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RÁDIO ALTERNATIVA 100% MANDACARU: UMA EXPERIÊNCIA DE ALTERIDADE EM COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA GT8: Comunicação Popular, Comunitária e Cidadania Dérika Correia Virgulino de Medeiros 1 Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ Resumo Este artigo se debruça sobre a possibilidade de pensar a comunicação comunitária sob o aspecto mais amplo, e como um projeto de transformação da realidade social. Para tanto, partimos da perspectiva de que o alcance dessa proposta passa necessariamente pela problematização acerca das noções de comunidade que vem sendo reduzida à marca de uma idealização e que serve muito mais como um plano de controle dos indivíduos. Assim, a proposta é refletir sobre a necessidade de “abrir” as concepções de comunidade para a experiência dos indivíduos, e como esta noção pode contribuir para uma comunicação comunitária ampla e que tenha como centralidade as relações humanas. Foi utilizada como método de análise a realidade concreta do Bairro de Mandacaru, João Pessoa, Paraíba, a partir da observação da prática da comunicação comunitária da rádio Alternativa 100% Mandacaru, presente naquele bairro. 1 Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro / ECO-Pós – UFRJ. [email protected]

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RDIO ALTERNATIVA 100% MANDACARU: UMA EXPERINCIA DE ALTERIDADE EM COMUNICAO COMUNITRIA

GT8: Comunicao Popular, Comunitria e Cidadania

Drika Correia Virgulino de Medeiros1

Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ

Resumo Este artigo se debrua sobre a possibilidade de pensar a comunicao

comunitria sob o aspecto mais amplo, e como um projeto de transformao da

realidade social. Para tanto, partimos da perspectiva de que o alcance dessa

proposta passa necessariamente pela problematizao acerca das noes de

comunidade que vem sendo reduzida marca de uma idealizao e que serve

muito mais como um plano de controle dos indivduos. Assim, a proposta refletir

sobre a necessidade de abrir as concepes de comunidade para a experincia

dos indivduos, e como esta noo pode contribuir para uma comunicao

comunitria ampla e que tenha como centralidade as relaes humanas. Foi

utilizada como mtodo de anlise a realidade concreta do Bairro de Mandacaru,

Joo Pessoa, Paraba, a partir da observao da prtica da comunicao

comunitria da rdio Alternativa 100% Mandacaru, presente naquele bairro.

1Doutoranda pelo Programa de Ps-Graduao em Comunicao e Cultura da Escola de Comunicao da Universidade Federal do Rio de Janeiro / ECO-Ps UFRJ. [email protected]

Introduo

O grande avano das tecnologias da informao associada s estruturas de poder

e mercado, vem promovendo na atual realidade social um intenso processo de

midiatizao denominado pelo pesquisador Muniz Sodr por Bios miditica ou

virtual. So essas, novas formas de vida moldadas pela espetacularizao da

sociedade a partir do uso de estratgias sensveis com o objetivo de no s afetar,

mas construir novas formas de subjetivao e, sobretudo, apaziguar as tenses

sociais e comunitrias.

Isto insere a contemporaneidade numa poca em que o plano sensvel vem

ocupando o todo social exercendo com supremacia o poder de controle dos

corpos e dos grupos sociais. A aliana entre mdia e as instituies de controle se

estabelece na construo de um projeto de cultura que est alicerada muito mais

sob uma dimenso que podemos chamar de emocional, do que com base em

uma racionalidade.

A grande mdia se especializa a cada dia na criao de um espectador dcil e

vido pelo consumo. A identificao que os indivduos tm com o forte de fluxo de

imagens que lhes so apresentados os aproxima de um contexto de consumo

desenfreado medida que os afasta de sua prpria subjetividade. So por esses

termos que o pesquisador Eugnio Bucci (2004) afirma que o gestor do

espetculo o subconsciente (p.54).

O mtodo sensvel consiste assim em um projeto poltico mercadolgico que corta

transversalmente a realidade social atingindo diretamente as formas de relao e

organizao dos indivduos. As estratgias so muitas e passam pelo mbito do

marketing e da propaganda poltica, mas tambm servem como recurso da grande

mdia para atrair o telespectador apelando sensibilizao dos fatos sociais. De

modo geral, o que vem ocorrendo a forte circulao de sensaes e emoes

solicitada pelo capitalismo para a produo do consumo.

No entanto, por outro lado, foi esse mesmo contexto profundamente midiatizado e

imerso em uma realidade informacional e imagtica que trouxe tona a

perspectiva sensvel para o centro das questes sociais, como forma de

compreenso e possibilidade de mudana dessa mesma realidade. Para Muniz

(2006), trata-se de reconhecer a potncia emancipatria contida na iluso, na

emoo do riso e no sentimento da ironia, mas tambm na imaginao (p.38).

