Profissionais Invisíveis

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Grande reportagem, produto do TCC "profissionais invisveis", que aborda um tema pouco falado: trabalhadores que so vistos, mas no so sentidos pela sociedade.

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  • MARIANA LEDO FERNANDA GALIB MARINA SAKOVIC MARLIA TORELLO MARIA CAROLINA CHRIST

    PROFISSIONAISINVISVEIS

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  • TRABALHO DE CONCLUSO

    DE CURSO

    EXPEDIENTE

    Editor: Mariana Ledo

    Editora Adjunta: Marlia Torello Viera

    Editor de Arte: Juliana Assuno

    Assistente de Arte: Mariana Ledo

    Fotos: Mariana Ledo e Marina Sakovic

    Editor de Fotografia: Mariana Ledo e Juliana Assuno

    Reprteres: Fernanda Galib Dezani, Maria Carolina Ferraz

    Christ, Mariana Ledo, Marlia Torello Viera e Marina Sakovic Galan

    Revisora: Thas Batista

    EDITORIALPRECONCEITO PERIGOSO

    Esta edio da Caros Amigos o produto de um Trabalho de Concluso de Curso (TCC) da Universidade Anhembi Morumbi de So Paulo-SP. Com uma nica reportagem, o pre-sente exemplar vem para analisar um tema delicado: a invisibilidade social. Tudo comeou quando uma das integrantes do grupo, Maria Carolina Ferraz Christ, entrevistou Jos Fir-mino da Silva, senhor que trabalhava como homem-placa na regio central da capital paulistana. Ao conversar com o j idoso trabalhador, que levava propagandas como com-pro ouro no pescoo, Christ se deparou com uma realidade comum, mas pouco conhecida. A frase que chamou ateno para tal problema veio com nfase e sentimento. Eu no entendo por que as pessoas no me olham. Eu sou to gente quanto elas. Eu tenho carne, eu tenho rosto, eu tenho nome e mais do que isso, eu tenho alma, disse Jos Firmino da Silva estudante.

    A partir desse momento, Christ se atentou e pensou que aquele homem que estava diante dela no era o nico a se sentir assim. O desprezo, desrespeito, descaso, precon-ceito e discriminao sofridos por trabalhadores de classes mais baixas so claros e esto explicitados em nossa reportagem, nas falas dos que entrevistamos e nas declaraes dos especialistas que analisaram os porqus desse fenmeno social que reduz esses seres hu-manos a invisveis.

    Aqui, voc poder ter acesso s histrias de vida das pessoas que sofrem com isso e mesmo das que driblam o problema com a maior naturalidade e jogo de cintura. Aden-tramos profundamente no tema e nas nuances que o envolvem com um nico objetivo: retratar fielmente o que ocorre, os porqus e as possveis solues para essa mazela que divide a sociedade desde sempre, o preconceito.

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  • Ellen Evelyn Barros de Ramos, 16 anos, brasileira. A menina franzina, de olhos expressivos e cabelos presos em um bon, conta como a vida de mulher-placa, trabalho que realiza aos finais de semana para complementar a renda familiar. Eles passam e me olham como se eu fosse um nada, afirma. Comentrios como esse mostram como a realidade de Ellen outros trabalhadores invisveis. Eles so vistos, mas no so percebidos como pessoas.

    Todos os sbados e domingos, Ellen tem a mesma rotina: acorda cedo, pega o transporte fornecido pela empresa de empreendimentos imobilirios e segue at seu local de trabalho. na Avenida Domingos de Moraes, na Vila Mariana, bairro de classe mdia na capital de So Paulo, que ela fica em p por oito horas com uma placa pendurada no pescoo. Faa sol ou muito sol: l que a moa estar. A regio tem grande fluxo de carros e, consequentemente, de pessoas. Todos os que passam por ali, mesmo a p, conseguem ver a menina instalada no canteiro central. A placa grande e, em dias ensolarados, um guarda-chuva a protege do calor e de uma possvel insolao. impossvel no notar a presena dela e da enorme placa. A roupa colorida (cala azul e blusa laranja) tambm chama a ateno. Todos esses elementos servem justamente para isso. Afinal, o que a menina carrega no corpo a propaganda de um novo condomnio de prdios que ser lanado em breve, prximo dali.

    Enquanto conversvamos, observamos a grande vontade dela em falar, desabafar, contar histrias, expor ideias. Depois de alguns minutos, nossa percepo sobre aquela menina muda. De adolescente para adulta. Fala concreta, palavras certeiras e pensamento firme. Ellen no se enquadra no esteretipo menininha. A vida transformou a adolescente de apenas 16 anos em uma mulher (ou quase isso).

    Eu trabalho desde sempre. Cheguei a pegar reciclvel na rua com a minha me; quando ela ficou desempregada. Depois paramos porque era meio perigoso. Um dia, um segurana quase bateu em ns. A gente estava almoando na calada, na frente de um prdio e ele no queria a gente l. Depois, minha me arranjou um emprego e eu comecei a trabalhar aqui nos finas de semana. Ganho R$ 40,00 por dia, conta a jovem.

