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PT MUDAR O FUTURO DA ENERGIA: A SOCIEDADE CIVIL COMO ATOR PRINCIPAL NA GERAÇÃO DE ENERGIAS RENOVÁVEIS Estudo do CESE sobre o papel da sociedade civil na execução da Diretiva «Energias Renováveis» da UE RELATÓRIO FINAL (Janeiro de 2015) EESC-2014-04780-00-04-TCD-TRA (EN) 1/5236

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Projeto de estudo sobre a DER - Mudar o futuro da energia: A sociedade civil como ator principal na gerao de energias renovveis

MUDAR O FUTURO DA ENERGIA: A SOCIEDADE CIVIL COMO ATOR PRINCIPAL NA GERAO DE ENERGIAS RENOVVEIS

Estudo do CESE sobre o papel da sociedade civil na execuo da Diretiva Energias Renovveis da UE

RELATRIO FINAL

PT

(Janeiro de2015)

O presente estudo foi conduzido por uma equipa de nove membros do Observatrio do Desenvolvimento Sustentvel (ODS) do CESE e da Seco Especializada de Transportes, Energia, Infraestruturas e Sociedade da Informao (TEN) do CESE, nomeadamente:

uma equipa principal de trs membros que orientou os trabalhos e visitou os seis EstadosMembros: Lutz Ribbe (coordenador-geral), Isabel Cao Aguilar e Brenda King; e

uma equipa alargada de seis membros que apoiou a execuo dos estudos de caso nos EstadosMembros selecionados: Andrzej Chwiluk (Polnia), Pierre-Jean Coulon (Frana), Tom Jones (Reino Unido), Vitas Maiulis (Litunia), Georgi Stoev (Bulgria) e Frank van Oorschot (Pases Baixos).

O secretariado do Observatrio do Desenvolvimento Sustentvel do CESE (Rayka Hauser e Nuno Quental) prestou uma assistncia contnua na organizao dos estudos de caso e na elaborao do presente relatrio.

A equipa do estudo do CESE dirige um agradecimento especial ao Conselho do Desenvolvimento Sustentvel da regio francesa da Provena-Alpes-Cte d'Azur (PACA), ao Governo do Pas de Gales, ao Sindicato dos Mineiros da Polnia, s representaes da CE na Alemanha, Bulgria, Polnia e Pas de Gales, ao vasto nmero de organizaes da sociedade civil, associaes de produtores de energias renovveis, cooperativas, iniciativas de carter comunitrio e empresas sociais, bem como aos rgos de poder nacional, regional e local dos pases visitados. Todos eles apoiaram a organizao do estudo, participaram ativamente nos debates, mostraram entusiasmo em progredir na implantao de descentralizada de energia renovvel e, com as suas diferentes perspetivas, deram um contributo inestimvel para a formulao das concluses deste estudo.

De facto, o presente relatrio apresenta, acima de tudo, as valiosas opinies e perspetivas recolhidas pela equipa do estudo, junto de um vasto conjunto de partes interessadas, durante as visitas e os debates ocorridos. ndice

1.Sntese das principais concluses e recomendaes6

1.1Concluses6

1.1.1Conscincia das oportunidades6

1.1.2Sentimento de frustrao6

1.1.3Fortes argumentos a favor de uma energia renovvel produzida por particulares6

1.1.4Um enorme potencial largamente inexplorado7

1.2Principais recomendaes7

1.2.1Criar condies de concorrncia equitativas para a energia renovvel7

1.2.2Tornar a energia renovvel descentralizada uma prioridade poltica8

1.2.3Estabelecer um quadro poltico estvel para apoiar a energia renovvel produzida por particulares:8

1.2.4Promover o dilogo ativo da sociedade civil sobre a poltica energtica9

1.2.5Lanar um dilogo transparente sobre os preos, os custos e os benefcios da energia9

1.2.6Lidar com as consequncias sociais da transio energtica9

2.Introduo10

3.Abordagem do estudo12

3.1Objetivos12

3.2Metodologia13

4.Os progressos das energias renovveis na UE: breve panormica14

5.Argumentos a favor da participao da sociedade civil e da energia renovvel produzida por particulares16

5.3A energia produzida por particulares desbloqueia os fundos necessrios para a transio para as energias renovveis18

5.4A energia renovvel produzida por particulares promove o desenvolvimento das comunidades e combate a pobreza energtica19

5.5A produo de energia renovvel por particulares um fator de criao lquida de emprego e crescimento econmico21

6.O debate sobre os preos e os custos das energias renovveis21

7.Quais as condies prvias necessrias para explorar o potencial da energia produzida por particulares?24

7.2Um quadro poltico estvel e coerente24

7.3Processo de elaborao de polticas transparente e inclusivo26

7.4Procedimentos administrativos simples e transparentes26

7.5Regimes de apoio adaptados s necessidades de energia renovvel descentralizada26

7.6Reduzir os obstculos energia renovvel produzida por particulares29

7.7Desenvolvimento e coordenao da rede para ajustamento s necessidades das energias renovveis31

7.8Gesto e armazenamento da energia32

8.Concluses33

Anexos36

A.1.Relatrios das misses realizadas a Estados-Membros36

A.2.Lista dos pareceres do CESE sobre a energia renovvel36

Considerandos da Diretiva2009/28/CE do Parlamento Europeu e do Conselho relativa promoo da utilizao de energia proveniente de fontes renovveis (Diretiva Energias Renovveis da UE):

(3) Foram j reconhecidas as oportunidades para potenciar o crescimento econmico atravs da inovao e de uma poltica energtica sustentvel e competitiva. A produo de energia a partir de fontes renovveis depende frequentemente das pequenas e mdias empresas (PME) locais e regionais. As oportunidades de crescimento e emprego que os investimentos na produo de energia a partir de fontes renovveis a nvel regional e local proporcionam aos Estados-Membros e s suas regies so significativas. Por conseguinte, a Comisso e os Estados-Membros devero apoiar as medidas de desenvolvimento tomadas nas esferas nacional e regional nesses domnios, incentivar o intercmbio das melhores prticas na produo de energia a partir de fontes renovveis entre as iniciativas de desenvolvimento locais e regionais e promover a utilizao de fundos estruturais neste domnio.

(4) No mbito do desenvolvimento do mercado para as fontes de energia renovveis, necessrio ter em conta o seu impacto positivo nas oportunidades de desenvolvimento regional e local, nas perspetivas de exportao, na coeso social e nas oportunidades de emprego, em especial no que respeita s PME e aos produtores independentes de energia. []

(6) Cumpre apoiar a demonstrao e comercializao das tecnologias de produo descentralizada de energia renovvel. A transio para a produo descentralizada de energia tem muitas vantagens, tais como a utilizao de fontes de energia locais, o reforo da segurana do abastecimento energtico a nvel local, o encurtamento das distncias de transporte e a reduo das perdas na transmisso de energia. Alm disso, a descentralizao promove o desenvolvimento comunitrio e a coeso, proporcionando fontes de rendimento e criando postos de trabalho a nvel local. []

(43) A fim de estimular a contribuio dos cidados para os objetivos estabelecidos na presente diretiva, as autoridades competentes devero considerar a possibilidade de substituir as autorizaes por simples notificaes aos organismos competentes por ocasio da instalao de pequenos dispositivos descentralizados de produo de energia a partir de fontes renovveis.

Sntese das principais concluses e recomendaes

Concluses

Conscincia das oportunidades

Em todos os Estados-Membros visitados, a equipa responsvel pelo estudo constatou a existncia de uma forte sociedade civil empenhada na transio energtica, consciente das oportunidades socioeconmicas da decorrentes, e disposta a beneficiar da produo descentralizada de energia renovvel. Denotou-se um entusiasmo pelas possibilidades oferecidas pelas energias renovveis para a gerao de rendimentos, o desenvolvimento comunitrio e a inovao social, bem como uma vontade de aprender com as melhores prticas e apoiar as polticas de outros Estados-Membros.

Sentimento de frustrao

Ao mesmo tempo, as partes interessadas exprimiram a sua frustrao em relao a alguns aspetos, nomeadamente os obstculos burocrticos e a complexidade dos procedimentos, as recentes reformas polticas que colocam os pequenos produtores e as comunidades numa posio de desvantagem face s grandes unidades produtoras de energia, o no reconhecimento pelos responsveis polticos do valor da energia produzida por particulares e, em alguns casos, a inexistncia de um dilogo construtivo com as autoridades. Estes entraves, que no passam despercebidos Comisso Europeia, so descritos em pormenor no seu relatrio sobre os progressos no domnio das energias renovveis (2013)[footnoteRef:2]. O facto de tais obstculos se manterem ou estarem at a aumentar (p. ex., com a introduo de leiles para a produo de energia a partir de fontes renovveis numa srie de Estados-Membros) foi interpretada por alguns representantes da sociedade civil como um ataque direto energia produzida por particulares em benefcio dos grandes produtores centralizados. [2: COM(2013) 175 final.]

Fortes argumentos a favor de uma energia renovvel produzida por particulares

O principal resultado do estudo foi que a sociedade civil no se contenta em ser apenas consultada sobre questes de poltica energtica. Comunidades, organizaes da sociedade civil e particulares esto desejosos de se tornarem produtores de energias renovveis tendo apresentado equipa provas e argumentos que sustentam esta tendncia:

A energia produzida por particulares aumenta a aceitao local de infraestruturas de energias renovveis, reforando o apoio e empenhamento no processo de transio. Alm disso, liberta fundos to necessrios para a transio energtica, traz benefcios socioeconmicos locais comuns e mantm o valor acrescentado nas comunidades. De facto, a produo de energia a partir de fontes renovveis est a tornar-se uma oportunidade econmica para cidados, agricultores, cooperativas, pequenas e mdias empresas, comunidades locais, associaes de beneficncia e ONG e no apenas, ou tambm, para empresas energticas tradicionais. Estimula o desenvolvimento local, a inovao social e a cooperao. Os regimes descentralizados permitem que particulares e comunidades partilhem os custos e benefcios das energias renovveis e identifiquem as possibilidades de alcanar um melhor equilbrio entre oferta e procura (por exemplo, em sistemas de aquecimento coletivo). Desde que haja um enquadramento poltico, a energia renovvel produzida por particulares torna-se um criador lquido de emprego e promove o crescimento econmico a nvel local.

O estudo do CESE revelou que o desenvolvimento das energias renovveis est a avanar rapidamente sobretudo nos Estados-Membros em que as populaes locais, individual ou conjuntamente, tiveram a possibilidade de empreender as suas prprias iniciativas de produo de energia. Esta evoluo teve como condio prvia fundamental um sistema de apoio bem pensado e um enquadramento regulamentar positivo em matria de energia renovvel produzida por particulares. A fim de tirar partido desta nova oportunidade, as polticas da UE e dos Estados-Membros em matria de clima e energia devem dar mais prioridade ligao da produo descentralizada de energia renovvel ao desenvolvimento regional e local. Chegou o momento de introduzir um conjunto de estruturas de apoio forte, estvel e coerente para a energia renovvel produzida por particulares que permita Europa avanar para uma economia hipocarbnica.

