente sua tcnica, de representao exacta da realidade lhe concedeum carcter documental e a faz parecer um processo de reproduo fiel e imparcialda vida social. Contudo, embora estreitamente ligada ao registo de evidncias, temapenas uma objectividade fictcia, na medida em que a objectiva permite todas asdeformaes possveis da realidade (Freund, 1995 [1974]). A imagem fotogrficano apenas produzida pela mquina; a parte mais significativa da imagem de-terminada pelas escolhas do fotgrafo, que tm que ser feitas, no obstante o auto-matismo das mquinas fotogrficas actuais que permite a resoluo dos mais di-versos aspectos tcnicos. Mediante as opes que tm de efectuar, os fotgrafos im-pem sempre normas e valores quilo que fotografam. Embora num certo sentido e apesar dessa interpretao por parte de quem fotografa este processo capte

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de facto a realidade, as fotografias mais no so do que uma interpretao do mun-do. Escolha de assuntos, enquadramentos e momentos so intervenes humanassobre um processo aparentemente mecnico e objectivo.

Neste sentido, embora as noes de realidade e de imagem fotogrfica este-jam fortemente associadas, sendo mesmo, como afirma Susan Sontag (2002 [1977]),noes complementares, no de facto a realidade como essncia que a fotografiatorna acessvel, mas apenas uma representao e uma interpretao. A fotografiapode, assim, tornar acessveis os esquemas mentais de quem fotografa, precisa-mente por constituir uma representao da imagem que os indivduos do de simesmos e das realidades em que esto inseridos. Desta forma, permite tornar vis-vel a definio identitria de agentes ou grupos. Sendo que, de acordo com StuartHall (1992), a identidade se constri na interaco entre o self e a sociedade, a foto-grafia, enquanto instrumento de representao do mundo, pode actuar como ex-presso dessa relao.

Estratgia metodolgica

Foi precisamente com o intuito de reflectir sobre esta relao entre fotografia eidentidade que se desenvolveu uma investigao emprica teoricamente orienta-da, assente numa metodologia de cariz qualitativo com recurso articulao de di-ferentes tcnicas de recolha de informao.3 Foram realizadas entrevistas semidi-rectivas a seis casais nas suas habitaes, num primeiro momento individualmentee posteriormente com a presena dos dois cnjuges ou companheiros. Por se tratarde um trabalho direccionado para a temtica da fotografia, o recurso a imagens fo-togrficas permeou todo o processo de recolha de informao. Foram utilizadosquatro tipos diferentes de fotografias: as que introduzi na situao de entrevista eque foram alvo da apreciao por parte dos entrevistados; as fotografias dos pr-prios entrevistados por eles seleccionadas para as situaes de entrevista; as foto-grafias que os entrevistados tinham expostas em casa nos momentos em que decor-reram as entrevistas; e as fotografias que lhes foi solicitado que tirassem para o pre-sente trabalho e que foram alvo da discusso elaborada nas entrevistas que conta-ram com a presena dos dois membros do casal.4

Procurou-se, portanto, convocar instrumentos metodolgicos capazes de com-plementar e complexificar a informao recolhida nas duas fases de entrevistas. Tra-tando-se de uma anlise em que a representao imagtica assume uma importnciacentral, pareceu particularmente ajustado e adequado recorrer a coordenadas de umasociologia visual.5 Muitas questes tm sido levantadas relativamente validade cien-tfica da utilizao de mtodos visuais nas cincias sociais, contudo as vantagens

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3 A investigao foi levada a cabo em 2005.4 Importa referir que a investigao que est na origem do presente artigo se baseou num vasto

conjunto de materiais empricos que no puderam aqui ser reproduzidos. Para a apresentaode alguns desses materiais ver Caetano (2007).

5 Ver, por exemplo, Harper (1994), Holliday (2000) e Prosser (2000 [1998]).

da sua utilizao tm conduzido cada vez mais investigadores a optarem pela suainstrumentalizao. Ainda que as fotografias incorporem a subjectividade dequem as produz e utiliza, o facto de reflectirem, precisamente, as vises, perspecti-vas e esquemas de percepo dos seus criadores torna-as particularmente perti-nentes enquanto instrumentos de anlise que fornecem informao que no pode-ria, provavelmente, ser captada de outra forma (Collier, 2001; Flick, 1999; Pink,2001). A sua articulao com outras tcnicas de recolha de informao pode