A potncia emancipatria contida no plano sensvel inclui necessariamente a

comunicao como aspecto fundamental no projeto de elevar aquele a um

patamar para alm das estratgias de poder, a partir do momento que esta

comunicao tambm afetada por uma dimenso sensvel, podendo passar,

assim, a ser entendida de forma menos mercadolgica e mais ampla. Este ltimo

sentido designa uma comunicao mais humana que tem em sua centralidade e

fundamento as relaes entre os indivduos, o que requer por sua vez, uma

vinculao comunitria, no sentido de que pressupe um processo que envolve

jogo de acordos entre os indivduos.

So por esses termos que a ideia de comunidade se apresenta como aspecto

constituinte das noes de comunicao, ou antes, a comunidade enquanto ideia

originaria da diferenciao e da aproximao, a questo subsumida no conceito

de comunicao (SODR, 2006, p. 93). O que d margem a uma ideia de

coletividade, de um voltar-se em direo ao outro.

Comunidade aqui, entretanto, no se refere a um mero estar junto, mas sim a uma

vinculao, a um deixar-se vincular. Se a lgica comumente associada ideia de

comunidade se refere a um compartilhamento de uma substncia em comum,

para a perspectiva da comunicao, nos termos levantados ao longo deste artigo,

vale mais a concepo da partilha de uma relao da qual subsiste um eterno

movimento de constituio e reconstituio da vida em comum, isto , de um

movimento de mudana to presente nos processos que envolvem o campo

comunicacional profundamente enraizado na sociedade.

A compreenso de uma comunidade destituda de uma substncia vem sendo

defendida por autores denominados comunitaristas, a respeito, por exemplo, do

filsofo Jean-Luc Nancy. Para este, os indivduos so sem essncia, ou seja, no

h uma substncia que os preceda. E em cima disso que criamos nossa

existncia. Isso significa dizer que como no h uma propriedade para

compartilhar, os indivduos dividem o que Nancy chama de nada-em-comum.

nesse sentido que comunidade no deve ser entendida como algo definido,

encerrado, uma ideia ou uma propriedade, pois ela antes um nada que, para

existir, s em uma relao, em um puro devir.

Em suma, esta comunidade pensada por Nancy uma comunidade para a

abertura, entendida enquanto experincia de vida, sem predeterminao, sem

nada que a defina e que a confine dentro de uma identidade, de uma ideia. ,

portanto, uma comunidade que deve existir sem um propsito definido, como um

evento.

A ideia de relao j podia ser encontrada nas pesquisas de Ciro Marcondes Filho

(2010) nos estudos do campo comunicacional. Para o autor, a comunicao deve

ser entendida como um acontecimento em que dois participam e extrai da algo

novo, que no existia em nenhum deles, que altera o estatuto de ambos fazendo

surgir uma terceira coisa que no existia antes. ento que resulta o processo de

relao, ou seja, na possibilidade de um algo que vem, de um novo, de algo que

est predisposto a sempre mudar.

Para tanto consiste nessa perspectiva a proposta deste artigo, isto , a

compreenso de uma comunicao de base comunitria, que possui em sua

centralidade o contexto de vida dos indivduos, seus modos de ser, de

organizao e suas formas de relao com o outro. Assim sendo, pretendemos

trazer o debate acerca da realidade concreta com seus modos enunciativos, ou

seja, os processos comunicacionais que no s a atravessa, mas organiza suas

maneiras de organizao coletivas.

Por esses termos, foi na comunicao comunitria que encontramos uma maior

possibilidade de exercitar essa nova forma de pensar a comunicao. A

aproximao que aquela estabelece com as formas de organizao social em um

comum, e a centralidade que a relao entre os indivduos tm em suas

concepes e prtica, o que revela, por sua vez, uma comunicao mais orgnica

e menos tecnicista, parecem nos mostrar com maior clareza que os processos

comunicacionais podem ter como horizonte a busca por um ideal democrtico e de

transformao da sociedade como um todo.

Entretanto, a prpria noo de comunidade dentro dos conceitos da comunicao

comunitria ainda se mostra bastante conflitante, e representa o aspecto mais

caro para esta forma de comunicar. Ao longo dos anos, a pesquisa nesta rea

vem se utilizando de conceituaes mais clssicas sobre comunidade, partindo da

noo de um ambiente idealizado, onde no haveria a necessidade de construo

de consensos. Uma comunidade idlica, homognea, e que no corresponde ao

atual contexto social de convergncia tecnolgica e da forte imerso social nessa

arena virtualizada.

Com base nessa perspectiva grande parte das pesquisas em comunicao

comunitria ainda no vem conseguindo ultrapassar a busca por uma

autenticidade do meio comunitrio, ancorada em regras estanques de como

devem ser esses veculos, deixando de lado as especificidades locais, com suas

demandas e interesses comuns. Isso acaba por provocar pouca correspondncia

entre os meios e as realidades cada vez mais complexas e plurais, alm de

incorrer no risco de no servir como instrumento de luta para determinadas

localidades.

