of 21 /21
199 REALIDADE INVERSA: O CONCEITO DE ALIENAÇÃO EM KARL MARX Marco Antônio Ministério 1 RESUMO A proposta deste artigo é analisar o conceito de alienação no pensamento de Karl Marx, entendendo-o como conceito central para a teoria filosófica, econômica e política deste autor. Para tanto, este conceito será abordado nas mais diversas concepções e aplicações empregadas por Marx ao longo de sua trajetória intelectual, constatando que a idéia de “inversão da realidade” perpassa todas essas abordagens. PALAVRAS-CHAVE Marx, Alienação, Ideologia, Estado, Mercadoria, Capitalismo ABSTRACT The purpose of this paper is to analyze the concept of alienation in the thought of Karl Marx, perceiving it as a concept central to the theory of this author in the fields of philosophy, economics and politics. Therefore, this concept will be discussed in various conceptions and applications employed by Marx throughout his intellectual trajectory, noting that the idea of "inversion of reality" runs through all these approaches. KEYWORDS Marx, Alienation, Ideology, State, Merchandise, Capitalism 1. INTRODUÇÃO A importância de desenvolver um estudo abordando o conceito de alienação no pensamento marxiano justifica-se por dois motivos. O primeiro deles é o inédito caráter crítico com que Marx se apropria desse conceito, cuja elaboração se fez tão importante ao 1 Mestre em filosofia pela UFMG e professor da FENORD.

REALIDADE INVERSA: O CONCEITO DE ALIENAÇÃO EM KARL MARXfenord.edu.br/revistaaguia/revista2012/textos/artigo_12.pdf · influência que a concepção marxiana desse conceito exerce

Embed Size (px)

Text of REALIDADE INVERSA: O CONCEITO DE ALIENAÇÃO EM KARL...

  • 199

    REALIDADE INVERSA: O CONCEITO DE ALIENAO EM KARL MARX

    Marco Antnio Ministrio1 RESUMO A proposta deste artigo analisar o conceito de alienao no pensamento de Karl Marx, entendendo-o como conceito central para a teoria filosfica, econmica e poltica deste autor. Para tanto, este conceito ser abordado nas mais diversas concepes e aplicaes empregadas por Marx ao longo de sua trajetria intelectual, constatando que a idia de inverso da realidade perpassa todas essas abordagens. PALAVRAS-CHAVE Marx, Alienao, Ideologia, Estado, Mercadoria, Capitalismo ABSTRACT The purpose of this paper is to analyze the concept of alienation in the thought of Karl Marx, perceiving it as a concept central to the theory of this author in the fields of philosophy, economics and politics. Therefore, this concept will be discussed in various conceptions and applications employed by Marx throughout his intellectual trajectory, noting that the idea of "inversion of reality" runs through all these approaches. KEYWORDS Marx, Alienation, Ideology, State, Merchandise, Capitalism 1. INTRODUO A importncia de desenvolver um estudo abordando o conceito de alienao no pensamento marxiano justifica-se por dois motivos. O primeiro deles o indito carter crtico com que Marx se apropria desse conceito, cuja elaborao se fez to importante ao

    1Mestre em filosofia pela UFMG e professor da FENORD.

  • 200

    ponto de que seja tarefa talvez impossvel abord-lo sem analisar a contribuio terica do referido autor. Em segundo lugar, pela forte influncia que a concepo marxiana desse conceito exerce sobre escolas e pensadores que buscam analisar a estrutura e superestrutura2 das sociedades capitalistas avanadas, bem como sua consequente influncia nas reflexes tericas acerca do papel do Direito, das leis, do Estado. Em Marx, por sua vez, esse conceito no se fecha em uma aplicao nica. Ao longo da trajetria intelectual do autor podem-se detectar diferentes empregos do conceito de alienao, que apresentam em seu desdobramento uma crescente complexidade conforme as novas anlises e crticas aos fenmenos sociais que o autor pretendia analisar. Nos Manuscritos Econmico-Filosficos, Marx elabora o conceito de alienao como crtica ao trabalho na sociedade capitalista; Na Crtica Filosofia do Direito de Hegel, como crtica concepo idealista hegeliana de Estado, apontando a partir de pressupostos materialistas a real funo do Estado burgus; Em A Ideologia Alem, denuncia como o discurso ideolgico denunciado nas obras de Hegel persevera nas crticas que os chamados novos hegelianos teceram contra o aquele autor, abordando a ideologia como um problema derivado da alienao; Em sua obra magna, O Capital, o conceito de alienao ser abordado como o carter de inverso , que lhe prprio, abandonando uma esfera puramente teleolgica e passando a se inscrever na prpria estrutura do sistema capitalista tornada aparente no produto que lhe mais essencial: a mercadoria.

    Se a abordagem do conceito de alienao exige a passagem por tantas obras e conceitos como os de histria, sociedade, trabalho, Estado, etc. foi, por outro lado, necessrio que se extrassem dessas obras e conceitos apenas as suas particularidades que visam reforar a subsequente argumentao, o que por vezes resulta, sobretudo ao leitor desavisado, em uma abordagem demasiado redutora e simplista desses conceitos.

