Previdencia Complementar Uma Visao Geral

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  • 7/31/2019 Previdencia Complementar Uma Visao Geral

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    A previdncia complementar fechada: uma viso geral

    Leonardo Andr Paixo (*)

    1. Breve histria da previdncia complementar no Brasil.

    a) Primeira fase (anterior legislao especfica sobre o tema)

    A primeira entidade destinada ao oferecimento de benefcios que hoje seriam consideradostpicos da previdncia complementar foi a PREVI (CAPRE poca), criada em 1904 por um grupode empregados (52) do Banco da Repblica do Brasil sob a forma de associao cujo fim exclusivamente garantir o pagamento de uma penso mensal ao herdeiro do funcionrio que delafizer parte, na forma estabelecida pelos presentes Estatutos.

    Ainda antes da primeira lei sobre a previdncia complementar, surgiram algumas entidades,como por exemplo a Fundao Petrobrs de Seguridade Social PETROS (1970) e a FundaoCESP (1974).

    Neste primeiro momento, a previdncia complementar um fenmeno tipicamenteassociado grande empresa, e sobretudo grande empresa estatal.

    b) Segunda fase (Lei n. 6.435/77)

    A Lei n. 6.435, de 15 de julho de 1977, foi aprovada em um contexto de fomento aomercado de capitais por parte do poder pblico. Seu objetivo foi disciplinar os fundos de pensoenquanto entidades captadoras de poupana popular, estimulando seu crescimento de modo quepudessem canalizar investimentos para aplicaes em Bolsa de Valores. A norma veio no mesmoambiente da reformulao da legislao sobre sociedades annimas (Lei n. 6.404/76, quesubstituiu a Lei das S.A. de 1940).

    c) Terceira fase (modernizao da legislao).

    O movimento de modernizao da legislao que rege a previdncia complementar teve

    incio com a Emenda Constitucional n. 20, de 15.12.1998. Esta emenda deu nova redao ao art.202 da CF, que tratava de outro tema, dedicando-o inteiramente previdncia complementar.Fez-se a opo por disciplinar a previdncia complementar dentro do ttulo da Ordem Social daCF.

    A nova redao do art. 202 da CF exigiu a elaborao de duas leis complementares. Uma,prevista no caput do dispositivo constitucional, que traz normas gerais sobre a previdnciacomplementar, e que veio a ser a Lei Complementar n. 109, de 29 de maio de 2001; e outra,prevista no 4 do art. 202, contendo normas especficas para disciplinar a relao entre a

    (*) Leonardo Andr Paixo formado em Direito pela Faculdade de Direito da USP, onde atualmente doutorando em Direito do Estado. Foi professor universitrio em So Paulo e professor de ps-graduao (MBA) da

    FGV, em Braslia. membro da carreira de Especialista em Polticas Pblicas e Gesto Governamental do Ministriodo Planejamento, Oramento e Gesto. Atualmente ocupa o cargo de Secretrio de Previdncia Complementar doMinistrio da Previdncia Social.

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    Unio, os Estados, o Distrito Federal e os Municpios, suas autarquias, fundaes, sociedades deeconomia mista e outras entidades pblicas e suas respectivas entidades fechadas de previdnciacomplementar, e que veio a ser a Lei Complementar n. 108, de 29 de maio de 2001.

    Completando o ciclo de aprimoramento da legislao, a Emenda Constitucional n. 40, de29.05.2003, que deu nova redao ao artigo que trata do sistema financeiro nacional (art. 192),suprimiu do dispositivo, que integra o Ttulo da Ordem Econmica da CF, a referncia a seguros,

    previdncia e capitalizao. De um ngulo constitucional, portanto, a previdncia complementar hoje tema claramente inserido no campo social.

    Entretanto, a dualidade que marca a previdncia complementar permanece, pois embora anfase constitucional esteja em sua atividade fim (pagamento de benefcios de carterprevidencirio), no deixa de ser importante a sua atividade meio (investimento dos recursosacumulados com o objetivo de multiplicar o capital destinado a suportar o pagamento dobenefcios).

    Por fim, recorde-se ainda que a Emenda Constitucional n. 41, de 19.12.2003, deu novaredao ao art. 40 da CF. Nos pargrafos 14 a 16 deste artigo est estabelecida a possibilidadede criao, por lei ordinria, de um regime de previdncia complementar para o servidor pblico.No mbito federal esta lei ainda no foi feita.

    2. Insero do regime de previdncia complementar na Constituio brasileira.

    A Constituio brasileira prev a coexistncia de trs regimes de previdncia.

    De um lado, h duas modalidades de regimes pblicos e obrigatrios: o regime geral deprevidncia social, operado pelo INSS, e destinado aos trabalhadores da iniciativa privada, aosservidores de entes federativos que no criarem regimes prprios e aos empregados pblicos, eos regimes prprios de previdncia destinados aos servidores titulares de cargo efetivo da Unio,dos Estados, do Distrito Federal e de cerca de 2.200 Municpios, includas suas autarquias e

    fundaes.De outro lado, h o regime de previdncia complementar, privado e facultativo, operado por

    entidades abertas de previdncia complementar (ou seguradoras autorizadas a operar no ramovida) e por entidades fechadas de previdncia complementar (tambm conhecidas como fundos epenso).

