Rádio e educação - ?· Não tem remédio Não tem remédio Não tem remédio não [...]” Aos professores…

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Rdio e educao: de ouvintes a falantes, processos miditicos com crianas. Autor:

Josemir Almeida Barros

Orientadora:

Dr. Rita Marisa Ribes Pereira

Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 2008

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Centro de Educao e Humanidades Faculdade de Educao

Josemir Almeida Barros

RDIO E EDUCAO: DE OUVINTES A FALANTES, PROCESSOS

MIDITICOS COM CRIANAS

Rio de Janeiro

2008

Josemir Almeida Barros

RDIO E EDUCAO: DE OUVINTES A FALANTES, PROCESSOS

MIDITICOS COM CRIANAS

Dissertao apresentada como requisito parcial para obteno do ttulo de Mestre, ao Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Orientadora: Prof. Dr. Rita Marisa Ribes Pereira

Rio de Janeiro

2008

CATALOGAO NA FONTE UERJ / REDE SIRIUS / BIBLIOTECA CEH/A

Autorizo, apenas para fins acadmicos e cientficos, a reproduo total ou parcial desta tese. ___________________________________________ _______________ Assinatura Data

B277 Barros, Josemir Almeida Rdio e educao: de ouvintes a falantes, processos

miditicos com crianas / Josemir Almeida Barros - 2008.

152 f. Orientadora: Rita Marisa Ribes Pereira. Dissertao (Mestrado) Universidade do Estado do

Rio de Janeiro. Faculdade de Educao. 1. Radio na educao Teses. 2 .Rdio e crianas

Teses. I. Pereira, Rita Marisa Ribes. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Educao. III. Ttulo.

CDU 371.684

Josemir Almeida Barros

Rdio e educao: de ouvintes a falantes,

processos miditicos com crianas

Dissertao apresentada como requisito parcial para obteno do ttulo de Mestre, ao Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Aprovada em: 18 de dezembro de 2008.

Banca examinadora:

____________________________________________ Prof. Dr. Rita Marisa Ribes Pereira (Orientadora) Faculdade de Educao da UERJ

_____________________________________________ Prof. Dr. Guaracira Gouva de Sousa Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

_____________________________________________ Prof. Dr. Mailsa Carla Pinto Passos Faculdade de Educao da UERJ

Rio de Janeiro

2008

Agradecimentos Escute essa cano

Que pr tocar no rdio No rdio do seu corao [...]

Professora Rita Ribes, por partilhar comigo seus saberes, pela orientao, pelo apoio, pela

pacincia, pelos passeios e por ter possibilitado percorrer novos caminhos... pr tocar no

rdio... Voc me sintoniza E a gente ento se liga Nessa estao [...] Aos componentes da banca examinadora Mailsa Carla Passos, Guaracira Gouva, Paulo

Sgarbi e Marisol Barenco de Mello pelos cuidados e sugestes... E a gente ento se liga...

Aos professores do Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade do Estado do

Rio de Janeiro ProPEd/UERJ pelos ensinamentos... Vocs me sintonizam... Aumenta o seu volume

Que o cime No tem remdio No tem remdio

No tem remdio no [...] Aos professores da FaE/UEMG, colegas viajantes do Mestrado do ProPEd/UERJ que

transitaram de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro em uma travessia corajosa e que em muitos

momentos aumentaram o volume do rdio para no dormir... Aumenta o seu volume... Deixa eu penetrar Na tua onda Deixa eu me deitar Na tua praia Que nesse vai e vem Nesse vai e vem Que a gente se d bem Que a gente se atrapalha [...] Aos amigos e amigas do Grupo de Pesquisa Infncia, Mdia e Educao (GPIME) do

ProPEd/UERJ pelas discusses, pelos ensinamentos e pelas parcerias... Nesse vai e vem...

E a gente ento se liga Nessa estao [...]

Aos amigos Marco Aurlio Martins, Edison Gomes e Alecir Carvalho por sempre estarem

ligados... Nessa estao... Se ligar o rdio por acaso E de repente ouvir a minha voz No mude a estao [...] Aos companheiros e companheiras do NEPEJA/PRONERA da FaE/UEMG pelas muitas conversas que no foram por acaso, reforma agrria na educao e tambm no ar... No mude a estao...

s crianas, jovens e adultos assentados e acampados em projetos de reforma agrria nas

muitas Minas Gerais, as muitas vozes do campo... E de repente ouvir a minha voz... No desligue o rdio [...]

professora Eneida Maria Chaves e toda equipe da direo e coordenao da FaE/UEMG

pelos esforos conjuntos... E agente ento se liga...

Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), pelo auxlio

financeiro concedido para a realizao do Mestrado... Se ligar o rdio por acaso... No desligue o rdio, escute essa cano a nica maneira que achei para chegar At seu corao [...] Aos grandes parceiros e amigos de estao do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte: Z Zuca,

Mariano, Badalo, Dbora, Camila, Mariana, Fernanda, Ana Cristina, Elias, Ceres, Esperana,

e em especial, crianada do Colgio onde se desenvolveu a pesquisa exploratria: A

Radionovela vai escola, alm das crianas que escutaram e participaram dos programas

Rdio Maluca, da Rdio Nacional AM RJ / Rdio MEC AM, e Universidade das Crianas da

Rdio UFMG Educativa... No desligue o rdio, escute essa cano...

Escute o corao de quem te ama Eu tenho tanta coisa pra dizer

E gostaria que chegasse at voc Por isso eu lhe peo por favor

No desligue o rdio [...] Mirtes das Graas Almeida Barros, que no mais est presente fisicamente, mas que no

desligou o rdio... Eu tenho tanta coisa pra dizer... E agora assim aqui pr ns Pelo meu nome no me chama Voc quem conhece mais A voz do homem Que te ama [...] Aos familiares que me ajudaram e sempre torceram pelo encontro desta sintonia... Voc

quem conhece mais...

Aos meus amores, minha esposa Elaine, meu filho talo e minha afilhada Karine que, apesar

das ausncias, sempre escutaram, mesmo que de longe, a voz do homem que tanto os ama... A

voz do homem...

Msica Sintonia

De Moraes Moreira

RESUMO

BARROS, Josemir Almeida. Rdio e educao: de ouvintes a falantes, processos miditicos com crianas. 2008. 152 f. Dissertao (Mestrado em Educao) Faculdade de Educao, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.

O presente estudo trata dos processos de produo de mensagens radiofnicas para o

pblico infantil. O objetivo geral da pesquisa analisar o processo comunicativo da

radiodifuso e sua especificidade de interlocuo com o pblico infantil. No que se refere

pesquisa de campo, este estudo desdobrou-se em dois momentos. Um primeiro exploratrio,

mais voltado recepo, dedicou-se observar a audincia infantil mdia radiofnica. O

segundo momento, mais voltado produo, dedicou-se observar dois programas

radiofnicos, um, que tem por pblico alvo as crianas; outro, que alm de dirigir-se s

crianas, tambm produzido com elas. Analisou-se dois programas radiofnicos: o Rdio

Maluca, da Rdio Nacional AM RJ em parceria com a Rdio MEC AM e o Universidade das

Crianas, da Rdio UFMG Educativa. Dentre os autores que fundamentam este estudo

destacam-se Bakhtin (2003), Benjamin (1994), Buckingham (2000), Freire (2002), Brecht

(2005), Thompson (2002), Amorim (2004) e Ferraretto (2007).

Palavras chave: Infncia. Rdio. Cultura.

ABSTRACT

The present study deals with the radio messages production processes for children.

The main intention of the research is to analyze the commuicative process of the broadcast

and its especificity of interlocution with the infantile audience. As for the field research, this

study was unfolded in two moments. The first one exploratory, turned to the reception,

undertook the task of observing the infantile audience to the radio broadcast. The second one

with the attention to the production, observed two radio programs, one, having the childdren

as the audience, and another one, which besides of being addressed to the children, is also

made with their participation. Two radio programs were analyzed: the Crazy Radio, the

National Radio AM RJ in partnership with Radio MEC AM and Childrens University the

Educational Radio UFMG. Among The authors who give support to this study we can

highlight Bakhtin (2003), Benjamin (1994), Buckingham (2000), Freire (2002), Brecht

(2005), Thompson (2002), Amorim (2004) e Ferraretto (2007).

Key words: Childhood. Radio. Culture.

SUMRIO INTRODUO ...................................................................................................................... 11

CAPTULO 1 REFLEXES SOBRE COMUNICAO. ............................................. 16

1.1 Comunicao e radiodifuso .................................................................................... 16

1.2 A radiodifuso no Brasil: aspectos histricos e polticos ....................................... 24

CAPTULO 2 RADIODIFUSO E AUDINCIA INFANTIL ...................................... 35

2.1 Radiodifuso e cultura de massas: uma produo para todos. ......................... 35

2.2 As crianas com audincia endereada: o pioneirismo de Bertold Brecht e de

Walter Benjamin ................................................................................................................ 43

CAPTULO 3 - REFLEXES SOBRE A INFNCIA E PESQUISA COM CRIANAS

.................................................................................................................................................. 52

3.1 Aspectos conceituais .................................................................................................. 52

3.2 Infncia e mdias ........................................................................................................ 58

3.3 Pesquisa com as crianas: dialogismo e alteridade ................................................ 62

3.3.1 Dialogando com as crianas sobre a radiodifuso: os conceitos desta pesquisa .. 66

3.3.2. Algumas perspectivas metodolgicas no/do contexto infantil ............................ 73

3.3.3 As crianas e as mdias: uma perspectiva exploratria ........................................ 75

CAPTULO 4 PROGRAMA RADIOFNICOS PARA CRIANAS ........................... 82

4.1 Radiodifuso e infncia: duas histrias ................................................................... 82

4.2 Infncia e linguagens negociadas ............................................................................. 87

4.3 O programa Rdio Maluca da Rdio Nacional AM RJ / Rdio MEC AM ......... 93

4.3.1 Bia Bedran no corao e na cuca ...................................................................... 97

4.3.2 O dia internacional da criana no rdio e na TV O mundo que queremos .. 100

4.3.3 Festa da cultura popular .................................................................................. 105

4.3.4 Brincadeira vitamina: remdio para meninos e meninas ............................. 109

4.3.5 A poesia e a prosa do mestre Rosa .................................................................. 112

4.4 O programa Universidade das Crianas da Rdio UFMG Educativa ............... 116

4.4.1 Por que no nascemos sabendo? ..................................................................... 129

4.4.2 Por que suamos muito? ................................................................................... 131

10

4.4.3 Por que precisa fazer sexo para ter filhos? ...................................................... 136

4.4.4 Quantas minhocas temos no crebro? ............................................................. 137

4.4.5 Por onde os vrus entram em nosso corpo? ..................................................... 139

4.5 Alguns dilogos sobre os programas Rdio Maluca e Universidade das Crianas

............................................................................................................................................ 142

CONCLUSES ..................................................................................................................... 146

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ............................................................................... 149

Um homem que tem algo a dizer e no encontra ouvintes est em m situao. Mas pior

ainda esto os ouvintes que no encontram quem tenha algo a dizer-lhes.

( Bertold Brecht)

11

INTRODUO

Considerando que o rdio um dos veculos de comunicao mais popular e com maior

penetrao nos lares brasileiros, tornaram-se interesse de nossa investigao as possveis

contribuies de processos de radiodifuso como espao miditico educativo.

As mensagens da radiodifuso vm ganhando maior credibilidade como mediadoras do

processo educacional, at mesmo fora do ambiente escolar convencional. Acreditamos que

isso pode demonstrar a importncia dessa mdia para diversas comunidades, tanto as urbanas

quanto as rurais.

A crescente busca dos referenciais de uma educao que estabelea a inter-relao entre as

mdias de forma significativa, tanto para os alunos quanto para os prprios professores que

atuam em escolas nas sries iniciais de alfabetizao e escolarizao pode ser verificada

atualmente em vrios espaos educativos como, por exemplo, a prpria escola.

As informaes circulantes pelos meios de comunicao de massa e, em especfico, pelo rdio

podem apresentar algum tipo de sentido para as crianas, no processo de ensino e

aprendizagem. Algumas prticas pedaggicas, entretanto, podem demonstrar que, estando

basicamente vinculadas cultura da escrita, impedem a constituio ou a ampliao de redes

de sentidos e significados que se estabelecem no convvio dirio dos sujeitos com as diversas

mdias da contemporaneidade, dificultando, assim, dilogos com os sons resultantes dos

processos da radiodifuso.

Dois acontecimentos no final do sculo XX conduziram a uma nova era de globalizao ou seja, uma era de contatos e interaes intensas entre as sociedades de todo mundo. O acontecimento mais bvio, com impacto direto nas crianas e na juventude, foi tecnolgico: a TV por satlite facilitou a comunicao global, incluindo redes como MTV, cruciais na divulgao de pelo menos uma verso da cultura jovem internacional; em 1990, a introduo da internet, um meio sem precedentes de contato entre jovens de sociedades to distantes como Estados Unidos e Ir. O segundo acontecimento foi poltico: a deciso primeiro da China, depois da Rssia, de abrir novos tipos de contatos internacionais. (STEARNS, 2006, p. 183)

As mudanas e impactos advindos da era da globalizao so questionveis, mas

mencionamos apenas os avanos das tecnologias miditicas. As prticas pedaggicas que no

perpassam diferentes linguagens, como a TV, a internet e o rdio, podem caminhar em

12

processo inverso ao que poderia proporcionar desenvolvimento sociocultural com maiores

significados para as crianas. Acreditamos que os saberes propagados pelos meios de

comunicao (TV, internet e rdio) possam se inter-relacionar, de forma transdisciplinar, com

os discursos dos mais variados campos.

Prticas escolares enfocadas na radiodifuso podem trazer novas perspectivas para a

construo de sentidos que tambm perpassam pelas questes educacionais, miditicas,

culturais e cotidianas que viabilizem o melhor entendimento e amplitude da cidadania, do

direito de ter direitos. Diante dessa multiplicidade de reas do conhecimento em face da

diversidade de linhas tericas no interior de cada rea, percebemos, ento, que a infncia um

campo temtico de natureza interdisciplinar. (KRAMER, 2007, p. 25). Reforamos, assim, a

importncia de estudos e pesquisas sobre as interfaces da educao com as mdias.

Pensando sobre a influncia das mdias e, em especfico, da radiodifuso em relao s

crianas, percebemos que o objeto de pesquisa aqui mencionado: Rdio e educao: de

ouvintes a falantes, processos miditicos com crianas, est imerso em um contexto histrico-

social caracterizado por uma viso adultocntrica do mundo, pela qual o adulto pouco escuta

ou participa das construes de sentidos das crianas. Vincula-se esse possvel desprezo das

produes culturais das crianas pequenas hegemonia de uma cultura ainda baseada na

escrita. Nesse contexto as falas ou vozes podem expressar parte dos conhecimentos e saberes,

mas com pouco prestgio no mundo dos adultos. Desta forma, buscar uma interlocuo com

as crianas um dos desafios desta pesquisa.

O prprio fato de que todo objeto de pesquisa um objeto construdo e no imediatamente dado, j implica um trabalho de negociao com os graus de alteridade que podem suportar a pesquisa e o pesquisador. O desejo de alteridade enquanto motor da pesquisa em Cincias Humanas no primrio, inanalisvel. Ao contrrio, pode-se perfeitamente suspeitar dele, seja atravs de anlises ideolgicas, sociolgicas ou histricas, seja atravs da psicanlise. (AMORIM, 2004, p. 29-30)

na construo e reconstruo dos sentidos que as falas e/ou vozes das crianas vo se

constituindo enquanto parte integrante de um contexto formado por adultos e crianas, isso

quando h o reconhecimento de que no apenas os adultos so produtores de conhecimentos,

mas de que as crianas alm de receptoras de mensagens, tambm apresentam, atravs de suas

falas e/ou vozes, o que pensam, os sentidos e entendimentos que carregam, e a sua concepo

de mundo. Porm suas falas/vozes s podem apresentar sentidos na medida em que os outros,

13

ou seja, os adultos se tornaram interlocutores. Como nos fala Bakhtin, o sentido depende do

outro.

O sentido potencialmente infinito, mas pode atualizar-se somente em contato com outro sentido (do outro), ainda que seja com uma pergunta do discurso interior do sujeito da compreenso. Ele deve sempre contatar com outro sentido para revelar os novos elementos da sua perenidade (com a palavra revela os seus significados somente no contexto). Um sentido atual no pertence a um (s) sentido mas to-somente a dois sentidos que se encontraram e se contactaram. No pode haver sentido em si ele s existe para outro sentido, isto , s existe com ele. (BAKHTIN, 2003, p. 382)

Entender os sentidos e significados que o outro estabelece nas inter-relaes dos processos

miditicos torna-se relevante na contemporaneidade.

Enquanto integrante do Grupo de Pesquisa: Infncia, Mdia e Educao (GPIME),

coordenado pela Professora Rita Marisa Ribes Pereira, que tem como foco a infncia, mdia e

educao: as crianas e as telenovelas, percebemos a imensa penetrao da televiso e do

rdio no cotidiano das crianas e os desdobramento disso no processo de ensino e

aprendizagem, uma vez que a possvel espetacularizao das notcias e dos programas em

geral (destinadas no apenas ao pblico infantil) segue uma lgica pautada no mercado

capitalista, ou seja, no consumismo.

Programas radiofnicos destinados s crianas podem ser mais do que sons, permitindo uma

interao social dos sujeitos envolvidos tanto no processo de produo, quanto no de

envio/transmisso e recepo, explicitando dilogos e constituindo redes de sentidos que

impulsionam o gosto pelo ouvir e pelo imaginar atravs dos buraquinhos do rdio.

Este desejo de pesquisar processos de radiodifuso est vinculado nossa prpria infncia,

quando o rdio de casa era ligado no perodo da manh e desligado no perodo da noite

quando a telenovela comeava. A estao sempre era a mesma, uma emissora de Belo

Horizonte que ainda existe e que traz pelas ondas do ar os primeiros acontecimentos do dia

e segue com uma grade de programao diversificada.

De l para c, enquanto professor da educao bsica e superior, pude acompanhar alguns

estgios de alunos(as) do curso de pedagogia da FaE/UEMG e seus desdobramentos sobre as

msicas/programas que a meninada mais gostava de escutar/acompanhar pelos buraquinhos

14

do rdio. Alm disso, tambm acompanhei algumas indagaes de alunos das sries iniciais

da educao bsica sobre os sons que eram propagados pela Rdio Corneta1 no bairro onde

atuava como professor de Histria. Tudo isso me despertou mais interesse por este tema, pois,

no primeiro caso, quando acompanhava os estagirios do curso de pedagogia da FaE/UEMG

em uma escola, percebi que ao chegar a hora do recreio, as crianas corriam de um canto a

outro procura do melhor lugar para a sintonia do rdio, ou seja, para escutar as

msicas/programas de uma rdio comunitria da localidade; j no segundo caso, na escola que

atuava enquanto professor de Histria da Educao Bsica, verifiquei que os moradores

fechavam as portas e janelas das casas para evitar a entrada dos sons que eram propagados do

alto da torre da igreja Rdio Corneta.

Algumas questes balizam esta pesquisa. Assim mencionamos as seguintes: o rdio faz parte

do cotidiano das crianas? Existem programas de rdio para crianas? Como so os

programas de rdio voltados para crianas? O que nos dizem os programas radiofnicos

destinados ao pblico infantil? Que relaes haveria entre os processos de produo e

recepo de mensagens radiofnicas com as prticas escolares?

O objetivo geral da pesquisa analisar o processo comunicativo da radiodifuso, suas

implicaes e interfaces com as possveis prticas escolares de crianas da Educao Bsica.

No que se refere pesquisa de campo, este estudo desdobrou-se em dois momentos. Um

primeiro mais voltado a recepo, dedicou-se observar a audincia infantil mdia

radiofnica. Esse estudo foi realizado com um grupo de crianas pr-escolares de uma escola

particular de Belo Horizonte, onde foram realizadas oficinas de mdia entre elas a oficina A

radionovela vai escola.

Parte da pesquisa foi exploratria e possibilitou a reconstruo de possveis dados como

subsdios para o melhor entendimento tanto do objeto de pesquisa quanto das questes j

mencionadas. As anlises foram feitas a partir dos materiais produzidos pelas prprias

crianas, como desenhos e textos, utilizamos tambm fotos e as falas/vozes das mesmas no

processo de desenvolvimento da pesquisa.

1 Rdio montada com a utilizao de equipamentos bsicos, como alto-falantes que so instalados em locais altos e funcionam como transmissores. Neste caso os alto-falantes foram instalados no alto de uma igreja catlica.

15

O segundo momento, mais voltado a produo, dedicou-se observar dois programas

radiofnicos, um, que tem por pblico alvo as crianas; outro, que alm de dirigir-se s

crianas, tambm produzido com elas. Um, conhecido, como Rdio Maluca, um programa

de auditrio que veiculado tanto pela Rdio Nacional AM RJ quanto pela Rdio MEC AM,

aos sbados pela manh, e outro que a Universidade das Crianas, programa de perguntas e

respostas que transmitido pela Rdio UFMG Educativa todas as manhs, de segunda a sexta

em Belo Horizonte.

Algumas crianas que participaram da oficina A radionovela vai escola, como, tambm,

de atividades vinculas ao processo de radiodifuso da Rdio Maluca e Universidade das

Crianas, foram entrevistadas, bem como os integrantes responsveis pelas produes

culturais dessas mdias. A pesquisa de campo teve incio em Fevereiro de 2007 e se estendeu

at Julho de 2008.

Nesta pesquisa, procuramos tecer comentrios que pudessem perpassar por questes prprias

das mdias e em especfico sobre o rdio, como tambm alguns aspectos sobre a educao. No

primeiro captulo, apresentamos a comunicao e suas interfaces com a educao, alm de um

breve panorama histrico sobre a radiodifuso no Brasil. No segundo captulo, discutimos

sobre a cultura de massas abordando a radiodifuso, tratamos tambm de questes tericas

sobre a mdia radiofnica. No terceiro captulo, estabelecemos conceitos sobre a perspectiva

da infncia e alguns princpios da escolha metodolgica da pesquisa que realizamos. No

captulo quatro, trazemos a linguagem radiofnica enquanto uma negociao entre ouvintes e

falantes. Em seguida abordamos as duas experincias do trabalho de campo; programas

radiofnicos destinados s crianas, um no Rio de Janeiro e o outro em Belo Horizonte. Na

seqncia exemplificamos e analisamos os processos de produo dos dois programas

radiofnicos em relao ao pblico infantil. Entre as concluses apresentamos algumas

reflexes sobre os programas radiofnicos destinados as crianas.

16

CAPTULO 1 REFLEXES SOBRE COMUNICAO.

1.1 Comunicao e radiodifuso A comunicao pode ser caracterizada como um tipo de atividade social que permite tanto a

criao dos bens simblicos como a sua transmisso e recepo (THOMPSON, 2002, p. 25).

Processos vinculados comunicao na contemporaneidade produzem bens materiais e

simblicos. Acreditamos que processos comunicativos interferem nas relaes sociais na

medida em que produzem bens simblicos em determinados contextos. Isso faz com que haja

um permanente repensar sobre tais processos e seja reconfigurado constantemente o campo da

comunicao.

Entendemos que os meios de comunicao passam por mudanas constantes, principalmente

em seu aspecto tcnico, pois, em um mundo imerso em novas tecnologias, em novas

descobertas, h contnuos avanos que perpassam o campo da comunicao e que se estendem

a outros campos como, por exemplo, a educao, pois muito do que sabemos sobre as

sociedades, o sabemos tambm pelos meios de comunicao, seja atravs das formas

impressas, sonoras e/ou virtuais entre outras.

Nesse contexto, a transmisso sem fio, auge da histria das comunicaes no sculo XIX, foi pensada simplesmente como um substituto para a telegrafia por fios, assim como os automveis, destaque mximo da histria dos transportes no mesmo sculo, foram imaginados como carruagem sem cavalos: somente pessoas que possussem carruagem poderiam desej-los. O que aconteceu foi que o rdio se tornou de uso prtico nos oceanos ou em grandes continentes com baixa densidade demogrfica. O fato de enviar mensagens, todas em Morse, que podiam ser captadas por pessoas a quem no eram dirigidas, foi julgado no uma vantagem, mas uma sria desvantagem. (BRIGGS e BURKE, 2004, p.159)

As mudanas tecnolgicas da radiotelegrafia passando pela telefonia e chegando ao rdio,

inicialmente atenderiam aos anseios militares, conforme aponta Briggs e Burke (2004). Os

autores afirmam que o modelo clssico de comunicao linear deveria ser destinado a

algumas pessoas e no ao contingente que habitava determinados espaos. A preocupao se

fazia necessria por se tratar de interesses de guerra, fins militares. De l para c, a

popularizao deste veculo de comunicao que o rdio ganhou novos significados.

Parece-nos impossvel a produo e a ampliao de conhecimentos sem a presena dos meios

de comunicao, sob suas variadas formas. Sob o conceito de meios de comunicao devem

17

ser compreendidas, de agora em diante, todas as instituies da sociedade que se servem de

meios tcnicos de reproduo para a difuso da comunicao. (LUHMANN, 2005, p. 16). A

divulgao de informaes e conhecimentos, aqui, se vincula ao conceito de meios de

comunicao, permitindo que haja uma troca de saberes entre sociedades em tempos e

espaos distintos. O autor ainda completa dizendo:

Consideram-se aqui, principalmente, livros, revistas, jornais produzidos de forma impressa, mas tambm processos de reproduo fotogrfica ou eletrnica de qualquer tipo, na medida em que fabriquem produtos em grande quantidade a um pblico indeterminado. Tambm a difuso de comunicao pelo rdio faz parte desse conceito, na medida em que for acessvel a todos e no sirva apenas para manter a conexo telefnica entre participantes individuais. (LUHMANN, 2005, p. 16)

A partir das consideraes de Luhmann (2005), podemos verificar que o conceito de

comunicao aqui formulado no est fechado, mas apresenta formas diversas de

atravessamentos em diversos suportes, seja o papel ou, at mesmo as ondas do rdio. De

alguma forma percebemos que os produtos simblicos passam a circular atravs deste

conceito de comunicao, no que em contextos diferentes no houvesse a circulao destes

bens. Mas no h como negar que, na contemporaneidade, o tempo de circulao diferente,

ou seja, h uma rapidez de circulao de tais produtos. Lembramos que aqui no se

distinguem bens simblicos culturais dos que atendem apenas lgica do capitalismo.

A radiodifuso tambm entra nesta perspectiva conceitual de comunicao e ressaltada, no

excerto acima, de forma ampliada, ou seja, no basta haver um processo individualizado de

comunicao. A esse respeito Luhmann (2005) nos faz recordar a prpria histria do rdio,

que comeou a partir da telegrafia, comunicao restrita, dirigida a um destinatrio especfico.

Ao mencionar a necessidade de fabricar produtos em grande quantidade, o autor no est, de

imediato, preocupado em considerar a qualidade de tais produtos, mas em nos demonstrar

explicitamente o seu conceito de comunicao, que pode se distanciar da linearidade do

modelo clssico de comunicao humana.

Em parte, as mensagens veiculadas pela radiodifuso tendem a estabelecer entrelaamentos

com contextos culturais diversos, o que pode possibilitar a constituio de redes de

18

conhecimentos que tambm perpassam os fazeres cotidianos dos sujeitos e, desta forma, a

linguagem falada est carregada de peculiaridades2.

Como toda mensagem objeto de uma recepo diferencial, segundo as caractersticas sociais e culturais do receptor, no se pode afirmar que a homogeneizao das mensagens emitidas leve a uma homogeneizao das mensagens recebidas, e, menos ainda, a uma homogeneizao dos receptores. (BOURDIEU, 1998, p. 61)

Os processos de produo e recepo de mensagens faladas esto carregados de

subjetividades, e isso em muitos casos impede a homogeneizao, a linearidade; as

caractersticas culturais e sociais vinculadas em contextos espaciais e tambm temporais

tendem a romper com uma possvel fixidez ou homogeneidade de tais bens culturais. No de

nosso interesse, no momento, discorrer sobre os processos de recepo, porm sem mencion-

lo, esta pesquisa poderia incorrer no silenciamento de questes importantes e,

conseqentemente, na negao do processo final da mdia radiofnica. Independentemente

da modalidade de ensino a que os sujeitos esto vinculados, sejam crianas, jovens, adultos ou

velhos, acreditamos que cada um, ao seu jeito, se apropria das mensagens radiofnicas

estabelecendo para elas at mesmo significados mltiplos. O que no se pode negar so as

possibilidades de produo de bens simblicos, a partir dos lugares que esses sujeitos,

enquanto receptores, freqentam, espao que inter-relacionam com saberes culturais. Mas tais

sujeitos alm de receber, tambm produzem bens simblicos. preciso denunciar a fico

segundo a qual os meios de comunicao de massa seriam capazes de homogeneizar os

grupos sociais, transmitindo uma cultura de massa idntica para todos e identicamente

percebida por todos. (BOURDIEU, 1998, p. 61)

A acessibilidade do rdio importante para o melhor entendimento dos processos miditicos

e, em especfico, quando tratamos de capital cultural sem fronteiras, ou seja, tanto a camada

social alta quanto a baixa tem acesso a esse veculo de comunicao, pois essa tecnologia

conta com a vantagem de ser barata e at mesmo permitir a portabilidade. Assim, pressupe-

se que no processo de circulao das mensagens radiofnicas haja a troca de bens culturais

ou at mesmo uma negociao indireta, entre os falantes e os ouvintes. Porm no

desconsideramos que, no processo de envio de mensagens atravs da radiodifuso, as

2 Entendemos que as peculiaridades podem ser representadas atravs das falas, onde haja a explicitao de parte dos cotidianos dos sujeitos, no havendo portanto a homogeneizao.

19

interferncias dos ouvintes no so to significativas em relao a outros meios de

comunicao.

Com uma gama variada de produtos comunicacionais que circulam nas sociedades, possvel

que haja alteraes nas relaes sociais proporcionadas pelo campo da comunicao; esta ,

por sinal, a Era da Informao, segundo Castells (1999), e, por que no dizer, a era da

reconfigurao dos espaos e tempos. provvel que o encurtamento das distncias espaciais

com o processo de globalizao interferiu diretamente no tempo de recepo de grande parte

das mensagens. Ainda sobre o tempo e o espao, Silverestone (2002, p. 25) nos diz que

Estudar a mdia estudar esses movimentos no espao e no tempo e suas inter-relaes e

talvez tambm, como conseqncia, descobrir-se pouco convencido pelos profetas de uma

nova era e por sua uniformidade e seus benefcios.

Alm dos breves comentrios sobre a conceituao de comunicao, perece-nos pertinente

uma abordagem sobre o objeto de estudo da comunicao social, pois, com o advento da ps-

modernidade, muitas alteraes ocorreram no que diz respeito s questes metodolgicas de

produo do conhecimento.

O objeto de estudo da Comunicao Social tem uma natureza complexa, demandando, em seu estudo, uma abordagem marcada pela pluralidade, quer seja no que diz respeito s diversas disciplinas que podem lhe dar sustentao, quer seja nas diferentes perspectivas de leitura, ou pontos de vista, em relao aos fenmenos estudados. A Comunicao ainda agrega o fato de ser tremendamente dinmica. Trata-se de um objeto de estudo que no permanece esttico, disposio do olhar do pesquisador, obrigando uma postura tambm dinmica por parte de quem se dispe a examin-lo. (MENDES, 2003, p. 229)

O objeto de estudo da comunicao, como acima foi mencionado por Mendes (2003), pode

interagir com diversas disciplinas. Mendes (2003) nos diz sobre as rupturas de uma linha

divisria entre o campo da comunicao e outros campos, o que tambm abre a possibilidade

de estudos interdisciplinares. Reforamos, ento a pertinncia desta pesquisa, que perpassa os

campos da educao e da comunicao. Mas, ao contrrio do que Mendes (2003) nos

apresenta no se pretende sustentar o objeto da comunicao simplesmente a partir da

educao. Pensamos na educao com vistas ao melhor entendimento de processos miditicos

com crianas.

20

As interfaces do campo da educao com o campo da comunicao possibilitam a

configurao do hibridismo, da quebra de fronteiras, das intercomunicaes, linguagens

mltiplas para processos e prticas escolares. Entender a mdia como processo tambm

implica um reconhecimento de que ele fundamentalmente poltico [...] Os significados

oferecidos e produzidos pelas vrias comunicaes que inundam nossa vida cotidiana saram

de instituies cada vez mais globais [...] (SILVERESTONE, 2002, p. 17). Ao

mencionarmos a globalizao, gostaramos de ressaltar no os seus aspectos econmicos, mas

as possibilidades de amplitude da produo e circulao de bens simblicos como tambm

seus entrelaamentos com as diversas reas do saber, um hibridismo.

As mudanas e/ou avanos tecnolgicos produzem conseqncias diretas no campo da

comunicao miditica, por esta razo os hbitos e comportamentos daqueles que so usurios

dessas mdias tambm so alterados.

A escrita e a imprensa, a telegrafia, o rdio, a telefonia e a televiso, a internet ofereceram, cada um, novas maneiras de administrar a informaes e novas maneiras de comunic-las; novas maneiras de articular desejos e de influenciar e agradar. Efetivamente, novas maneiras de fazer, transmitir e fixar significado. (SILVERESTONE, 2002, p. 47)

Como Silverestone (2002) aborda no texto acima citado, as diferentes mdias tambm

apresentam pluralidades, uma vez que podem influenciar e agradar ao

espectador/leitor/ouvinte/internauta. Mas, por outro lado, percebemos que as mdias

tambm so ressignificadas pelo espectador/leitor/ouvinte/internauta, h uma troca que

tambm norteia o que se produz nos meios de comunicaes. Em alguns casos, tal troca pode

tambm ser entendida como uma negociao dos sujeitos envolvidos no processo

comunicativo, troca e negociao de aspectos culturais, de bens culturais a partir dos

interesses dos ouvintes, desta forma Bourdieu (1998, p. 62) diz: [...] se sabe que o interesse

que um ouvinte pode ter por uma mensagem, qualquer que seja ela, e, mais ainda, a

compreenso que dela venha ter, so direta e estritamente, funo de sua cultura, ou seja, de

sua educao e de seu meio cultural [...]. Culturas hbridas e ressignificao, nos parecem ser

parte das pistas que demonstra o quanto de negociao existente perceptvel ao tratarmos

dos processos miditicos como a radiodifuso. Os significados que compem a tessitura das

falas carregadas de experincias que os sujeitos tm e que so visualizados atravs de suportes

variados nos remetem constantemente a interao dos

espectadores/leitores/ouvintes/internautas. Sujeitos que participam de prticas educativas

21

tambm diversas, e que em tais prticas estabelecem sentidos de onde falam ou experimentam

processos os comunicativos hbridos.

O ouvinte que tambm um enunciador faz uso constate de formas discursivas que nos

revelam uma negociao, a materializao do discurso pode, tambm, contemplar ideologias

que imperam na atualidade, ou seja, o da classe dominante; mas, mesmo assim, acreditamos

haver uma negociao, pois os sujeitos esto imersos em contextos sociais mltiplos, que os

subsidiam constantemente de capital simblico. Fiorin (2007, p. 73) diz que as representaes

ideolgicas se materializam na linguagem. Sem contrariar tal afirmativa, percebemos que a

linguagem estabelece relaes complexas entre os sujeitos, e se, de um lado, h a proposio

de ser a linguagem um suporte da ideologia dominante. Por outro lado as brechas3

encontradas tanto por falantes quanto por ouvintes nos permitem ressignificaes no menos

propositiva; processos miditicos dependentes da linguagem falada podem se distanciar do

ordenamento, da fixidez a partir do momento em que revelam contextos de vivencias

diferentes.

Reforamos a questo acima mencionada sobre culturas hibridas e que nos possibilitam as

brechas, as negociaes, os cruzamentos e no as negociatas. Perceber que as transformaes

culturais geradas pelas ltimas tecnologias e por mudanas na produo e circulao

simblica no eram responsabilidade exclusiva dos meios comunicacionais induziu a procurar

noes mais abrangentes. (CANCLINI, 2003, p. 284). Ao pensarmos na expanso urbana

enquanto um dos fatores que contribuem para o que tratamos de hibridao cultural,

ressaltamos que Canclini (2003) ao mencionar que no h uma exclusividade dos meios de

comunicao, estabelece de alguma forma os cruzamentos que possibilitam as produes

culturais. Pensamos que as mensagens veiculadas nas ondas do rdio e recebidas em

contextos diversos podem, tambm, carregar marcas da ressignificao, marcas da

negociao, marcas de culturas hbridas, marcas de diversos espaos.

Ao pensarmos sobre comunicao e cultura, torna-se relevante a proposta de Jesus Martn-

Barbero (2006, p. 28): [...] a comunicao se tornou para ns questo de mediaes mais que

de meios, questo de cultura e, portanto, no s de conhecimentos, mas de reconhecimento . 3 Entendemos que as brechas ou fendas, so os espaos temporais entre uma mensagem e outra e que podem ser os recursos utilizados pelos participantes de uma determinada mensagem quando repensam ou reinterpretam tais processos; enviam, portanto suas discursividades que nem sempre concordam com as falas dos que detm determinados poderes.

22

Entendemos que as mediaes podem vincular-se a essa trade:

comunicao/cultura/educao, assim os processos ou sistemas de trocas simblicas

estabelecidas em diferentes mdias, tanto as tradicionais quanto as inovadoras se fazem

presentes na contemporaneidade. Nesta perspectiva, a radiodifuso e suas diferentes formas

de veicular os produtos simblicos enquanto mensagens podem expressar uma possvel

alternativa em relao aos processos de ensino e aprendizagem, ou melhor, de prticas

escolares. Em muitos casos os elementos discursivos tambm podem ajudar a manter uma

determinada ordenao, estabelecendo um reencontro com a tradio, ou seja, em formas

discursivas monolgicas ou fixas. Se no h reconhecimentos sobre os aspectos simblicos ou

culturais, podemos dizer que os processos comunicativos, em alguns momentos, se restringem

aos anseios de alguns grupos e isso de forma reacionria.

Diferentemente do conceito ou modelo clssico de comunicao humana que tem por

caracterstica um processo linear a partir dos trs elementos bsicos: emissor, mensagem e

receptor, pensamos na importncia de um modelo comunicacional hbrido, no simplesmente

enquanto transmisso de informao de fontes ativas para receptores passivos. Mas que

possibilite a interatividade entre sujeitos falantes e tambm dos ouvintes, isso atravs da

utilizao dessa prpria mdia ou de outras mdias. Ao pensarmos na interao a partir da

ressignificao das mensagens recebidas, os leitores/ouvintes podem estabelecer marcas

subjetivadas que lhes garantam a interao entre dois universos, o da comunicao e o da

cultura. Freire (2002, p. 65) diz sobre a intersubjetividade e/ou a intercomunicabilidade como

sendo a caracterstica principal deste mundo cultural e histrico; acrescenta que a

comunicao entre sujeitos passa necessariamente pela intersubjetividade. Neste ponto a

nosso ver estabelece uma crtica ao modelo linear de comunicao, o modelo clssico e nos

aponta um possvel modelo hbrido.

O conceito clssico de comunicao humana, como j abordamos, vincula-se a um processo

linear composto de alguns elementos bsicos como: emissor, mensagem e receptor. Esta

concepo, baseada em uma seqncia, ainda perpassa vrias prticas comunicativas no

Brasil, modelo este muitas vezes mecnico em sua forma e sua concepo no leva em

considerao os agentes e/ou sujeitos do outro lado da linha, to pouco o contexto histrico

que estes esto imersos. Tal modelo prioriza o receptor passivo, aquele que no interage em

nenhum momento no processo de produo, de envio e de recepo das mensagens.

23

As relaes intersubjetivas, esto carregadas de comunicao/dilogo, no garantindo,

portanto, a linearidade do modelo clssico; constituindo-se em processos mltiplos de

produo e interpretao de produtos miditicos. O fenmeno comunicativo hbrido pode ser

vinculado a processos culturais e tambm a partir das diversas prticas escolares.

Rompendo com a proposta de comunicao linear, na qual o emissor estabelece uma relao

de poder, podemos verificar que, Brecht (2005) destaca o processo de comunicao que

prioriza no somente a intersubjetividade, a discursividade, enquanto atos necessrios ao

melhor entendimento da mensagem como, tambm, a interpretao circular e no

especificamente o modelo linear de comunicao. O rdio um veculo de comunicao de

massa, porm em alguns casos pode garantir a reciprocidade, por abrir o microfone s

vrias vozes, um meio alternativo em funo de seu baixo custo e, tambm, pela agilidade na

veiculao de mensagens. O baixo custo faz com que o rdio seja o primeiro dos grandes

meios eletrnicos de comunicao a chegar ao continente latino-americano, h mais de 60

anos. E na Amrica Latina tambm o lugar em que mais vo proliferar, nas ltimas trs

dcadas, as emissoras radiofnicas. (COGO, 1998, p. 56).

Hoje h, espalhadas pelo Brasil, muitas rdios educativas4, que podem ser integradas s

comunidades locais com grande utilidade pblica, pois informam, orientam, educam e

permitem a integrao entre mdia e sociedade de forma gil e sem burocracia, o que pode

reforar a cidadania dos sujeitos, de acordo com Coelho (2002). Desta forma, pensamos ser

necessria uma melhor compreenso acerca de algumas questes sobre o Rdio e a educao.

Da proposta de comunicao radiofnica linear para a intersubjetiva, na qual a discursividade

circular se destaca. Assim, no se pode afirmar a existncia de um modelo nico de

comunicao atravs das ondas hertzianas5, porm novos tempos exigem uma nova maneira

de pensar e fazer rdio no Brasil a qual muitas vezes, envolve questes de utilidade pblica,

no tratamento dado s mensagens, mas que tambm envolve aspectos culturais, educacionais,

sociais, econmicos e at mesmo os polticos. Para o melhor entendimento de algumas 4 Segundo Silveira (2001, p.135). A Rdio Educativa uma modalidade da radiodifuso comum, qualificada pelo fato de, tendo em vista sua finalidade precpua (educacional), envolver o Ministrio da Educao no ato de sua autorizao. 5 Por ondas hertzianas podemos entender o que FERRARETO (2007, p. 64) menciona: O desenvolvimento da tecnologia responsvel pelas transmisses radiofnicas remonta ao final do sculo 18, com incio das pesquisas sobre o fenmeno fsico da eletricidade. A base da radiodifuso a transmisso de sons a longa distncia, de um para vrios pontos, sem a utilizao de fios, pela aplicao dos princpios do eletromagnetismo (produo, transmisso e recepo das chamadas ondas hertzianas.

24

questes que se vinculam radiodifuso, abordaremos, a seguir, alguns de seus aspectos

histricos e polticos no Brasil.