    2 No pensamento de Marx, a estrutura social se divide nos nveis da infraestrutura (base econmica), e superestrutura, que compreende a estrutura jurdica (Estado e Direito) e a ideolgica ( moral, poltica, religio, cultura, etc).

  • 201

    O caso em que tal reduo se mostra de modo mais crtico , sem dvida, nas referncias aos conceitos de Hegel, cuja abordagem to imprescindvel quanto so inviveis (para o espao de um artigo) maiores detalhamentos a respeito deles mesmos. Essas redues, de qualquer modo, mais colaboram do que tornam invivel a compreenso da idia central deste trabalho: demonstrar como o conceito da alienao se relaciona com o processo de inverso da realidade, primeiro na esfera da (falsa) conscincia, depois na esfera do prprio funcionamento social.

    2. CRTICA AO IDEALISMO HEGELIANO

    na Crtica Filosofia do Direito de Hegel que o conceito de alienao ser inicialmente problematizado a partir das chamadas inverses no pensamento hegeliano, que tendem a obscurecer o justo raciocnio a respeito da realidade e estrutura social. No pensamento idealista de Hegel, o conceito de Estado tratado no como um consenso entre indivduos, mas como um momento superior da racionalidade que se impe mesmo contra a vontade dos indivduos, sob a prerrogativa de que somente tal racionalidade pode fazer ascender a massa informe e anrquica da sociedade civil a um nvel superior de existncia (ANDRADE, 1999, p. 396). A noo de Estado compreende aqui um momento objetivo na marcha histrica do Esprito, e caracteriza-se como um princpio superior capaz de ordenar a sociedade civil. O Estado surge, portanto, como substncia tica consciente de si que colocar o interesse geral acima dos interesses particulares, caracterizando-se como o princpio da famlia e da sociedade civil. Ou seja, para Hegel no a sociedade civil que funda o Estado, mas o Estado que funda a sociedade civil, numa concepo onde aquele surge como um fim imanente e coloca a sociedade numa relao de subordinao com relao a ele (ANDRADE, 1999, p. 398). Na medida em que o idealismo hegeliano parte do pressuposto de que uma realidade s pode ser plena e concreta enquanto possuidora de natureza espiritual, evidencia-se a perspectiva segundo a qual Hegel concebe o Estado como uma realidade metafsica, possuindo um valor tico superior ao valor particular e privado das sociedades

  • 202

    precedentes. Embora Marx reconhea como verdadeiros, de um modo geral, o pensamento e as consequentes proposies de Hegel como um todo, ele ir criticar um aspecto fundamental no pensamento deste autor que constituir uma oposio direta ao idealismo hegeliano, sendo decisivo no apenas para essa questo em particular, como tambm para toda a concepo e desdobramento do materialismo histrico. Materialista aquela teoria que pensa a realidade social (e que s pode ser pensada como social) como sendo determinada em primeira e ltima instncia por suas bases materiais; e que estas bases materiais, por sua vez, esto atreladas uma dada realidade histrica. Na Inglaterra da Revoluo Industrial, so materiais, por exemplo, os meios de produo (como a industria); e histricos, a convergncia no espao e no tempo tanto dos fatores que possibilitaram tal acontecimento (acmulo de riquezas, ampliao do mercado, etc.), quanto os caracteres que definem seu modo de produo e reproduo da vida social. Portanto, o carter material da sociedade no se identifica com algo dado, com natureza, mas sim, com natureza transformada pelo trabalho humano, responsvel por uma realidade socialmente construda, que est ligada quele carter da espcie humana que, para Marx, mais particularmente o diferencia dos outros animais: a capacidade de mudar seu ambiente. Aqui j esto, ainda que de modo sucinto, delineados os pressupostos tericos para a crtica marxiana da concepo da realidade social em Hegel. Assim como em Hegel, a realidade para Marx algo artificial, ou seja, no pode ser concebida como algo dado, que existe em si e por si mesma, mas to somente pela mediao do homem. Para Hegel, essa determinao de ordem espiritual, ou seja, pensada como aquele momento em que o esprito humano torna objetiva uma dada realidade no caso o Estado - por ele concebida; ao passo que para Marx o esprito humano menos determina as condies sociais da existncia humana do que por ela determinado:

    A minha investigao desembocou no resultado de que as relaes jurdicas, tal como as formas de Estado, no podem ser compreendidas a partir de si mesmas nem a partir do chamado desenvolvimento

  • 203

    geral do esprito humano, mas enrazam-se, isso sim, nas relaes materiais da vida, cuja totalidade, Hegel, na esteira dos ingleses e franceses do sculo XVIII, resume sob o nome de sociedade civil, e de que a anatomia da sociedade civil se teria de procurar, porm, na economia poltica... (MARX; ENGELS. 1982, p. 530)

    Ou seja, as instituies jurdicas, polticas, ideolgicas no fundam as condies materiais de existncia, mas pelo contrrio, so antes fundadas por elas. Estas instituies deixam de existir, tal como se afigura no pensamento hegeliano, em si e para si, de maneira autnoma, e passam a caracterizar muito mais a expresso de elementos que lhe so exteriores advindos de outras esferas mais imediatamente ligadas estrutura social, como a econmica. nessa medida que a sociedade civil da era industrial, analisada por Marx como sociedade burguesa, tem seu fundamento calcado principalmente na propriedade privada fundada pelo capital, e no alguma espcie de corespondncia uma eticidade transcendental ou noo metafsica de Estado. Este no seria, como concebera Hegel, uma racionalidade superior capaz de fazer ascender a massa informe e anrquica da sociedade civil a um nvel superior de existncia, mas sim, existe como consequncia dessa mesma massa de indivduos divididos e alienados. O ser humano que funda o Estado o ser humano no livre, que alienado alimenta a iluso de um Estado racional, adequado promoo da lei no funcionamento da sociedade (KONDER, 2002, p. 31).

