QUESTAO AGRARIA EM CAMBURI: TERRITÓRIO, MODO .QUESTAO AGRARIA EM CAMBURI: ... no qual a sociedade

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Apresentao da temtica

ESTE TRABALHO um exerccio de compreenso da realidade queenvolve o homem, a natureza e a sociedade. Este exerccio no trazsoluo pronta, mas espera-se que contribua de alguma forma para oavano das discusses acerca do conflito enfrentado pelas P o p u l a e sTradicionais Camponesas, em cujos territrios foram criadasUnidades de Conservao Ambiental1, e que por isso sofrem umprocesso de expropriao de suas terras, territrio, modo de vida econseqentemente de sua cultura.

QUESTAO AGRARIA EM CAMBURI: TERRITRIO, MODO DE VIDA

E PROBLEMAS FUNDIRIOS

SIMONE REZENDE DA SILVA*

* Aluna do Programa de Ps Graduao em Geografia Humana da Universidade de So Paulo. rea deatuao em Geografia Agrria com nfase em Populaes Tradicionais. Avalizada para o Programa deBecas CLACSO-ASDI para investigadores jovenes pelo Centro de Estudos de Cultura Contempornea(CEDEC).

1 As Unidades de Conservao Ambiental fora do Brasil so denominadas de reas NaturaisProtegidas, sendo este termo definido pela Unio Internacional para Conservao da Natureza e dosRecursos Naturais (IUCN) como uma rea terrestre e/ou marinha dedicada especificamente a proteoe conservao da diversidade biolgica e dos recursos naturais e culturais associados, e a qual manejada por disposies legais e outros meios efetivos (IUCN, 1994).

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RURALIDADES LATINOAMERICANAS. IDENTIDADES Y LUCHAS SOCIALES

Camburi, um pequeno bairro rural do municpio de Ubatuba noEstado de So Paulo, apenas um exemplo de uma situao queacontece com freqncia no Brasil e em muitas outras partes domundo, que a expropriao das terras camponesas porespeculadores imobilirios ou pelo prprio Estado em processos queacontecem de diversas formas, sutis ou explcitas. Muitos exemplosdeste processo podem ser mencionados: a expulso de posseiros2 d esuas terras devido ao incentivo estatal s frentes de expanso degrandes projetos agropecurios na Amaznia brasileira; odeslocamento de populaes para construo de grandes obraspblicas, como hidreltricas ou rodovias; ou como no caso deCamburi, populaes que tiveram seus territrios transformados emUnidades de Conservao Ambiental, o que as deixa sempre naiminncia da expulso de suas terras e impedidas de manterem seumodo de vida tradicional, levando-as assim, a condenao aodesaparecimento cultural em longo prazo.

Este processo de expropriao devido a sua complexidade eextenso de suas conseqncias o eixo desta pesquisa. Ainvestigao abordou os fatores e agentes que levaram Camburi aatual situao de misria e abandono, assim como as formas com asquais seus moradores se articulam para reverter tal situao.

Desta forma, o entendimento de como aes e agentes externosao bairro, passaram a interferir no modo de vida3 de seus moradores,enfocando principalmente os problemas fundirios decorrentesdestas interferncias e conseqentes transformaes foi um percursonecessrio. Pois, mesmo tendo sofrido expropriao material esimblica de suas terras, ainda h no imaginrio dessa populao, nofato de sentirem-se daquele lugar, uma intrnseca relao com a terrae com o territrio4 que o bairro ocupa para alm dos limites fsicos.

Embora a populao de Camburi tenha um modo de vidadiferenciado em relao sociedade urbana industrial, revelado emseu modo de relacionarem-se socialmente, comercialmente, derelacionarem-se com a natureza e de produzirem, esta populao

2 Diz-se posseiro o indivduo que ocupa uma rea, mas no tem ttulo de propriedade, ou seja, ele tema posse de fato, mas no a posse jurdica.3 Segundo Diegues (1996) trata-se da maneira como determinada sociedade reproduz-se socialmente,como se relaciona interna e externamente, como produz seu sustento, como festeja e cria e mantmmitos e rituais, tudo dentro de sua cultura.4 O conceito de territrio adotado neste trabalho apresentado por Claude Raffestin Por umageografia do Poder, So Paulo: tica,1993.

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mesmo marginalmente parte integrante desta sociedade mais ampla,denominada por Diegues (1994) como sociedade dominante urbana-industrial. Por esta razo, nesta pesquisa, Camburi foi visto como umbairro rural e seu habitante, o caiara5 como um campons, e quecomo tal deve ser entendido luz dos acontecimentos da sociedadedominante, pois a partir das demandas desta sociedade que osproblemas passam a ocorrer em suas reas marginais, como Camburi.

Desta forma, para entender os problemas enfrentados por estapopulao tradicional camponesa necessrio partir do processohistrico, no qual a sociedade (a sociedade urbano-industrial) v-seseparada da natureza, ela a usa indiscriminadamente, pois esta nadamais do que recurso natural disponvel para seu bem estar.

