raymond queneau - exercícios de estilo (brasileiro)

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    --IJFf.iGS--iBibli~1 ".1 ~ t;'Jt;uf'lalde B' .':'!:_tlnomiae C.', .. ll' aC~lo

    Cot;y,.,:ghl Editions Gallimnrd 1947T il ul o O ri gi na l:E x er cis es d e 51)'[0

    Capa:V ICTOI! BUl l TON

    AjJoio:J :. 'n vai xada da Franca n o B ra si l

    CIPBrasii. Cataloga(iio-na-fonteS in d ic at o N a ci on al d o s E d it or es d e L iv ro s, R I.Oueneau, Raymund, 1903-1976

    Q51e E x er ci ci os d e e s ti fa / ll ay m ll /1 d Qllelleal/; tradudio,apresentar; : i io e / lo s fa c io , L u iz R e s e nd e .- R io de J ane ir o : Imago Ed., 1995.(Cotecso Lazuli)T ra du ai o d e : E x e rc is es d e s ly lel nc l ul a n ex o s e bibliografiaISBN 85-312-048011 . L it er at ur a e xp er im e nt al . I . R e ze nd e , Lutz:

    1/ . Titulo. llf. SeneCDD - 848.07

    95-1895 CDU - 840-8(07)

    R e se rv ad os t od os o s d ir eit os .Nenhuma parte desta obra / l adera setreproduzida p a r [ ot oc o p ia , m i c ro fi lm e ,p r oc e s so [ o tomecanl co m l eiet t tmicos em p er mi ss ii o e xp re ss a d a E d it or a.

    1995IM AG O E DITORA LTD A.

    Rua Santos Rodr igues, 201-A - Estdcio20250-430 - R io d e Janeiro - R J - Te l.: 293-1092

    '} .~ I r

    Impresso no BrasilP ri nt ed i n B ra zi l

    SUMARIO

    1~Escrevendo Que Se Vira Escrevedor ,- Luiz Rezende

    Anotacao, 19Em Duplicata, 20Litotes, 21Metaforicamente, 22Retrograde, 23Surpresas, 24Sonho, 2SProfecias, 26Stnquises, 27Arco-Iris, 28Gincana Verbal, 29Hesitacoes, 30Precisdes, 31o Lado Subjetivo,Outra Subjetividade,Relato, 34Palavras-Valise, 3SNegatividades, 36Anlrnismo, 37Anagrarnas, 38IJisti n coes Necessanas, 39l'a reoteleutas, 40Versao Oflctal, 41

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    Texticulo De Orelha, 43Onomatopeias, 44Analise L6gica, 45Insistencia, 47Nao Sei De Nada,Presente, 50Acontecendo, 51Preterite, 52Imperfeito, 53Alexandrinos, S4Pos-Alexandrinos, 55Poliptotos, 56Ap6copes, 57Afereses, 58

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    Sincopes, 59Quer Dizer, Ne, 60Exclamacoes, 61Entao, 62Empolado, 63Povao, 64Ocorrencia, 65Cornedia, 67Apartes, 69Parequese, 70

    71antasmatico,Filos6fico, 73Ap6strofe, 75Desajeitado, 76Desenvolto, 78Parcial, 80Soneto, 82Olfativo, 83

    Gustativo, 84ran. 85Visual, 86Auditive,Telegrafico,Ode, 89

    8788

    Perrnutacoes de Grupos de 5 a 9 Letras,Perrnutacoes de Grupos de 4 a 8 Palavras,Helenismos, 92Conjuntos, 93Reacionario, 94Pai-dos-Burros, 96Hai Ku, ' 98Haikikai, 98Versos Livres, 99Feminino, 100Translacao, 102Lipogramas, 103Galicismos, 106Pr6teses, 107Epenteses, 108Paragoges, 109Metateses, 110Gramatica Transformativa, 111Troca-Troca, 114Nomes Proprios, 115Lingua do P~, 116

    ',Poucas-verdades, 117Macarronico, 118D a (Quase) na Mesma, 119Para os Franceses, 120Trocadilhos, 122

    9091

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    Botanico, 123Medicinal, 124Gastron6mico, 125Zool6gico, 126Iniurioso, 127Impotente,Pos-Tudo, '