    Na incisiva ruptura com o ponto de vista hegeliano, o futuro autor de O Capital atribua-lhes um formalismo inaceitvel. O Estado, construo dos homens, resultado da atividade concreta deles, era transformado por Hegel numa chave formal pela qual se abriria a porta para a compreenso do sentido do movimento dos seres humanos. Marx percebeu o equvoco e o apontou: No a Constituio que faz o povo, mas o povo que faz a Constituio [] porque os prprios criadores tropeam em mil dificuldades e no se reconhecem, efetivamente, no que criaram. (KONDER, 2002, pp. 30-1)

  • 204

    A partir do momento em que o conceito de Estado no pensamento de Hegel dispensa, pela sua autonomia de ser em si espiritual, uma verificabilidade de seus pressupostos tericos na realidade emprica, a idia de igualdade formal no Estado de Direito funciona como algo que ilude acerca da desigualdade real. Aqui reside um dos princpios da ideologia, a saber, aquele segundo o qual uma unidade de idias racionalmente articuladas e no verificveis na realidade emprica assume um carter de legitimao de uma dada realidade, passando a existir como iluso socialmente necessria, posta a fins do poder. Ou seja, cria-se a idia de que todos so iguais perante o Estado, mas como esse Estado na realidade surge das relaes estruturais de uma sociedade movida pelo modo de produo capitalista, ele na verdade consiste na expresso dos interesses acerca da propriedade privada. Uma vez estabelecidas as leis que defendem a propriedade privada nos moldes da moderna sociedade industrial, a classe burguesa detentora do poder expropria o proletariado dos meios de produo e este passa a ser obrigado a vender sua fora de trabalho para que possa sobreviver.

    2.1 - O TRABALHO

    Marx, embora critique Hegel acerca do seu pensamento demasiado otimista no tocante ao trabalho humano, parece herdar do seu antigo mestre alguma positividade em torno daquele. Para Marx

    O trabalho a primeira atividade do ser humano como ser humano. pelo trabalho que passa a existir a contraposio sujeito/objeto. Por sua prpria natureza o trabalho humano se distingue da atividade dos animais(...) o trabalho a atividade pela qual o ser humano se criou a si mesmo; pelo trabalho ele transforma o mundo e se transforma. (KONDER, 2002, p. 35)

    Contudo, na sociedade burguesa, a fora de trabalho vendida pelo proletariado ser empregada sobretudo nas linhas de produo

  • 205

    industrial, onde toda a criatividade inerente ao trabalho se reduzir a um conjunto de operaes repetitivas; a infinitude de possibilidades reflexivas oriundas de uma legtima relao entre sujeito e objeto, se reduz a um dado nmero de procedimentos esquemticos pr-determinados; a transformao do mundo apenas se d ao preo da alienao diante dele e de si mesmo; o carter humanizador do trabalho particularmente nos tempos de Marx deve ser sacrificado em prol de uma jornada de trabalho exaustiva, insalubre e desumana. A incapacidade do pensamento hegeliano levar at s ltimas consequncias essas contradies sociais, onde existe ao mesmo tempo a igualdade formal e desigualdade real entre indivduos, onde idia de vigor ligada ao trabalho ilude acerca das suas reais condies degradantes e exaustivas, parte do pressuposto de que a filosofia hegeliana careceu, como aponta Konder (2002), de maior compreenso acerca do anteriormente referido processo de inverso, que retira o Estado burgus da posio de racionalidade reguladora da realidade social, e o define como expresso objetiva de relaes sociais reproduzidas irracionalmente. Esse processo de inverso ocorre duplamente, primeiramente como distoro terica, e depois como contradio na prpria realidade emprica onde se concretiza o trabalho, em que este atua, com o qual e por meio do qual ele produz coisas. (MARX, 2007, p.25). Tal processo depende da diviso social do trabalho, que

    s se torna efetivamente diviso a partir do momento em que se efetua uma ciso entre o trabalho material e o trabalho espiritual. Desse momento em diante, a conscincia pode se convencer de que algo distinto de conscincia da prxis em realizao; pode construir uma efetiva representao de algo sem representar algo efetivo. Desse momento em diante, a conscincia est em condies de se emancipar do mundo e entregar-se pura teoria, teologia, filosofia, moral, etc. (MEW apud KONDER, 2002, p. 31)

    Desse modo, a ideologia, tal qual concebida nesse estgio do pensamento de Marx e Engels, est decisivamente ligada diviso social do trabalho. Aqui, os interesses das classes dominantes

