Qual o futuro da Espiritualidade? - ?· fraquezas humanas dos seus ministros. Mas a Igreja é feita…

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    01-Jan-2019

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Qual o futuro da Espiritualidade?

Gilbraz Arago1

Resumo: Muitas religies, e o prprio cristianismo majoritrio no mundo, revestiram-se

de formalidade e distanciaram-se da experincia espiritual, necessitando hoje de uma

nova plataforma lgica para tematizar a espiritualidade e para oferecer o seu testemunho

espiritual ao mundo. A nossa reflexo, pois, buscar apresentar uma Abordagem

Integral do conhecimento, que associa tanto as crenas mais tradicionais das religies,

quanto os princpios culturais e cientficos modernos e ps-modernos, mostrando um

novo lugar para a religiosidade no mundo: o de uma espiritualidade que vai para alm

da religio formal e/ou se organiza por caminhos transreligiosos em dilogo com uma

cincia transdisciplinar.

Palavras-chave: Religies, Espiritualidade, Transdisciplinaridade.

Outro dia, um estudante de teologia na Catlica de Pernambuco me perguntou como se

tornar um mstico. Eu pensei que era brincadeira, mas acabei lhe dando uns conselhos:

faa silncio e respire direito em um cantinho todo dia, para colocas as coisas em

perspectiva e despertar uma atitude de venerao e ligao com o mistrio da realidade,

para cultivar fineza de esprito e leveza perante a vida: assim que nem os urubus, que

metabolizam a carnia porque voam alto e respiram oznio; medite sobre a tradio do

nosso povo, suas escrituras e a histria da Igreja, sobretudo dos santos, para aprender a

discernir e escolher com base na tradio: faa como a girafa, que enxerga longe mas

tem um grande corao; estude histria e cincia, mas estude mesmo e com esprito de

minhoca (ele estranhou um pouco!): porque a minhoca est sempre escavando o subsolo

e relacionando tneis, antes que a superfcie seja atingida. Quer dizer, no se contente

com as solues meramente visveis, faa esforo de ir s razes dos problemas, de

atingir uma lgica complexa e dialogal.

1 Doutor em Teologia. Professor e Pesquisador na UNICAP, onde trabalha no Programa de Ps-

graduao em Cincias da Religio. E-mail: gilbraz@unicap.br

mailto:gilbraz@unicap.br

O que eu vou falar agora vai nessa mesma linha, de situar um problema (nossa Igreja

catlica se esqueceu do Esprito e sua teologia perdeu em espiritualidade) e apontar uma

plataforma lgica (uma abordagem integral da realidade) pra gente comear a enfrentar

o desafio de relacionar as coisas. O nimo para tal empreitada vem da definio paulina

da vida crist: viver e andar segundo o Esprito. E Esprito no calmaria mas vendaval,

o mistrio presente em tudo e que tudo move para recriar vida, o vento forte que

desestrutura e cria o novo. Segundo o captulo 8 da Carta aos Romanos, verdadeiro

tratado de espiritualidade, o ser humano carnal aquele que est orientado em corpo e

alma morte, e o ser humano espiritual aquele que est orientado em corpo e alma

para a vida. O ser humano espiritual no aquele que busca a Deus afastado de sua

realidade, mas o que experimenta o divino na construo da vida e se une ao

transformadora do Esprito de Cristo no mundo.

De como nos perdemos do Esprito

Pergunte, contudo, a um cristo, quem o seu Deus, e o smbolo bsico da nossa f, a

Trindade Santa, que ritualmente lembrada cada vez que algum se benze, logo

desaparece da mente: fala-se de Deus no abstrato, at recordado como Criador do

Mundo; ou ento sobre Jesus, esse judeu Nosso Senhor ao menos no seu nascimento e

no seu padecimento, quase que sem nenhuma referncia sua misso e ao seu

seguimento. Mas, ao menos do Cristo Redentor, as pessoas se lembram. Agora, sobre

o Esprito, nada se sabe dizer, alm de que uma pomba... No entra na Imagem de

Deus mesmo. O povo acha difcil falar sobre a Terceira Pessoa da Santssima Trindade.