Um enorme potencial largamente inexplorado

O estudo revelou que, passados cinco anos sobre a adoo da Diretiva Energias Renovveis, os documentos polticos ao nvel nacional quase nunca se referem a uma estratgia coerente destinada a apoiar a produo descentralizada de energia renovvel em benefcio das comunidades locais. A equipa responsvel pelo estudo constatou que em nenhum dos Estados-Membros visitados estava a ser coerentemente aplicada uma estratgia governamental de promoo da energia produzida por particulares. Bem pelo contrrio, em todos os pases objeto do estudo a instabilidade poltica e as reformas recentes dos quadros regulamentares em matria de energias renovveis criaram incerteza, relutncia em efetuar novos investimentos e preocupao entre as partes interessadas quanto ao futuro da energia produzida por particulares.

Principais recomendaes

Criar condies de concorrncia equitativas para a energia renovvel

Tal como referido no relatrio sobre os progressos no domnio das energias renovveis (2013) da Comisso[footnoteRef:3], o apoio implantao das energias renovveis continuar a ser necessrio enquanto no existir na UE um mercado interno da energia aberto e competitivo, capaz de pr termo s deficincias do mercado e internalizar os custos sociais, ambientais e de sade da utilizao de combustveis fsseis. ainda referido que os governos devem tambm dirigir os seus esforos para a eliminao progressiva das subvenes aos combustveis fsseis, que, alm de ineficazes e prejudiciais, incentivam um consumo imponderado de recursos e comprometem o desenvolvimento sustentvel, em linha com o compromisso reafirmado no documento final da Conferncia Rio+20 intitulado O futuro que queremos. O preo do carbono apenas uma das possibilidades de internalizar os custos externos atravs do aumento do custo relativo das tecnologias baseadas nos combustveis fsseis. [3: COM(2013) 175 final.]

Tornar a energia renovvel descentralizada uma prioridade poltica

Uma nova poltica energtica no pode ser implementada sem o apoio dos cidados, mas, se contarem com o apoio do pblico, os objetivos polticos podem ser alcanados mais rapidamente do que se imagina. O CESE recomenda que os decisores polticos locais, nacionais e a nvel da UE estabeleam explicitamente como prioridade o apoio produo de energia renovvel por parte dos cidados. O prximo relatrio sobre os progressos no domnio das energias renovveis da Comisso Europeia, previsto para 2015, dever ir alm da simples anlise dos nmeros e avaliar em que medida foram eliminados os entraves burocrticos e at que ponto foi desenvolvido o acesso ao mercado de novos operadores mais pequenos.

Estabelecer um quadro poltico estvel para apoiar a energia renovvel produzida por particulares:

Os procedimentos administrativos para a energia produzida por particulares devem ser simples, rpidos e a um preo aceitvel.

Os custos e os tempos de espera da ligao dos projetos de energia produzida por particulares rede tm de ser razoveis, devendo os operadores das redes ser sancionados em caso de incumprimento.

Atravs de balces nicos, os pequenos investidores devem receber orientaes desde a fase de viabilidade/planeamento at implantao.

Deve ser dada prioridade de aquisio eletricidade proveniente de fontes de energia renovveis em relao eletricidade gerada com combustveis fsseis e energia nuclear.

A energia renovvel produzida por particulares deve ser isenta de procedimentos que resultem em encargos e custos desproporcionados e criem incerteza, tais como as obrigaes de comercializao direta.

As tarifas de aquisio (feed-in tariffs) devem ser a principal forma de apoio energia renovvel produzida por particulares, dado constiturem uma forma simples e fivel de os produtores calcularem com exatido os seus investimentos e retornos. A segurana de investimento aumenta as possibilidades de os pequenos promotores obterem o crdito necessrio. As tarifas de aquisio podem ser facilmente ajustadas reduo dos custos de investimento.

A fim de resolver as flutuaes do abastecimento e o seu efeito to significativo nos preos da eletricidade hora de ponta, o sistema das tarifas de aquisio pode ser complementado por mecanismos de gesto energtica capazes de lidar com as flutuaes, por exemplo, a contagem lquida (ver abaixo), as redes inteligentes e o desenvolvimento da capacidade de armazenamento.

Os Estados-Membros devem usar de muita cautela relativamente realizao de concursos para energias renovveis, uma vez que procedimentos complicados e dispendiosos resultam em encargos desproporcionados para os pequenos produtores e podem, efetivamente, excluir do apoio a energia produzida por particulares. Dar preferncia aos grandes produtores centralizados e reduzir a concorrncia podem resultar na subida dos preos no consumidor. Alm disso, os concursos no funcionam se no houver um mercado energtico. As orientaes relativas a auxlios estatais proteo ambiental e energia 2014-2020 devem ser clarificadas nesse sentido.

Os particulares produtores de energia devem ter direito contagem lquida e a apoio produo de eletricidade.

Os fundos estruturais e o Fundo de Coeso da UE, bem como os oramentos nacionais, devem disponibilizar os fundos necessrios para assegurar que os progressos no domnio das energias renovveis e da produo descentralizada de energia no abrandam devido s limitaes das redes.

Promover o dilogo ativo da sociedade civil sobre a poltica energtica

A poltica no domnio das energias renovveis deve ser concebida e executada num processo de dilogo contnuo com as partes interessadas da sociedade civil, a fim de desenvolver um entendimento comum, objetivos partilhados, o apoio execuo e uma cultura de cooperao e confiana recproca. Neste contexto, deve caber ao CESE um papel ativo no Dilogo Europeu sobre a Energia.

A sociedade civil deve ser capacitada para participar no desenvolvimento dos planos de ao nacionais em matria de clima e energia e na monitorizao e anlise da sua implementao.

As estratgias, os programas de financiamento e as medidas de apoio ao nvel da UE, nacional e regional e local devem ser acompanhados e analisados com a participao ativa da sociedade civil, a fim de garantir que contribuem para, e no prejudicam, a energia produzida por particulares. Mais especificamente, a introduo de medidas contestadas, como as exigncias de comercializao direta e os concursos para produo de energia renovvel, deve ser observada de perto, de molde que se detete e corrija rapidamente possveis desvantagens para a energia produzida por particulares.

Lanar um dilogo transparente sobre os preos, os custos e os benefcios da energia

Dado que os debates pblicos sobre a poltica energtica so normalmente dominados pela preocupao com os preos a curto prazo, necessrio um debate pblico transparente sobre os custos e os preos da energia. Os custos externos das energias renovveis so muito reduzidos, sendo esta uma diferena importante em relao s energias convencionais, que transferem uma parte significativa dos custos de sade e ambientais para a sociedade atual e as geraes futuras. Importa disponibilizar informao clara e exaustiva que permita obter uma viso de conjunto dos custos associados aos subsdios concedidos s energias renovveis, aos combustveis fsseis e energia nuclear, incluindo os custos externos da sade humana e da qualidade ambiental, bem como as poupanas resultantes do facto de no ser necessrio recorrer s importaes de energia e os benefcios da segurana energtica. Tal como referido no relatrio sobre os progressos no domnio das energias renovveis (2013) da Comisso[footnoteRef:4], apesar de os custos das tecnologias renovveis carem permanentemente, continua a ser necessrio tomar medidas financeiras, jurdicas e administrativas, a nvel poltico, para apoiar a implantao das energias renovveis enquanto no existir na UE um mercado interno da energia aberto e competitivo, capaz de pr termo s deficincias do mercado e internalizar os custos externos. [4: COM(2013) final.]

Lidar com as consequncias sociais da transio energtica

Embora se preveja um impacto lquido positivo da transio energtica no emprego e nos rendimentos, alguns produtores de energia convencionais esto j a registar perdas de mercado e de postos de trabalho (que no esto necessariamente relacionadas com o aumento das energias renovveis). Os governos devem assumir a responsabilidade pela gesto dos impactos socioeconmicos da transio para uma economia hipocarbnica, que, em ltima anlise, beneficiar toda a sociedade. necessrio integrar estreitamente as estratgias sociais de transio nacionais na implantao das energias renovveis, a fim de assegurar uma transio suave, formar as novas competncias profissionais necessrias e resolver, de forma direcionada, os eventuais impactos sociais negativos no emprego e nas famlias socialmente frgeis. Os governos devem garantir uma repartio equilibrada dos custos de apoio energia renovvel produzida por particulares por toda a sociedade.

Introduo

Os decisores polticos da Unio Europeia (UE) definiram conjuntamente um objetivo poltico claro: As emisses de CO2 devero diminuir 80-95% at2050 e a Europa transformar-se- numa economia hipocarbnica eficiente na utilizao dos recursos e amiga do ambiente. Esta agenda no radica apenas nas preocupaes com as alteraes climticas. necessria uma revoluo na poltica energtica que permita enfrentar os desafios decorrentes da natureza finita dos combustveis fsseis, bem como pr termo dependncia da Europa das importaes de energia de regies politicamente instveis. Os sistemas de energia precisam de ser desenvolvidos de uma forma que assegure energia limpa, segura e economicamente acessvel aos consumidores do presente e s geraes futuras. O planeamento da produo de energia deve integrar as externalidades sociais, ambientais e sanitrias e ter em considerao o impacto nas geraes futuras.

As energias renovveis tm um papel central a desempenhar nesta transio. A Diretiva Energias Renovveis[footnoteRef:5] de 2009 foi concebida para incentivar a produo de energias renovveis e aumentar a segurana do aprovisionamento. Exige que cada Estado-Membro atinja at2020 uma determinada quota de energia proveniente de fontes renovveis no conjunto do seu consumo energtico final, contribuindo, assim, para o objetivo global da UE de alcanar uma quota de 20% de energia proveniente de fontes renovveis. O quadro da UE em matria de clima e energia para2030 estabelece um aumento desta quota para pelo menos27% at2030. O Comit Econmico e Social Europeu (CESE) apoia este objetivo[footnoteRef:6], mas solicita o estabelecimento de metas nacionais em matria de energias renovveis ao nvel dos Estados-Membros que permitam Comisso impor medidas e garantir que os Estados-Membros faam por cumprir o objetivo comum. [5: Diretiva 2009/28/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 23 de abril de 2009, relativa promoo da utilizao de energia proveniente de fontes renovveis que altera e subsequentemente revoga as Diretivas 2001/77/CE e 2003/30/CE.] [6: Parecer do CESE sobre o tema Um quadro poltico para o clima e a energia no perodo de 2020 a 2030 (NAT/636).]