    128129 '

    Probabilista, 130Retrato, 131Geometrico, 132Sertane]o, 134In terj eicoes I 136Precioso, 137Inesperado, 139

    Agora que Voces ja Leram, 142- L u tz Rezende

    AnexosExerc1cios de Estilo Posslveis,Exercfcios BrasileirosPapo de Botequim, 167

    Pisando na Iaca, 170Brasileirinhc, 172Tupinacara, 175Samba do Crioulo Doido,D a Samba, 179

    Bibliografia, 181

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    E E SC RE VE NDO QUE SE VIRA E SC REVEDORL L I iz Rezende

    Ao ouvir as fugas de Bach em concerto, 1 a pel os anos:10, Raymond Queneau teve a ideia de criar urn equivaLente,ilterario, constituido por uma serie de variacoes em tomede urn tema bern simples. Durante 'a guerra, para dtstrair-selim pouco de seus projetos "serios" e de suas atividadeseel!toriais, pos-se a escrever os primeiros exercfcios, emtorno de uma discussao 'entre dois passageiros a bordo deurn onibus. Ap6s tel' composto urn "Dodecaedro", pensavaern parar, mas acabou contagiado pela propria ideia e con-tinuou a serie ate chegar aos 99, "nem multo, nem poucod rnais: 0 ideal grego", Em 1948, os E x e rc tc io s d e E s til o forampublicados pela primelra vez em forma de livro, e logoinspiraram uma pe~a dos Ir rnaos Jacques, 0 que assentousu a popularidade e reforcou a do autor, Raymond Queneauer(J, entao, com Sartre e Preve r t , urn dos decanos da boemiarl rcu lando pelo Saint-Germain-des-Pres existencialista,"n II0 forte contra 0vento da besteira", segundo a elogiosar()rrnula de]uliette Greco, que emplacou urn grande sucessoIransformando em cancao seu poema "Si tu t'Imaglnes" ,

    Inspirado pelo convfvio encontrado na Grecia entre doisI'q~istros de linguagem, com primazia do dem6tico sobre alingua pura, Queneau vinha tentando a defesa e ilustracaodo frances falado desde 0 comeco dos anos 30, e chegou apropugnar urn nco-frances:

    N.

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    Mezalor, meza lor keskon nobtyin! Sa dvyin incrouayab,.pazordiner, ranversan, sa vouzaalor indse dri ildaspedontanrvyin pa. 0/1 lrekanc pudutou, I transe, amesa pudutou,sa vou pran toudinkou unalur ninversonaorbase stupefiant.Avre d i r, sC l 71 cmn ta ra n. J e rl u t ou d s ui t Itka t / ig n s i d su , jepapum an pe ch e d e mma!"e . 1

    No comecinho dos anos 70, veio a reconhecer, nao semuma pontinha de nostalgia, que a norma culta estava im-pregnando a fala popular, e atribuiu 0 fenorneno it influen-cia da televisao.

    Em 1958, surgiu Zazi no metro, livro que ganhou urnprernio de humor negro evtrcu filme de Louis Malle, alernde oferecer a Queneau seu primeiro e unico real sucesso deestirna popular.f Para contar a historia de Zazi, garota pro-vincial e mats desbocada que chofer de carninhjio, Queneaulanca mocieradamente mao do seu nee-frances. 0 sucessofoi tanto que por pouco nao apaga a figura do criador; apartir dai, Queneau virou, antes de mais nada, 0 "pai deZazi".

