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    Psicopatologia Geral II

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    Prtica (15.02.11)

    Casos Clnicos

    Os casos clnicos discutem-se atravs de uma metodologia especfica e podem ser descritos de

    diversas formas, nomeadamente no formato de histria clnica. Esta anlise ou discusso feita

    a dois nveis diferentes: psicopatologia descritiva e psicopatologia compreensiva. Numa

    primeira fase, procura-se identificar e descrever as manifestaes clnicas que se observam no

    indivduo durante o contexto clnico e s posteriormente se deve proceder discusso do

    diagnstico, com o intuito de identificar a perturbao mental. Regra geral, existem algumas

    questes que podem facilitar na conduo de um diagnstico e que esto na base de um bom

    procedimento a este nvel.

    1. Haver ou no perturbao mental? A realidade que por vezes existem acontecimentos

    marcantes e significativos que podem conduzir a comportamentos ou reaces

    adaptativas que no implicam necessariamente a existncia de uma perturbao (luto,

    divrcios, etc.). Neste caso o acompanhamento pode ser feito, mas de uma forma

    diferente e mais ligeira, situao que evidencia a abrangncia da vertente clnica em

    contexto psicopatolgico.

    2. No caso de existir perturbao, essa psicopatologia ser orgnica ou funcional? As

    perturbaes orgnicas esto ligadas a leses no crebro (neurnios), casos em que os

    indivduos devem ser direccionados a mdicos especialistas como os neurologistas. Para

    a identificao deste tipo de patologias, importante ter ateno que existem alguns

    aspectos associados a alteraes no campo da orientao e conscincia e que apontam

    para a organicidade (estados confusionais, por exemplo) dos sintomas. As perturbaes

    ao nvel funcional esto antes ligadas mente e a processos mentais, sendo essa a

    vertente que compete ao psiclogo analisar.

    3. Identificando a existncia de uma perturbao funcional, coloca-se a questo de

    estarmos perante uma patologia neurtica ou psictica? Esta diferenciao feita

    atravs da percepo da realidade que o sujeito tem, sendo que nas neuroses o sujeito

    est prximo da realidade, existindo mesmo uma crtica ao seu estado patolgico e nas

    psicoses, tal no acontece, isto , o indivduo encontra-se afastado da realidade e no

    tem uma consciencializao da sua patologia.

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    4. Que tipos de psicoses e neuroses? importante ter em conta que existem dois grandes

    tipos de psicoses: crnicas e agudas. As crnicas resumem-se essencialmente s

    psicoses esquizofrnicas, paranides e afectivas (humor) e manifestam-se

    maioritariamente atravs de delrios, alucinaes, etc. Estas sero naturalmente as mais

    fceis de identificar no sentido em que existem outras que no permitem ainda um

    diagnstico claro, devido ao facto de serem transitrias (agudas). Estas surgem

    normalmente em resposta a um factor de grande stress e assumem um carcter

    meramente temporrio. Nas neuroses, essencial no esquecer que qualquer

    perturbao deste tipo inclui a manifestao de ansiedade, qual se d o nome de

    perturbao da ansiedade. Se existirem mais manifestaes, podem ento identificar-se

    outro tipo de neuroses como por exemplo neuroses fbicas, hipocondracas, histricas

    (sintomas fsicos), etc.

    5. No caso de o indivduo no apresentar nem sintomas neurticos nem sintomas

    psicticos, questionamo-nos sobre o facto de se tratar de uma patologia relacional

    (perturbao da personalidade) ou uma patologia associada a um comportamento

    especfico, entendendo-se que este ltimo tipo de patologia pode estar associada a

    comportamentos especficos sexuais (parafilias, etc.), comportamentos alimentares e

    comportamentos aditivos.

    Realizado o diagnstico, podemos ento passar a uma segunda fase que caracteriza a

    psicopatologia compreensiva e que passa por compreender como surge a patologia no indivduo.

    Nesta altura, importante ter um mapa da mente que contenha as diferentes teorias do

    funcionamento mental e que nos sirva de suporte para a compreenso da perturbao. Existem

    trs grandes modelos ou teorias que surgem neste contexto: psicopatologia dinmica,

    psicopatologia cognitiva e por ltimo, a fenomenolgica. importante perceber se o modelo

    pelo qual optamos permite elucidar o que se est a passar com o sujeito e se necessrio, deve

    ajustar-se esse modelo da melhor forma. O objectivo consiste em perceber e compreender o que

    aconteceu ao nvel dos processos mentais para surgir a perturbao mental, sendo que

    conseguindo responder a estas questes possivel passar a uma interveno teraputica.

