Projeto Bom Retiro

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Projeto Bom Retiro - Vibrant Editora. publicação realizada por um grupo de trabalho com a orientação de Ícaro Lira na Oficina Cultural Oswald de Andrade entre Março e Abril de 2015, dentro da Exposição Museu do Estrangeiro. Grupo de Trabalho Formado Por Camilla Loreta, Felipe Ramirez, Heloísa Scarcella, Isadora Brant, Lívia Lemos, Paula Marferra, Patricia Helena Dos Santos, Renata Scovino, Thais Silvestre, Tula Abad. com a participação de Coletivo Ocupeacidade, Coletivo Garapa, Yudi Rafael, Ariana Miliorini, Vibrant Editora e Contra Editora.

Text of Projeto Bom Retiro

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    PROJETo . Bom Retiro .

    Impresso por grfica cinelndia

    papel poln 90g

    tipografia Intro & georgia

    100 exemplares

    PROJETo . Bom Retiro .

    Essa Publicao foi realizada POR UM GRUPO DE TRABALHO

    com A orientao de caro Lira na Oficina Cultural Oswald

    de Andrade entre Maro e Abril de 2015, dentro do Projeto

    Bom Retiro e da Exposio Museu do Estrangeiro .

    Agradecimentos :

    Ariana Miliorini . CASA DO POVO . CamilLa Loreta . Coletivo

    Garapa . Coletivo Ocupeacidade . crai Centro de Refrencia

    e Acolhida Para Imigrantes . Guilherme Falco Pelegrino .

    Isadora Brant . Martina Brant . MARCELO DELAMANHA . Marta

    Mestre . MISSO PAZ . casa do migrante . Nina Pauline Knutson .

    ofician oswald de andrade . Yudi Rafael .

    edio de caro lira & Isadora Brant

    projeto grfico de martina brant

    so Paulo . sp

    2015

  • . 2 .

    Impresso por grfica cinelndia

    papel poln 90g

    tipografia Intro & georgia

    100 exemplares

  • GT. Camilla Loreta

    Felipe Ramirez

    Heloisa Scarcella

    caro lira

    isadora brant

    Lvia Lemos

    Paula Marferra

    Patricia Helena dos Santos

    Renata Scovino

    Thais Silvestre

    Tula Abad

    Bom Retiro. Centro. SP.

    Abril de 2015.

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    4/20/2015 Pepe resolve Alis - Estado

    http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,pepe-resolve,1646438

    LAURA WAISBICH - O ESTADO DE S. PAULO

    07 Maro 2015 | 16h 00

    Ao receber ex-presos de Guantnamo, o ento presidente do Uruguai aumentou a relevncia de seu pas e ganhou pontos com os EUA sem deixar de cobrar o fim da priso americana.

    Vocs poderiam me dar uma mo? Foi assim que o presidente uruguaio Jos Pepe Mujica introduziu, por telefone, o assunto da acolhida de ex-prisioneiros de Guantnamo a seus companheiros de estrada, dirigentes da central uruguaia de trabalhadores. Havia meses o presidente estava convencido de que seu pas deveria se envolver na transferncia dos detidos que os Estados Unidos mantm na ilha cubana. Um gesto humanitrio, segundo ele, para ajudar a pr um fim a uma das maiores aberraes do continente. Para entender melhor como Mujica operacionalizou a iniciativa, em meados de fevereiro fui a Montevidu, em misso da Conectas, onde encontrei alguns dos que se envolveram no processo.

    Em dezembro de 2014, um acordo de transferncia entre o Uruguai e o governo

    americano permitiu que seis homens na condio de refugiados desembarcassem na capital uruguaia: Ahmed, Ali, Dihab, Abd, Abdul e Mohammed. Quatro srios, um tunisiano e um palestino. Todos estiveram detidos por mais de uma dcada, sem acusao formal por qualquer crime contra os Estados Unidos. Anos de investigaes no conseguiram encontrar nada contra eles, que tiveram suas fichas examinadas e limpas em 2010, depois de um processo de reviso de status que envolveu rgos como os Departamentos de Defesa e de Justia, a CIA (a agncia de inteligncia americana), o FBI (Agncia Federal de Investigao) e a Casa Branca. Mesmo com transferncia recomendada logo em seguida, eles permaneceram detidos por mais quatro anos.

    Vieram amarrados e vendados e quando abriram os olhos a primeira coisa que seus olhos libertos viram foi o Uruguai. Assim a chegada me foi descrita, em duas ocasies e com sorrisos orgulhosos nos rostos de meus interlocutores, um alto funcionrio da presidncia e um dirigente sindical. A negociao da transferncia se deu de maneira discreta e quase exclusivamente no crculo mais prximo ao presidente: o chanceler, alguns poucos lderes da Frente Amplia (coalizao de partidos de esquerda, hoje base do governo) e poucas outras figuras de confiana de Mujica.

    A notcia veio a pblico em maro de 2014, em pleno perodo pr-eleitoral.

    Previsivelmente, o debate foi crispado e cresceu de importncia na mdia sem que o governo estivesse preparado para a guerra de informaes. O debate se polarizou. De um lado, argumentos como preciso prestar solidariedade, receb-los e so os desaparecidos polticos do sculo 21. De outro, contrrio a sua vinda, ponderaes como se estavam l porque devem ser perigosos ou j temos muitos problemas internos para nos ocuparmos de mais um.

    Como bem lembrou o ex-secretrio dos Direitos Humanos Paulo Vannuchi, em artigo recentemente publicado no Brasil, zero a chance de os militares norte-americanos libertarem presos sobre os quais pairasse a menor suspeita de envolvimento com organizaes terroristas. A cpula de Mujica sabia disso e, mesmo assim, fez as prprias investigaes antes de decidir traz-los para o Uruguai.