Na sua carta de misso dirigida ao novo comissrio responsvel pela Energia, o Presidente da Comisso, Jean-Claude Juncker, escreveu: Temos de reforar a parte das energias renovveis no nosso continente, no apenas por uma questo de realizar uma poltica responsvel de luta contra as alteraes climticas, mas igualmente por um imperativo em matria de poltica industrial, se pretendemos continuar a ter acesso a uma energia a preos abordveis disponvel a mdio prazo. Acredito firmemente no potencial do crescimento verde. Quero, por conseguinte, que a Unio Europeia se torne o nmero um mundial das energias renovveis.

O CESE reconheceu os desafios de carter tcnico, econmico e social, associados transio para uma economia hipocarbnica e eficiente na utilizao dos recursos. Tm sido manifestadas preocupaes sobre a distribuio dos custos e benefcios da transio, a integrao de fontes de energia dispersas e flutuantes no sistema de abastecimento, as novas infraestruturas e as oposies locais a certos tipos de infraestruturas de energias renovveis. Tem sido feito um bom trabalho para fazer face a estes desafios. Os custos da produo de energia renovvel tm vindo a diminuir graas evoluo tecnolgica e implantao no mercado e tm sido alcanados progressos no desenvolvimento de redes inteligentes e de outras solues para gerir as flutuaes na oferta e na procura.

O CESE realizou o presente estudo com plena conscincia do facto de que a conceo e execuo das polticas relativas s energias renovveis tm tanto a ver com estruturas de mercado e aspetos socioeconmicos como com questes tcnicas e tecnolgicas. Por conseguinte, o estudo no pretende analisar os desafios tcnicos, que so objeto de outros debates em curso. Centrou-se antes no muito menos explorado tema do papel que a sociedade civil est a ter, ou pode e deve ter, neste grande processo de transformao.

Dever o papel da sociedade civil confinar-se observao e aceitao de novas polticas e projetos? Esto os atores da sociedade civil a ser consultados? Se sim, com ou sem consequncias? Ou est a sociedade civil plenamente integrada e habilitada a desempenhar um papel ativo, talvez at principal, num novo sistema mais descentralizado de produo de energias renovveis? Finalmente, quais so os fatores de sucesso e os desafios neste contexto?

At aqui, a sociedade civil teve apenas uma participao perifrica na produo de energia. O setor energtico tem sido altamente centralizado, com uma diviso clara dos papis dos vrios atores. A produo energtica convencional e ainda maioritria ocorreu num nmero restrito de grandes unidades de produo centralizadas, na sua maioria alimentadas com combustveis fsseis ou energia nuclear. O mercado foi dominado por um nmero diminuto de grandes companhias energticas, por exemplo, quatro na Alemanha, seis no Reino Unido e uma em Frana. Os cidados, as empresas e a indstria tm sido consumidores passivos que pagam produtos energticos.

O desenvolvimento da energia hipocarbnica ocasionar mudanas fundamentais no setor da energia. As energias renovveis so por natureza mais descentralizadas, visto aproveitarem recursos amide disponveis ao nvel local e cujo transporte impossvel ou demasiado dispendioso. A produo de energia e de eletricidade ocorrer no meio em que as pessoas vivem, o que significa que a infraestrutura energtica ser muito mais visvel na paisagem.

Uma poltica, para ter xito, tem de ser aceite. Tal verificou-se em relao a polticas energticas anteriores e, provavelmente, ser ainda mais verdade com as futuras polticas neste domnio. No apenas a poltica geral da UE em matria de alteraes climticas que carece do apoio da sociedade civil: cada projeto, cada instalao de energia elica, solar ou a biogs, tem de ser aceite pela populao local. Os projetos tm maior probabilidade de serem bem acolhidos quando as pessoas afetadas reconhecem os benefcios das mudanas introduzidas no meio em que vivem e, mais ainda, quando beneficiam diretamente com essas mudanas.

Do ponto de vista das alteraes climticas ao nvel global, no interessa quem o proprietrio ou o operador de uma turbina elica. No que toca aceitao da poltica energtica, este aspeto pode ser crucial. Deste modo, a execuo da Diretiva Energias Renovveis e, mais exatamente, da poltica para as alteraes climticas est estreitamente ligada questo de saber quem ir ter preferncia no acesso e nas oportunidades de produo e ganhar com as energias renovveis: os investidores externos que explorarem os recursos locais de uma regio de acordo com os seus interesses econmicos, ou a populao local usufruidora dos seus recursos solares, elicos ou em biomassa, no apenas para gerar energia, mas tambm para valorizar a sua regio e criar oportunidades e emprego. Isto no significa que a transio para as energias renovveis deva ou possa ser realizada apenas pelos pequenos produtores. Pelo contrrio, os particulares e as comunidades devem ser capacitados para competir com grandes investidores a fim de obterem valor local e poderem assumir o papel importante que lhes cabe na transio energtica.

A Diretiva Energias Renovveis reconhece as oportunidades de crescimento e emprego proporcionadas pela produo de energia a partir de fontes renovveis ao nvel regional e local. Exorta os Estados-Membros a apoiarem as medidas de desenvolvimento tomadas nas esferas nacional e regional e a promoverem a utilizao de fundos estruturais neste domnio, mesmo que no reconhea explicitamente ou apoie o desenvolvimento das energias renovveis de base comunitria.

O estudo do ODS analisou a experincia com este tipo de medidas em seis Estados-Membros. O presente relatrio do CESE apresenta as constataes do estudo e dirige vrias recomendaes aos decisores polticos das instituies da UE e nacionais, tendo em vista a melhoria das condies regulamentares para a produo descentralizada de energia renovvel por parte, e em benefcio, das comunidades locais e da sociedade civil.

O relatrio acompanhado de relatrios nacionais contendo informaes adicionais sobre cada um dos seis Estados-Membros visitados durante a realizao do estudo.

Abordagem do estudo

Objetivos

O estudo pretende dar resposta a duas perguntas especficas:

Qual o nvel de participao da sociedade civil na execuo da Diretiva Energias Renovveis? Limita-se a sociedade civil a agir como observador informado, consultada durante os processos de deciso ou participa diretamente na produo de energia, contribuindo e beneficiando, assim, da transio para uma economia hipocarbnica?

Em que medida apoiam os quadros regulamentares ao nvel nacional e regional (disposies polticas, administrativas, financeiras e tcnicas) a produo de energia renovvel por parte da sociedade civil?

A fim de responder a estas perguntas, o estudo procurou identificar estratgias e medidas concretas a diferentes nveis de governo que incrementem a microproduo de energia renovvel e a liguem a benefcios para as comunidades locais, sublinhando os bons exemplos e emitindo recomendaes polticas.

Neste relatrio, utilizado o termo energia renovvel produzida por particulares para designar a gerao descentralizada de energia renovvel detida (no mnimo 50%) ou operada por cidados, iniciativas locais, comunidades, rgos de poder local, associaes de beneficncia, ONG, agricultores, cooperativas e PME, e geradora de uma cadeia de valor local que permanea na regio. Nem todos os projetos no domnio das energias renovveis criam valor para as comunidades locais. A definio no inclui, por exemplo, os parques elicos pertencentes a grandes sociedades, que no trazem valor acrescentado para as comunidades locais.

Metodologia

O estudo baseou-se na recolha e anlise de diferentes fontes de informao e, acima de tudo, nas perspetivas e opinies veiculadas por um vasto conjunto de partes interessadas durante as misses aos Estados-Membros selecionados. Realizaram-se as seguintes aes:

pesquisa documental de literatura, dados estatsticos e documentos polticos ao nvel nacional;

entrevistas com partes interessadas importantes ao nvel da UE;

questionrio em linha, aberto a autoridades e partes interessadas, abrangendo diferentes aspetos dos quadros nacionais das polticas administrativa, tcnica e financeira no domnio das energias renovveis;

misses a seis Estados-Membros selecionados, as quais incluram seminrios e audies com autoridades e partes interessadas, bem como visitas a projetos de energias renovveis ao nvel local. Estes seis pases foram selecionados para: a)assegurar uma representao geogrfica equilibrada da UE; b)abarcar exemplos de Estados-Membros novos e antigos; e c)representar diferentes pontos de partida e nveis de execuo da DiretivaEnergias Renovveis.

As misses decorreram nas seguintes datas:

Alemanha: 11 a 13de maro de2014;

Polnia: 7 a 9de abril de2014;

Frana: 23 a 24de abril de2014;

Reino Unido: 5 a 7de maio de2014;

Litunia: 13 a 15de maio de2014;

Bulgria: 14 a 16de julho de2014.

Convm referir que, em todos os pases visitados, na altura em que se realizaram as misses, os quadros polticos e as medidas em matria de energias renovveis estavam a ser objeto de importantes reformas. Assim, a equipa teve a oportunidade de observar e tirar ilaes de acesos debates a nvel nacional sobre os impactos potenciais dessas reformas na energia produzida por particulares. Os relatrios de cada misso encontram-se em anexo ao presente relatrio.

Dado o enfoque na sociedade civil, o estudo debruou-se sobre as fontes de energia renovveis a que os pequenos produtores e as comunidades locais costumam dar preferncia: solar (coletores fotovoltaicos e trmicos), elica, biomassa, biogs e micro-hidroeltrica.

Os progressos das energias renovveis na UE: breve panormica

Embora a economia da UE continue fortemente dependente dos combustveis fsseis e das importaes de combustveis, a quota de energias renovveis no consumo final bruto de energia tem vindo a aumentar sustentadamente, tendo atingido os 14,1% em 2012[footnoteRef:7], em linha com o objetivo definido na DiretivaEnergias Renovveis de aumentar para 20 % a percentagem de energias renovveis no consumo final bruto de energia at 2020. Contudo, os progressos tm-se caracterizado por uma grande variabilidade no espao da UE, tendo abrandado em2014. A continuar esta tendncia, a UE poder no vir a alcanar o objetivo de 20%. [7: (Eurostat, 2014).]

Figura 1: Quota de energia proveniente de fontes renovveis em cada Estado-Membro (percentagem de consumo final bruto de energia)

Fonte: Comunicado de imprensa EUROSTAT, STAT/ 14/ 37, 10.3.2014

Segundo dados do EUROSTAT (2012), a produo de energia renovvel na UE baseia-se sobretudo na biomassa (46%) e na gerao hidroeltrica (16%), mas novos tipos de energia renovvel, como a energia solar e fotovoltaica (FV) e a energia elica, esto a ganhar terreno e abrem novas oportunidades para a participao da sociedade civil.