1.2 A radiodifuso no Brasil: aspectos histricos e polticos A histria da radiodifuso no Brasil est entrelaada com o processo de transformao do

prprio rdio, em outras palavras, os avanos cientficos vinculados aos meios de

comunicao chegaram ao Brasil por volta do sculo XX. De l pr c os anncios sobre

injunes polticas, econmicas e culturais ganharam nfase atravs das ondas do rdio.

A tecnologia que hoje conhecemos por nome de radiofnica, e que tem como objetivo a

transmisso de sons pelas ondas do ar, surgiu atravs do processo de inovaes tcnicas e/ou

tecnolgicas processadas ainda no sculo XIX, isso a partir de experincias do telegrafo.

Podemos at dizer que esse veculo de comunicao de massa, que o rdio, um herdeiro da

radiotelegrafia e tambm da radiofonia.

Desta fase inicial at o nascimento da radiodifuso sonora, foi necessria uma mudana de enfoque no uso da tecnologia disponvel, ocorrendo uma transio da comunicao interpessoal o telefone, em especial para a de massa o rdio. Configurou-se, ento, um sistema particular de transmisso e recepo. (FERRARETTO, 2007, p. 26-27)

Outro destaque que aqui pode ser mencionado o advento da prpria eletricidade, alm dos

estudos da fsica. Assim o envio de sons e sinais a partir das ondas hertzianas ou ondas

eletromagnticas envolveu vrias reas do conhecimento. Vibraes magnticas que se

propagam no ar e so provocadas pela movimentao de eltrons em um meio condutor, as

ondas eletromagnticas (ou hertzianas), so definidas, em termos fsicos, por duas grandezas

bsicas: freqncia e amplitude. (FERRARETTO, 2007, p. 65). Consideramos que o processo

de produo, envio e recepo das chamadas ondas hertzianas est associado codificao

dos sons. A propagao de tais sons chega aos ouvintes atravs de diversas etapas, que, hoje

so dependentes das condies tcnicas e financeiras das emissoras.

A comunicao radiofnica implica processos fsicos de lidar com os sons, mas que tambm

so sociais. Codificao e decodificao de sons que so transmitidos via ondas hertzianas

fazem parte de processos comunicativos; assim a codificao das intencionalidades dos

25

sujeitos falantes que objetivam estender a outros suas mensagens faladas permeia sistemas

que envolvem a linguagem (entonao de voz, tempo de fala, entre outros). Uma combinao

entre os sons da voz humana, os sons das msicas e os efeitos sonoros faz com que existam

processos de codificao. Isso de um lado. J do outro lado, os ouvintes decodificadores e/ou

receptores muitas vezes apropriam-se das falas, ressignificando seu contexto scio-cultural

como agentes que tambm detm saberes. As apropriaes e/ou decodificaes realizam-se

pelas subjetividades dos ouvintes, no sendo possvel, ento, um nico entendimento para

uma mensagem radiofnica veiculada atravs das ondas hertzianas ou das vibraes

magnticas.

Pensar as origens e o desenvolvimento da radiodifuso sonora implica percorrer duas linhas de raciocnio diferentes, mas complementares: a do desenvolvimento de uma tecnologia que permitisse a transmisso, sem fios, de sons a distncia e a da utilizao destes avanos tcnicos em um meio de comunicao massivo. (FERRARETTO, 2007, p. 79)

Apesar de a comunicao radiofnica pressupor um fluxo unidirecional em que uma nica

mensagem enviada para vrias pessoas ao mesmo tempo, no h a garantia prvia sobre as

possveis interpretaes/narrativas dos ouvintes. Nesse processo, a subjetividade relacionada

decodificao se entrelaa aos bens simblicos de contextos sociais tambm distintos.

Desde as primeiras experincias radiofnicas, do incio do sculo XIX aos nossos dias,

podemos observar as constantes mudanas tcnicas e/ou tecnolgicas que permitiram a

transmisso deste veculo de comunicao de massa.

No Brasil a primeira transmisso radiofnica veiculada ainda no primeiro quartel do Sculo

XX, no Rio de Janeiro; est associada a propsitos polticos da nascente Repblica e

comemorao do centenrio da independncia.

Em 1922 houve no Rio de Janeiro uma grande exposio internacional para celebrar o Centenrio da Independncia. Duas companhias norte-americanas obtiveram licena para fazer demonstraes de seus aparelhos irradiando, do Corcovado e da Praia Vermelha, para os alto-falantes instalados no recinto da exposio. Foram essas as primeiras transmisses radiofnicas realizadas no Brasil. (ROQUETTE-PINTO, 2002-2003, p.12).

A radiodifuso como uma novidade despertou a curiosidade de muitos, os alto-falantes

transmitiram os sons vindos da estao montada no alto do Corcovado no RJ, assim o

26

discurso do Presidente Epitcio Pessoa pde ser ouvido por muitas pessoas. A estao

provisria montada no alto do Corcovado chamou a ateno de Edgard Roquette-Pinto.

Para compor o cenrio das comemoraes do centenrio da independncia, uma grande

exposio internacional montada no Rio de Janeiro demonstrava ento a radiodifuso. Edgard

Roquette-Pinto pode ser considerado o pai do rdio no Brasil. Era mdico, antroplogo e

tambm educador, foi o precursor da radiodifuso brasileira e teve como um de seus objetivos

difundir a cultura atravs das ondas do rdio, ou atravs das ondas hertzianas.

Assim, mesmo quando o rdio era apenas uma curiosidade exibida em exposio internacional, j existia na mente do educador que foi Roquette-Pinto a idia de utiliz-lo pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil, conforme o lema com que ele, mais tarde, dotaria a estao PRAA, a primeira radiodifusora do pas, hoje Rdio Ministrio da Educao e Cultura (Rdio MEC). (ROQUETTE-PINTO, 2002-2003, p. 12)

Edgard Roquette-Pinto, percussor da radiodifuso no Brasil, criou, no ano seguinte

exposio internacional do Rio de Janeiro, que comemorava o centenrio da independncia, a

Rdio Sociedade do Rio de Janeiro. Os propsitos de Edgard Roquette-Pinto visavam s

questes culturais, ou seja, rdio a servio da cultura.

Nesta data, os pioneiros da radiodifuso sonora brasileira reuniram-se na sede da Academia Brasileira de Cincias, em 20 de abril de 1923, fundando a Rdio Sociedade do Rio de Janeiro. O grupo liderado por Roquette-Pinto e Morize consegue, ento, junto ao governo, o emprstimo dos transmissores da Praia Vermelha durante uma hora por dia. Usando o tempo ocioso de um equipamento utilizado prioritariamente pela radiotelefonia, o Brasil entra em definitivo, na era do rdio no dia 1 de maio daquele ano, quanto eles comeam suas transmisses. (FERRARETTO, 2007, p. 96)

Edgard Roquette-Pinto e os demais associados da Rdio Sociedade do Rio de Janeiro

promoveram, mesmo que de forma precria, sem uma programao definitiva, programas

culturais. O idealismo dos pioneiros do rdio cunha para a primeira emissora do pas o

slogan Trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil. Com

base nestes parmetros, Roquette-Pinto definia o novo veculo de comunicao.

(FERRARETTO, 2007, p. 97).

Imersos em um clima poltico e cultural que trazia algumas novidades, o Brasil entra em uma

nova poca, a partir da modernizao, de uma efervescncia de reivindicaes, greves,

surgimento de novos partidos polticos, a Semana de Arte Moderna de So Paulo, o

27

Movimento Tenentista e etc. Talvez uma nova tecnologia radiodifuso pudesse corroborar

com as idias de um Brasil moderno, distanciado da monarquia, mas ainda com problemas

diversos, quando pensamos sobre o acesso aos bens culturais. Esses so alguns fatos que

marcaram o Brasil da poca do primeiro quartel do Sculo XX, no so os nicos, nem os

mais relevantes, porm no h como deix-los de lado ao pensarmos sobre a radiodifuso

brasileira, assim a insero do Brasil na era da modernidade pode aqui ser mencionada por

tais fatos.

Inserido neste contexto de poca, o professor Roquette-Pinto teria visto no rdio um instrumento de transformao educativa. Conferncias cientficas, msica erudita e anlise dos fatos polticos e econmicos marcam, deste modo, as primeiras transmisses da Rdio Sociedade do Rio de Janeiro. Intelectuais e cientistas estrangeiros em visita ao Brasil falam ao microfone da primeira emissora do pas. o que ocorre quando o fsico alemo Albert Einstein ou o poeta e ensasta italiano Filippo Tommaso Marinetti (criador do movimento futurista) vm ao Brasil. (FERRARETTO, 2007, p. 98-99)

No texto de Ferraretto (2007) podemos perceber que os fatos anteriormente listados vm ao

encontro de um Brasil moderno, onde a fase de implementao e consolidao dessa mdia

que o rdio, est marcada por intencionalidades polticas e culturais de seu idealizador;

Roquette-Pinto preocupava-se com a educao, e sua iniciativa pode ser considerada um

marco para a histria do rdio e, talvez, para a rdio educativa.

O Brasil do incio da era do rdio apresentava segundo os ndices estatsticos do IBGE6, em

torno de 65% da populao total sem acesso a alfabetizao. Neste aspecto, a proposta de

Roquette-Pinto no que diz respeito a transformao educativa pode tambm ser explicada pela

alta taxa de analfabetismo. Por um lado a modernizao, mas por outro o atraso no acesso aos

direitos sociais. Apesar de seus ideais, o idealizador da Rdio Sociedade do Rio de Janeiro

Roquette-Pinto vislumbrava uma nova poca, possibilidades de atingir maior nmero de

pessoas atravs da radiodifuso. Em maro de 1932, o presidente Getlio Vargas autoriza a

veiculao de publicidade pelo rdio, o que lhe d um novo rumo, mudando seu aspecto

cultural e erudito para popular, visando o comrcio e a diverso. (ANTUNES, 2002-2003, p.

18). Com o presidente Getlio Vargas, o rdio passa por uma reestruturao, agora no mais

como novidade, e vincula-se ao lucro da publicidade. O rdio comea a se estruturar, no

mais como novidade, mas sim se constituindo em um veculo de comunicao que, ao buscar

o lucro, volta-se para a obteno constante de anunciantes e de pblico. (FERRARETTO,

6 Fonte: IBGE, censos demogrficos, apud Anurio Estatstico 1995.

28

2007, p. 102). Mesmo com a nova etapa da radiodifuso, Roquette-Pinto no abdicou de seus

ideais, ou seja, da radiodifuso educativa.

O rdio como um veculo de comunicao de massa ganhou importncia e popularidade, mas,

diante dos propsitos de buscar lucros atravs dos anncios publicitrios, Roquette-Pinto

decidiu doar a Rdio Sociedade do Rio de Janeiro, isso em 1936, para o presidente Getlio

Vargas, governante da poca. Sob a condio de manter o carter educativo da emissora, a

Rdio Sociedade do Rio de Janeiro passa a ser ento denominada de Rdio Nacional.

Ao mencionarmos o carter publicitrio do rdio, no poderamos deixar de dizer tambm

sobre as influncias das propagandas polticas, ou seja, sobre as intencionalidades polticas do

uso desse meio de comunicao. A radiodifuso pode, assim, ampliar a capacidade de

interveno na esfera cultural, pois as mltiplas mensagens transmitidas atuam como

persuaso, em muitos casos, emocional e convencem, preparando as massas para as

transformaes julgadas necessrias pelos dominantes.

A intensificao das emoes ocorre atravs dos meios de comunicao, responsveis pelo aquecimento das sensibilidades. Mas os sinais emotivos so captados e intensificados tambm atravs de outros instrumentos: literatura, teatro, pintura, arquitetura, ritos, festas, comemoraes, manifestaes cvicas e esportivas. Todos esses elementos podem entrar em mltiplas combinaes e provocar resultados diversos. (CAPELATO, 1998, p. 65)

O processo de convencimento das massas atravs das propagandas polticas ganhou destaque

no governo de Getlio Vargas, pois, naquela poca a Rdio Sociedade do Rio de Janeiro

passou a ser a Rdio Nacional, controlada pelo governo. Apesar das recomendaes de

Roquette-Pinto, as propagandas polticas fizeram com que houvesse o possvel

convencimento das massas, dos ouvintes do rdio. Nesse tipo de discurso, o significado das palavras importa pouco, pois, como declarou Goebbels no falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um determinado efeito. O efeito visado no Estado Novo era a conquista do apoio necessrio legitimao do novo poder, oriundo de um golpe. (CAPELATO, p. 1998, p. 67)

De acordo com Capelato (1998) o rdio era tambm usado para legitimar o poder poltico das

elites dominantes. No perodo do varguismo, os esforos para veicular apenas as vozes

oficiais, ou seja, as vozes do governo, teve destaque e colaboram para o controle de imprensa

a criao do DIP Departamento de Imprensa e Propaganda. Assim a censura intermediava o

29

que poderia ser veiculado, mas as presses polticas e financeiras tambm ditavam as regras

do jogo. Mesmo com o controle do Estado, a radiodifuso passou pela chamada poca de

ouro, com programao voltada ao entretenimento, programas de auditrio, radionovelas e,

tambm, os programas humorsticos. A liderana da Rdio Nacional em todo o territrio

brasileiro, tambm foi atribuda aos seus transmissores de ondas curtas, que rendiam ao

governo efeitos diversos, a comear pela audincia privilegiada e, em seguida, pela

possibilidade de veicular mensagem de cunho poltico de forma direta e com baixos

investimentos. Com o surgimento da televiso em meados do Sculo XX, a era do rdio

entrou em decadncia. De meados do sculo XX para o incio do Sculo XXI, h algumas

permanncias e algumas mudanas no que diz respeito comunicao radiofnica.

Devido a tradio monrquica que, infelizmente, o Brasil incorporou sua cultura, instalou-se no pas, a despeito e ao arrepio das Constituies republicanas, um executivo extremamente forte, dominador (cpia fiel do poder do imperador, ao tempo da monarquia), que no respeita as limitaes constitucionais, que concede favores aos amigos e dificulta, pela lei, a vida dos opositores polticos. Por conseqncia, trouxe consigo uma cultura poltica de subservincia ao poder, com base no fisiologismo, nepotismo e apadrinhamento poltico, a qual repercutiu no povo em forma de desnimo, ignorncia e alienao total em relao s coisas pblicas. (SILVEIRA, 2001, p. 257)

A questo da tradio poltica mencionada por Silveira (2001) pode ser facilmente constatada

no cenrio de processos miditicos em que grupos polticos determinavam os padres de

comunicao em um determinado contexto, isso em benefcio prprio. Detinham algumas

mdias e faziam delas o mecanismo constante de busca pela afirmao de suas identidades,

seja enquanto parlamentares seja enquanto seguidores de uma determinada religio. Tais

grupos at hoje produzem e/ou veiculam mensagens com contedos comunicacionais

destinados a promover suas identidades. Porm, em muitos casos, as particularidades ou

subjetividades dos receptores tendem a ressignificar tais produtos miditicos; assim as

mensagens no produzem os mesmos efeitos. Ao contrrio, as peculiaridades de cada receptor

permitem a reinterpretao a partir de seus referenciais, desenvolvidos em contextos culturais

diversos.

Se, por um lado, as tentativas de manter antiga dominao poltica ainda se fazem presentes

em contextos diversos, por outro lado no podemos concordar que haja uma passividade no

que diz respeito recepo dos produtos miditicos, to pouco que o entendimento de que o

desencantamento poltico se faz presente na sociedade brasileira como algo natural. Ao

referendarmos a cultura poltica como uma, deixamos de lado todo um universo de

30

entrelaamentos de saberes e experincias, que foram sendo adquiridos pelas comunidades,

assim seria prudente a utilizao de culturas, ao invs de cultura no singular. Culturas

polticas que nem sempre tenderam a seguir pelos caminhos da subservincia ao poder.

Parece-nos que h a constituio de uma rede de bens culturais que auxiliem os receptores,

aqui enquanto ouvintes que marcam o seu lugar na mensagem, vo reestruturando, assim, as

falas e se apropriando daquilo que mais lhe interessam. Relaes conflituosas como ressalta

Rodrigues (1993), interpretaes mltiplas que se distanciam da ignorncia poltica e que

tambm no podem ser consideradas produtos da alienao. Valores e percepes que se

alteram constantemente, a fluidez das diversas interpretaes no pode seguir pelas vias de

um nico modelo de comunicao.

Salientamos que algumas permanncias de prticas comuns ao tempo da monarquia ainda se

faam presentes no Brasil Republicano, porm questionamos o carter da passividade em

relao a esse passado, na atualidade.

Uma parcela da mdia tambm se submete a essa triste sujeio, pois, em troca da verba de publicidade, alguns veculos de comunicao apiam, irrestritamente, o patrocinador, perpetuando seu grupo poltico no poder, sem dar espao a novas lideranas, que, de um modo geral, no tm como competir com os nomes diuturnamente louvados e endeusados por eles. De quando em vez, quando um desses veculos de comunicao de massa marginalizado na verba publicitria, faz algum alarde por algum tempo, at ser novamente contemplado com a benesse pblica. A, torna-se, novamente, ardoroso adepto do poder dominante. (SILVERIRA, 2001, p. 258)

Alguns aspectos polticos das mdias ganham destaques. Na linha do exemplo acima citado

por Silveira (2001), podemos observar ainda as permanncia, quando o governo de Getlio

Vargas autorizou a veiculao de propagandas com fins lucrativos. Apesar das novas

estruturas dos meios de comunicao e, em especfico, da radiodifuso, as elites que utilizam

as velhas prticas para se manterem no poder esto longe de possibilitar novas

discursividades, pensam apenas em seus interesses imediatos, sendo o rdio em meio tcnico,

uma mdia de comunicao linear tradicional. So elites especializadas na manuteno do

poder, ou seja, dos postos de dominao, isso a partir da comunicao. Apesar das

inconvenincias de alguns grupos que utilizam as mdias em benefcio prprio, o Brasil da

Era Republicana apresenta avanos tanto sobre questes tcnicas da comunicao quanto

das interpretaes das mensagens transmitidas, pois, agora, no h apenas uma fonte de

captao de informaes, e, sim, uma pluralidade de veculos miditicos. bem verdade que

31

os veculos de comunicao se pluralizaram numa proporo muito maior que a gama dos

grupos hegemnicos que os detm.

As reflexes sobre a poltica e os seus entrelaamentos com a comunicao no Brasil no so

uma novidade do sculo XXI. Segundo Ferraretto (2007, p. 179), O Estado como poder

concedente determina quem pode ou no prestar os servios de radiodifuso. O autor

explicita que o descompasso entre poltica e comunicao pode gerar prejuzos aos

parlamentares, mas ainda assim o campo miditico pode ser transformado em arena de

disputas, espaos de conflitos polticos, de denncias, de solidariedades, ou at mesmo de

disseminao de ideologias de diversos atores sociais. Ressaltamos a importncia da

discursividade ainda que seja forada, o que pode criar novos espaos que garantam a melhor

fluidez das mltiplas falas, das mltiplas mensagens, revelando aspectos culturais importantes

que at ento estavam escamoteados pela fora e pela persuaso das falas elitizadas, desde as

velhas e ultrapassadas caractersticas do Imprio.

Ao movimentar o mundo das palavras, os veculos de comunicao fazem mais do que lanar mo de um mediador tcnico capaz de apresentar pensamentos ou embelezar idias. Trata-se, antes de tudo, de criar alternativas e escolhas facultadas por este ou aquele termo, esta ou aquela maneira de elaborar o enunciado, e, por decorrncia, a informao, o conhecimento, em casos-limite, o saber. Parte destes procedimentos pouco afeitos ingenuidade de identificar na palavra apenas um nomeador de coisas so as estratgias de persuaso e convencimento que daro suporte elaborao/manuteno/reformulao de entendimentos [...] (CITELLI, 2006, p. 41- 42)

Citelli (2006) nos expe parte das estratgias utilizadas em veculos de comunicao para

convencer atravs do uso das palavras, atravs da persuaso, nas quais as intencionalidades

dos emissores ganham destaque ou embelezamento. Mesmo com todo o processo de

embelezamento da linguagem verbal o receptor faz suas prprias interpretaes. Ao

contrrio estaramos afirmando a continuidade do modelo clssico de comunicao humana,

no qual a linearidade prevaleceria sem que o processo pudesse ser alterado. A linguagem

verbal pode, tambm, ser um campo de conflitos onde a negociao entre produtores e

receptores de mensagens radiofnicas se faa presente, ao exemplo do que Rodrigues (1993)

menciona em sua obra.

Destacamos, ainda que a linguagem verbal, enquanto constituinte da forma primria de

comunicao, resultado de contradies e expresso de padres comuns a determinados

grupos sociais. [...] a linguagem verbal ao mesmo tempo constituinte dos sujeitos,

32

mediadora das relaes entre seres humanos e deles com a sociedade, registro da presena

de tenses ideolgicas, arena onde so travadas as lutas [...] (CITELLI, 2006, p. 42).

Atravs das ondas hertzianas, sentidos e significados surgem para ressignificar processos

miditicos e tambm escolares, assim as arenas de confronto funcionam como novos campos

que possibilitam novos entendimentos, e conseqentemente, uma nova forma de comunicao

radiofnica que pode ser de grande utilidade pblica.

Das transmisses radiofnicas analgicas s digitais, dos velhos rdios do rabo quente que

funcionavam a base de vlvulas s Web Rdios7. Multiplicam-se as emissoras, os sinais

atravessam fronteiras e chegam a novos locais, a qualidade do sinal depende do tipo de

sistema de comunicao adotado. No Brasil alguns problemas: a indefinio sobre o melhor

sistema de comunicao a ser adotado, ora a partir de modelos em desenvolvimento nos

Estados Unidos, ora baseando-se nos utilizados na Unio Europia, ou at em modelos

adotados no Japo.

O futuro da radiodifuso sonora passa necessariamente pela digitalizao. As perspectivas para a primeira dcada do sculo 21 apontam qualidade semelhante dos CDs com a possibilidade de transmitir, alm de som, informaes captadas em um pequeno display no receptor. (FERRARETTO, 2007, p. 190)

Sons e imagens captadas atravs das ondas do rdio, podemos assim dizer que, no Sculo

XXI, a melhoria no processo de transmisso de mensagens se faz presente, ou seja, novas

tecnologias para a transmisso digital de informaes. De um lado, as fronteiras desaparecem

e os sinais da comunicao radiofnica podem ser captados em diversas localidades, mas, por

outro lado, h uma possvel homogeneizao das estruturas que atendem ao mercado. Assim

os produtos comunicacionais tambm podem virar mercadorias e acabam substituindo as

culturas locais, que viviam ou vivem com suas particularidades. Jess Martn-Barbero (2005)

nos alerta para essas questes.

Entender essas transformaes exige, em primeiro lugar, uma mudana nas categorias com que pensamos o espao, pois, ao transformar o sentido do lugar no mundo, as tecnologias da informao e da comunicao satlites, informtica, televiso esto fazendo com que um mundo to intercomunicado se torne indubitavelmente cada dia mais opaco. Opacidade que remete, de um lado, ao fato de que a nica dimenso realmente mundial at agora o mercado, que, mais do que unir, busca unificar (Milton Santos). E atualmente o que est unificado em nvel mundial no uma vontade de liberdade, mas sim de domnio, no o desejo de cooperao, mas o de competitividade. Por outro lado, a opacidade remete

7 Emissoras de rdio com transmisso via internet.

33

densidade e compreenso informativa que introduzem a virtualidade e a velocidade em um espao-mundo feito de redes e fluxos e no de elementos materiais. Um mundo assim configurado debilita radicalmente as fronteiras do nacional e do local, ao mesmo tempo que converte esses territrios em pontos de acesso e transmisso, de ativao e transformao do sentido do comunicar. (MARTN-BARBERO, 2005, p. 58)

Fronteiras nacionais e tambm locais se entrelaam, dificultando suas identificaes enquanto

pontos de ancoragem, os processos comunicativos estabelecem novos entendimentos para os

espaos territoriais. Uma nova etapa nos processos de comunicao a partir dos avanos

tcnicos. Na virada do Sculo XX para o XXI, Cyro (2005, p. 209) diz: Vira o sculo e

novamente o rdio incrementa ainda mais sua atuao como mdia de massa. Os famosos

programas de auditrio de outrora se transformam em megaeventos [...]. O rdio ainda uma

mdia popular de amplo alcance pblico, o Brasil ocupa o segundo lugar8 no quadro mundial

quanto ao nmero de emissoras instaladas, superado apenas pelos Estados Unidos.

Nesta primeira dcada do novo sculo, o que se registra entre as inovaes tecnolgicas e artsticas do perodo uma espcie de redescobrimento do rdio, um meio de comunicao de massa que continua atraindo e mantendo audincias diversificadas em praticamente todas as partes do mundo. (CYRO, 2005, p. 210)

Cyro (2005) no texto acima nos diz sobre a importncia do rdio na primeira dcada do novo

Sculo, ou seja, do Sculo XXI, demonstra-nos como o rdio uma mdia que no sai de

moda, ainda consegue manter audincias diversificadas no Brasil. O rdio se mostrou

multidimensional, das transmisses via satlite s transmisses radiofnicas em escala global

por meio da internet. Dentre todas as mdias, o rdio foi o nico meio que se mostrou

multidimensional, pois possui uma sinergia muito grande, as pessoas podem navegar e

trabalhar no computador ouvindo sua emissora preferida. (CYRO, 2005, p. 211). As

transmisses via web foram iniciadas no Brasil a partir do ano de 2000.

Lanada na Ferasoft em 2000, a maior feira de informtica do pas, a Radioficina OnLine foi a primeira rdio web com locuo ao vivo, voltada para a internet, do Brasil. O lanamento do projeto marcava um novo captulo na histria da radiodifuso brasileira, uma vez que a linguagem dos locutores, a plstica e o formato da emissora eram totalmente adaptados web. (CYRO, 2005, p. 212)

A rdio web ainda uma novidade no Brasil, apesar das primeiras experincias de 2000 como

ressalta Cyro (2005), as projees do Ministrio das Comunicaes apontavam o ano de 2008

8 Ver: ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informao no rdio: os grupos de poder e a determinao dos contedos. 4 ed. So Paulo: Summus, 1985.

34

como um marco dos novos tempos do rdio. No ano de 2007 o rdio completou 85 anos,

superando as tendncias que apontavam o seu desaparecimento com a chegada da televiso,

assim o rdio comea a reviver seu enorme potencial. O rdio garante a nosso ver o status

de um meio renovado, superando aquela imagem de inferioridade dos anos de 1960.

No dia 25 de setembro, o rdio brasileiro completou 85 anos com energia renovada, contrariando todas as expectativas de que desapareceria com a chegada da televiso, l atrs, nos anos 60. A responsvel por essa injeo de nimo a nova tecnologia digital, em teste no Brasil h dois anos, que dever comear a fazer parte da vida dos brasileiros no incio de 2008. Essa tecnologia permitir o renascimento das emissoras AM (Amplitude Modulada), que passaro a ter a qualidade das FM (Freqncia Modulada) sem os chiados inconvenientes. Isso porque as ondas analgicas sofrem influncias de fatores externos, enquanto o sinal digital no afetado. J as FM sero ouvidas com som de CD. As emissoras OM (Ondas Curtas) tambm vo passar por transformaes profundas. Os canais de udio podero ser multiplicados e a digitalizao permitir a transmisso de imagens e textos. (MINISTRIO DAS COMUNICAES, 2007, p. 22)9

No texto acima podemos perceber alguns posicionamentos do Ministrio das Comunicaes

do governo do presidente Lula. As novidades para a radiodifuso no Brasil a partir de 2008

reforam que o rdio no desapareceu com o advento da televiso. Quando falamos em rdio

digital, diferente ao analgico, ser possvel a transmisso de melhor qualidade de udio, sem

rudos, acrescentando tambm a possibilidade de envio de imagens e textos. Sem dvidas a

tecnologia digital um avano significativo para a mdia radiofnica. Os novos aparelhos

devero ter telas de cristal lquido, capaz de receber informaes por escrito e imagens. Nada

como a televiso, mas dados sobre o trnsito, grficos, previses do tempo e clipes por

exemplo. (MINISTRIO DAS COMUNICAES, 2007, p. 23).10

Diante das novidades e tendncias do Sculo XXI em relao a esse meio de comunicao,

que o rdio, os processos comunicativos sofreram alteraes na contemporaneidade, assim

pensamos ser o rdio mais do que um simples meio de comunicao, um hibridismo que

Menezes (2007) chama de mestiagem.

9 Ver: Rdio digital: tecnologia no dia. IN. REVISTA DO MINISTRIO DAS COMUNICAES. Braslia: Ministrio das Comunicaes, v. 4, nov./dez. 2007. p.22. 10 Ver: Inovaes e novidades para atrair mais ouvintes. IN. REVISTA DO MINISTRIO DAS COMUNICAES. Braslia: Ministrio das Comunicaes, v. 4, nov./dez. 2007. p.23.

35

CAPTULO 2 RADIODIFUSO E AUDINCIA INFANTIL

2.1 Radiodifuso e cultura de massas: uma produo para todos

Em um processo de contnuos avanos tcnicos e tecnolgicos, em uma poca de constantes

trocas, e coexistncia de diferentes mdias vem se destacando a utilizao de diferentes

linguagens para o pblico infantil. Aqui ressaltamos a linguagem sonora empregada na

comunicao radiofnica como parte da cultura de massa. A constituio de redes

disseminadoras de mensagens faladas atravs das ondas hertzianas refora, de certo modo, a

chamada cultura de massa, advinda dos meios eletrnicos e constituda por redes de

transmisso onde h um fcil acesso s mensagens que so produzidas para um pblico sem

endereo fixo, ou seja, mensagens produzidas para o pblico em geral e, conseqentemente,

podem atingir, em menor ou maior audincia, as crianas.

Embora cada tipo de formao cultural tenha traos especficos que diferenciam uma formao cultural da outra, quando surge uma forma cultural nova ela no leva a anterior ao desaparecimento. Pelo contrrio, elas se mesclam, interpenetram-se. A cultura escrita no levou a oral ao desaparecimento, a cultura das mdias no levou a cultura de massas ao desaparecimento, as novas tecnologias da inteligncia no diminuram a importncia das precedentes, a escrita e a imprensa. Pelo contrrio, a internet depende da escrita, ao passo que o inverso no verdadeiro. Assim, todas as formas de cultura, desde a cultura oral at a cibercultura hoje coexistem, convivem e sincronizam-se na constituio de uma trama cultural hipercomplexa e hbrida. (SANTAELLA, 2007, p. 128)

De certa forma Santaella (2007) nos diz sobre as trocas e as coexistncias de diferentes

mdias, mas isso no se restringe aos meios tcnicos de comunicao. Diz-nos sobre culturas

diversas e a importncia da trama entre oralidade e a escrita, um hibridismo. Entendemos, a

partir de Santaella (2007), que a cultura massiva uma caracterstica de parte da primeira

metade do Sculo XX e que atingiu seu pice nos anos 1960, quando havia uma idia de bens

simblicos produzidos para um grande pblico. Porm a autora diz que a cultura massiva

sofre alteraes e que um dos fatores dessas alteraes pode aqui ser apontado, o que vem a

ser a multiplicidade de dispositivos e aparelhos destinados comunicao; assim o controle

remoto, a TV e o rdio, entre outros elementos possibilitaram consumo individualizado,

escolhas individuais. Embora tais avanos tcnicos tenham contribudo para uma liberdade

de escolhas, a produo das mensagens a serem transmitidas ainda permanece atrelada a um

pblico sem endereo, um pblico que, atravs da portabilidade pode levar seu rdio para

36

diversos locais, mesmo assim a programao radiofnica pode levar em considerao a

segmentao do pblico como forma de organizar sua grade de programao. Dizer cultura

de massa equivale, em geral, a nomear aquilo que entendido como um conjunto de meios

massivos de comunicao. (MARTN-BARBERO, 2006, p. 196). Tanto o rdio quanto a TV

podem ser considerados na perspectiva de Jess Martn-Barbero como parte dos meios

massivos de comunicao. De um lado temos ento a chamada cultura massiva, na qual o

rdio entendido enquanto produto cultural, j por outro lado temos o rdio como

componente dos meios massivos, assim ele reproduz a cultura massiva.

Pensamos que no basta o aparecimento de dispositivos tcnicos como forma de minar a

cultura de massas. Mesmo havendo um farto aparato tcnico, os receptores podem ser

coagidos a agir de forma acrtica em relao aos produtos culturais veiculados na interface das

mdias. Assim, no h como garantir neste ponto, a destituio da cultura de massas apenas

pelo aparecimento de novas tcnicas. Acreditamos que tais avanos tecnolgicos podem at

contribuir para o desencadeamento de processos reflexivos sobre tais bens culturais

circulantes, mas no so nicos. Diante dessas consideraes, o rdio pode ser visto como

uma ferramenta disseminadora de culturas massivas. Os programas radiofnicos carregam

suas especificidades, de alguma forma podem manter atravs de sua programao

determinados perfis, mas nunca podem considerar tais perfis como exclusivos.

Ainda em seus primrdios, o rdio, como o principal veculo de comunicao de massa na

sociedade, induzia as pessoas a se reunirem em torno dele para escutar coletivamente as

mensagens transmitidas, principalmente aquelas que traziam consigo alguma forma de

dramaticidade ou expectativa social e poltica. Mas essa forma de recepo foi

significativamente alterada, principalmente com o advento da televiso, levando-o a buscar

novas formas de transmisso e alterao no ambiente da recepo. Aqui o rdio pode ser

entendido como veculo que estabelece uma comunicao para todos, tanto para crianas

quanto adultos. Uma programao sem distino de fronteiras geogrficas, sociais, culturais e

econmicas, assim a produo radiofnica chega a vrias localidades, de forma gil e com um

baixo custo para os ouvintes. Neste ponto concordamos em que h um processo ampliado de

recepo pelo qual as classes populares tambm podem ter acesso a tal mdia.

Ao enfatizarmos a radidodifuso e a cultura de massas: uma produo para todos, no

deixamos de lado uma importante discuso que abordada por diversos tericos e que diz

37

respeito Indstria Cultural. O avano do capitalismo e a ascenso de regimes totalitrios,

ambos secundados pelo crescimento da comunicao social e da difuso dos meios refletiu de

maneira profundamente negativa em um grupo de pensadores alemes [...] (BARROS e

MARTINO, 2003, p. 191). Esse grupo pode ser entendido como Escola de Frankfurt.

A Indstria Cultural aqui trazida como uma corrente de pensamento que objetivava levar a

todos um modelo de comunicao, uma cultura impregnada de valores pr-estabelecidos, de

vises de mundo e ideologias.

Essa corrente de pensamento tem tambm suas limitaes. Parte delas so apontadas pela

perspectiva trazida por Martm-Barbero (2006) e demais autores latino-americanos que se

vinculam aos Estudos Culturais. Para estes, embora a comunicao massiva se dirija a um

todo em que so desconsideradas as especificidades, os sujeitos ressignificam a

comunicao que lhe apresentada a partir das mediaes que suas histrias particulares

permite.

A manuteno do domnio capitalista e tambm a difuso dos valores simblicos de uma

determinada classe (burguesia) sobre as outras camadas sociais (proletariado), foi reforada

pela Indstria Cultural11. Assim como existe uma indstria de produo material, regida

pelas demandas e ofertas do mercado, tambm a cultura, reproduzida em grande escala,

tornou-se um objeto de consumo, um produto com caractersticas comerciais [...] (BARROS

e MARTINO, 2003, p. 194). Parte do bens culturais como ingredientes que alimentam o

mercado o termo em que os autores acima nos remetem. O rdio, por sua vez, no se isenta

de tal vis. Enquanto uma mdia de fcil acesso pode tambm servir aos interesses de

11 Sobre o conceito de Indstria Cultural, entendemos que as consideraes de Armand Mattelart e Michele Mattelart (2008) so importantes, medida que estabelecem o seguinte: Em meados dos anos 40, Adorno e Horkheimer criam o conceito de indstria cultural. Analisam a produo industrial dos bens culturais como movimento global de produo da cultura como mercadoria. Os produtos culturais, os filmes, os programas radiofnicos, as revistas ilustram a mesma racionalidade tcnica, o mesmo esquema de organizao e de planejamento administrativo que a fabricao de automveis em srie ou os projetos de urbanismo. (MATTELART e MATTELART, 2008, p. 77). Apesar das concepes estabelecidas por Adorno e Horkheimer sobre a anlise dos fenmenos culturais, parece-nos que outro integrante da Escola de Frankfurt, que Walter Benjamin, j apontava no incio da dcada de 30 do Sculo XX um entendimento diferente. Assim, defendia em seu texto, conhecido como A obra de arte na era da sua reprodutibilidade tcnica, a importncia da reproduo, um dos exemplos que traz o cinema. No texto estabelece que a arte entendida como aura quebrada, pois tende a ser uma concepo obsoleta, no adequada. Embora o texto de Benjamin seja anterior ao de Adorno e Horkheimer, consideramos a importncia do mesmo e a sua atualidade quando tratamos at mesmo da reproduo como parte dos programas radiofnicos que so reproduzidos por diversas emissoras e que permitem, de alguma forma, ampliar o nmero de receptores, isso atravs de uma mdia mais acessvel.

38

determinados grupos. A esse respeito, nos reportamos aos processos de convencimento das

massas atravs das propagandas polticas.

A passagem do telefone ao rdio separou claramente os papis. Liberal, o telefone permitia que os participantes ainda desempenhassem o papel do sujeito. Democrtico, o rdio transforma-os a todos igualmente em ouvintes, para entreg-los autoritariamente aos programas, iguais uns aos outros, das diferentes estaes. No se desenvolveu nenhum dispositivo de rplica e as emisses privadas so submetidads ao controle. Elas limitam-se ao domnio apcrifo dos amadores, que ainda por cima so organizados de cima para baixo. No quadro da rdio oficial, porm todo trao de espontaneidade no pblico dirigido e absorvido, numa seleo profissional, por caadores de talentos, competies diante do microfone e toda espcie de programas patrocinados. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p. 114-115)

Adorno e Horkheimer (1985), no excerto acima, nos dizem sobre alguns problemas advindos

com a passagem da era do telefone para a era do rdio. Parece-nos que a crtica

estabelecida a partir da perspectiva da Indstria Cultural. Aqui as particuladridades dos

sujeitos so deixadas de lado, no seu lugar h uma idia nica, ou seja, produtos culturais

produzidos com finalidades ideolgicas estabelecidas.

O contexto da produo e recepo do rdio trazido aqui neste estudo bastante distante

daquele que inspirou os tericos da Indstria Cultural. Assim, embora ainda seja pertinente

a avaliao de que grande parte das empresas de comunicao dominam economica e

ideologicamente tal produo, percebemos que, principalmente com os avanos tecnolgicos,

essa produo se tornou mais plural. Um exemplo disso que hoje disputam com as

emissoras comerciais outros tipos de incentivos de radiodifuso: ligadas instituies

educacionais, organizaes no-governamentais, as chamadas rdio-piratas, rdios de

associaes de moradores ou movimentos sociais, rdio-poste, rdio-web, etc. Percebemos

que nos programas radiofnicos pesquisados o pensamento dos frankfurtianos no pode ser

considerado em sua totalidade, enquanto algo absoluto, temos, assim, algumas

particularidades dos apresentadores de tais programas uma vez que agregam, de certo modo

linguagens mltiplas, produzidas no apenas a partir de um segmento social e nem com

finalidades de atender o mercado ou aos anseios capitalistas.

Pensamos ser pertinentes as contribuies dos estudiosos frankfurtianos ao estabelecerem o

conceito de Indstria Cultural, bem como a denncia da postura alienada das massas diante

dos meios de comunicao. No toa que o sistema da indstria cultural provm dos pases

industriais liberais, e neles que triunfam todos os seus meios caractersticos, sobretudo o

39

cinema, o rdio, o jazz e as revistas. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p. 124). Os

autores constroem crticas, mas enfatizam que na sociedade de massas a cultura apenas mais

um produto.

Os Estudos Culturais latino-americanos ajudam a relativizar a abordagem frankfurtiana

salientando a importncia das multiplas mediaes que os sujeitos fazem com os bens

culturais, em diferentes grupos e contextos, pluralizando, em suas formas de apropriao,

contedos supostamente massificados.

Sendo as produes culturais muitas vezes um dos reflexos do mercado, do capital na

perspectiva frankfurtiana, entendemos que a esse respeito os receptores, a partir de seus

contextos, podem diferenciar tais produtos, assim a tendncia de que nesse processo de

comunicao a passividade dos receptores tornou-se uma recorrrncia vem perdendo fora. A

idia, que aqui defendemos, de que h uma interatividade, de que h processos identitrios em

que os receptores, tanto adultos quanto crianas, tambm so ativos vincula-se a perspectiva

dos Estudos Culturais, pois interferem constantemente nas mensagens. Estabelecemos

algumas crticas s consideraes trazidas por Adorno e Horkheimer (1985), sobre a cultura

massiva atrelada ao capital, fazemos algumas distines: os programas radiofnicos

analisados se distanciam da possvel reproduo em que tais produes radiofnicas tendem

a repetir a hegemonia do sistema capitalista, no so o porta voz do capital; ao contrrio

pensamos existir a uma linguagem negociada. Em um mundo miditico, estabelecemos a

idia de plurimdia, ou seja, a interface ou confluncias das mdias e o movimentar-se das

crianas por tais redes contitundo portanto novas interpretaes e apropriao dos produtos

culturais.

A expresso contempornea redes de comunicao, unindo tecnologias em nvel transnacional, tanto quanto pluralidade de mdias interagindo entre si, d a exata idia do que vem a significar a ruptura de fronteiras que a tecnologia atingiu, donde nova configurao poltica dada prpria tecnologia enquano componente do processo social. (SOUSA, 2002, p. 32)

Mauro Wilron Sousa (2002) refora o que chamamos de confluncia ou interface das mdias.

Diz ainda que as fronteiras perdem a existncia, do lugar a um novo modelo de

comunicao que pode ser entendido como redes de comunicao. Criam-se, assim, modos

de percepo e de experincias, pautados nas novas relaes das redes de comunicao. O

40

termo ou expresso comunicao de massa tambm foi questionado por outros tericos a

exemplo da citao seguinte:

J se disse muitas vezes que comunicao de massa uma expresso infeliz. O termo massa especificamente enganoso. Ele evoca a imagem de uma vasta audincia de muitos milhares e at milhes de indivduos. Isto pode perfeitamente vir a calhar para alguns produtos da mdia, tais como os mais modernos e populares jornais, filmes e programas de televiso; mas dificilmente representa as circunstncias de muitos produtos da mdia, no passado ou no presente. Durante as fases iniciais do desenvolvimento da imprensa escrita peridica, em alguns setores das indstrias da mdia hoje (por exemplo, algumas editoras de livros e revistas), a audincia foi e permanece relativamente pequena e especializada. Assim, se o termo massa deve ser utilizado, no se pode, porm, reduzi-lo a uma questo de quantidade. O que importa na comunicao de massa no est na quantidade de indivduos que recebe os produtos, mas no fato de que estes produtos esto disponveis em princpio para uma grande pluralidade de destinatrios. (THOMPSON, 2002, p. 30)

Apresentamos mais um terico que discute algumas questes da comunicao de massa: John

Thompson (2002) nos diz sobre algumas incoerncias do termo massa, fala-nos sobre a

possibilidade de uma vasta audincia, exemplifica que em algumas mdias a audincia

permanece pequena e tambm especializada e assim revisita a discusso da Indstria Cultural.