Assim, pretendemos com esse artigo investigar a realidade concreta e o sentido

comunitrio que nela se exprime, e as formas de comunicar que nela se realiza, o

que revela que o caminho terico proposto para esta anlise aproxima-se com a

filosofia comunitarista, isto , que toma a noo de comunidade sob a perspectiva

de algo que se realiza na experincia dos indivduos em um comum, e nas

prticas do seu cotidiano. Apesar de almejar com esse percurso por em destaque

a autonomia que a realidade tem sobre os conceitos, no possvel escapar de

perceber o profundo dilogo e atravessamento entre ambos. Sendo assim, o

percurso escolhido para esta investigao ser realizado com base na intercesso

entre essas duas dimenses.

Para tanto, objeto de estudo a comunidade do Bairro de Mandacaru, Joo

Pessoa, Paraba, e o veculo de comunicao de maior notoriedade no bairro: a

rdio poste Alternativa 100% Mandacaru. A escolha desta localidade se deu

devido importncia histrica que o bairro tem para a capital paraibana, sobretudo

por ser um dos mais antigos da cidade, mas, especialmente, pelas tenses e

conflitos existentes entre a representao do bairro por parte da grande mdia e a

ideia que os moradores fazem de si mesmos, alm da necessidade de investigar o

papel do meio comunitrio na prpria caracterizao do bairro.

Mandacaru: um espinho no corao da cidade

O bairro de Mandacaru se espraia bem ao centro da cidade de Joo Pessoa,

prximo ao setor comercial e das principais vias que compem a malha urbana,

sendo assim, uma rea considerada pelos moradores como sendo bem

localizada no contexto do municpio. No entanto, apesar da sua localizao,

Mandacaru comporta caractersticas de um bairro perifrico por seu carter

profundamente marginalizado, e por estar presente nas estatsticas de segurana,

e na grande mdia, como sendo um ambiente violento e, portanto, a ser evitado.

O fato de estar numa rea com boa localizao indica que Mandacaru est

prximo de outros locais com condies socioeconmicas diferentes, como o

caso do bairro dos Estados que faz fronteira direta com aquele. A presena desse

bairro, considerado nobre na realidade pessoense, faz de Mandacaru uma

localidade repartida em termos estruturais e econmicos, isto , nas proximidades

com esse vizinho, possvel ver um Bairro mais prspero e dinmico

comercialmente. medida que se afasta, isto , que se entra no Bairro, como

distinguem os prprios moradores, a primeira vista j se torna perceptvel a

diferena em termos de condies estruturais. As ruas no so asfaltadas, e as

casas apresentam-se mais modestas.

Essa regio mais baixa de Mandacaru subdivide-se em pequenas localidades

denominadas de comunidades. A precariedade nas condies e vida dos

moradores, que convivem diariamente com a quase inexistncia de infraestrutura,

o que condiciona a caracterizao em comunidades que j somam nove ao todo:

Cinco Bocas, Baixada, Alto do Cu, Beira da Linha, Porto Joo Tota, Beira

Molhada, Jardim Coqueiral, Jardim Esther e Jardim Mangueira.

Esta a ambincia de onde partimos para tentar compreender as relaes sociais

estabelecidas em torno de algumas definies caras a contemporaneidade, a

propsito da noo de comunidade. Partir da percepo das prticas humanas e

de seu entendimento quanto constituio de uma realidade comunitria, foi a

escolha que fizemos para no perdermos de vista a profunda insero que esta

noo ainda tem no contexto de vida dos indivduos, apesar de ser um conceito

profundamente ambguo e tomado por uma urea sensvel que, nas palavras da

pesquisadora Raquel Paiva pode estar querendo dizer coisa alguma ou

simplesmente pretender definir o etreo, um sentimento responsvel por algo puro

e aglutinador 2.

A prpria ideia de comunidade presente no imaginrio dos moradores ainda

bastante contaminada pela noo que vem sendo constantemente divulgada pela

grande mdia, na qual agrega sentidos que parecem divergirem, mas que juntos

servem a um nico propsito: o controle social dos indivduos. medida que

veiculada a representao de um lugar pobre e com altos ndices de violncia,

essa mesma comunidade vem sendo tomada sob o aspecto de que so ambientes

harmnicos, onde os indivduos compartilham de uma vida pacfica.

A primeira concepo responde ao interesse de pr os indivduos que dividem

uma mesma realidade em posies divergentes com o intuito de segrega-los e

dispers-los, enfraquecendo, portanto, as organizaes coletivas por interesses

comuns. Essa ideia vendida por meio da concepo de que s entram para a

criminalidade aqueles que escolheram o caminho mais fcil, e no o caminho

rduo, mas honesto, do esforo prprio.

2 Ver PAIVA, Raquel. O esprito comum: comunidade, mdia e globalismo. Rio de Janeiro, Mauad, 2003, pg. 65.

Com base na segunda noo se pretende afirmar que em um ambiente de paz

no h a necessidade de conflitos, condio primordial para a gerao da

mudana social. Exaltando o aspecto sentimental do noticirio e apelando para o

sentido pacfico dos grupos sociais, a grande mdia atrelada s instituies de

poder, eliminam as contradies internas dos grupos, excluem a existncia de

classes sociais antagnicas, criando um quadro harmnico em que as pessoas

de paz no devem rebelar-se, mas sim, conquistar as transformaes esperadas

por meio de muito esforo.