Figura 2: Potncia eltrica instalada baseada em fontes de energia renovveis na UE-28

Fonte: baseada em dados do EUROSTAT

Em 2012, o consumo final de eletricidade proveniente de fontes renovveis atingiu os 23,5%. Este xito explica-se, em parte, pelo crescimento espetacular da indstria fotovoltaica (que representou 23% da potncia eltrica instalada baseada em fontes de energia renovveis na UE em 2012) e da indstria elica (que representou 35% da potncia eltrica instalada baseada em fontes de energia renovveis).

O progresso na utilizao de energias renovveis no setor de produo de energia para aquecimento e arrefecimento foi muito mais lento: 15,6% em 2012. A biomassa representa 15% da gerao de calor e 87% da produo de energia para aquecimento e arrefecimento. O biogs fica aqum, com apenas 3% na produo de energia para aquecimento e arrefecimento. A biomassa muitas vezes utilizada para produzir calor em centrais trmicas mistas de vapor e energia eltrica, mas grande parte queimada em equipamento ineficiente. A biomassa obtida a partir da madeira ainda largamente utilizada na Europa Oriental, incluindo grandes importaes provenientes da Rssia (no caso da Polnia). A energia produzida contabilizada como energia renovvel e os produtores obtm certificados verdes, embora, na prtica, isso no traga qualquer benefcio para a reduo das emisses e, por vezes, at contribua para a desflorestao. Alm disso, a maior parte das centrais trmicas mistas de vapor e energia eltrica utilizam na combusto uma mistura de carvo e biomassa, o que dificulta a avaliao da quota de energias renovveis, uma questo que, alis, foi levantada pelas partes interessadas na Polnia, Litunia e Bulgria. Na Polnia, 70-75% de todos os certificados verdes foram atribudos a centrais eltricas a carvo entre 2007 e 2011, aumentando os seus lucros e, ao mesmo tempo, diminuindo o preo dos certificados verdes. Esta reduo, por sua vez, afetou profundamente as instalaes de energia elica e tornou-as economicamente inviveis.

Importa ter presente que, at data, o debate poltico e societal sobre as energias renovveis se centrou na produo de eletricidade, ao passo que a gerao e a utilizao do calor ocuparam uma posio menos proeminente. necessrio reconsiderar esta ordem de prioridades, pois o consumo energtico bastante mais elevado no setor do aquecimento do que no setor da eletricidade. Alm disso, a combinao da produo de eletricidade renovvel com a produo trmica poderia ser uma excelente oportunidade para obter capacidades de armazenamento (eletricidade para o aquecimento) urgentemente necessrias, que poderiam ser repetidamente aproveitadas no contexto da produo de energias renovveis flutuantes.

Argumentos a favor da participao da sociedade civil e da energia renovvel produzida por particulares

Durante as visitas efetuadas, foram apresentadas ao CESE provas e argumentos que demonstram a importncia da energia renovvel produzida por particulares: com efeito, ela pode ir da obteno da necessria aceitao a curto e mdio prazo das novas instalaes de produo mobilizao dos fundos para a transio, obteno da autossuficincia a longo prazo, criao de valor a nvel regional e de desenvolvimento a nvel local, e ao fim dos monoplios tradicionais no setor energtico. Estes argumentos no significam que a transio para as energias renovveis deva ou possa ser realizada apenas pela sociedade civil. Eles remetem antes para a importncia de garantir que os quadros regulamentares criam condies de concorrncia equitativas que permitam sociedade civil concorrer com os grandes investidores centralizados e desempenhar o importante papel que lhe cabe na transio energtica.

1.1 A sociedade civil reclama para si um papel ativo

As visitas efetuadas pelo CESE a seis Estados-Membros da UE, bem como os debates com as organizaes da sociedade civil, em Bruxelas, tiveram alguns resultados inesperados. A equipa enviada teve oportunidade de testemunhar uma sociedade civil muito aberta[footnoteRef:8], em que as partes interessadas no s apoiam a energia renovvel, como tambm reconhecem claramente que a transio energtica representa uma oportunidade que querem agarrar. Assinalvel o facto de as discusses com as partes interessadas terem sido dominadas por consideraes de ordem socioeconmica e se terem centrado mais nos benefcios comunitrios do que nos objetivos de atenuao dos efeitos das alteraes climticas. [8: Nelas participaram representantes de pequenas empresas, do mundo acadmico, de ONG ambientais, de grupos comunitrios, de cooperativas e de rgos de poder local e regional. ]

Nos vrios Estados-Membros, a equipa reuniu-se com representantes da sociedade civil com diferentes nveis de confiana. Na Alemanha, as partes interessadas declararam: Ns no nos limitamos a apoiar a transio energtica, ns SOMOS a transio energtica. No foram os polticos nem as grandes empresas do setor da energia que tornaram possvel a transio energtica conhecida na Alemanha por Energiewende , mas sim ns. Fomos ns que fizemos presso para que fossem criadas as condies-quadro que possibilitaram a transio. No caso da Polnia, da Litunia e da Bulgria, o forte interesse na energia renovvel produzida por particulares foi relativizado pela enorme frustrao em relao aos obstculos administrativos e financeiros que dificultam a participao nas iniciativas polticas e na produo de energia. Em vez de reconhecerem o valor e o potencial da nova poltica energtica e climtica, os representantes do Governo nestes trs pases pareciam ver sobretudo ameaas e dificuldades relacionadas com a energia renovvel produzida por particulares. Por um lado, levantaram dvidas quanto capacidade de as energias renovveis satisfazerem uma parte significativa das necessidades de eletricidade (um argumento que foi frequentemente utilizado na fase inicial da transio energtica) e, por outro, manifestaram preocupao em relao elevada taxa de implantao das energias renovveis.

Na parte que toca sociedade civil, a resposta foi clara e coerente pergunta principal do estudo, nomeadamente a de saber se a sociedade civil quer participar ativamente na produo de energia renovvel. Um dos participantes no debate na Polnia resumiu a questo nos seguintes termos: No queremos ficar parados a ver como outros tiram partido do Sol e do vento na nossa regio. Queremos utilizar os nossos recursos para benefcio prprio. Por ltimo, a equipa denotou um enorme desejo de obter informao e de tomar conhecimento de exemplos de boas prticas e de modelos bem sucedidos, bem como de tirar ensinamentos da experincia alheia, a fim de evitar a repetio de erros cometidos por outros.

1.2 A energia produzida por particulares aumenta a aceitao local da infraestrutura das energias renovveis

Para ser bem sucedida, a transio energtica necessita de um elevado nvel de aceitao por parte da sociedade civil. No decorrer das misses do CESE, as partes interessadas fizeram meno a casos de oposio local a infraestruturas de energia renovvel, nomeadamente aos parques elicos. Normalmente, trata-se de casos em que a infraestrutura de produo de energia renovvel implantada por investidores externos, com poucos benefcios ou contrapartidas para as comunidades locais. Pelo contrrio, quando os cidados e os empreendedores locais foram envolvidos num projeto no domnio das energias renovveis mostram-se mais propensos a reconhecer os seus benefcios e a aceitar eventuais inconvenientes, sejam eles estticos ou de outra natureza. Um excelente exemplo da importncia da participao local foi dado a conhecer ao CESE durante um debate sobre energia renovvel comunitria, que teve lugar em novembro de 2013[footnoteRef:9]. A regio de Sams na Dinamarca consegue satisfazer todas as suas necessidades energticas a partir de fontes renovveis, devido, principalmente, participao dos cidados atravs de projetos comunitrios. Como parte de um esforo para manter o apoio pblico e a participao no setor das energias renovveis, os promotores de energia elica so solicitados a vender aes populao local. [9: Local renewable energy initiatives: positive examples, success factors and the role of civil society [Iniciativas locais em matria de energia renovvel - Exemplos positivos, fatores de xito e papel da sociedade civil], realizado em novembro de 2013. http://www.eesc.europa.eu/?i=portal.en.events-and-activities-local-renewable-energy.]

Por ltimo, mas no menos importante, a energia renovvel produzida por particulares aumenta a sensibilizao, capacitando e motivando os cidados a fazerem ouvir a sua voz nas tomadas de deciso poltica. O processo refora a democracia e a legitimidade das decises polticas. Pode ainda contribuir para promover o dilogo e construir relaes de confiana e cooperao entre as instituies e a sociedade civil.

A energia produzida por particulares desbloqueia os fundos necessrios para a transio para as energias renovveis

No h dvida de que a implantao das energias renovveis e a respetiva infraestrutura exigiro recursos financeiros significativos[footnoteRef:10]. reconhecido que a maioria dos fundos ter de provir do setor privado. A existncia de regimes de apoio bem concebidos permitiu desbloquear e alavancar um montante incomensurvel de investimentos por parte de cidados, comunidades e empreendedores locais. Este potencial de investimento por parte de particulares na transio energtica est apenas parcialmente aproveitado, existindo grandes diferenas entre os Estados-Membros da UE. A Dinamarca e a Alemanha constituem, provavelmente, os melhores exemplos de uma transio amplamente sustentada pela sociedade civil. [10: Isto no vlido apenas para as energias renovveis. No pacote energia e clima para 2030, a Comisso Europeia afirma que os custos da transio para uma economia hipocarbnica no so substancialmente diferentes dos custos que sero de qualquer modo incorridos devido necessidade de renovar um sistema energtico obsoleto, aumentando os preos dos combustveis fsseis e a adeso s polticas climticas e energticas existentes. Haver, contudo, uma marcada evoluo das despesas com combustveis para despesas em equipamento inovador e de elevado valor acrescentado, incentivando assim o investimento em produtos e servios inovadores, criando emprego e crescimento e melhorando a balana comercial da UE.]

Na Alemanha, os investimentos em projetos de energia renovvel produzida por particulares ascendeu a 5,14 mil milhes de euros em 2012, ao passo que os grandes fornecedores de energia tradicionais investiram apenas 1,7 mil milhes de euros em energias renovveis no mesmo ano. Neste pas, a atual potncia fotovoltaica instalada superior a 30000MW e est a aumentar a um ritmo de 7MW por dia (que igual potncia fotovoltaica total atualmente instalada na Polnia). Praticamente metade desta potncia est nas mos de mais de 1 000 cooperativas energticas, cidados e agricultores.

Figura 3: Distribuio da propriedade da potncia instalada de energias renovveis para produo de eletricidade na Alemanha (2012)

Fonte: Blogue Transio Energtica na Alemanha (2014).