Diz no se preocupar com a quantidade de sujeitos que tero acesso s mdias, mas refora

que h uma importncia quando tais produtos culturais esto disponveis para uma grande

pluralidade de destinatrios, que chamamos de receptores. H um outro aspecto em que o

termo massa pode enganar. Ele sugere que os destinatrios dos produtos da mdia se

compem de um vasto mar de passivos e indiferenciados indivduos. (THOMPSON, 2002, p.

30).

Thompson (2002) esclarece que os receptores no so to passveis assim, ressignificam as

mensagens que recebem e no podem ser considerados acrticos. Devemos abandonar a idia

de que os destinatrios dos produtos da mdia so espectadores passivos cujos sentidos

formam permanentemente, embotados pela contnua recepo de mensagens similares.

(THOMPSON, 2002, p. 31). Todo esse dilogo estabelece novas formas de comunicao,

assim tanto os produtores de bens miditicos quanto os receptores explicitam suas

particularidades, podendo ou no serem estas aceitas pelos outros, tanto os que podem ser

ouvintes quanto os que podem ser produtores das mensagens miditicas. Peruzzo (2004)

tambm aborda algumas caractersticas sobre a comunicao massiva.

41

Os veculos de comunicao massiva no so, portanto, necessariamente, perversos com relao aos interesses populares. Eles, enquanto meios tcnicos, permitem diversas formas de emprego, como j disse Brecht h muitos anos. Muitas experincias, principalmente no setor da radiofonia, tm demonstrado sua potencialidade quanto a um trabalho educativo na perspectiva emancipadora. (PERUZZO, 2004, p. 131)

O rdio um veculo de comunicao de massa, as produes miditicas radiofnicas so

destinadas a um pblico a priori no identificado, porm as produes dos programas

analisados so destinados s crianas, assim a potencialidade educativa da radiodifuso,

mencionada por Peruzzo (2004), nos demonstra o quanto so possveis os desvios, quando

tratamos sobre a Industrial Cultural. A partir das consideraes de Peruzzo (2004), so

indiscutveis os relevantes servios que o rdio presta s comunidades ou sociedade, em

processos que tangenciam a educao formal e, mesmo, a no-formal. Apesar da importncia

desse veculo de comunicao, no prprio universo miditico de bens e produtos de diversas

mdias se sobrepem relevncia atribuda a radiodifuso, ou seja, o rdio colocado de lado,

em funo do surgimento e da concorrncia com outros veculos de comunicao.

A temtica da relao entre comunicao popular e massiva remete-nos a algumas questes. Por um lado, esgotou-se todo um perodo de anlise dos mass media, que privilegiou a abordagem de suas estruturas, a par de seus processos de manipulao e dos possveis efeitos malficos nos receptores. (PERUZZO, 2004, p. 132)

A Radiodifuso, a partir do excerto acima, uma comunicao massiva, para todos. O

pblico receptor, por sua vez, no prejudicado por ter acesso a uma produo ampliada, ou

seja, para todos, ao contrrio, no se deixa ser manipulado pelo fato de ter acesso a uma

produo miditica massificada. So receptores que no so necessariamente consumidores de

mensagens a partir da lgica do mercado. So sujeitos que podem prezar a qualidade dos

programas veiculados atravs das ondas do ar. Assim, entendemos que a comunicao de

massa carrega, por um lado, algo que pode reforar a dominao, ou seja, o estabelecimento

de uma determinada cultura, mas, por outro lado, nos revela as possveis liberdades de

escolhas. Entre uma estao de rdio e outra, a sintonia do receptor se entrelaa com os

anseios e desejos do produtor.

A constituio da massa, segundo Blumer (1987), marcada por caractersticas prprias;

indicando um grupo coletivo elementar e tambm espontneo, [...] seus participantes so

originrios [...] de quaisquer categoria social, podendo incluir pessoas com diferentes

situaes de classe, vocaes diversas, mltiplas vinculaes culturais e diferentes nveis de

42

riqueza material. (BLUMER, 1987, p. 177). Acrescentamos, no entanto, variaes de faixa

etria, pois desta forma percebemos que as crianas tambm podem ser participantes dessa

coletividade estabelecida por Blumer (1987). O autor fala ainda sobre outros dois aspectos

importantes: sobre a massa, em um desses aspectos, diz que a massa um grupo annimo, ou

seja, em sua composio os indivduos so annimos. J no outro aspecto estabelece que

existe pouca interao ou troca de experincias entre os membros da massa. Se por um lado a

radiodifuso pressupe um distanciamento fsico dos sujeitos, por outro os dilogos

estabelecidos ao longo dos dois programas analisados revelam-nos em parte as vozes

destoantes em relao unicidade enfatizada por Blumer (1987).

J foi salientado que a massa no tem oportunidade de se misturar ou interagir maneira da multido. Ao contrrio, os indivduos esto separados uns dos outros e no se conhecem entre si. Este fato significa que o indivduo situado na massa, ao invs de estar despojado de sua autopercepo, mostra-se pelo contrrio, bastante apto para desenvolver ainda mais sua autoconscincia. Em lugar de agir em resposta s sugestes e ao estmulo exaltado daqueles com os quais interage, atua em resposta ao objeto que atraiu sua ateno e com base nos impulsos despertados pelo mesmo objeto. (BLUMER, 1987, p. 179)

No excerto acima o autor aponta alguns desafios encontrados por aqueles que esto imersos

na sociedade enquanto massa, porm diz tambm que, mesmo no havendo a possibilidade de

compartilhamento de idias e pensamentos no mesmo espao e tempo, estes carregam uma

especificidade, pois constroem uma autopercepo e se mostram aptos ao desenvolvimento da

autoconscincia e por assim dizer interagem de alguma forma com os objetos/sons que mais

lhes despertam ateno.

Apresentadas as crticas caracterstica de ser o rdio uma mdia de massa por privilegiar um

tipo de comunicao onde o produtor se dirige a um grupo infinito de recepo em torno a

uma idia nica, algumas consideraes precisam ser feitas para relacionar e diferenciar a

radiodifuso e algumas iniciativas que se apresentam assumindo outras perspectivas tcnicas

e polticas. Nesse sentido, entendemos ser necessrio esclarecer que os programas analisados

nesta pesquisa Rdio Maluca e Universidade das Crianas se distanciam da perspectiva da

produo massificada, primeiramente, por no serem produzidas e veiculadas a partir de

critrios comerciais e, em segundo lugar, pelo carter cultural e poltico que balizam a

produo de ambos os programas. So exemplos de que, como ponderavam Bertold Brecht e

Walter Benjamin, a tecnologia da radiodifuso pode colocar-se a servio de diferentes

projetos polticos, culturais ou educacionais.

43

2.2 As crianas com audincia endereada: o pioneirismo de Bertold Brecht e de Walter Benjamin

Bertold Brecht, dramaturgo alemo, ao pensar sobre o rdio, recm advento da nova

tecnologia da comunicao do incio do Sculo XX, preocupou-se com o uso dessa mdia.

Brecht foi um dos precursores a articular reflexes sobre a importncia desse novo meio. Seus

vrios textos sobre a radiodifuso, escritos de 1927 e 1932, so conhecidos como Teoria do

Rdio.

Walter Benjamin, terico contemporneo de Brecht, tambm atuou no universo radiofnico,

realizou seu primeiro programa no rdio em maro de 1927 expressando-se atravs das

chamadas radiopeas, inspiradas s peas didticas de Brecht. Benjamin produziu mais de 80

programas radiofnicos, programas pedaggicos entre 1927 e 1933. Segundo Pereira (2007,

p. 4): Benjamin tinha clareza do papel que o rdio podia ocupar na popularizao do saber,

tema que ganhou seu interesse a partir de seu contato com Bertold Brecht e das peas

didticas que este produzia [...]. Benjamin tambm tratou do tema da infncia. O tema da

infncia ocupa lugar relevante na obra de Walter Benjamin, seja para destacar a peculiaridade

da ao e do pensamento das crianas; seja como alegoria para tratar daquilo que no homem

permanece inacabado, inconcluso. (PEREIRA, 2007, p. 2)

Quando tratamos de radiodifuso as reflexes trazidas por Brecht e Benjamin so importantes.

O filosofo Walter Benjamin, pode ser considerado um dos pioneiros na produo de

programas radiofnicos para esse determinado pblico que so as crianas. Poucos so os

escritos que tratam desse pioneirismo que o mesmo nos tenha deixado. Talvez uma das

explicaes da falta de textos deixada por Benjamin possa ser o prprio sentido da

modernidade na qual estava imerso, um mundo repleto de transformaes, mudanas de toda

ordem, tanto nos aspectos polticos quanto sociais, econmicos e tambm culturais. Assim a

emergente forma de envio/transmisses de mensagens pelas ondas no ar ainda era

desconhecida por muitos, e necessitava de investimentos financeiros.

Processos comunicativos diversos, a radiodifuso ganha destaque diante das propostas de

Benjamin, que, por um lado, aproximava-se em parte dos anseios das crianas, mas por outro

lado apresentava tambm gneros diversos em suas mensagens radiofnicas, abordando

44

questes culturais a partir de livros escritos. Foi no perodo que se estendeu entre o final da

dcada de 20 do Sculo XX ao incio da dcada de 30 do mesmo Sculo que tais produes

radiofnicas de Benjamin ganharam destaque, tanto em emissoras de Berlim quanto de

Frankfurt.

As narrativas deste escritor esto repletas de consideraes que se apegam a questes que

tangenciam a infncia. Benjamin se preocupava com as pessoas que tambm eram atingidas

pela comunicao, longe de uma perspectiva de que tais pessoas se comportavam como

massa. Talvez sem estabelecer possveis crticas diante da recepo de mensagens dos meios

de comunicao, suas idias estavam imersas nas possibilidades de crticas dos produtos

culturais a partir dos receptores.

Nos estudos de comunicao as contribuies de Benjamin so importantes, pois tratam do

possvel fascnio pelas novas tcnicas de comunicao e at mesmo dos efeitos negativos

advindos destas mesmas tcnicas. A perspectiva de Walter Benjamim em relao aos estudos

de comunicao desenvolve-se em torno de um duplo eixo [...] entre o fascnio [...] pelas

novas tcnicas de comunicao e a crtica melanclica diante dos efeitos negativos

decorrentes dessas inovaes [...] (BARROS e MARTINO, 2003, p. 201). A lucidez com

que Benjamin tratava dos temas sobre a cultura e que ora se aproximam de aspectos propcios

da comunicao radiofnica para as crianas nos demonstra a importncia da audincia

endereada, ou seja, as peculiaridades do pblico infantil e seus entrelaamentos com

processos de radiodifuso.

As potencialidades do rdio que nas dcadas de 20 e 30 do Sculo XX, chamaram a ateno

de diversos autores como, por exemplo, Walter Benjamin e Bertold Brecht, entre inmeros

outros, intelectuais e produtores da rea cultural, buscavam entender e explorar as

possibilidades estticas e narrativas desse nascente veculo de comunicao que o rdio.

Enquanto isso na dcada de 60, Marshall McLuhan procurava explicar o dispositivo

radiofnico como imploso eletrnica. Nessa dcada tambm o rdio vai ser pensado em suas

potencialidades polticas, embora na dcada de 30 o dramaturgo, poeta e terico alemo

Brecht j houvesse pensado com sutileza a este respeito.

Lembro como ouvi falar do rdio pela primeira vez. Foram notcias irnicas de jornal sobre um furaco radiofnico completo, cuja misso era arrasar a Amrica.

45

No entanto, tinha-se a impresso de que se tratava de assunto no apenas da moda, mas realmente moderno. Esta impresso se desvaneceu muito rpido, quando tambm tivemos ocasio de ouvir rdio. Naturalmente, a princpio ficava-se maravilhado e se perguntava de onde procediam aquelas audies musicais, mas logo tal admirao foi substituda por outra: perguntava-se que tipo de audies procediam do ter. Era um triunfo colossal da tcnica, poder colocar por fim, ao alcance do mundo inteiro, uma valsa vienense e uma receita de cozinha. Como quem diz com toda a segurana. (BRECHT, 2005, p. 35)

No texto acima, Bertold Brecht diz sobre os sons vindos do rdio, nos remete aos processos

tcnicos, aos avanos da cincia e tambm ao alcance que rompe barreiras antes estabelecidas.

Percebemos nas escritas do autor a potencialidade do rdio, porm ele tece crticas falta de

reflexes sobre as finalidades do rdio. Brecht apresenta-nos sugestes, a partir de algumas

anlises para a utilizao do rdio tanto em termos de sua forma, e seu contedo quanto sua

possvel funo social. Em alguns momentos, crtica tambm a forma como a utilizao do

rdio apropriada exclusivamente pela burguesia. Assim, opina que o rdio deveria atender

aos princpios democrticos, remetendo-nos s funes e/ou questes sociais da radiodifuso.

A preocupao de Bertold Brecht com tais aspectos do rdio pode ser verificada nos ensaios

que escreveu sobre as potencialidades deste recm/criado veculo de comunicao de

massa para a sociedade, os quais foram elaborados entre os anos 1927 e 1932.

Na minha opinio, vocs deveriam tentar fazer do Rdio uma coisa realmente democrtica. Neste sentido, obteriam logo uma srie de resultados se, por exemplo, dispondo, como dispem, de maravilhosos aparelhos de difuso, deixassem de estar simplesmente produzindo, sem cessar, em vez de tornar produtivos os acontecimentos atuais mediante sua simples exposio e, em casos especiais, inclusive mediante uma direo hbil e que economiza tempo. (BRECHT, 2005, p.36)

Podemos perceber que, no excerto anterior, Bertold Brecht estava preocupado com a falta de

participao e com a unidirecionalidade do rdio, pelo o fato de este ser usado como

instrumento para determinados fins, como, por exemplo, no caso em que subsidiou as

propagandas do Estado e, por conseqncia, se distanciou da democratizao da

comunicao. Ele, tambm, estava consciente do impacto do rdio na estrutura da vida

familiar, afirmando que a radiodifuso no e um mtodo [...] tampouco basta a radiodifuso

como mtodo para voltar a fazer ntimo o lar, e possvel a vida familiar pelo que continua

sendo discutvel se o que o rdio no pode conseguir de todo o modo desejvel. (BRECHT,

2005, p. 41-42)

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A preocupao de Bertold Brecht se faz presente na contemporaneidade, pois, ao estabelecer

anlises e crticas a partir do processo de radiodifuso, diz que, para alm da simples

transmisso, este veculo de comunicao deve ser entendido como uma mdia de expresso

democrtica. Aqui enfatizamos que as formas de linguagens empregadas em tais expresses

so importantes, principalmente quanto tratamos de processos de radiodifuso para crianas.

A idia de Bertold Brecht nos remete s rupturas de uma das formas de comunicao, a

linear, estabelece que a participao tanto dos ouvintes quanto dos produtores/emissores se

faz necessria. Entrelaamentos e interatividades talvez sejam conceitos teis para uma

reapropriao com vistas produo de programas radiofnicos para crianas.

E para ser agora positivo, quer dizer, para descobrir o positivo da radiodifuso, uma proposta para mudar o funcionamento do rdio: preciso transformar o rdio, convert-lo de aparelho de distribuio em aparelho de comunicao. O rdio seria o mais fabuloso meio de comunicao [...] (BRECHT, 2005, p. 42)

Bertold Brecht (2005) no texto acima ao mencionar os aspectos positivos do rdio, refora

que a comunicao se diferencia da distribuio, diz no bastar que o rdio seja capaz de

emitir; alm de se fazer escutar, o rdio deveria por-se em comunicao com os ouvintes. Ele

chama de radiouvintes os que conseguem esse entrelaamento. Enquanto dispositivo

comunicacional, no temos dvidas que o rdio pode estabelecer uma relao ntima e pessoal

entre o ouvinte e o locutor, isso para no dizer que tal relao pode ocorrer at mesmo no

processo de produo de programas radifofnicos.

Desse modo Bertold Brecht, no segundo quartel do Sculo XX, em parte de seus escritos nos

diz sobre a possvel transformao do rdio, de simples aparelho tcnico de transmisso, a

aparato de comunicao capaz de agregar as diversas vozes, a constituio dos radiovintes.

Ao tratarmos de programas radiofnicos para crianas enfatizamos a importncia de Walter

Benjamin, como j ressaltamos anteriormente, pois, segundo Hagen (2006), em 1927 a

proposta de Benjamin sobre a utilizao do rdio como disseminador de conhecimentos ganha

um novo formato que chamado de rdio-conferncia.

O primeiro programa que Benjamin fez para o rdio foi agendado algumas semanas aps ele voltar de uma viagem de dois meses Moscou, de 26 de dezembro a 27 de janeiro. O programa foi agendado na quinta-feira, 23 de maro de 1927 de 19:45h s 20:15h. 'Jovens Autores (escritores) Russos' foi o ttulo. O anncio no jornal

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Sudwest Rundfunk [...] o rdio apresentou as relaes sociais e artsticas na nova Rssia em uma exclusiva reportagem de Moscou. (HAGEN, 2006, p. 05)12

Uma conferncia que teve como ttulo Escritores russos jovens foi o primeiro programa

que Benjamin apresentou no rdio. A proposta dessa apresentao foi anunciada at mesmo

no dirio Sudweste Rudndfunk Zeitschrift que, segundo o prprio Hangen (2006), abordaria

aspectos vinculados s relaes sociais e artsticas na Rssia. Desta forma entendemos que o

rdio estabeleceria naquele momento, uma possvel forma de comunicao na qual havia uma

preocupao inicial com questes que se vinculassem cultura, literatura, juventude e que

posteriormente, em seus programas a infncia ganharia destaque.

Benjamin disse ser a radiodifuso o resultado de uma troca com a reao dos ouvintes, disse

como aquele que, a partir das experincias que teve com tal mdia, conseguiu construir pontos

que so significantes em tal processo. Benjamin no se atm s caractersticas tcnicas do

veculo de comunicao que o rdio, em seus escritos quase no aparece a palavra mdia,

talvez pelos costumes da poca, mas isto no corresponde a uma ausncia sobre o pensar

desse novo meio de comunicao. Benjamin no diz mdium porque o rdio em Weimar

tipicamente era visto como uma instituio cultural e no como um mdium [...] (HAGEN,

2006, p. 21)13. Ao contrrio, ele enfatiza que o rdio est por toda parte e, por assim dizer,

demonstra-nos que a sua utilizao corresponde, em parte, ao entendimento das outras

vozes, das discursividades que circulam.

Assim, diz Benjamin, o rdio tudo a respeito da voz, dico e fala. Isto , em uma palavra, ele () o aspecto tcnico e formal, que em muitos casos pode tornar insuportveis as questes que so para o pblico as que mais valem a pena conhecer a respeito, enquanto que, em raros casos, ele pode tambm tornar as mais obscuras encantadoras ( H anunciantes aos quais se ouve mesmo quando eles lem boletins metereolgicos.) (HAGEN, 2006, p. 16)14.

12 Citao traduzida por mim do original em ingls: The first program Benjamin did for radio was scheduled some weeks after he came back from his two month journey to Moscow, December 26 to January 27. The program was scheduled on Thursday March 23rd 1927, from a quarter to eight until quarter past eight in the evening. Young Russian writers was its title. The announcement in the journal Sdwest Rundfunk Zeitschrift [] the radio presented the social and artistic relations in new Russia in an exclusive report from Moscow. (HAGE, 2006, p. 05) 13 Citao traduzida por mim do original em ingls: Benjamin doesnt say mdium because radio in Weimar typically was seen as a cultural institution and not as a medium [...] (HAGEN, 2006, p. 21). 14 Citao traduzida por mim do original em ingls: Therefore, says, Benjamin, radio is all about voice, diction and speech. That in one word, it [is] the technical and formal aspect, which in so many cases can make unbearable the issues which are to the audience most worth knowing about, whereas, in rare cases, it also can make the most obscure ones enchanting (There are announcers to whom one listens even when they read the weather forecast). (HAGEN, 2006, p. 16)

48

No texto acima podemos verificar que Benjamin refora que o rdio est por toda parte,

sendo a voz, a dico e a fala por sua vez importantes componentes para viabilizar o

processo comunicativo entre humanos. Mas essa trade pode fazer com que a utilizao do

aparato tcnico em que o rdio se inclui possa ser insuportvel, isso pela falta de qualidade

dos programas radiofnicos. Por outro lado as audincias podem gostar tanto dos programas

que a simples previso do tempo tambm desperte o interesse por aqueles que so ouvintes de

determinados programas radiofnicos. Talvez pudssemos dizer que Benjamin se preocupava

com as pessoas que receberiam os produtos miditicos, ou seja, as mensagens da

radiodifuso. Outro ponto que Benjamin considerava as crianas como sujeitos sociais; essa

dimenso revela-nos parte da discursividade que estabeleceu em seus estudos.

[...] Benjamin revela um profundo e sensvel conhecimento sobre a criana como indivduo social e fala de como ela v o mundo com seus prprios olhos; no toma a criana de maneira romntica ou ingnua, mas a entende na histria, inserida numa classe social, parte da cultura e produzindo cultura. (KRAMER, 2007, p. 31)

Se, por um lado, havia a preocupao de Benjamin sobre parte da produo cultural e,

especificamente, sobre os programas transmitidos atravs da radiodifuso, ou seja, atravs de

suas produes, preocupava-lhe tambm o contexto em que tais mensagens radiofnicas

chegavam. Percebe-se, desta forma, que a dimenso filosfica, bem como a poltica, esto

calcadas na histria e se voltam cultura. (KRAMER, 2007, p. 31).

Entendemos que o processo de discursividade pautado na linearidade rompido por

Benjamin, constituem-se, assim, novas perspectivas de cruzamentos, de intercmbios de

vozes que possibilitaro a renncia do eu, da individualidade; tal vis no campo da

comunicao apresenta-se como pluralidades narrativas. Paradoxalmente, a renncia

autoridade do autor permite a ecloso de um texto luminoso no qual ele reaparece como um

voz narrativa nica, surgindo do entrelaamento da sua histria com a histria dos outros e

poderamos talvez acrescentar, do Outro15. (GAGNEBIN, 2004, p. 83). Assim podemos

perceber que a palavra outro mencionada com a primeira letra maiscula, Outro, o que

corresponde, em certo ponto, importncia que Gagnebin (2004) atribui ao pensamento de

Benjamin, quando tratamos dos possveis entrelaamentos de culturas, de histrias, de

memrias e, por assim dizer de narrativas. O narrador retira da experincia o que ele conta:

sua prpria experincia ou a relatada pelos outros. (BENJAMIN, 1994, p. 201). Essa troca do

15 O grifo nosso.

49

eu como o outro a que Benjamin se refere importante para pensarmos a comunicao

radiofnica. O locutor que, diante do microfone, estabelece uma forma de dilogo com

aqueles que esto do outro lado da linha pode considerar as especificidades do contexto

scio-cultural a partir de narrativas, de suas vivncias, de suas experincias. Entre emissor e

destinatrio a mensagem pode carregar as narrativas de contextos espaciais diferenciados, mas

que em determinados momentos se entrecruzam.

A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio de arteso no campo, no mar e na cidade -, ela prpria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicao. Ela no est interessada em transmitir o puro em-si da coisa narrada como uma informao ou um relatrio. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retir-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mo do oleiro na argila do vaso. (BENJAMIN, 1994, p. 205)

De certa forma algumas discursividades advindas da radiodifuso podem ser entendidas como

narrativas, uma vez que o locutor como narrador deixe transparecer suas intencionalidades.

Comum a todos os grandes narradores a facilidade com que se movem para cima e para

baixo nos degraus de sua experincia, como numa escada. Uma escada que chega at o centro

da terra e que se perde nas nuvens a imagem de uma experincia coletiva [...]

(BENJAMIN, 1994, p. 215). Narrativas que permeiam alteridades, discursividades que

repletas de experincias enfatizam o ns, a coletividade. Os estudos de recepo e as prticas

culturais coletivas do cotidiano tambm ganharam destaque atravs das escritas de Walter

Benjamin.

Do ponto de vista da comunicao, a diversidade de gneros experimentados e os questionamentos feitos sobre o meio do pistas de que havia uma intencionalidade filosfica no uso do rdio, uma mdia ainda em construo, popularizada para dar uso comercial aos aparelhos criados com fins militares na primeira guerra. Essa experincia, embora no tenha sido objeto de uma anlise filosfica por parte de seu autor durante o seu processo de desenvolvimento, foi parcialmente organizada ao seu final e, certamente, em muito contribuiu para a contundente reflexo sobre a dimenso poltica da tcnica que apareceria no clssico ensaio sobre a obra de arte na era de sua reprodutibilidade tcnica, em 1935-1936. (PEREIRA, 2007, p. 3)

No texto acima, Pereira (2007) demonstra a existncia de intencionalidade filosfica na

utilizao do rdio por parte de Benjamin. Percebemos que a radiodifuso tambm implica,

quando analisada em seus aspectos de reproduo tcnica de uma obra de arte, portanto uma

questo relacional entre arte e poltica. Benjamin (1994) tambm enfatizou que, com o

advento das chamadas tcnicas de reproduo, chegado o momento em que a arte escapa do

culto aristocrtico, ganhando, assim, um novo estatuto. A esse respeito entendemos que o

50

rdio tambm pode ser includo neste novo estatuto, pois tambm reproduz. Com salientou

Hager (2006), que dividiu os trabalhos desenvolvidos por Benjamin em categorias entre as

quais a radiodifuso, pensamos que a utilizao do rdio enquanto veculo de simples

transmisso alterado para veculo de comunicao. As mensagens radiofnicas, nesta lgica

do avento das tcnicas de reproduo, comeam a perder o carter de raridade, o carter de

exclusividade. o que Benjamin (1994) chamou de perda da aura, sons que se multiplicam

pelas ondas do ar, uma nova percepo atrelada dimenso da sociedade com a arte.

A reproduo tcnica do som iniciou-se no fim do sculo passado. Com ela, a reproduo tcnica atingiu tal padro de qualidade que ela no somente podia transformar em seus objetos a totalidade das obras de arte tradicionais, submetendo-as a transformaes profundas, como conquistar para si um lugar prprio entre os procedimentos artsticos. (BENJAMIN, 1994, p. 167).

A partir das consideraes mencionadas no texto acima, parece-nos que Benjamin (1994)

estabelece uma proposta otimista em relao reproduo tcnica; alm do cinema e da TV, o

rdio aqui percebido como meio de comunicao capaz de promover hetorogeneidade

cultural. Lembramos, que em contraposio a essa idia de Benjamin (1984), Adorno e

Horkheimer (1985) dizem que a apropriao e produo das obras culturais em uma sociedade

de massas vincula-se especificamente ao carter comercial, criticam a perspectiva otimista

estabelecida por Benjamin (1984) no que diz respeito relao entre a tcnica e a arte.

Pelo exposto compreensvel que dos 86 programas radiofnicos produzidos por Benjamin

de 1927 a 1933, em sua maioria os dilogos com as crianas estiveram presentes. Se

Benjamin no fala diretamente com o pblico infantil em seus relatos radiofnicos, fala de

suas experincias enquanto criana. Recorre oralidade para demonstrar parte do passado que

viveu, em suas lembranas ou memrias. Em um dos relatos radiofnicos intitulado de Un

Pilluelo Berlines, Benjamin nos diz sobre parte de suas memrias.

Acho que se vocs pensarem um momento, podero lembrar ter visto algumas vezes armrios que mostravam nas suas portas uma mistura abarrotada de desenhos, paisagens ou retratos, flores, frutos ou coisas semelhantes, gravados na madeira. Chama-se isso de trabalho de marchetaria. Pois, hoje eu quero mostrar imagens e cenas parecidas, porm no gravadas em um armrio, mas atravs da palavra. Vou lhes falar da infncia de um berlinense que foi criana h uns cento e vinte anos, e vou-lhes explicar como esse menino via Berlim, e que tipo de brincadeiras infantis e

51

travessuras eram freqentes naquela poca. (BENJAMIN, 1987, P. 23).16

Ao falar de suas experincias, Benjamin recorre oralidade, diz que, apesar das variadas

formas de lembrarmos de diversas coisas, a palavra seria especificamente utilizada nesse

jogo da memria, assim recorda de parte de sua infncia. Ao dizer da infncia, de suas

particularidades, consideramos que Benjamin prezava as possibilidades comunicacionais do

rdio. Em suas mensagens radiofnicas o pblico infantil deveria ser atingido.

As palestras radiofnicas para crianas so um dos destaques que aqui abordamos enquanto

uma das propostas de Benjamin, os cuidados que empregou em suas falas para as crianas lhe

rendeu possveis interfaces com os processos de ensino e aprendizagem. Como o texto nos

demonstra como un pedagogo tan elegante, ou seja, um pedagogo elegante. Outro detalhe

que as narrativas de Benjamin eram importantes dentro de uma perspectiva que pressupem

uma comunicao alternativa.

Em um mundo imerso em tecnologias diversas, o rdio ainda evidencia que no pode ser

considerado apenas como mero veculo de transmisso. Enquanto aparelho de

comunicao, faz surgir na contemporaneidade novas reflexes pautadas nas vozes de

Benjamin e Brecht.

O rdio carrega diversas possibilidades enquanto veculo de expresso, com linguagens e

contedos diversificados e muitas vezes endereados ao pblico infantil, mas com

perspectivas polticas e tambm filosficas.

16 Citao traduzida por mim do original em espanhol: Creo que si pensis un momento recordaris haber visto alguna vez armarios que mostraban en sus puertas abigarrados dibujos, paisajes o retratos, flores, frutos o cosas semejantes grabados en la madera. Eso se llama trabajo de marquetera. Pues bien, hoy os quiero mostrar imgenes y escenas parecidas, pero no grabadas en un armario, sino a travs de la palabra. Os voy a hablar de la infancia de un berlins que fue nio hace unos ciento veinte aos, y os explicar cmo este nio vea Berlin, y qu tipo de juegos infantiles y travesuras eran corrienles por aquel entonces.(BENJAMIN, 1987, p. 23)

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CAPTULO 3 - REFLEXES SOBRE A INFNCIA E PESQUISA COM CRIANAS

3.1 Aspectos conceituais

A idia de que o mundo dos adultos no se distingue do mundo das crianas ganhou

notoriedade na poca medieval, quando no havia um conceito de criana, mas sim o

entendimento de que o mundo adulto agregava sujeitos de faixa-etrias diferentes. Ser criana

era compartilhar dos mesmos interesses dos adultos, assim no havia a prioridade de repensar

questes culturais a partir das realidades das crianas. Ao tratarmos de aspectos conceituais,

trazemos alguns dados sobre a indiferenciao das crianas em relao aos adultos na poca

medieval. Se por um lado havia a impossibilidade de acesso das crianas alfabetizao, por

outro explicita-nos a inexistncia de conceito de infncia. Assim tanto os adultos quanto as

crianas eram parte de uma sociedade sem distines nos aspectos sobre a faixa-etria, e por

assim dizer as peculiaridades do universo infantil eram submetidas constantemente s culturas

adultas.

Em uma sociedade predominantemente oral, a comunicao face a face se fazia presente,

determinando os processos comunicativos de interao. Thompson (2002, p. 28) menciona, a

esse respeito, dizendo que: Uma conversa acontece num contexto de co-presena; os

participantes esto imediatamente presentes e partilham um mesmo sistema referencial de

espao e de tempo. Sendo a poca medieval aquela na qual a oralidade tinha destaque, no

havia garantias sobre a interao dialgica dos discursos e/ou falas entre crianas e adultos,

mesmo quando verificamos que a comunicao face a face se destacava. Postman (1999) por

vez tambm fala sobre alguns aspectos da comunicao face a face.

Isto significava que todas as interaes sociais importantes se realizavam oralmente, face a face. Na Idade Mdia, conta-nos Barbara Tuchman, o leigo comum adquiria conhecimento principalmente de ouvido, por meio de sermes pblicos, dramas sacros e recitais de poemas narrativos, baladas e contos. Desta forma a Europa voltou a uma condio natural de comunicao humana, denominada pela fala e reforada pelo canto. No curso de quase toda a nossa histria foi desta maneira que os seres humanos conduziram seus negcios e criaram cultura. (POSTMAN, 1999, p. 27)

Os seres humanos, diante dos dizeres de Postman (1999), constituram mundos culturais a

partir de suas necessidades, porm muitas questes pertinentes infncia no se destacaram

53

na poca. O mundo revelado atravs das possveis culturas era aquele dos adultos, uma viso,

adultocentrica. Num mundo oral no h um conceito muito preciso de adulto e, portanto,

menos ainda de criana. (POSTMAN, 1999, p. 28). Mesmo sem a definio precisa de tais

conceitos, a discursividade dos adultos ganhava destaque em relao das crianas; no

mundo medieval, em muitos casos no se distinguiam adultos e crianas, mas tambm no se

valoravam as culturas infantis ou aspectos vinculados aos cotidianos infantis. Ainda segundo

Postman (1999), as crianas, quando tinham acesso aos cdigos da linguagem, isso por volta

dos sete anos de idade, quando j interpretavam os discursos dos adultos, eram consideradas

j adultas, capazes de entender as palavras.

Outro destaque que aps o invento da prensa tipogrfica de Gutenberg, em meados do

Sculo XV, a estrutura da comunicao, antes predominantemente oral, passou a ter destaques

enquanto escrita, o que no corresponde extino de prticas ainda vinculadas tradio

oral da poca.

Uma mquina pode nos fornecer um novo conceito de tempo, como fez o relgio mecnico. Ou de espao e escala, como fez o telescpio. Ou de conhecimento, como fez o alfabeto. Ou das possibilidades de aprimorar a biologia humana, como fizeram os culos. Como ousou dizer James Carey, podemos descobrir que a estrutura de nossa conscincia vem sendo remodelada para corresponder estrutura da comunicao; e que nos tornamos aquilo que fizemos. (POSTMAN, 1999, p. 37)

Algumas mudanas sociais se fizeram presentes na poca medieval, a chamada nova idade

adulta previa o domnio dos signos e smbolos escritos e, em especfico, do alfabeto. Ter

acesso ao mundo das escrituras enquanto leitores garantia aos sujeitos a insero a uma nova

fase, a do ser adulto. Ainda de acordo com Postman (1999, p. 41), A oralidade emudeceu e o

leitor e sua reao ficaram separados de um contexto social. Silenciar-se; assim a nova

tecnologia entendida enquanto tipografia fez dos sujeitos novos leitores, agora das palavras

escritas. A idade adulta deveria ser uma conquista, longe dos aspectos biolgicos, interesses

alterados, essa tal prensa tipogrfica modificou cotidianos e, de alguma forma, forou a

nascente discusso sobre a prpria infncia. Se, por um lado, na Idade Mdia no havia a

distino entre adultos e crianas, por outro o domnio de cdigos escritos possibilitava o

aparecimento dos novos adultos. Um novo mundo a ser trazido pela modernidade, textual por

inveno, a emergente cultura impressa convida-nos a refletir sobre a materialidade do livro,

das pginas escritas de forma gil, por mquinas, ao invs de copistas.

54

Mas, quando a prensa tipogrfica fez a sua jogada, tornou-se evidente que uma nova espcie de idade adulta tinha sido inventada. A partir da a idade adulta tinha de ser conquistada. Tornou-se uma realizao simblica e no biolgica. Depois da prensa tipogrfica, os jovens teriam de se tornar adultos e, para isso, teriam de aprender a ler, entrar no mundo da tipografia. E para realizar isso precisariam de educao. Portanto a civilizao europia reinventou as escolas. E, ao faz-lo transformou a infncia numa necessidade. (POSTMAN, 1999, p. 50)

A partir do explicitado no excerto acima, pode-se compreender que a concepo de infncia,

na Idade Moderna, tornava-se uma necessidade. Ainda, segundo Postman (1999, p. 51), a

partir dos Sculos XVI e XVII que a infncia passa a existir como uma categoria diferenciada

dos adultos. Nesse sentido a construo de uma viso de infncia nasce da conscincia dos

adultos de que as crianas tinham formas diferentes de lidar com o saber. A criana passa a

ser objeto de interesse para os adultos, assim a separao entre crianas e adultos era

conduzida no de forma a garantir as peculiaridades da infncia, mas por acreditar que tal

separao seria uma das necessidades para uma reintegrao no mundo dos adultos, agora

letrados. E foram separadas porque passou a ser essencial na sua cultura que elas

aprendessem a ler e escrever, e a ser o tipo de pessoa que uma cultura letrada exigia.

(POSTMAN, 1999, p. 51). Verificamos que as crianas e adultos participavam de uma nica

cultura, a dos adultos, aqueles que, j letrados, definiam as particularidades, os fazeres e

pensares tambm das crianas.

Postamn (1999) cita, tomando como exemplo o caso especfico da Inglaterra, que a infncia

findava aos 7 anos de idade. O primeiro estgio da infncia terminava no ponto em que o

domnio da fala era alcanado. O segundo comeava com a tarefa de aprender a ler.

(POSTMAN, 1999, p. 56). O autor nos remete s limitaes do que se entendia como

conceituao de ser criana, e diz, ainda que a palavra child17 era utilizada na poca para

denominar os adultos que no sabiam ler, adultos que na maior parte das vezes eram

entendidos como intelectualmente infantis. Podemos aqui destacar diante das consideraes

de Postman (1999) que os adultos que no sabiam ler e escrever ganhavam uma conceituao

de intelectualmente infantis, ou seja, ser criana era sinnimo de atraso, de incompletude.

Surge ento, no final do Sculo XVI, uma nova categoria, a infncia se tornou uma categoria

social e intelectual. (POSTMAN, 1999, p. 57). Por um lado, a constituio da infncia era

considerada a partir do invento da imprensa, mas, por outro, era uma juno de vrios

aspectos aos quais tambm se agregou a imprensa.

17 A traduo : criana.

55

[...] a moderna concepo da infncia surgiu como resultado de uma complexa rede de inter-relaes entre ideologia, governo, pedagogia e tecnologia, cada uma delas tendendo a reforar as outras. Como resultado, ela desenvolveu-se de formas diferentes e em diferentes nveis, dependendo de cada contexto nacional. (BUCKINGHAM, 2000, p. 59)

Complementando a categoria de infncia, enquanto resultado de uma complexa rede,

Buckingham (2000) apresenta outros entendimentos do significado da mesma poca. Dito

isto, possvel entender parte dos elementos que permitem repensar questes pertinentes

infncia. As crianas, que at ento eram vistas como adultos em miniatura, passaram a

constituir uma nova categoria, agora a partir de suas particularidades. A esse respeito

podemos at mesmo mencionar as diferenciaes no vesturio, crianas que no mais eram

vestidas como adultos. Tambm no negamos que a esse respeito o pertencimento a classe

abastada era um facilitador do novo visual, assim as crianas em determinados contextos no

eram mais vistas como adultos em miniaturas.

Pode-se dizer que a viso de infncia como categoria diferenciada surge restrita e em classes

mais abastardas a burguesia. Postman (1999) nos fala sobre a inveno de uma concepo

moderna de infncia pela qual diz ser a imprensa a responsvel; ao mesmo tempo enfatiza que

a TV hoje faz com que essa concepo seja revista. Ao fazer isso, o autor d nfase ao papel

das tecnologias em cada poca, na medida em que as tecnologias tanto respondem demanda

destas diferentes pocas quanto mudam a maneira dos sujeitos se verem, colocando em crise

as crenas dessas mesmas pocas.

Buckingham (2000, p. 8) diz que: A idia de infncia uma construo social, que assume

diferentes formas em diferentes contextos histricos, sociais e culturais. Por isso, o autor em

seus estudos menciona infncias, utiliza o plural como forma de demonstrar as pluralidades

existentes sob a questo da infncia.

Ao tratarmos de infncias e no de infncia, podemos perceber que nas consideraes de

Buckingham (2000) h uma preocupao com os aspectos que tambm circulam ou que esto

presentes muitas vezes no entorno das crianas. A no generalizao de uma concepo de

infncia constatao contempornea permite-nos um melhor entendimento de que, dos

tempos modernos pr c, o debate em torno de questes sobre a infncia, ou infncias, se

tornou uma necessidade, isso diante das constantes mudanas tecnolgicas, tanto as

tradicionais quanto as mais recentes.

56

Quando pensamos no possvel entrelaamento de infncias com as mdias no sentido em que

as crianas possam ser protagonistas, os significados prprios de seus fazeres e pensares

atravessam aos diversos contextos, assim constituem-se importantes processos discursivos ou

redes de conhecimentos.

A idia de que a infncia uma construo social hoje um lugar-comum na histria e na sociologia da infncia e est sendo cada vez mais aceita at mesmo por alguns psiclogos. A premissa central aqui a de que a criana no uma categoria natural ou universal, determinada simplesmente pela biologia. Nem algo que tenha um sentido fixo, em cujo nome se possa tranquilamente fazer reivindicaes. Ao contrrio, a infncia varivel histrica, cultural e socialmente varivel. As crianas so vistas e vem a sim mesmas de formas muito diversas em diferentes perodos histricos, em diferentes culturas e em diferentes grupos sociais. Mais que isso: mesmo essas definies no so fixas. O significado de infncia est sujeito a um constante processo de luta e negociao, tanto no discurso pblico (por exemplo, na mdia, na academia ou nas polticas pblicas) como nas relaes pessoais, entre colegas e familiares. (BUCKINGHAM, 2000, p. 19)

A infncia enquanto categoria social no se limita aos aspectos biolgicos, e no se vincula s

definies advindas especificamente das instituies escola e famlia; , por assim dizer, um

entrelaamento destas com as diversas redes de bens culturais e/ou simblicos que tambm

circulam pelas mdias.

Ao mencionarmos a famlia e a escola, trazemos ao debate questes sobre os cuidados de uns

(adultos) com os outros (crianas) e que de alguma forma carregam as responsabilidades de

moldar as crianas, quando estas permitem. Justifica-se tal necessidade para que haja

adultos educados, obedientes e responsveis, que assimilem alguns comportamentos

estabelecidos a partir das especificidades dos prprios adultos.