No por outro motivo que as concepes de comunidade apropriadas pela mdia,

que diz respeito ao aspecto mais clssico do termo, isto , de essencializao,

vem assumindo a posio antes ocupada pelas classes sociais. Isso significa dizer

que parece no mais haver diviso de classes antagnicas, mas apenas a

existncia de comunidades com suas caractersticas harmnicas e consensuais.

A ideia de um ambiente essencializado ganha ancoragem na sociologia mais

clssica, especialmente no pensamento de Ferdinand Tnnies para quem

comunidade era um ambiente onde reinava a paz entre os indivduos.

Representava uma existncia idealizada em que os aspectos fundamentais para a

realizao de uma vida em comunidade era a vontade comum e o reconhecimento

do direito natural, ou seja, que se baseia no fundamento de igualdade entre os

humanos, na lngua e no estado de harmonia (PERUZZO, 2002).

No caso do bairro de Mandacaru a imagem que se sobressai na grande mdia, e

at mesmo entre aqueles que no convivem com a realidade do bairro, e que se

encontram profundamente contagiados por essa concepo da violncia. Essa

preconcepo sobre a localidade a oprime e tem fora de afastar seus indivduos

de viverem a cidade e at mesmo de participarem democraticamente das decises

polticas. Entretanto, para quem vive no bairro de Mandacaru a realidade que eles

dividem entre si apresenta formas de ser bastante diferentes, contradizendo quilo

que se tem por um bairro violento. Na concepo da maioria dos moradores o que

se destaca como sendo a principal caracterstica do bairro de Mandacaru

justamente a forte vinculao entre os indivduos, a solidariedade das pessoas, a

amizade nas relaes e a unio em momentos decisivos em prol da coletividade.

Para Ivonete Machado, de 75 anos, moradora do bairro, o que melhor caracteriza

Mandacaru a boa relao entre os moradores:

O melhor no bairro so as pessoas, que se relacionam muito

bem, so amigas e muito unidas para tudo o que houver. E

isso o que me faz sentir mais falta de morar aqui, pois onde

eu moro agora no tem isso. No tem a convivncia como

tem aqui [sic].

medida que o bairro de Mandacaru vem sendo reduzido margem de uma

determinada identidade, que o segrega e o diferencia de outras localidades do

municpio, parece fortalecer a identificao dos moradores com outros aspectos

diretamente opostos a esta identidade imposta, apesar de ser ainda considervel

o nmero de residentes que se dizem envergonhada em morar no bairro de

Mandacaru devido imagem negativa atribuda a ele.

O que torna essa percepo importante para a nosso artigo o fato de que os

indivduos vm construindo uma forma de resistncia a esta condio imposta

com base no fortalecimento das relaes. O que os moradores buscam uma

organicidade que se afasta de um processo de formao de uma identidade, e se

aproxima, por outro lado, de uma identificao pelo Outro que se encontra sob a

mesma condio de vida.

O filsofo Giorgio Agambem, citado por Tarizzo (2007), j defendia que a

comunidade da identificao remete a uma existncia que estaria associada uma

vida que acontece, isto , ligada percepo de que est em constante mudana.

O prprio uso do termo remete a um sentido de algo que se move, e que pode ser

relacionado experincia de vida dos indivduos em um comum, e do novo que

da poder surgir.

Agambem revela ainda a direta associao entre comunidade, entendida como

identidade, e as estratgias de legitimao do poder do Estado. Parece ser mais

fcil, em termos de controle social, manter o indivduo distante de viver sua prpria

singularidade e faz-los crer que pertencem a um conjunto de contornos imveis,

passveis de serem manipulados.

Assim, identidade parece requerer uma espcie de substancializao de uma

dada localidade sob a marca de uma concepo que homogeneza, enquanto que,

por outro lado, a ideia de uma identificao implica antes em uma alteridade, onde

as relaes livres e abertas entre os indivduos so o que a define. Na realidade

do bairro de Mandacaru possvel perceber que aqueles que o entendem sob a

marca de uma determinada identidade e que, devido a isso, o rejeita como um

lugar bom para se viver so os que mais se imunizam diante das formas

agregadoras e organizativas da comunidade e da construo do que chamamos

por vinculao comunitria.

Para ser motivada ao, a comunidade precisa obedecer no a uma ideia, mas

sim a sua prpria lgica, ou seja, em como se estabelecem suas relaes e

formas de organizao, e seus interesses e demandas. A reivindicao por uma

identidade parece unir as pessoas por um ente externo a elas, uma propriedade

que paira sobre ela, mas no a toca, e no na relao dos prprios indivduos em

suas singularidades. nesse sentido que defendemos que a potncia para a ao

poltica s pode existir em um ambiente sem essncia, sem substncia. E vale

ressaltar ainda que quando nos referimos a uma singularidade, no queremos

defender uma espcie de individualismo, mas sim uma totalidade de

possibilidades que das suas relaes podem surgir.