    Ca se chanie aussi, fa chaussette: meia suja tarnbern secanta. 0 problema e extrair cIo cotidiano "sua vela poetica,seu pequeno herotsmo", Georges Perec, proximo de Que-neau, definia esse projeto como a busca do infra-ordinano:"talvez possamos finalmente fundar nossa propria antropo-1 Milis (~Iors, mais alors, qu'est-ce I1l'OIl n'obtienti C ; : 1 1 devient incroYllbir, pos

    Oral/Wire, renvcrsant , ra, va l is a l or s , 1111 d e c cs dro/es d 'a sp e ct d on r Dillie r e v len t : pa s .011 t e rc co nn ait p lu s d u to ut, le (r ill /f aIS , a h, m ai s p iu s rill tout , (:0 ~ 'O / ISp r end t outd 'U /1 c ou p un c a llu re inv ra is em blable , c 'c st s tup efian t. A v rai dire, c 'e st m em emarrant . j'ai relu tOllt de s uite tc s q uatre /ig ne s c i-d es sus . i' a! p as p u m'empecherde,m e m urre !" ("Ecrit en 1937", retornado em B t tt on s , c h if fr e s, l e tt re s , p. 22). Emportugues: "Iat, lal, ukekldal l-icaduplru, nadave custrossu kiagetchlle,egr.ass,adu. paca, neda prassigura. Pareci ate chinuki, valve tupiniki,e ss lgei tchlnhu kcladu, feitukorcu beescritu , legau prakaralhu ... "

    2 A (boa) traducao brasllelra de Zaz! 110 m etro ~ de Irene Cubrlc c fot edltada pelaRocco , em 1985 .

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    1 1 ' 1 ' , 1 1 : a qu talara de nos, buscara em nos 0 que tanto fomospll!!lIr nos outros. 0 end6tico, em vez do ex6tico" tapud, 1 1 1 1 ( ' 1 1 1 ' I " , 1991, p. 12 - ver a Bib/iografia, ao final destev()1II 11lL'). Tratase de uma poetica estudadamente esponta-IH'II, com mais rima do que razao, como assinala Iean-YvesPIurllloux (1991), mas nos melhores casos, quando a rimaIlilt' be a razao, abre-se urn espaco de Iinguagern motivada

    IIIHIl' se opera uma relacao, digamos magica, entre fala e11111 lido. 0 laborioso plumitivo descasca chav5es, prover-' 1 1 1 : ' l' l uga re s comuns, guarda a polpa para uso renovado e\I II'I'l' os escombros de urn golpe de pen a que, forcosamente,( I I ' lxa traces textuais,

    QlIeneau e ainda capaz de escrever roteiro para docu-tllI'1l1l'irjo de encomenda, cantando as maravilhas do estire-1111 -m alexandrines I Sua producao poetica, sob a aparenciaII II' dtca, multiplica exigencias e recursos formais, como noI I~() dos Cern mil bilhoes de poemas, 10 sonetos cujos 14

    I'I'SOS podern ser livre mente associados, 0 que resulta,(111llD 0 tltulo indica, em 1014 sonetos - cada verso vern .i",l I'llo numa Iingueta recortada, de forma que a pagina seIIIInpOe de catorze li:ngi.ietas independentes, que podem servlr Ins uma a uma (como em certos livros infantis).

    l.m 1960, criou-se, sob sua insplracao, 0 Ouvroir de1,l/hmlure Potentielle, ou Oulipo. Nao sem humor, 0 nome'II' rvf er e aos atelies (ouvmires) de corte e costura das freiri-"II IS. Quanto a literatura potencial, trata-se de pesquisar1 1 1 , 1 1 rtzes formais que possam em seguida encontrar aplica-I, () ern obras literarias. l-Ching, Taro, jogos ret6ricos dojll'I'fndo alexandrino, formas poeticas dos trovadores pro-ve'1 I~ 'a I.~.. e, sobretudo, recursos Iogtco-matematicos. 0 gru-pll, que teve seu penodo aureo nos anos 60, e incluia, entre1l1l11O.~, ltalo Calvino e Georges Perec, continua existindo, e

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    [a publicou tres atlas para expor seus achados. Para Que-neau, fa de jogos, 0 "realismo matematico" e uma forma deconjurar a desgraca ou, ao menos, de torna-la suportavel,provisoriamente relegada a urn nicho da consciencia inati-vo. "E escrevendo que se vira escrevedor": C'est en ectivantq u 'o n d e vi en t ccriv~ron. 0 hornem adorava esta frase, a pontode Iazer dela urn lema, forjado par ele a partir do proverbiofrances c'est en [orgeant qu'on devient [orgeron, "forjando sefaz 0 forjeiro", derfvado por sua vez do latirn fabricando fitfab