  • 206

    detentoras do poder material, gozam do poder espiritual (idias) que apresenta o interesse dessa classe em particular como interesse universal a todos os integrantes da sociedade. E tal postura, ainda, se caracteriza muito menos por uma deliberada tomada de posio de determinados idelogos segundo um interesse de classe especfico, do que por um certo estreitamento intelectual que no os autoriza ultrapassar no pensamento os limites que a pequena burguesia no consegue ultrapassar na vida. (MEW apud KONDER, 2002, p.141-2) Os indivduos no se reconhecem nas representaes criadas por eles prprios, e passam a v-las como entidades puramente exteriores que exercem poder sobre eles. Esse estranhamento dos indivduos frente quilo que eles prprios criaram, j configura o primeiro dos pressupostos tericos necessrios abordagem do conceito da ideologia em Marx: o conceito de alienao, que surge tal qual

    ... uma fora estranha, situada fora deles, que no sabem de onde ela vem nem para onde vai, que, portanto no podem mais dominar e que, inversamente, percorre agora uma srie particular de fases e de estdios de desenvolvimento, to independente da vontade e da marcha da humanidade, que na verdade ela que dirige essa vontade e essa marcha da humanidade (MARX, ENGELS, 1998, p. 30).

    A alienao surge, portanto, a partir da distino entre as reais relaes sociais dos homens e aquelas que eles representam, a partir de idias e concepes originadas de sua vida cotidiana. Tais representaes consistem, a princpio, em falsa conscincia caracterizada por uma inverso entre aparncia e essncia, que termina por ocultar as relaes de propriedade existentes, o predomnio poltico de um grupo sobre outro, e a explorao do trabalho que uma classe exerce sobre a outra:

    Ao trabalhador, parece-lhe natural que certas pessoas tenham que trabalhar em troca de um salrio para viver, como se isso sempre houvesse existido e, mais ainda, como se tivesse que continuar existindo para

  • 207

    sempre. Esse indivduo no v a sociedade capitalista como uma sociedade historicamente construda pela luta entre uma classe, que tem a inteno de ser a classe dominante (a burguesia), e outras classes, que acabaram sendo submetidas a essa classe dominante, transformando-se em proletariado. medida que o tempo passa e a sociedade capitalista se estabiliza, ela percebida pelas pessoas, na vida cotidiana, como a nica sociedade possvel. (CRUZ, 2011: 26)

    Uma vez que os produtos e processos humanos passam a ser socialmente vistos como que autnomos com relao aos seres humanos, como que dotados de uma auto-existncia e auto-evidncia, eles passam a exercer poder sobre as pessoas, que se submetem irrefletidamente quilo que, na verdade, fruto da sua prpria atividade. A diviso social do trabalho e, mais especificamente, a diviso entre trabalho manual e trabalho intelectual, d origem a um processo onde as idias e representaes humanas passam a adquirir uma aparente autonomia frente realidade de onde surgem. Nele, a conscincia, ao modo da prtica social qual est inevitavelmente ligada, aparece no pensamento de alguns filsofos idealistas contemporneos Marx, assim chamados novos hegelianos, cujas idias tambm aparecero como que dissociadas das mesmas prticas sociais que lhes deram origem, fetichizadas em uma coisa-em-si, num processo de inverso que funciona ao modo daquele apontado no conceito de alienao. 2.2 - O CONCEITO DE HISTRIA O que Marx e Engels buscam demonstrar que as teses do hegelianismo pretendem que a transformao da sociedade se originem no plano do pensamento sem nunca alcanar a realidade concreta, delegando s idias uma autonomia capaz subjugar o mundo emprico: Para os jovens hegelianos, as representaes, idias, conceitos, enfim, os produtos da conscincia aos quais eles prprios deram autonomia, eram considerados como verdadeiros grilhes da humanidade (MARX; ENGELS, 1998, p.10). Assim, s se pode superar esse carter de falsidade de determinadas idias buscando confrontar as condies sociais reais na qual elas se

  • 208

    estabelecem, e no simplesmente atravs da crtica puramente teleolgica e abstrata a partir de outras idias supostamente verdadeiras. por esse vis que Marx e Engels procuram criticar o conjunto de idias, doutrinas, pensamentos e outros tipos de representao que se constroem dissociados e pretensamente autnomos com relao realidade, onde a superao da alienao no se daria, portanto, a partir de um ponto de vista estritamente crtico e teleolgico, mas sim, a partir da superao na esfera da realidade.