Comunidade como identidade, portanto, representa o contrrio da ao, pois

indica um destino acabado, encerrado em si mesmo, o que leva, por sua vez,

imanncia e a sua morte. Isso revela que no h possibilidade, dentro desse

contexto, de exercer o ato criativo e a ao poltica dentro de uma realidade

imvel, enrijecida.

Alm disso, quando a prpria comunidade arrebata por uma ideia de identidade,

a relao com o outro, ou seja, com o que diferente dele costuma ser de

hostilidade, e sob esse mesmo aspecto a viso do outro pode recair sobre aquele.

o que parece ocorrer na relao com o bairro mais prximo, o bairro dos

Estados. As tenses existentes entre ambos se estabelecem costumeiramente na

ordem de um plano identitrio. E esta perspectiva parece provocar muito mais um

afastamento e diferenciao deste outro, do que um processo que envolva

incluso e aproximao.

Com base, sobretudo, em diferenas de classes, os bairros foram sendo inseridos

numa ideia de identidade que parece restringir suas relaes. Em muitos

momentos da anlise ficou perceptvel o desejo de manter certo distanciamento

entre as localidades. Ou seja, cada um na sua, como diz seu Lus, de 60 anos,

morador do bairro de Mandacaru h 20, sobre como se d a relao entre as duas

localidades.

Esse aspecto colabora ainda com a viso do outro como um grupo minoritrio,

mesmo que esse esteja dividindo uma mesma realidade. o que acontece nas

relaes com os moradores das reas consideradas mais violentas de Mandacaru,

em que muitos residentes procuram o distanciamento daquela como se l no

existissem singularidades e pluralidade.

A violncia est concentrada mais pra l pra baixo e no

chega at a gente no, que fica nessa parte aqui de cima.

Ento o bairro violento para quem violento. Para um

pequeno grupo de pessoas que se metem com esse tipo de

coisa, no todo mundo no, mas esse povo de l [sic].3

Rdio Alternativa 100% Mandacaru

O reflexo desses conflitos e tenses se faz presente nos modos enunciativos da

realidade de Mandacaru. Os veculos comunitrios existentes representam um dos

principais fatores de organizao da comunidade, interligando os moradores em

um comum, e na construo e fortalecimento das relaes entre aqueles.

A rdio comunitria Alternativa 100% Mandacaru funciona com base no sistema

de transmisso a cabo presente nos postes de eletricidade da via pblica, e

popularmente denominada por Rdio Poste. O veculo existe h mais de oito anos,

e divide o espao do bairro com mais duas outras rdios poste de cunho

comunitrio, a E.C. Som Mandacaru e a Rdio evanglica do Irmo Lucas. No

entanto, apesar de estarem no mesmo bairro, inexiste qualquer interligao entre

elas, no sentido de um trabalho em conjunto pelo interesse coletivo. A falta de

contato entre as trs rdios se deve, sobretudo, pela localizao que cada uma

tem dentro do bairro. As divises de desnveis de Mandacaru faz com que este

seja considerado com base nessas divises, isto , medida que se desce no 3 Fala de Severino, 39 anos, que vive no bairro desde que nasceu, referindo-se as localidades do bairro denominadas de comunidades, reas mais pobres de Mandacaru.

bairro, mais baixa tambm a condio de vida dos moradores. E as rdios que

se encontram cada uma em um nvel, adotam em suas produes o carter

simblico-estrutural dessas localidades.

Por se localizar na parte intermediria do bairro, a rdio Alternativa 100%

Mandacaru, reflete uma realidade mais estratificada em termos socioeconmicos e

nesse sentido pode-se afirmar que tambm mais plural. A representatividade e

participao dos indivduos se do em um estgio mais avanado, sobretudo pela

forte ligao que a rdio possui com o conselho deliberativo e organizativo dos

moradores, a Associao de Moradores do Bairro de Mandacaru. O veculo

funciona como instrumento de contato entre os moradores e como extenso do

trabalho da Associao que exerce, por sua vez, a atividade de intermediao

entre a comunidade e o poder pblico. Apesar de ser ligada a Associao, quem

gerencia a rdio apenas uma nica pessoa: o comunicador Paulo Srgio, que se

divide entre o trabalho da rdio e o de guarda civil.

Apesar de existir uma programao j estabelecida com programas que vo da

divulgao de msicas at a leitura crtica do noticirio local, especialmente

quando esta se refere realidade do bairro, o ponto alto do contedo da rdio e o

que representa uma das principais condies para a designao do veculo como

sendo de carter comunitrio, sobretudo, pelos prprios moradores, a

participao da populao, apesar de indireta, na programao da rdio. Isso

significa que esta a prioridade do contedo programtico da rdio, podendo

assim ser toda modificada em funo da participao.