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    Aberta Fechada

    Baseconstitucional

    art. 201 art. 40 art. 202 art. 202

    Operado por Autarquia federal (INSS)rgos ou entidades da

    Adminisrao pblicadireta ou indireta

    Sociedades annimas(fins lucrativos)

    (*)

    Fundaes privadas /sociedades civis

    (fins no lucrativos)

    Natureza pblico pblico privada privada

    Instituio institudo por lei institudo por lei contratual contratual

    Filiao obrigatria obrigatria facultativa facultativa

    1.780.000participantes ativos

    580.000 assistidos

    4.200.000 beneficirios

    Fiscalizao MPS / SPS MPS / SPS MF / Susep MPS / SPC

    (*) - exceo: LC 109/01, art. 77, 1

    QUADRO 1 - Regimes de previdncia: principais caractersticas

    REGIMES DE PREVIDNCIA

    Previdncia Complementar

    Abrangncia

    servidores titulares decargo efetivo da Unio,

    Distrito Federal, Estados

    e Municpios que tmregime prprio (cerca de

    2200)

    cerca de 7.000.000 deplanos individuais e

    150.000 planosempresariais

    Regime Geral Regimes Prprios

    pessoas no abrangidas

    pelos regimes prprios

    3. Anlise das disposies constitucionais que regem a previdncia complementar.

    A principal disposio constitucional sobre a previdncia complementar o art. 202.

    "Art. 202. O regime de previdncia privada, de carter complementar e organizado de formaautnoma em relao ao regime geral de previdncia social, ser facultativo, baseado naconstituio de reservas que garantam o benefcio contratado, e regulado por lei complementar."(redao dada pela Emenda Constitucional n 20, de 15/12/98).

    Caractersticas bsicas do regime de previdncia complementar:

    natureza jurdica privada, sujeitando-se ao regime jurdico de direito privado, em queprevalece a autonomia da vontade. O princpio da legalidade, aplicado ao regimeprivado, significa que tudo o que no est proibido est permitido.

    carter complementar e autnomo em relao ao regime geral: complementar, porque a inscrio de participante em plano de previdncia

    complementar no o dispensa da inscrio como segurado obrigatrio do regimeoficial de previdncia (regime geral ou, a partir da EC 41/03, regime prprio);

    autnomo porque a percepo de benefcio pago por entidade privada deprevidncia salvo quando alguma vinculao for expressamente estabelecidaem contrato no depende da concesso de benefcio pelo regime geral (LC109/01, art. 68, 2);

    autnomotambm porque em princpio no existe relao entre os valores pagospor cada um destes regimes, embora possa ser estabelecida contratualmenteuma relao;

    esta autonomia tem uma exceo, pois a concesso de benefcio de previdnciacomplementar depende de concesso de benefcio pelo regime geral ou peloregime prprio, quando se tratar de plano de benefcios da modalidade benefcio

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    definido e regido pela LC 108/01, que tiver sido institudo aps 30.05.2001 (LC108/01, art. 3, II).

    natureza contratual:

    regulamento de um plano de previdncia um contrato, que contm clusulassobre contribuies, benefcios e perodos de carncia, entre outras disposies

    a vinculao do participante ao plano de benefcios depende de sua inscrio

    voluntria (contrato celebrado com a entidade de previdncia que administra oplano)

    para que uma pessoa jurdica possa oferecer acesso a um plano de previdnciapara seus empregados, servidores, associados ou membros deve celebrarcontrato com a entidade de previdncia que o administra

    constituio de reservas, em regime de capitalizao, para pagamento dos benefcioscontratados (sobretudo o benefcio de aposentadoria):

    excepcionalmente, contudo, o regime de repartio simples pode serestabelecido em contrato geralmente para custear os benefcios acessrios,como auxlio-doena, peclio por morte, entre outros, mantida a capitalizao

    para o benefcio principal (aposentadoria); regulamentao do regime de previdncia privada reservada lei complementar.

    " 1 A lei complementar de que trata este artigo assegurar ao participante de planos debenefcios de entidades de previdncia privada o pleno acesso s informaes relativas gestode seus respectivos planos." (redao dada pela Emenda Constitucional n 20, de 15/12/98).

    A lei complementar a que se referem o capute este pargrafo do art. 202, e que contm asregras gerais do sistema de previdncia complementar, a Lei Complementar n. 109, de 29 demaio de 2001. Esta lei abandonou a expresso previdncia privada, trazida na Constituio, em

    favor da expresso, sempre usada em seu texto, previdncia complementar. As expresses,neste contexto, devem ser consideradas sinnimas.Pelo princpio da transparnc

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