    No se trata, como na concepo idealista da histria, de procurar uma categoria em cada perodo, mas sim de permanecer sempre sobre o solo da histria real; no de explicar a prxis a partir da idia, mas de explicar as formaes ideolgicas a partir da prxis material; chegando-se, por conseguinte, ao resultado de que todas as formas e todos os produtos da conscincia no podem ser dissolvidos por fora da crtica espiritual, pela dissoluo na autoconscincia ou pela transformao em fantasmas, espectros, vises etc. mas s podem ser dissolvidos pela derrocada prtica das relaes reais de onde emanam estas tapeaes idealistas; [...] tal concepo mostra que a histria no termina dissolvendo-se na autoconscincia, como esprito do esprito, mas que em cada uma de suas fases encontra-se um resultado material, uma soma de foras de produo, uma relao historicamente criada com a natureza e entre os indivduos [..] Mostra que, portanto, as circunstncias fazem os homens assim como os homens fazem as circunstancias. (MARX, 1996: 55)

    A histria, portanto, no pode ser vista como a histria das realizaes do esprito humano, mas a histria do modo real como os homens reais produzem suas condies reais de existncia ( CHAU, 2006, p. 47), concepo esta que no apenas desconstri a noo de histria onde a forma da sociedade se estabelece a partir de uma unidade racional exterior aos homens capaz de lhes impor limites e sanes, como tambm delega a estes a posio de autores da histria. Somando-se esta assertiva ainda uma outra, a saber, que o conhecimento da histria implica no conhecimento das bases reais do funcionamento social em cada lugar e poca, este conceito

  • 209

    em Marx traz implcita a idia de capacidade e autoridade dos homens para a transformao social. Isso no significa, obviamente, que essa possibilidade de transformao resulte algo simples e absoluto, pois os homens fazem sua prpria histria, mas no a fazem como querem; no a fazem sob circunstncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado (MARX, 1997, p.21). Esse antagonismo, que no pensamento de Hegel no ultrapassava a condio de um momento do Esprito, em Marx transposto para o palco da histria: a sociedade. Aqui j no se trata de um antagonismo entre conceitos, mas entre classes sociais.

    1.3.LUTA DE CLASSES

    No pensamento de Hegel a contradio se apresenta como um momento imprescindvel para o Esprito (Cultura), sendo considerado pelo autor em questo o motor dialtico da histria. A histria por sua vez, aqui percebida como movimento de posio, negao e conservao das idias, e essas so a unidade o sujeito e do objeto da histria, que Esprito (CHAU, 2006, p.43). Um desenvolvimento mais aprofundado deste conceito em Hegel exigiria um trabalho parte. Contudo, quando nos voltamos ao modo comum de perceber os movimentos histricos, podemos fazer uma idia aproximada de tal concepo. Dizemos por exemplo, que o esprito cientfico da renascena sobrepujou os dogmas religiosos da idade mdia; que o esprito empreendedor do vassalo fugido do feudo fundou a sociedade burguesa; que o esprito abolicionista sobrepujou o escravista; que o esprito herico de alguns personagens histricos transformaram radicalmente a sociedade; os cidados dos EUA no se cansam de falar de como o esprito americano sobrepujou diversas adversidades ao longo da histria e fundou um imprio . Em todos esses exemplos, concebemos o Esprito como um personagem histrico, s vezes personificado em alguns personagens pontuais: Napoleo, Colombo, Guevara, Lincoln, Tancredo Neves, Gandhi, Mao Tse Tung, Hitler, Luther King, etc. Dizemos, por exemplo, que o esprito da liberdade venceu o esprito do autoritarismo, ou ainda que Tancredo Neves restaurou a

  • 210

    liberdade no Brasil. O que Marx faz precisamente criticar essa concepo. No mbito da prpria linguagem fica fcil perceber como o esprito da liberdade, o esprito cientfico, o esprito americano aparecem como que seres autnomos, independentes dos homens que os criaram. A contradio que surge, por exemplo, entre esprito conservador e esprito progressista, parece uma contradio que se d apenas na esfera espiritual. So esses espritos que aparecem na histria como entidades que determinam as aes dos homens no mundo, quando na verdade no passam de produto dessas aes. Isso consiste precisamente na inverso que caracteriza o fenmeno que Marx descreve como alienao. O protagonista da histria no seria portanto o Esprito, mas o homem; e no ainda o homem particular na figura de personagens como Tancredo Neves, Gandhi, Luther King, etc., mas sim os homens em geral, enquanto classes sociais. Por esse prisma podemos dizer que o resultado da guerra civil americana foi determinada muito mais pela luta de classes (industriais, trabalhadores, escravos) do que pelo esprito de liberdade americano, ou ainda, pela figura particular de Abraham Lincoln, que nada mais fez que assumir um papel de destaque no seio de uma contradio social j existente. No se tratava de uma contradio entre ideologias, mas entre classes. No foi, do mesmo modo, o esprito de igualdade, liberdade e fraternidade que pegaram em armas e desencadearam a Revoluo Francesa; mas a prpria classe de plebeus e pequenos comerciantes insatisfeitos que se voltaram contra a negligente e abastada classe da nobresa. Marx dir, portanto, que no a contradio entre idias, mas entre as classes constitudas de pessoas concretas em condies materiais de existncia que protagonizam a histria, transformando-a. No cabe, portanto, combater a explorao, a desigualdade, e tantos outros males do sistema capitalista no mbito da pura conscincia, mas com transformaes concretas na estrutura da sociedade. Qual a estrutura central do sistema capitalista? Os meios de produo, controlados por uma minoria de proprietrios (burgueses), cujos interesses so protegidos pelo Estado. Qual seria

  • 211

    a outra classe capaz de se opor classe burguesa? A classe operria, explorada e expropriada dos meios de produo, constantemente desafiada a insurgir-se contra o sistema como um todo, de maneira radical (KONDER, 2002, p. 34).