    A menina, quase mulher, sempre ajudou em casa. Talvez tenha nascido da sua postura firme em relao aos preconceitos e discriminaes sofridos. Antes trabalhando como catadora de reciclveis, agora como

    Brasil

    Adolescente trabalha aos fins de semana divulgando novos projetos imobilirios

    PROFISSIONAIS INVISVEISPreconceito, agresso, descaso, desvalorizao. Trabalhadores que so

    vistos, sem serem notados, enfrentam isso e um pouco mais

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    mulher-placa.Hora do intervalo. Estou louca para fumar um

    cigarro, vamos?, pergunta Ellen. O tempo no muito, 20 minutos. Mas d para conversarmos melhor. Vamos at uma rua ao lado, sem tanto movimento, procuramos uma sombra. Sentamos na calada. Ela conta que, alm desse rpido descanso, tem uma hora de almoo. um tempo precioso. Imagina se eu tivesse que ficar durante as oito horas em p, sem parar?, diz.

    A sua rotina no fcil. Quando indagamos como ela se sente trabalhando ali, a resposta vem rpida, antes mesmo de terminarmos a pergunta. Sinto-me humilhada, muito humilhada. Isso me irrita,

    diz com um sorriso amarelo. Teve um dia que eu estava parada aqui, a passou uma menina e ficou me olhando torto. Ela entrou no salo e fez a unha. Passou de novo e ficou olhando. Entrou na loja e continuou me olhando. Ento, perguntei para ela o que ela tinha perdido. Comecei a xing-la, na cara dela. Depois passou novamente e esbarrou em mim. Eu odeio isso. Ela me olhava com nojo, como se eu tivesse fazendo alguma coisa errada, conta.

    Atitudes como essa so comuns. So vrios os carros que passam fazendo gracinhas porque a menina leva uma placa no pescoo. Os que passam no a percebem como pessoa. como se Ellen fosse mais um elemento visual da cidade. A verdade que ela

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    uma menina que trabalha para manter a famlia e os sonhos.

    Eu trabalho porque no gosto de depender de ningum. No entendo por que as pessoas que passam aqui me olham como se eu fosse um nada, uma noia, uma mendiga. um trabalho como outro qualquer, honesto. No estou roubando, desabafa.

    A garota tem planos e muitos sonhos. Ela e o namorado guardam dinheiro para montar uma casa juntos na favela Vietn, comunidade onde mora com a me e mais duas irms, uma de 12 e outra de 10 anos. Eu e meu namorado queremos ter a nossa casa. Depois, eu quero continuar meus estudos. Parei no primeiro colegial e me arrependo muito. Na poca, no dava tanto valor. Hoje eu vejo que importante. S entrei para o farol porque no consigo outro servio. Mas agora quero um emprego com carteira assinada. Eu penso em crescer, como todo mundo, expe.

    Ellen garante que h um perfil especfico de quem a encara com nojo. As madames, as patricinhas. Geralmente as novinhas, por eu ser nova tambm. Elas comentam, ficam cochichando. Esse povo tem que abrir mais a mente. Pode no ser importante para eles, mas, para mim e para a minha famlia, .

    O PSICLOGO GARIA indiferena sofrida pela adolescente tem causas

    e consequncias. O psiclogo Fernando Braga da Costa que o diga. Durante os anos nos quais passou trabalhando como gari, ele presenciou cenas e viveu situaes que ficaram guardadas na memria.

    Tudo comeou na poca em que Costa cursava psicologia na Universidade de So Paulo (USP). Um professor pediu aos estudantes que vivenciassem por um dia algum ofcio que estivesse entre as opes de um indivduo das classes menos favorecidas e que no precisasse de qualificao escolar ou tcnica para ser exercido. Costa escolheu a profisso de gari e foi varrer as ruas da cidade universitria.

    O que era uma simples experincia estudantil se transformou em inquietao. Logo, ele percebeu o quanto aqueles profissionais eram menosprezados e humilhados, tanto pelas condies de trabalho como pela sociedade. No primeiro dia em que trabalhei como gari, constatei que estava diante de um tema enigmtico. A primeira impresso fez com que eu fosse sugado. Eu queria saber por que os garis eram to desumanizados por todos. E, depois, entender as consequncias psicolgicas que isso causaria nesses trabalhadores, afirma.

    Formado e j professor na mesma universidade, Costa decidiu mergulhar no tema invisibilidade pblica, focando especificamente na profisso de gari. A experincia de um dia se transformou no objeto de estudo da sua dissertao de mestrado Garis: um estudo de psicologia sobre invisibilidade pblica (2002) e, mais tarde, da sua tese de doutorado Moiss e Nilce: retratos biogrficos de dois garis. Um estudo de psicologia social a partir de observao participante e entrevistas (2008).

    O pesquisador sentiu na pele o mesmo preconceito

    sofrido pela mulher-placa, Ellen. Durante seu estudo, Costa constatou que a invisibilidade pblica, um fenmeno que abre espao para a discriminao entre os indivduos, tem razes longnquas. H um registro histrico de que sempre existiram sujeitos impedidos na ao e no discurso. Mesmo na antiga Grcia, a meu ver uma sociedade mais democrtica, havia escravos, por exemplo. E as mulheres no tinham direito opinio e nem livre circulao como os homens, contextualiza.

    Segundo ele, essa situao se acentuou a partir do momento em que o capitalis