A participao representa o principal pilar do horizonte que se busca para a

comunicao comunitria. No entanto, importante destacar que na realidade

brasileira em que, como afirma a pesquisadora Ceclia Peruzzo (1995) citada por

Nunes (2007), no h tradio participativa nos processos decisrios da

sociedade, aliados questo da reproduo de valores autoritrios, carncia de

conscincia poltica (p. 97), ainda difcil a realizao de uma participao plena,

isto , o envolvimento dos indivduos em todas as etapas do processo de

produo de um veculo. Entretanto, mesmo a participao indireta, no caso da

rdio Alternativa 100% Mandacaru, vem colaborando com a aproximao dos

indivduos com seu lugar social-histrico, e os motivando luta por interesses

coletivos.

Participar fundamental para a democratizao dos meios de comunicao, mas

tambm, e especialmente, como um processo educativo, pois ele capacita os

indivduos para o exerccio da cidadania. Para Peruzzo (2007),

as pessoas envolvidas em tais processos desenvolvem o seu

conhecimento e mudam o seu modo de ver e relacionar-se

com a sociedade e com o prprio sistema dos meios de

comunicao de massa. Apropriam-se das tcnicas e de

instrumentos tecnolgicos de comunicao adquirem uma

viso mais crtica, tanto pelas informaes que recebem

quanto pelo que aprendem atravs da vivncia, da prpria

prtica (p.22).

Para tanto, apesar de no ser uma ampla participao, as formas de interao que

a rdio vem construindo promove aquilo que consideramos como sendo primordial

para o veculo comunitrio: a vinculao entre os indivduos e com as causas que

dizem respeito sua prpria condio de vida. Ela tem um forte papel na

organizao dos moradores para a motivao poltica. E essa condio parece se

constitui, no caso do veculo em questo, muito mais pela forma como o meio

estabelece o contato entre e com os indivduos, do que necessariamente pelo

contedo produzido.

E por forma ns entendemos o modo como o meio se dirige aos moradores, isto ,

as estratgias que podemos chamar de estticas, que envolvem, por exemplo, o

uso de linguagens; de determinados termos; ou ainda de smbolos e outros

elementos como a msica para atrair os indivduos para uma maior aproximao

com o veculo e com uma possibilidade de insero em um projeto poltico. A

empatia entre o pblico e a rdio tende a ser conquistada quando o discurso vem

ligado esttica.

E aqui estamos considerando por esttica as estratgias sensveis que afetam

diretamente o plano emocional dos indivduos e que ultrapassam a dimenso do

discurso. A forma pode inclusive ultrapassar as barreiras dos discursos por ele

mesmo, muitas vezes, marcado por uma ideologia. Como defende Deleuze

(2008), as ideologias podem se tornar sistemas fechados quando sua

determinao aprisionada a compreenso da realidade com suas singularidades.

Assim, a importncia da forma como uma perspectiva poltica ultrapassa os modos

enunciativos. Isso significa que aquela diz respeito muito mais a abertura de

possibilidades de contato e interao entre os indivduos do que s formas do

discurso. antes a construo de uma aproximao entre os indivduos que

permite a afetao pela condio do outro, que se encontra em situao

semelhante a sua. A partir disso, a rdio pode criar uma relao mais intensa com

e entre os indivduos ao coloc-lo em um comum. o que vem ocorrendo com a

emissora Alternativa 100% Mandacaru. Mesmo no tendo como maior

preocupao a participao mais ativa da populao na produo e gerncia da

rdio nem uma programao que melhor represente esses indivduos, aquela vem

contribuindo para a construo de uma vida baseada muito mais na relao do

que numa representao.

A perspectiva da forma est em direta sintonia com a noo de limite proposto por

Agambem para quem limite a forma da coisa, porm aquela no pertenceria

coisa em si, mas sim a coisa que pertenceria ao limite, ou seja, o limite que vai

defini-la tal qual (TARIZZO, 2007, p. 55). Isso significa que o limite que

identifica a coisa em sua pura existncia. O caminho dessa reflexo nos leva a

pensar que o limite seria, portanto, o no ter lugar na coisa, mas na sua periferia,

no espao entre a coisa e ela mesma 4.

mais uma forma vazia que pode ser a essncia dela mesma do que um

ambiente cheio de uma substncia que a defina dentro de uma representao.

Pode ser entendida ainda como o contato entre um limite e outro dos indivduos

singulares, vivendo em relao, em um comum, conforme a perspectiva

comunitarista de que os indivduos seriam sem essncia.

So por esses termos que podemos inferir comunidade como sendo este limite,

isto , um nada-em-comum. Esta noo impe ainda uma caracterstica mais

dinmica para as concepes da comunidade, pois retira a noo de que

comunidade seria um ambiente enrijecido por uma substncia que a preenche em

seu todo, dando lugar ao ter-lugar da existncia, ou seja, ao acontecer imprevisto

da relao. E no h como pensar na ao poltica, to prpria dos meios

comunitrios, sem ser em um ambiente que possibilite o ato criativo, que permita o

novo.