Perdeu-se o elemento experiencial-afetivo e o gracioso-criativo em nossa reflexo

teolgica e o povo anda perdido na sua reflexo sobre o Esprito... Menos quando o

percebe, s vezes, como doador da vida. Parece at que, feito o do antigo Israel, nosso

povo continua reconhecendo em Deus um poder do cu (vento ou fogo), absoluto e

livre, que insufla a Vida. Mas da a relacion-lo com o Criador e com o Redentor do

cristianismo... Da a relacion-lo com a criao material e a nossa ressurreio... Da a

traz-lo para a nossa vida de Igreja...

Mas no se deveria falar do Criador, sem ligao direta com o Esprito. Deus criou e

cria! cuida! gratuitamente o mundo para o seu amor, as criaturas todas existem e agem

possibilitadas por Deus. A ao humana, que organiza cultura para defender e criar vida,

, portanto, mediao para a ao de Deus, de sorte que as culturas todas devem ser

tomadas como locais da fala de Deus, dos sinais dos tempos, da atuao do Esprito

Santo. Por mais desfigurada que esteja, toda cultura tem a ver com o desejo de Deus,

deve-se considerar nela uma Palavra de Deus e algum nvel de f, de abertura

espiritual para a transcendncia. Tambm no se deveria tratar de Cristo, Filho de

Deus, sem relacion-lo com o Esprito Santo: so as duas mos do Pai. Se por um

lado a Sabedoria do Esprito a Palavra do Filho, da qual sempre se dispe a recordar

(cf. Jo 14, 26), a vitalidade do Filho a Liberdade e o Impulso do Esprito, com que

estabelece os desejos do Pai (cf. Jo 6,63). Mas quem que fala do Esprito? E como

que se fala de espiritualidade?

Nem se deveria tratar de Igreja sem relacion-la com o Esprito Santo: normalmente

pensamos na Igreja como uma mistura de poderes divinos (apresentados como

prolongamentos diretos imutveis dos poderes do Cristo) e de pecados ou de

fraquezas humanas dos seus ministros. Mas a Igreja feita por humanos mesmo o

Povo de Deus e por isso diferente do Cristo ao qual est unida pela fora e ao do

Esprito, que convoca esse novo Corpo de Cristo. De forma que os ministrios,

catequeses e liturgias da Igreja no derivam diretamente do Cristo e podem e devem

sempre se transformar, de modo a melhor sacramentalizar a misso do Esprito no

mundo. Devemos perceber, ao mesmo tempo, que a Igreja humana, no apenas em

suas fraquezas, mas, antes de tudo, nas foras humanas com as quais o Esprito vai

justamente encarnando o Governo de Deus na histria e na sociedade. Os nossos corpos

- e a nossa ao no mundo - no devem ser encarados como lama passageira: somos

templos do Esprito. Apesar de todas as fraquezas, podemos expressar o Esprito,

tomando conscincia da sua ao em toda a matria que evolui e se torna relacional e

amorosa, e sendo consequentes com essa ao em nossos relacionamentos econmico-

polticos, ertico-pedaggicos, artstico-cientficos. Tudo isso espiritual quando feito

com amor. Toda bondade e toda beleza no mundo so expresses da vida que o Esprito

sopra, Reinado de Deus, em todo canto.

A referncia Igreja no Credo apostlico feita precisamente no captulo do Esprito

Santo: Crs no Esprito Santo, (presente) na santa Igreja para a ressurreio da carne?.