Ao avaliarmos algumas questes sobre tais culturas, as dos adultos e as das crianas, fica-nos

evidente que a adultizao da criana ainda uma constante em muitos lugares. Os adultos

estabelecem aquilo que julgam importante para as crianas, mas, em muitos casos, desprezam

o entrelaamento de saberes constitudos ao longo das experincias das crianas diante de um

mundo informacional, plugado em diversas mdias. Assim diante, de uma concepo ainda

adultocntrica, pretendem estabelecer uma cultura homognea, que nem sempre leva em

considerao as capacidades e especificidades infantis.

57

Entendemos que as mudanas advindas das sociedades industriais ao longo do Sculo XX

possibilitaram um repensar sobre as infncias atuais. A idia de promover os processos de

alfabetizao e escolarizao, juntamente com o combate ao trabalho infantil, tambm

permitiu ampliar a concepo moderna de infncia, que, at ento, desconsiderava as

necessidades das crianas pobres. Com isso, buscou-se a no fixidez de uma estrutura de

pensamento que pudesse afirmar, de forma nica, a representao da infncia. Assim temos

modos de viver a infncia que passaram a ser reconhecidos.

O mundo contemporneo, com seus avanos tecnolgicos que se oferecem de forma diferente

a adultos e crianas, exigiu que se repensasse sobre o significado da infncia. Lugares at

ento cristalizados da infncia, como o despreparo, o no saber, a necessidade de tutela, foram

postos em xeque atravs da ampliao do olhar lanado s crianas na busca de reconhecer

suas caractersticas.

Entretanto, paradoxalmente, a ampliao desse olhar mostrou tambm aos adultos que cada

vez mais as crianas se envolvem em atividades consideradas de adultos, a exemplo do

trabalho, do consumo, de crimes, de erotizao precoce etc. Assim, percebemos a

insuficincia de um conceito nico de infncia e a necessidade de construo de uma

concepo tecida a partir de significados fornecidos pela compreenso dos adultos sobre o que

paream ser as diversas infncias.

Tomaremos, ento, como base, aqui, uma concepo movente de infncia, que no seja fixa

e que seja vista como um jogo de negociaes. Movimentar-se, esse um princpio norteador

para uma nova concepo de infncias, que tratamos como infncia movente e que se

contrape ao modelo tradicional de incio da poca moderna. Longe de estabelecer

comparaes com outros possveis modelos, chamamos a ateno para as condies atuais de

ambientes freqentados pelas crianas em que predominam o desejo destas pelas diversas

mdias ou produtos miditicos. Estabelecemos aqui as redes de smbolos e/ou signos que

chamam a ateno das crianas e que, ao mesmo tempo, so alteradas a partir das

especificidades dos contextos em que circulam.

A experincia da infncia tem sido constantemente alterada, influenciada pelo movimentar-se

nas redes de bens culturais. Desta forma, os adultos se vem obrigados a rever seus

entendimentos sobre tal concepo. So forados a interagir com as especificidades das

58

crianas pequenas, que, por sua vez, utilizam linguagens diversas, desde as representaes

grficas aos smbolos e signos sonoros, nos ambientes que freqentam.

Compreender a criana na esfera da cultura e da vida social contempornea exige-nos reportar s concepes de infncia tecidas nas relaes construdas por crianas e adultos em diferentes pocas e culturas. Prticas culturais compartilhadas por crianas e adultos so desenhadas por modos de representar tanto a infncia quanto a vida adulta. Compreender a criana na histria e na cultura, portanto, significa recompor e compor essas prticas, os significados e as imagens construdas em torno do mundo e da experincia infantil. Longe de ser um conceito abstrato, destitudo de valores e perspectivas sociais, e uma categoria exclusivamente biolgica ou psicolgica, a infncia um discurso que, ao se transformar ao longo dos tempos, demarca lugares e papis sociais a serem assumidos por crianas e adultos. Assim, no h como refletir sobre a infncia fora do movimento da histria, da cultura e das relaes sociais entre crianas e adultos, que definem e redefinem seus significados. (SALGADO, 2005, p. 40)

As crianas so sabidas ao se movimentarem e, como Salgado (2005) nos diz, a infncia

tambm construda. Assim as recomposies de prticas culturais interferem constantemente

no tempo de ser criana, nos fazeres das crianas e tambm nos pensares das crianas.

Infncias e redes comunicacionais, diante das novas e no to novas redes de comunicao

que as vozes das crianas so veiculadas, mdias que, em muitos casos, viabilizam

discursividade a partir dos saberes infantis entrelaados, saberes constitudos pelo

movimentar-se, um hibridismo de culturas.

3.2 Infncia e mdias

Partes das mltiplas linguagens miditicas, a exemplo do rdio, que tambm compem os

contextos sociais das crianas aqui ganham destaque, por se tratar de um conjunto de signos

utilizados em processos comunicativos diversos. Ao falarmos de mdias recordamos que esta

pesquisa foi pensada e desenvolvida com vistas a investigar processos de comunicao

radiofnica com crianas.

As mdias produzem bens culturais que muitas vezes atraem as crianas, podem at mesmo

instigar o repensar de fatores culturais, polticos, sociais e econmicos. No temos a pretenso

de discorrer sobre se as mdias antigas ou atuais incentivam o consumo ou enganam os

telespectadores. Interessam-nos neste momento alguns conceitos que iro nos auxiliar no

melhor entendimento dos possveis entrelaamentos destas entre culturas infantis.

59

Acreditamos que programas radiofnicos tambm alimentam a vida social da infncia.

Neste aspecto a radiodifuso em questo estabelece sons que podem revelar e consolidar

elementos com os quais os sujeitos tambm criam laos de identificao, redes culturais, bens

simblicos; e, ao mesmo tempo, reinventam novos traados, no que diz respeito a ser criana.

A inteno de construir alguns conceitos que sustentem nossos dilogos se far presente ao

longo deste texto.

No concordamos com conceitos que apresentam as mdias como algo que corrompe os

sujeitos, adultos e crianas, impondo pensamentos e idias. Ao contrrio, pensamos sobre a

idia de uma infncia dotada de capacidade crtica de julgamento, sem desconsiderar as

ideologias envolvidas. Assim, o processo de constituio de produtos miditicos, bem como a

sua recepo, no est atrelado ao vis de uma mdia que muitos entendem como dominadora,

que se impe aos expectadores e/ou ouvintes determinados conceitos e que, por sua vez,

dizem ser as crianas sujeitos passivos.

O pressuposto que, em algum sentido, o espectador de televiso ou o ouvinte de rdio (e no apenas o leitor de jornal) so ativos; de que ver, ouvir e ler requerem algum grau de comprometimento, algum tipo de escolha, de conseqncia. O pressuposto que nos aproximamos de nossa mdia como seres conscientes [...]. E o pressuposto que os significados por ns produzidos que envolvem nossa mdia, que podem exigi-la ou depender dela, so significados como outros quaisquer e produto de nossa capacidade, como seres sociais, de ser no mundo. (SILVERSTONE, 2002, p. 111-112)

As mdias, tanto as tradicionais quanto as recentes, desde a impressa, passando pela telegrafia,

pelo rdio, pela telefonia, pela televiso e tambm pela internet, nos demonstram formas ou

novas maneiras de transmitir mensagens e tambm de produzi-las. Dos rdios analgicos as

Web Rdios, os avanos tecnolgicos se fazem presentes em nossa vida, em meu caso

particular o rdio esteve presente desde criana. A plurimdia, ou seja, em um sentido plural, a

mdia est por toda parte, na vida das crianas no mundo atual. As crianas tambm se

aproximam da plurimdia a partir de seus entendimentos, criando significados prprios. So

sujeitos que, diante de tantos aparatos tcnicos e tecnolgicos, demarcam seus territrios de

forma lcida e ldica e por assim dizer, movimentam-se entre fronteiras.

Muitas crianas vivem em ambientes repletos de mdias, sejam as eletrnicas ou no,

constituem experincias plurais a partir de seus usos, em casa, na escola, na vizinhana ou em

outros espaos, esto imersas em ambientes miditicos.

60

Por diversas razes, as mdias eletrnicas tm um papel cada vez mais significativo nas definies das experincias culturais da infncia contempornea. No h mais como excluir as crianas dessas mdias e das coisas que elas representam, nem como confin-las a materiais que os adultos julguem bons para elas. A tentativa de proteger as crianas restringindo o acesso s mdias est destinada ao fracasso. Ao contrrio, precisamos agora prestar muito mais ateno em como preparar as crianas para lidar com essas experincias, e, ao faz-lo, temos de parar de defini-las simplesmente em termos do que lhes falta. (BUCKINGHAM, 2000, p. 32)

Alm das mdias eletrnicas, a presena do rdio e da TV vem se tornando algo corriqueiro

em vrias sociedades, principalmente quando consideramos o acesso das crianas pequenas a

tais mdias. Parece que elas so atrativas o bastante para despertarem curiosidades. Tudo isso

nos fora a tomar a concepo de infncia, como ressalta Buckingham (2000), no por aquilo

que lhes falta, mas por suas especificidades, por suas particularidades. So experincias que

diferem de outros tempos.

Somos adultos e crianas que na tessitura de novos saberes, mesmo a partir de velhas mdias,

atribumos sentidos e significados aos produtos culturais que circulam em nossos contextos.

Das representaes grficas aos sons, estabelecemos trocas simblicas importantes para o

repensar de elementos sociais.

Existe um fora do texto que, em nossos estudos, requer um olhar talvez mais especfico e, de fato, para alm do texto. O sujeito da comunicao o sujeito da linguagem mas mais; um sujeito social, um sujeito em relao. E tal relao mediada pelo texto, mas no se resume a ele. Enfim, nossas indagaes no so respondidas sem o aporte das cincias sociais e da linguagem mas tambm no so bem ou totalmente por elas (ou outras que foram nossa base de origem, digamos assim). Em suma: o olhar comunicativo se apia e herdeiro das diferentes tradies que recortam os vrios elementos que compem o processo comunicativo. Mas se distingue delas exatamente porque busca a sua soma e convergncia: estudar a comunicao estudar a relao entre sujeitos interlocutores; a construo conjunta de sentidos no mbito de trocas simblicas mediadas por diferentes dispositivos uma prtica viva que reconfigura seus elementos e reconfigura o social. (MAIA e FRANA, 2003, p.199)

Essa uma abordagem comunicacional hbrida, mas que tambm nos revela particularidades,

peculiaridades. O movimentar-se pelas redes de bens culturais estabelece trocas simblicas,

uma construo que, de acordo com Maia e Frana (2003), se constitu de forma conjunta nas

trocas simblicas. Mdia, neste ponto, comunicao, produo discursiva capaz de instigar

a produo cultural.

Parece-nos que um dos papis da comunicao, ou seja, do campo miditico na era da

informao, passa a ser o de, estrategicamente, construtor de novas formas de sociabilidade e

61

de discursividade permitidas pelas novas tecnologias ou at mesmo pelas formas inovadoras

de construo da infncia.

s relaes de face a face que definiam a vizinhana, de que se alimentava tradicionalmente a sociabilidade imediata, fundamentada na pertena a uma comunidade de enraizamento, uma nova forma de sociabilidade pode estar a substituir-se, uma forma aparentemente dependente, no da pertena a uma mesma comunidade de vida, mas de escolhas individuais aleatrias, ao sabor dos interesses e disposies do momento, em funo das capacidades tecnolgicas de mediao disponveis. (RODRIGUES, 1993, p. 196)

Rodrigues (1993) nos diz sobre a capacidade de mediao, fala-nos sobre as novas e possveis

formas de sociabilidade. Lembramos que a comunicao face a face, aquela em que o emissor

e o receptor esto em um mesmo espao e tempo, em que se d a comunicao direta, no se

distancia do que chamamos de plurimdia. Tal comunicao direta se estabelece

independentemente dos nveis de alfabetizao e/ou escolarizao das crianas e dos adultos.

Reforamos que as crianas cotidianamente encontram e/ou produzem processos

comunicativos que perpassam pelas mdias: rdio, TV, informtica, telefone entre outros

elementos. So capazes de interpretar e ressignificar as convergncias das mdias.

Talvez tal convergncia desperte mais ainda a curiosidade das crianas pelas mdias, algo que

muitas vezes pode ser reforado pelos prprios locais em que as crianas transitam, aqueles

onde h a presena das mdias, assim as crianas tendem a expressar parte do que

experimentam em seus cotidianos, seja em espaos educativos formais ou no to formais

assim, mas que as possveis prticas escolares se fazem presentes. Pensamos ser a plurimdia

uma forma contempornea de utilizao das mdias, em alguns casos mais democrtica no

sentido em que agrega a pluralidade de recursos tcnicos e tecnologias como tambm de

vozes, uma possvel dialtica.

Acreditamos que atravs da visibilidade conferida pela convergncia de processos e mdias

comunicativas em relao s aes intersubjetivas que as crianas transitam e negociam bens

simblicos. tambm por tal convergncia que os fatos e acontecimentos adquirem

significados e determinaes. As novas mdias so vistas como mais democrticas que

autoritrias, mais diversificadas do que homogneas, mais participativas do que passivas.

(BUCKINGHAM, 2000, p. 67). Estendemos os dizeres de Buckingham (2000) s possveis

convergncias das mdias, no apenas as novas mdias; mais as novas formas de utilizao de

62

tais mdias sugerem uma maior liberdade que as antigas concepes, que demonstravam

fixidez e homogeneidade.

3.3 Pesquisa com as crianas: dialogismo e alteridade

A pesquisa qualitativa pode abrigar correntes de pensamento diferentes e atravs de suas

diferenas, possvel produzir conhecimentos cientficos, mas, isso, atravs da pesquisa

entendida como processo. A proposta de cincia universal, sonho cartesiano, no mais tem a

mesma credibilidade de outros tempos, ou seja, na contemporaneidade as orientaes

filosficas sobre a pesquisa qualitativa abrem novas perspectivas, novos princpios e desafios.

Reflexes acerca do recurso pesquisa qualitativa permitem novas descobertas cientficas,

tanto na rea educacional quanto na comunicao.

O objeto cultural circula entre os sujeitos que nele deixam suas marcas e a circulao que produz efeitos de presena. Desse modo, o texto poderia ser pensado como um objeto que, pelos elementos que o compem e pela maneira como confeccionado, em si mesmo portador de alteridade. No uma alteridade ausente que evocada ou representada, mas uma alteridade que j est ou que est a, nas palavras , sobretudo, no gnero empregado. (AMORIM, 2004, p.164)

Um dos exemplos das diversas correntes de pensamento que se contrapem ao modelo

cartesiano pode ser a pesquisa dialgica e alteritria, que, por sua vez, permite o melhor

entendimento sobre algumas questes vinculadas ao campo da educao e ao campo da

comunicao, suas possveis inter-relaes diante dos contextos pesquisados. Assim fez-se

necessrio um estudo de campo para a melhor adequao dos instrumentos de coleta e para

atender ao objetivo da pesquisa. Os cientistas que partilham da abordagem qualitativa em

pesquisa se opem, em geral, ao processo experimental que defende um padro nico de

pesquisa para todas as cincias, calcado no modelo de estudo das cincias da natureza.

(CHIZZOTTI, 2005, p. 78).

Aqui trazemos alguns desafios relacionados nossa experincia de pesquisa com crianas,

uma escrita que pretende tambm ser marcada pelo dilogo, ao contrrio do sonho cartesiano

acima mencionado. Optamos por trabalhar com criana e, portanto, estabelecemos

metodologias que pudessem contemplar as diversas falas ao longo do desenvolvimento da

pesquisa. O objeto das cincias humanas o ser expressivo e falante. Esse ser nunca coincide

63

consigo mesmo e por isso inesgotvel em seu sentido e significado. [...] O ser que se auto-

revela no pode ser forado e tolhido. Ele livre e por essa razo no apresenta nenhuma

garantia [...]. (BAKHTIN, 2003, p. 395). Ao contrrio do objeto das cincias naturais, o

objeto das cincias humanas tem voz e expressivo. Por isso mesmo, no pode ser

investigado monologicamente pelo pesquisador, mas na dialogia dos sujeitos envolvidos.

O monologismo seria justamente o apagamento das diferentes enunciaes que produzem um objeto de pesquisa. Ouve-se apenas uma voz a falar e, entre a descrio e o descrito, nenhum espao entrevisto. Ao contrrio, o dialogismo remete pluralidade de vozes que constituem toda pesquisa, seja em campo [...] (AMORIM, p. 2004, p 94)

O dialogismo nos remete s vrias vozes encontradas ao longo da pesquisa com as crianas,

identidades e/ou subjetividades que se revelaram ao longo do processo de nossa insero e

permanncia em campo. Mais do que levantar dados propusemos uma imerso no campo, de

forma a criar laos identitrios capazes de assegurar maior aproximao com as culturas

infantis. Longe de uma proposta baseada no monologismo, como nos lembra Amorim (2004),

as vrias vozes encontradas na pesquisa exigem de ns a capacidade de apagar a unicidade.

Falar falar a outros que falam e que, portanto, respondem. (AMORIM, 2004, p. 95).

Apostamos em metodologias de pesquisa que dialogassem com os outros, com os

pesquisados, que pudessem aproximar-se do que aqui tratamos como alteridade, dando voz e

vez aos outros.

As crianas ocuparam dois lugares diferentes nesta pesquisa. Um primeiro, onde foi realizado

um mapeamento das mdias a que tinham acesso. Esse mapeamento foi feito junto a um grupo

de crianas pr-escolares, no contexto escolar e em forma de oficinas.

O segundo j pressupe o recorte especfico do objeto estudado: os programas de rdio para

crianas. Nesse contexto, o dilogo com as crianas centrou-se na sua condio de produtoras

e/ou ouvintes desses programas, em especfico.

Cabe-nos ressaltar que, embora o foco dos programas e do estudo aqui apresentado sejam as

crianas, tambm os adultos professores das escolas envolvidas e produtores dos programas

de rdio de alguma forma foram sujeitos desta pesquisa.

64

Assim, o desafio da alteridade no envolve apenas a relao adulto/criana entre o

pesquisador e os sujeitos da pesquisa, mas, tambm, os prprios sujeitos crianas/adultos. A

linguagem s pode ser entendida como sendo resultante de uma relao social, a infncia

movente pode representar tal relao, assim os possveis significados produzidos no curso da

ao fizeram parte do processo de transformao, conforme nos mostra Bakhtin (2006), ao

interpretar a linguagem como um fato social e que, por isso, os enunciados dela derivados

no podem ser entendidos fora de uma situao scio-histrica na qual se realiza a

intersubjetividade.

O prprio recorte da pesquisa deflagra uma postura terico-metodolgica: optei por trabalhar com crianas e, portanto, falo de crianas como sujeito, como ser social situado no tempo e no espao, como cidad hoje, que tem suas especificidades em relao aos adultos e por essas especificidades deve ser respeitada. Para mim, elas no foram objeto de pesquisa, mas sujeito com vida, em processo dinmico e contnuo de transformao. (LEITE, 2007, p.74)

As crianas desta pesquisa foram consideradas protagonistas, sujeitos participantes ao longo

de todo processo, cidads, com especificidades em relao ao ser adulto, ou melhor, a ns,

adultos pesquisadores. As crianas nesse processo de comunicao radiofnica podem ser

entendidas como interlocutores, aqueles que no se mantm passivos diante dos enunciados

postos em circulao, mas o interpretam e o reinterpretam ativamente dentro do quadro que

Bakthin (2006) chama de dialogismo. Esta expresso indica e reitera que a produo

discursiva dos atores sociais no ocorre em um vazio social e de poder, tampouco

monolgica, mas, sim, polifnica, porque nela esto presentes diversas vozes da infncia

(convergentes ou divergentes), proferidas de diferentes lugares e tempos sociais que

constituem a tessitura social das expresses e situaes interindividuais. Assim, para Bakhtin

(2006), a linguagem no pode ser entendida fora das relaes de poder e tampouco

ignorando as suas condies sociais de produo, enunciados estes que tambm se fazem

presentes na concepo freiriana de comunicao.

[...] ser dialgico, para o humanismo verdadeiro, no dizer-se descomprometidamente dialgico; vivenciar o dilogo. Ser dialgico no invadir, no manipular, no sloganizar. Ser dialgico empenhar-se na transformao constante da realidade. Esta a razo pela qual, sendo o dilogo o contedo da forma de ser prpria existncia humana, est excludo de toda relao na qual alguns homens sejam transformados em seres para outro por homens que so falsos seres para si. que o dilogo no pode travar-se numa relao antagnica. (FREIRE, 2002, p. 43)

65

Freire (2002), no texto acima, nos remete a um modelo de comunicao, aquele em que o

dilogo predomina, demonstra-nos que a dialgica se faz presente no vivenciar-se o dilogo,

sem invadir as particularidades dos outros, mas em um processo constante de trocas de

saberes. O homem, como um ser histrico, inserido num permanente movimento de procura,

faz e refaz constantemente o seu saber. (FREIRE, 2002, p. 47). Entendemos que as crianas

tambm esto inseridas nesta dinmica, em seus processos sociais fazem e refazem seus

conceitos e sabedorias. Desta forma, na comunicao, no h sujeitos passivos. Os sujeitos

co-intencionados ao objeto de seu pensar se comunicam seu contedo. (FREIRE, 2002, p.

67). atravs de um sistema de signos lingsticos, em nosso caso a linguagem radiofnica,

que esta forma de comunicao horizontal, modelo freiriano, estabeleceu as peculiaridades

nesta pesquisa com as crianas.

Pensamos que havendo processos comunicativos diante do que Freire (2002) chama de

horizontal e que Bakhtin (2003) estabelece enquanto enunciado de natureza responsiva, as

chances de constituio de sentidos e significados em tais processos se ampliam.

Toda compreenso da fala viva, do enunciado vivo de natureza ativamente responsiva (embora o grau desse ativismo seja bastante diverso); toda compreenso prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante. A compreenso passiva do significado do discurso ouvido apenas um momento abstrato da compreenso ativamente responsiva real e plena, que se atualiza na subseqente resposta em voz real alta. (BAKHTIN, 2003, p.271)

Bakhtin (2003) diz que o dilogo uma forma elementar da comunicao e que toda

compreenso traz um ato responsivo, mesmo que este no seja verbalizado de imediato. Os

meios de comunicao de massa usam vrias linguagens, criam e recriam gneros discursivos

diversos, e assim tambm o rdio. Sobre o ponto de vista do dialogismo, os gneros

discursivos de um determinado contexto enunciativo agregam amplitudes de manifestaes.

Enfatizamos que o conceito de dialogismo, em Bakhtin mais do que dilogo. a

possibilidade de abertura comunicao no texto pronunciado.

Entendemos por dialogismo a condio do sentido do discurso, no enunciado acima, Bakhtin

(2003) diz sobre a natureza ativamente responsiva do enunciado vivo, ou seja, da fala. O

dialogismo o princpio constitutivo da linguagem, sem ele o discurso no tem sentido, pode

assumir diversas formas, pode ser tanto verbal quanto no-verbal, vai das falas aos textos

escritos, smbolos e signos, que so transformados em sentidos, de um lado o enunciador, do

66

outro o enunciatrio. A alteridade sob a forma do dilogo e da citao pois o trao

fundamental da linguagem. No h linguagem sem que haja um outro a quem eu falo e que

ele prprio falante/respondente; tambm no h linguagem sem a possibilidade de falar do

que um outro disse. (AMORIM, 2004, p. 97).

No processo de anlise da conversao da radiodifuso, quando diversas falas aparecem e se

inter-relacionam, percebemos a presena do dialogismo, o dilogo condio necessria, seja

a partir da confluncia das mdias, a plurimdia, ou das discursividades de apenas uma mdia,

desde que haja processos comunicativos que valorizem o outro enquanto falante. Aqui as

subjetividades tornam-se necessrias e se desconstri a idia de uma comunicao

verticalizada, aquela sem participao dos sujeitos que, em alguns casos, so o foco das

produes culturais miditicas.

Neste caso, o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (lingstico) do discurso, ocupa simultaneamente em relao a ele uma ativa posio responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para us-lo, etc.; essa posio responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo processo de audio e compreenso desde o seu incio, s vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante. (BAKHTIN, 2003, p. 271)

Bakhtin (2003) nos diz sobre as trocas discursivas a partir das interpretaes e/ou

compreenses dos atores sociais envolvidos diretamente no dialogo. A posio responsiva

est carregada de saberes daqueles que agem de forma ativa em diversos processos

comunicativos.

3.3.1 Dialogando com as crianas sobre a radiodifuso: os conceitos desta pesquisa

A pesquisa que fizemos com as crianas se configura como parte de um processo, caminhos

diversos, acertos e tambm erros, que nos possibilitaram algumas reflexes sobre a

importncia deste objeto de pesquisa que denominamos de Rdio e educao: de ouvintes a

falantes, processos miditicos com crianas. Pontos de chegada, mas tambm pontos de

partida, a nossa insero em campo possibilitou um constante repensar sobre nossas aes

diante das crianas, como tambm o repensar sobre conceitos que aqui julgamos importantes.

a partir dos riscos e rabiscos que a pesquisa foi se constituindo. Os registros das

atividades, desenvolvidas a partir dos dilogos do Grupo de Pesquisa Infncia, Mdia e

67

Educao GPIME18, ganharam linhas e pginas de nossos textos, de nossos cadernos de

campo, isso desde outubro de 2006. Naquela ocasio a proposta era de nos aproximarmos dos

possveis campos de investigao.

Nesse sentido foi apresentada a proposta de um sub-projeto que consistiu em uma pesquisa

exploratria intitulada A rdio novela vai escola. Esse subprojeto foi desenvolvido por

mim e pela Profa. Maria Esperana de Paula, membro do grupo de pesquisa. Esse sub-projeto

foi importante para fazer um mapeamento dos usos que as crianas faziam das mdias e a

presena do rdio nesses usos.

Aps uma pesquisa exploratria, investigamos dois programas radiofnicos destinados a

crianas, um em Belo Horizonte, intitulado Universidade das Crianas, da Rdio UFMG

Educativa e o outro no Rio de Janeiro, intitulado Rdio Maluca, da Rdio Nacional AM RJ

em parceria com a Rdio MEC AM. So programas destinados a crianas, com a participao

das crianas mas, tambm, de adultos. A proposta foi de aprofundar a pesquisa inicial, com

foco na radiodifuso voltada s crianas.

Na primeira fase da pesquisa, organizamos um mapeamento sobre a presena das mdias na

vida das crianas que participaram da oficina. Para tanto, pedimos a elas que desenhassem o

lugar de sua casa que mais gostavam e depois conversamos sobre esses desenhos.

Particularmente, meu interesse foi de ver se os lugares desenhados incluam algumas mdias

ligadas aos elementos sonoros.

Dos diversos desenhos feitos pelas crianas alguns apresentavam lugares onde se

encontravam os aparatos tecnolgicos ( TV, DVD, Vdeo, vdeo-game, computador e o rdio).

Nos desenhos que as mdias sonoras e/ou udio-visuais eram representadas, destacamos a

presena do rdio, seja em MP3 ou o aquele tradicional rdio vlvula.

Os registros da pesquisa (gravao de udio e vdeo, caderno de campo, desenhos, fotos),

agrupados para a possvel triangulao, j demonstraram o quanto as mdias fazem parte do

universo infantil. Investigar, portanto, quais os sons mais significativos para as crianas foi 18 Ressaltamos que o GPIME um grupo de pesquisa da ProPEd/UERJ, tendo como integrantes alunos da Graduao e Ps-Graduao. Assim as questes, ou problematizaes da pesquisa aqui apresentadas, surgiram tambm a partir dos dilogos desse grupo, como tambm de seus desdobramento.

68

uma das propostas da pesquisa. Tais registros no so aqui apresentados como nicos,

tivemos como pretenso a utilizao de outras formas de registros e a partir das diferentes

linguagens.

O objeto das cincias humanas , portanto, a relao e o dilogo entre sujeitos, cujos valores, pontos de vista e sentidos se encontram e transformam-se mutuamente. Como j afirmamos, nessa perspectiva metodolgica pautada na dialogia entre pesquisador e realidade investigada, no h lugar para a produo de um conhecimento em torno de uma coisa muda, inerte ou abstrata, de um conhecimento que se cristaliza e estabiliza como dogma. (SALGADO, 2005, p. 36)

Com vistas melhor interpretao da multiplicidade de dados coletados e acreditando que o

processo de pesquisa qualitativa com as crianas-protagonistas est inserido em uma proposta

dialgica, ressaltamos que as pistas ou indcios da presena das mdias revelaram parte dos

traos culturais da infncia. O termo indcio refere-se a manuscritos, livros impressos,

prdios, moblia [...] bem como a muitos tipos diferentes de imagens: pinturas, esttuas,

gravuras, fotografias [...] Pinturas, esttuas, publicaes e assim por diante [...] as

experincias no-verbais [...] (BURKE, 2004, p. 16-17). Coletar e analisar os vrios indcios

verbais e tambm no-verbais a partir da pesquisa de campo fez com que os mesmos

pudessem revelar as caractersticas de parte dos processos miditicos no cotidiano das

crianas e, em especfico, aqueles sobre a radiodifuso.

Numa metodologia de base qualitativa o nmero de sujeitos que viro a compor o quadro das entrevistas dificilmente pode ser determinado a priori tudo depende da qualidade das informaes obtidas em cada depoimento, assim como da profundidade e do grau de recorrncia e divergncia destas informaes. Enquanto estiverem aparecendo dados originais ou pistas que possam indicar novas perspectivas investigao em curso as entrevistas precisam continuar sendo feitas. (DUARTE, 2002, p. 143-144)

Chamou-nos a ateno, ao longo do processo, a facilidade de estabelecer com as crianas um

grau de relacionamento e de respeito capaz de viabilizar os trabalhos da pesquisa,

inicialmente realizando-os uma vez por semana, numa escola da rede particular de ensino em

Belo Horizonte. Por no fazer parte diretamente do universo do contexto das crianas

enquanto um adulto, que se veste, fala e se comporta como gente grande, a nossa insero no

campo de pesquisa no causou transtornos naquele universo infantil. Muitas vezes a pesquisa

nos fez recordar as particularidades de um universo que j vivemos, em tempos remotos.

Talvez a escuta atenta das vozes das crianas tenha permitido uma aproximao sem maiores

problemas.

69

No processo de construo de propostas terico-metodolgicas, dando voz e vez s crianas,

fomos nos aproximando do universo infantil; escutar e observar suas peculiaridades foi e tem

sido um exerccio constante nesse processo. Investigar seus sons e suas vozes atravs de uma

leitura atenta das pistas e indcios no campo pesquisado nos faz lembrar que: [...] leitura

sempre apropriao, inveno, produo de significados. (CHARTIER, 1999, p. 77). A cada

instante, o pesquisador vai-se apropriando do novo e, atravs desse novo, reconstri pistas

para analisar o campo de pesquisa, Bogdan e Biklen (1994) nos dizem sobre alguns desafios

das pesquisas com crianas.

Os adultos tm tendncia para conduzir as conversas que tm com as crianas, hbito este que o investigador qualitativo tem de quebrar. Alguns adultos utilizam piadas convencionadas para estabelecer uma relao. As crianas podero olhar para os adultos de diversos modos; podem procurar a sua aprovao ou inibir-se. Ter de ter em conta estes fatos ao participar no contexto e ao tentar compreender os dados que recolheu. Uma alternativa consiste em participar com as crianas, no enquanto figura de autoridade (um adulto), mas como um quase - amigo [...] difcil conseguir que uma criana aceite um adulto como igual, embora seja possvel que o tolere como membro de um grupo de crianas. (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p. 126).

Houve diversos olhares, leituras e apropriaes dos sentidos da presena de um adulto no

meio da crianada; de imediato, a vontade de brincar falou mais alto. Em nenhum momento

das pesquisas realizadas as crianas foram tratadas como sujeitos passivos, sem direito a fala,

ao contrrio, sempre se posicionavam. Assim, os diversos olhares queriam, diante de nossa

presena, apenas brincar; telefone sem fio, essa foi brincadeira inicial. Hoje talvez se possa

esperar uma superao efetiva daquele equvoco bsico que acreditava ser a brincadeira da

criana determinada pelo contedo imaginrio do brinquedo, quando, na verdade, d-se o

contrrio. (BENJAMIN, 2002, p. 93). O interesse de brincar e seus significados podem ser

vinculados aos aspectos culturais da infncia, s possveis linguagens e narrativas. Atravs

das brincadeiras o campo de pesquisa foi-se tornando ponto de confluncia, viabilizando a

aproximao entre pesquisadores e pesquisados. Mesmo no causando tanto estranhamento, a

nossa presena despertou muita curiosidade, isso sem falar no interesse demonstrado pelos

equipamentos que levamos para o campo (Mp3, Mp4, cmera digital e a filmadora). O prprio

caderno de campo percorreu as mos das crianas, isso para que pudessem verificar os

registros que ali estavam.

Quando as pessoas descobrem que a investigao envolve registros escritos, por vezes

exigem l-los. (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p. 120). A esse respeito percebemos que as

70

escritas de campo no amedrontaram os pesquisados, ao contrrio, as crianas fizerem

correes das escritas a que tiveram acesso; se sentiram no direito de nos chamar a ateno,

pois, nas pginas do caderno de campo, escrevemos alguns nomes errados, faltando letras.

Assim as descobertas dos vrios olhares se entrecruzaram com os nossos objetivos, pistas e

mais pistas. Cada criana conferiu o seu nome no caderno de campo. Algumas pediram que

escrevssemos sobre suas caractersticas. Se elas no estranharam a nossa presena na sala de

aula, ficamos surpreendidos com a interatividade, a participao e a interveno delas

em nossos registros de campo. Na pesquisa os nossos registros foram importantes para

compreendermos o lugar social que a infncia ocupa. O ver, ouvir, registrar e interpretar as

representaes sociais das crianas, buscando compreender como se constituiu o seu mundo

cultural e qual o lugar social que a infncia ocupa na escola [...] aos cuidados metodolgicos

da pesquisa. (QUINTEIRO, 2002, p. 40).

A pesquisa buscou a alteridade, a dialogia, pois, no permanente processo de coleta de dados

empricos, o repensar as propostas terico-metodolgicas se fez presente, crianas enquanto

protagonistas apontaram os vrios caminhos, as novas metodologias. O leitor, enquanto

caador, segundo Certeau (2002), vai ajustando o seu olhar, assim como o caador observa a

sua caa. A criatividade do leitor vai crescendo medida que vai decrescendo a instituio

que a controlava. (CERTEAU, 2002, p. 267-268). Leitores e ouvintes que circulam pelas

redes de comunicao, ou formas diversas de comunicao a procura de possveis

significados; lem imagens, textos e interpretam os diversos sons.

Textos ganham novos sentidos e significados: O texto s tem vida contatando com outro

texto (contexto). S no ponto desse contato de textos eclode a luz que ilumina retrospectiva e

prospectivamente, iniciando dado texto no dilogo. Salientamos que esse contato um

contato dialgico entre textos [...] (BAKHTIN, 2003, p. 401). Talvez a afirmao da tessitura

das mdias, pontos convergentes que apresentaram hbridas possibilidades de escrita e

reescrita de saberes que tenha contribudo para o melhor entendimento da infncia.

Ao mencionarmos a dialgica trazemos novamente Freire (2002), atravs de suas idias de

uma comunicao horizontal estabelece as interaes sociais, assim as linguagens so formas

constitutivas de sentidos e esto profundamente marcadas pela cultura, pelos contextos scio-

histricos e pela presena ativa dos interlocutores na produo dos significados. Para ele, no

existe um sujeito pensante sem a co-participao de outros. No h um eu penso, mas sim

71

um ns pensamos. o pensamos que estabelece o penso e no o contrrio. Esta co-

participao dos sujeitos no ato de pensar se d na comunicao. (FREIRE, 2002, p. 66). Os

dizeres desse educador nos remetem tessitura de conhecimentos a vrias mos, s

confluncias que se estabelecem na interao dos sujeitos que participam do enunciado.

Cada palavra (cada signo) do texto leva para alm dos seus limites. Toda interpretao o

correlacionamento de dado texto com outros textos. O comentrio. A ndole dialgica desse

correlacionamento. (BAKHTIN, 2003, p. 400). Este profcuo dilogo que estabelecemos

entre Freire (2002) e Bakhtin (2003) tornou-se o referencial na pesquisa que desenvolvemos

com as crianas, assim suas vozes tiveram escuta, dilogos criativos, discursividades pautadas

no dialogismo e na alteridade.

A interao social se d com o encontro dos sujeitos que por vez tambm so interlocutores,

que buscam significao atravs de alguma forma de compartilhamento das mensagens.

atravs da presena ativa dos interlocutores que os significados so produzidos e apreendidos

pelos atores. A forma horizontal de comunicao, segundo Freire, s podem ser plenamente

entendidas quando contextualizadas, [...] o homem que no pode ser compreendido fora de

suas relaes com o mundo, de vez que um ser-em-situao`, e tambm um ser do trabalho

e da transformao do mundo. O homem um ser da prxis; da ao e da reflexo.

(FREIRE, 2002, p. 28).

A pesquisa realizada teve um carter dialgico, foi uma pesquisa sobre crianas, mas tambm

feita a partir das manifestaes das crianas e com crianas, estas foram consideradas

enquanto agentes integrantes, protagonistas que interferiram nos processos metodolgicos

aqui apresentados. Metodologias baseadas nos processos da comunicao horizontal

permitiram a interferncia constante, e a priori descarta-se a hiptese, faz-se um redesenho

dos processos de captura de dados, assim evita-se incorrer em erros talvez to comuns a

outros tipos e formas de pesquisas.

As palavras so tecidas a partir de uma multido de fios ideolgicos e servem de trama a todas as relaes sociais em todos os domnios. portanto claro que a palavra ser sempre o indicador mais sensvel de todas as transformaes sociais, mesmo daquelas que apenas despontam, que ainda no tornaram forma, que ainda no abriram caminho para sistemas ideolgicos estruturados e bem-formados. A palavra constitui o meio no qual se produzem lentas acumulaes quantitativas de mudanas que ainda no tiveram tempo de adquirir uma nova qualidade ideolgica, que ainda no tiveram tempo de engendrar uma forma ideolgica nova e acabada. A palavra capaz de registrar as fases transitrias mais ntimas, mais efmeras das mudanas sociais. (BAKHTIN, 2006, p. 42)

72

No texto acima, Bakhtin (2006) nos fala sobre a multido de fios ideolgicos que

alimentam as tramas ideolgicas da vida cotidiana. Nesta pesquisa, a tessitura a partir dos

muitos fios dos contextos sociais dos participantes permite-nos estabelecer uma proposta de

interatividade, ora diretamente com as culturas infantis, ora estudando parte da literatura que

diz sobre a pesquisa com crianas. A oralidade foi a base de nossas atividades pelo universo

da pesquisa. Em processos e programas radiofnicos para crianas esta forma de

expressividade ganhou destaque.

O objeto especfico das Cincias Humanas o discurso ou, num sentido mais amplo, a matria significante. O objeto um sujeito produtor de discurso e com seu discurso que lida o pesquisador. Discurso sobre discursos, as Cincias Humanas tm portanto essa especificidade de ter um objeto no apenas falado, como em todas as outras disciplinas, mas tambm um objeto falante. (AMORIM, 2002, p. 10)

Marlia Amorim (2002) nos diz no texto acima sobre o objeto das Cincias Humanas. Em

nossa pesquisa dialogamos com as crianas, que demarcaram seus posicionamentos, a

ausncia do discurso monolgico fez com que a pesquisa/oficina pudesse agregar as diversas

vozes. De qualquer modo, porm, neste campo tambm, os objetos, os fatos, os

acontecimentos no so presenas isoladas. Um fato est sempre em relao com outro, claro

ou oculto. Na percepo da presena de um fato est includa a percepo de suas relaes

com outros. (FREIRE, 2002, p. 29). Foi no entrelaamento de um fato com outros fatos que

nossas escolhas metodolgicas como a oficina foi ganhando forma, inter-relaes pautadas

nos cotidianos das crianas, mas sem perder de vista as especificidades da vida adulta. Assim

as diversas vozes vo constituindo os enunciados, discursividades polifnicas.

A polifonia da ordem do discurso e, portanto, do acontecimento: outras vozes se fazem ouvir, num dado momento, num dado lugar, dando origem a um uma multiplicidade de sentidos. A polissemia da ordem da lngua como sistema abstrato e remete, portanto, a um universo de possibilidades de significao. (AMORIM, 2002, p.12-13)

Atravs de processos e procedimentos metodolgicos a pesquisa constituiu-se como

polifnica, uma proposta tambm exploratria, mas pautada na comunicao horizontal.

73

3.3.2. Algumas perspectivas metodolgicas no/do contexto infantil

Ao iniciarmos o processo de captura de dados, isso atravs das idas a campo, verificamos a

importncia de adotarmos metodologias mais adequadas ao contexto das crianas. Uma das

etapas da pesquisa constituiu-se em fazer um estudo exploratrio, objetivando investigar os

sons mais significativos para as crianas de uma sala de aula da educao infantil. Para tanto,

utilizamos o desenho no processo de captao desses dados. A partir das primeiras

intervenes, verificamos que os desenhos so documentos que podem trazer indcios de

sentidos e significados das mdias mais presentes na vida dessas crianas. Assim, ao

repensarmos sobre a melhor adequao metodolgica para a captao e anlise desses dados

no universo infantil, estimulamos as crianas a que desenhassem o lugar da casa que mais

gostavam, observamos se nesses desenhos as mdias eram apresentadas e, em seguida,

focamos a possvel presena de mdias sonoras.

Os sinais dos desenhos permitem tanto uma releitura quanto uma reescrita, pois a todo o

momento novos traados e novas cores eram agregados proposta inicial, assim as crianas, a

partir de suas imaginaes, criaram e recriaram obras ficcionais, textos-desenhos-sons que

estabeleceram sentidos e significados para o seu contexto.

Esta compreenso requer melhor entendimento sobre os possveis modos de expresso e as

apropriaes de parte das culturas infantis, os desenhos enquanto testemunhas so para isso

importantes documentos. Os dados coletados nesse processo de pesquisa exploratria esto

carregados de sons, ou seja, em vrios desenhos a representao de mdias sonoras se fez

presente; sons advindos de diversas mdias e at mesmo de diversos dilogos entre as prprias

crianas e das crianas com os adultos so explicitados pelos traados coloridos. O que mais

nos interessa nesse momento so as representaes onde o rdio apareceu. Parece-nos que a

transmisso oral de conhecimentos se reproduz de alguma forma nos desenhos das crianas.

Partindo ento do pressuposto de que crianas so capazes de atuar ativamente na construo

do prprio conhecimento, verificaremos os processos miditicos que podem possibilitar a

construo e/ou ampliao dos saberes. Aqui, tambm, no se isentaram as possibilidades de

descobertas sobre os objetivos, as problematizaes e, tambm, as possveis hipteses focadas

nos objetos de nossas pesquisas enquanto mestrandos.