Durante as fases iniciais da Energiewende (transio energtica alem), os elevados custos de investimento e as correspondentes elevadas tarifas de aquisio para produo de energia solar criaram incentivos para os particulares injetarem na rede a eletricidade solar autoproduzida. As posies sobre esta matria mudaram radicalmente. Os extraordinrios desenvolvimentos tecnolgicos e a correspondente reduo dos custos de investimento tornaram mais rentvel para os pequenos produtores consumir a eletricidade autoproduzida, o que resulta numa reduo das quantidades de energia eltrica compradas rede. Por sua vez, isto contribuiu para promover os esforos no sentido de otimizar o autoconsumo de energia, de modo que tenha lugar sobretudo durante os picos de produo prpria e reduza o consumo de energia, nomeadamente nos perodos de maior consumo, como no final da tarde ou no incio da noite.

Na produo descentralizada de energia renovvel, a produo ocorre normalmente mais perto do consumidor, o que cria um potencial significativo de reduo dos custos da infraestrutura da rede. Alm disso, o estudo do CESE revelou que os pequenos produtores tm expectativas de margem de lucro bastante inferiores s dos grandes produtores.

A energia renovvel produzida por particulares promove o desenvolvimento das comunidades e combate a pobreza energtica

A energia renovvel utiliza os recursos localmente disponveis. Uma vez institudo um quadro regulamentar adequado, a produo de energia operada por cidados e comunidades locais cria uma nova cadeia de valor que permanece na regio em causa. Certas comunidades produtoras de energia renovvel esto a conseguir manter nas suas regies enormes recursos financeiros anteriormente canalizados para o pagamento de importaes de energia e combustveis fsseis, mas que agora so investidos na criao de novos postos de trabalho e no desenvolvimento socioeconmico a nvel local.

Um exemplo a comunidade de Treuenbrietzen na Alemanha, que criou, juntamente com os seus cidados, as suas prprias instalaes solares, elicas e de biogs. A instalao de biogs produz simultaneamente eletricidade e calor, que so distribudos atravs da nova rede de aquecimento instalada pela prpria comunidade. Necessidades adicionais de aquecimento so parcialmente cobertas por uma caldeira alimentada a aparas de madeira. Alm disso, a comunidade criou uma rede de eletricidade parte e est a desenvolver capacidade prpria de armazenamento da energia autoproduzida, para se tornar independente em termos de energia. Os preos da eletricidade a nvel local elevam-se a 16,6 cntimos/kWh, situando-se 30-35% abaixo dos preos mdios da eletricidade na Alemanha. O calor fornecido ao consumidor pelo preo de 7,5 cntimos/kWh, muito abaixo dos custos de aquecimento com petrleo ou gs domstico. Treuenbrietzen a prova de que as energias renovveis permitem verdadeiramente aos consumidores poupar dinheiro.

As iniciativas em matria de energia renovvel produzida por particulares promovem a cooperao entre os diversos atores locais, como o demonstra o aumento exponencial do nmero de cooperativas energticas em toda a UE (ver figura 4).

Figura 4: Nmeros provisrios e mapa das cooperativas energticas comunitrias registadas

Fonte: Projeto REScoop (2014)

As iniciativas locais no domnio das energias renovveis esto igualmente associadas a modelos de negcio inovadores, ao desenvolvimento das empresas sociais e ao aumento da cooperao. A equipa do estudo constatou que h bastante inovao empresarial e social nas comunidades locais. Por exemplo, a cooperao entre uma instalao de biogs e vrias exploraes agrcolas diminui o risco da atividade e assegura o abastecimento de matrias-primas, resolvendo em simultneo o problema ambiental do estrume. Na Bulgria, os proprietrios das fraes de um edifcio de apartamentos formaram uma cooperativa e investiram a renda paga por um operador GSM pela colocao de uma antena no telhado em painis solares trmicos para todo o edifcio. Um outro exemplo de solues criativas o de uma cooperativa energtica alem que investiu numa cobertura do estdio de futebol local com painis fotovoltaicos e pagou o investimento aos membros com as receitas da venda de energia e com a oferta de bilhetes anuais para todos os jogos da equipa local. No Pas de Gales, a equipa do estudo visitou uma iniciativa local no domnio das energias renovveis criada na comunidade de Talybont-on-Usk, a qual fornecia aquecimento escola local e eletricidade a dois automveis eltricos, alimentados pelos painis fotovoltaicos colocados no telhado do edifcio municipal, conduzidos pelos habitantes locais.

Nas zonas rurais da Polnia, a m qualidade da rede d origem a frequentes cortes, nveis de tenso reduzidos e problemas associados. As partes interessadas consultadas durante a misso do CESE apresentaram estimativas segundo as quais seria mais barato desenvolver as energias renovveis locais nesses territrios do que gastar os 30-60milmilhes de zltis[footnoteRef:11] necessrios at2020 para renovar por inteiro a rede eltrica de longa distncia. Na sua estratgia de desenvolvimento regional de 2020, a regio da Podlquia na Polnia v nas energias renovveis uma oportunidade para reforar a economia da regio. Assinala que a regio gasta anualmente mais de 5 mil milhes de zltis[footnoteRef:12] em importaes de energia. Como h possibilidade de produzir localmente energia eltrica e trmica a baixo custo, a partir de fontes de energia renovveis, a estratgia regional coloca a tnica no desenvolvimento de um sistema energtico descentralizado local e na promoo de uma revoluo assente nas energias renovveis a nvel local, na qual as pessoas so os proprietrios das instalaes de produo trmica e energtica. Afirma explicitamente que os investimentos devem estar sobretudo nas mos de cidados locais, a fim de evitar que haja uma perda de valor para a regio. [11: Cerca de 7 mil milhes de euros.] [12: Cerca de 1,5 mil milhes de euros.]

A produo de energia renovvel por particulares um fator de criao lquida de emprego e crescimento econmico

O crescimento das energias renovveis cria novos postos de trabalho ao longo da sua cadeia de valor. Este efeito de gerao de emprego particularmente elevado nos setores de eficincia energtica (0,38emprego-anos/GWh), energia solar fotovoltaica (0,87), biocombustveis (0,21) e energia elica (0,17) quando comparado com o carvo e o gs (0,11). Outro aspeto interessante o de a maioria dos postos de trabalho do mercado das energias renovveis se destinar a trabalhadores altamente qualificados, sendo que em seis empregos, cinco so locais. Assim, cabe UE assegurar que os conhecimentos e as competncias se desenvolvam em funo das necessidades deste novo mercado de trabalho.

Simultaneamente, embora o resultado lquido da expanso das energias renovveis seja positivo, a transio energtica implicar a perda de mercados e postos de trabalho para certos setores (baseados nos combustveis fsseis e, em alguns pases, na energia nuclear). Os receios manifestados so especialmente notrios nos pases em que estes setores empregam um grande nmero de pessoas. Por conseguinte, necessrio formular estratgias nacionais para assegurar uma transio suave, desenvolver novas competncias e lidar com os impactos sociais resultantes da perda de postos de trabalho nos setores energticos tradicionais.

O debate sobre os preos e os custos das energias renovveis

Em geral, os debates pblicos sobre a poltica energtica so dominados pelas preocupaes com os preos, alm de que os custos do apoio promoo das energias renovveis foram tema recorrente durante o estudo. Em alguns dos pases visitados, os mecanismos de apoio s energias renovveis foram questionados pelos decisores polticos e pelos meios de comunicao social, invocando que fazem subir os preos da energia para uso domstico. A economia do setor das energias renovveis um dado fundamental para perceber se de facto necessrio o apoio pblico para atingir as metas climticas e energticas e obter benefcios a longo prazo ou se, pelo contrrio, esse apoio pblico est a gerar lucros excecionais numa altura em que os oramentos pblicos se encontram sob grande controlo e presso.

Coloca-se a questo de saber para que horizonte pretende a sociedade limitar os custos. Uma soluo barata a curto prazo pode transformar-se numa soluo cara a longo prazo e vice-versa. Por si s, este argumento suficiente para questionar aqueles que consideram as energias renovveis caras e um fardo para os oramentos pblicos[footnoteRef:13]. Na verdade, e como comum afirmar no meio da tecnologia, maiores volumes de produo levam diminuio constante dos custos unitrios das energias renovveis (a denominada taxa de aprendizagem). Os custos de produo das instalaes de energias renovveis dependem sobretudo dos custos de investimento. At h bem pouco tempo, as tecnologias de produo de energia renovvel eram mais dispendiosas do que o carvo e a energia nuclear. Tal devia-se ao facto de essas tecnologias serem muito imaturas: a evoluo tecnolgica ocorreu paralelamente introduo no mercado. Em2008, na Alemanha, a taxa de aquisio da energia solar fotovoltaica era de 46cntimos/kWh, valor correspondente aos custos de produo mais elevados da altura. Hoje, no mximo de 12,8cntimos/kWh para as pequenas instalaes com capacidade at 10kW (e muito inferior para as instalaes de maior dimenso), correspondendo aos custos permanentes da tecnologia. [13: De assinalar que, s em 2011, os produtores de combustveis fsseis obtiveram 523 mil milhes de dlares em subvenes.]

Figura 5: Mdia de preos no consumidor (preo do sistema lquido) para instalaes fotovoltaicas prontas a instalar em telhados at 10 kWp

Fonte: Bundesverband Solarwirtschaft (BSW)

Paulatinamente, as tecnologias de produo de energia renovvel esto a atingir nveis de preos capazes de fazer concorrncia energia do carvo, do gs e nuclear[footnoteRef:14]. A energia elica terrestre mostra-se j capaz de competir, mesmo no incluindo os custos externos ambientais e de sade no preo de retalho. Prev-se que a evoluo tecnolgica continue a fazer baixar os custos de investimento nas energias renovveis. Simultaneamente, o vento e o Sol so recursos renovveis disponveis sem qualquer custo. , por isso, provvel que a eletricidade renovvel se torne em breve competitiva mesmo sem subsdios. Esta tendncia foi confirmada pela Comisso Europeia, que, na sua Comunicao Um quadro poltico para o clima e a energia no perodo de2020 a 2030[footnoteRef:15], assinalou que os custos da transio para uma economia hipocarbnica no so substancialmente diferentes dos custos que sero de qualquer modo incorridos devido necessidade de renovar um sistema energtico obsoleto, aumentando os preos dos combustveis fsseis e a adeso s polticas climticas e energticas existentes [...]. Haver, contudo, uma marcada evoluo das despesas com combustveis para despesas em equipamento inovador e de elevado valor acrescentado, incentivando assim o investimento em produtos e servios inovadores, criando emprego e crescimento e melhorando a balana comercial da UE. [14: Algumas das partes interessadas entrevistadas chamaram a ateno para o debate (ainda em curso na altura da visita de estudo) sobre os dois reatores da central nuclear de Hinkley Point C, no Reino Unido. Entretanto, a Comisso Europeia j aprovou as subvenes que estavam a ser debatidas. O futuro operador, a EDF, obter nos prximos 35anos 10,9 cntimos por cada kWh de eletricidade produzida, montante este que ser atualizado em funo da taxa de inflao anual. Esta tarifa excede significativamente o perodo e o nvel da tarifa de aquisio para a energia elica praticada na Alemanha.] [15: COM(2014) 15 final.]