Como afirma Tarizzo (2007), admitir a comunidade como sendo o limite,

compreend-la como irrepresentvel, isto , sem uma identidade. Essa percepo

de comunidade deve estar contida na concepo sobre a comunicao

4 AGAMBEM, G. A comunidade que vem. Lisboa: 1993, p. 45.

comunitria principalmente por ela ser um dos mais importantes instrumentos

organizadores dos modos de ser das comunidades com o objetivo de torn-la

mais flexvel quanto as especificidades das localidades onde ela se desenvolve, e

possa ampliar, dessa forma seu escopo de atuao ao permitir o contato com

esses outro.

Dentro dessa perspectiva outros elementos provenientes de uma concepo mais

clssica sobre comunidade e que ainda norteiam as definies, e at seu

entendimento na prtica, da comunicao comunitria tornam-se problemticos,

especialmente frente a uma realidade em profunda transformao. So elas as

noes de identidade, pertencimento, vnculo e restrio de pblico.

As noes sobre identidade, como j viemos discutindo ao longo deste artigo, nos

remete ao olhar de uma propriedade que confina os indivduos que no podem

viver uma existncia cosmopolita que, como afirma Bauman (2003) se resguarda

de todas as condies de trocar de identidade quando lhes convier, a viver sob a

marca de um determinado sentido da qual eles normalmente se ressentem. A

identidade fecha a comunidade para o diverso, para outro, para a mudana, por

isso que por esses termos, ela estaria fadada sua prpria morte.

Portanto, no quesito identidade o que queremos propor exatamente um

distanciamento dele, isto , partimos do pressuposto de que para a construo de

um comum, com base na abertura para a relao, s em um ambiente

reconhecido em sua singularidade. O que significa dizer que os moradores de

Mandacaru desejam antes afastar-se dessa perspectiva identitria, perder uma

identidade.

H muito exagero quando se fala na violncia em

Mandacaru. At tem jornalista que fica zombando e fica

dizendo que no mais Mandacaru, mas sim Mata-

Mandacaru, e fica tripudiando. E Mandacaru tem muitas

coisas boas. [...] Mas a mdia s mostra a violncia porque

o que d ibope. Coisas boas no mostram. S vem a

imprensa pra c quando coisa negativa. E eu no assisto

nenhum, porque eu no concordo com isso no. E a gente

mostra o outro lado do bairro, que todos ns vivemos aqui, e

que outra coisa [sic]5.

E justamente em referncia a esta designao de comunidade que tambm

consideramos a noo de pertencimento problemtica para o entendimento de

uma comunicao comunitria mais prxima do que seria um conceito atualizado.

Para Peruzzo (2003) algumas caractersticas de comunidade quem tm perdurado

ao longo dos anos so: o sentimento de pertena; participao; interao,

objetivos comuns; interesses coletivos acima dos individuais; identidades;

cooperao; confiana, cultura em comum etc. (p.6).

Apesar de admitir que as mudanas ocorridas nos conceitos de comunidade so

cruciais para o entendimento de uma comunicao comunitria mais adequada

nossa atual realidade, a respeito, por exemplo, das noes de territorialidade,

Peruzzo defende o resgate de alguns pressupostos mais clssicos acerca de

comunidade para se pensar esta forma de comunicar que esto ainda muito

ligados a possibilidade de fortalecimento de uma ideia de identidade, do que com

a possibilidade de rompimento daquela, como estamos sustentando ao longo

deste texto.

5 Reclama Paulo Srgio, gerente da rdio Alternativa 100% Mandacaru.

A ideia de pertencimento est diretamente associada perspectiva de identidade

no sentido de que ela pressupe, em certa medida, certa substancialidade e

representao, ou seja, a condio de que pertencimento requer algo a que

pertencer. Tal concepo afasta-se, assim, da proposta que defendemos de uma

comunidade inessencial e, sobretudo, irrepresentvel.

Antes de construir sentimentos de pertencimento, consideramos que a

comunicao seja antes capaz de por os indivduos em uma condio de

coexistncia, o que implicaria em uma comunicao pensada com base na

abertura para a relao entre os indivduos em suas singularidades, postos sobre

uma nada. A ideia de coexistir significa a possibilidade de os indivduos

compartilharem de uma mesma realidade, se reunir pelo mesmo limite, mas no

se dilurem nele. Como afirma o filsofo Jean-Luc Nancy citado por Tarizzo (2007)

a coexistncia pressupe no um ser-comum, mas o ser-em-comum.