74

Atravs dessa pluralidade metodolgica que resolvemos desenvolver a oficina A rdio

novela vai escola. Nossa preocupao, no que tange aos aspectos metodolgicos, permeava

a valorao da multiplicidade de linguagens. As quais, por sua vez, no se vinculam apenas ao

processo de captura de dado, preocupou-nos tambm a anlise dos fragmentos encontrados

em campo, que, de alguma forma se inter-relacionavam com nossos propsitos, isso , das

pesquisas em andamento. Desta forma, quando mencionamos metodologias plurais, como

afirma Amorim (2004), cuidamos para que as diversas vozes pudessem ter escuta, um

processo dialgico.

A questo das metodologias de pesquisa e de construo terica em cincias no exatamente o objeto de nossa reflexo. Mas h uma outra tenso que se poderia chamar de dialgica posto que ela concerne ao problema especfico da relao com o outro. A nica exatido possvel a esse respeito, conforme j vimos, encontra-se fora de toda busca de identidade e consiste em superar a alteridade sem assimil-la. Sustentar a diferena, a exotopia e a bivocalidade. (AMORIM, 2004, p. 196)

A partir do excerto acima podemos pensar tambm nos diferentes nveis de alteridade, as

vozes dos outros, daqueles que tambm compem a nossa pesquisa, deverem ser levadas em

considerao, assim como o universo em que habitam. O processo de comunicao discursiva,

em alguns momentos carrega como diz Amorim (2004), determinadas formas de falar, que

chamamos bivocalismo, aqui, baseado na entonao dos falantes. Nas oficinas que

realizamos, as mensagens faladas a partir das entrevistas individuais e, tambm, das coletivas,

nos indicavam as diferentes formas nas quais as crianas mencionavam suas idias. Desta

forma pensamos que tal posicionamento vem ao encontro de um novo lugar social ocupado

pelas prprias crianas. Pois em seus posicionamentos era constante a tomada de posio,

externavam o que sentiam, aquilo do que gostavam nas mdias, no se comportaram de forma

passiva. Historicamente, o lugar social ocupado pela criana mudou. De sujeito passivo e sem voz condio de consumidor dotado de opinies singulares, percebe-se um reconhecimento da criana como ator social. Isto significa reconhecer sua capacidade de fazer relaes, construir discursos, ser partcipe nas aes. Significa tambm reconhecer sua capacidade de re-elaborar e re-significar os contedos [...] (PEREIRA e SANTOS, 2008, p. 134)

Nas oficinas desenvolvidas, ao exemplo mencionado acima por Pereira e Santos (2008), as

crianas construam discursividades enquanto partcipes. Apresentaram suas opinies diante

das temticas discutidas, discursos plurais.

[...] adultos e crianas estabelecem entre si uma relao por natureza de alteridade: impossvel compreender isoladamente as transformaes dos modos de ser adulto ou

75

de ser criana, uma vez que pensar os desgnios da infncia implica necessariamente pensar as condies e os projetos especficos da vida adulta e vice-versa. Essa relao de alteridade envolve um processo histrico e social, cuja origem se situa na conscincia da diferenciao entre a infncia e a vida adulta, e cujos desdobramentos se expressam nas transformaes dos modos como adultos e crianas posicionam-se perante essa diferenciao. (PEREIRA, 2002, p. 82)

Processos de pesquisa que perpassaram pela alteridade; assim a oficina que desenvolvemos

possibilitou um melhor entendimento de que mdias as crianas mais gostavam e tambm

sobre a utilizao que faziam delas. O rdio foi uma das mdias destacadas pelas crianas, seja

o do carro, o do MP3, o convencional rdio vlvula ou rdio pilha. Em alguns desenhos

verificamos tambm a representao do rdio no antigo aparelho 3 em 1 no qual a presena da

antena contribua para melhorar a sintonia dos programas radiofnicos.

3.3.3 As crianas e as mdias: uma perspectiva exploratria

A pesquisa que tambm foi exploratria possibilitou a reconstruo de possveis dados e

subsdios para o melhor entendimento tanto sobre o foco pesquisado quanto de suas

problematizaes. A proposta inicial era de analisarmos o material produzido pelas crianas

como desenhos, imagens, textos, programas radiofnicos alm de fotos e as falas/vozes das

mesmas no processo de desenvolvimento da oficina.

Utilizamos naquela poca parte das produes culturais miditicas que circulam no interior de

uma sala de aula a partir da oficina que realizamos. O caderno de campo foi intensamente

utilizado no decorrer de nossas atividades. Assim a coleta de dados foi nos revelando parte

dos sentidos e significados das crianas com as falas/vozes e sons da radiodifuso.

Lembramos que os sujeitos da pesquisa em sua fase exploratria eram crianas de 5 e 6 anos.

Estavam em fase de alfabetizao, ou seja, freqentavam uma sala de 1 srie da Educao

Bsica/Ensino Fundamental, antigo 3 perodo da Educao Infantil. A escola era freqentada

por educandos da classe mdia, o perodo era o diurno.

A pesquisa exploratria nos ajudou a melhor entender os processos pelos quais as descobertas

vo se delineando. No existe mtodo de trabalho em pesquisa junto a pessoas humanas que

substitua a sabedoria da escuta. Se voc a tem ou desenvolve, qualquer bom mtodo serve. Se

no, qualquer um atrapalha. (BRANDO, 2003, p. 135). Ao longo dos encontros da oficina:

76

A radionovela vai escola, percebemos que as crianas diante de nossa presena mais

falaram do que escutaram, experimentaram um estranhamento, pois tiveram ao seu entorno

pessoas desconhecidas. A todo o momento as crianas pediram para brincar, entendemos

assim que atravs das brincadeiras nossas pesquisas poderiam ter continuidade. Ressaltamos,

que no processo de captura dos dados as brincadeiras podem ser um dos procedimentos

metodolgicos importante.

O aparato tcnico utilizado por ns para a captao de dados, tambm causou curiosidades,

assim o gravador de voz e a cmera fotogrfica fizeram com que as crianas deslocassem de

seus lugares para melhor visualizar e tocar tais equipamentos, queriam se ver nos registros

fotogrficos digitais e tambm escutar a gravao com suas vozes, ouvintes e falantes se

misturam e o campo da pesquisa foi se reconfigurando. Sabemos que, enquanto pais e

educadores, j deixamos de ter, h muito tempo, a exclusividade no papel de educar as

crianas, uma vez que essa funo hoje tambm cumprida por outros atores e instncias

sociais, com o caso da mdia. (SALGADO, 2005, p. 18)

A oficina: A radionovela vai escola, caracterizou-se por ser uma atividade exploratria

atravs de processos miditicos como a radiodifuso, o que no desvinculou possveis

analises sobre as outras mdias, como por exemplo, a televiso. Nesta etapa da pesquisa o

nosso foco consistiu em fazer um mapeamento das experincias infantis com a mdia

radiofnica.

Uma das atividades realizadas constituiu em solicitar s crianas que desenhassem o lugar da

sua casa que mais gostavam. Tnhamos a inteno de observar se aparecia, dentre os lugares

selecionados por elas, algum tipo de equipamento de mdia. Nos desenhos, as representaes

de aparelhos sonoros se destacaram nesse universo de mltiplas linguagens, alguns rdios

foram desenhados.

Da fico cincia, os desenhos do cotidiano tm revelado algumas particularidades do

universo infantil. As crianas elegeram parte de suas representaes sonoras mais importantes

atravs dos desenhos e das entrevistas, assim diversos tipos e modelos de rdios apareceram

por vrias vezes, tanto os mais recentes em MP4, MP3, rdio no celular, rdio no PC entre os

tradicionais, aqueles vlvula ou pilha, alm do rdio do carro.

77

Figura 1 Representao dos sons que a criana mais gosta de ouvir. Apareceram no desenho o rdio, a televiso, o pssaro e, tambm, o carro ( esquerda); no destaque ( direita) a mo de Isabela aponta o rdio.

Ao utilizarmos o desenho na oficina A rdio novela vai escola, pensamos que as

possibilidades de representao daquilo que as crianas gostavam de escutar e tambm de

assistir aumentavam, medida que pudessem demonstrar parte de sua realidade, parte de seu

cotidiano, aquilo que normalmente fazem em casa. Aqui, alm da televiso destacamos o

aparecimento do rdio, o que nos demonstra que, mesmo com todo o atual aparato tcnico e

tecnolgico, o velho rdio no saiu de moda. Segundo Aumont (2007, p. 81), Em todos os

seus modos de relao com o real e suas funes, a imagem procede, no conjunto, da esfera

do simblico (domnio das produes socializadas, utilizveis em virtude das convenes que

regem as relaes interindividuais). A imagem, entendida aqui como os desenhos feitos pelas

crianas, pode nos revelar os smbolos e tambm signos que so importantes para seus

autores, que em nosso caso so as crianas. Na figura acima Isabela aponta como o dedo (

direita) o rdio que desenhou na oficina.

Nas atividades que realizamos sobre a oficina, a captao dos discursos a partir das conversas

com as crianas nos possibilitou o repensar de nossas aes como pesquisadores, e o quanto

se tornaram importantes as outras vozes e a compreenso que o outro estabelece daquilo que

temos interesse em saber. Em uma perspectiva polifnica, o ponto crucial de encontro entre

forma e contedo aquele no qual possvel ouvir a voz do autor. (AMORIM, 2002, p. 18).

Entendemos o mtodo como uma das condies necessrias para se fazer a pesquisa; em

nossa perspectiva a pesquisa, por sua vez, vista como processo, que possibilita a construo

do conhecimento cientfico.

78

Uma concepo dialtica de mtodo como de tudo o mais, por ser dialtica, h de libertar-se do ser parmnico. Singularizar, individualizar, absolutizar as coisas, os fatos, os acontecimentos como se fossem a realidade transform-los em a idia como forma universal e absoluta (o ser). (SALOMON, 2000, p. 13)

Neste ponto ressaltamos que alm das conversas ou entrevistas, tanto individuais quanto

coletivas, propusemos s crianas a elaborao de desenhos que tratassem em parte de

aspectos vinculados s mdias. Utilizamos tambm o prprio laboratrio de informtica da

escola, ora para acessarmos produtos miditicos como jogos e/ou softwares educativos, ora

para pesquisarmos os produtos miditicos de maior acesso s crianas. Elaboramos vrios

slides em (Power Point) para serem marcados ou selecionados pelas crianas. O laboratrio de

informtica se transformou em um local atrativo para estas crianas.

Ao longo de nossas atividades de campo as crianas foram consideradas partcipes, como j

mencionamos anteriormente. Alm de reflexes sobre parte dos bens culturais produzidos e

recebidos pelas crianas, nos importou tambm suas participaes como protagonistas.

Parte das questes formuladas para viabilizar as entrevistas foram revistas por ns tanto em

campo quanto ao pensarmos sobre nossas inseres em tais ambientes, portanto a

inflexibilidade de processos e procedimentos metodolgicos no se fez presente ao longo de

nossos encontros com a crianada. Nesse contexto as crianas no eram consideradas

passivas, mas leitoras de signos e smbolos a partir de nossas interlocues. Em pesquisas

sobre crianas, a questo-chave : como os adultos podem ir alm dos limites de poder e

expor as complexidades do poder nas relaes entre adultos e crianas? (ALDERSON, 2005,

p. 437). No temos a pretenso de responder indagao mencionada, porm nossas idias,

ao longo das atividades de campo, permearam a ruptura de processos metodolgicos

convencionais ou tradicionais, nos quais apenas a fala do pesquisador configurada como

monolgico, se destacava. Assim, utilizamos metodologias alteritrias, plurais, que no

apenas revelassem as pistas que as crianas traziam, mas que pudessem agreg-las enquanto

agentes protagonistas nesse processo.

Nas atividades desenvolvidas na escola constatamos a presena do rdio em vrios desenhos e

tambm nas entrevistas que realizamos. Em um dos momentos levamos um rdio para a

escola, isso despertou mais ainda a curiosidade das crianas que ficaram atentas para os sons

advindos dessa mdia e deram depoimentos sobre os locais onde s vezes escutavam

79

programas radiofnicos. As crianas quando foram questionadas sobre o que sai do rdio,

responderam que saam notcias. Um das crianas, o Luca disse que atravs da antena

que o sinal do rdio funciona, a Jlia disse que primeiro eles gravam e depois o som sai do

rdio. Nestas falas percebemos que h um entendimento sobre os princpios do

funcionamento da radiodifuso, embora em alguns momentos haja dvidas se os sons

emitidos so previamente gravados ou no.

Figura 2 As crianas em circulo, um dilogo sobre os sons que saem do rdio. Luiz ergue a mo e fala sobre o rdio ( esquerda). Luiz aponta para os buraquinhos do rdio, de onde saem os sons ( direita).

Na figura 2, percebemos as crianas observando o rdio pilha levado por ns. Tambm

falaram sobre de onde os sons saiam, apontaram com os dedos o auto-falante do rdio no

detalhe da figura direita, j do lado esquerdo Luiz aponta para cima dizendo que os sons

passam primeiro por um satlite e depois vm para o rdio.

Figura 3 As crianas em volta do rdio sintonizando uma estao.

Na figura 3 as crianas em volta do rdio observando atentamente os botes que

possibilitam a mudanas de estao; a curiosidade pelo velho e tradicional rdio era uma

constante ao longo de nossa pesquisa. Como se estivem deitadas no cho, as crianas

aproximaram do rdio para melhor escutarem os sons que saiam.

Nossas gravaes em vdeo e nossas fotografias foram utilizadas como um mtodo de

pesquisa visual, aquele que permitiu a observao e a anlise sem necessariamente os sons,

os rudos, mas que demonstram-nos parte dos fatos sociais, como tambm parte das

80

curiosidades das crianas por essa mdia que o rdio, tal mtodo pode ser importante para o

desenvolvimento de pesquisas diversas. Pensamos que a fotografia pode conter informaes

necessrias, assim as fotos que apresentamos acima nos dizem sobre parte dos interesses

das crianas pela mdia radiofnica, algo que os desenhos j apontavam no incio das oficinas

que realizamos. Alm das fotografias em nossas gravaes as crianas falaram sobre o rdio,

segue assim um dos dilogos que estabelecemos com elas:

Josemir: Crianada, como que o som sai do rdio?

Samuel: Por aqui, [aponta com o dedo para o rdio] pelos buraquinhos.

Josemir: Como assim Samuel?

Muitas crianas falam ao mesmo tempo: daqui, dali, assim [...]

Josemir: E voc Pedro, fale do rdio, como que sai o som?

Pedro: que eles ficam falando, a a antena pega o som e sai no rdio.

Josemir: Eles ficam falando de um lugar e a antena capta o som e sai aqui por esses buraquinhos que o Samuel

falou?

Pedro: .

Josemir: E voc Arthur, fale com ?

Arthur: a mesma coisa que o Pedro j falou.

Josemir: Ento fala de novo pr gente escutar?

Arthur: a antena pega o sinal, os caras ficam falando, a antena pega o sinal e sai pelo rdio Josemir.

Luca: No assim no.

Josemir: Crianada, o Luca quer falar.

Luca: assim, eles primeiro gravam depois pem uma camerinha aqui, no acaba a fita no, no acaba, pe uma

cmera, um negcio dentro dela, uma maquininha, mas no de gravar no, pega a transmisso da antena de

fora.

Josemir: Tem uma antena l fora?

Luca: , tem uma antena, porque todo lugar tem uma antena.

Muitas crianas falam ao mesmo tempo: Na casa da gente tem antena, fica l no alto [...]

Luca: Ento na antena pega a transmisso disso a e passa alguma msica que sai aqui no buraquinho do rdio.

Josemir: Jlia, como que o som sai do rdio?

Jlia: Eles gravam primeiro e depois sai por esses buraquinhos.

Josemir: Como que o som sai do rdio?

Luiz Fernando: Eu sei que a antena capta aonde que os caras t, no programa, vai falando, o satlite vai

captando e transmitindo o sinal para o rdio, a sai o som por esses buraquinhos.

As crianas muitas vezes responderam parte das indagaes, s vezes repetiram as falas

mencionadas por seus colegas, mas estabeleceram uma rede de dilogos onde no havia a

preocupao em responder apenas o que os entrevistadores queriam saber, foram alm e

81

reelaboram outras questes. As crianas falaram que do rdio saiam notcias e tambm

msicas, em nenhum momento mencionaram algum tipo de programa destinado ao pblico

infantil. Percebemos que as crianas escutam rdio, mas que no havia uma seleo sobre os

programas, mas sim o interesse pelas msicas e talvez por algumas notcias. Em nossa

pesquisa no foi possvel verificar quais as msicas ou estilos musicais que as crianas mais

gostavam e nem quais as notcias que saiam do rdio. Pensamos que h uma indagao

percebida em campo, mas ainda no respondida, sobre a escuta do rdio pelas crianas:

vivemos em uma mltipla teia de cdigos, assim as discursividades das crianas como um ato

de comunicao influenciada pelos diversos sons que saem do rdio?

A todo o momento as crianas viam as atividades de nossa pesquisa enquanto uma extenso

de suas brincadeiras, ou seja, nos momentos de captura de dados o espao escolar se

transformava diante de nossos olhos em um verdadeiro espao do brincar.

82

CAPTULO 4 PROGRAMA RADIOFNICOS PARA CRIANAS

4.1 Radiodifuso e infncia: duas histrias

A radiodifuso sempre nos chamou ateno, assim ao percorremos alguns desvios

metodolgicos chegamos a dois programas radiofnicos destinados ao pblico infantil, uma

a Rdio Maluca da Rdio Nacional AM RJ em parceria com a Rdio MEC AM e o outro a

Universidade das Crianas da Rdio UFMG Educativa em Belo Horizonte.

O programa Rdio Maluca, idealizado e apresentado pelo diretor de espetculos teatrais e

musicais, psicodramatista, cantor, compositor, pedagogo e radialista Jos Carlos de Souza,

conhecido por Z Zuca, atualmente tem sua programao veiculada ao vivo, diretamente do

Auditrio Radams Gnattali, na Rdio Nacional AM RJ, na cidade do Rio de Janeiro. O

programa surgiu em 1994, na Rdio MEC AM, em um formato de rdio-teatro e com durao

de vinte minutos. A participao do pblico infantil naquela poca podia ser verificada no

prprio formato do programa. Tratava-se de um casal de meninos reprteres que tinham como

objetivo montar uma estao de rdio e, para tanto, era necessrio convidar um educador

louco e um tcnico de som biruta19. Assim o formato da Rdio Maluca foi se estruturando e

garantindo a participao de crianas em sua programao. De l pr c, a programao foi

alterada e hoje muitas atraes culturais e/ou atividades fazem da Rdio Maluca um dos

atrativos para as crianas nas manhs de sbado. A partir do incio de 2005, o tempo de

durao da programao passou de vinte minutos para uma hora.

O programa radiofnico Rdio Maluca transmitido ao vivo e em sua programao ou roteiro

a interatividade com as crianas uma constante. Em vrios momentos o apresentador

desce do palco com o microfone nas mos e vem para a platia dialogar com crianas e

adultos. Nesse momento, cria-se um alvoroo entre os participantes, a crianada em muitos

casos se dispe a falar, levantam as mos, fazem gestos, mudam de lugar, os olhares se

direcionam para o apresentador que aleatoriamente, elege os participantes, que tm suas vozes

veiculadas pelas ondas do ar; ora so as crianas que esto mais frente do palco, ora as que

19 O educador louco era o Z Zuca e o tcnico de som biruta o Mariano, hoje integrantes da Rdio Maluca.

83

esto mais afastadas. Assim a festa acontece como um verdadeiro encontro de culturas, que

tambm veiculado ao vivo pela Rdio MEC AM.

O programa radiofnico Universidade das Crianas surgiu em 2005, a partir do prprio

nascimento da Rdio UFMG Educativa, sediada no Campus da Universidade Federal de

Minas Gerais, na cidade de Belo Horizonte. Essa rdio um marco importante na histria da

UFMG, fruto de um projeto de 30 anos, levado frente pela Professora Maria Ceres Pimenta

Spnola Castro, atual diretora do Centro de Comunicao da UFMG (CEDECOM). Uma das

atividades iniciais da Rdio UFMG Educativa foi o desenvolvimento de oficinas de rdio para

o pblico interessado em aprender algumas particularidades da radiodifuso. Tais oficinas

despertaram a paixo pelo rdio em uma frao da comunidade universitria, dando origem a

vrios programas de divulgao cientfica, sendo um deles o Universidade das Crianas.

A partir de uma parceria entre a Rdio UFMG Educativa, o Instituto de Cincias Biolgicas

(ICB) e o Centro Pedaggico20 (CP) da UFMG, comea a moldar-se o Universidade das

Crianas. Transmitir s crianas a paixo pela cincia a proposta do projeto em questo, que

tem como idealizadora e coordenadora uma pesquisadora21 do Instituto de Cincias

Biolgicas. Ela vai busca antes de mais nada de, atravs da fala das crianas, resgatar o que

tem de mais essencial na atividade cientfica a curiosidade humana. A perspectiva deixar

cada criana, influenciada pela sua histria e pelo seu contexto, mostrar seus questionamentos

mais genunos. De uma certa forma, tal proposta representa uma contestao forma como a

cincia contempornea tem sido praticada, no seu ritmo alucinante de produtividade medida

por publicaes, o que faz com que as perguntas mais essenciais morram antes de nascer.

No Universidade das Crianas, a dvida da criana externada a partir de atividades da

disciplina intitulada Grupo de Trabalho Diferenciado (GTD), oferecida inicialmente a

crianas de 9 a 11 anos do Centro Pedaggico da UFMG. Pesquisadores da UFMG, alunos de

graduao e ps-graduao e, ainda, as prprias crianas do GTD, so todos convidados a

responder s perguntas. Na maioria das vezes as perguntas demandam maiores investigaes e

discusses, o que muitas vezes culmina na interao efetiva de estudantes e pesquisadores das

mais diversas reas da Universidade.

20 O Centro Pedaggico (CP) uma Escola Federal de Educao Bsica que est sediada no campus Pampulha da UFMG. 21 A professora Dbora Dvila Reis a coordenadora do projeto Universidade das Crianas. professora e pesquisadora do Instituto de Cincias Biolgicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG).

84

Temas diversificados so abordados, sendo que no ano de 2007 e 2008 o tema escolhido foi o

corpo humano. Normalmente as perguntas e tambm as respostas so elaboradas com a

participao de professores de Cincias do CP, pesquisadores da prpria UFMG, alm de

alunos do curso de graduao em Medicina da UFMG e a coordenadora do projeto. Sempre

que possveis as indagaes e as respostas voltam ao CP para discusses que indiquem a sua

viabilidade e/ou reelaborao, de forma a permitir melhor entendimento, principalmente para

o pblico participante, que so crianas. Tudo isso em oficinas.

Um dos produtos finais do projeto em questo so as plulas radiofnicas22. Para a elaborao

do texto a ser gravado, procura-se utilizar uma linguagem acessvel e agradvel, mas sem

perder a cientificidade e a lgica do pensamento. Com freqncia utilizam-se metforas e

analogias, mas sempre com a preocupao de no promover a banalizao ou o esvaziamento

do tema abordado. Lembramos tambm que em alguns casos as respostas voltam ao grupo de

crianas do GTD para se avaliar a linguagem empregada. As crianas ficam empolgadas, pois

suas vozes podem ser ouvidas por muitos, uma vez que so veiculadas no programa

Universidade das Crianas da Rdio UFMG Educativa.

Tanto o programa radiofnico Rdio Maluca quanto a Universidade das Crianas aqui so

trazidos a partir de suas especificidades. Longe de procurar estabelecer comparaes, a idia

de permitir o melhor entendimento de suas realidades e, principalmente, os aspectos que

tratam da participao das crianas com suas falas, seus pensamentos, suas linguagens e suas

sonoridades. Atravs das falas das crianas verifica-se o fenmeno de apropriao de bens

culturais diversos, o qual comumente estabelecido em processos comunicativos, com a

utilizao de linguagens sonoras.

Quando falamos em processos de produo, lembramos que tanto a Rdio Maluca quanto o

Universidade das Crianas so elaborados a partir de diversas vozes, entre as quais

podemos destacar as das crianas. Mesmo havendo diferenciaes em seus formatos, algumas

de suas caractersticas se aproximam, um dos pontos de convergncia que so programas

radiofnicos para crianas, mas, de alguma forma, com a participao das crianas, mesmo

22 A este respeito Elias Santos (Coordenador da Rdio UFMG Educativa), em entrevista, disse o seguinte: Plulas so programetes de curta durao, com mdia de 1 a 3 minutos, com contedo variado, para serem usados nos intervalos da blocagem da programao de uma emissora. Podem conter vinhetas de abertura e de encerramento, com locuo com ou sem BG (background - msica ao fundo da fala). As plulas do um dinamismo fundamental programao da emissora.

85

quando nos deparamos com a distino do tempo de durao de cada um dos programas. A

Rdio Maluca tem a durao de 50 a 55 minutos, j a Universidade das Crianas tem a

durao de 1 a 3 minutos. Neste contexto, o ltimo pode at mesmo ser entendido como um

programete, tal diferenciao no formato do tempo, juntamente com outro fator que a

veiculao das produes, no exime da responsabilidade de se fazer programas-programetes

de qualidade para o pblico infantil.

A Rdio Maluca tem sua transmisso ao vivo, diretamente do auditrio Radams, no RJ, j a

Universidade das Crianas no transmitida ao vivo, so gravaes que circulam entre

intervalos de outros programas. Parece-nos que a prpria estrutura da Rdio UFMG

Educativa, onde ocorre veiculao alm de no dispor de espao fsico suficiente, tem uma

equipe de trabalho reduzida e no tem equipamentos e/ou estdio de som especificamente

para este fim. Em nossa visita a Rdio UFMG Educativa, visualizamos apenas um estdio,

onde toda a programao da emissora acontece. Embora no haja condies materiais para a

veiculao ao vivo, no falta coragem para tal, assim em uma das entrevistas que realizamos

com Elias Santos (coordenador da rdio) fica evidente parte de suas proposies enquanto um

integrante da emissora.

Essa uma experincia muito boa, dentro daquilo que eu falei do cientista ser provocado pela sociedade. Porque ao invs de produzirmos um contedo que pensamos que atingir as crianas, porque pensamos assim, vamos fazer um programa [...] que atingir as crianas e os adolescentes. No, resolvemos ouvir aquelas crianas, abrir o gravador para elas e falei: olha voc tem alguma coisa que queira perguntar sobre cincia, sobre o universo, sobre pesquisa, sobre o mundo? Na verdade so sobre o mundo as perguntas, a os meninos perguntam, eles so atrevidos. Eles perguntam mesmo, porque que a gente tem meleca? Porque que existe cruzeirense? Ns temos que nos virar para achar as respostas. Achar primeiro quem responda em que rea mostrar para essa pessoa, para ver se ela topa responder. Porque tem gente que no topa no, ento muito legal, o extremo da interatividade. Se isso pudesse ser feito ao vivo seria melhor ainda, mas ns por enquanto no temos estrutura para isso, mas ns vamos chegar l. Se eu no chegar, acho que outras pessoas viro e chegaro porque seria muito legal voc ter uma bancada de professores, e o ligue agora e faa a sua pergunta ao vivo. A ningum pode preparar nada e, outra coisa, a utilizao da voz da criana ento claro que tem essa coisa da pesquisa dar voz a quem no tem voz, mas para a gente estrategicamente, a criana atrai hoje em dia na sociedade, a criana permitida, se ela errou bonitinho, criana, se um adolescente erra, no. Olha l [...] a voz da criana atrai outras crianas e a gente tem essa coisa assim atrai as pessoas, ento literalmente dar voz a quem no tem voz, ao invs de ficar fazendo programas infantis para criana voc faz com que a criana participe. (SANTOS, Elias. Belo Horizonte, 26 junho. 2008. Entrevista concedida a Josemir Almeida Barros).

A fala de Santos ajuda a perceber o quanto esto ligados a produo cultural voltadas s

crianas e aquilo que pensamos sobre as crianas. Nesse sentido, o reconhecimento do

86

coordenador sobre a capacidade de interatividade das crianas no campo da produo

atravessada por uma viso de infncia como apelo de consumo, ainda ligada idia de que a

criana pode ser compreendida como objeto de graa aos adultos.

Lembramos que, quando tratamos de perguntas e respostas ao vivo, h riscos constantes em

tal processo, talvez o medo dos adultos em relao a sua incapacidade de responder questo

feita pela criana, de imediato. Nas entrevistas realizadas ficou-nos evidente que tanto os

estudantes do curso de graduao em medicina que so participantes das oficinas quanto at

mesmo os colaboradores que so professores-pesquisadores, s vezes no conseguem

responder de imediato s indagaes das crianas. Esta experincia bastante rica para

problematizar a relao criana/adulto, tal qual ela se apresenta sob padres tradicionais onde

o adulto tratado como aquele que sabe e a criana como aquele que no sabe.

Nesse sentido, a estrutura de produo do programa ajuda a relativizar esses lugares

arraigados, dando visibilidade aos saberes e no-saberes compartilhados. Apesar de Santos

mencionar na entrevista acima o desejo de realizar um programa de perguntas e respostas ao

vivo, tambm recorre ao mercado, diz ser a crianas algo estratgico e demonstra que as

crianas por ocuparem um lugar determinado na cultura do adulto, no tem voz, assim diz ser

preciso dar voz a elas. Santos recorre a uma viso adultocntrica ao explicitar o conceito de

infncia a partir da falta, da incompletude e da ingenuidade.

Na ausncia de respostas imediatas que o medo pode povoar a mente do adulto, aqui

destacamos as peculiaridades do universo infantil, ou seja, a criticidade em que se apiam

as crianas para fazer valer suas falas/vozes. As curiosidades das crianas so externadas

quase que espontaneamente nas oficinas conhecidas com GTD de Corpo Humano23.

Entendemos que as crianas revelam em suas falas parte das identidades culturais que

carregam, encontraram um lugar, um ponto de referncia para externar aquilo que pensam,

sentem, mas sem as caractersticas tradicionais das escolas, da famlia ou mesmo, das relaes

lineares entre criana e adulto.

23 As atividades desenvolvidas no Grupo de Trabalho Diversificado (GTD) fazem parte da proposta pedaggica pensada pela equipe de professores(as) das vrias reas do conhecimento, mas, neste caso, vincula-se temtica Corpo Humano. Os encontros eram semanais e com durao mxima de 1:40h. Participamos de vrias oficinas, coletando dados para subsidiar esta pesquisa.

87

4.2 Infncia e linguagens negociadas

As crianas, aqui, so entendidas como agentes que negociam constantemente seus

posicionamentos. Protagonistas de processos comunicativos, elas utilizam a linguagem sonora

para tambm expressarem parte de seus desejos, de seus anseios e de suas angstias. Nesse

processo dialogam tanto com os adultos quanto com seus pares e formulam redes prprias de

conhecimentos, as quais muitas vezes no so aceitas pelos adultos. O entendimento que

muitos adultos ainda defendem, de uma infncia em que os sujeitos so incapazes de pensar,

de construir conceitos e saberes, tende a prejudicar a viabilidade de dilogos e/ou

discursividades atravs da radiodifuso. Ao se considerar a infncia enquanto parte de um

processo, ou melhor, de processos que no primam pela fixidez, mas que carregam a fluidez

constante das mudanas histricas e, portanto culturais, destaca-se a importncia dos

programas radiofnicos j mencionados anteriormente, enquanto partidrios de novas formas

de pensar a infncia.

Certamente as definies de infncia so variadas e muitas vezes contraditrias. Em qualquer momento histrico, em qualquer grupo social ou cultural, podemos encontrar muitas definies conflitantes algumas das quais podero se resduos de concepes anteriores, enquanto outras talvez tenham surgido h pouco. Entretanto, na histria recente dos pases industrializados, a infncia tem sido essencialmente definida como uma questo de excluso. Mesmo com toda a nfase ps-romntica na sabedoria e na compreenso inatas das crianas, elas so definidas principalmente em termos do que no so e do que no consegue fazer. (BUCKINGHAM, 2000, p. 29)

No texto acima, Buckingham (2000) fala sobre as definies variadas de infncia. Os

programas radiofnicos, Rdio Maluca e Universidade das Crianas podem ser considerados

uma construo, onde o processo de negociao entre os ouvintes e os falantes uma

constante e que necessariamente no parte daquilo que as crianas no so ou no consegue.

As crianas so, portanto, produtoras culturais, agentes participativos e autores de dilogos

criativos; no so meros ouvintes que passivamente absorvem os dilogos, sem antes

interpret-los e reinterpret-los. Diferentemente de alguns sistemas escolares positivados, os

saberes midiatizados carregam suas peculiaridades e, em muitos casos, podem ser mais

atrativos que a escola tradicional. Em nossa perspectiva, o receptor ativo, observado nos

estudos de recepo, se caracteriza justamente por essa capacidade de, na interao com os

produtos miditicos, aprender. (BRAGA e CALAZANS, 2001, p. 92). Nessa interao de

culturas diversas os sentidos so produzidos e socializados tanto no universo infantil quanto

entre o universo infantil e o adulto. Por um lado percebe-se a interao cultural dos diversos

88

agentes que participam de forma direta ou indireta dos programas, ou seja, aqueles que

puderam emitir diversos sons e entre eles suas falas, que, por sua vez, foram veiculadas nos

microfones. Por outro lado, temos aqueles que apenas escutam os sons e/ou falas de outras

crianas, mas que, em determinados momentos, se identificam com os processos

comunicativos em questo, havendo, portanto, uma interatividade a partir dos programas

radiofnicos veiculados. A cultura miditica infantil cada vez mais atravessa as fronteiras

entre textos e entre formas miditicas tradicionais [...] (BUCKINGHAM, 2000, p. 131).

Aqui ressaltamos a radiodifuso enquanto um processo comunicacional tradicional, ainda que

muitos possam acess-lo atravs da rede mundial de computadores, conhecida tambm por

Rdio Web, que, neste caso, nos faz recordar da chamada convergncia tecnolgica,

permitindo a amplitude da recepo. As especificidades destes programas radiofnicos para

crianas se destacam em meio s transformaes culturais e econmicas da

contemporaneidade. Mesmo sendo o rdio uma mdia tradicional, nos dois programas

radiofnicos aqui analisados destacam-se as inovaes na produo, transmisso e at mesmo

na recepo de produtos culturais.

Fronteiras difusas, entrelaamento de mdias e hibridismos so diversos os nomes que

encontramos para tais processos, pensamos que os ambientes miditicos passam por

transformaes tcnicas e tecnolgicas para atender a interesses diversos, desde o cultural ao

econmico. As mdias contemporneas, de acordo com Buckingham (2000, p. 133-134),

gradativamente se dirigem s crianas, [...] como se elas fossem consumidores altamente

alfabetizados midiaticamente. Se elas o so de fato, e o que entendemos por isso, so, porm

questes bem mais complexas.

possvel que as crianas estabeleam cdigos prprios, que permitem a apropriao de

significados advindos dos diversos signos sonoros veiculados nos programas radiofnicos, ou

seja, possvel que elas sejam leitores imersos em possveis novas leituras dos produtos

culturais. Com as convergncias das mdias, desde as tradicionais s modernas, devemos

repensar as crianas no como leitores contemplativos24, que no deixam suas marcas naquilo

que lem, leitores da era pr-industrial. Se, hoje, pouco se v nas crianas tal comportamento,

apenas contemplativo, pode-se enveredar por uma nova proposta que tambm conhecida por

24 Ver: SANTAELLA, Lucia. Navegar no ciberespao: o perfil cognitivo do leitor imersivo. 2ed. So Paulo: Paulus, 2007. 192 p.20.

89

leitor movente25. Este tipo de leitor, que surgiu a partir da Revoluo Industrial, habita um

mundo hbrido, de um ir e vir constante. Na contemporaneidade, apesar das prticas diversas

de leituras das crianas, ainda possvel a existncia de leitores contemplativos, dada a

existncia de prticas contemplativas que se perpetuam em alguns ambientes e que esto

imersas na tradio de que a criana um ser humano incapaz de movimentar-se e de

produzir culturas a partir de seus cotidianos.

O primeiro, como j foi mencionado acima, o leitor contemplativo, meditativo da idade pr-industrial, o leitor da era do livro impresso e da imagem expositiva, fixa. Esse tipo de leitor nasce no Renascimento e perdura hegemonicamente at meados do sculo XIX. O segundo o leitor do mundo em movimento, dinmico, mundo hbrido, de misturas sgnicas, um leitor que filho da Revoluo Industrial e do aparecimento dos grandes centros urbanos: o homem na multido. Esse leitor, que nasce com a exploso do jornal e com o universo reprodutivo da fotografia e do cinema, atravessa no s a era industrial, mas mantm suas caractersticas bsicas quando se d o advento da revoluo eletrnica, era do apogeu da televiso. O terceiro tipo de leitor aquele que comea a emergir nos novos espaos incorpreos da virtualidade. (SANTAELLA, 2007, p. 19)

As consideraes de Santaella (2007) sobre os trs tipos de leitores so importantes, mas do

mesmo modo que mencionamos anteriormente sobre a infncia enquanto uma construo

histrica, percebemos que a participao das crianas nos programas radiofnicos no est

especificamente vinculada a tais mudanas, mas, tambm, aos espaos possveis que

permitem a negociao. Assim, a superao do leitor contemplativo pressupe a constituio

de um leitor imersivo.

Os dois programas radiofnicos aqui analisados, Rdio Maluca e Universidade das Crianas,

explicitam o leitor ativo, que negocia suas falas e deixa suas marcas e no se contenta em

apenas acompanhar passivamente as produes culturais. H boas e ms interpretaes

mas o saldo, positivo ou negativo, uma aprendizagem. Ou seja: o receptor ativo no

porque resista, mas na medida mesmo de sua interao com os produtos mediticos. ativo

porque interativo. (BRAGA e CALAZANS, 2001, p. 93). A interatividade dos leitores, aqui

entendidos como ouvintes de mensagens radiofnicas, no se limita apenas aos receptores,

que de alguma forma, mostram-se tambm produtores que alteram o percurso das

mensagens veiculadas no rdio. Buckingham (2000, p. 139) nos diz que as crianas so

consideradas consumidoras miditicas exigentes, sbias e sofisticadas. Os dois programas

radiofnicos, portanto, negociam com um pblico nada passivo, um pblico que de

25 Ibidem, p. 24.

90

contemplativo no tem nada, mas que, no jogo de negociao, explicita seus interesses, em

muitos casos resiste e no abre mo de suas culturas; talvez uma infncia negociada, a partir

de uma rede de saberes que vo sendo apropriados com o passar dos tempos, atravs de vrios

produtos miditicos.

Cabe ressaltar que os dois programas aqui analisados propiciam uma inusitada relao entre

produo e recepo, na medida em que muitas crianas ouvintes participaram efetivamente

da produo desses programas.

Entretanto no podemos esquecer que a analise aqui trazida se pautou no acompanhamento

apenas dos processos de produo destes programas, no tendo havido nenhuma ao de

pesquisa que focasse a sua recepo, na forma clssica: a audio, via rdio, em contexto

distante do local de emisso.

Feita essa ressalva, entendemos ser importante frisar que compreendemos que a participao

das crianas na produo desses programas d a elas um outro tipo de conscincia do que seja

a radiodifuso, como lhes torna, certamente, ouvintes mais qualificados e exigentes.

Crianas e adultos negociam constantemente as linguagens sonoras veiculas nas ondas do ar,

nos programas radiofnicos. So mundos diferentes, mas com cruzamentos de produtos

simblicos que apresentam sentidos s singularidades.

A gama de possibilidades de atividades cotidianas desdobra-se num fluxo incessante, impondo aos sujeitos uma frentica re-elaborao das suas experincias da vida, do tempo, da espacialidade, dos modos de relacionar-se. certo que as inumerveis atividades e situaes cotidianas se apresentam indistintamente para adultos e crianas, posto que derivam de uma base social comum. Entretanto, o modo como cada grupo d sentidos a essas experincias singular. (PEREIRA, 2003, p.16-17).

As particularidades dos cotidianos, tanto dos adultos quanto das crianas, exigem-nos um

constante repensar e negociar. No excerto acima, Pereira (2003) pondera sobre as mltiplas

possibilidades de atividades cotidianas e seus desdobramentos, em que cada grupo, ao seu

jeito, estabelece sentidos e significados aos processos miditicos. Podemos at mesmo

mencionar a negociao no que diz respeito cultura, ou s culturas dos diversos grupos. No h dvida de que a infncia est mudando, muitas vezes como resultado de seu contato com a cultura infantil e outras manifestaes mais adultas da cultura mdia.

91

Apesar de todo o pblico da cultura popular desempenhar um papel importante dando seu prprio significado aos seus textos, a cultura infantil e a cultura popular adulta exercem influncias afetivas especfica, importando mapas que emergem nos contextos sociais nos quais as crianas se encontram. (STEINBERG e KINCHELOE, 2004, p.32)

Percebemos que as mudanas no campo da infncia, e em especfico, sobre parte da cultura

infantil emergem de processos mltiplos de ressignificao de espaos e tambm de tempos,

ou seja, o contexto scio-cultural e espacial em que as crianas hoje vivem se diferenciando

de outros tempos; assim como os prprios espaos que tambm freqentam e onde circulam

tm sido alterados, assim tais modificaes acabam interferindo nos aspectos culturais das

crianas.

Nos programas radiofnicos aqui analisados a negociao se fez presente, ou seja, a cultura

infantil disputou lugares com a cultura dos adultos, ressignificando peculiaridades de cada

cultura. Os vrios discursos veiculados nos programas radiofnicos foram em sua maioria

abrangentes, abordando tanto temas acerca do universo infantil como tambm particularidades

do universo adulto, apresentaram narrativas mltiplas, perpassando culturas, demonstrando-

nos a interatividade. Assim, a narrativa de que fala Benjamin s existe nessa dimenso oral,

j que ocorre no dilogo constante entre narrador e ouvinte, o que faz com que a mesma

histria possa ser, a cada vez, contada de forma diferente de acordo com o pblico que a

ouve. (HOFFMANN, 2008, p. 182). Nos dilogos estabelecidos entre crianas e

produtores de programas radiofnicos, percebemos uma recorrncia de falas a partir de

algumas indagaes estabelecidas pelos adultos. Eram constantes as repeties, mesmo assim

no entendemos que h ausncia de narrativa, talvez o imediatismo das respostas possa ter

contribudo para o direcionamento das mesmas. A repetio aqui no tem o carter de

anulao das narrativas ou de passividade dos participantes, ao contrrio, pensamos que a

repetio se vincula especificamente ao ato de brincar, brincar com as palavras, brincar com

aquilo que j foi dito e redito. A esse respeito lembramos que Salgado (2008) refora a

brincadeira. Trabalhar com brincadeiras e jogos no se limita a definio, enquadre ou administrao pedaggica dessas atividades em sala de aula. Significa, tambm, penetrar no universo ldico da criana como interlocutor, no apenas para compreender o que ela faz ou diz, mas para aproximar-se de seus valores, sua cultura e dos modos como ela traduz os signos de seu tempo e os transforma em fantasias, medos, desafios, heris, ogros e brinquedos. Brincando, jogando e criando narrativas, as crianas esto falando de si prprias, de seus medos, coragem, angstias, sonhos e ideais. Esto falando de seu tempo, da cultura em que vivem, aprendem e se desenvolvem, [...] Esto falando tambm de ns adultos, de nossas

92

expectativas e projetos, de nossa presena e silncio, de nossas certezas e dvidas. (SALGADO, 2008, p. 104)

Ousaramos dizer que h narrativas a partir do brincar, do aprender e do reconhecer aquilo

que outras pessoas falaram, mas que traz de alguma forma sentidos. Um ato de fala, portanto,

um ato intencional destinado a expressar certo contedo proporcional com certa fora

ilocucionria. (OLSON, 1997, p. 136). Mesmo havendo repeties de falas/respostas, o ato

de expressar j diz algo importante, ilocucionrio e carrega narrativas, mesmo que

provisrias. As vozes das crianas diante dos microfones demonstraram que a negociao

colocada enquanto uma constante, tanto no programa Rdio Maluca quanto no Universidade

das Crianas. A preocupao primordial no era a distino entre cultura infantil e adulta,

mas o entrelaamento de tais culturas, sem deixar de lado aquilo que mais relevante para o

pblico infantil, diante de suas anlises.