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    Terica (21.02.11)

    Modelos Tericos

    Existem trs grandes modelos tericos que permitem uma leitura compreensiva do sujeito

    perturbado: psicanaltico ou dinmico; cognitivo; fenomenolgico e existencial.

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    Sntese sobre Perspectivas Psicopatolgicas

    Biomdica paradigma biolgico da doena mental (sintomas de causa cerebral,

    estrutural e/ ou funcional)

    Psicolgica paradigma psicolgico da perturbao mental (experincia,

    comportamentos e significados)

    Fenomenolgica descrio de fenmenos da experincia da perturbao (compreenso

    das relaes de sentido entre diferentes vivncias)

    Existencial descrio fenomenolgica da totalidade da existncia, com perturbao

    (compreenso do significado existencial da perturbao como acontecimento

    biogrfico)

    Modelo Fenomenolgico e Existencial

    Uma Compreenso fenomenolgica e existencial estudada atravs da psicologia e da

    psicopatologia, com influncia da filosofia. Este modelo vai possibilitar um entendimento da

    psicopatologia ao nvel do vivido por parte do sujeito e surgindo no seio da filosofia, Carl

    Jaspers procurou aplicar este mtodo na psicopatologia, consistindo este em colocar o sujeito a

    discursar sobre o que sente e pensa sobre as suas vivncias psicopatolgicas. O que acontece

    que h um conjunto de fenmenos que aparecem conscincia do indivduo e que so vividos

    por ele. Esses fenmenos so altamente subjectivos e s podem ser conhecidos atravs do

    observador. No entanto e devido presena de conhecimentos prvios sobre a psicopatologia,

    bem como uma tentativa constante e subtil de interpretao que por vezes quase inconsciente,

    pode interferir na leitura e processo pretendido. Neste sentido e com o intuito de evitar tal

    realidade, a aplicao deste mtodo consiste em descrever minuciosamente as vivncias

    psicopatolgicas referidas, tal e qual como este as relata, sem interpretaes e sem ideias

    prvias. Alm disso, o psiclogo deve estar por dentro, isto , tentar colocar-se no lugar do

    observado, claro que sem perder a sua identidade e tentar compreender a vivncia que o

    paciente est a relatar. Durante momentos, o observador deve esquecer todos os seus

    conhecimentos da psicopatologia e centrar-se exclusivamente no discurso sentimento de

    empatia.

    Mais tarde, Sartre introduziu o modelo existencial no qual utilizando o mesmo mtodo de

    Jaspers (fenomenolgico), se centrou num diferente objecto de estudo. Para o autor, j no

    apenas a experincia psicopatolgica que interessa, mas sim a totalidade da experincia do

    sujeito na qual se integra a experincia perturbada.

    Sartre vem afirmar que a personalidade no uma mera construo terica, sim uma

    totalidade do corpo e conscincia que est integrada na relao com o outro e unificada para

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    ser um projecto. Neste sentido, podemos afirmar que o este modelo assenta numa descrio

    fenomenolgica idntica a Jaspers (com discurso directo), mas com um diferente objecto de

    estudo:

    Fenomenolgica experincia psicopatolgica com estado de conscincia perturbada

    Existencialismo existir com perturbao, como expresso de uma escolha inautntica,

    sendo que esta inautenticidade no tem significado moral e apenas indica que o sujeito

    d primazia ao que os outros pensam, em detrimento de si prprio. A autenticidade e/ou

    inautenticidade est apenas associada congruncia, ou falta dela, do sujeito consigo

    prprio.

    A apresentao destes modelos evidencia uma grande oposio Psicanlise, pois enquanto na

    Psicanlise o observador quem interpreta, no modelo fenomenolgico e existencial o prprio

    sujeito que interpreta as suas prprias experincias e consequentemente relaciona os

    acontecimentos perturbados com outras vivncias (atribuio de significados). Aqui e mais uma

    vez ao contrrio da Psicanlise, o inconsciente no existe, o que existe uma conscincia pr-

    reflectida que pode conter aspectos que ainda no so conhecidos pelo sujeito.

    Em suma, possivel diferenciar os dois modelos at aqui explorados, definindo-se que a anlise

    fenomenolgica procura descrever a forma e os contedos de vivenciar patolgico e

    compreender as suas relaes de sentido com vivncias anteriores, usando o mtodo

    fenomenolgico. Diferentemente, a anlise existencial procura descrever o modo de existir

    perturbado e compreender a perturbao como acontecimento biogrfico, usando mais uma vez

    o mtodo fenomenolgico.

    Fenomenolgico do existir com perturbao

    importante contextualizar a perturbao na biografia do sujeito, isto , ao longo da sua

    experincia de vida, incluindo as dimenses de passado, presente e futuro. Enquanto a

    psicanlise assenta numa base em que a concepo do ser se determina apenas atravs do

    passado e som