Na produo descentralizada de energia renovvel, a produo ocorre normalmente mais perto do consumidor, o que cria um potencial significativo de reduo dos custos da infraestrutura da rede. Alm disso, o estudo do CESE revelou que os pequenos produtores tm expectativas de margem de lucro bastante inferiores s dos grandes produtores.

Alm disso, muitos dos benefcios das energias renovveis, um critrio de prioridade para apoio, so muito mais do que meros nmeros econmicos. As energias renovveis contribuem para atenuar as alteraes climticas, criar postos de trabalho e meios de subsistncia sustentveis a nvel local, reforar a segurana energtica, reduzir a dependncia das importaes a partir de regies instveis e alcanar uma balana comercial mais favorvel para a UE devido a uma menor dependncia dos combustveis fsseis. As polticas que ignorarem estes efeitos a longo prazo e os numerosos benefcios associados s energias renovveis podero gerar futuramente cabazes energticos prejudiciais. Seria contraproducente travar esta evoluo encorajadora, descontinuando as polticas de apoio precisamente na altura em que comeam a dar frutos.

Embora se preveja um impacto lquido positivo da transio energtica no emprego e nos rendimentos das famlias, alguns produtores de energia convencionais esto j a registar perdas de mercado com implicaes no emprego oferecido por esses setores. Este problema deve ser enfrentado com urgncia e de forma proativa. necessrio elaborar estratgias nacionais e coorden-las estreitamente com a poltica de implantao de energias renovveis, a fim de assegurar uma transio suave e justa, formar as novas competncias profissionais necessrias e resolver, de forma direcionada, os eventuais impactos sociais negativos no emprego e nas famlias socialmente frgeis. O problema premente da pobreza energtica deve ser combatido com medidas certeiras e concretas, embora no deva servir de argumento para manter os preos da energia em nveis artificialmente baixos (por exemplo, na Bulgria). O problema efetivo da perda de postos de trabalho em setores convencionais (alguns dos quais no esto necessariamente relacionados com o aumento das energias renovveis) no deve ser aventado como argumento para bloquear a evoluo no sentido da produo descentralizada de energia renovvel (por exemplo, na Polnia). Os governos devem assumir a responsabilidade pela gesto dos impactos socioeconmicos da transio para uma economia hipocarbnica, que, em ltima anlise, beneficiar todos os setores da sociedade.

Quais as condies prvias necessrias para explorar o potencial da energia produzida por particulares?

1.3 Assegurar condies equitativas

Tal como referido no relatrio sobre os progressos no domnio das energias renovveis (2013) da Comisso[footnoteRef:16], apesar de os custos das tecnologias renovveis carem permanentemente, necessrio tomar medidas financeiras, jurdicas e administrativas, a nvel poltico, para apoiar a implantao de energias renovveis enquanto no existir um mercado interno da energia aberto e competitivo na UE capaz de pr termo s deficincias do mercado e internalizar os custos ambientais, sociais e de sade decorrentes da utilizao de combustveis fsseis. A fixao dos preos do carbono constitui uma possibilidade de internalizao dos custos externos, aumentando o custo relativo das tecnologias baseadas nos combustveis fsseis. Os rendimentos obtidos com a venda de licenas de emisso podem ser reciclados ou afetados aos fundos de apoio s energias renovveis. [16: COM(2013) 175 final.]

Um quadro poltico estvel e coerente

A coerncia e a estabilidade das polticas so um fator fundamental para qualquer investimento, nomeadamente no domnio das energias renovveis, como realaram as partes interessadas em todas as visitas dedicadas a casos de estudo. A existncia de polticas estveis e simplificadas permite aos investidores planear, superar os riscos e aceder ao crdito.

Por exemplo, a Lei das Energias Renovveis alem (Erneuerbare-Energien-Gesetz, EEG), que tem como instrumentos centrais a facilidade de acesso rede, a concesso de prioridade s fontes de energia renovveis, a comercializao por parte do operador da rede e tarifas de aquisio garantidas por um perodo de 20anos, ofereceu um elevado grau de segurana de investimento e permitiu que a energia produzida por particulares se desenvolvesse muito mais rapidamente do que se imaginava.

A alterao desta base de estabilidade pode ter consequncias prejudiciais, a comear pela incerteza dos pequenos investidores relativamente possibilidade de receberem apoio financeiro aps a fase de planeamento (por exemplo, devido introduo de um limite anual para novas instalaes). No entanto, por altura das visitas Alemanha, Polnia, Frana e Reino Unido, estavam em discusso[footnoteRef:17] reformas radicais nas polticas seguidas. Na Bulgria, os pequenos produtores queixaram-se de leis contraditrias e da deciso do Governo de suspender o desenvolvimento das energias renovveis a partir de2013, aps o anncio de que a meta para2020 tinha j sido atingida. Uma prtica totalmente inaceitvel a alterao retroativa das condies-quadro aps o incio das operaes de energias renovveis (por exemplo, na Bulgria, onde a introduo de novos impostos e direitos sobre as energias renovveis levou os investidores em instalaes fotovoltaicas e elicas de pequena escala insolvncia). Embora a taxa de imposto de 20% sobre a eletricidade elica e solar, introduzida em janeiro de 2014, tivesse sido anulada pelo Supremo Tribunal blgaro em julho de 2014, os operadores no foram reembolsados dos pagamentos efetuados durante esse perodo. Uma moratria sobre os regimes de apoio ao setor fotovoltaico introduzida em Frana, em 2010, tambm levou a uma quase paralisia dos investimentos. [17: Em alguns casos, nomeadamente na Alemanha e na Polnia, estas regras j entraram em vigor.]

Figura 6: Incerteza nas polticas em matria de energias renovveis na UE

Fonte: EDP Renovveis (2013)

A insegurana jurdica um fator destabilizador dos investimentos. Paralelamente, as recentes reformas polticas denotam uma clara tendncia no sentido de reduzir o apoio aos pequenos produtores e coloc-los numa posio de desvantagem face aos grandes produtores (por exemplo, com a introduo de leiles para a produo de energia a partir de fontes renovveis). Debates em todos os pases visitados revelaram que os microprodutores de energia renovvel associavam esta tendncia s orientaes formuladas pela Comisso no que respeita a auxlios estatais proteo ambiental e energia 2014-2020[footnoteRef:18]. Estas orientaes limitam significativamente as decises dos Estados-Membros no que respeita garantia de tarifas de aquisio para investimentos em energias renovveis aps 2016. Os participantes em audies locais reconheceram a necessidade de evitar a sobrecompensao e de promover as energias renovveis de uma forma eficaz em termos de custos. No entanto, qualificaram as recentes reformas dos regimes de apoio s energias renovveis de nivelamento por baixo. Alguns deram mesmo conta de uma tendncia a nvel da UE de recentralizao, mascarada pelo argumento da relao custo-eficcia. [18: http://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=CELEX:52014XC0628%2801%29.]

De acordo com a Agncia Internacional de Energia[footnoteRef:19], numa altura em que as energias renovveis esto a tornar-se uma opo competitiva em termos de custos num nmero crescente de casos, verifica-se um aumento da incerteza em torno das polticas a seguir em vrios mercados importantes da OCDE. O efeito inibidor da alterao dos quadros regulamentares j se faz sentir em2014 e a UE corre o risco de no conseguir alcanar a meta de 20% de energia renovvel no consumo final bruto at 2020. [19: Relatrio Intercalar sobre o Mercado das Energias Renovveis2014 Anlise e Previses do Mercado para2020, Agncia Internacional de Energia.]

Processo de elaborao de polticas transparente e inclusivo

A par da estabilidade, durante o estudo do CESE surgiu a questo essencial do processo democrtico de elaborao e reforma das polticas. Como defendido pelo CESE na sua iniciativa sobre o Dilogo Europeu sobre a Energia, para ser bem sucedida e produzir resultados sustentveis, uma poltica tem de ser elaborada no quadro de um debate aberto e transparente com partes interessadas da sociedade civil a todos os nveis. Isto fundamental para criar um entendimento comum das questes atualmente em debate, definir objetivos comuns e garantir um amplo apoio execuo da poltica em causa. Enquanto na Alemanha e na Dinamarca a transio energtica foi um processo da base para o topo em que as decises polticas foram tomadas em reao presso pblica e as polticas foram largamente executadas pela sociedade civil, em outros pases (Bulgria, Polnia) a equipa do estudo no detetou quaisquer sinais que apontassem para um dilogo genuno ou uma relao de confiana entre as autoridades e os microprodutores de energia.

Procedimentos administrativos simples e transparentes

Os pequenos produtores no so necessariamente especialistas em questes energticas, pelo que necessitam de apoio e orientao e de procedimentos administrativos simples, transparentes e concludos dentro de prazos razoveis. No que respeita aos procedimentos e prazos necessrios para a aprovao de pequenas instalaes de energias renovveis, existem enormes diferenas entre os Estados-Membros objeto do estudo, as quais esto correlacionadas com as taxas de implantao de energia produzida por particulares. A ttulo de exemplo, enquanto, na Alemanha, a aprovao de um painel solar no telhado demora menos de um dia til e implica o preenchimento e envio de um formulrio em linha para apresentar o pedido, em outros pases, como a Bulgria, a Litunia, a Polnia e o Reino Unido (Pas de Gales), as partes interessadas descreveram procedimentos complicados que se arrastam por vrios meses ou mesmo anos. Enfrentar um sistema de planeamento e aprovao complexo e moroso pode trazer custos e riscos para os pequenos produtores, em especial se o quadro regulamentar e as tarifas de aquisio sofrerem alteraes significativas durante o mesmo perodo.

Regimes de apoio adaptados s necessidades de energia renovvel descentralizada

Prioridade de mobilizao no acesso rede

No acesso rede, as energias renovveis devem usufruir de prioridade de mobilizao em relao energia nuclear e fssil, ou seja, deve ser a primeira a ser vendida aos operadores do sistema eltrico. Na Alemanha, esta prioridade foi estabelecida pela Lei das Energias Renovveis de2000 e mantida pela reforma legislativa de2014.

Tarifas de aquisio

O mecanismo de apoio s energias renovveis mais comum , de longe, o das tarifas de aquisio, que permite acordos de aquisio a longo prazo (10-25anos) para a injeo de energia renovvel na rede, que vendida no mercado pelo operador da rede. O produtor recebe a tarifa de aquisio fixa e fica liberto do requisito da comercializao direta.