No podemos esquecer, entretanto, que as negociaes entre as culturas infantis e a

perspectiva adultocntrica do mundo tm dimenses bem mais complexas do que as que se

tornam visveis nos dos programas aqui em discusso. Envolvem amplas decises polticas e

econmicas, bem como minsculas decises cotidianas: quem escolhe a grade de programas?

Quem escolhe as temticas? Quem decide a durao dos programas? Quem escolhe a estao

de rdio que ser ouvida?

Para poder estudar a criana, preciso tornar-se criana. Quero com isso dizer que no basta observar a criana, de fora, como tambm no basta prestar-se a seus brinquedos; preciso penetrar, alm do crculo mgico que dela nos separa, em suas preocupaes, suas paixes, preciso viver o brinquedo. (FERNANDES, 2004, p.195)

Ao optarmos por uma metodologia que pudesse permitir-nos uma insero em campo, ou

melhor, uma penetrao para alm do crculo mgico que Florestan Fernandes (2004)

menciona na excerto acima, foi preciso mais do que observaes; se tornar uma criana,

relembrar os velhos tempos.

Os dois programas radiofnicos sempre contemplam uma temtica e isso permitiu tambm

um repensar sobre as atividades de brincar, pois, nas atividades que acompanhamos (oficinas),

as crianas quase sempre se apoiavam nas brincadeiras. A seguir apresentamos alguns

programas veiculados tanto na Universidade das Crianas da Rdio UFMG Educativa quanto

na Rdio Maluca da Rdio Nacional AM RJ / Rdio MEC AM.

93

4.3 O programa Rdio Maluca da Rdio Nacional AM RJ / Rdio MEC AM O programa Rdio Maluca da Rdio Nacional RJ AM em parceria com a Rdio MEC AM26,

tendo como apresentador Z Zuca, o assistente Mariano, o sonoplasta Badalo e a colaborao

de Joelma Vieira, tem como formato ser um programa de auditrio, no qual os participantes

podem ocupar as 150 cadeira do auditrio do 21 andar do prdio onde a Rdio Nacional

sediada no RJ. O programa transmitido ao vivo, tendo aproximadamente uma hora de

durao.

Para as nossas anlises trazemos um total de cinco programas, embora haja a exemplificao,

no quadro abaixo, de dez temticas veiculadas em dias diferentes. Lembramos que cada um

dos programas teve a durao de aproximadamente uma hora. Dos cinco programas

selecionados em destaque na tabela 1, assistimos a trs ao vivo, enquanto participante,

diretamente do auditrio da Rdio Nacional no Rio de Janeiro; os outros dois programas no

assistimos e nem os escutamos no mesmo dia em que foram veiculados. Conseguimos acess-

los atravs do prprio apresentador Z Zuca, que nos concedeu os arquivos de som. Abaixo

segue a tabela 1, com os dias e temticas veiculadas. Lembramos que realizamos algumas

entrevistas com crianas e, tambm, com parte da equipe do programa Rdio Maluca.

Dia Temtica

20 de outubro 2007 Bia Bedran no corao e na cuca

08 de dezembro 2007 O dia internacional da criana no rdio e na TV O mundo que queremos ONU

15 de maro 2008 Festa da cultura popular

29 de maro 2008 Brincadeira vitamina: remdio para meninos e meninas

12 de abril 2008 Nomes e apelidos

26 de abril 2008 Quem inventou o Brasil

03 de maio 2008 A poesia e a prosa do mestre Rosa

17 de maio 2008 Os meus, os teus, os nossos sonhos musicais

07 de junho 2008 Ecologia e meio ambiente

28 de junho 2008 Festa Junina Tabela 1 Algumas temticas veiculadas na Rdio Maluca.

26 Transmisso: Rdio Nacional - AM 1130 khz e Rdio MEC AM 800; On line: www.radiobras.gov.br ou www.radiomec.com.br

94

Antes do incio de cada programa, que veiculado ao vivo, o ambiente (auditrio)

preparado para receber os participantes, que so as crianas e tambm os adultos. O tcnico de

som conhecido pelo apelido de Badalo27 inicia as atividades bem cedo, prepara a parte de

cabos, fios, microfones, pedestais, mesa de som etc.; o Mariano28, por sua vez, tambm chega

cedo, o assistente do Z Zuca e prepara o ambiente, enfeitando-o com trs grandes pedaos

de panos (remendados e coloridos como se fossem bandeiras), coloca sobre uma das caixa de

som, localizada no lado direito do auditrio algumas frutas de plstico; no palco do lado

esquerdo, Mariano coloca uma mesa e a cobre-a com forro de pano predominantemente azul,

mas com detalhes de outras cores. Sobre o forro azul da mesa, Mariano coloca muitos

brinquedos coloridos, brinquedos que so tambm instrumentos de sopro ou que emitem

sons variados como, por exemplo, (cornetas, chique-chique etc.). Entre os instrumentos

podamos notar uma pequenina sanfona vermelha. Prxima mesa uma espcie de cabide

onde eram pendurados ou dispostos tantos outros instrumentos (tringulo, pratos) e utenslios

domsticos (sanduicheira, canecas, ralador de cenoura etc.) que tambm serviam para emitir

sons. O ambiente ganhava uma nova forma, ficava mais colorido, tudo isso ao som de

algumas msicas tanto visando os adultos como o pblico infantil.

Em uma das entrevistas que realizamos com as crianas a mesa cheia de brinquedos foi o

destaque, pois despertou o interesse e atraiu a ateno da criana entrevistada. Parece haver

uma associao direta do brincar ou das brincadeiras a partir dos objetos dispostos na mesa,

localizada em cima do palco.

Josemir Joo, quantos anos voc tem?

Joo Sete.

Josemir Voc costuma vir aqui na Rdio Maluca?

Joo s vezes eu venho.

Josemir E o que te chama ateno, o que voc mais gosta aqui na Rdio Maluca?

Joo Das histrias, das charadas, das msicas.

Josemir em casa ou no carro que voc escuta rdio?

Joo O meu pai vendeu o carro.

Josemir Alm das histrias o que voc mais gosta aqui na Rdio Maluca?

Joo Instrumento dali. [Aponta com o dedo para a mesa localizada em cima do palco].

Josemir Ah, do instrumento que fica em cima da mesa que o Mariano toca, todo colorido?

Joo Eu gosto, eu at pedi uma sanfoninha como aquela pro meu pai.

27 O nome do Badalo Joo Roberto. 28 O nome do Mariano Rodney Mariano Nascimento Correia de Faria.

95

Josemir E voc toca sanfona tambm?

Joo No.

Josemir E como voc descobriu a Radio Maluca? Foi o papai e a mame?

Joo [Silncio, Joo balanou a cabea indicando que sim].

Josemir E tem muito tempo que voc vem na Rdio Maluca?

Joo Tem.

Outro detalhe que tambm apareceu na entrevista acima sobre o programa Rdio Maluca e

que tambm despertou a ateno de Joo foi atrao do dia, normalmente uma histria

contada por adulto para crianas; Joo tambm mencionou sobre as charadas apresentadas ao

longo do programa pelo apresentador. As msicas tambm parecem ser uma das atraes para

a criana. Alm da mesa colorida, a criana demonstrou o que atrativo, aquilo que diz

respeito ao seu universo.

Figura 4 Mariano prepara no palco a mesa com diversos instrumentos coloridos ( esquerda no alto) e Badalo faz ajustes na mesa de som para iniciar as atividades do programa ( direita no alto). No detalhe a mesa com uma

espcie de trip vista de outro ngulo ( esquerda embaixo); ao fundo o local de onde Badalo opera a mesa de som ( direita embaixo)

96

Na figura acima podemos observar um dos exemplos que a criana menciona, pois na

conversa que estabelecemos, ela falou sobre os brinquedos. Joo apontou com os dedos para a

mesa e, em especfico, para uma pequena sanfona colorida normalmente utilizada por

Mariano ao longo da apresentao do programa. Ressaltamos que os brinquedos so

importantes nesta fase da vida e que na Rdio Maluca eles so utilizados tambm para compor

o cenrio. Rodeadas por um mundo de gigantes, as crianas criam para si, brincando, o

pequeno mundo prprio; mas o adulto, que se v acossado por uma realidade ameaadora,

sem perspectivas de soluo, liberta-se dos horrores do real mediante a sua reproduo

miniaturizada. (BENJAMIN, 2002, p. 85). Em nossa participao nos programas foi possvel

perceber essa magia despertada pelos brinquedos, tanto nas crianas quanto nos adultos, os

olhares dos participantes se direcionavam para as miniaturas dos instrumentos musicais em

cima da mesa ou os utilizados ao longo do programa. Aps o trmino do programa o palco

ficava cheio de crianas e adultos que, por sua vez eram atradas pelos brinquedos; sempre

aproximavam-se da mesa e observavam atentamente o que l estava.

Antes da veiculao ao vivo do programa Rdio Maluca, o apresentador Z Zuca juntamente

com sua equipe e tambm os convidados do dia fazem um ensaio, passam o programa como

forma de fazer alguns ajustes. Faltando de trs a cinco minutos para o incio da transmisso do

programa, uma vinheta na voz de uma criana chama a ateno dos participantes do auditrio

para a dinmica da Rdio Maluca, com os seguintes dizeres: esse um programa que voc v

pelo rdio; alerta que o programa ser transmitido via rdio e que este legal, um amigo

da gente, podendo ser levado para qualquer lugar e que muitas crianas acompanharo o

programa pelo radinho. Em seguida anuncia/chama um grande garoto para apresentar o

programa; assim Z Zuca entra no palco e explica que, aps o trmino do jornal, que no

momento estava no ar, ter incio a Rdio Maluca. Mas, antes, chama ento o seu amigo,

cantor, compositor e parceiro para entrar no palco e, assim o Mariano tambm entra em

cena sob aplausos.

Cena 1 - J so 11:00, Z Zuca faz um primeiro chamado e explica para o pblico a dinmica da Rdio Maluca: diz que de 11:00 s 11:03 haver um jornal na Rdio Nacional e, na seqncia, entra no ar a Rdio Maluca, explica para o pblico que cada cadeira vazia poderia ser ocupada pelos participantes que l esto, ou seja, o pblico presente poderia participar intensamente das atividades, lembro que era uma manh de sbado chuvoso no RJ. Z Zuca convida ento o Mariano para entrar em cena, muitas palmas [...] Z Zuca vai para o camarim e em poucos segundos volta fazendo um grande alvoroo. A alegria era grande, o pblico encantado com o ambiente, luzes coloridas e tambm com a roupa do apresentador (bermuda e camisa colorida, chapu tambm bem enfeitado com diversas cores e etc.). Z Zuca faz ento algumas perguntas para o pblico: vocs sabem o que cultura popular?

97

Pergunta qual a festa popular que a crianada mais gosta, nesse momento ele j estava no auditrio, pertinho das crianas, dividindo o microfone com as outras vozes. O encantamento parecia ser geral, entre crianas e adultos, naquele espao. O show comeou e ningum dormiu nem perdeu um movimento sequer, Z Zuca caminha de um lado para o outro fazendo as perguntas para o pblico infantil (crianas de 4, 5, 6 [...] 10 e 11 anos), idades variadas, mas com predomnio de um pblico infantil de 4 a 6 anos. A platia ganha mais vida, cores, movimentos, parece uma mistura de arte com educao, com radiodifuso, com cultura etc. (Dirio de campo maro 2008)

Apesar da existncia de um roteiro prvio, algumas alteraes podem ser feitas no momento

em que h o ensaio; verificamos que at mesmo quando o programa est sendo transmitido ao

vivo algumas pequenas modificaes so realizadas, como, por exemplo a alterao das

msicas que os convidados iro tocar e/ou cantar. Na maioria das vezes o programa

apresentado a partir de uma estruturao que a seguinte: a temtica do dia, que pode

estabelecer vnculos com um cantor e/ou compositor e/ou artista e/ou escritor. Sempre h uma

provocao, que uma pergunta feita pelo prprio apresentador para platia e tambm aos

ouvintes do rdio. Outro quadro a grande figura, que so os convidados (cantores, artistas,

compositores, contadores de histrias). H tambm uma pequena entrevista, ou seja, um

entrevistinha, que, s vezes, previamente organizada ou um improviso, mas sempre com a

participao de crianas. Tambm h a histria do dia, narrada por um(a) contador(a) de

histrias. Outro quadro o de adivinhaes (o que , o que ). No final do programa o

apresentador l alguns resultados ou falas de ouvintes que ligaram para a emissora e

participaram da provocao do dia. Ao longo do programa o apresentador sai do palco e vai

para a platia conversar com os participantes (crianas).

4.3.1 Bia Bedran no corao e na cuca

No programa veiculado no dia 20 de outubro de 2007, a temtica do dia foi Bia Bedran no

corao e na cuca29. A partir das msicas que so tocadas no incio, o apresentador Z Zuca

faz alguns comentrios. Neste dia falou de Bia Bedran e de Carlos Alberto Ferreira Braga, o

Braguinha. Tambm perguntava aos participantes se conheciam Bia Bedran. Aps a

veiculao de algumas vinhetas e dos dilogos ou comentrios sobre Bia Bedran e Braguinha,

o apresentador foi para a platia e abriu o microfone para os participantes, ou seja, as

29 Bia Bedran cantora e compositora, formada em musicoterapia e educao musical, faz msicas para crianas entre outras atividades. Bia traz atualmente em sua bagagem um repertrio vastssimo de histrias, canes e atividades pedaggicas com dinmicas e vivncias que resgatam o ldico e o processo de sensibilizao tanto de crianas quanto de adultos Acesso em: 28 de setembro 2008.

98

crianas; perguntou sobre qual a msica que cada um mais gostava. Em seguida Z Zuca fez

um dilogo com Mariano sobre a msica que ele mais gostava. Mariano leu uma poesia e fez

alguns comentrios sobre a mesma. Z Zuca pediu ao Badalo para tocar uma msica da Bia

Bedran.

Z Zuca tambm fez a provocao do dia, chamou o pessoal do auditrio para perto do

microfone e o pessoal de casa para perto do telefone, na seqncia diz a provocao seguinte:

ela tem o pedalinho, o anel, aquela do canta a conto e etc. Qual e a msica da Bia Bedran

que voc mais gosta? Z Zuca foi para o auditrio, perguntou o nome de uma criana

participante, que disse chamar-se Beatriz e ter 7 anos, disse gostar da msica que falava sobre

perdi o meu anel no mar. Gustavo, outra criana, de 9 anos, disse gostar da mesma msica

citada anteriormente. Jlia, outra criana disse que gosta da msica do Abcdrio, Z Zuca

disse que essa msica do Rubinho do Vale, assim outros participantes disseram o que mais

gostavam, diversas msicas so citadas.

O quadro seguinte a grande figura, que, na ocasio, foi a prpria Bia Bedran. Acontece um

dilogo entre Z Zuca e Bia Bedran. Z Zuca disse que pelos buraquinhos do rdio se v o

que est acontecendo no auditrio, neste ponto percebemos que h uma brincadeira

estabelecida por Z Zuca, a idia que os sons advindos do programa possam criar imagens,

fices ou realidades para as pessoas que esto em outros espaos e apenas escutam o

programa pelo rdio, que transmitido ao vivo.

A grande figura do dia canta algumas msicas. Percebemos que, neste momento, a

participao do pblico do auditrio era grande, pelos rudos, ou sons, parece-nos que Bia

Bedran conseguiu sacudir o auditrio. Os participantes, em determinados momentos,

aplaudiam e/ou gritavam, parecia haver uma interatividade no sentido de que o pblico do

auditrio no se calou, ao contrrio, misturavam-se naquele momento as diversas vozes. Aps

as msicas, sempre havia comentrios sobre a sua histria e/ou composio das mesmas, isso

como forma de explicar aos participantes e/ou ouvintes parte do contexto pelo qual tais

msicas foram produzidas ou compostas.

Z Zuca traz alguns recados deixados pelos ouvintes do programa; assim, diz que a Ticiana,

de 7 anos, de Vila Isabel, gosta mais da msica Dona rvore; Gabriel Campos, de 7 anos, de

99

Pedra de Guaratiba, gosta mais da do Piolho, porque curiosa e interessante; assim, outros

participantes tambm deixaram o seu recado.

Z Zuca convidou Mariano para contar uma piada. Na seqncia, uma histria; Z Zuca

pergunta platia quem poderia contar a histria, a resposta veio imediata: a histria poderia

ser contada por Bia Bedran. A histria foi a do Macaco e a Velha. Z Zuca pede que os

ouvintes se aproximem dos buraquinhos do rdio. E diz que os participantes do auditrio

poderiam aproximar-se mais do palco. Um mistura de histria com msica, assim a

contadora de histria fez uma apresentao; parece-nos que despertou mais a ateno do

pblico que estava no auditrio.

As vinhetas que falavam sobre alguns quadros do programa eram constantemente veiculadas,

em sua maioria so de autoria do prprio apresentador. Z Zuca convidou Mariano para falar

sobre a adivinhao, Mariano pergunta ao auditrio: o que , o que que s tem alegria

quando apanha? Neste momento, muitos gritos advindos das crianas que estavam na platia,

que responderam ser o pandeiro. Z Zuca falou de algumas msicas do Braguinha e

perguntou ao auditrio se poderia trazer de volta a Bia Bedran. A resposta veio

imediatamente, muitos gritos favorveis. Bia Bedran, ento, canta mais msicas.

A grande figura do dia tambm falou sobre seus lbuns, seus trabalhos atuais, seus shows e

futuros trabalhos, estabeleceu um dilogo com Z Zuca; na seqncia mais msicas, os

participantes que estavam no auditrio gritaram e aplaudiram, no trmino de cada

apresentao musical.

Aps a apresentao musical de Bia Bedran, Z Zuca fez a leitura de alguns recados que os

ouvintes deixaram, sobre a provocao do dia. Z Zuca fez o convite para o prximo

programa, falou sobre a temtica e mencionou o nome dos participantes do programa

(produtores).

Parece-nos que este programa vem ao encontro dos diversos dilogos, das diversas vozes,

criando discursividades a partir dos enunciados tanto do apresentador enquanto locutor

principal quanto dos diversos participantes, que tambm emitiram suas vozes pelos

buraquinhos do rdio.

100

Desde o incio, porm, o enunciado se constri levando em conta as atitudes responsivas, em prol das quais ele, em essncia, criado. O papel dos outros, para quem se constri o enunciado, excepcionalmente grande, como j sabemos. J dissemos que esses outros, para os quais o meu pensamento pela primeira vez se torna um pensamento real (e deste modo tambm para mim mesmo), no so ouvintes passivos mas participantes ativos da comunicao discursiva. (BAKTHIN, 2003, p. 301).

A partir das consideraes mencionadas por Bakthin (2003), percebemos que os sujeitos so

participantes e portanto, a nosso ver, constituidores de redes de sentidos diversos, mas isso

a partir de suas pretenses, do contexto poltico, social, econmico e tambm cultural nos

quais esto imersos. Muitas vezes so protagonistas participantes do programa Rdio Maluca

que, atravs de suas falas, constituem processos comunicativos e/ou discursivos que nos

remetem interatividade, a participao das crianas nas atividades estabelecidas.

As crianas estabelecem redes de dilogos com o apresentador, em alguns casos, pode haver

uma idia que o simples fato da participao da grande figura do dia ser algum que produz

msicas para crianas garanta tal interatividade. O que pensamos que a atrao das crianas

pelas msicas de Bia Bedran garantiu ao apresentador a presena de um grande pblico

infantil no auditrio, mas que necessariamente no h as mesmas garantias de que a

interatividade possa ser comum na estrutura do programa. A exemplo disso, o microfone s

aberto para a participao da platia nos momentos determinados pelo apresentador, e quando

isso ocorre uma comunicao face a face com os participantes. J aqueles ouvintes do rdio

que no esto no mesmo espao do auditrio e que utilizam o telefone para responder as

indagaes do apresentador, ora so mencionados, ora no so mencionados pelo

apresentador. Pelo fato do programa Rdio Maluca ser realizado em um auditrio com a

participao livre, nos parece que parte das caractersticas dos programas radiofnicos so

deixadas de lado, assim o ver parece ganhar destaque ao ouvir. Em alguns momentos as

discursividades do locutor no levaram em considerao os ouvintes que no presenciam as

mesmas cenas dos participantes do auditrio.

4.3.2 O dia internacional da criana no rdio e na TV O mundo que queremos

No programa do dia 08 de dezembro de 2007, a temtica do dia foi O dia internacional da

criana no rdio e na TV O mundo que queremos ONU. De imediato Z Zuca disse que a

101

palavra estava com as crianas, assim Gabriel Costa de 12 anos e Juliana do Vale de 10

anos30, naquele dia, tambm eram os locutores. Como as crianas eram os apresentadores, a

grande figura do dia foi, ento o Z Zuca e a Banda de Brinquedos. Uma inverso, o que

percebemos nesse programa, agora as crianas foram os protagonistas diretos. Os

contadores de histria tambm foram anunciados, eram crianas tambm. Z Zuca anunciou a

provocao do dia, Gabriel disse: deixa comigo Z, criana tambm sabe das coisas, por isso

o nosso dia no palco, a gente quer que o mundo seja melhor e mais feliz. Juliana do Vale

completa: mas como o mundo que queremos? Se voc pudesse transformar o nosso mundo

o que colocaria nele? Como ele seria?

Z Zuca foi para o auditrio, Kiane, uma criana de 11 anos disse que terminaria com as

doenas e com a fome tambm, j Giulia, de 9 anos disse que tiraria a violncia e acabaria

com a fome. Dbora, outra criana de 7 anos, disse que o mundo deveria ter s brincadeira,

alegria e sem vov com rugas, Z Zuca, pediu para repetir a resposta e estabeleceu alguns

comentrios com a Giulia, outras pessoas tambm foram entrevistadas. Mariano foi convidado

para tambm dizer o que mudaria, disse que gostaria que as pessoas conversassem mais umas

com as outras, eu queria um mundo mais honesto, mais amigo. Na seqncia, uma msica

sobre crianas, do CD Canes Curiosas, do grupo Palavra Cantada, que dizia sobre os

fazeres das crianas, ou seja, crianas no trabalham, mas brincam.

Z Zuca foi convidado pelas crianas apresentadoras para cantar e tocar, apresentou a banda

de brinquedos e disse sobre o CD que lanaria no dia seguinte, CD Roda de Cantigas. Gabriel

perguntou ao Z Zuca qual era a msica que ele mais gostava do CD. Z Zuca respondeu ao

questionamento dizendo ser difcil escolher uma msica. Juliana perguntou como surgiu a

idia de lanar um CD sobre as Cantigas de Roda, Z Zuca tambm respondeu tal questo.

Uma msica foi cantada/tocada, Roda Pio, pelos rudos que escutamos perece-nos que os

participantes do auditrio ficaram eufricos e gostaram da sonoridade. Gabriel fez outra

pergunta ao Z Zuca, sobre o figurino. Assim vieram as respostas sobre os trajes, o figurino, o

cenrio. Outra msica foi cantada, o Cravo e a Rosa.

30 Normalmente o programa tem um quadro que o reprter mirim, para participar de tal quadro os responsveis pelas crianas devem ligar para a Rdio Maluca e agendar um conversa com os produtores, a partir da parece haver uma escolha dos que participaro em determinados dias.

102

As crianas anunciaram o prximo quadro, o reprter mirim; Z Zuca explicou que uma

garotada foi reunida e as crianas escreveram sobre o que elas gostariam de transformar no

mundo. Cada uma escreveu. A Juliana do Vale fez um poema e o trouxe para ler na Rdio

Maluca; na seqncia, o texto/poema intitulado de O mundo que eu quero lido:

O mundo que eu quero um mundo legal, com confete e serpentina pr brincar de carnaval.

No mundo que eu quero as estradas tm mais flores, os carros sem sujeira e no corao mais

amores. No mundo que eu quero e bem mais bonito, os adultos dando pr gente pipoca e

pirulito. No mundo que eu quero todo mundo sabe cantar e todos cantam aquela msica nada

de poluir o ar. No mundo que eu quero como uma maluca dana, pois foi feito apenas com

a imaginao de uma criana.

As crianas enquanto apresentadoras falaram sobre vrias questes, mas aqui destacamos suas

consideraes sobre o mundo pretendido, um mundo de brincadeiras, sem poluio e

especificamente feito pela imaginao das prprias crianas. Assim, da realidade fico,

os pensares das crianas nos demonstraram parte do que entendem e pensam sobre o mundo.

Outro quadro do programa foi a histria do dia. Assim Z Zuca explicou: Z Zuca: Para contar a histria de hoje, uma histria que foi feita por este grupo, onde estava a Juliana do Vale,

que cada um contribuiu com um texto e depois eu tive que fazer uma salada, juntar estes textos todos, e compor

um texto s e dentre elas estavam as contadoras de histrias de hoje Kiane Sasaki de 11 anos e Jlia Pimentel de

9 anos [aplausos], elas apresentaro este texto para ns. Hoje, na verdade no uma histria, um texto, mas

tem a ver com as novas histrias que essas crianas querem para o nosso mundo. Tudo bem meninas?

Kiane: Tudo.

Z Zuca: Ento vamos l, podem mandar, ah, deixa s eu dizer quem foi que fez este texto, o texto o mundo

que eu quero de Amanda Farias, Gabriel Costa, Raissa Moura, Juliana do Vale, Nicola e Kiane Sasaki, so todos

na faixa de 7, 8 e 11 anos, ento vamos l, o mundo que eu quero.

Kiane: O mundo que eu quero um mundo alegre onde possamos viver com paz e harmonia, um mundo lindo

sem violncia nem distino, cheio de crianas sorrindo.

Jlia: Um mundo sem guerra, violncia, indiferena e racismo onde possamos brincar, e brincar e brincar.

Kiane: Um mundo que tenha leis justas, sem consumismos, sem poluio, sem gs carbnico, com mais

oxignio. Um mundo que no tivesse muitos carros e que as fbricas no polussem o ar.

Jlia: Um mundo onde as crianas brinquem com os bichos, que tenha um fim de semana mais longo, sem hora

pr voltar pr casa, que d pr jogar futebol sem se cansar, que a semana fosse de quinze dias, cinco de escola e

dez de folga, que a escola tivesse uma hora e meia de recreio, com piscina e parque de diverses.

Kiane: Que todas as crianas brinquem juntas, que no tenha ruas perigosas, mas que tenha lojas de roupa,

brinquedo e doces e que tenha segurana com PM em todas as ruas.

103

Jlia: O nosso planetinha tem que ser muito saudvel, sem doenas, guerra, fome e ignorncia e que possamos

andar na chuva sem ficar doente, que haja remdio para tudo, que no sentssemos fome, no precisssemos usar

culos, aparelhos e etc.

Kiane: Um mundo divertido, cheio de fantasia, que a gente desejasse uma coisa e ela aparecesse, que haja uma

montanha de chocolate no meio de um mar de caramelo.

Jlia: Que as crianas pudessem ser polticas e criar leis onde todos pudessem levar a srio, porque a palavra

que palavra tem que ser ouvida.

Kiane: Que os adultos levem as crianas mais a srio, que os pais tenham pelo menos trs horas e meia de

trabalho e no resto brinquem com a gente.

Kiane e Jlia: Esse o nosso sonho.

Jlia: Ponho minhas idias mais nos adultos.

Kiane e Jlia: Pois um dia, serei um deles.

Aps a leitura do texto, muitas palmas e uma vinheta, Z Zuca reafirmou o convite para que

os ouvintes da Rdio Maluca participassem telefonando. Veio ento uma nova atividade, o

quadro da adivinhaes. Mariano fez a questo: Qual o passarinho que mais vigia a gente?

A platia responde que o Bem-te-vi. Gabriel o apresentador chamou novamente a Banda de

Brinquedos para tocar mais uma msica. Z Zuca apresenta os recados deixados pelos

ouvintes que ligaram para a Rdio Maluca.

Z Zuca reforou que os apresentadores eram as crianas e se elas gostariam de perguntar

alguma coisa. A pergunta ento veio: fale sobre o show. Z Zuca deu explicaes sobre a

programao do dia seguinte, falou que tambm haveria parlendas e outras atividades. Z

Zuca chamou os participantes para fazerem uma roda no auditrio e tambm pediu aos

ouvintes para arredarem os mveis para danarem as cantigas de roda em casa. Pareceu-nos

que o auditrio se transformou em uma verdadeira festa, com as cantigas de roda.

Aps as cantorias, Z Zuca falou sobre o dia internacional da criana no rdio e na TV,

lembrou que as crianas podem e devem ter voz e vez, na seqncia Gabriel disse que por

isso que ns escolhemos a Rdio Maluca, porque um programa maneiro que a gente pode

participar todo sbado, Juliana fez o convite para o prximo sbado, anunciaram as atraes

e Z Zuca completou algumas informaes. Mais uma msica foi tocada. No encerramento,

Z Zuca falou o seguinte: tchau meninos e meninas, que vocs sejam realmente ouvidos e

compreendidos nesse mundo que nem sempre bem conduzido pelos adultos.

104

Neste programa, houve uma inverso proposital dos papis desempenhados pelo

locutor/apresentador, pois, no momento em que convidou as duas crianas para participarem

enquanto protagonistas/apresentadores, o microfone ganhou novas sonoridades. Porm as

diversas vozes e/ou falas das crianas foram acompanhadas de perto pelo adulto apresentador.

A Conveno da ONU sobre os Direitos da Criana, que foi ratificada por 191 pases no final de 1997 (todos os pases, com exceo dos EUA e da Somlia), define certos princpios para orientar tomadas de decises polticas que afetam a criana. Ela estipula que tais decises devem ser tomadas tendo em vista os maiores interesses da criana como considerao fundamental. As opinies das prprias crianas devem ser ouvidas. (HAMMARBERG, 2000, p. 24)31

Quando as crianas falaram sobre o mundo que queriam, um mundo sem violncia, podemos

nos remeter tambm ao que Hammarberg (2000) diz que corresponde aos interesses das

prprias crianas, seus direitos, e, sem dvida, suas opinies. Assim podemos dizer que parte

das opinies sobre o que as crianas consideravam como importante ganhou lugar nas ondas

do rdio atravs da Rdio Maluca.

No quadro a histria do dia tambm podemos perceber em vrios momentos do programa a

preocupao dos participantes sobre algumas temticas, assim trazemos novamente parte do

dilogo de Kiane ao dizer sobre o mundo que queria: Um mundo que tenha leis justas, sem

consumismos, sem poluio, sem gs carbnico, com mais oxignio. Z Zuca, por sua vez

reforou a necessidade da participao das crianas no programa, falou tambm que as

crianas deveriam ser realmente ouvidos e compreendidos nesse mundo que nem sempre

bem conduzido pelos adultos. O apresentador adulto de uma forma ou de outra garantiu a

veiculao de discursos estabelecidos pelas crianas. Assim as opinies das prprias crianas

ganharam voz e vez em um mundo predominantemente adultocentrico.

No programa Rdio Maluca, em que a temtica abordada teve vinculaes com questes que

versaram sobre os direitos das crianas, podemos avaliar que as crianas experimentaram

como locutoras ou, at mesmo, ouvintes, alguns termos caractersticos de seu prprio

universo, assim a infncia ganhou destaque pelas ondas do ar. Crianas falando para

crianas e adultos, talvez o oposto do que normalmente observamos, quando os adultos falam

tanto para adultos quanto para crianas.

31 O grifo nosso.

105

A comunicao interativa pressupe que haja necessariamente intercmbio e mtua influncia do emissor e receptor na produo das mensagens transmitidas. Isso quer dizer que as mensagens se produzem numa regio intersticial em que emissor e receptor trocam continuamente de papeis. (SANTAELLA, 2007, p. 160)

Por um lado esse programa que, foi sobre O dia internacional da criana no rdio e na TV

O mundo que queremos ONU, nada mais do que uma verdadeira troca de papeis. Nele o

apresentador possibilitou a veiculao das vozes das crianas. Neste caso podemos dizer que

a comunicao interativa se fez presente, pois emissor e tambm receptor estabeleceram,

atravs dos diversos quadros apresentados, formas de interatividade, garantindo, portanto, o

protagonismo das crianas. Reforamos que a participao das crianas foi previamente

agendada, assim podemos dizer tambm sobre um possvel protagonismo agendado, mas

que de alguma forma garantiu a veiculao das vozes das crianas.

Por outro lado quando verificamos que o prprio locutor adulto que o Z Zuca, passou a ser

a figura do dia, ou seja, o convidado das crianas locutoras. Mas que tambm utilizou o

prprio programa Rdio Maluca para anunciar o lanamento de seu novo CD, do seu novo

show musical. Percebemos aqui a idia de divulgao dos trabalhos de um adulto que compe

e canta para crianas.

4.3.3 Festa da cultura popular

No programa que foi veiculado no dia 15 de maro de 2008, a temtica do dia foi festa da

cultura popular; como sempre, a vinheta da prpria Rdio Maluca tocada. Z Zuca diz:

Al, al, crianas que gostam de festa, hoje vamos danar e cantar, vai ter festa da boa,

festa bacana, nada nada mixuruca, aqui na minha, na sua, na nossa Rdio Maluca. E quem

no gosta de festa? Estamos aqui para exaltar s festas da cultura popular[...] Z Zuca

continuou explicando algumas caractersticas que correspondiam as festas da cultura popular.

Falou sobre a atrao cultural do dia, Cia Folclrica da UFRJ. Anunciou quem contaria a

histria do dia: Jos Mauro Brant. A reprter mirim tambm anunciada foi a Juliana do Vale.

Z Zuca fez a provocao, voc gosta de festas? Qual a festa que voc mais aprecia? Foi

para a platia e abriu o microfone, Dominique, uma criana de 6 anos, disse no saber da festa

que mais gosta; Laura, outra criana de 8 anos, disse que gosta de natal; j Gabriel, de 9 anos,

106

disse que gosta tambm do natal. Z Zuca pergunta: por qu? Veio a resposta, porque todo

mundo fica feliz, pois o encontro da famlia, uma festa familiar. Jlia, de 6 anos, disse que

gosta de aniversrio e tambm da pscoa. Z Zuca fez a mesma pergunta ao Mariano, que, por

sua vez respondeu que festa de casamento boa porque tem docinhos. falou tambm que festa

de So Joo tem muita comida.

Badalo colocou uma msica de Luiz Gonzaga Boi Bumb. Na seqncia, Z Zuca convidou

a grande figura, a Cia Folclrica da UFRJ, para cantar/tocar algumas msicas. Z Zuca

conversou com um boneco que fazia parte da Cia Folclrica o Bidito, sujeito grando

com um vozeiro.

Ficou-nos ntido o interesse e o gosto das crianas pelas atraes culturais do dia. Assim a

Cia. Folclrica da UFRJ foi um dos quadros importantes, a julgar pelo comportamento dos

participantes, o que nos remeteu aos contextos scio-culturais em que vivem e/ou participam.

As crianas, a partir de suas representaes sociais, foram para frente do palco e

acompanharam de perto os sons emitidos pelos instrumentos do grupo folclrico,

experimentaram de forma compartilhada, com os outros, as danas de roda apresentadas.

Figura 5 No centro o boneco com jeito de malandro conhecido como Bidito, algumas crianas prximas ao palco observam a cantoria ( esquerda) e a movimentao dos participantes no auditrio ( direita)

Mais uma msica foi cantada/tocada, o boneco Bidito todo o momento fazia comentrios e o

auditrio virou novamente uma festa, adultos e crianas danando de um lado a outro. Mesmo

aqueles que apenas ouviam o programa no rdio poderiam facilmente perceber que uma

grande roda foi formada no teatro onde o programa era apresentado.

107

Na seqncia veio a reprter mirim, uma criana a Juliana do Vale, que falou sobre as festas

da cultura popular; disse sobre a festa da passagem do ano, depois a festa da lavagem do

Bonfim, depois falou sobre o carnaval, as famosas festas juninas, no Sul a festa da uva, e a

folia de reis que tem incio no final de cada ano e se estende at o incio de janeiro. Z Zuca

falou que se algum tivesse interesse de participar como reprter mirim deveria ligar para a

Rdio Maluca.

Em outro quadro, que a entrevistinha, Z Zuca foi para a platia, perguntou o Aiko, uma

criana de 7 anos, qual era a festa que acontecia geralmente em fevereiro na qual as pessoas

usam mscaras e fantasias pelas ruas, Aiko diz: samba Z Zuca faz novamente a pergunta,

Aiko pensa, no fundo uma voz gritando: eu sei, eu sei, eu sei, Z Zuca ento pergunta ao

Dominique, outra criana, que insistentemente pedia a vez. Nesse intervalo, Aiko lembrou-se

da resposta e disse ao Z Zuca que a festa junina; risos e mais risos. Assim Dominique

respondeu que era o carnaval, a platia aplaudiu e Z Zuca fez alguns comentrios.

Aproximou-se do Z Zuca uma criana de 5 anos, vestida de Peter Pan; Z Zuca ento

pergunta qual era a festa em que as pessoas usam roupa de caipira, comem cuscuz, milho e

danam quadrilha. Peter Pan respondeu que era o carnaval, muitos risos na platia e o Z

Zuca diz que o pessoal estava trocando tudo.

Z Zuca perguntou que festa era simbolizada por um velho que vai embora e um nenm que

vem chegando, Aiko responde que era o ano novo, e aplaudido. Z Zuca diz: agora queria

saber por que as festas so importantes na nossa vida. Uma criana disse que era importante

pr gente crescer, outra criana disse que para comemorar uma coisa muito importante que

acontece uma vez por ano, Z Zuca repetiu a mesma resposta e passa o microfone para outra

criana que respondeu o seguinte: , , no sei, muitos risos na platia, Z Zuca tambm riu

e fez alguns comentrios. Outras perguntas foram feitas e respondidas pelas crianas.

Z Zuca falou da folia de reis, seus significados e a Cia de Folclore da UFRJ cantou uma

msica sobre a folia de reis Calix Bento com Pena Branca e Xavantinho. Em outro quadro,

o da adivinhao, Mariano anunciou: o que o que , abre o porto sem ter brao e sem ter

mo? As crianas do auditrio falam, muitas vozes ao mesmo tempo, umas falando mais alto

do que as outras, at que uma das crianas disse ser o vento. De volta grande figura, a Cia de

Folclore da UFRJ, Bidito convidou os participantes do auditrio para danarem na frente do

palco. Na figura 5, podemos observar a grande festana na Rdio Maluca.

108

Bidito falou sobre o Arara (um pedao de pau) na festa popular, ou seja, os pares danam,

mas quanto o Arara entregue a um dos danantes ele deve ceder o seu par, pegar o Arara e

procurar outro par, quando a msica chega ao final aquele ou aquela que estiver com o Arara

deve pagar uma prenda. O Bidito falou sobre alguns instrumentos que so utilizados nas

festas da cultura popular. Z Zuca leu os recados deixados pelos ouvintes da Rdio Maluca

que ligaram para o programa. Anunciou o prximo programa e despediu dos ouvintes e

participantes.

A temtica trazida neste programa demonstrou-nos o quanto a diversidade cultural se fez

presente ao longo das atividades e como sustentaram as discursividades independentemente

da faixa-etria de cada participante do auditrio, como tambm dos prprios ouvintes. O

programa versou sobre aspectos importantes da cultura brasileira, estabeleceu nexos com o

folclore e despertou a curiosidade de muitos, com os bonecos danantes e falantes a

exemplo de Bidito.

Parte dos dilogos estabelecidos entre o apresentador e as crianas nos revela o quanto da

naturalidade das respostas das crianas se fez presente. Assim suas respostas perpassaram por

questes de ordem social, mas predominantemente, pessoais. Mas isso no foi prejudicial s

atividades da Rdio Maluca. Trazemos aqui uma das entrevistas que realizamos sobre

imprevisibilidade das falas quando se abre o microfone no programa de auditrio.

Josemir Z Zuca, quando voc abre o microfone para a participao das crianas pode acontecer o inesperado,

nesse sentido voc j passou por alguma situao constrangedora?

Z Zuca Olha rapaz, eu acho que constrangedora propriamente no. Oh, tem situaes em que a gente fica

meio assim, [...] s vezes a criana no responde nada, no est rendendo muito, a pessoa no est falando.

Ento, so situaes que eu vejo que tem que driblar a situao, mas, eu acho que nunca chegou a ser

constrangedor no. No incio tinha, pensava que podia ser muito difcil, mas a gente vai ganhando jeitinho, um

jogo de cintura que vai driblando bem as situaes. Sempre pinta uma brincadeira uma coisa na hora que a gente

fala, [...] mas eu acho que no me lembro de nenhum fato constrangedor, uma coisa mais forte. A gente sempre

tenta resolver, at nos dias que no rendeu, foi muito pouco. Outro dia estava em um programa e eu vi que o

tema era legal, mas para as crianas acho que no funcionou muito porque elas no respondiam. A falavam

pouco, aquela coisa monossilbica. Eu falava com um e outro e no fim eu vi que ficou pouco, faltando alguma

coisa. E eu tive que me virar para ir brincando, o pblico ria com as coisas que eu falava e aquelas coisas das

crianas meio caladas, no respondendo. S que isso acontece um dia, mas depois vem outro dia que compensa.

Nesse dia que as crianas no falaram muito, o programa foi bom, o grupo foi bom, o tema legal, mas tem isso.

um programa ao vivo, a gente j bem preparado para isso.