    2.O FETICHISMO DA MERCADORIA

    Marx inicia O capital abordando o fenmeno da mercadoria, que muito mais uma consequncia do que a causa do processo de produo social. A razo dessa abordagem consiste provavelmente no fato de que entre todos os fenmenos sociais do sistema capitalista, a mercadoria manifestamente aquele mais visvel, mais imediatamente observvel no convvio cotidiano das pessoas. atravs da mercadoria que as pessoas tomam contato com o sistema do capital, todos se relacionam com a forma da mercadoria, seja vendendo sua fora de trabalho, seja no prprio contato que mantm com ela.

    A riqueza das sociedades em que domina o modo de produo capitalista aparece como uma imensa coleo de mercadorias e a mercadoria individual como sua forma elementar. Nossa investigao comea, portanto, com a anlise da mercadoria. (MARX, 1983, p. 45)

    precisamente esse (falso)3 aspecto de autonomia dos produtos humanos com relao aos prprios seres humanos, que nos permite estabelecer um fio condutor atravs das diferentes aplicaes do conceito de alienao em Marx. Agora, com uma anlise crtica voltada para o funcionamento da sociedade capitalista, Marx detectar essa aparente autonomia naquele produto humano que mais aparente nas relaes sociais: a mercadoria.

    3 Embora falso aspecto de autonomia procure, aqui, meramente reforar esse carter de falsidade implcito a tal aparncia, nesse aspecto do pensamento de Marx, tal j resulta em redundncia. Pois analisar o carter aparente de um objeto pressupe que tal aparncia no se identifique com aquilo que tal objeto tem, por assim dizer, como essncia.

  • 212

    O misterioso da forma mercadoria consiste, portanto, simplesmente no fato de que ela reflete aos homens as caractersticas sociais do seu prprio trabalho como caractersticas objetivas dos prprios produtos de trabalho, como propriedades naturais sociais dessas coisas e, por isso tambm reflete a relao social dos produtores com o trabalho total como uma relao social existente fora deles, entre objetos () No mais nada que determinada relao social entre o prprios homens que para eles aqui assume a forma fantasmagrica de uma relao entre coisas. Por isso, para encontrar uma analogia temos de nos deslocar regio nebulosa do mundo da religio. Aqui os produtos do crebro humano parecem dotados de vida prpria, figuras autnomas, que mantm relaes entre si e com os homens. (MARX, 1983, p. 71)

    Novamente surge um problema correlato ao da alienao, ou seja, h mais uma vez produtos feitos pelos homens que fogem ao seu controle e passam a determinar sua condio de existncia. Dessa vez, contudo, no se trata de instituies, poderes, idias, mas sim, de mercadorias.

    Essa forma de contato que as pessoas tm com a mercadoria , desde j, uma forma alienada, fetichizada, onde as relaes humanas so reificadas, aparecendo como relao entre coisas. Esse no-reconhecimento das mercadorias enquanto produtos sociais oculta um aspecto importante do funcionamento social: aquele onde o trabalho em seu carter social permanece ocultado pela circulao de mercadorias. Essa nova etapa da teoria marxiana traz, ento, um novo tipo de problema:

    Para comear, essa curiosa inverso entre sujeitos humanos e suas condies de existncia agora inerente prpria realidade social. No simplesmente uma questo da percepo distorcida dos seres humanos, que invertem o mundo real em sua conscincia e, assim, imaginam que as mercadorias controlam suas vidas. Marx no est afirmando que sob o capitalismo as mercadorias parecem exercer um domnio tirnico sobre as

  • 213

    relaes sociais; est argumentando que elas efetivamente o fazem. (EAGLETON, 1997, p. 83)

    Recapitulando a fundamental questo da inverso que, na teoria da ideologia do jovem Marx, aparece pela primeira vez sob forte influncia de Feuerbach numa crtica religio, onde o homem na condio de criador se prostra frente a um deus que, na verdade, algo criado pelo prprio homem, adquire aqui uma nova dimenso. Tal inverso j no trata de um equvoco, um engodo teleolgico acerca de uma correta conscincia a respeito das coisas. Trata-se sim, de que essa inverso agora se inscreve no prprio funcionamento social, tornando-se parte constitutiva dele.

    A ideologia agora menos uma questo de a realidade tornar-se invertida na mente do que de a mente refletir uma inverso real. Na verdade, no mais primariamente uma questo de conscincia, mas est ancorada nas operaes econmicas cotidianas do sistema capitalista. (EAGLETON, 1997, p. 83)

    Neste ponto podemos observar mais claramente a diferena das formulaes tecidas por Marx e Engels sobre o conceito de ideologia em A Ideologia Alem, e aquela abordada em O Capital. A primeira surge como uma questo relativa ao mbito do pensamento idealista que, a partir de uma autonomia das idias proporcionada pela diviso do trabalho manual e intelectual, ofusca a respeito da inverso segundo a qual a realidade muito mais determinante das idias do que o contrrio. Na segunda, a ideologia surge como uma questo marcadamente dirigida ao sistema de circulao de mercadorias. A questo da autonomia ser retomada, dessa vez, como aparncia, ou seja, ao modo mistificador que leva as pessoas a perceberem socialmente a mercadoria como algo autnomo em que, ao modo da religio, os produtos do crebro humano parecem dotados de vida prpria, figuras autnomas, que mantm relaes entre si e com os homens:

    A mistificao, por assim dizer, um fato objetivo, incrustado no prprio carter do sistema: h uma

  • 214

    contradio estrutural inevitvel entre os contedos reais do sistema e as formas fenomenais em que esses contedos se oferecem espontaneamente mente. Como escreveu Norman Geras: Existe, no interior do capitalismo, um tipo de ruptura interna entre as relaes sociais que prevalecem e a maneira como so experimentadas. (EAGLETON, 1997, p. 84)

    Tambm particular o papel que a diviso social do trabalho desempenha mais propriamente nesse ltimo tipo de inverso. A diviso entre trabalho manual e trabalho intelectual, reportando-se a uma alienao de carter mais teleolgico, central na crtica da ideologia em A Ideologia Alem, cede espao, em O Capital, a outro aspecto da diviso do trabalho, dessa vez no mbito dos prprios meios de produo, em que o trabalho, em funo da prpria lgica de produo de mercadorias na sociedade industrial, torna-se especializado e, nesse sentido, atomizado, inviabilizando a compreenso da mercadoria como um todo j no possvel mesma pessoa conhecer ou acompanhar todas as fases de sua produo.

    desse modo que a ideologia torna-se, em O Capital, um problema muito mais inerente prpria estrutura social capitalista e ao modo como percebemos seus fenmenos na forma da mercadoria, onde a circulao aparece como algo imediatamente presente na superfcie da sociedade.

    A questo da no-identidade entre aparncia e essncia (umas das mais antigas categorias filosficas que, na verdade, s existem em funo do pressuposto da no-identidade entre ambas), implcita j ao conceito de alienao desde sua primeira formulao por Marx e Engels, agora apresenta um novo problema: O carter de falsidade relativo aparncia j no consiste simplesmente no modo equivocado pelo qual a conscincia apreende a realidade, mas sim, ao modo como a realidade aparente dissimula o seu real funcionamento.

  • 215

    4. CONCLUSO Pode-se pensar o conceito de alienao como processo de inverso da realidade em consonncia, se no como prpria consequncia, da conhecida inverso da filosofia hegeliana por parte de Marx, onde redefinem-se a prioridade da anlise das bases materiais e espirituais na explicao da estrutura e do funcionamento social.

    Esse processo de inverso j se apresentava nas teses iniciais de Feuerbach contra a religio, buscando explicar aquele processo segundo o qual os homens, ao criar um deus, passam em seguida a no se reconhecer como seus criadores, muito pelo contrrio: se enxergam como criaturas desse mesmo deus, agora visto como uma entidade autnoma que exerce poder sobre a vida dos homens que, na verdade, o criaram. atravs desse processo de inverso, entre criador e criatura, que Marx critica a concepo que Hegel desenvolve sobre Estado. Para Hegel, o Estado coincidiria, em ltima instncia, com uma substncia tica consciente de si, capaz de elevar o interesse geral acima dos particulares e, portanto, de determinar e ordenar a existncia dos indivduos particulares e a sociedade civil como um todo. A distoro nesse pensamento, como observa Marx, que ocorre uma inverso, semelhante quela apontada por Feuerbach na esfera religiosa. Ou seja, no o Estado que determina a existncia do homem, mas sim o homem concreto, em sua existncia concreta, que determina o Estado; ou ainda: no a conscincia dos homens que determina o seu ser, mas o seu ser social que determina sua conscincia. A concepo hegeliana O Estado como ser racional reduzida, no pensamento de Marx, expresso das irracionais relaes concretas da sociedade burguesa, cuja funo atender aos interesses da classe dominante atravs da propriedade privada. nesse ponto que o pensamento de Hegel resulta no apenas distorcido enquanto tal, como tambm ideolgico uma vez que acaba por ofuscar as contradies sociais onde o Estado, por um lado, garante a igualdade formal entre os indivduos e, por outro, perpetua a desigualdade na realidade emprica.

    O conjunto de indivduos pertencentes classe operria, ou seja,

  • 216

    o proletariado, expropriado dos meios de produo (como terras, indstrias, etc.) pertencentes uma minoria que mantm o poder. O proletariado obrigado a vender sua fora de trabalho, em um contexto onde este se torna destitudo de todo seu carter criativo, humano e prazeroso. O prprio operrio se torna alienado, na medida em que ele comea a perceber esse sistema como algo natural, onde sua submisso ao trabalho exaustivo e exploratrio surge no como ordem social construda pelo ser humano, mas como algo dado, inevitvel. Nessa medida, somente um pensamento materialista que delegue ao homem o papel de protagonista histrico, negando a existncia dos seus produtos (no caso, o Estado) como algo autnomo e independente do prprio homem que o criou, que pode perceber como o idealismo hegeliano termina por mascarar a real funo da existncia do Estado, que a manuteno do poder da classe burguesa.