As tarifas de aquisio devem continuar a ser o principal mecanismo de apoio a projetos de energia renovvel produzida por particulares, dado constiturem uma forma simples e fivel de os produtores calcularem com exatido os seus investimentos e retornos. A segurana de investimento que oferecem aumenta as possibilidades de os pequenos promotores obterem o crdito necessrio.

No caso da transio energtica alem, as tarifas de aquisio foram financiadas atravs da chamada sobretaxa EEG, que representa a diferena entre o preo da eletricidade na bolsa de valores e a tarifa de aquisio garantida (que era >50 cntimos/kWh para a energia fotovoltaica na fase inicial da transio energtica e que, atualmente, de 12 cntimos/kWh). Durante os picos de produo de eletricidade, o preo na bolsa cai, fazendo com que a sobretaxa EEG suba. Contudo, a baixa nos preos da eletricidade no se deve apenas sobreproduo de energia renovvel, mas tambm a falhas do comrcio de licenas de emisso (RCLE), eletricidade barata proveniente de centrais a carvo (que no reflete os custos para a sociedade, tanto ambientais como de sade), inexistncia de um mercado de eletricidade bem desenvolvido, bem como de uma gesto da rede e de capacidades de armazenamento.

Como a evoluo tecnolgica permitiu que os custos da energia elica e fotovoltaica descessem de forma importante, em alguns Estados-Membros da UE os governos no reagiram de forma suficientemente rpida para reduzir as tarifas aplicveis s novas instalaes. Em consequncia, algumas novas instalaes de energias renovveis obtiveram contratos a longo prazo com tarifas de aquisio significativamente superiores aos investimentos efetuados, o que lhes permitiu auferir lucros desproporcionados. De facto, as tarifas de aquisio podem ser facilmente e periodicamente ajustadas descida constante dos custos de investimento. Na maioria dos pases, estas tarifas j foram reduzidas e so regularmente atualizadas. No entanto, os preos da energia e, iniquamente, a imagem das energias renovveis e das tarifas de aquisio podem ser afetados nos prximos anos devido a estes atrasos na regulamentao.

A fim de resolver as flutuaes do abastecimento e o seu efeito to significativo nos preos da eletricidade hora de ponta, o sistema das tarifas de aquisio pode ser complementado por mecanismos de gesto energtica capazes de lidar com as flutuaes, por exemplo, a contagem lquida, as redes inteligentes e o desenvolvimento da capacidade de armazenamento (ver abaixo).

Prmios de aquisio

As recentes reformas polticas motivaram uma importante mudana para os prmios de aquisio, regime que obrigar os produtores (acima de uma determinada capacidade instalada) a venderem a sua eletricidade renovvel diretamente no mercado na energia, recebendo depois um determinado prmio sobre o preo de mercado. A introduo de prmios de comercializao constituiu um motivo de preocupao para os microprodutores de energia. A comercializao direta cria um novo e importante fardo logstico para os pequenos e mdios produtores e reduz as possibilidades de obterem financiamento para projetos, uma vez que um prmio de aquisio tambm no to suscetvel de ser considerado por um credor como um fluxo de receitas negocivel.

Contagem lquida

Uma boa oportunidade de promover a energia produzida por particulares a contagem lquida, a qual permite que os produtores ligados rede consumam a sua prpria energia eltrica e vendam a energia excedentria rede. A contagem lquida poder permitir que os prosumidores retirem posteriormente da rede a quantidade exata de eletricidade que nela injetaram, sem pagarem nada por isso ou pagando apenas os custos da rede. Combinada com as medidas de gesto energtica, esta soluo poderia transformar a rede pblica num verdadeiro meio de armazenamento virtual. A Dinamarca introduziu, em1998, o sistema da energia solar fotovoltaica, que teve um xito assinalvel. Por sua vez, o Parlamento da Litunia comeou a debater uma primeira proposta legislativa no incio de2014.

Regimes de quotas

Outro mecanismo de apoio comum passa pelo estabelecimento de obrigaes de quotas de energias renovveis. Os nveis de execuo destes regimes so desiguais e funcionam com maior ou menor xito, consoante os pases. Na Polnia, por exemplo, os distribuidores de energia so obrigados a adquirir certificados verdes no mercado, embora estes provenham, na sua maioria, de centrais a carvo tradicionais que queimam tambm biomassa (parcialmente importada da Rssia). As receitas dos certificados verdes deviam apoiar a implantao de energias renovveis, mas o estudo do CESE revelou que, pelo contrrio, contribuam indiretamente para baixar o preo da eletricidade produzida em centrais a carvo. Alm disso, a utilizao em grande escala de biomassa conduziu a uma reduo drstica do preo dos certificados verdes na Polnia e, consequentemente, dos retornos, por exemplo, dos investimentos em energia elica. O instrumento dos certificados verdes tornou-se completamente ineficaz, ou at mesmo contraproducente. Neste sentido, a tarifa de aquisio um instrumento mais previsvel e capaz de proporcionar melhores retornos aos produtores, nomeadamente no caso de tecnologias dispendiosas.

Apoio ao investimento

Os mecanismos acima mencionados recompensam a produo, mas como a maioria das energias renovveis exige elevados montantes de capital, existem tambm diversos instrumentos para superar o obstculo do investimento. Normalmente, os investidores em instalaes de pequena e mdia capacidade tm a possibilidade de escolher entre a atribuio de uma tarifa de aquisio ou a obteno de um apoio ao investimento pontual para reduzir os custos iniciais. Estes regimes podem ser particularmente interessantes para as regies que beneficiam dos fundos estruturais. Devem ser cuidadosamente ajustados e geridos, a fim de evitar lucros excessivos, ineficincias que aumentem desnecessariamente os preos da energia, cabazes energticos desadequados ou uma eventual deslocao do financiamento para apoio da energia produzida por particulares para fundos especulativos.

Caixa 1: O exemplo da transio energtica na Alemanha (Energiewende)

No primeiro semestre de 2014, mais de 30% da eletricidade consumida na Alemanha provinha de fontes renovveis. O crescimento vertiginoso das energias renovveis na Alemanha deve-se, em larga medida, Lei das Energias Renovveis alem, que entrou em vigor em 2000. Este diploma no tinha explicitamente por objetivo a promoo de energia produzida por particulares, mas estabeleceu condies-quadro que permitiram sociedade civil tornar-se um produtor ativo de energias renovveis. As medidas previstas so:

Procedimentos de planeamento e aprovao simplificados para os investidores (sem entraves administrativos);

Facilidade de acesso rede;

Prioridade de mobilizao no acesso rede das energias renovveis em relao energia nuclear e fssil;

Manuteno de tarifas de aquisio fixas por um perodo de 20 anos;

Comercializao de eletricidade pelo operador da rede;

Apoio ao investimento atravs de crditos preferenciais concedidos a instalaes de energias renovveis pelo Instituto Estatal de Crdito para a Reconstruo alemo (Kreditanstalt fr Wiederaufbau, KfW);

Cobertura dos custos decorrentes desta lei atravs da sobretaxa EEG sobre os preos da eletricidade. Em especial, as indstrias de consumo intensivo de energia podem ser isentas do pagamento desta taxa, para no comprometer a sua competitividade a nvel internacional.

Os pases visitados pelo CESE caracterizam-se por um quadro bastante complexo de tarifas, quotas, subvenes e subsdios. Esta complexidade em parte justificada pela necessidade de diferenciar os regimes de apoio, mas deve ser reduzida ao mnimo:

a diferenciao por combustvel ou tecnologia estimula o desenvolvimento de tecnologias com diferentes custos que no podem competir diretamente entre si, originando, com isso, taxas de aprendizagem mais rpidas. Pode tambm responder a especificidades da estrutura de custos;

a diferenciao por classe de potncia evita lucros excessivos dos produtores resultantes de economias de escala e pode tambm ser utilizada para estimular a energia produzida por particulares, geralmente associada a capacidades de baixa potncia;

a diferenciao por vetor energtico (por exemplo, eletricidade versus calor) permite a consecuo de metas especficas para cada um deles. Ao contrrio do que acontece no setor da eletricidade, onde as tarifas de aquisio so normalmente pagas durante mais de 10anos, a produo de energia renovvel proveniente do calor maioritariamente estimulada atravs de emprstimos e subvenes que ajudam a cobrir os custos de investimento. O fondschaleur francs um bom exemplo a este respeito. A partir de 2015, a Litunia ir tambm aplicar obrigaes em matria de aquecimento e refrigerao provenientes de fontes de energia renovvel a todos os edifcios, novos e j existentes, que sejam alvo de renovaes importantes.

Reduzir os obstculos energia renovvel produzida por particulares

Abordagem ponderada dos concursos

Recentes reformas dos regimes de apoio s energias renovveis introduziram concursos em vrios dos pases estudados como processo principal de atribuio de tarifas de aquisio ou prmios s energias renovveis. No futuro, apenas capacidades de produo muito reduzidas sero isentas do processo de leiles. Esta tendncia pelo menos em parte impulsionada pelas orientaes da Comisso Europeia em matria de auxlios estatais nos domnios da energia e do ambiente.

Em todos os pases visitados, as partes interessadas manifestaram a sua preocupao com processos de concurso complexos e onerosos que viriam aumentar os custos financeiros e reduzir as possibilidades de obteno de crdito devido aos maiores riscos do investimento (ligados incerteza quanto obteno do apoio). Este desproporcionado encargo financeiro que recai sobre os projetos de pequena dimenso, associado ao facto de ser muito difcil aos pequenos produtores produzirem as quantidades de energia geralmente exigidas nos concursos, iria, em termos efetivos, excluir a sociedade civil e as comunidades locais das vantagens resultantes do apoio s energias renovveis. Alm disso, poderia destruir a concorrncia nos mercados da energia, uma vez que apenas alguns grandes produtores teriam a capacidade de participar nos concursos.

Os concursos favorecem os grandes produtores e, assim, apoiam uma possvel recentralizao, retirando a produo de energia renovvel das mos dos particulares e das comunidades. Dar preferncia aos grandes produtores centralizados pode resultar na subida dos preos no consumidor, porquanto as grandes empresas tm expectativas de margens de lucro bastante superiores s dos microprodutores de energia. Alm disso, os concursos no funcionam se no houver um mercado energtico. As experincias partilhadas em alguns dos pases visitados (nomeadamente no Reino Unido) sugerem que os concursos acabam por aumentar os custos globais e o risco de atrasos ou cancelamento dos projetos. Os concursos foram o primeiro regime de apoio s energias renovveis no Reino Unido, tendo sido abandonado a favor de um regime de quotas que posteriormente foi substitudo por tarifas de aquisio para projetos com uma potncia inferior a 5MW.