    Ainda em maro, a Institucin Nacional de Derechos Humanos y Defensora del Pueblo lanou um comunicado em apoio iniciativa, com a condio de que os ex-detidos viessem como homens livres e segundo as leis uruguaias de refgio e asilo. Outras organizaes de defesa de direitos tambm vocalizaram apoio. Os partidos de oposio foram contrrios, desvirtuando o alinhamento histrico da direita latino-americana com as polticas dos Estados Unidos. Alguns veculos de mdia entraram na campanha ajudando a construir um perfil negativo daqueles que esto em

    Guantnamo. A Igreja, por sua vez, optou pelo apoio silencioso.

    Nos meses que se seguiram, as eleies presidenciais ocuparam o debate pblico e, em novembro, venceu o candidato governista, Tabar Vzquez. No ms seguinte chegaram os refugiados de Guantnamo. E chegaram sem que houvesse uma estrutura e um plano de ao oficiais, inclusive em termos de recursos humanos e financeiros para levar a cabo o processo de instalao e integrao. Chegaram porque alguns uruguaios se dispuseram a ajudar a libertar uns quantos de Guantnamo. Chegaram la Mujica, como me foi dito numa ocasio, ou seja, de impulso. A expresso traduz o caldo de vontade poltica e esforos individuais que fez a transferncia acontecer.

    Um dos primeiros a abrir os braos foi o PITCNT (Plenario Intersindical de Trabajadores Convencin Nacional de Trabajadores, a central sindical do Uruguai). Neste pas, os sindicalistas sabem o que significa uma priso, me disse um deles. Ficaram responsveis pela acolhida inicial, de dois meses. frente dessa tarefa nada convencional para um sindicalista estavam dois Fernandos: Pereira o coordenador do PIT, Gambera, seu secretrio de relaes internacionais.

    Depois de passarem uma semana em um hospital militar fazendo mltiplos exames os refugiados foram abrigados a princpio, todos juntos em uma casa do prprio sindicato, utilizada anteriormente para abrigar mulheres

    vtimas de violncia domstica. Os custos com alimentao, higiene e aulas de espanhol foram pagos pelo sindicato, ou seja, com o dinheiro da contribuio dos trabalhadores uruguaios.

    Os sindicalistas acompanharam os refugiados a seus muitos compromissos mdicos e teraputicos. Dihab, por exemplo, chegou ao Uruguai sem poder andar e em estado crtico. Na priso, ele decidira iniciar uma greve de fome. Foi impedido. Por dois anos, os guardas de Guantnamo alimentaram-no de maneira forada, por meio de tubos.

    O desafio de comunicar-se foi outro obstculo. Como eles no falam espanhol e ningum do lado uruguaio, o rabe, a mediao ocorre em ingls, a cargo de um jovem de pouco mais de 20 anos, filho de um dirigente do PIT. Coube tambm aos Fernandos zelar pela privacidade dos refugiados. Foram filtros e interlocutores entre eles e a sociedade e, sobretudo, a mdia. Nem sempre conseguiram e muitas coisas vazaram. Ironicamente, talvez esses vazamentos tenham humanizado os refugiados. O fato que, aos poucos, a percepo da sociedade uruguaia sobre eles tornou-se bastante positiva.

    Se na campanha eleitoral o tema gerava polmica, esta diminuiu bastante aps a chegada do grupo, com quase nenhuma voz questionando o acolhimento. Prova maior veio dos vizinhos. No dia em que souberam da chegada dos novos moradores do bairro, foram receb-los com flores da estao e

    folhas de menta. Algum havia escutado de outro algum que l de onde eles vm se toma bastante ch de menta. A padaria tambm enviou uma cesta de pes de presente.

    No processo de integrao a uma nova vida, no entanto, nem tudo so flores. Esses so homens que no apenas devem se re-acostumar liberdade em um pas distinto, mas com traumas em mltiplos nveis. No confiam em quase ningum, nem nos profissionais de sade que lhes oferecem ajuda. A tortura, frequentemente realizada por mdicos, deixou sequelas.

    A partir de maro, quem cuidar deles ser o Servicio Ecumnico para la Dignidad Humana. A organizao trabalha com refgio desde os tempos da ditadura e, hoje, so os conveniados da Acnur (agncia da ONU para refugiados) Uruguai. Seu acordo com a chancelaria uruguaia para cuidar da integrao dos seis refugiados durar dois anos. Durante este tempo, os homens recebero uma ajuda financeira de 15 mil pesos por ms (no Uruguai um salrio mnimo de pouco menos de 9 mil pesos) e podero trazer as famlias para viver com eles. At o momento, apenas um expressou interesse em trazer mulher e filhos. Os demais, ainda solteiros, e tendo passado importante parte da juventude detidos, desejam apenas recomear.

    A experincia uruguaia na acolhida particular. Esse um pas em que a escala importa. Ali, as relaes interpessoais podem ser determinantes

    para o rumo da poltica e das polticas como neste caso. Mujica e seus apoiadores na empreitada provaram que, do ponto de vista logstico, possvel colaborar para o fim dos abusos cometidos em Guantnamo e para o fechamento dessa priso fora da lei. As recompensas polticas so vrias. O presidente ganhou pontos com os Estados Unidos, aumentou as credenciais do Uruguai como pas relevante na regio e fortaleceu sua imagem pessoal ao redor do globo. Mujica foi fiel a si mesmo, especialmente quando usou a ocasio para criticar a poltica americana de luta contra o terror e lembrar que, no futuro, o territrio ocupado pe