    Esse trao de alienao presente no trabalho, Marx o estende tambm aos produtos desse trabalho: as mercadorias. Na sociedade capitalista cada trabalhador opera de modo restrito e atomizado na produo total de bens, ele jamais pode ser dar conta do processo de produo desse bem como um todo, de modo que a mercadoria aparece para ele como algo que surge a partir do nada. Desconhecemos a trajetria dos produtos que consumimos: se sua produo envolveu trabalho escravo, danos ao meio ambiente, etc. Na medida em que comidas, roupas, casas, automveis no mais so feitos por exclusivamente algum, nem especialmente pra ningum, eles aparecem para ns como que existindo em si e para si mesmos, como que tendo uma existncia prpria independente de qualquer ser humano. A relao que as pessoas estabelecem com as mercadorias passa a envolver uma certa animosidade: um automvel da marca Ferrari reflete um tipo de personalidade, uma marca de roupas reflete um estilo de viver, uma bebida reflete um estado de alegria, etc., ao passo que o ser humano aparece como mercadoria, cujo valor medido pela fora de trabalho, e que como coisa, instrumento de trabalho, perfeitamente permutvel e descartvel. Aqui, a inverso caracterstica ao processo de alienao no existe simplesmente na esfera da conscincia, mas na prpria realidade, onde o sistema inverte suas prioridades: a produo de bens no tem

  • 217

    mais a funo de auxiliar a vida do homem, pelo contrrio, a vida do homem que dentro do sistema capitalista reduzida nica funo de produo e consumo de bens.

    O conceito de alienao , portanto, aquele que designa uma inverso, seja no campo religioso, poltico ou econmico, onde os homens no se reconhecem como produtores daquilo que eles mesmos produziram ou como criadores daquilo que eles mesmos criaram. Rapidamente passam a perceber como autnomos esses produtos e criaturas, e finalmente se submetem a eles.

    por essa mesma razo que passamos a perceber o Estado como esferas autnomas da sociedade, que independentes dos indivduos que na verdade o criaram, passa a lhes infringir direitos e deveres sob o pretexto do interesse comum, quando na verdade se trata sempre de interesses de grupos particulares. do mesmo modo que as infinitas riquezas e possibilidades da existncia humana, dentro do sistema capitalista, se reduzem produo e consumo de mercadorias; medida que os indivduos deixam de perceber o trabalho e os bens de consumo como auxiliares, e passam a aceit-los como senhores de suas vidas.

    A mudana possvel desse quadro tambm ofuscada pela alienao, uma vez que a estrutura social para eles vista como uma espcie de segunda natureza, ou seja, como algo que no foi feito pelo homem, e que portanto, no pode por ele ser transformado. Aqui os indivduos deixam de se perceberem como senhores da histria e vislumbrar qualquer possibilidade de mudana na estrutura social.

    Essa possvel mudana, no entanto, no se daria unicamente no plano das idias, ou seja, no se trata unicamente de esclarecer os indivduos acerca desse estado de coisas. Pois esse processo de inverso, no est apenas na conscincia das pessoas, mas na prpria estrutura social. A possibilidade da mudana est na transformao dos meios produo, que definem o funcionamento e as idias da sociedade como um todo. A isso se reporta a mxima proferida por Marx: os filsofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa modific-lo.

  • 218

    5. REFERNCIAS

    ANDRADE, Francisco Antnio de. Crtica da Filosofia do Direito de Hegel: sociedade civil segundo Marx. Sntese Revista de Filosofia, Belo Horizonte, v. 26, n. 86, p. 265-277, 1999.

    CARCANHOLO, Marcelo Dias. A importancia da categoria valor de uso na teoria de Marx. Pesquisa e Debate, So Paulo, v.9. n.2, p. 17-43, 1998.

    CHAU, Marilena. O Que Ideologia. So Paulo: Brasiliense, 2006.

    EAGLETON, Terry. Ideologia: Uma Introduo. trad. Luis Carlos Borges e Suzana Vieira. So Paulo: Boitempo, 1997.

    HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Hegel. 2 ed. Trad. Henrique C. L. Vaz, Orlando Vitorino, Antnio Pinto de Carvalho. So Paulo: Victor Civita, 1980.

    KONDER, Leandro. A Questo da Ideologia. So Paulo: Companhia das Letras, 2002.

    MARX, Karl. Crtica da Filosofia do Direito de Hegel. Trad. de Rubens Enderle e Leonardo de Deus. So Paulo: Boitempo, 2005.

    MARX, Karl. ENGELS. A Ideologia Alem. trad. Rubens Enderle, Nlio Schneider e Luciano Cavini Martorano. So Paulo: Boitempo, 2007.

    MARX, Karl. O 18 brumrio e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

  • 219

    MARX, Karl. O Capital. trad. Regis Barbosa e Flavio Kothe. So Paulo: Abril Cultural, 1983. v. 1.

    ________. O Capital. vol. II. So Paulo: Nova Cultura, 1996.

    MARX, Karl; ENGELS. Obras escolhidas. Vol. I. Trad. de lvaro Pina. Lisboa: Edies Avante, 1982.