Fixao no demasiado rgida de um limite para as metas no domnio das energias renovveis

Vrios Estados-Membros da UE estabeleceram mecanismos para abrandar o desenvolvimento das energias renovveis, reduzindo ou suspendendo o apoio assim que as suas metas relativas ao perodo em causa sejam alcanadas. De entre os Estados-Membros visitados durante o estudo, a Bulgria revelou-se um exemplo flagrante: Em2013, o Governo declarou que a meta nacional de 16% de energias renovveis para2020 tinha sido atingida. Desde ento, os operadores das redes serviram-se deste argumento para recusar a ligao de novos produtores de eletricidade renovvel rede. A Litunia limitou o apoio pblico eletricidade renovvel e, ao mesmo tempo, definiu objetivos muito pouco ambiciosos para cada uma das principais tecnologias de produo de energia renovvel. exceo da energia hidroeltrica, as capacidades foram atingidas em menos de doisanos.

A necessidade de tornar o crescimento do setor das energias renovveis mais previsvel e de gerir os custos sociais e econmicos conexos pode constituir um argumento vlido a favor da limitao. No entanto, fundamental que a limitao no ponha termo ambio dos Estados-Membros de realizar a transio energtica, nem seja uma forma de bloquear o progresso quando este pode, e deve, ter continuidade.

Eliminao dos obstculos ligao rede

As capacidades de baixa potncia, que so habituais na energia produzida por particulares, esto normalmente ligadas rede de distribuio. A ligao rede, em termos quer de tempos de espera quer de custos, continua a ser um problema em muitos dos pases estudados. Apesar de a Diretiva Energias Renovveis exigir a concesso da ligao de um projeto de energia renovvel rede, os elevados custos amide praticados por alguns operadores impedem na prtica o exerccio desse direito. O nmero de locais de conexo para um novo projeto frequentemente limitado e, por conseguinte, os microprodutores de energia podero no ser capazes de se ligar rede a um preo razovel. Os microssistemas no ligados rede podem contornar este entrave e ser mesmo a soluo adequada, do ponto de vista dos custos, para zonas remotas em que a rede seja fraca ou ausente. A Lei das Energias Renovveis alem (EEG) constitui um excelente exemplo de boas prticas no contexto da ligao rede[footnoteRef:20]. [20: O seu artigo8., intitulado Ligao, dispe que 1) Os operadores de rede devem ligar rede de forma imediata e prioritria as instalaes destinadas produo de eletricidade a partir de fontes renovveis e de grisu. A ligao efetuada no ponto da rede adequado em termos de nvel de tenso e mais prximo em linha reta do local da instalao, a menos que se demonstre que essa ou outra rede tem um ponto de ligao tcnica ou economicamente mais adequado. A determinao do ponto de ligao economicamente mais adequado deve ter em considerao os custos de ligao diretos. Se uma ou mais instalaes com uma capacidade instalada conjunta inferior a 30kW estiverem localizadas num terreno em que j exista uma ligao rede, considera-se que o ponto de ligao rede do terreno em causa o ponto de ligao adequado.]

Iseno do requisito de comercializao direta

A comercializao direta cria um novo e importante fardo logstico para os pequenos e mdios produtores de energia e reduz as possibilidades de obterem financiamento para projetos, uma vez que um prmio de aquisio tambm no to suscetvel de ser considerado por um credor como um fluxo de receitas negocivel.

Desenvolvimento e coordenao da rede para ajustamento s necessidades das energias renovveis

Os sistemas de rede antigos foram projetados numa era de produo energtica centralizada e de fluxos unidirecionais de grandes geradores eltricos de alta tenso para os consumidores de baixa tenso. As redes devem ser adaptadas s caractersticas das flutuaes e da produo dispersa de origem renovvel, como as energias elica, solar e das mars. A sua implantao exige mudanas estruturais na infraestrutura, bem como uma melhor coordenao dos mercados da eletricidade e da produo de energia eltrica e solues de gesto energtica que permitam exportar ou armazenar a eletricidade excedentria. Est a crescer a importncia da coordenao entre os operadores das redes de transporte (ORT) atravs de iniciativas de coordenao ao nvel regional. Por exemplo, ao prever a procura de energia, a CORESO consegue informar antecipadamente os ORT de cinco Estados-Membros dos excedentes ou dfices de eletricidade previstos ao nvel nacional e regional, de modo a estarem em melhores condies de gerir as suas prprias redes e resolver quaisquer problemas. Uma das formas de lidar com a intermitncia das energias renovveis reside em desenvolver sistemas hbridos que combinem vrias fontes de energia, o armazenamento e a gesto da procura. Com uma gesto adequada, o resultado seria uma rede inteligente capaz de efetuar fornecimentos de eletricidade sustentveis, econmicos e seguros. A equipa do CESE visitou um excelente exemplo de uma iniciativa deste tipo: o projeto Nice Grid, em Frana, pretende otimizar a gesto da energia e aumentar a autonomia energtica de 1500clientes residenciais, profissionais e industriais, integrar o armazenamento e as solues de gesto do lado da procura e reduzir o pico de carga at 17%.

Figura 7: Arquitetura do projeto Nice Grid

Fonte: Nice Grid (2014).

Durante a visita Alemanha, a equipa do estudo tomou conhecimento da declarao da Agncia Federal de Redes da Alemanha sobre o tema das estruturas de produo descentralizada, segundo a qual a chave para o xito da transformao do sistema energtico estreitar a cooperao entre todas as partes envolvidas. A declarao frisa ainda que todas as abordagens que visam maximizar o consumo de energia na fonte so bem-vindas e que esse tem sido sempre o princpio do aprovisionamento energtico, uma vez que reduz ao mnimo as perdas da rede.[footnoteRef:21] [21: Smart Grid and Smart Market: Keynote Paper of the Federal Grid Agency on the changing energy supply system [Rede inteligente e mercado inteligente: Documento da Agncia Federal de Redes da Alemanha sobre a transformao do sistema de aprovisionamento energtico], 2011.]

Gesto e armazenamento da energia

A natureza intermitente de algumas energias renovveis continua a ser um desafio em termos de gesto da oferta. Contudo, a generalizao das energias renovveis est a trazer consigo solues novas e inovadoras. A combinao da produo de eletricidade renovvel com a produo trmica poderia ser uma excelente oportunidade para obter capacidades de armazenamento urgentemente necessrias, que poderiam ser repetidamente aproveitadas no contexto da produo de energias renovveis flutuantes. A eletricidade para o aquecimento, ou seja, a utilizao de eletricidade renovvel excedentria e barata atravs de bombas de calor e depsitos de gua quente para aquecimento ou arrefecimento, j uma alternativa vivel em termos econmicos e de gesto energtica. Durante a visita a Frana, estava em curso um debate sobre esta possibilidade e h projetos em fase de execuo na Alemanha.

Concluses

Se tiver as condies regulamentares adequadas, a sociedade civil ter um forte interesse e potencial para levar a cabo uma parte importante da transio para uma produo de energia sustentvel e descentralizada. Em todos os pases visitados, as partes interessadas da sociedade civil reconheceram esta oportunidade econmica e mostraram-se muito interessadas em participar na produo de energia renovvel para gerar receitas e manter os ganhos obtidos nas comunidades locais. Onde foram institudos quadros polticos favorveis, os pequenos produtores depressa entraram no mercado, tornando-se a principal fora motriz do desenvolvimento das energias renovveis e transformando os panoramas energticos ao nvel nacional. Em muitos casos, os projetos no domnio das energias renovveis foram o elemento central de iniciativas comunitrias com benefcios sociais, econmicos e ambientais que vo muito alm da mera gerao de energia, incentivando a cooperao, a inovao social, a educao, a melhoria dos servios e a criao de emprego ao nvel local. Alm disso, a propriedade das instalaes de produo de energia renovvel e o valor derivado da produo energtica aumentam a aceitao pelos cidados das novas infraestruturas, bem como a sua tolerncia em relao a potenciais incmodos. O enorme investimento coletivo e as capacidades de execuo e inovao da sociedade civil constituem recursos essenciais para concretizar a transio para uma energia sustentvel.

Porm, o enorme potencial coletivo da sociedade civil para fazer avanar a transio para as energias renovveis e o potencial de produo descentralizada de energia para estimular o desenvolvimento local e regional permanecem largamente inexplorados. Nos pases visitados, o estudo identificou alguns exemplos excelentes de estratgias de participao das comunidades, simplificao dos procedimentos administrativos, incentivos financeiros e acesso facilitado dos pequenos produtores de energia renovvel rede e aos mercados. Contudo, a equipa do estudo no encontrou em nenhum Estado-Membro uma estratgia governamental executada com coerncia e visando explicitamente a capacitao da sociedade civil e a criao de condies de concorrncia equitativas para a energia renovvel produzida por particulares. Bem pelo contrrio, em todos os pases objeto do estudo a instabilidade poltica e as reformas recentes dos quadros regulamentares em matria de energias renovveis criaram mais incerteza, relutncia em efetuar novos investimentos e preocupao entre as partes interessadas quanto ao futuro da energia produzida por particulares. A combinao de processos de licenciamento complexos e morosos com a alterao constante dos regimes de apoio, bem como regras de acesso ao mercado que discriminam os pequenos produtores e, em certos casos, novos impostos e direitos sobre as energias renovveis, colocam os pequenos e mdios investidores em clara desvantagem relativamente aos grandes produtores de energia.

O estudo do CESE identificou que urgentemente necessrio que o apoio produo descentralizada de energia renovvel por particulares passe a ser uma prioridade explcita. Os rgos de poder nacional, local e regional devem estabelecer metas para a promoo da energia produzida por particulares, tendo particularmente em vista a sua integrao nos quadros de planeamento local das energias renovveis. A energia produzida por particulares tem de ser tratada de forma especfica pelos mecanismos de apoio. necessrio conceber subvenes, emprstimos ou regimes de apoio produo de molde a viabilizar um quadro estvel, a longo prazo, para investimentos que garantam um retorno digno, mas no excessivo. Os procedimentos administrativos devem ser simples, rpidos e economicamente acessveis aos microprodutores de energia. Recomendamos a integrao dos procedimentos em balces nicos que facultem orientaes aos investidores potenciais, os acompanhem ao longo das vrias fases do processo (desde o planeamento at implantao) e executem todo o trabalho burocrtico necessrio.

A elaborao e execuo das polticas no domnio das energias renovveis ao nvel da UE e dos Estados-Membros devem decorrer num processo de dilogo contnuo com as partes interessadas da sociedade civil, com vista a assegurar um entendimento comum, objetivos partilhados, o apoio sua execuo e os benefcios a longo prazo de uma cultura de cooperao e da confiana recproca. Neste contexto, o CESE poder ter um papel ativo no Dilogo Europeu sobre a Energia. Especificamente, ser essencial que as partes interessadas da sociedade civil possam participar no