Entretanto, num segundo momento, esta mesma sociedade, naiminncia da escassez dos recursos naturais e sob a tenso de ummodo de vida estressante, por ela mesma adotado, cria para seuusufruto reas de natureza intocada, as chamadas Unidades deConservao ambiental. Muitas vezes ignorando que essas reas jeram habitadas por outras populaes, as quais em nenhummomento foram informadas, muito menos consultadas acerca do queaconteceria em seus territrios.

No Brasil a maioria das Unidades de Conservao Ambientalforam criadas de modo autoritrio, ou seja, sem os devidos estudosfsico-naturais e principalmente sem estudos sociais e humanos,acarretando assim problemas de sobreposio de territrios. Este ocaso de Camburi, onde foi imposto o territrio de uma Unidade deConservao sobre o territrio de uma comunidade tradicional.

O trecho no qual encontra-se o bairro de Camburi foiincorporado ao Parque Estadual da Serra do Mar6 em 1979 sob adesignao de Ncleo Picinguaba. Este Ncleo deveria ter sido umaexceo a regra, pois seus propositores sabiam da existncia daspopulaes tradicionais que ali habitavam e inclusive as usaram comoargumento para criao da Unidade de Conservao. Eles acreditavamque as chamadas comunidades caiaras deveriam ser preservadasdevido ao seu relacionamento harmnico com a natureza. Alm disso,

5 Caiara uma expresso regional de campesinato. Designa o morador tradicional do litoral paulista.6 O Parque Estadual da Serra do Mar uma grande Unidade de Conservao Ambiental que recobre osremanescentes de Mata Atlntica do Estado de So Paulo. Ele foi criado em 1977 e hoje tem cerca de310.000 ha divididos em 14 Ncleos administrativos, Picinguaba uma desses ncleos que ocompem.

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acreditava-se que a criao de uma Unidade de Conservao poria umfreio especulao imobiliria que ocorria na regio.

Estas comunidades no foram consultadas acerca destapreservao, que na verdade foi um congelamento da paisagem notempo, mas sem garantias de permanncia na terra. Por esta razo osmoradores de Camburi vivem com medo de que de repente sejamobrigados a sarem de suas terras. Embora realmente a especulaoimobiliria tenha sido freada os problemas fundirios j existentesno foram resolvidos at hoje.

Assim, aes como a do ITESP (Instituto de Terras do Estado deSo Paulo), que realizou um levantamento fundirio no bairro,causou a princpio, verdadeiro pnico e indignao nos moradores deCamburi. Na ocasio, eles tiveram que provar legalmente que asterras ocupadas por suas famlias h 200 anos eram realmente suas.

Esta situao propiciou um incio de reorganizaocomunitria em torno da Associao de Moradores de Camburi.Propiciou tambm que uma parte dos moradores, principalmentedescendentes de negros, requeressem o reconhecimento das terras dobairro como remanescente de quilombo7, o que segundo aConstituio do Brasil, garante o direito de permanncia nas terrascom seu pleno usufruto. Trata-se ento de um importante movimento,o qual foi monitorado ao longo desta pesquisa, pois representa atentativa dos caiaras de Camburi de fazerem com que o Estado queoutrora lhes imps uma instituio restritiva e destruidora de seumodo de vida, agora autorize a implantao de uma outra que oslibere para o desenvolvimento de sua cultura.

Populaes tradicionais

A expresso populaes tradicionais passou a ser difundida,principalmente durante a dcada de 90. Ela inspira-se em uma outra,indigenous people, forjada durante os anos 60 e 70 nos Encontrosinternacionais para discusses ambientais promovidos pela IUCN(Unio Internacional para Conservao da Natureza e dos Recursos

7 Quilombos so as reas nas quais escravos fugidos instalavam-se, geralmente em regies isoladasde difcil acesso, onde estavam a salvo dos castigos do cativeiro e onde formavam aglomeradoshumanos, verdadeiras vilas. Hoje ainda existem comunidades que permanecem nestas reas chamadasde remanescentes de quilombos, cujos habitantes so descendentes dos primeiros escravos e sochamados de quilombolas.

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Naturais), designando populaes etnicamente distintas, desde entopassou a ser amplamente usado pelo senso comum, designando vriaspopulaes genericamente e de forma ambgua no discursoambientalista. At mesmo a Justia/Poder Pblico tem usado estaexpresso sem o devido rigor.

No caso brasileiro, pode-se afirmar que as populaestradicionais no se constituem apenas de grupos tnicos (indgenaspor exemplo). No Brasil, populaes tradicionais, como categoria daantropologia, so includas entre as chamadas sociedades rsticas,fazendo parte da sociedade dominante, embora muitas vezes de formamarginalizada. Designa, portanto, populaes de pequenospescadores, pequenos agricultores, ribeirinhos, pantaneiros,extrativistas, caipiras, caiaras, que utilizam em suas atividades dereproduo de seu modo vida, recursos da natureza, sem impactodestrutivo por deterem um conhecimento etnoecolgico desta e pordependerem da continuidade dos recursos, seja prtica ousimbolicamente para a manuteno de suas vidas.

As populaes caiaras so populaes tradicionais, pode-sedizer inclusive que so camponeses, um