109

Na entrevista acima, Z Zuca diz sobre os improvisos necessrios ao longo dos programas,

cita o momento em que as crianas falaram pouco. Percebemos que a ausncia de sons em

programas radiofnicos um agravante para os ouvintes, assim quando Z Zuca responde a

pergunta, recorda que o inesperado no tanto o que as crianas falam, mas sim o que elas

no falam. No falar um problema, ou seja, a falta da fala em programas ao vivo pode

causar a perda de audincia. Z Zuca tambm se apia nas experincias e brincadeiras para

garantir as possveis discursividades no rdio, ou a continuidade das falas. Quando menciona

que a preocupao maior com a ausncia de falas, entendemos que as discursividades das

crianas neste ponto no so consideradas como relevantes pelo apresentador.

Outro fator que de acordo com a fala de Z Zuca, podem ocorrer momentos em que as

crianas participantes no respondem ao que se espera. Assim, parece-nos que no basta a

elaborao de um roteiro prvio para garantir as discursividades das crianas no programa

Rdio Maluca. As escolhas tanto das temticas quanto dos grupos (artistas e contadores de

histrias) importante, mas no o suficiente para tambm garantir a participao das crianas.

4.3.4 Brincadeira vitamina: remdio para meninos e meninas

O programa Rdio Maluca, que foi veiculado no dia 29 de maro de 2008, teve como tema

Brincadeira vitamina: remdio pr meninos e meninas. O roteiro previa uma provocao do

dia, ou seja, uma pergunta feita pelo apresentador e respondida pelas crianas; a participao

de um artista que neste caso foi uma criana cantora, o Gabrielzinho do Iraj; e ainda a

participao de um reprter mirim escolhido entre os integrantes da platia. Nesse dia

aconteceu tambm, no final do programa, a contao de histria pelo grupo Palhaos:

doutores da alegria.

Sob as luzes coloridas dos holofotes, ao som de vinhetas e outras msicas e com muitas

palmas, o programa teve incio. Os olhares atentos das crianas e tambm dos adultos foram

atrados pelas sonoridades32 daquele ambiente. O apresentador fez comentrios sobre as

msicas selecionadas, sobre a temtica do dia, anunciou os sorteios a serem realizados, tanto

32 Nos momentos em que as msicas ou vinhetas eram tocadas verificamos que havia uma ateno maior por parte das crianas que estavam no auditrio. Assim, as sonoridades atraiam os participantes que observavam as movimentaes no palco.

110

para a platia quanto para os outros ouvintes que acompanhavam as atividades pelo rdio, e,

na seqncia fez a provocao. A pergunta do dia foi: de qual brincadeira voc mais gosta? O

apresentador foi para a platia e abriu o microfone para a participao das crianas, de um

lado ao outro vrias crianas responderam. O Joo, uma criana de 7 anos, levantou o brao e

falou ao microfone que naquele dia era o seu aniversrio, em seguida respondeu ao Z Zuca

que gostava de piques e, na seqncia trouxe detalhes dos piques, pique parede, pique alto e

pique pedra. A platia riu, Z Zuca perguntou ao assistente Mariano se conhecia o pique

pedra, Mariano disse que no. Outras cinco crianas tambm participaram diretamente do

dilogo com Z Zuca e na seqncia, Mariano tambm convidado a falar sobre a brincadeira

de que mais gosta. Este, por sua vez, sempre responde trazendo explicaes sobre alguma

comida de que tambm gosta, finalizando a primeira etapa. Z Zuca pediu ao sonoplasta

Badalo que colocasse uma msica sobre as brincadeiras e novamente o auditrio se

transformou em um espao de interao, uma festa, as crianas danavam, cantavam,

brincavam, gesticulavam e falavam umas com as outras.

Em seguida foi para o palco o artista do dia, que tambm era uma criana, o Gabrielzinho do

Iraj. Ele falou sobre as brincadeiras de que mais gostava, cantou algumas msicas e retornou

platia. Z Zuca tambm voltou a platia para entrevistar as crianas. Pediu a todos que

cantassem parabns para o Joo, que era o aniversariante; logo aps perguntou a ele o nome

de quatro brincadeiras. Vieram as respostas: Amarelinha, futebol (silncio); Z Zuca diz que

o tempo estava acabando, Joo ento completou, dizendo: vdeo game e bolinha da gude.

Podemos perceber que, de incio, h um silncio da criana, mas Z Zuca brinca com as

palavras e o silncio logo foi rompido.

Uma segunda criana foi questionada pelo apresentador: por que as crianas gostam tanto de

brincar? Veio a resposta: porque elas so feitas para brincar. A platia aplaudiu e riu. Outra

criana disse: porque a gente gosta muito de brincar e a gente cresce quando a gente t

brincando. Outras crianas tambm foram indagadas a respeito e responderam ao seu jeito. Z

Zuca perguntou: meninos gostam de brincar com meninas e meninas gostam de brincar com

meninos? Algumas crianas responderam que no, outras responderam que sim. Z Zuca

perguntou se bom ficar brincando muito tempo em frente ao computador. Uma criana disse

que no bom porque pode cegar os nossos olhos. Z Zuca perguntou se as crianas

gostavam mais de brincar dentro de casa ou ao ar livre. A maioria das crianas que

111

responderam disseram ser melhor brincar ao ar livre. Tantas outras perguntas foram feitas e

respondidas ao longo do programa.

Entrou no palco o grupo Palhaos: doutores da alegria, composto por trs atores palhaos,

vestidos de mdicos. Eles cantaram, brincaram, danaram, conversaram com as crianas,

contaram histrias e piadas. Em seus dizeres mencionam algumas palavras trocadas, como

blectria. As crianas gritaram e o corrigiram dizendo: bactria.

Outra etapa do programa foi a adivinhao anunciada por Mariano: Um vai outro vem, um

passa pelo outro e quando um pra, o outro pra tambm. Uma criana disse que o sapato,

outra disse que a perna, outra disse que o p. Z Zuca disse que so os ps. Foi lido um

poema sobre as brincadeiras do livro Pr boi dormir. O programa terminou com mais uma

msica do cantor convidado e assim recomeou a festa com, crianas e adultos danando e

brincando. Entre uma etapa e outra as vinhetas foram veiculadas, algumas trazendo dizeres

sobre o rdio e a infncia.

Figura 6 Z Zuca foi para o auditrio dialogar com a crianada; pergunta qual a brincadeira de que mais gostam ( esquerda); ainda no auditrio estabelece uma interlocuo com Gabrielzinho do Iraj ( direita).

Em uma das entrevistas que realizamos com o apresentador Z Zuca, ele disse que, de alguma

forma, se considera um ouvinte das diversas vozes vindas das crianas, assim o programa que

apresenta tende a ser uma pluralidade de vozes, s vezes representadas nos dizeres do prprio

Z Zuca, mas em tantas outras vezes representadas nas prprias falas das crianas

participantes das atividades.

O que eu penso em como esse pblico pode receber o que a gente est apresentando, ento eu acho que eu me coloco um pouquinho no lugar desse pblico para perceber se eu estaria gostando ou no daquilo que estou pensando em

112

apresentar. Em meus ensaios na hora que estou fazendo o roteiro eu falo o texto em voz alta j pensando em como que aquele pblico que est ali, no auditrio vai receber, nesse caso no somente as crianas, so as crianas suas famlias, pais, para todo mundo que estar ouvindo. Como que eles podem receber. Como que eles podem reagir. s vezes fico pensando como que voc sente uma reao desse pblico. Ento sempre o que o pblico sente e reage para mim importante. Agora eu tambm gosto de surpreender eu gosto de trazer coisas que sejam surpreendentes porque tambm gosto que o pblico me surpreenda de certa forma. Observe aqui hoje, parece um dia cheio dessas surpresas que as crianas so craques de trazer para ns. (ZUCA, Z. Rio de Janeiro, RJ, 29 maro. 2008. Entrevista concedida a Josemir Almeida Barros).

A programao da Rdio Maluca, como menciona o entrevistado acima, perpassa tambm

por questes inesperadas, sejam as falas da prprias crianas a partir do momento em que se

sentem a vontade para expressarem parte de seus desejos, ou at mesmo as adaptaes

necessrias ao longo da programao. Z Zuca disse sobre as questes surpreendentes, que

gosta de surpreender o pblico e que o pblico o surpreenda.

Outro detalhe mencionado por Z Zuca, que disse se colocar no lugar do outro (ouvinte)

para pensar no roteiro do programa, neste ponto problematizamos se basta colocar-se no

lugar do outro para elaborar o roteiro e em que medida as vozes dos outros surgem ao longo

das atividades pensadas para o programa? Em nenhum momento o apresentador nos disse que

tenha elaborado um determinado roteiro com a participao direta das crianas. Pensamos que

a elaborar do roteiro atravs da comunicao face a face, aquela em que h a presena de dois

ou mais sujeitos (crianas) no processo comunicativo tambm pode ser uma surpresa.

4.3.5 A poesia e a prosa do mestre Rosa

No programa que foi veiculado no dia 03 de maio de 2008, a temtica do dia foi A poesia e a

prosa do mestre Rosa. No cenrio, alm da mesa com instrumentos coloridos e variados,

panos coloridos, brinquedos e enfeites havia alguns quadros pintados. O apresentador disse:

Al, al crianas do Oiapoque ao Chu, dos ps da cidade ao corao do serto, est

comeando a minha, a sua, a nossa Rdio Maluca. Z Zuca falou que o programa iria

homenagear um grande escritor que, se estivesse vivo, faria cem anos em 2008, um feiticeiro

das palavras chamado Joo Guimares Rosa. Disse que era chamado Joozito na infncia e

que era um grande contador de histrias, histrias do povo brasileiro. Z Zuca perguntou ao

auditrio se algum j tinha ouvido falar em Guimares Rosa.

113

Z Zuca disse ser a Rdio Maluca um programa que voc v pelo Rdio. Anunciou na

seqncia a banda que tocar msicas inspirada nos contos de Guimares Rosa, a atrao do

dia: Fbio Campos e Compadre Quelemm; tambm falou sobre o trio que iria contar uma

histria de Guimares Rosa; Chico Miranda, Samara Martins e Luciana de Oliveira. Disse

tambm sobre a reprter mirim, Juliana do Vale, e sua matria sobre o dia do trabalho.

Z Zuca fez a provocao do dia, contou a histria das profisses de Guimares Rosa e em

seguida foi para o auditrio e perguntou qual a profisso que cada um gostaria de seguir. Ana

karie, uma criana, disse: professora, Caroline, outra criana de 9 anos, tambm disse:

professora, Joo, de 7 anos, disse: guarda de tartarugas, (risos). Alice, uma criana de 4

anos, disse: bailarina; Caio, de 8 anos, disse: soldado; Ana Carolina, 10 anos, disse: juza de

direito. Z Zuca fez a mesma pergunta para o Mariano que, em forma de rima respondeu

mencionando vrias profisses. Z Zuca falou sobre parte da histria de vida de Guimares

Rosa, depois estabeleceu um dilogo sobre algumas obras escritas por Guimares Rosa. Na

seqncia, chamou a atrao do dia, a banda Fbio Campos e Compadre Quelemm; explicou

alguns detalhes sobre os quadros (pinturas) que estavam expostos no palco. Fbio Campos

disse sobre a influncia de Guimares Rosa na composio de suas msicas. Disse tambm

que para cada msica cantada demonstraria um quadro (pintura) correspondente sua letra.

A etapa seguinte foi a entrevistinha, Z Zuca foi para o auditrio e perguntou a uma criana

se quando crescesse iria trabalhar. A criana, ento, disse que no, (risos). Z Zuca pergunta:

por que importante a pessoa trabalhar? Uma criana disse que era importante para ganhar

dinheiro, outra disse que era para poder sobreviver, comprar comida, roupa e etc. Outra

criana disse tambm ser importante e que seus pais so trabalhadores. Na seqncia outras

crianas tambm participaram. Z Zuca, ento, pede a uma criana para citar quatro

profisses. A criana ento disse: bombeiro, dentista, mdico e professor.

No quadro reprter mirim, Juliana do Vale, de 11 anos, trouxe uma reportagem sobre o

trabalho, Z Zuca lembrou que no 1 de maio foi a data do dia do trabalhador. Juliana do Vale

fez um breve histrico sobre as comemoraes do dia 1 maio. No final disse ser uma futura

veterinria, astrnoma e professora, muitos risos e aplausos da platia.

No quadro seguinte, a histria do dia, um trio de sertanejos, vestidos a carter a partir de um

conto de Guimares Rosa, chamou a ateno da crianada, todas ficaram sentadas prximas

114

ao palco - observavam os contadores de histrias. Na seqncia veio o quadro de

adivinhao. Mariano pergunta: o que , o que que est na sua frente e voc no v?

Mariano desceu do palco e abriu o microfone para Carolina, uma criana de 9 anos, que

respondeu ser o nariz. Alguns dilogos improvisados tanto por Z Zuca quanto por Mariano

despertam a atrao dos participantes, pois eles perguntaram se algum conseguia morder o

prprio nariz.

Percebemos que as crianas que estavam presentes no auditrio da Rdio Maluca

gesticulavam como forma de acompanhar os sons das msicas e outras cantorias tocadas e

cantadas pela atrao do dia, a banda Fbio Campos e Compadre Quelemm. Z Zuca fez o

convite para a participao do prximo programa, mencionou os artistas que viriam e se

despediu do pblico.

Figura 7 Z Zuca no auditrio abre o microfone para a participao da crianada ( esquerda) e no palco

Marino auxilia a reprter mirim que trouxe uma reportagem sobre o dia do trabalhador, observamos tambm as pinturas inspiradas em alguns escritos de Guimares Rosa ( direita).

Podemos mencionar que o programa estabeleceu vnculos com diversos aspectos culturais e

que embora as crianas participassem das atividades, os adultos no ficam para traz, tambm

gostaram das atraes apresentadas, parece-nos que, alm de se responsabilizarem por levar

as crianas para o auditrio, apreciaram a musicalidade e demais atividades do programa.

Assim em uma das conversas que tivemos com o apresentador Z Zuca, ele disse sobre o que

considerava ser prioritrio no seu programa.

Prioritrio diverso e alegria, ter o prazer de curtir o programa e que o programa seja uma grande brincadeira para eles. Isso prioridade e a outra grande prioridade, eu diria, que os contedos sejam contedos respeitosos com a criana, seja um material cuidadoso no colocado de graa, ainda que para a diverso, mas que passe por um contedo cultural que possa contribuir com o crescimento das crianas, que

115

possa enriquecer o universo delas. (ZUCA, Z. Rio de Janeiro, RJ, 03 maio. 2008. Entrevista concedida a Josemir Almeida Barros).

Um programa tecido por muitas vozes, parece ser esse um dos propsitos da Rdio Maluca,

uma variedade de temas so apresentados, mas que perpassam necessariamente pelos

contedos respeitosos e que nos remetam s questes culturais, culturas diversas em que as

crianas possam tambm ser contempladas, possam ter vez e voz como disse Z Zuca no

dilogo acima.

Z Zuca disse que as brincadeiras devem ser algo prioritrio no programa, que o contedo

seja respeitoso a partir de questes culturais; que necessrio contribuir para o crescimento

das crianas e assim possa enriquecer o universo delas. Neste ponto percebemos que h uma

idia de que a criana deve ter acesso a contedos culturais, porm o apresentador no remete

aos aspectos advindos das culturas infantis, ou seja, h uma viso de incompletude da infncia

quando tratamos de termos culturais. Em nenhum momento disse sobre as culturas infantis,

mas sim uma viso adulta da cultura necessria para as crianas.

O apresentador do programa Rdio Maluca elaborou um blog e o colocou no ar para melhor

disponibilizar as informaes sobre as atraes e temticas de cada dia. Podemos encontrar

informaes teis no apenas como a programao do dia, mas h programao de todo o

ms. Assim, tal blog uma ferramenta importante para convidar as pessoas a participarem das

atraes do ms.

Alm do blog, percebemos que durante as apresentaes do programa Rdio Maluca, os

participantes do auditrio podem ter acesso um formulrio sobre os Amigos da Rdio

Maluca, nesse formulrio encontramos os seguintes dizeres: Se voc quer receber toda a

programao da Rdio Maluca, seus temas e atraes, a cada semana, assim como outros

eventos relacionados com o programa, preencha estes dados33. Com isso, voc vai se tornar

um membro do grupo Amigos da Rdio Maluca. Se j pertence ao grupo, no precisa

preencher. S preencha se tiver e-mail. Atravs de e-mails a programao de cada semana

tambm enviada pelo apresentador. A seguir demonstramos o blog utilizado pelo

apresentador para divulgar as atraes do programa Rdio Maluca e o site da Rdio MEC AM

falando sobre a Rdio Maluca:

33 Os dados mencionados no formulrio so: nome e e-mail.

116

Figura 8 Blog do Z Zuca, onde possvel acompanhar a programao das temticas do ms Acesso em: 19 de outubro 2008.

Figura 9 Site da Rdio MEC AM sobre a Rdio Maluca. Acesso em: 20 de maro 2008.

117

4.4 O programa Universidade das Crianas da Rdio UFMG Educativa

O formato do programa Universidade das Crianas, que se compe de plulas34 veiculadas

pela Rdio UFMG Educativa35, diferente daquele apresentado pela Rdio Maluca. No

Universidade das Crianas uma vinheta de abertura com a fala do coordenador da Rdio

chama a ateno dos ouvintes para o incio do programa. Aps a vinheta vem a voz da criana

que diz seu nome, sua idade e apresenta uma pergunta. Em seguida a resposta, na voz de um

dos estagirios estudantes de graduao ou na voz do prprio pesquisador respondedor. O

programa termina com uma vinheta e a fala do coordenador da Rdio.

Uma questo para problematizar o fato de que o programa veiculado no horrio em que as

crianas que participam de sua produo esto saindo da escola. Perguntado para a

coordenadora do projeto, foi-nos informado que esse horrio havia sido pensado para atingir

as crianas, aps sarem da escola.

Parece-nos importante ainda uma nova reviso desse horrio, uma vez que pega as crianas

em trnsito. Ou ainda, repensar outras formas de a audio do programa e que possam ser

assumido pela escola como uma das atividades curriculares. Ressaltamos que a produo

uma das atividades vinculadas escola.

Para as nossas anlises trazemos um total de cinco programas. Embora haja a exemplificao,

na tabela 2, de dez plulas, lembramos que cada uma delas tem a durao de um a trs

minutos. Selecionamos alguns programas plulas que foram elaboradas atravs de oficinas.

Neste ponto, ressaltamos que as oficinas tiveram um carter dialgico, uma vez que tinham

como proposio a elaborao de questes ou perguntas e respostas que pudessem ser

veiculadas na Rdio UFMG Educativa. As oficinas tiveram a participao de alunos do

Centro Pedaggico (CP) da UFMG, especificamente os que eram integrantes do Grupo de

Trabalho Diferenciado (GTD) sobre Corpo Humano. Eles desenvolveram, de forma coletiva,

algumas atividades que contriburam para a formulao de perguntas sobre o corpo humano;

das centenas de questes nos interessaram neste momento, apenas dez, que foram elaboradas

ao longo das oficinas.

34 Ressaltamos que plulas so programetes de curta durao com contedo variado. 35 Transmisso: Rdio Educativa UFMG 104,5 FM; On line: www.ufmg.br/online/radio/

118

A partir dos relatos das entrevistas apresentaremos alguns pontos importantes sobre o

desenvolvimento das atividades e oficinas, ressaltamos que, de 2006 pr c, as oficinas

ganharam um novo formato, isso para que se readequassem s necessidades e/ou demandas da

proposta, que era estabelecer uma nova forma de transmitir/comunicar mensagens que

perpassassem tambm pelas questes da Cincia, ou seja, uma Rdio Cincia. A idia

bsica era de permitir uma discursividade capaz de trazer sentidos para os participantes do

GTD. Revelar parte de suas dvidas era um dos objetivos das oficinas. De uma forma ou de

outra, as oficinas poderiam vincular-se s atividades escolares, mas, caso surgissem questes

que extrapolassem o universo escolar, no haveria problemas, o importante que pudessem

aparecer curiosidades e/ou dvidas sobre o corpo humano, j que parte dos

integrantes/coordenadores que participaram do GTD, em sua maioria, eram estudantes e/ou

professores desta rea.

Uma das etapas das oficinas era a composio de agrupamentos de alunos para o incio da

discursividade sobre o corpo humano. Essa dinmica acontecia uma vez por semana, no

Centro Pedaggico da UFMG, em ambiente diferente da sala de aula convencional, no

laboratrio de Cincias.

No laboratrio havia mesas redondas com bancos fixos nas mesmas, vrias prateleiras com

materiais utilizados pelos professores de cincias, um quadro de giz entre outros elementos.

Apesar de esse ambiente se diferenciar das salas de aula convencionais no apresentava

muitas novidades para os alunos participantes do GTD, porque, em algumas aulas de cincias,

era l que as atividades se desenvolviam.

Cena 2 A idia central era de preparar cartazes e urnas que chamassem a ateno dos alunos da escola para que depositassem suas dvidas sobre o corpo humano e tambm sobre o meio ambiente nas urnas confeccionadas. Posteriormente as perguntas seriam respondidas, Dbora a coordenadora negocia com a turma sobre a necessidade ou no de identificao das crianas que faro as perguntas, chegam ao seguinte consenso: no ser necessrio revelar o nome, mas a idade sim. Os grupos de alunos preparam as caixas (urnas) e tambm elaboram os cartazes. Discutem sobre os possveis locais para deixarem as urnas. Tanto as professoras quanto a coordenadora ajudam na confeco das urnas e cartazes no laboratrio de cincais. Ao todo so 26 participantes, a maioria do gnero feminino. O tempo de confeco do material foi o equivalente a duas aulas de 50 minutos, ou seja, uma hora e quarenta minutos. Perguntei para um aluno se aquelas atividades eram obrigatrias, ele me disse que de uma forma ou de outra, todos participam dos GTDs, percebi tambm que alguns alunos no tinham nimo para aquelas atividades, mas tambm no atrapalhavam aqueles que estavam empenhados na proposta. (Dirio de campo maro 2008)

119

Aps a composio de agrupamentos de alunos, a discusso era iniciada, em alguns casos

com a participao de pessoas com conhecimentos especficos da comunicao, ou seja,

integrantes da Rdio UFMG Educativa. Mas, neste dia, os participantes foram os prprios

alunos, professores e tambm a coordenadora do programa Universidade das Crianas.

Como registramos no caderno de campo, os trabalhos foram desenvolvidos por todos os que

ali estavam. Um dos detalhes foi o dilogo estabelecido pelo grupo como forma de decidir se

seria importante ou necessrio revelar os nomes daqueles que elaborariam as questes. Aps

algumas discusses ficou estabelecido que no haveria tal necessidade, naquele momento,

mas que posteriormente tal deciso poderia ser alterada.

Figura 10 Cartaz elaborado pelos participantes do GTD ( esquerda) e uma urna tambm confeccionada para coleta de questes sobre o corpo humano e o meio ambiente ( direita).

Na figura acima, podemos verificar em uma das oficinas o cartaz elaborado por um grupo de

crianas do GTD de Cincias com a temtica corpo humano. Lembramos que tal temtica

surge atravs de necessidades dos professores do Centro Pedaggico, e pode ser alterada de

um semestre para o outro. Neste caso especfico, no constatamos que os

participantes/crianas do GTD de corpo humano tenham tido suas vozes ouvidas pelos

professores, no sentido de que tal temtica pudesse partir tambm de suas especificidades

enquanto crianas, de seu universo cultural. Parece-nos que, desta forma, era estabelecida

uma atividade corriqueira at ento, submetida s demandas de um processo educacional

formal para cumprimento de sua carga horria. Consideramos, no entanto, que a vinculao

entre processos educativos do GTD e a mdia radiofnica permitiu o repensar de um novo

formato para a divulgao cientfica. Em entrevista realizada com a diretora do CEDECOM

120

Centro de Comunicao da UFMG, pudemos melhor entender a proposta do programa

Universidade das Crianas.

[...] ns temos condies de oferecer para o ouvinte algo que seja alternativo ao que existe na mdia comercial. No que a gente vai fazer uma rdio alternativa, a gente faz uma rdio que tem seu perfil, sua identidade e que trata de temas, de sujeitos e de aes, que no necessariamente faz parte da mdia convencional, trata de formatos diferentes, com tempos diferentes e com linguagem diferente. s vezes o tema o mesmo que a mdia convencional est abordando, mas a gente busca abordar um formato, uma durao, uma linguagem, que seja diferenciada, ou temas, aes e sujeitos que a mdia necessariamente vai trabalhar. Nesse sentido tem sido muito bom a rdio de iniciao cientfica, porque a gente sabe que a cincia e nossos projetos construdos aqui, [...] um direito do cidado. O conhecimento cientfico conhecimento muito codificado no jargo do especialista, mas que ele est presente na vida do cidado sem que ele perceba at mesmo que conhecimento esse. importante que no trabalho de iniciao cientfica a gente faa a difuso desse conhecimento, garantindo esse direito ao cidado e ao mesmo tempo, tornando esse conhecimento acessvel aos diferentes pblicos que tm direito a ele, e por isso que a gente faz desde as plulas radiofnicas [...] (CERES, Maria Pimenta Spnola Castro. Belo Horizonte, 02 julho 2008. Entrevista concedida a Josemir Almeida Barros.)

Na conversa que tivemos com a entrevistada ficou-nos evidente que a idia de uma

comunicao diferente, que pudesse utilizar uma linguagem diferenciada e que tambm

tivesse condies de informar saberes sobre a cincia e reafirmar os direitos dos cidados;

assim as plulas radiofnicas foram consideradas pela entrevistada como uma produo

importante.

Ao indagarmos sobre o formato utilizado no programa Universidade das Crianas, a

entrevistada nos revelou que as crianas eram capazes de produzir excelentes programas de

rdio. Ao mencionar tal capacidade das crianas perece-nos que, em seu entendimento, as

crianas so participativas e/ou ativas nesse processo de construo das plulas. Disse apoiar

um projeto diferente mdia radiofnica convencional. Segundo Ceres: "[...] a gente busca

abordar um formato, uma durao, uma linguagem, que seja diferenciada [...]. Mas nos

programas radiofnicos que so as plulas, o tempo de durao no to significativo.

Quando ela fala de uma linguagem diferenciada no ficou explicito se a proposta em questo

consegue destaque uma vez que a Rdio UFMG Educativa tem recursos financeiros limitados

como outras rdios educativas no Brasil. Fazer o diferente, uma linguagem diferenciada,

muitas vezes pressupe uma equipe de trabalho com disponibilidade para pensar sobre tais

questes, alm de recursos tcnicos e tecnolgicos que tambm permitam uma produo a

partir das especificidades dos participantes do programa e no da lgica do mercado

capitalista.

121

Olha, primeiro tenho uma questo que uma desmistificao do meio e isso importante. preciso dizer que o rdio um veculo popular, mas as pessoas acham que ele mais complicado do que ele , ento eu acho que a primeira coisa mostrar o seguinte: at criana faz programa de rdio e mais, a criana faz um excelente programa de rdio, primeiro isso, sobre o outro ponto de vista tem a questo, o seguinte: a criana faz pergunta que ns todos s vezes gostaramos de fazer, mas a gente tem pudor em perguntar. Aquele texto que a Dbora fez, aquele CDzinho, ela fala inclusive o seguinte: a pergunta que gostaramos de fazer mas que j somos adultos, e temos vergonha de perguntar, assim; Por que a gente sua? certo que se fizer essa pergunta, entrar na internet, numa biblioteca, eu vou descobrir isso. As crianas aqui fazem a pergunta e o professor tem que dar essa resposta. Segundo lugar, ao fazer as perguntas da curiosidade da criana, que no necessariamente uma curiosidade s infantil, mesmo uma curiosidade do adulto, ela tambm desmistifica a prpria questo do conhecimento, que possvel produzir conhecimento a partir de perguntas, muito simples, que muitas vezes muito mais difcil perguntar do que responder. (CERES, Maria Pimenta Spnola Castro. Belo Horizonte, 02 julho 2008. Entrevista concedida a Josemir Almeida Barros.)

Ceres relaciona o trabalho de produo das plulas com o trabalho de pesquisa, salientando

a importncia das perguntas e ponderando que as respostas a essas perguntas implicam um

trabalho de interlocuo:

O pesquisador em geral sabe disso, saber formular a pergunta, porque quando eu formulo a pergunta eu j indiquei o caminho que eu quero ir, ento eu acho que isso muito interessante e tecer da forma como programa Universidade das Crianas est construdo, aquela pergunta respondida por um adulto pesquisador, trabalhada pelas crianas at virar uma resposta que mata a curiosidade infantil. Isso muito interessante porque assim a gente s vezes responde pergunta da criana, no exatamente o que ela est perguntando, mas aquilo que a gente entendeu que ela queria saber, em nossa perspectiva, a do adulto. Eu lembro que meu filho devia ter uns sete para oito anos, ele chegou perto de mim e falou assim: o me o que virgem? Eu naquele negcio sem saber como que ia responder aquela pergunta dele, mas a eu resolvi perguntar assim: por que que voc quer saber? No que meu colega ganhou uma fita virgem (risos) eu ia dar uma resposta para ele que ele iria falar: minha me enlouqueceu, pirou. Meu filho, fita virgem aquela que voc compra que vem no plstico ainda, que nunca foi gravado nada nela. Ento preciso tambm que o adulto tenha uma capacidade, assim de se elevar situao da criana, no se abaixar, se elevar, para saber o seguinte: o que que ela quer saber. Porque muitas vezes o que eu quero responder, eu acho muito interessante isso, abrir o microfone para as crianas, porque voc abre o microfone para as crianas fazerem perguntas, abre o microfone para os adultos, mas a fala do adulto tem que ser trabalhada para ela poder virar de fato uma informao que seja compreensiva, til e adequada ao universo das crianas. (CERES, Maria Pimenta Spnola Castro. Belo Horizonte, 02 julho 2008. Entrevista concedida a Josemir Almeida Barros.)36

Melhor entender o universo infantil, talvez fosse essa uma das alternativas capazes de nos

ajudar a desmistificar aquela viso de que as crianas no entendem nada, no podem

produzir programas radiofnicos. No depoimento acima fica-nos explicito que as crianas so

capazes de produzir conhecimentos, so capazes de elaborar questes que partem de seus

36 O grifo nosso.

122

saberes, assim carregam tambm a coragem de dizer o que pensam, ao contrrio de muitos

adultos.

Se de um lado parte do processo de ensino e aprendizagem ou prticas escolares do CP

estabelecia a temtica a ser discutida, por outro lado, no processo de desenvolvimento das

atividades do GTD eram as crianas inicialmente apenas a porta voz das discursividades.

Temos, assim, na figura a seguir, um cartaz com os chamados para a participao de outras

crianas ou at mesmo adultos. Este cartaz, em especfico, ficou afixado por uma semana em

um ponto da escola. Em seus dizeres percebemos certa flexibilidade, ou seja, no havia a

necessidade de revelar, integralmente, uma identidade.

Figura 11 Outro cartaz elaborado pelos participantes do GTD ( esquerda) e um outro cartaz convidando os

alunos a elaborarem questes que pudessem ser veiculadas na Rdio UFMG Educativa ( direita).

Quer nos ajudar? Comece a perguntar! So as frases que podemos ver na figura acima (

esquerda), j na foto ( direita) encontramos outro cartaz com os seguintes dizeres:

Convocamos, vocs para tirar suas dvidas sobre meio ambiente e corpo humano. Coloque

suas perguntas contedo srie e idade.

J em outro cartaz temos os seguintes dizeres: Dvidas sobre o corpo humano? E sobre o

meio ambiente? Escreva suas perguntas e as deposite nas caixas. E elas sero respondidas

na Rdio UFMG. Obs. Os papis das perguntas devero conter sua idade e sua sala. No

cartaz uma seta aponta para a sintonia da Rdio 104,5 FM. Parece-nos que neste ponto as

crianas tambm aproveitaram para divulgar a Rdio UFMG Educativa, discusso que at

123

ento no foi estabelecida entre os participantes das oficinas. Assim temos um cartaz que

menciona a Rdio UFMG Educativa.

Entendemos que a preocupao em no revelar a identidade de quem formula as perguntas

est ligada a uma viso que relaciona o no saber a uma falta, perspectiva muito

evidenciada no contexto escolar. Tambm nos chamou ateno o quanto esse lugar de no

saber, em nossa sociedade, est associado criana. Reflexo disso, as plulas so

estruturadas de modo que a voz infantil apresente apenas a pergunta, j as respostas so

apresentadas na voz do adulto. Vale lembrar a ponderao de Ceres quando diz que as

crianas formulam perguntas que os adultos muitas vezes tm dificuldades de responder. Essa

dificuldade d pistas de que esse adulto compartilha com as crianas um no saber, tanto

que v nas perguntas infantis a oportunidade de obter respostas para as dvidas que j no tem

coragem de expor.

Essa relao permite uma bela reflexo sobre os lugares definidos e hierarquizados de saberes

entre adultos e crianas.

Um outro detalhe que com esse trabalho ampliou-se a possibilidade de questionamentos

para meio ambiente, porm no nos ateremos a tal temtica. Tanto os cartazes como as urnas

foram confeccionadas por vrias mos.

Alguns participantes do GTD explicitaram em nosso entendimento a importncia que

atribuem ao processo de radiodifuso, pelo qual suas vozes so veiculadas. Porm, quando

vinculamos tal atribuio a no identificao sugerida pelo cartaz, na figura 11 ( direita),

parece-nos que o GTD de corpo humano no garantiu nesse processo de produo das plulas

as discursividades necessrias as vozes dos participantes perguntadores em suas prprias e

possveis respostas.

Nas oficinas a maior parte a organizao dos trabalhos desenvolvidos ficava sob a

responsabilidade dos adultos. No entanto pareceu-nos que tais atividades necessariamente no

so discutidas ao longo das aulas do CP.

Pelo depoimento de Mariana Queiroz, a seguir que era uma das professoras do CP e tambm

participante do GTD, percebemos que havia uma alegria, um alvoroo, quando as atividades

124

vinculadas ao GTD de corpo humano chegavam ao final de cada semestre. As crianas

recebiam um CD com todas as gravaes das plulas do semestre. Lembramos que as

propostas das gravaes tiveram incio no ano de 2006, de l pr c algumas mudanas

ocorreram, destacamos apenas a aquisio de equipamentos que possibilitaram a melhor

compreenso dos processos tcnicos que, antes, ficavam a cargo exclusivo dos integrantes da

Rdio UFMG Educativa.

Queiroz disse ainda que a participao da crianada era importante, mas distancia dos

chamados contedos escolares, [...] no para o uso pedaggico [...]. Parece-nos que por ser

uma produo a partir do espao escolarizado os contedos escolares deveriam de alguma

forma serem contemplados. O importante para a meninada, segundo Queiroz era a voz ser

veiculada, assim ficavam empolgadssimos. Mesmo sem haver a veiculao na Rdio

UFMG Educativa de todos os programas produzidos ao longo do semestre, os mesmos eram

gravados em CD em entregue as crianas.

[...] no segundo foi um CD mais com a cara institucional mais elaborado, no primeiro foi uma coisa caseira que foi entregue para eles. Eles sabiam que existia esse produto final. Na hora que eles recebiam este produto ficavam extremamente empolgados e a apresentao final do GTD, todo semestre propunha-se ao GTD apresentar o resultado para os outros GTDs. Ento no ltimo dia de GTD do semestre o GTD que se propunha a apresentar, fazia uma apresentao para os outros alunos de outros GTDs, e no final dos dois ficou l o CD passando. Ento vrios deles vinham chamar os colegas para ouvir, [...] aqui vem ouvir, vem ouvir o CD da meu GTD, vai passar no rdio e tal [...]. Estavam empolgadssimos com aquilo, a voz deles no GTD, no entanto no foi trabalhado em termo de contedo, mas foi trabalhado em outros termos. um material que foi produzido com a participao deles, e passou no rdio. Ento uma valorizao muito grande dessa produo. Mas no para uso pedaggico [...]. Eles tinham essa empolgao desse produto final. Agora realmente eu percebi menos empolgao no ltimo GTD, o do ano passado. (QUEIROZ, Mariana de Bertelli. Belo Horizonte, 06 maro. 2008. Entrevista concedida a Josemir Almeida Barros.)

Podemos dizer que tais oficinas permitiram a constituio de diversas plulas nas quais parte

dos ouvintes tambm poderiam ser participantes dos processos de produo dos programas.

Isso porque, alm da elaborao de cartazes, os prprios alunos s vezes participavam da

reelaborao das respostas das questes, como tambm receberam informaes sobre os

procedimentos necessrios em relao a edio dos sons que seriam veiculados na Rdio

UFMG Educativa. Percebemos tambm que em alguns momentos os prprios alunos

assumiam as atividades (gravao e edio) das plulas sem a necessidade das professoras do

GTD, ou da coordenadora das oficinas.

125

Figura 12 Os alunos foram para um dos laboratrios ( Biologia Celular) do Instituto de Cincias Biolgicas da

UFMG, para visualizarem, no microscpio parte de tecidos humanos. Tanto ( esquerda) quanto ( direita) a Professora Dbora Dvila Reis acompanha as atividades.

Aps a formulao das questes, os alunos visitaram um dos laboratrios do Instituto de

Cincias Biolgicas da UFMG. Tal visitao fez parte das oficinas desenvolvidas no GTD de

corpo humano. A partir das questes formuladas, a Profa. Dbora Dvila Reis estabeleceu

uma conversa, juntamente com o grupo participante do GTD de corpo humano sobre parte

das questes que tratavam sobre clulas, entre outros assuntos.

A curiosidade de todos era visvel, pois queriam ver atravs das lentes do microscpio parte

do tecido humano. A dinmica no laboratrio era a seguinte: a professora ensinava um

participante a manusear o equipamento (microscpio), aps alguns minutos o participante

deveria ceder o lugar a outras crianas e explicar-lhes o que aprendera anteriormente. A

euforia tomou conta de parte dos integrantes do GTD.

Todos os participantes tiveram acesso ao microscpio e, tambm, puderam conhecer melhor o

funcionamento daquele espao, tudo isso sob a orientao da Professora Dbora Dvila Reis

que, alm de ser coordenadora da proposta do programa Universidade das Crianas, tambm

professora do Departamento de Morfologia do Instituto de Cincia Biolgicas da UFMG.

Alm das atividades que aconteciam normalmente no laboratrio de Cincias do CP,

registramos o desenvolvimento das oficinas em outros locais tambm, como o laboratrio do

Instituto de Cincias Biolgicas da UFMG e a Estao Ecolgica da UFMG.

126

Figura 13 Perguntas e respostas, o repensar do texto na Estao Ecolgica da UFMG. Uma aula sobre corpo humano com um boneco sobre a mesa ( esquerda). Outra aula sobre corpo humano com utilizao de fotos

( direita).

Aps a coleta de questes elaboradas tanto pelos participantes do GTD de corpo humano

quanto por outros participantes que depositaram suas dvidas nas urnas, o grupo foi para

a Estao Ecolgica da UFMG, que fica situada dentro do prprio Campus da Universidade.

L puderam discutir com mais tempo as questes elaboradas nas atividades anteriores. Alm

disso, tambm puderam ler e reler as respostas de tais questes, previamente elaboradas por

especialistas e estagirios. Neste ponto destacamos a possibilidade de discursividades capazes

de estabelecer linguagens mais apropriadas a partir das questes formuladas.

Em grupos, a meninada recebeu textos correspondentes s questes elaboradas, assim leram,

interpretaram e alteraram parte das respostas, isso como forma de melhor adequ-las a

linguagem radiofnica destinada ao pblico em geral, mas para que, tambm, pudesse ser

entendida por elas mesmas. medida que iam interferindo na composio do texto atravs de

suas falas, de seus dilogos, a coordenadora e os estagirios das atividades tambm anotavam

o que deveria ser alterado. Quando uma dvida sobre a temtica do corpo humano e, em

especfico sobre alguma questo em discusso surgia, logo vinha a explicao a partir do(a)

olhar do coordenador(a) do grupo.

Esse processo de produo de respostas ou de adequao de respostas ao pblico alvo que

so crianas mais uma vez traz a tona as concepes de infncia que circulam entre os

produtores deste programa, sejam eles adultos ou as prprias crianas.

127

Como lembra Bakhtin (2003) todo enunciado carrega em si marcas valorativas daquilo que o

locutor pensa sobre seu ouvinte. Nesse sentido, todo o trabalho feito de construo de

respostas e adequao de texto , para os produtores desse programa, um exerccio de

alteridade onde expressam o que pensam sobre os interlocutores.

Havia sempre a presena dos professores, coordenadores e tambm estagirios nas atividades

relacionadas produo das perguntas e respostas. Alm da prpria alegria dos participantes,

parece-nos que em ambientes diferentes daqueles do processo de ensino e aprendizagem

formal, a meninada interagia melhor, participando, assim, das atividades (oficinas).

Figura 14 Alunos gravando as plulas ( esquerda) e a edio das gravaes que se tornaro plulas a serem veiculadas na Rdio UFMG Educativa ( direita).

Aps os dilogos estabelecidos entre os integrantes do GTD, iniciam-se os preparativos para

as gravaes das plulas, desta vez as respostas sobre as indagaes acerca do corpo humano

tiveram nova estruturao, ou seja, atendem algumas especificidades do pblico participante.

Neste momento, avaliamos que h uma negociao mesmo que limitada estabelecida entre

alunos, coordenadores do GTD e do programa Universidade das Crianas, que por vez

aproximam-se do carter dialgico estabelecido por Bakhtin (2006, p. 128) A comunicao

verbal entrelaa-se inextricavelmente aos outros tipos de comunicao e cresce com eles

sobre o terreno comum da situao de produo. A comunicao verbal, aqui tambm

entendida como parte de uma juno de outros tipos de comunicao. Acompanhamos e

registramos parte das etapas dos processos de produo do programa Universidade das

Crianas, tanto nas gravaes quanto nas edies.

128

Percebemos que nem sempre possvel gravar em uma nica vez a pergunta e a resposta, pois

diante de todo o aparato tcnico e tecnolgico, as vozes dos participantes podem falhar em

alguns momentos, como tambm o prprio aparato tcnico. Como as plulas so gravaes, a

chance de gravar novamente, ajustando aquilo que no ficou adequado, sempre uma

possibilidade vivel. O programa radiofnico Universidade das Crianas pode ser considerado

como um dos gneros lingstico, capazes de viabilizar a participao de muitas vozes; porm

apenas trs vozes so veiculadas pelas ondas do ar. A primeira a voz do locutor que fala ao

som de uma vinheta na abertura, a segunda a voz de uma criana que se identifica e traz em

sua fala uma pergunta e por fim a terceira voz, que pode ser a linguagem de um especialista

respondedor.

