Processo Saúde-doença Em Epidemiologia

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Apresentação do processo saude doença em epidemiologia

Text of Processo Saúde-doença Em Epidemiologia

  • ANLISE / ANALYSIS

    Processo Sade/Doena e Complexidade em EpidemiologiaHealth/Disease Process and Complexity in Epidemiology

    Fermin R. Schramm1Luis David Castiel2

    SCHRAMM, F. R. & CASTIEL, 1 D. Health/Disease Process and Complexity in Epidemiology.Cad. Sade Pbl., Rio de Janeiro, 8 (4): 379-390, oct/dec, 1992.The use of the idea of Complexity in Epidemiology is an approach to point out either an internaldisciplinary crisis, resulting from shortcomings in its conceptual instruments (theories, models)regarding health's concrete reality, or a crisis in terms of the broader cultural context(paradigms, epistemic framework, Zeitgeist, Weltanschauung) in which health issues arenecessarily inserted. Although those two approaches are pertinent from a systemic andenvironmental standpoint, their disjunction is insufficient in dealing with the main contemporaryhealth challenges that affect individuals, populations and the biosphere. Complexity consists of apoint of view that appears to overcome this obstacle. On the one hand, it stresses thereductionism of dichotomous visions that shaped the Modern Age, generally unable to focus on aliving universe made up of relations and the emergence of new properties, when we move fromone level of organization to another. On the other hand, ways of dealing with living beings'interactive processes are presented. A dynamic, historical and evolutive perspective is presentedas a way of looking upon the crisis in Epidemiology as a sign, pointing out the need to conceivea complex approach towards its practical discursive instruments in order to devise moresuitable patterns for the Health/Disease process..Keywords: Epidemiology, Epistemology, Complexity

    1 Departamento de Cincias Sociais da Escola Nacional

    de Sade Pblica. Rua Leopoldo Bulhes, 1480, 9oandar, 21041-210, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.2 Departamento de Epidemiologia e Mtodos

    Quantitativos em Sade da Escola Nacional de SadePblica. Rua Leopoldo Bulhes, 1480, 8o andar, 21041-210, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

    INTRODUO

    As consideraes aqui apresentadas procedemde um duplo ponto de vista "construtivista". Oprimeiro, interno, considera a dita ''crise deidentidade" da Epidemiologia (Almeida-Filho,1990) como um "efeito" do processo em que amultiplicao de modelos de anlise do "fen-meno" complexo da sade em populaesdiferencia o prprio campo global e tradicionalda Epidemiologia tido, at ento, comounitrio em especializaes locais e setoriais.Isto ocorreria de tal modo que permitiria supora existncia de vrias epidemiologias, tornando

    cada vez mais problemtica uma viso unificadae compreensiva isto , global dos fatosepidemiolgicos. Deste ponto de vista, a "crise"seria, em primeiro lugar, o efeito de um cresci-mento interno ao saber epidemiolgico, devido construo de vrios modelos "locais" e emergncia de novos problemas que devemcoexistir com os antigos. Ou seja, tratar-se-ia deuma crise de complexificao do campo daSade Coletiva, que, por um lado, precisaria deum aprofundamento das anlises especficas(para escapar da generalidade, que no d contados casos concretos), assim como do estreita-mento das relaes interdisciplinares (paraevitar a parcialidade da modelizao). Emsuma, questes que dizem respeito complexi-dade e interdisciplinaridade seriam as caracte-rsticas internas desta crise de identidade daEpidemiologia.

    O segundo ponto de vista, externo, masvinculado ao primeiro pelo mesmo processo

  • construtivo, situa a Epidemiologia no interiordas transformaes que se operam no prprioconjunto das cincias e dos discursos queacompanham tais transformaes. As cinciaspercebem-se, atualmente, como fazendo partede uma "era de transio", o que, portanto,implica o reconhecimento de crises, isto ,momentos decisrios que produzem os novosobjetos tericos, a reconceituao e a reterrito-rializao dos antigos, dentro de um novo"quadro epistmico" (Piaget & Garcia, 1987).

    No interior deste novo contexto terico, omundo apresenta-se cada vez mais como estan-do inserido em um universo "unidual", no qualencontram-se fenmenos tanto "determinsticos"quanto "estocsticos", tanto "reversveis" quanto"irreversveis". Neste mundo, que desde a eramoderna concebido como aberto, "evoluo"e "pluralismo" tornar-se-iam as palavras funda-mentais (Nicolis & Prigogine, 1991).

    Conforme esses dois pontos de vista queso, na realidade, dois aspectos do mesmoprocesso de construo do conhecimento , olugar discursivo em que nos situamos do tipointerfacial, ou seja, na fronteira entre "cons-truo interna" ou disciplinar do campoepidemiolgico e "construo externa" oucontextual. Em suma, entre ponto de vista locale ponto de vista global. Esta fronteira entresistema e contexto, portanto, tambm umaregio de contato e situa-se no limiar que abre(segundo uma clebre expresso, de 1934, doepistemlogo Gaston Bachelard) para o "novoesprito cientfico" (Bachelard, 1985), ou seja,para o quadro da revoluo cientfica especficado sculo XX. Hoje em dia, costuma-se chamareste "novo esprito cientfico" de ponto de vistada complexidade, entendendo-se, com isso, demaneira bastante intuitiva, um ponto de vistarelacional e dinmico, em oposio tradiodicotmica e esttica cartesiana da poca mo-derna.