Vejam bem o que diz o credo: o Esprito existe, especialmente na Igreja e atravs dela,

para espiritualizar e ressuscitar a carne, o mundo, os nossos corpos. Ele no contra a

nossa humanidade e sim a favor da nossa divinizao. Mas quem que fala do Esprito

hoje? E para qu que se fala muitas vezes de espiritualidade? Quando se fala em

esprito entre ns a ideia de algo substancial, porm, invisvel, capaz de vida

prpria, em oposio matria e, portanto, ao corpo. Essa atitude (pseudo) teolgica

afeta a antropologia religiosa, visto que divide o ser humano, criado integralmente

imagem e semelhana de Deus, numa entidade dupla, composta de corpo e alma,

destinado a transcender o mundo material e, portanto, o corpo, na direo de um outro

mundo, puramente espiritual. Acredita-se que quando as pessoas morrem, o esprito

ou alma sai do corpo e fica vagando por a at encontrar o seu lugar, nem sempre

definitivo, na economia do mundo sobrenatural.

Quando se aplica a essa metafsica popular o conceito cristo de salvao, a mensagem

do evangelho fica reduzida ordem salva a tua alma. No entram a dimenso da

sociedade e da poltica. No existe geralmente em nossa mstica a percepo da unidade

entre a forma material do humano e o divino e espiritual hlito de vida. Mas as

Escrituras nos mostram a pessoa de Jesus, o Cristo, na mais plena humanidade. Sua

ressurreio no a sobrevivncia de um esprito ou de uma alma, mas a

ressurreio do corpo. Depois de ressuscitado, Jesus aparece sempre para comer e

passear: vejam os Evangelhos. E se os nossos corpos so para a ressurreio, deve haver

neles as marcas da alegria criada por Deus. Os frutos do Esprito Santo, inclusive, so

amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, mansido, autodomnio (Gl

5, 22-23), justia e verdade (Ef 5,9). Coisas mais telricas e animadas no pode

haver!

Mas a tradio teolgica da Igreja latina no faz muito bem essas relaes com o

Esprito. Quando dizemos tradio, estamos tratando na verdade da tendncia

predominante at o Vaticano II e que no , alis, a mais tradicional ou originria do

cristianismo: reflete a situao de insero da Igreja no mundo poltico do Imprio

Romano, desde o sculo IV, tendo se cristalizado muito mais tarde, graas a Gregrio

VII e sua luta para defender-se dos Prncipes, a partir do ano 1000. A que se passou

de uma Igreja-comunidade para uma Igreja identificada com a sociedade hierrquica e

fundamentada na sociedade perfeita dos religiosos. Em suas origens bblicas e

patrsticas, toda a Igreja que faz e celebra a eucaristia (sempre presidida por pastores

prprios) e a eucaristia que faz e constitui a Igreja. A partir do segundo milnio, a

eucaristia celebrada pelo clero, e este o que constitui realmente a Igreja: o povo

simples fregus nas suas freguesias. A Igreja, em lugar de ser o Corpo real de Cristo,

passou a ser o Corpo mstico de Cristo; enquanto que a eucaristia, em lugar de ser o

Corpo mstico de Cristo, passou a ser o Corpo real de Cristo.

Abandonou-se uma mentalidade na qual o simblico no se ope ao real, mas o

pressupe e o faz aflorar, por outra mais racionalista, onde smbolo oposto de

realidade e de verdade. Por isso, a eclesiologia simblica de comunho foi sendo

substituda por tratados apologticos para defender o poder papal e a estrutura da Igreja:

as comunidades no puderam mais eleger seus bispos e exercitar o consenso dos fiis na

recepo das normas. Foi o fim do pluralismo teolgico, litrgico e pastoral. O clero

separou-se dos leigos, separando-se depois das Igrejas orientais (no sculo XI) e das

Igrejas da Reforma (no sculo XVI). Ultimamente separou-se tambm do mundo

moderno, que se desenvolveu s margens e, muitas vezes, contra a Igreja. Por trs

desses dramas est o esquecimento do Esprito.