Seguindo por essa mesma linha de raciocnio, cabe aqui um olhar mais reflexivo

tambm sobre a noo de vnculo. Consideramos este quesito de difcil

compreenso no sentido de que ele parece ser uma condio intrnseca nas

relaes humanas, e envolve aspectos afetivos difceis de serem medidos e

enquadrados. Portanto, para dentro das concepes de uma comunicao mais

aberta s demandas e especificidades sociais, a ideia de vnculo parece ganhar

muito mais sentido quando compreendida como vinculao. Esta nos remete

muito mais a uma perspectiva de movimento, de um dever ser das relaes, do

que a noo de vnculo que parece menos mvel, pois a prpria palavra j traz em

si o sentido de corrente, de algo faz permanecer.

No caso da rdio Alternativa 100% Mandacaru a noo de abertura nas relaes

comunitrias, parece fazer muito sentido quando uma de suas principais metas

buscar no submeter a localidade dentro de um nico sentido, presa a um

discurso de identidade. A rdio vem colaborando, portanto, para a construo de

uma ideia de comunidade que se entenda para alm de suas prprias fronteiras, o

que pressupe, por sua vez, uma comunicao que no se pretende restrita, isto

, presa em suas prprias fronteiras.

Pensar comunicao comunitria com base em um sentido de comunidade

destituda de uma ideia de identidade, sem uma predefinio, sem um contedo

que a enrijea, parece ampliar o escopo de atuao daquela em direo a um

diverso. Extrapola os limites de uma fronteira determinada por uma substncia.

So por esses termos que podemos afirmar que comunidade deve servir

comunicao comunitria no para limit-la como vem sendo entendida ao longo

dos anos, e em grande parte dos estudos da rea, mas antes, como o contrrio.

O que a rdio Alternativa 100% Mandacaru, apesar de no entrar em contato at

mesmo com as rdios que dividem a mesma realidade que ela, ampliar a

visibilidade da produo do veculo, p-la em dilogo com outras realidades para

serem ouvidos e reconhecidos em suas necessidades. A rdio busca maior

ampliao de um projeto comunitrio pela interao que estabelece com os

indivduos e o incentivo a um processo vinculativo a partir da negao de uma

identidade. Afinal, comunidade no so apenas assuntos locais6. Alm disso, a

presena da rdio no ambiente do ciberespao, isto , nas redes sociais, se

justifica com base nessa mesma lgica.

A entrada da comunicao comunitria no ciberespao lana suas possibilidades

em direo a um projeto de atuao poltica mais ampla, no sentido de permitir

exatamente isso que estamos sustentando: o contato, a troca de conhecimento e

a formao de alianas entre localidades distintas, favorecendo, dessa forma,

6 EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. So Paulo, 2011.

possibilidades mais amplas de organizao e atuao poltica. Isso tem a fora de

capacitar a comunicao comunitria para a construo de um ambiente de

mudana social mais amplo e radical.

De modo geral, o que parece pretender esta rdio o reconhecimento dos

indivduos enquanto indivduos, ou seja, em suas diferenas e semelhanas. De

serem reconhecidos enquanto tais, e tambm em suas necessidades. O que se

busca, ento, um caminho que os leve ao encontro de uma humanidade.

Apontamentos finais

O caminho percorrido por este artigo revelou a importncia para a comunicao

comunitria da anlise da realidade concreta, com o intuito de desmistificar a

perspectiva de autenticidade e enquadramento daquela, que vem restringindo sua

atuao, e entende-la mais sob o aspecto das demandas e especificidades locais.

E pensar em um ideal de comunicao comunitria abafar a existncia plural e

conflitiva de cada contexto. pensar que esta comunicao se realizaria em uma

ideia de comunidade homognea, sem contradies e com pouca sintonia com a

realidade contempornea. Assim, percebeu-se que com base em uma noo de

comunidade mais aberta as experincias cotidianas dos indivduos, sem o estigma

da substancializao, que contribui para a concepo e prtica de uma

comunicao comunitria destituda de regras estanques e de um ideal que

parece difcil de ser alcanado.

Conceber comunidade livre de uma idealizao, de qualquer definio que a

qualifique e a imponha um destino acabado, encerrado em si mesmo, oferece a

chance para que a comunicao comunitria seja pensada para alm de suas

prprias fronteiras e seja de se inserir em um projeto mais amplo de

transformao social.

Entretanto, cabe aqui neste momento do trabalho enfatizar que ns no

pretendemos encerrar o debate nem rechaar anos de pesquisa na rea da

comunicao comunitria. Porm, as rpidas transformaes sociais fortemente

guiadas pelo aceleramento das inovaes tecnolgicas e grande insero na

realidade dos indivduos, nos fez perceber a necessidade de problematizar em

que sentido as noes basilares da comunicao comunitria a respeito das

ideias de comunidade e identidade so pertinentes a esta comunicao e seu

alcance na construo da uma nova perspectiva comunicacional e social.

Considerando ainda que partimos de uma realidade concreta, no foi nossa

inteno criar modelos de compreenso da comunicao, mas antes o contrrio:

mostrar que muitas regras prontas do que seria esta forma de comunicar, no se

encaixavam na atual realidade, e que para a pesquisa neste campo, cabe,

necessariamente, o estudo das formas de ser e organizaes sociais.

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