    Contudo, nesta "era de transio", o ponto devista complexo no pertence somente prticae teoria da cincia. Ele afeta tambm a "hu-manitude" do homem, isto , as vrias di-menses (como a esttica, a tica, a poltica) da"contribuio humana para o universo (...), queno fazia parte da contribuio da natureza"(Jacquard, 1987: 177), vindo a se constituir,desta maneira, em um verdadeiro novo Zeitgeist

    da nossa contemporaneidade, alm de ser,evidentemente, o indcio significativo da cons-truo de uma nova Weltanschauung. Assim,uma nova maneira de pensar dar-se-ia juntocom uma nova maneira de sentir.

    Segundo a epistemloga Isabelle Stengers,hoje a "complexidade" uma noo intuitivaque pertence ao nosso vocabulrio cotidiano.Para esta autora, "complexidade" seria muitasvezes utilizada como sinnimo de "compli-cao", dando origem confuso entre "pro-priedades objetivas", que pertencem aos siste-mas complexos, e "propriedades subjetivas",que so atribudas a sistemas cuja complicaodependeria, de fato, da limitao dos nossospontos de vista (Stengers, 1990). No campo dascincias, a idia de complexidade aparecetambm cada vez mais como tendo se alastradodos territrios de origem da sua utilizao como as cincias biolgicas e as cincias huma-nas e sociais para as cincias "duras", comoa fsica. Hoje, as prprias leis fundamentais douniverso deveriam ser consideradas complexas(Nicolis & Prigogine, 1991). Como afirmaPrigogine, "Do ponto de vista da cincia con-tempornea (...), as leis da biologia, assimcomo aquelas das sociedades humanas, expri-mem o contedo de leis que vo alm do estrei-to mbito da biologia e das sociedades huma-nas" (Prigogine, 1987: 191). O fato relevante que este novo olhar pe em crise antigas dico-tomias, como aquela entre natureza e cultura,conferindo prpria natureza uma dimensoessencialmente histrica, vinculando-a "flechado tempo", isto , a "bifurcaes", a "rupturasde simetria", ao acaso. Nesta concepo funda-mentalmente no-dicotmica, o prprio realaparece como uma vinculao entre ordem edesordem, como gerador da variedade de for-mas e estruturas que nos rodeiam, mas unifica-do pelo tempo e pela histria.

    Do duplo ponto de vista construtivista aquiadotado, apreender o real significa construirmodelos e confront-los com as observaes.Nos processos de conhecimento, a mente exa-mina o ambiente; classifica as observaes pormeio de hipteses, esquemas e modelos, tentan-do integr-los no j adquirido e tirando con-cluses parciais que, se forem suficientementeestruturadas e integrveis, permitiro conclusesmais gerais e, eventualmente, a formulao de

  • uma teoria sobre uma classe de fenmenos.Neste processo que uma verdadeira cons-truo do real (Piaget, 1937) , a mente proce-de de duas maneiras complementares: por"computao lgica" (que permite a "distino")e por "associao analgica" (que permite a"significao"). Para Edgar Morin, estas duasoperaes mentais constituem as duas facesinseparveis das operaes da mente a dopensamento lgico-simblico e a do pensamentoanalgico-mtico-arquetpico. A apreenso doreal seria feita por meio destas duas operaes,que so operaes distinguveis, mas inseridasem uma estruturao em anel que permite a"retroao" (feedback) de uma sobre a outra,isto , a passagem recproca de informao deuma para a outra. Este fato permitiria o aumen-to de informao e a complexificao do siste-ma (Morin, 1986). Dito de forma mais precisa,o processo desenvolve-se em duas etapas suces-sivas. Na primeira, ele procede por analogia,estabelecendo relaes entre a observao donovo e a memria do antigo (que funciona,ento, como um sistema de referncia), cons-truindo um modelo que seja o mais adequadopossvel experincia e que, desde ento,funcionaria como um novo sistema de refern-cia (ou "modelo padro"). Em seguida, tenta-seir alm da analogia para reconhecer, dentro doquadro do modelo adotado, as especificidadesde cada novo problema, incorporando-as descrio. Da confrontao entre o novo e oantigo nasce a possibilidade de previso e,quando existe um acordo, tm-se as condiessuficientes para formular uma teoria, ou seja, "omeio para dominar a complexidade" (Nicolis &Prigogine, 1991: 251).

    Nos sistemas vivos, existem, pois, diferentesgraus de complexidade, dependendo da varieda-de de comportamentos perante as variaes doseu ambiente, isto , do nmero de escolhaspossveis para a auto-organizao do sistema.Sistema e ambiente vinculam-se na troca dematria, energia e informao. Tais trocas somximas nos sistemas dinmicos, como associedades humanas, que so tipos de sistemasentre os mais complexos. Com efeito, as socie-dades humanas, contrariamente a outros siste-mas dinmicos e complexos (que no partici-pam da construo da "humanitude"), sohistricas stricto sensu