Publica§µes institucionais do mec

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  • 1. Curso preparatrio Concurso para professores Publicaes Institucionais do MEC Org. Prof Elizabete Cristina O. Jesus Pgina 1PARMETROS NACIONAIS DE QUALIDADE PARA A EDUCAO INFANTILObjetivo: Visa estabelecer os requisitos para a Educao Infantil que possibilite o desenvolvimento integral das crianas, at os cinco anos de idade em seus aspectos fsico, psicolgico, intelectual e social.Busca contemplar:1) a concepo de criana e de pedagogia da Educao Infantil;2) o debate sobre a qualidade da educao em geral e o debate especfico no campo da educao da criana de 0 at 6 anos;3) os resultados de pesquisas recentes;4) a qualidade na perspectiva da legislao e da atuao dos rgos oficiais do pas.1. Concepo de criana e de pedagogia da Educao InfantilA criana um sujeito social e histrico que est inserido em uma sociedade na qual partilha de uma determinada cultura. profundamente marcada pelo meio social em que se desenvolve, mas tambm contribui com ele (BRASIL, 1994a). A criana, assim, no uma abstrao, mas um ser produtor e produto da histria e da cultura (FARIA, 1999).Olhar a criana como ser que j nasce pronto, ou que nasce vazio e carente dos elementos entendidos como necessrios vida adulta ou, ainda, a criana como sujeito conhecedor, cujo desenvolvimento se d por sua prpria iniciativa e capacidade de ao, foram, durante muito tempo, concepes amplamente aceitas na Educao Infantil at o surgimento das bases epistemolgicas que fundamentam, atualmente, uma pedagogia para a infncia. Os novos paradigmas englobam e transcendem a histria, a antropologia, a sociologia e a prpria psicologia resultando em uma perspectiva que define a criana como ser competente para interagir e produzir cultura no meio em que se encontra.Essa perspectiva hoje um consenso entre estudiosos da Educao Infantil (BONDIOLI e MANTOVANI, 1998; SOUZA; KRAMER, 1991; MYERS, 1991; CAMPOS ET AL., 1993; OLIVEIRA; ROSSETTI-FERREIRA, 1993; MACHADO, 1998; OLIVEIRA, 2002).A interao a que se referem os autores citados no uma interao genrica. Trata-se de interao social, um processo que se d a partir e por meio de indivduos com modos histrica e culturalmente determinados de agir, pensar e sentir, sendo invivel dissociar as dimenses cognitivas e afetivas dessas interaes e os planos psquico e fisiolgico do desenvolvimento decorrente (VYGOTSKI, 1986 e 1989). Nessa perspectiva, a interao social torna-se o espao de constituio e desenvolvimento da conscincia do ser humano desde que nasce (VYGOTSKI, 1991).Muitas vezes vista apenas como um ser que ainda no adulto, ou um adulto em miniatura, a criana um ser humano nico, completo e, ao mesmo tempo, em crescimento e em desenvolvimento. um ser humano completo porque tem caractersticas necessrias para ser considerado como tal: constituio fsica, formas de agir, pensar e sentir. um ser em crescimento porque seu corpo est continuamente aumentando em peso e altura. um ser em desenvolvimento porque essas caractersticas esto em permanente transformao. As mudanas que vo acontecendo so qualitativas e quantitativas o recm-nascido diferente do beb que engatinha, que diferente daquele que j anda, j fala, j tirou as fraldas. O crescimento e o desenvolvimento da criana pequena ocorrem tanto no plano fsico quanto no psicolgico, pois um depende do outro.Embora dependente do adulto para sobreviver, a criana um ser capaz de interagir num meio natural, social e cultural desde beb. A partir de seu nascimento, o beb reage ao entorno, ao mesmo tempo em que provoca reaes naqueles que se encontram por perto, marcando a histria daquela famlia. Os elementos de seu entorno que compem o meio natural (o clima, por

2. Curso preparatrio Concurso para professores Publicaes Institucionais do MEC Org. Prof Elizabete Cristina O. Jesus Pgina 2exemplo), social (os pais, por exemplo) e cultural (os valores, por exemplo) iro configurar formas de conduta e modificaes recprocas dos envolvidos.No que diz respeito s interaes sociais, ressalta-se que a diversidade de parceiros e experincias potencializa o desenvolvimento infantil.Parmetros Nacionais de Qualidade para a Educao Infantil Volume 1Crianas expostas a uma gama ampliada de possibilidades interativas tm seu universo pessoal de significados ampliado, desde que se encontrem em contextos coletivos de qualidade. Essa afirmativa considerada vlida para todas as crianas, independentemente de sua origem social, pertinncia tnico-racial, credo poltico ou religioso, desde que nascem.Por sua vez, a viso da criana como ser que tambm parte da natureza e do cosmo merece igualmente destaque, especialmente se considerarmos as ameaas de esgotamento de recursos em nosso planeta e as alteraes climticas evidentes nos ltimos anos. Conforme alerta Tiriba (2005), os seres humanos partilham a vida na Terra com inmeras espcies animais, vegetais e minerais, sem as quais a vida no planeta no pode existir. Essas espcies, por sua vez, interagem permanentemente, estabelecendo-se