Selecionamos algumas plulas, que correspondem a perguntas e respostas elaboradas ao longo

das oficinas do GTD de corpo humano. Apesar da existncia de mais de uma centena de

questes elaboradas pelos integrantes do GTD, trazemos como exemplos apenas dez, das

quais analisaremos as cinco em destaque na tabela 2.

Tabela 2 Algumas plulas veiculadas na Rdio UFMG Educativa.

As plulas veiculadas no programa Universidade das Crianas, da Rdio UFMG Educativa,

carregam algumas especificidades. Inicialmente uma vinheta com musicalidade e falas chama

a ateno dos ouvintes para o incio do programa, aps a vinheta feita uma pergunta que

trata de assuntos relacionados s Cincias e/ou ao corpo humano. Na seqncia apresenta-se a

resposta da questo, tudo isso no espao de um a trs minutos; tal tempo flexvel podendo

estender-se ou diminuir, mas apenas uma pergunta veiculada por dia.

Nome Idade Pergunta Marcelo Jnio Andrade Magalhes

10 Por que no nascemos sabendo?

Fernanda Zanettei Marques 10 Por que suamos muito? Ana Luiza Oliveira Quirim 10 Por que precisa fazer sexo para ter filho? Nathlia Cardoso Campos 10 Quantas minhocas temos no crebro? Yasmin Luiza Nunes Soares 10 Por onde os vrus entram no nosso corpo? Jade de Aguiar Laporiais Amaral 10 O que tem no crebro que faz a gente pensar? Pedro Lucas Silva Barbosa 11 Por que ns temos meleca no nariz? Viviane Cunha Silva 10 Como nosso corpo se modifica? Incio Silveira Latorro 10 Como os vrus entram no nosso corpo? Luiza Gabriela Noronha Santiago 10 Por que o sangue vermelho?

129

Trazemos aqui algumas das perguntas que foram veiculadas, ressaltamos que a veiculao era

aleatria, ou seja, no havia uma prioridade sobre as questes que deveriam ser transmitidas

pelo programa, assim no mencionaremos a data de sua transmisso.

Apresenta-se a seguir o texto de algumas das plulas do Universidade das Crianas, seguidas

de uma conversa com seus autores:

4.4.1 Por que no nascemos sabendo?

Criana:

Eu sou Marcelo, tenho 10 anos e gostaria de saber: por que no nascemos sabendo?

Locutor:

No nascemos sabendo matemtica, tocar piano ou usar a Internet. Mas nascemos sabendo

outras coisas! Quer exemplo? Logo ao nascer, voc j sabia que tinha que sugar o seio de

sua me, no verdade? Ningum te ensinou isto! E se voc no soubesse, morreria de fome.

Alguns pssaros nascem sabendo que o primeiro ser vivo que eles enxergam na frente depois

de sair do ovo ser a sua me. Isso s vezes pode ser muito engraado. Se este ser vivo for

um gato, o passarinho ir pensar que o gato a sua me [...] J pensou?

As coisas que a gente nasce sabendo so aquelas essenciais para a nossa sobrevivncia. Isso

permite que a nossa espcie sobreviva durante muuuuitos (sic) anos. No nascemos sabendo

matemtica, geografia e gramtica, porque no precisamos disso tudo nos primeiros dias de

vida. Mas nascemos com crebro e rgos dos sentidos, ou seja, com a capacidade de

aprender muitas outras coisas.

Quem nos ajudou a responder essa pergunta foi o Professor Mrcio Dutra de Morais, do

Instituto de Cincias Biolgicas da UFMG.

Eu sou Dbora Dvila Reis e o nosso endereo naondadavida@ufmg.br

130

Na pergunta formulada por Marcelo, percebemos que, apesar de a vinculao do GTD ficar a

cargo da disciplina de Cincias do Centro Pedaggico da UFMG, h possibilidades, para

formulao de questes que tambm tangenciam outras reas. Ainda sobre a questo que

Marcelo elaborou, trazemos um dilogo que fizemos sobre tal plula ou programa:

Josemir: Marcelo, voc gosta de escutar rdio?

Marcelo: Ah, eu gosto.

Josemir: Voc escuta rdio em casa?

Marcelo: Eu escuto s vezes em casa e quando eu vou viajar na maioria das vezes no carro.

Josemir: E quando voc est viajando, no rdio que voc leva ou no rdio do carro?

Marcelo: No rdio do carro.

Josemir: E em casa, voc escuta rdio?

Marcelo: Escuto sim, no rdio l de casa.

Josemir: Voc gosta de escutar o que no rdio?

Marcelo: Msicas, l em casa eu escuto no computador ou no rdio mesmo.

Josemir: Voc j escutou a Rdio UFMG Educativa?

Marcelo: No.

Josemir: Vou colocar aqui no rdio o CD com a pergunta que voc fez e a resposta dessa mesma pergunta.

Gostaria de saber se voc reconhece a sua voz.

Marcelo: a minha mesmo.

Josemir: Marcelo, voc j escutou esse programa outras vezes?

Marcelo: J, eles deram um CDzinho para a gente, a eu tava escutando.

Josemir: Mas na Rdio UFMG Educativa voc no escutou quando passou?

Marcelo: No.

Josemir: Voc gostou de ter participado da elaborao desse programa na poca?

Marcelo: Gostei.

Josemir: Por qu? O que voc achou que era legal?

Marcelo: Ah, o cara mexia na voz l, a gente falava e ele aumentava l, ficava grosso, fino [...]

Josemir: So os efeitos que ele estava fazendo l na voz? Na gravao?

Marcelo: .

Josemir: E o que mais voc gostou, alm desses recursos?

Marcelo: Ah, eu gostei foi do microfone l, era legal.

Josemir: E essa pergunta que voc fez, como que voc chegou a ela? Como elaborou essa pergunta?

Marcelo: Ah, eu tenho que lembrar n, como que foi, para te responder. Mas j tem muito tempo, eu no

lembro no.

Podemos perceber que na fala de Marcelo o gosto pelo rdio j existia, alm de ouvir o rdio

de sua casa, ele tambm disse escutar os sons no rdio no carro. As vezes escuta msica no

computador de sua casa. Embora ele no tenha escutado na Rdio UFMG Educativa a plula

131

que elaborou, ele j ouviu a prpria questo e outras tambm em um CDzinho que foi

entregue para cada participante do GTD, isso no final do semestre.

Marcelo ao falar de sua satisfao quando o cara mexia na voz enquanto um destaque na

entrevista expe que as crianas adoravam participar de atividades nos ambientes externos,

sala de aula, principalmente nas atividades nas quais havia efeitos sonoros em suas vozes.

Ressaltamos, sobre esses efeitos sonoros, que um tcnico da Rdio UFMG Educativa

participou de uma das oficinas e ensinou crianada como acrescentar outros sons e efeitos s

gravaes que fizeram.

A resposta de Marcelo traz para o nosso trabalho uma interessante questo de ordem

metodolgica: As crianas so ouvintes dos programas que produzem? Responder essa

pergunta implicaria fazer um estudo com propsitos diferentes do que aqui apresentamos.

Entretanto, a questo nos parece importante por evocar termo que diz respeito s mdias de

massa e o distanciamento que h entre seus produtores e receptores.

No caso especfico deste programa, percebemos que h uma preocupao de seus

idealizadores em apresentar s crianas-produtoras uma formao tcnica inicial. Entretanto,

o fato de Marcelo conhecer os programas j editados em CD e no t-lo escutado em seu

veculo original de divulgao o rdio d-nos a entender que talvez seja preciso uma

poltica de formao de pblico entre os prprios produtores do programa Universidade das

Crianas.

4.4.2 Por que suamos muito?

Criana:

Meu nome Fernanda, tenho 10 anos e gostaria de saber por que suamos muito.

Locutor:

132

Bem, ns suamos porque precisamos perder calor. Quando a gua que compe o nosso suor

evapora, ela retira calor do nosso corpo, e isso faz com que a nossa temperatura diminua.

Hum [...] Ento agora eu imagino voc deve estar se perguntando para que ns precisamos

de perder calor[...]

A gente precisa perder calor porque o nosso organismo realiza muitas atividades que

produzem energia na forma de calor. Quando voc joga bola durante a tarde toda com seus

amigos, ou se concentra muito pra fazer a prova de matemtica as clulas dos seus msculos

e do seu crebro esto gerando calor. Mas acontece que o nosso corpo precisa estar numa

temperatura de mais ou menos 37 graus pra tudo funcionar direitinho, da ns temos que

eliminar parte do calor que nossas clulas produzem. Simples n?

Agora tem uma coisa mais curiosa ainda pra gente pensar [...] Como que o corpo percebe

que precisa de suar? J tinha pensado nisso? Acontece que l no nosso crebro tem uma

regio chamada hipotlamo, isso mesmo, hi-po-t-la-mo [...] que sensvel ao aumento da

temperatura. Quando o corpo esquenta muito as clulas do hipotlamo, que se chamam

neurnios, emitem sinais para as clulas que produzem suor na nossa pele, e a ns

transpiramos. Viu s? O suor um timo exemplo de como vrias partes do nosso corpo

trabalham juntas para manter nosso organismo saudvel!

Eu sou Dbora Dvila Reis e at o nosso prximo encontro.

Entrevistamos Fernanda e Ana Luiza sobre a participao que tiveram no programa, assim

pudemos perceber ainda a presena do rdio no cotidiano de cada uma delas. Alm do

tradicional aparelho de rdio, elas mencionaram tambm o MP4 em que escutam rdio.

Fernanda disse at mesmo que o rdio a faz dormir, cita outro programa de outra emissora e

nos demonstra ser uma ouvinte de rdio. As crianas entrevistadas no apresentaram rejeio

ao rdio, ao contrrio, mencionaram o que gostavam. Ana Luiza, por sua vez, aps a gravao

do programa no GTD, no mais o escutou, j Fernanda teve a oportunidade de escut-lo.

Josemir: Fernanda voc gosta de escutar rdio?

Fernanda: Gosto.

Josemir: E voc escuta rdio aonde?

Fernanda: s vezes pelo meu celular e pelo MP4.

Josemir: E o que voc mais gosta de escutar no rdio?

Fernanda: As msicas do Hip Hop que passam na FM, a Itatiaia.

133

Josemir: E a Itatiaia no passa msica no?

Fernanda: No, no passa.

Josemir: Passa o que?

Fernanda: Eu gosto de escutar de madrugada que passa um programa a Dona da Noite e de relacionamento.

Josemir: E voc gosta? Tem coisa boa que passa nesse programa?

Fernanda: Hanram.

Josemir: E que hora que comea esse programa?

Fernanda: Meia noite e vai at quatro horas.

Josemir: Uai, e voc escuta esse negcio de madrugada?

Fernanda: Hanram.

Josemir: Uai Fernanda, e voc no dorme no?

Fernanda: Durmo.

Josemir: S um pouquinho?

Fernanda: No, o rdio que me faz dormir.

Josemir: Ah entendi, toda vez que voc vai deitar voc liga o rdio para ajudar dormir, a voc fica escutando

esse programa. E quem que faz esse programa? Voc lembra o nome dessa pessoa?

Fernanda: Hamilton de Castro.

Fernanda foi uma das crianas entrevistas que tambm disse escutar rdio, citou o exemplo

do rdio do prprio celular, alm do MP4. No caso de Fernanda ressaltamos que o rdio

tambm utilizado para fazer dormir, ou seja, ela escuta um dos programas de relacionamento

at que d sono, disse: [...] o rdio que me faz dormir. O curioso, que uma criana, e

que gosta de programa radiofnico de relacionamento que se estende pela madrugada. A

emissora que Fernanda menciona comercial e no tem nenhum programa destinado ao

pblico infantil. Uma outra criana que tambm participou da conversa foi Ana Luiza:

Josemir: Ana Luiza, voc gosta de escutar rdio?

Ana Luiza: Gosto.

Josemir: E voc escuta rdio onde?

Ana Luiza: L em casa, no MP4 tambm.

Josemir: Na sua casa, no carro, no final de semana, dia de semana [...] como essa escuta do rdio?

Ana Luiza: Eu escuto no fim de semana e no dia de semana tambm.

Josemir: Ah , e o que voc mais gosta de escutar no rdio?

Ana Luiza: Eu gosto de escutar msicas.

Josemir: Msicas, Hip Hop igual a Fernanda?

Ana Luiza: Ah, tambm.

Josemir: Tambm, mas voc gosta de escutar qual outra msica?

Ana Luiza: No tem uma msica que eu gosto, so muitas.

134

Ana Luiza disse na entrevista acima, tambm gostar de msicas, no h apenas um estilo

musical, gosta de msicas variadas; escuta o rdio em casa especificamente no MP4, o que em

parte nos explica as possibilidades das escutas isoladas, individualizadas at mesmo de

programas que so veiculados em horrios variveis, como no caso de Fernanda que durante

a madrugada.

Perguntamos para Fernanda e Ana Luiza se j escutaram a Rdio UFMG Educativa:

Josemir: Fernanda, voc j escutou a Rdio UFMG Educativa?

Fernanda: J.

Josemir: Uma vez s ou vrias vezes?

Fernanda: Uma vez s.

Josemir: E o que voc escutou na UFMG Educativa?

Fernanda: Eu escutei as minhas perguntas, as que eu fiz no GTD.

Josemir: E o que voc achou na hora que voc escutou?

Fernanda: Ah eu gostei n, porque eu falei na rdio, a foi bom.

Josemir: E voc, Ana Luiza, voc j escutou a Rdio UFMG Educativa?

Ana Luiza: No.

Josemir: Fernanda, voc gostou de ter participado do GTD daquela poca que foram elaboradas as perguntas?

Fernanda: Ah, no dia que eu fui apresentar l na rdio eu gostei, mas depois no dia que eu fiz isso eu no gostei

muito no.

Josemir: De ir l rdio voc gostou, de falar l no microfone tambm, e depois por que voc no gostou mais?

Fernanda: Ah, porque tinha que fazer atividade em grupo, e eu era a nica menina no grupo, a eu ficava

faltando todo dia no GTD por causa disso.

Josemir: Ah, voc fala que no grupo tinha mais meninos, a voc ficava com vergonha e no ia?

Fernanda: Hanram.

Josemir: E fora isso, as outras coisas foram todas boas?

Fernanda: Hanram.

Outro detalhe que nos chamou ateno na fala de Fernanda foi sobre a sua participao no

GTD, pois ela alega que a parte boa foi visita a Rdio e tambm a gravao no microfone. J

a parte que disse no ser boa foi a sua participao no grupo ao longo das oficinas por ser a

nica menina do grupo. Ressaltamos que Fernanda mencionou que escuta rdio durante a

madrugada, o programa de relacionamento, no entanto demonstrou dificuldades em interagir

com o grupo de meninos. Pela possibilidade de mobilidade do rdio, talvez Fernanda possa ter

feito algumas escolhas, como por exemplo horrio de escuta, local de escuta e

135

conseqentemente a forma em que escuta, sendo aqui o isolamento algo que tambm pudesse

ser um dos reflexos em suas decises em participar ou no do GTD com os meninos.

Ana Luiza tambm respondeu sobre sua participao no GTD:

Josemir: E voc, Ana Luiza, voc gostou de ter participado desse GTD?

Ana Luiza: Gostei.

Josemir: De que voc mais gostou?

Ana Luiza: De falar no microfone pra rdio assim.

Josemir: De falar no microfone, de ir na rdio, e o que mais?

Ana Luiza: Ah, tambm quase a mesma coisa que a Fernanda, mas tambm no gostei porque tinha que ir pra

sala de aula fazer atividades.

Josemir: Sobre a resposta da pergunta que vocs elaboraram o que vocs acham, ficou legal?

Ana Luiza: Ah, eu gostei.

Josemir: E voc Fernanda, o que voc achou da resposta que saiu a na rdio?

Fernanda: Ah, eu gostei porque eu no sabia, e eu acabei aprendendo por causa que responderam minha

pergunta.

Quando perguntamos s crianas se j escutaram a Rdio UFMG Educativa e, em especfico,

a Universidade das Crianas, obtivemos como respostas que a escuta do programa no algo

regular. Fernanda disse j ter escutado o programa uma vez, j a Ana Luiza disse no ter

escutado nenhuma vez. Apesar desse baixo ndice de acompanhamento do programa

Universidade das Crianas em relao aos entrevistados, isso no corresponde a um

desinteresse pelo mesmo. Em vrios momentos, nas entrevistas, as duas crianas se

posicionaram dizendo que gostaram de ter participado do programa. Neste ponto, no de

nosso interesse, no momento, a ampliao dos dilogos sobre a recepo, embora isso no

seja menos importante.

Em nenhum momento s crianas entrevistadas falaram que participaram da elaborao das

respostas em relao s plulas que propuseram. De acordo com as falas delas, parte do

processo pelo qual a produo das mensagens ocorreu foi interessante, ou seja, as oficinas,

neste caso, ganharam destaque. O desejo de falar ao microfone, os efeitos dos sons entre

outros, foram fatores vistos como relevantes.

136

4.4.3 Por que precisa fazer sexo para ter filhos?

Criana:

Meu nome Ana Luiza, eu tenho 10 anos e gostaria de saber por que precisa fazer sexo para

ter filho?

Locutor:

Voc j reparou que voc se parece com a sua me em algumas coisas e com seu pai em

outras ? Pois , isso acontece porque voc uma mistura dos dois. E o sexo o jeito natural

de misturar o que veio da sua me com o que veio do seu pai para formar voc.

A nossa me tem uma clula que s as mulheres tm chamada ovcito. E o nosso pai tem

uma clula que s os homens tm chamada espermatozide. A, durante o sexo, o homem

penetra seu pnis na vagina da mulher , e forma uma ponte para que o espermatozide

encontre o ovcito que estava bem guardadinho na mulher.

Essas duas clulas se unem e passam a formar uma clula s que se chama zigoto. , esse

nome bem esquisito. Mas por causa desse tal de zigoto que voc e eu existimos. Essa clula

chamada zigoto se divide em duas clulas. A cada uma dessas duas clulas se divide em mais

duas. E por a vai, at que se forma um monte de clulas, que ento se organizam muito bem

para formar nossa cabea, nariz, mo, corao e tudo que forma to bem o nosso corpo.

Mas agora veja s: os cientistas j inventaram uma outra forma de fazer filho sem sexo, voc

sabia disso? Mas um jeito artificial, feito em laboratrios, onde eles retiram o

espermatozide do homem e o ovcito da mulher e misturam essas duas clulas em um tubo.

E o resultado disso colocado de volta dentro da mulher, pra crescer, se desenvolver e

formar um beb.

Ento agora voc j sabe. O sexo a forma mais prazerosa pra se fazer um filho, mas no a

nica [...]

Eu sou Camila Rabello e o nosso e-mail unicriancas@icb.ufmg.br

137

Ana Luiza, disse em sua entrevista que gostou de gravar o programa, de falar ao microfone,

mas tambm mencionou que quando teve que retornar s atividades em sala de aula no

gostou muito. Parece-nos que os desdobramentos das atividades do GTD no repercutiram,

pelo menos para Ana Luiza, nos contedos disciplinares da escola, sendo assim, mais uma

tarefa executada de forma isolada.

A entrevista realizada com Fernanda e Ana Luiza demonstrou-nos parte da produo de

sentidos que estabeleceram em relao ao rdio, isto , as questes que formularam enquanto

plulas perpassaram pelo cotidiano extra-escolar. Empregaram discursos de diferentes lugares,

no especificamente da escola.

4.4.4 Quantas minhocas temos no crebro?

Criana:

Meu nome Nathlia, eu tenho 10 anos e gostaria de saber quantas minhocas temos no

crebro?

Locutor:

Bem Natlia, na verdade no temos minhocas no crebro. Aquelas estruturas que a gente v

em figuras de livros que se parecem mesmo com minhocas so o que os cientistas chamam de

giros do crebro.

O nmero de giros pode variar um pouquinho de pessoa para pessoa e at de um lado para o

outro do crebro de uma mesma pessoa. Mas a gente deve ter mais ou menos uns 20 giros de

cada lado do crebro.

Na verdade essas minhocas ou giros no so estruturas separadas. Todas elas esto

conectadas umas s outras formando uma estrutura muito bem organizada, que a gente

chama de crebro, e que nos permite ter uma capacidade imensa de pensar.

138

Mas uma coisa importante pra voc aprender que esses giros foram todos formados a partir

de uma estrutura s, parecida com um tubo comprido. A enquanto voc foi desenvolvendo na

barriga da sua me, esse tubo foi crescendo. S que esse tubo cresceu dentro do crnio que

como uma caixa de paredes duras e que por isso no deixou esse tubo ocupar um espao

muito grande. Ento, esse tubo foi se dobrando e dobrando e assim foram se formando as

minhocas da cabea.

por ter os giros do crebro que a gente consegue pensar tanta coisa, ter idias novas,

enxergar, ouvir sons,sentir cheiro e muitas outras coisas.

Eu sou Camila Rabello e o nosso e-mail unicriancas@icb.ufmg.br

Em uma das entrevistas realizada com a coordenadora do programa Universidade das

Crianas, percebemos que havia uma preocupao sobre a linguagem que seria veiculada pela

rdio. No exemplo acima a comparao da estrutura do crebro com um tubo comprido

facilitava, de acordo com a entrevistada, o entendimento, alm de permitir que os ouvintes

pudessem imaginar atravs dos sons do rdio o que se pretendia esclarecer. Apresentamos a

fala da coordenadora, a prof. Dbora Dvila Reis:

Primeiro eu considero que o cuidado com o contedo, de ouvir no rdio, de ficar escutando, de criar, a gente conversa muito com os alunos, com os monitores, de responder sempre tentando criar uma imagem naquela pessoa que est escutando. Na imaginao daquela pessoa, eu acho que, s vezes voc no precisa nem virar e falar assim uma imagem concreta, quando voc fala viagem, por exemplo, voc cria, s vezes palavras que so mais sugestivas, a prpria sonoridade. Ento, eu acho que esse um cuidado, o cuidado com a questo da linguagem, quando a gente faz analogia [...]. A gente s vezes tem discusses, a gente fica uma tarde inteira vendo o que pode ser comparado a essas questes, como uma teia de aranha ou no e chega concluso de que no pode e s vezes no acha nada prximo. No achamos nenhuma analogia que seja aceita dentro do mundo cientfico, ento esse tambm outro cuidado enquanto cientifico, eu acho que isso. s vezes quando aparece uma palavra difcil, a gente pensa, [...] mas ser que vale a pena a gente falar de hipotlamo, se achamos que tem que falar, falamos s vezes a gente repete aquela palavra, hipotlamo, para os meninos ver hipotlamo, brincamos um pouco com essa palavra, porque aquilo passa a fazer parte da vida e tentar introduzir termos novos tambm, enriquecer um pouquinho sem medo. (DVILA, Dbora Reis. Belo Horizonte, 23 abril 2008. Entrevista concedida a Josemir Almeida Barros.)

A analogia estabelecida por Dvila na entrevista acima ajudou-nos a entender que, ao

estabelecer um canal de comunicao, que neste caso o rdio, as palavras utilizadas na

mensagem deveriam ser pensadas como facilitadoras, no simplesmente como algo a ser

139

falado, falar, sim, mas a partir dos possveis sentidos estabelecidos nessa mediao. Outro

ponto na entrevista acima sobre o processo pelo qual a resposta das plulas foi construda.

4.4.5 Por onde os vrus entram em nosso corpo?

Criana:

Meu nome Yasmin, eu tenho 10 anos e gostaria de saber por onde os vrus entram em nosso

corpo?

Locutor:

Voc deve saber que os vrus so seres muito pequenos, menores ainda que uma bactria que

a gente s v ao microscpio.

Mas como um vrus entra na gente? Voc iria imaginar que o nosso corpo tem barreiras para

a sua entrada? Pois tem sim. A pele a primeira barreira natural e o vrus consegue

ultrapassar quando temos uma ferida por minscula que seja, ou atravs dos olhos, da boca e

principalmente atravs do nariz. Uma vez dentro do nosso corpo, o vrus precisa entrar

dentro da clula, para que ele possa se multiplicar e sobreviver. Pra isso ele se encaixa na

superfcie de uma clula como chave e fechadura fazem e ento fica fcil entrar. E cada tipo

de vrus tem um tipo preferido de clula. Por isso os vrus so capazes de causar doenas

diferentes como o sarampo, a gripe, a caxumba, a dengue e a Aids. Mas nem precisa ficar

assustado, o fato de voc ficar perto de uma pessoa gripada no significa que voc tambm

vai ficar doente. O seu corpo tem clulas que so capazes de destruir o vrus e assim impedir

a doena.

Essas clulas fazem parte do seu sistema imune que so importantes para te defender desses

microorganismos, ou seja, elas fazem parte do seu sistema de defesa e para que elas

funcionem bem, voc precisa cuidar do seu corpo e da sua mente.

140

Ento, enquanto voc fizer a sua parte se alimentando bem, fazendo esportes e vivendo uma

vida saudvel, suas defesas estaro prontinhas no s para acabar com o vrus mas com

qualquer penetra que quiser entrar na festa que a sua vida.

Eu sou Adlane Vilas-Boas e o nosso endereo naondadavida@ufmg.br

Nathlia perguntou quantas minhocas temos no crebro, j Yasmin por onde os vrus entram

em nosso corpo, questes que, como j ressaltamos, perpassaram tambm pelos cotidianos.

Lembramos que tudo isso s foi possvel porque as negociaes estabelecidas atravs das

oficinas, entre os respondedores e os perguntadores, se fez presente enquanto uma das

dinmicas; mas essa necessariamente, no uma construo especfica dos processos de

ensino e aprendizagem da escolarizao formal de que as crianas participavam. A esse

respeito possvel recorrer s falas das entrevistadas, pois em nenhum momento

mencionaram as atividades, de que participaram, como um desdobramento dos processos de

escolarizao.

Josemir: Nathlia, voc gosta de escutar rdio?

Nathlia: Gosto.

Josemir: E voc escuta rdio onde?

Nathlia: Na minha casa e no carro.

Josemir: E o que voc mais gosta de escutar no rdio Nathlia?

Nathlia: Msicas, u.

Josemir: E voc, Yasmin, voc gosta de escutar rdio?

Yasmin: Gosto.

Josemir: Gosta muito ou pouco?

Yasmin: Muito.

Josemir: Voc escuta rdio mais em que lugar?

Yasmin: No carro do meu pai.

Josemir: E em casa voc escuta tambm?

Yasmin: Escuto, mais escuto mais no carro do meu pai.

Josemir: E o que voc mais gosta de escutar no rdio?

Yasmin: Msicas.

Nathlia e Yasmin, na conversa acima disseram gostar de rdio e que escutam msicas tanto

no rdio de casa quanto no do carro, assim o rdio parece fazer parte tambm do cotidiano

dessas crianas. O que mais escutam so msicas, nenhuma delas falou at ento sobre o

141

programa Universidade das Crianas. Na seqncia perguntamos se escutaram a Rdio

UFMG Educativa:

Josemir: Yasmin, voc j escutou a Rdio UFMG Educativa?

Yasmin: S uma vez.

Josemir: E nessa vez, o que voc escutou?

Yasmin: Escutei as perguntas l que eles estavam falando.

Josemir: E voc lembra de ter escutado a sua prpria pergunta?

Yasmin: No escutei no.

Josemir: Mas escutou outras perguntas?

Yasmin: Hanram.

Josemir: Nathlia, e voc j escutou a Rdio UFMG Educativa?

Nathlia: No, s que a gente ganhou um CD, a s escutei l.

Yasmin, na entrevista acima disse que s escutou a Rdio UFMG uma vez, j Nathlia disse

no ter escutado nenhuma vez, no entanto menciona que ganhou um CD e que o escutou. O

que percebemos diante das falas das duas crianas que no h uma valorizao de imediato

do programa Universidade das Crianas quanto nos limitamos a dizer sobre as perguntas e

respostas em aspectos de sua veiculao no rdio. Para as crianas no h uma relao direta

entre o gostar de escutar rdio e as plulas produzidas.

Josemir: Vocs gostaram de participar do GTD de corpo humano?

Nathlia: Gostei, mas fiquei com vergonha.

Josemir: Ficou com vergonha de que?

Nathlia: Ah, a voz ficou meio estranha n?

Josemir: Ficou meio estranha a voz?

Josemir: E voc Yasmin, gostou de ter participado da elaborao do GTD?

Yasmin: Gostei, mas fiquei com vergonha porque tive que repetir um tanto de vez.

Josemir: Mas por que voc ficou com vergonha Yasmin?

Yasmin: Tinha muita gente l e depois teve mais gente que escutou no rdio.

Josemir: E voc, Nathlia?

Nathlia: porque tinha quatro pessoas e eu falei umas cinco vezes e mais de uma pergunta.

Josemir: Mas quando vocs gravaram foi na rdio?

Nathlia: No, foi l na escola, no laboratrio.

Josemir: Vocs querem falar mais alguma coisa dessa participao na Universidade das Crianas?

Yasmin: Mexemos na nossa voz l. A gente tava vendo l, colocava uma muito fina, aguda e depois colocava

outra grave.

142

A idia de mexer na voz, ou seja, de colocar efeitos, foi um dos atrativos que Yasmin

mencionou, j Nathlia disse que a voz ficou estranha. Como os programas eram gravados

previamente, a necessidade de gravar de forma limpa os sons, eliminando, assim, os rudos

indesejados, pressupe a repetio de uma mesma gravao. Neste ponto tanto Nathlia

quanto Yasmin reclamam da quantidade de vezes que tiveram que gravar no microfone.

Quando tratamos do programa Universidade das Crianas, muitas das questes gravadas

tambm poderiam ser acessadas atravs de um site elaborado com propsito de divulgar e,

tambm, facilitar o acesso das crianas s produes radiofnicas (plulas).

Figura 15 O site da Universidade das Crianas, onde possvel ouvir alguns programas disponveis em Acesso em: 19 de outubro 2008.

4.5 Alguns dilogos sobre os programas Rdio Maluca e Universidade das Crianas

Dilogos e mais dilogos, assim os dois programas radiofnicos aqui analisados estabelecem

de forma diferente a interceptao de um possvel circuito que muitos entendem como

comunicao linear tradicional, aquela sem a interferncia dos receptores. Na Rdio

143

Maluca, nos momentos em que o microfone aberto s crianas, se estabelece a ruptura da

linearidade. J no Universidade das Crianas as respostas elaboradas pelos especialistas em

alguns casos so novamente discutidas pelo grupo, e, quando possvel discutidas com as

prprias crianas. Dessa forma o repensar e a ressignificao dos cdigos lingsticos tambm

cortam ao meio a linearidade. Nos dois programas nota-se em parte que o processo de

comunicao no linear confere notoriedade s vozes das crianas.

Ento, a primeira tomada de posio de Codificao/Decodificao , em parte, a de interromper esse tipo de noo transparente de comunicao para dizer: Produzir a mensagem no uma atividade to transparente como parece. A mensagem uma estrutura complexa de significados que no to simples como se pensa. A recepo no algo aberto e perfeitamente transparente, que acontece na outra ponta da cadeia de comunicao. E a cadeia comunicativa no opera de forma unilinear. (HALL, 2003, p. 354)

Este estudo no se caracterizou como um estudo de recepo clssico, ou seja, da audio dos

programas em seu contexto original. Desse modo o dilogo com seus ouvintes se deram nos

limites do campo de produo. Processos de codificao, mas tambm de decodificao das

mensagens.

Entretanto, cabe, ressaltar, que percebemos uma ruptura com o padro j no planejamento de

sua produo e na discusso com seus possveis ouvintes.

Tanto na Rdio Maluca como no Universidade das Crianas, as mensagens veiculadas fazem

parte de um complexo processo de produo e/ou transmisso de bens culturais, havendo

constantes negociaes entre as partes envolvidas. Se surge o silncio quando o microfone da

Rdio Maluca aberto para as falas das crianas, o apresentador estabelece um dilogo capaz

de instigar as crianas a falarem, como demonstrado no exemplo de um dos programa citados:

Brincadeira vitamina: remdio pr meninos e meninas. O roteiro do programa

importante, mas no garante que as falas das crianas percorram caminhos j determinados;

os riscos existentes quando se abre o microfone nada mais so do que as formas de

negociao a partir da decodificao. Assim, as crianas decodificam os rudos sonoros e os

devolvem para o apresentador/produtor. Marcam, portanto, seus posicionamentos, o que

pensam sobre determinados assuntos, mencionam seus saberes e acabam constituindo uma

nova forma de comunicar, baseada na interao de falas e msicas. Ressaltamos que nesse

processo tambm h limites.

144

Quando se trata do programa Universidade das Crianas, os processos comunicativos que

permitem a participao no se restringem apenas apresentao do produto final, mas

perpassam pela construo das possveis perguntas e, tambm, respostas. As atividades

desenvolvidas a partir das curiosidades das crianas e tambm das linguagens sonoras

utilizadas podem ser entendidas enquanto uma negociao; de um lado as falas de um grupo

de especialistas, do outro um grupo de crianas que demarcam parte seus saberes diante das

oficinas desenvolvidas, em outras palavras, interferem em parte das respostas. A ruptura das

fronteiras entre um grupo e outro se constitui no que chamamos de negociao, na qual os

produtos finais, as plulas, revelam possveis linguagens da coletividade. Essa coletividade,

nos lembra Bakhtin (2003) uma arena em que os valores dos diferentes sujeitos se

colocam em disputa. A prpria linguagem utilizada revela-se uma arena em que adultos,

crianas, professores e pesquisadores negociam sentidos.

H uma proposta dialgica que, por sua vez, permite-nos dizer que os mltiplos sentidos

estabelecidos nos vrios discursos radiofnicos dos dois programas em questo no se

limitam a produzir bens culturais para crianas, mas produzem bens culturais com a

participao das crianas, enquanto protagonistas, enquanto sujeitos falantes que tm vez e

suas vozes ganham notoriedade nas ondas do ar.

Em tempos em que se amplia o consumo de bens culturais, os meios de comunicao de

massa, e aqui se ressalta o rdio e em especfico os dois programas radiofnicos, tornam-se

parte das tticas, conforme Certeau (2002) nos alerta, construindo at mesmo novas formas de

sociabilidade e discursividade. A produo dos programas Rdio Maluca e Universidade das

Crianas, de alguma forma, colocam em discusso a ordenao estabelecida, na qual a

supremacia do discurso dos adultos muitas vezes impede as crianas de falarem o que pensam

e sentem sobre determinadas temticas, seja sobre o corpo humano, seja sobre Brincadeira

vitamina: remdio pr meninos e meninas. Os programas revelam-se interativos, agregam em

parte as falas das crianas, valorizam alguns aspectos dos dizeres e pensares do universo

infantil, so trilhas de uma nova perspectiva comunicacional, de linguagens sonoras para

crianas, mas, primordialmente, com crianas em seu processo de produo. Ao mesmo

tempo no contexto de produo dos programas a negociao de sentidos entre adultos e

crianas se faz presente.

145

[...] essas trilhas continuam heterogneas aos sistemas onde se infiltram e onde esboam as astcias de interesses e de desejos diferentes. Elas circulam, vo e vm, saem da linha e derivam num relevo imposto, ondulaes espumantes de um mar que se insinua entre os rochedos e os ddalos de uma ordem estabelecida. (CERTEAU, 2002, p. 97)

Nos programas radiofnicos percebemos uma heterogeneidade de falas no processo de

produo. O que chamamos de negociaes pode ser entendido a partir dos diversos dilogos

estabelecidos entre adultos e crianas, o que tambm podemos entender como tticas segundo

Certeau (2002). Tanto as crianas quanto os adultos marcam seus lugares nos programas, ou

seja, constroem possveis formas de resistncia que priorizem suas culturas e que estabeleam

sentidos.

No existe sentido em si, no existe sentido primeiro ou sentido ltimo. O sentido aquilo que responde a uma questo; aquilo que no responde a nenhuma questo desprovido de sentido. O ato de compreenso ao mesmo tempo descoberta e adjuno, tomada de relao entre um todo acabado e um contexto ulterior inacabado. (AMORIM, 2004, p. 193)

Os programas radiofnicos utilizam diversas linguagens sonoras, passando pela musicalidade,

pelas vinhetas, pelas falas e por outros sons, chamam a ateno dos ouvintes e participantes,

estabelecem em suas produes dilogos a partir de bens culturais diversos. Cada criana, por

sua vez, cria sentidos e significados prprios, uma demonstrao de subjetividades dos

processos. Seus conhecimentos se ampliam medida que demonstram maior interesse pelas

novas descobertas na produo dos programas, no simplesmente por terem suas vozes

veiculadas pelo rdio. Aqui no fazemos distino entre os dois programas, uma vez que a

garantia das falas das crianas foi preservada em alguns casos da negociao dos vrios

discursos em questo. De alguma forma, as crianas se vem nas linguagens sonoras

utilizadas nos processos de codificao, assim estabelecem crticas a partir da decodificao

ou da interpretao dos sentidos que encontram nas vrias mensagens radiofnicas. O tempo

de ser criana algumas vezes foi preservado ao longo das atividades dos programas, no sendo

exigido das crianas possveis participaes e/ou dilogos enquanto seres adultos; assim

produes culturais miditicas com demandas da infncia podem ganham destaque pelas

ondas do ar, tanto na Rdio Maluca quanto na Universidade das Crianas.

146

CONCLUSES

Os sons, tambm quando percebidos nas diversas mdias sonoras, tocam o mundo e acariciam ou incomodam os nossos corpos. Assim, como percebemos as vibraes sonoras com todo o corpo, podemos dizer que as

emissoras de rdio so muito mais misturas comunicativas que simples meio de comunicao.

Jos Eugnio de Oliveira Menezes, 2007

Nossos estudos sobre a relao entre as crianas e radiodifuso destinada ao pblico infantil

permitiram o repensar acerca de questes miditicas e, em especfico, de processos vinculados

radiodifuso no mundo contemporneo. Percebemos que o rdio uma das mdias presente

na vida das crianas, elas so ouvintes de rdio.

As crianas com que tivemos oportunidade de dialogar no contexto da pesquisa exploratria,

enquanto ouvintes de rdio no fazem distino entre programas destinados a elas e os

destinados ao pblico adulto. O interesse que apresentaram pelo rdio est vinculado s

msicas que so veiculadas, independentemente de seus estilos e horrios. Tambm escutam

rdio em locais diversos, como por exemplo, em casa e no carro. As crianas tambm no

fazem distino entre os programas que permitem a sua interatividade ou no. Nesta

perspectiva no diferenciam programas radiofnicos que estabelecem uma comunicao

tradicional linear ou intersubjetiva (circular).

O rdio foi representado nos desenhos e/ou citado pelas crianas em suas diversas formas,

desde o tradicional, o rdio pilha, o rdio do aparelho 3 em 1 aos modernos como MP3,

MP4, o rdio do celular, o rdio do carro e em alguns momentos at mesmo o rdio da

internet. Demonstraram interesse no pelo seu formato, mas por tocar msicas.

Programas radiofnicos destinados ao pblico infantil no so to comuns hoje. No foi feito

um levantamento estatstico sobre a existncia de tais programas em rdio de carter

comercial, mas verificamos que muitas iniciativas de radiodifuso envolvendo crianas e

jovens acontecem na escola.

147

Os programas radiofnicos Rdio Maluca e Universidade das Crianas se revelaram enquanto

provveis campos de conflito, ou seja, lugares de ressignificaes das mensagens faladas.

Embora haja algumas especificidades tanto na concepo quanto na transmisso de cada um

dos programas, percebemos que na Rdio Maluca a negociao das mensagens se fez mais

presente medida que o apresentador possibilitava a veiculao dos dizeres das crianas, isso

sem saber o que poderia vir a pblico, pois no formato de programa ao vivo no havia o

controle das discursividades. J no programa Universidade das Crianas tal negociao

tambm se fez presente, mas desta vez apenas em parte do processo de produo das

mensagens ou das plulas, pois o seu formato no era ao vivo e sim de gravaes, limitando

assim a espontaneidade infantil, a medida que a gravao impunha critrios de qualidade

tcnica.

Pensamos que ao participarem dos programas radiofnicos, as crianas estabeleceram redes

de significaes a partir de enunciados postos em circulao, que por vez apresentavam-se

enquanto produtos simblicos constitudos a partir das muitas vozes. Mas quando

estabelecemos um paralelo entre as produes discursivas e a recepo de tais produtos pelas

mesmas crianas, ficou-nos evidente que na Universidade das Crianas a participao era

quase que exclusiva em funo das necessidades da escola e no do interesse especifico das

crianas. Poucas crianas tiveram acesso ao programa de rdio no momento da veiculao das

plulas, embora todas tenham escutado as prprias plulas que produziram a partir do CD

gravado e entregue para cada uma ao final de cada semestre.

Outro aspecto que tambm julgamos importante destacar sobre a veiculao das plulas na

Rdio UFMG Educativa. H uma discrepncia entre a quantidade de plulas produzidas e a

possibilidade de veiculao no rdio. Sendo estas plulas veiculadas aleatoriamente entre um

programa e outro, pareceu-nos que a falta de critrios para a elaborao de uma grade de

veiculao contribuiu para o no acompanhamento das mesmas pelas crianas participantes

das oficinas. As crianas, individualmente, por no terem um retorno mais imediato daquilo

que produziam ficaram desinteressadas em ouvir as plulas, como tambm em continuar

produzindo-as. Mas isso no invalidou a importncia das plulas para a crianada. Sendo

veiculadas ou no, as plulas de uma forma ou de outra revelaram uma possibilidade das

crianas apresentarem seus questionamentos sobre temas variados.

148

Na Rdio Maluca os programas e suas temticas eram anunciados previamente, tanto atravs

do rdio quanto por e-mails e um blog, embora em alguns momentos as crianas de

determinadas escolas participassem a convite da prpria escola, as questes escolares no

eram o foco do programa. Enquanto no caso do programa Universidade das Crianas,

percebemos a incluso de um processo de radiodifuso no interior da rotina escolar, no caso

da Rdio Maluca, percebemos o incentivo de algumas escolas a levar as crianas a espaos

culturais dedicados radiodifuso alheios aos limites da escola. Percebemos que a idia

central do programa era promover cultura para criana atravs de uma diversificao de

atividades. Pareceu-nos que o acompanhamento das atividades ao vivo era algo tambm

prioritrio para as crianas. Em depoimentos, poucas crianas mencionaram sobre o

acompanhamento do programa pelo rdio. Assim a interatividade no palco/auditrio foi um

dos atrativos importantes para os participantes. Dessa forma tambm no invalidamos a

importncia desse programa radiofnico destinado ao pblico infantil e reafirmamos que a

recepo no foi o nosso foco de anlises.

Por fim, cabe ressaltar que os processos de produo estabelecidos pelos programas

radiofnicos observados levaram em considerao a importncia do dilogo com seus

participantes. Criam-se desta forma laos capazes de garantir uma comunicao mais plural,

constitudas por diversas vozes, resultado de uma negociao entre as crianas e os adultos.

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