A divindade do Esprito, proclamada solenemente no I Conclio de Constantinopla

(381) - O Esprito Santo Senhor e vivificador, que procede do Pai e objeto da

mesma adorao e da mesma glria com o Pai e com o Filho - significa afirmar que a

Igreja tem um princpio vital divino, presente em todos os batizados, que so igualmente

sacerdotes, profetas e governadores mesmo contando com os ministros ordenados

para sua presidncia. Significa que vivemos todos, com nossos corpos, uma vida divina;

que participamos da prpria vida de Deus e da ressurreio de Jesus. esse Esprito que

produz a santidade dos mrtires, o ardor dos missionrios e o fervor dos msticos. esse

Esprito, Pai dos Pobres, que faz destes os primeiros destinatrios e evangelizadores

do Reino de Deus.

Mas no segundo milnio foi-se criando uma distncia entre a Igreja e o Esprito, entre a

prpria teologia e o Esprito: o mtodo teolgico da Lectio Divina, espiritual e

sapiencial, foi substitudo pelas Quaestiones e as Summae centradas na racionalidade

escolstica da f. Os profetas carismticos foram excludos pouco a pouco da direo

das comunidades. O prolongamento carismtico da revelao, atravs de novos escritos

revelados, foi reprimido j pela Carta de Pscoa (ano 367) do bispo Atansio. Os

diversos cargos carismticos foram institucionalizados: o exorcista passou a ser uma

ordem menor no caminho da ordenao sacerdotal, do mestre carismtico exigiu-se

primeiro ser sacerdote ordenado.

Percebemos ainda, todavia, a presena do Esprito, nos monges que fogem para o

deserto, no somente para lutar contra os demnios pessoais dos sete pecados, mas

tambm contra os demnios de uma sociedade que se denominou crist, e que no

entanto esqueceu a radicalidade evanglica, a tenso escatolgica na direo do Reino.

Os movimentos leigos e populares dos sculos XI ao XIII representam outro momento

proftico, crtico e pneumatolgico da Igreja medieval, que sobretudo em Joaquim de

Fiore ansiou pela era do Esprito, da Igreja fraternal e servidora. Na prpria conquista

das Amricas, contra a eclesiologia oficial, levantaram-se bispos (Las Casas, Toribio de

Mogrovejo, Juan del Valle...) e missionrios (os dominicanos de La Espaola, os

franciscanos do Mxico ou os jesutas das Redues) que se colocaram do lado dos

indgenas e perceberam a evangelizao na perspectiva dos cristos crucificados nas

ndias, vendo neles e nos negros os pobres de Jesus Cristo. Como deixar de perceber

tambm nas crticas dos irmos Protestantes e, antes, dos Ortodoxos, fortes lufadas do

Esprito que nos lembrava da primitiva vivncia do Senhor?!

E no devemos esquecer que o Esprito Santo concedeu s mulheres a despeito dos

limites paulinos: As mulheres se calem nas assembleias (1 Cor 14,34) uma

particular atuao na Igreja. Entre as grandes figuras profticas, encontram-se desde

Hildegarda de Bingen at Santa Teresa, passando por Catarina de Sena e Santa Isabel

mulheres, alis, que muitas vezes foram envolvidas em inquritos pelas autoridades

eclesisticas e que, nalguns casos, como Joana d'Arc, foram vtimas dos seus

perseguidores inquisitoriais. significativo que foi precisamente entre os evanglicos

quacres, que defendiam a liberdade incondicional do Esprito Santo contra toda forma

de institucionalizao, que eminentes mulheres assumiram a liderana contra a

escravatura, contra as prises e contra o patriarcalismo.

Acontece que agora tivemos, em 1964, o Conclio Vaticano II, que o ponto de partida

para um novo Pentecostes na vida da nossa Igreja Romana - com influncia em todo o

mundo ecumnico. O documento Lumen Gentium fez a Igreja olhar para si e se renovar,

enquanto Povo de Deus todo ministerial e em comunho, pela ao do Esprito. E

Gaudium et Spes apresentou uma Igreja que, com Esprito novo, dialoga com o mundo e

des...