um equilbrio frgil e instvel entre todos os seres que habitam o ar, a gua dos rios, dos lagos e dos mares, os campos, as florestas e as cidades, em nosso sistema solar e em todo o universo.A inteno de aliar uma concepo de criana qualidade dos servios educacionais a ela oferecidos implica atribuir um papel especfico pedagogia desenvolvida nas instituies pelos profissionais de Educao Infantil. Captar necessidades que bebs evidenciam antes que consigam falar, observar suas reaes e iniciativas, interpretar desejos e motivaes so habilidades que profissionais de Educao Infantil precisam desenvolver, ao lado do estudo das diferentes reas de conhecimento que incidem sobre essa faixa etria, a fim de subsidiar de modo consistente as decises sobre as atividades desenvolvidas, o formato de organizao do espao, do tempo, dos materiais e dos agrupamentos de crianas.Pesquisas realizadas desde a dcada de 1970 (HARDY; PLATONE; STAMBACK, 1991) enfatizam que todas as crianas podem aprender, mas no sob qualquer condio. Antes mesmo de se expressarem por meio da linguagem verbal, bebs e crianas so capazes de interagir a partir de outras linguagens (corporal, gestual, musical, plstica, faz-de-conta, entre outras) desde que acompanhadas por parceiros mais experientes. Apoiar a organizao em pequenos grupos, estimulando as trocas entre os parceiros; incentivar a brincadeira; dar-lhes tempo para desenvolver temas de trabalho a partir de propostas prvias; oferecer diferentes tipos de materiais em funo dos objetivos que se tem em mente; organizar o tempo e o espao de modo flexvel so algumas formas de interveno que contribuem para o desenvolvimento e a aprendizagem das crianas. As iniciativas dos adultos favorecem a inteno comunicativa das crianas pequenas e o interesse de umas pelas outras, o que faz com que aprendam a perceber-se e a levar em conta os pontos de vista dos outros, permitindo a circulao das ideias, a complementao ou a resistncia s iniciativas dos parceiros. A oposio entre parceiros, por exemplo, incita a prpria argumentao, a objetivao do pensamento e o recuo reflexivo das crianas. (MACHADO, 1998).Ao se levar em conta esses aspectos, no se pode perder de vista a especificidade da pedagogia da Educao Infantil, como afirma Rocha (1999):Enquanto a escola tem como sujeito o aluno, e como objeto fundamental o ensino nas diferentes reas atravs da aula; a creche e a pr-escola tm como objeto as relaes educativas travadas num espao de convvio coletivo que tem como sujeito a criana de 0 at 6 anos de idade. importante destacar que essas relaes educativas, s quais a autora se refere, na instituio de Educao Infantil so perpassadas pela funo indissocivel do cuidar/educar, tendo em 3. Curso preparatrio Concurso para professores Publicaes Institucionais do MEC Org. Prof Elizabete Cristina O. Jesus Pgina 3vista os direitos e as necessidades prprios das crianas no que se refere alimentao, sade, higiene, proteo e ao acesso ao conhecimento sistematizado. Este ltimo aspecto torna-se especialmente relevante no caso das creches no Brasil, onde em muitas delas ainda predomina um modelo de atendimento voltado principalmente alimentao, higiene e ao controle das crianas, como demonstra a maioria dos diagnsticos e dos estudos de caso realizados em creches brasileiras (CAMPOS; FULLGRAF; WIGGERS, 2004). Essa afirmao evidencia a no-superao do carter compensatrio da Educao Infantil denunciado por Kramer (1987) que ainda se manifesta nos dias atuais, como tambm a polarizao assistncia versus educao, apontada insistentemente por Kuhlmann Jr. (1998). Sabemos que no basta apenas transferir as creches para os sistemas de ensino, pois na sua histria, as instituies pr-escolares destinaram uma educao de baixa qualidade para as crianas pobres, e isso que precisa ser superado (p. 208).Assim, a nfase na apropriao de significados pelas crianas, na ampliao progressiva de conhecimentos de modo contextualizado, com estratgias apropriadas s diferentes fases do desenvolvimento infantil, parece bastante justificada.Da mesma forma que defendemos uma perspectiva educacional que respeite a diversidade cultural e promova o enriquecimento permanente do universo de conhecimentos, atentamos para a necessidade de adoo de estratgias educacionais que permitam s crianas, desde bebs, usufrurem da natureza, observarem e sentirem o vento, brincarem com gua e areia, atividades que se tornam especialmente relevantes se considerarmos que as crianas ficam em espaos internos s construes na maior parte do tempo em que se encontram nas instituies de Educao Infantil. Criando condies para que as crianas desfrutem da vida ao ar livre, aprendam a conhecer o mundo da natureza em que vivemos, compreendam as repercusses das aes humanas nesse mundo e sejam incentivadas em atitudes de preservao e respeito biodiversidade, estaremos difundindo uma concepo de educao em que o ser humano parte da natureza e no seu dono e senhor absoluto (TIRIBA, 2005).Os aspectos anteriormente abordados devem ser considerados no process